História e Desenvolvimento
Fundada em 1828 na cidade inglesa de Sheffield, a Naylor Vickers & Company surgiu da associação entre Edward Vickers e seu sogro, George Naylor. Em seus primeiros anos, a empresa operava em um modesto complexo industrial voltado à fundição de aço, atividade na qual rapidamente conquistou reconhecimento pela qualidade e confiabilidade de seus produtos. Entre suas primeiras realizações de destaque figurava a fabricação de grandes sinos de igreja, cuja sonoridade passou a ecoar por diversas localidades da Inglaterra, contribuindo para consolidar a reputação técnica da companhia. Esse êxito inicial estabeleceu as bases para uma expansão progressiva que, nas décadas seguintes, transformaria a Vickers em uma das mais importantes potências industriais britânicas. Em 1867, um passo decisivo foi dado com a abertura de capital da empresa e sua reorganização sob o nome de Vickers, Sons & Company. Esse marco financeiro possibilitou a aquisição de novos empreendimentos e incentivou a diversificação de suas atividades industriais. Já em 1868, a empresa passou a produzir eixos marítimos, ampliando sua presença no setor naval. Em 1872, essa atuação foi reforçada com o início da fabricação de hélices marítimas, consolidando-a como fornecedora de componentes essenciais para a crescente indústria de construção naval britânica. A expansão tecnológica continuou ao longo da década seguinte. Em 1882, a companhia instalou sua primeira grande prensa de forjamento, o que ampliou significativamente sua capacidade de produzir componentes metálicos de grandes dimensões para a indústria pesada. Foi também nesse período que a empresa iniciou sua aproximação com o setor militar. Em 1888, passou a produzir placas de blindagem destinadas à proteção de navios de guerra, acompanhando o rápido avanço tecnológico das marinhas europeias no final do século XIX. Dois anos mais tarde, em 1890, a empresa desenvolveu sua primeira peça de artilharia, fato que marcou sua entrada definitiva no competitivo mercado de armamentos. Um ponto de inflexão na trajetória da companhia ocorreu em 1897, quando a Vickers adquiriu a Barrow Shipbuilding Company, sediada em Barrow-in-Furness. A operação incluiu também a incorporação da Maxim Nordenfelt Guns and Ammunitions Company, renomada fabricante de armamentos. Após essa fusão, a empresa passou a operar sob a denominação Vickers, Sons & Maxim. A partir de então, seu portfólio tornou-se extremamente amplo, abrangendo desde a construção de navios e equipamentos marítimos até sistemas de artilharia, munições e placas de blindagem. Nesse contexto de expansão industrial e militar, a experiência da empresa no campo da artilharia evoluiu rapidamente. A partir da década de 1890, a Vickers passou a desenvolver canhões navais de grande calibre, superiores a 100 mm, destinados principalmente ao armamento de navios de guerra. Esses sistemas empregavam cargas propulsoras acondicionadas em sacos de seda, solução prática e eficiente que se tornaria uma característica recorrente dos projetos da empresa. Na virada do século XX, o Admiralty enfrentava crescentes pressões para reduzir os custos operacionais da frota da Marinha Real (Royal Navy). Experiências anteriores com canhões de tiro rápido haviam demonstrado que o uso de cartuchos metálicos de latão embora eficientes implicava custos elevados e aumento significativo de peso logístico. Diante desse cenário, a Marinha Real optou por retornar a sistemas de artilharia convencionais, que utilizavam cargas propulsoras separadas.
Foi nesse contexto que a empresa apresentou uma proposta inovadora: um canhão naval de 152,4 mm equipado com um mecanismo de culatra de ação simples, que ficou conhecido como modelo VII. O sistema proporcionava maior rapidez nas operações de carregamento e disparo, além de reduzir o peso e o espaço necessários para o armazenamento de munições, graças ao uso de cargas de cordite acondicionadas em sacos de seda. Um dos marcos dessa evolução foi o aperfeiçoamento da artilharia naval de 152,4 mm, culminando no desenvolvimento do modelo Mk VIII que representou um avanço significativo em desempenho, confiabilidade e eficiência operacional dentro da artilharia naval do período. O novo modelo introduziu um mecanismo de culatra com abertura lateral à esquerda, solução técnica que representava uma inovação importante para a época. Esse sistema permitia a instalação da peça em torres duplas, favorecendo melhor aproveitamento do espaço interno e maior eficiência operacional a bordo de navios de guerra. Adotado, o canhão foi instalado nos couraçados da classe Formidable, cujas primeiras unidades foram lançadas ao mar em 1898 e incorporadas à frota a partir de 1901. A versatilidade do projeto contribuiu para sua ampla difusão. O armamento passou a equipar diferentes tipos de embarcações, desde cruzadores de grande velocidade até pequenas canhoneiras destinadas a operações fluviais em regiões coloniais. Nessas missões, particularmente em rios estratégicos da África e da Ásia, tais embarcações desempenhavam funções de patrulhamento, apoio a operações terrestres e projeção de poder. Durante a década de 1910, a empresa passou a considerar a possibilidade de adaptar o canhão Mk VII para emprego em operações terrestres. Inicialmente, a proposta permaneceu no campo dos estudos técnicos. Atendendo às crescentes demandas do Exército Britânico por artilharia pesada de longo alcance, as primeiras unidades do canhão de campanha de 155 mm foram enviadas para a frente ocidental, na França, em 1916. Essas peças foram inicialmente montadas em transportadores retangulares originalmente projetados para os modelos I e IV. Embora eficazes em combate, tais transportadores apresentavam uma limitação significativa: o reduzido ângulo de elevação da peça restringia o alcance máximo dos disparos, limitando sua eficácia em determinadas situações táticas. Consciente dessa deficiência, promoveu-se rapidamente melhorias no projeto. Ainda em 1916, a empresa desenvolveu um novo transportador capaz de proporcionar uma elevação máxima de 22 graus, ampliando consideravelmente o alcance e a flexibilidade de emprego da arma. Com essa modificação, o canhão passou a desempenhar um papel relevante em importantes operações da guerra, destacando-se particularmente durante a Batalha de Somme, um dos confrontos mais intensos e sangrentos do conflito. No campo de batalha, o canhão de 155 mm Modelo VII demonstrou grande eficiência em missões de fogo de contra-bateria, destinadas a neutralizar posições de artilharia inimigas. Além disso, foi amplamente empregado na destruição de extensas barreiras de arame farpado que protegiam as trincheiras adversárias, bem como em ataques de longo alcance contra alvos estratégicos situados em profundidade no dispositivo inimigo. A combinação de precisão, potência e confiabilidade contribuiu para consolidar sua reputação como uma arma eficaz no contexto da guerra de posições que caracterizou o conflito. Apesar de seu desempenho satisfatório, o Mk VII foi gradualmente substituído por versões mais modernas, entre as quais se destacava o Mk XIX, que incorporava avanços técnicos mais recentes. Ainda assim, devido à sua robustez e versatilidade, o Mk VII permaneceu em uso até o término da guerra, em 1918.

Com o término do conflito, em 1918, a Marinha Real (Royal Navy) foi confrontada com a necessidade de revisar profundamente a composição de sua frota. Ao final do conflito, a marinha britânica possuía um grande número de navios que, embora ainda operacionais, já se encontravam tecnologicamente ultrapassados diante do ritmo acelerado das inovações navais ocorridas durante a guerra. Como consequência, muitos desses vasos de guerra mais antigos foram gradualmente retirados do serviço ativo e destinados à desmobilização. Antes de serem encaminhados ao sucateamento, entretanto, essas embarcações passavam por um cuidadoso processo de desarmamento. Nesse procedimento, diversos equipamentos ainda considerados úteis eram removidos e armazenados para eventual reaproveitamento. Entre esses materiais figurava um número expressivo de canhões navais de 152,4 mm produzidos pela Vickers-Armstrongs, pertencentes aos modelos Mk VII e Mk VIII. Tais peças de artilharia, que haviam desempenhado papel relevante em operações navais durante o conflito, acabariam encontrando novas aplicações no período pós-guerra. Graças à sua robustez e versatilidade, os canhões Vickers Mk VII e Mk VIII foram amplamente reaproveitados como peças de artilharia de defesa costeira. Instalados em baterias fixas, passaram a reforçar a proteção de portos, bases navais e pontos estratégicos distribuídos ao longo do vasto litoral do Império Britânico. De posições defensivas em portos coloniais na África e na Ásia a instalações militares no Mediterrâneo, essas armas contribuíram para fortalecer o sistema de defesa marítima britânico durante o período entre guerras. Além do emprego em territórios sob controle britânico, um número considerável dessas peças foi também fornecido a países aliados, entre eles Portugal e Spain, onde passaram a desempenhar funções semelhantes em sistemas de defesa costeira. No caso português, algumas dessas peças permaneceram em operação por um período excepcionalmente longo: os canhões Vickers Mk VII integrados às baterias costeiras de Portugal continuaram em serviço até 1998, quando a artilharia costeira do país foi finalmente desativada, encerrando quase um século de utilização dessas armas. Paralelamente ao reaproveitamento de sistemas existentes, a Vickers-Armstrongs prosseguiu com seus esforços de inovação tecnológica no campo da artilharia pesada. Esse processo culminou no desenvolvimento de um novo sistema de artilharia de 6 polegadas (152,4 mm), conhecido como modelo BL 6-inch Mk XIX, cuja concepção teve início em 1915. Diferentemente de seus predecessores, Mk VII e Mk VIII que haviam sido originalmente concebidos para uso naval e posteriormente adaptados para emprego terrestre, o Mk XIX foi projetado desde o princípio como uma peça de artilharia de campanha. O novo modelo incorporava uma série de avanços técnicos destinados a superar as limitações observadas nas versões anteriores. Entre seus principais objetivos estavam o aumento do alcance e a redução do peso estrutural, fatores essenciais para melhorar sua mobilidade e eficiência no campo de batalha. Para isso, o canhão foi instalado em um moderno transportador dotado de um sistema de recuo hidropneumático, responsável por absorver parte significativa da energia gerada pelo disparo, aumentando a estabilidade da peça e facilitando sua rápida reaquisição do alvo. Inicialmente, esse transportador era equipado com rodas metálicas raiadas, padrão ainda comum na artilharia pesada do período. Posteriormente, contudo, foram introduzidos pneus mais robustos, semelhantes aos utilizados pelo obuseiro de 8 polegadas britânico, o que proporcionava melhor desempenho em terrenos irregulares. A plataforma de transporte também apresentava um desenho com abertura traseira, característica que permitia maiores ângulos de elevação e favorecia disparos de longo alcance.
O Mk XIX manteve o tradicional sistema de carregamento por culatra de rosca interrompida, empregando projéteis de diferentes tipos acompanhados por cargas propulsoras de cordite acondicionadas em sacos de tecido, uma solução técnica herdada dos canhões navais que lhe deram origem. O mecanismo de culatra, operado por uma alavanca situada no lado direito da peça, constituía um exemplo notável de simplicidade e eficiência mecânica. Ao puxar a alavanca para trás, o parafuso da culatra era destravado e deslocado para a posição de carregamento. Após a introdução do projétil e da carga propulsora, o movimento inverso da alavanca fazia com que o conjunto retornasse à posição original, travando novamente o mecanismo e deixando a arma pronta para o disparo. Essa solução permitia um ciclo de carregamento relativamente rápido para um canhão de grande calibre, contribuindo para a eficácia do sistema em cenários de combate dinâmicos. Durante a Primeira Guerra Mundail foram produzidos aproximadamente 310 exemplares do canhão BL 6-inch Mk XIX pela Vickers-Armstrongs. Essas peças foram empregadas em diversos teatros de operações do conflito, gradualmente substituindo, na função de artilharia pesada de campanha, o modelo anterior Mk VII. Sua combinação de alcance, potência e confiabilidade tornou-o um elemento importante na artilharia pesada britânica durante os últimos anos da guerra. Nesse mesmo período, a arma também despertou o interesse do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Quando pais tardiamente ingressou no conflito, em 1917, suas forças de artilharia ainda careciam de peças pesadas de longo alcance capazes de apoiar as operações na frente europeia. Para suprir essa necessidade emergencial, foi firmado um acordo com a indústria britânica para a produção de cem canhões adaptados às especificações norte-americanas. Essas peças receberam a designação de Vickers M1917, mantendo o calibre de 152,4 mm. Entretanto, a elevada demanda da indústria britânica para atender prioritariamente às necessidades do exército britânico provocou atrasos consideráveis no cronograma de produção dessas armas. Como resultado, os canhões destinados aos Estados Unidos somente começaram a ser entregues em março de 1920, já após o término da guerra. Dessa forma, as 100 peças Vickers M1917, uma vez recebidas, foram destinadas a unidades de artilharia estacionadas na costa oeste norte-americana. Ali permaneceram como parte da estrutura de defesa e treinamento do exército. Com o passar do tempo, entretanto, a escassez de munição britânica de 152,4 mm nos depósitos do exército levou, em 1933, à decisão de retirar a maioria dessas peças do serviço ativo. Destes 99 canhões remanescentes, juntamente com 50 e um tubos sobressalentes, foram então armazenados como reserva estratégica. Paralelamente a esses acontecimentos, a indústria britânica de armamentos passava por um período de profunda reorganização. Em 1927, após enfrentar dificuldades financeiras decorrentes de problemas administrativos e das transformações econômicas do pós-guerra, a empresa Vickers foi levada a buscar uma solução estrutural para garantir sua sobrevivência no mercado. Como resultado, ocorreu a fusão com a empresa de engenharia Sir W. G. Armstrong Whitworth & Company, uma de suas principais concorrentes no setor de construção naval e armamentos. Dessa união surgiu a poderosa Vickers-Armstrongs. O novo conglomerado passou a dispor de um portfólio extremamente amplo, abrangendo desde armamentos leves e peças de artilharia de campanha até navios de guerra, submarinos, veículos blindados e aeronaves. Como consequência dessa expansão industrial, a empresa alcançou, entre as décadas de 1930 e 1940, a posição de terceiro maior empregador do setor industrial britânico, consolidando-se também como um dos mais importantes fornecedores de equipamentos militares da Europa.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, os canhões Vickers-Armstrong Mk XIX voltaram a desempenhar um papel ativo em operações militares. Nesse contexto, três baterias de artilharia de campanha equipadas com o modelo Mk XIX foram mobilizadas como parte da Fora Expedicionária Britânica (BEF), enviada à França em 1940 com o objetivo de conter o avanço das forças alemãs no início do conflito. Embora robustos e confiáveis, esses canhões tiveram de enfrentar os desafios impostos por uma guerra caracterizada por novas doutrinas operacionais, especialmente a chamada Blitzkrieg (Guerra Relampago) , baseada em rápidas ofensivas combinando blindados, aviação e artilharia móvel. Nesse cenário de guerra altamente mecanizada, sistemas de artilharia mais antigos enfrentavam limitações operacionais diante de equipamentos mais modernos e de maior mobilidade. Além do emprego em operações de campanha, aproximadamente 110 canhões Mk XIX foram destinados à defesa costeira do Reino Unido. Instalados em baterias fixas ao longo do litoral, permaneceram em estado de alerta durante os primeiros anos do conflito, quando o país enfrentava a ameaça concreta de uma possível invasão alemã. Nessas posições, as peças contribuíram para fortalecer o sistema defensivo britânico em um momento crítico da guerra. Entretanto, a partir do final de 1941, esses canhões começaram a ser gradualmente substituídos por sistemas mais modernos, entre eles o norte-americano M1 de 155 mm. Esse novo modelo oferecia maior alcance e melhor desempenho balístico, refletindo a rápida evolução tecnológica da artilharia durante o conflito. Nos Estados Unidos, os canhões Vickers M1917, armazenados desde o fim da Primeira Guerra Mundial, também foram reavaliados no contexto da mobilização militar. Contudo, assim como ocorreu no Reino Unido, essas peças acabaram sendo rapidamente substituídas pelos mais modernos sistemas de artilharia norte-americanos, evidenciando a transição para armamentos mais avançados e padronizados. Apesar desse processo de substituição, um pequeno número de canhões Vickers ainda encontrou utilidade no esforço de guerra. Algumas dessas peças foram cedidas à Marinha Real (Royal Navy) para equipar navios mercantes armados e embarcações de escolta improvisadas. Nessas plataformas, os canhões desempenharam um papel importante na defesa contra navios corsários alemães, que representavam uma ameaça constante às linhas de suprimento aliadas no Atlântico. Diversos episódios notáveis demonstraram o emprego dessas armas em combate naval. Um exemplo marcante ocorreu com o HMS Rawalpindi que, em 23 de novembro de 1939, enfrentou os cruzadores de batalha alemães Scharnhorst e Gneisenau. Embora claramente inferior em poder de fogo, o navio britânico resistiu bravamente antes de ser afundado, tornando-se um símbolo da determinação britânica nos primeiros meses da guerra. Outro episódio emblemático envolveu o HMS Jervis Bay que, em novembro de 1940, enfrentou o cruzador pesado alemão Admiral Scheer, armado com canhões de 280 mm. A ação desesperada do Jervis Bay permitiu que o comboio que escoltava se dispersasse e escapasse, preservando navios mercantes carregados com suprimentos essenciais para o esforço de guerra aliado. Com o término do conflito, os canhões g Mk XIX foram gradualmente retirados do serviço nas funções de artilharia de campanha e em plataformas navais improvisadas. Entretanto, as peças instaladas em posições de artilharia costeira permaneceram ativas por mais algum tempo em diversas regiões sob influência britânica. Essas armas continuaram desempenhando funções defensivas em territórios do Império Britânico até o final da década de 1950.
Emprego no Exército Brasileiro
A tradição da artilharia brasileira remonta ao período colonial e constitui um dos elementos mais marcantes da história militar do país. Suas origens estão profundamente associadas às lutas travadas no território americano durante os séculos XVII e XVIII, quando forças luso-brasileiras enfrentaram invasões estrangeiras e conflitos regionais. Entre esses episódios, destacam-se as Batalhas dos Guararapes, ocorridas na capitania de Pernambuco, nas quais combatentes locais se opuseram às tropas da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. Embora empregassem recursos militares relativamente limitados, essas forças demonstraram grande capacidade de adaptação e determinação, contribuindo para a formação de uma tradição de resistência que posteriormente influenciaria a identidade militar brasileira. Com a consolidação política decorrente da Independência do Brasil, a artilharia passou a ser estruturada de maneira mais sistemática no âmbito do Império do Brasil. Diferentemente de outras armas, como a infantaria e a cavalaria, o emprego da artilharia exigia elevado grau de especialização técnica. Por essa razão, a formação de oficiais artilheiros estava intimamente ligada ao ensino militar superior oferecido pela Academia Militar das Agulhas Negras instituição que tem suas origens na antiga academia militar do período imperial. Nesse ambiente, jovens oficiais dedicavam-se ao estudo de matemática aplicada, balística e engenharia militar, consolidando uma tradição de rigor técnico que conferiu prestígio à arma de artilharia no Exército brasileiro. Essa tradição alcançou um de seus momentos mais emblemáticos durante a Guerra da Tríplice Aliança, o maior conflito armado da história da América do Sul. Entre os diversos combates travados durante essa guerra, a Batalha de Tuiuti destacou-se como o maior confronto campal do continente. Nesse episódio, a artilharia brasileira desempenhou papel decisivo sob o comando do então coronel Emílio Luís Mallet, militar de origem francesa que se naturalizou brasileiro e construiu notável carreira no exército imperial. Durante a batalha, a artilharia posicionada por Mallet mostrou-se fundamental para conter sucessivas ofensivas paraguaias. A precisão e a cadência de tiro das baterias brasileiras levaram os combatentes a apelidá-las de “Artilharia Revólver”. Protegidas por um sistema defensivo que incluía um fosso escavado à frente das posições solução tática relativamente inovadora para a época , as baterias resistiram com firmeza aos ataques inimigos. Nesse contexto teria sido proferida a célebre frase atribuída a Mallet: “Eles que venham! Por aqui não passam!”, expressão que se tornou símbolo da determinação da artilharia brasileira. Em reconhecimento a sua atuação militar, Mallet foi posteriormente agraciado com o título nobiliárquico de Barão de Itapevi e elevado ao posto de marechal. Após o término da guerra, o Brasil iniciou um processo gradual de modernização de suas forças armadas. Nesse período, a Marinha do Brasil passou a dedicar especial atenção à modernização de seus sistemas de artilharia, particularmente aqueles destinados à defesa costeira. Para isso, recorreu à aquisição de armamentos produzidos pela indústria europeia, destacando-se os canhões Armstrong Whitworth. Esses foram instalados em diversos fortes distribuídos ao longo do litoral brasileiro, reforçando a proteção dos principais portos do país. Em um esforço de cooperação entre as forças armadas, ao menos dez dessas peças incluindo canhões de grande calibre, como os modelos de 280 mm foram posteriormente transferidas para o Exército Brasileiro. Projetadas para proteger portos estratégicos e garantir a segurança das principais rotas marítimas do país, essas peças de artilharia permaneceram em serviço até o final da década de 1920.
A partir de meados da década de 1930, o agravamento das tensões internacionais impulsionado sobretudo pelo crescente expansionismo da Alemanha Nazista levou diversas nações a reverem seus dispositivos de defesa. No Brasil, as autoridades militares acompanharam atentamente esse cenário, conscientes de que a posição geográfica e o potencial econômico do país poderiam transformá-lo em um importante fornecedor de matérias-primas estratégicas em caso de um conflito de grandes proporções. Nesse contexto, a proteção do extenso litoral brasileiro e de seus principais portos passou a ser considerada uma prioridade. Naquele momento, grande parte da artilharia costeira brasileira ainda era composta por peças de origem europeia sobretudo inglesas, francesas e alemãs nos calibres de 150 mm, 280 mm e 305 mm. Embora muitas dessas armas tivessem representado avanços importantes quando adquiridas, diversos exemplares já eram considerados tecnicamente superados diante das rápidas transformações observadas na artilharia moderna. Diante dessa realidade, o governo brasileiro iniciou um programa de modernização destinado a renovar os sistemas de defesa costeira e reforçar a proteção de pontos estratégicos ao longo do litoral. Paralelamente a esse esforço, o Brasil iniciou um processo gradual de aproximação diplomática com os Estados Unidos durante a administração do presidente Franklin D. Roosevelt. Essa política fazia parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da influência norte-americana na América Latina, ao mesmo tempo em que buscava consolidar relações de cooperação política, econômica e militar com o governo brasileiro. Entre os principais objetivos dessas negociações estava a possibilidade de utilização de áreas estratégicas no Nordeste brasileiro para a instalação de bases aéreas e navais. A região apresentava enorme importância geográfica, pois representava o ponto mais curto de ligação aérea entre os continentes americano e africano. Dessa forma, a costa nordestina poderia desempenhar papel decisivo no transporte de tropas, aeronaves, veículos e suprimentos rumo a eventuais teatros de operações no exterior, especialmente em um cenário de guerra envolvendo o continente europeu. O avanço dessas tratativas gerou expectativas positivas em ambos os países e contribuiu para o fortalecimento das relações bilaterais. Entre os desdobramentos mais importantes desse processo esteve o apoio norte-americano ao desenvolvimento da indústria siderúrgica brasileira, que resultaria posteriormente na criação da Companhia Siderúrgica Nacional. Ao mesmo tempo, abriram-se caminhos para iniciativas voltadas à modernização das forças armadas do país. No campo da artilharia de costa do Exército Brasileiro, uma das primeiras medidas concretas ocorreu com a decisão de transferir ao Brasil 99 canhões do modelo Vickers M1917 6-inch gun (correspondentes ao modelo britânico BL 6-inch Mk XIX), oriundos dos estoques estratégicos do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), com estes sendo recebidos a a partir do segundo semestre de 1939. Apesar de terem sido fabricados em 1920, esses canhões encontravam-se em excelente estado de conservação. Isso se devia ao fato de terem sido pouco utilizados operacionalmente e posteriormente armazenados como reserva estratégica desde 1933, quando a escassez de munição britânica de calibre 152,4 mm resultou em sua retirada do serviço ativo. Não há registros oficiais que confirmem se os 51tubos sobressalentes que originalmente haviam sido armazenados juntamente com essas peças de artilharia foram efetivamente incluídos no material transferido. Ainda assim, a incorporação desses canhões representou um avanço significativo no processo de modernização da artilharia costeira brasileira.

A chegada dos primeiros exemplares ao país teve início em outubro de 1940, sendo imediatamente acompanhada pela implementação de programas de treinamento destinados às guarnições responsáveis por sua operação. O acordo firmado entre os dois países também previa assistência técnica norte-americana para a produção local da munição de 152,4 mm, cujo projeto apresentava grande similaridade com os projéteis de calibre 155 mm então utilizados pela artilharia dos Estados Unidos. Essa cooperação técnica contribuiria para reduzir a dependência de importações e fortalecer a capacidade logística da artilharia brasileira. Com a intensificação do conflito na Europa o Exército Brasileiro intensificou seus esforços para fortalecer a defesa de seus principais portos comerciais, vitais para o comércio e a segurança nacional. Nesse contexto, o comando militar direcionou os recém-adquiridos canhões Vickers-Armstrong M1917 para equipar os fortes localizados próximos aos portos estratégicos do país. Essas baterias de artilharia costeira foram mantidas em estado de alerta constante, garantindo a proteção do tráfego marítimo e a segurança das entradas portuárias, essenciais para o abastecimento e a economia brasileira durante o período de incertezas globais. Os canhões M-1917 representaram um avanço significativo em relação aos equipamentos até então em uso, como os alemães Krupp 150 mm L/50, adquiridos entre 1901 e 1902, e os franceses Schneider-Canet 150 mm, recebidos na década de 1920. Com um alcance operacional de 18.400 metros e uma cadência de três disparos por minuto, os Vickers superavam amplamente seus predecessores, que alcançavam no máximo 9.000 metros. Essa capacidade permitiu ao Brasil reforçar sua defesa costeira com maior eficiência, respondendo às exigências de um cenário de guerra moderna. A partir de 1942, a necessidade de proteger as regiões portuárias levou à criação de novas unidades operacionais especializadas, como o 6º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (6º GACosM) e o 8º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (8º GACosM). Essas unidades complementaram os já existentes Grupos de Artilharia de Costa, que operavam nos fortes do litoral sul de São Paulo, ampliando a capacidade defensiva do país. Diferentemente dos canhões de grande calibre fixos, os Vickers-Armstrong M1917 destacavam-se pela mobilidade, podendo ser deslocados para diferentes pontos da costa, o que conferiu maior flexibilidade estratégica às operações de defesa. Apesar de suas vantagens, os canhões enfrentavam limitações em termos de mobilidade devido aos transportadores equipados com rodas de aço, que dificultavam o deslocamento em estradas de terra ou pavimentadas com paralelepípedos, comuns na época. Para superar esse desafio, uma comissão técnica do Exército dos Estados Unidos, em 1941, firmou parceria com a empresa carioca Sociedade Industrial Santa Mathilde Ltda. Essa colaboração resultou em um programa de modernização que substituiu as rodas de aço por pneus de borracha, permitindo maior velocidade e eficiência no tracionamento. Além disso, os transportadores foram adaptados com uma plataforma circular de apoio, dotada de um eixo central que possibilitava a rotação de 360 graus da peça. Essa inovação equiparou os canhões móveis à funcionalidade dos modelos fixos, permitindo posicionamento rápido e disparos em todas as direções. Com essas melhorias implementadas, os canhões Vickers-Armstrong M-1917 passaram a ser tracionados com eficácia pelos tratores Minneapolis Moonline GTX-147 6x6, fornecidos em 1941. Dois desses canhões foram transferidos para a Escola de Artilharia de Costa (EAC), sediada no Rio de Janeiro, onde foram utilizados até o final de 1944 no Curso de Emergência de Oficiais de Artilharia de 1ª Linha.
Esse programa visava formar oficiais capacitados para operar as unidades de defesa costeira, reforçando a preparação do Exército Brasileiro em um momento crítico da Segunda Guerra Mundial. Durante todo o período de participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, os Grupos Móveis de Artilharia de Costa (GACosM) permaneceram em permanente estado de prontidão, desempenhando importantes missões de vigilância e defesa estratégica do litoral brasileiro. Subordinadas ao Exército Brasileiro, essas unidades tinham como principal responsabilidade garantir a proteção dos principais portos e instalações costeiras do país em um contexto internacional marcado por forte instabilidade e pela ameaça de ações navais hostis. Grande parte dessas formações estava sediada no estado de São Paulo, embora suas atividades operacionais se estendessem também aos litorais de Rio de Janeiro e Espírito Santo. Nessas regiões, as unidades realizaram exercícios intensivos, deslocamentos estratégicos e treinamentos voltados ao emprego da artilharia pesada de costa, garantindo elevado grau de prontidão em caso de necessidade de emprego real. Na região Sul, destacou-se a atuação do 7º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (7º GACosM), sediado no estado do Rio Grande do Sul. Essa unidade tornou-se particularmente conhecida pelos frequentes deslocamentos operacionais realizados para outros estados da região, evidenciando a crescente capacidade de mobilidade da artilharia costeira brasileira. Durante essas operações de longa distância, os canhões Vickers M1917 6-inch gun correspondentes ao modelo britânico BL 6-inch Mk XIX eram rebocados por caminhões militares de grande porte, como os Diamond T 968 e T 969, além de veículos de transporte pesado da empresa Corbitt Company. Esses caminhões demonstravam desempenho superior aos tratores Minneapolis-Moline GTX-147 anteriormente utilizados, oferecendo maior velocidade e eficiência no deslocamento das peças, fator essencial para uma defesa costeira baseada em mobilidade e rápida capacidade de reposicionamento. Paralelamente, um destacamento de canhões Vickers-Armstrong ainda montados em transportadores que não haviam passado pelo processo de modernização foi deslocado para reforçar a defesa do arquipélago de Fernando de Noronha. Essas peças passaram a operar sob a responsabilidade do 1º Grupo Independente de Artilharia (1º GIA), unidade que também dispunha de canhões antiaéreos 8.8 cm Flak 18 de origem alemã. Para o deslocamento desses equipamentos em terreno insular, eram utilizados tratores meia-lagarta Sd.Kfz. 7, cuja configuração proporcionava melhor desempenho em terrenos irregulares. Posteriormente, o 1º Grupo Independente de Artilharia (1º GIA) foi transferido para a cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Ainda assim, quatro canhões Vickers-Armstrong permaneceram instalados em Fernando de Noronha, assegurando a defesa do arquipélago até o término do conflito. O fim da guerra, em maio de 1945, não resultou na imediata desativação dessas peças de artilharia. Pelo contrário, os canhões Vickers-Armstrong continuaram a integrar o dispositivo de defesa costeira brasileiro durante os anos seguintes, participando regularmente de exercícios, treinamentos e deslocamentos operacionais de grande escala. Um exemplo representativo desse período foi o aquartelamento do 8º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (8º GACosM), realizado em 1946 nas praias do Leblon e na histórica Fortaleza de Santa Cruz da Barra, ambos localizados na região metropolitana do Rio de Janeiro. Essas atividades contribuíram para manter o elevado nível de preparo das unidades em um contexto internacional ainda marcado pelas transformações geopolíticas do pós-guerra.

A partir de agosto de 1949, iniciou-se um processo de modernização dos meios de tração utilizados pela artilharia costeira brasileira. Os antigos tratores Minneapolis-Moline GTX-147 passaram gradualmente a ser substituídos pelos mais modernos M4 High-Speed Tractor, projetados especificamente para o reboque de peças de artilharia pesada. Esses novos veículos ofereciam maior potência, velocidade e confiabilidade mecânica, facilitando o deslocamento dos canhões Vickers M1917 6-inch gun em operações de treinamento e em eventuais desdobramentos estratégicos. Por décadas após a Segunda Guerra Mundial, os canhões Vickers-Armstrong M-1937 (Mark XIX) permaneceram como pilares da defesa costeira brasileira, desempenhando suas funções com notável eficiência e prontidão. Essas peças, que haviam provado sua confiabilidade durante o conflito global, mantiveram altos índices de operacionalidade, mesmo diante da chegada de sistemas mais modernos, como os obuses norte-americanos M1 de 155 mm. O Exército Brasileiro, ciente do valor histórico e funcional dos canhões Vickers, optou por preservá-los como a principal arma de artilharia costeira, investindo em manutenção meticulosa e atualizações tecnológicas, incluindo melhorias nos sistemas de orientação de tiro. A dedicação à preservação dessas peças refletia não apenas sua robustez técnica, mas também o respeito pela tradição militar brasileira, que via nos canhões Vickers um símbolo de resiliência e capacidade defensiva. Durante as décadas de 1950 a 1980, os canhões continuaram a guarnecer fortes e bases ao longo do extenso litoral do país, protegendo portos estratégicos em um contexto de Guerra Fria, marcado por tensões globais e pela necessidade de assegurar a soberania nacional. No entanto, o avanço acelerado da tecnologia militar, especialmente a partir dos anos 1970, começou a transformar o cenário da artilharia. O desenvolvimento de foguetes e mísseis voltados para saturação de área, capazes de oferecer maior alcance, mobilidade e poder de fogo, tornou os canhões tradicionais, como os Vickers-Armstrong, gradualmente obsoletos para as demandas modernas de defesa costeira. Essas inovações, aliadas a mudanças nas doutrinas militares, sinalizaram o fim de uma era para as peças de artilharia convencionais. No início da década de 1990, os canhões Vickers-Armstrong M-1937 ainda estavam em serviço ativo, operados pelo 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (6º GACosM), pelo 8º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (8º GACosM) e pelo 10º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (10º GACosM). Reconhecendo a necessidade de modernização, o Exército Brasileiro decidiu integrar o Sistema de Foguetes de Artilharia para Saturação de Área – Astros II, desenvolvido pela empresa brasileira Avibras Indústria Aeroespacial S/A. Esse sistema, que representava o auge da tecnologia militar nacional, oferecia capacidades superiores em termos de alcance, precisão e mobilidade, alinhando-se às exigências contemporâneas de defesa. O processo de transição foi implementado de forma gradual. A partir de 1992, cada um desses grupos recebeu uma bateria inicial do sistema Astros II, permitindo a coexistência temporária com os canhões Vickers enquanto as unidades se adaptavam à nova tecnologia. Até o final de 1994, o último canhão Vickers-Armstrong M-1937 foi oficialmente retirado do serviço ativo, encerrando quase um século de utilização no Exército Brasileiro. A desativação dessas peças marcou o fim de uma era, mas não o esquecimento de seu legado. Muitos canhões foram preservados, seja em unidades militares como testemunhos de sua história operacional, seja em museus militares, onde continuam a inspirar novas gerações com sua imponência e significado histórico.
Em Escala.
Para recriar com precisão o icônico obuseiro Vickers-Armstrong M-1917 (Mark XIX), foi utilizado um inovador kit em resina produzido por meio de impressão 3D, confeccionado artesanalmente com um excepcional nível de detalhamento. Esse modelo, desenvolvido especificamente para representar os canhões desta família que integraram o arsenal do Exército Brasileiro, destaca-se pela fidelidade histórica e pela qualidade de sua execução.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado em todos os canhões Vickers-Armstrong M-1971 (Mark XIX) desde o seu recebimento no ano de 1940. Este padrão se manteria inalterado até sua desativação no ano de 1994. Na recriação histórica desses canhões, foram utilizadas tintas e vernizes de alta qualidade produzidos pela Tom Colors, uma marca reconhecida por sua precisão na reprodução de cores militares.
Bibliografia:
- Vickers-Armstrong Limited - https://en.wikipedia.org/wiki/Vickers-Armstrongs
- Canhão Vickers Armstrong 152,4 mm VII/VIII - https://pt.wikipedia.org/wiki/Canh%C3%A3o_152,4_mm_modelo_VII/VIII
- A Evolução da Artilharia – Victor H. Mori & Adler Homero Fonseca de Castro
- Veteranos da Artilharia de Costa – Facebook.
- Artilharia de Campanha no Exército Brasileiro – Cezar Carriel Benetti - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/ACEB.pdf





