FT-17 Renault Carro de Combate (CC)

História e Desenvolvimento.
Em 15 de setembro de 1916, a história militar mundial presenciou um acontecimento que alteraria para sempre a condução da guerra terrestre: o primeiro emprego operacional de um carro de combate em um campo de batalha. A estreia ocorreu durante a Batalha do Somme, no norte da França, quando os britânicos lançaram em combate o tanque Mark I, conduzido pelo Capitão H. W. Mortimore, da Marinha Real Britânica, nas proximidades de Delville Wood. Naquele momento, os exércitos aliados e alemães encontravam-se imersos em uma desgastante guerra de trincheiras. Ao longo de uma frente com mais de quarenta quilômetros de extensão, sucessivas ofensivas resultavam em elevadíssimas perdas humanas, produzindo, em contrapartida, ganhos territoriais mínimos. Na manhã daquele dia histórico, as tropas alemãs aguardavam mais um ataque convencional da infantaria britânica, semelhante aos inúmeros assaltos que vinham sendo repelidos por metralhadoras e artilharia. Contudo, o cenário revelou uma novidade inesperada. À distância, começaram a surgir grandes estruturas metálicas movendo-se lentamente sobre o terreno devastado. Inicialmente, muitos soldados alemães acreditaram tratar-se de tratores agrícolas adaptados para fins militares. Pouco depois, porém, tornou-se evidente que estavam diante de uma arma inteiramente nova: enormes veículos blindados capazes de avançar sobre crateras, trincheiras e cercas de arame farpado, superando obstáculos que, até então, haviam custado milhares de vidas aos exércitos em combate. O impacto psicológico foi imediato. Surpreendidas e desorganizadas, as tropas alemãs assistiram à progressão daqueles verdadeiros “monstros de aço”, que atravessavam posições defensivas consideradas praticamente intransponíveis. Embora revolucionários em seu conceito, os primeiros carros de combate apresentavam limitações técnicas consideráveis. Sua velocidade raramente ultrapassava 6 km/h, eram excessivamente pesados, difíceis de manobrar e sofriam constantes falhas mecânicas. Dos 49 tanques Mark I empregados naquela ofensiva, apenas uma parcela conseguiu retornar às linhas de origem. Muitos foram abandonados em decorrência de panes mecânicas, rompimento das lagartas ou atolamento em terrenos encharcados, enquanto outros foram destruídos pela artilharia alemã. Apesar dessas limitações, o sucesso estratégico e simbólico da nova arma estava assegurado. O carro de combate demonstrara, pela primeira vez, a capacidade de romper o impasse imposto pela guerra de trincheiras, inaugurando uma nova era na arte da guerra. A partir daquele momento, as principais potências militares passaram a investir intensamente no desenvolvimento de veículos blindados. Entre elas, a França destacou-se pela rapidez com que reagiu à inovação britânica. Sob a liderança do coronel Jean-Baptiste Eugène Estienne, posteriormente consagrado como o “pai da arma blindada francesa”, foi iniciado um ambicioso programa nacional de desenvolvimento de carros de combate. Em julho de 1915, Estienne havia procurado Louis Renault com a proposta de desenvolver um veículo leve de lagartas inspirado nos tratores Holt de origem norte-americana. A iniciativa, entretanto, foi inicialmente recusada, uma vez que a empresa Renault encontrava-se totalmente comprometida com outros programas de produção bélica e não possuía experiência específica no projeto de veículos blindados sobre lagartas. 

Determinado a concretizar sua visão, Estienne apresentou então o conceito à Schneider et Cie, que aceitou o desafio. Dessa colaboração surgiria o Schneider CA1, o primeiro carro de combate operacional francês, empregado pela primeira vez em combate em 16 de abril de 1917.  Embora também apresentasse limitações técnicas, sua introdução consolidou a França como uma das nações pioneiras no desenvolvimento e emprego tático de blindados. Apesar de Louis Renault tenha inicialmente recusado a proposta de desenvolver um carro de combate, a ideia continuou a ocupar seus pensamentos. Movido por sua curiosidade técnica e por sua visão industrial, passou a estudar de forma independente as possibilidades de conceber um veículo blindado leve, simples de fabricar, confiável e eficaz no campo de batalha. Ao analisar as limitações tecnológicas da época, Renault identificou um problema: os motores disponíveis ainda não ofereciam uma relação potência-peso adequada para permitir que veículos blindados de grande porte superassem, com eficiência, trincheiras, crateras de artilharia e demais obstáculos característicos da guerra de posições. Convencido de que a mobilidade deveria ser o principal atributo do novo veículo, estabeleceu como premissa que seu peso não deveria ultrapassar sete toneladas. Em julho de 1916, o coronel Estienne, já persuadido de que tanques menores e mais ágeis poderiam apresentar melhor desempenho operacional do que os pesados modelos então em desenvolvimento, voltou a reunir-se com Renault. Naquela ocasião, ambos compartilhavam a mesma visão: o futuro da guerra blindada estaria associado a veículos leves, rápidos e passíveis de produção em larga escala. O apoio de Estienne revelou-se decisivo para o avanço do projeto. Ainda assim, Renault enfrentou forte resistência política. O Ministro das Munições, Albert Thomas, bem como setores do Alto Comando francês, mostravam-se céticos quanto à utilidade militar de um tanque de dimensões tão reduzidas. Após semanas de negociações e insistentes esforços de convencimento, finalmente obteve-se autorização e recursos para a construção de um protótipo. Trabalhando em estreita colaboração com seu engenheiro-chefe, Rodolphe Ernst-Metzmaier, transformou seus conceitos em um projeto concreto. Para atender aos requisitos, foi desenvolvido um novo motor Renault de 04 cilindros, 4,5 litros e refrigeração líquida, capaz de desenvolver aproximadamente 32 hp. O propulsor foi especialmente concebido para operar sob elevadas inclinações, mantendo desempenho satisfatório mesmo em terrenos extremamente acidentados  uma característica fundamental para a travessia de trincheiras e obstáculos de campo. Outro aspecto inovador do projeto foi o sistema de ventilação interna. Visando melhorar as condições de operação da tripulação e reduzir os efeitos do calor gerado pelo motor, foi instalado um ventilador junto ao radiador que aspirava o ar pela parte dianteira do veículo e o expulsava pela traseira, promovendo uma circulação constante no interior do compartimento de combate. O resultado desses esforços foi um projeto revolucionário que estabeleceria os fundamentos da arquitetura dos carros de combate modernos. Pela primeira vez, incorporava-se uma torre totalmente giratória montada sobre o casco.  Essa configuração permitia que uma única arma cobrisse todos os setores  ao redor do veículo, eliminando a necessidade de múltiplas posições de armamento fixo, comuns nos tanques britânicos e franceses.
Este carro blindado podia ser equipado com um canhão Puteaux SA 18 de 37 mm ou, alternativamente, com uma metralhadora Hotchkiss Modelo 1914. Compacto, leve e tecnologicamente avançado para sua época, o veículo representou uma verdadeira revolução na engenharia militar. Seu projeto estabeleceu um marco conceitual ao definir a arquitetura básica que seria adotada por praticamente todos os carros de combate desenvolvidos ao longo do século XX: motorista posicionado na parte frontal do casco, compartimento de combate central dotado de torre giratória e grupo motopropulsor instalado na seção traseira. Essa configuração permitia uma distribuição mais racional dos espaços internos, melhor equilíbrio do veículo e maior eficiência operacional no campo de batalha. A adoção de uma torre com rotação de 360 graus representava outra inovação fundamental. Diferentemente dos modelos contemporâneos, que dependiam de armamentos montados em casamatas laterais ou posições fixas,  podia engajar alvos em qualquer direção sem a necessidade de reposicionar todo o veículo. Essa característica conferia maior flexibilidade tática e aumentava significativamente sua capacidade de sobrevivência em combate. A combinação dessas soluções tornava o novo tanque uma ruptura completa com os projetos anteriores, como o Schneider CA1 e o Saint-Chamond, que apesar de pioneiros, ainda apresentavam características herdadas dos tratores de lagartas. Este surgia, assim, como um carro de combate concebido desde o início para atender às exigências específicas da guerra blindada. Os ensaios de campo tiveram início em abril de 1917 e revelaram resultados extremamente promissores. Ao longo dos meses seguintes, foi submetido a sucessivos aperfeiçoamentos técnicos, culminando na configuração definitiva que receberia a designação  de Renault FT-17. Apesar das excelentes avaliações técnicas, a aceitação não ocorreu sem resistência. Parte do alto comando permanecia convencida de que os tanques pesados  representavam a melhor solução para romper as linhas alemãs. Muitos oficiais viam com desconfiança a proposta de empregar veículos mais leves, ainda que em maior número e com maior mobilidade. Mais uma vez, a atuação do coronel Estienne mostrou-se decisiva. Convencido das vantagens operacionais do Renault FT, o oficial empenhou seu prestígio pessoal na defesa do projeto, encaminhando memorandos e relatórios nos quais enfatizava a necessidade de produzir o novo blindado em larga escala. Ele acreditava que a combinação entre mobilidade, simplicidade mecânica e produção em massa proporcionaria à França uma vantagem decisiva nos campos de batalha. Seus argumentos acabaram prevalecendo. Ainda em 1917 foi firmado o primeiro contrato  e, até o final daquele ano, cerca de 80  já haviam sido entregues ao Exército Francês. Com a intensificação dos combates em 1918, a fabricação foi acelerada, permitindo que equipasse um número crescente de unidades blindadas na Frente Ocidental. Seu batismo de fogo ocorreu em 31 de maio de 1918, nas proximidades da Floresta de Retz, entre Ploisy e Chazelles, durante a Segunda Batalha do Marne. Empregado por unidades do 10º Exército,  participou dos combates que contribuíram para conter a ofensiva alemã em direção a Paris. Sua estreia  confirmou as qualidades demonstradas durante os testes, consolidando definitivamente o conceito do tanque leve e estabelecendo os fundamentos da moderna guerra.

A partir de sua estreia operacional, passou a atuar em conjunto com os tanques pesados , contribuindo para o desenvolvimento dos primeiros conceitos de emprego combinado de forças blindadas.  Em meio à crescente mobilidade que começava a caracterizar as operações militares, o Renault FT demonstrou grande versatilidade e capacidade de adaptação. Seu reduzido peso permitia que fosse transportado por caminhões pesados e reboques especialmente adaptados, ampliando significativamente sua mobilidade estratégica e reduzindo o desgaste mecânico durante longos deslocamentos. Essa prática tornou-se cada vez mais comum, sobretudo durante a Ofensiva dos Cem Dias, conduzida entre agosto e novembro de 1918, quando  desempenhou papel relevante nas operações que culminariam na derrota do Império Alemão e no encerramento do conflito. Quando os Estados Unidos ingressaram no conflito, em abril de 1917, o país deparou-se com uma importante deficiência, pois seu exército não possuía qualquer experiência na operação de carros de combate. Enquanto britânicos e franceses já haviam acumulado conhecimento valioso no emprego de blindados em combate, os norte-americanos encontravam-se em estágio embrionário no desenvolvimento.  Diante dessa realidade, concluiu-se que a forma mais rápida e eficiente de equipar as tropas expedicionárias seria por meio da produção sob licença do Renault FT, sendo então iniciado o desenvolvimento de uma versão customizada, que receberia a designação  de M1917 Light Tank. O programa previa uma produção em larga escala, estimada em mais de 4.000 veículos, destinados a equipar o recém-criado Tank Corps. Entretanto, a implementação do projeto enfrentou sérios obstáculos industriais. A indústria norte-americana encontrava-se fortemente comprometida com a produção de armamentos, munições, veículos de transporte e demais materiais necessários ao esforço de guerra. Como consequência, a adaptação das linhas de produção para a fabricação de carros de combate revelou-se mais lenta e complexa do que o inicialmente previsto. Buscando suprir essa deficiência temporária, o governo francês disponibilizou aos Estados Unidos 144 tanques Renault FT, permitindo a formação e o treinamento das primeiras unidades blindadas norte-americanas. Esses veículos desempenharam papel fundamental na instrução das tripulações e no desenvolvimento das doutrinas iniciais de emprego dos carros de combate. Apesar desses esforços, nem os Renault FT cedidos pela França nem os primeiros exemplares do M1917  chegaram a participar de operações de combate.  Paralelamente, os Aliados planejavam uma expansão sem precedentes de suas forças blindadas. A França, principal usuária , previa a fabricação de milhares de unidades adicionais, enquanto os Estados Unidos projetavam complementar esse esforço com a produção em massa do M1917. Somados, os programas franco-americanos tinham como objetivo disponibilizar mais de 12.000 veículos até o final de 1919. O término inesperadamente rápido do conflito, entretanto, tornou esses planos desnecessários. Com a assinatura do Armistício e o consequente encerramento das operações militares em larga escala, grande parte das encomendas foi cancelada ou reduzida. Ainda assim, o Renault FT já havia assegurado seu lugar na história militar, consolidando-se como o primeiro carro de combate moderno.
Amplamente empregado na Frente Ocidental , o Renault FT participou de mais de 4.000 ações de combate, registrando a perda de aproximadamente 746 unidades. Até a assinatura do Armistício de 11 de novembro de 1918, o Exército Francês havia recebido 2.697 exemplares do modelo, dos quais cerca da metade foi produzida diretamente nas instalações da Renault, em Boulogne-Billancourt, nos arredores de Paris. O restante foi fabricado por empresas subcontratadas, permitindo à indústria francesa atingir índices de produção sem precedentes para a época. No período pós-guerra, os contratos remanescentes foram reorganizados e ampliados, impulsionados pelo excelente desempenho demonstrado pelo veículo em combate. Ao final da produção, foram construídos aproximadamente 7.280 exemplares, distribuídos entre a Renault (52%), Somua-Schneider & Cie (23%), Berliet (17%) e Delaunay-Belleville (8%). Em um gesto notável de patriotismo e cooperação industrial, Louis Renault renunciou aos direitos de patente do projeto, permitindo que outros fabricantes franceses produzissem livremente . A partir de meados de 1919, grandes quantidades do Renault FT passaram a ser exportadas, equipando as forças armadas de diversos países, entre eles Bélgica, Brasil, Checoslováquia, Estônia, Finlândia, Irã, Japão, Lituânia, Países Baixos, Polônia, Romênia, Espanha, Suíça, Turquia, União Soviética e Iugoslávia. Paralelamente, o modelo permaneceu como o principal componente da força blindada do Exército dos Estados Unidos durante os anos seguintes. A carreira operacional  estendeu-se muito além da Primeira Guerra Mundial. O veículo participou da Guerra Civil Russa, da Guerra Polaco-Soviética, da Guerra Civil Chinesa, da Guerra do Rif, da Guerra Civil Espanhola e da Guerra da Independência da Estônia, entre outros conflitos. Sua longevidade operacional foi extraordinária, permanecendo em serviço ativo em numerosas forças armadas até o final da década de 1930. No início de 1940, o Exército Francês ainda mantinha oito batalhões equipados, cada um dispondo de 63 veículos, além de três unidades independentes, totalizando uma força operacional de aproximadamente 534 blindados armados com metralhadoras. A esses somava-se uma quantidade significativa de veículos mantidos em reserva. Contudo, a rápida derrota francesa diante da ofensiva alemã baseada na doutrina Blitzkrieg provocou pesadas perdas entre os modernos carros de combate, levando à reativação de numerosos Renault FT que permaneciam armazenados. Apesar desse esforço, os veteranos blindados pouco puderam fazer para conter o avanço das forças alemãs. Com a capitulação da França, o Exército Alemão capturou cerca de 1.700 Renault FT. Grande parte desses veículos foi redistribuída pelos territórios ocupados, sendo empregada em tarefas de segurança, defesa de aeródromos e proteção de campos de prisioneiros. Aproximadamente 500   foram transferidos para as forças da França de Vichy no Norte da África. Esses blindados seriam empregados contra tropas norte-americanas e britânicas durante os desembarques da Operação Tocha, realizados no Marrocos e na Argélia no final de 1942. Entretanto, já completamente obsoletos, mostraram-se incapazes de enfrentar carros de combate modernos como os M-3 Stuart, M-3 Lee e M-4 Sherman, sendo rapidamente neutralizados durante os combates.

Emprego no Exército Brasileiro
Durante a primeira metade do século XX, o Exército Brasileiro sofreu significativa influência dos sistemas militares alemão, francês e norte-americano. Cada um desses modelos exerceu predominância em períodos distintos: a doutrina alemã marcou os anos anteriores à Primeira Guerra Mundial; a francesa influenciou profundamente o período entre os dois conflitos mundiais; e a norte-americana consolidou sua presença durante e após a Segunda Guerra Mundial. O anseio pela modernização  frequentemente associado à europeização das instituições militares levou o Brasil a buscar assistência técnica e doutrinária no exterior. Após a gestão do Marechal João Nepomuceno de Medeiros Mallet à frente do Ministério da Guerra, entre 1898 e 1902, quando foram equacionados diversos aspectos essenciais à reorganização e ao fortalecimento da Força Terrestre, uma nova etapa de modernização foi inaugurada com a promulgação da Lei de 4 de agosto de 1908. Essa legislação promoveu importantes reformas estruturais, entre as quais se destacavam a criação do serviço militar obrigatório, a implantação do alistamento militar e a reorganização territorial, baseada na constituição de grandes unidades permanentes. Tais medidas proporcionaram aos oficiais-generais melhores condições para o exercício do comando e da administração militar. Paralelamente às reformas organizacionais, foram realizados investimentos significativos na aquisição de armamentos e equipamentos modernos, despertando renovado entusiasmo entre os oficiais e estimulando estudos, debates e reflexões sobre novas tecnologias e doutrinas militares. Nesse contexto, as grandes potências europeias e, posteriormente, os Estados Unidos passaram a utilizar missões militares de instrução como instrumentos de política externa. Além de contribuírem para a formação profissional dos exércitos estrangeiros, essas missões incentivavam a aquisição de equipamentos semelhantes aos utilizados pelos instrutores, ampliando mercados para suas indústrias de defesa e fortalecendo suas respectivas áreas de influência internacional  prática que, em diferentes formas, permanece presente até os dias atuais. Apesar da forte influência externa, o Exército Brasileiro alcançou resultados mais equilibrados que os observados em países como Chile, Turquia, Tchecoslováquia e Polônia. Enquanto, em determinados períodos, os exércitos dessas nações chegaram a ficar amplamente subordinados à orientação de oficiais estrangeiros, o Brasil preservou sua autonomia institucional, restringindo a atuação dos militares estrangeiros às funções de instrutores, consultores e assessores técnicos, mantendo o comando efetivo sob responsabilidade nacional. Com o advento da Primeira Guerra Mundial e o surgimento dos primeiros carros de combate, o Ministério da Guerra passou a demonstrar crescente interesse pelas novas tecnologias de  mecanização. Nesse contexto, foi incluído em seu programa de intercâmbio militar o envio do 1º Tenente de Cavalaria José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque à França, com a missão de especializar-se nas novas técnicas de emprego de veículos blindados. Durante sua permanência na Europa, José Pessoa frequentou a Escola de Carros de Combate de Versalhes, onde aprofundou seus conhecimentos técnicos e doutrinários sobre o emprego de forças mecanizadas. A experiência adquirida nesse período seria de fundamental importância para a futura organização das tropas blindadas brasileiras.

Em abril de 1919, no âmbito do mesmo programa de intercâmbio, o oficial foi designado observador junto ao 503º Regimento de Artilharia de Carros de Assalto do Exército Francês. Nessa função, teve contato direto com a operação, manutenção e emprego tático dos carros de combate Renault FT, então considerados os blindados mais modernos e bem-sucedidos. A vivência em unidades operacionais e a observação das lições extraídas dos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial proporcionaram-lhe uma experiência singular, reunindo conhecimento técnico, doutrinário e prático que influenciaria decisivamente sua atuação posterior. Ao retornar ao Brasil, sua experiência exerceu profunda influência sobre o Alto Comando do Exército, contribuindo para a consolidação da ideia de incorporar veículos blindados. Embora a escolha oficial tenha recaído sobre o Renault FT decisão fortemente influenciada pela crescente aproximação técnico-militar entre o Brasil e a França  o próprio oficial manifestou reservas quanto à plena adequação do modelo às particularidades geográficas e operacionais do país. Ainda assim, sua atuação intelectual e institucional foi decisiva para a difusão do pensamento mecanizado no meio militar brasileiro. Em 1921, José Pessoa publicou, no Rio de Janeiro, a obra Os “Tanks” na Guerra Europeia, considerado o primeiro estudo em língua portuguesa dedicado à análise do desenvolvimento, das características técnicas e do emprego tático dos carros de combate durante a Primeira Guerra Mundial. O trabalho tornou-se uma importante referência para os oficiais brasileiros interessados nas novas tendências da arte militar e reforçou o debate sobre a mecanização das forças terrestres. Sua contribuição para a modernização, entretanto, extrapolou o campo doutrinário. Ao longo de sua carreira, José Pessoa participou ativamente de diversos projetos voltados ao aperfeiçoamento da formação militar, sendo posteriormente reconhecido como um dos idealizadores da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende (RJ). Também esteve entre os responsáveis pela criação do Centro de Instrução de Artilharia de Costa, organização que seria elevada à categoria de escola em 1942, ampliando sua influência na institucionalização do ensino militar técnico no Brasil. O processo de aquisição dos blindados franceses antecedeu, inclusive, a chegada dos integrantes da Missão Militar Francesa, contratada pelo governo brasileiro para auxiliar na modernização das Forças Armadas. Em conformidade com o cronograma estabelecido, desembarcaram no porto do Rio de Janeiro, em abril de 1920, 12 carros de combate Renault FT recém-saídos das linhas de produção da Delaunay-Belleville. A composição desse primeiro lote refletia diferentes necessidades operacionais. Seis veículos foram entregues equipados com torres fundidas Berliet e armados com o canhão Puteaux SA 18 de 37 mm. Outros cinco receberam torres octogonais rebitadas Renault, armadas com metralhadoras Hotchkiss. O décimo segundo exemplar correspondia à versão TSF (Télégraphie Sans Fil), destinada às comunicações, sendo desprovido de armamento principal e equipado com sistemas de rádio para coordenação das operações táticas. A incorporação tornou necessária a criação de uma organização militar especializada em sua operação e manutenção, e com este objetivo por meio do Decreto nº 15.235, de 31 de dezembro de 1921, a Companhia de Carros de Assalto, sediada na Vila Militar, no então Distrito Federal. 
Apesar do caráter pioneiro, a recém-criada Companhia de Carros de Assalto enfrentava sérias limitações estruturais e de pessoal. Conforme registrado no Boletim nº 55, de 7 de dezembro de 1921, o seu comandante informou ao Ministério da Guerra que a unidade dispunha de apenas 07 oficiais e 123 praças. A situação era ainda mais delicada pelo fato de aproximadamente metade desse contingente estar próxima do licenciamento, comprometendo diretamente a capacidade de instrução, manutenção e, sobretudo, a operacionalidade da nova organização blindada. Outro aspecto relevante refere-se ao longo intervalo entre a aquisição dos veículos e sua efetiva entrada em serviço. Os carros de combate FT-17 haviam sido recebidos pela Comissão Militar Brasileira em Paris em maio de 1919 e desembarcaram no Brasil no início do ano seguinte. Entretanto, permaneceram armazenados nas instalações do 1º Regimento de Infantaria, no Rio de Janeiro, até 28 de setembro de 1921, quando foram finalmente entregues ao Capitão José Pessoa. Poucos dias depois, em 1º de outubro de 1921, o Boletim nº 223 oficializou o início da organização da Companhia de Carros de Assalto, marco institucional que simbolizou o ingresso definitivo do Exército Brasileiro na era da mecanização militar. A introdução dos blindados, contudo, encontrou resistência entre parte dos oficiais mais antigos, ainda fortemente vinculados às tradições da cavalaria montada e da infantaria convencional. Essa resistência doutrinária dificultou a assimilação dos novos conceitos de guerra mecanizada, criando obstáculos que retardaram o desenvolvimento da arma blindada nacional durante seus primeiros anos de existência. Tal contexto ajuda a explicar o emprego relativamente limitado da Companhia de Carros de Assalto durante as sucessivas crises políticas e militares que marcaram as décadas de 1920 e 1930. Embora o país tenha enfrentado diversos movimentos armados nesse período, o potencial operacional dos blindados raramente foi explorado em sua plenitude, reflexo tanto das restrições materiais quanto das incertezas doutrinárias ainda presentes no seio da instituição. O primeiro exercício prático em território brasileiro ocorreu em 3 de novembro de 1921, na região da Colina Boscosa, na Vila Militar, então Distrito Federal. A atividade foi conduzida em conjunto com a Aviação Militar do Exército, constituindo uma das primeiras experiências nacionais de integração entre forças terrestres mecanizadas e meios aéreos. O evento representou um marco simbólico na história militar brasileira, assinalando o nascimento da era blindada no país e introduzindo novas concepções de mobilidade, proteção e poder de fogo no campo de batalha. A primeira apresentação pública dos novos veículos ocorreu em 25 de agosto de 1922, quando toda a Companhia de Carros de Assalto participou de uma cerimônia realizada no Campo de São Cristóvão. Na ocasião, a unidade recebeu oficialmente o Pavilhão Nacional e foi aberta à visitação pública, despertando grande curiosidade entre a população, que teve a oportunidade de observar de perto os inovadores “carros de combate”. Entretanto, os registros fotográficos desse período revelam um dado interessante: raramente aparecem mais de 06 veículos em condições operacionais simultaneamente. Tal fato sugere que a disponibilidade era frequentemente limitada, possivelmente em decorrência de dificuldades de manutenção, escassez de peças de reposição e reduzida capacidade técnica da unidade. Situação ainda mais peculiar envolveu o carro da versão TSF (Télégraphie Sans Fil). Tudo indica que esse veículo jamais atingiu plena capacidade operacional. Destinado originalmente às comunicações táticas, permaneceu com emprego restrito e acabou retirado do serviço ativo em 1925, sendo posteriormente armazenado, existindo registros de sua permanência em depósitos militares pelo menos até 1932. Seu primeiro emprego real ocorreu durante os desdobramentos da Revolução de 1924. Após a retirada das forças rebeldes da capital paulista, a Companhia de Carros de Assalto foi deslocada para participar da ocupação e estabilização da cidade de São Paulo. Embora a operação tenha ocorrido em um contexto de reduzida oposição armada e possuísse caráter predominantemente simbólico. Em 18 de maio de 1925, por meio do Aviso nº 254, a unidade teve sua denominação alterada para Companhia de Carros de Combate. Apesar da mudança, o emprego dos Renault FT-17 ainda não havia despertado maior interesse na oficialidade da Força Terrestre, e os veículos continuavam sendo negligenciados tanto em sua operação quanto nos procedimentos de manutenção. Como consequência desse desinteresse, o Decreto nº 20.986, de 21 de janeiro de 1932, extinguiu oficialmente a Companhia de Carros de Combate. Seus veículos, já em precário estado de conservação, foram transferidos para o Batalhão-Escola de Infantaria. Poucos meses depois, entretanto, em virtude da eclosão da Revolução Constitucionalista de 9 de julho de 1932, esses blindados voltariam a ser colocados em serviço. Para tanto, parte da frota foi recuperada na Oficina Ferroviária de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Nesse processo também foi incluído o veículo de Telegrafia Sem Fio (TSF), embora, por razões pouco claras, este não tenha retornado ao serviço ativo. Ao que tudo indica, cerca de meia dúzia de carros de combate foi efetivamente empregada durante a campanha, atuando isoladamente ou em pares nos diversos setores onde ocorreram confrontos entre tropas legalistas e revolucionárias. Os Renault FT-17 foram utilizados em missões de proteção de pontes, ataque a posições de metralhadoras e apoio às operações em regiões montanhosas, especialmente na divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo. Todavia, tais cenários não eram os mais adequados para as características do veículo, limitando significativamente sua efetividade. Dessa forma, embora tenham participado ativamente do conflito, não exerceram influência decisiva sobre o resultado das operações nem sobre a vitória das forças legalistas. Em 1935, por meio do Aviso nº 248, de 22 de abril, foi criada a Seção de Carros de Combate no Batalhão de Guardas, unidade que passou a operar os blindados remanescentes oriundos do Batalhão-Escola de Infantaria. Na mesma ocasião, foi instituída a Seção de Motomecanização do Estado-Maior do Exército, iniciativa fortemente influenciada pelo chefe da Missão Militar Francesa, General Paul Noël, cuja atuação seria fundamental para o avanço do processo de modernização da Força Terrestre. De forma geral, a criação da Companhia de Carros de Assalto, constituiu um empreendimento pioneiro e visionário. Entretanto, a iniciativa acabou sendo prejudicada pela resistência de parcela da oficialidade, ainda fortemente vinculada aos conceitos tradicionais de emprego da cavalaria e da infantária.
Essa falta de continuidade retardou o desenvolvimento da doutrina blindada e evidenciou a necessidade de uma profunda transformação conceitual . Esse cenário começaria a se modificar em 1938, quando o General Waldomiro Castilho de Lima, após observar o emprego das forças mecanizadas italianas durante a Campanha da Abissínia, recolocou a questão da motomecanização no centro das discussões. Como resultado dessas observações, decidiu-se pela substituição dos já obsoletos FT-17 pelos modernos carros Fiat-Ansaldo CV-3/35 II. À época, esses veículos eram considerados tecnologicamente avançados e haviam demonstrado desempenho satisfatório tanto nos terrenos montanhosos da Guerra Civil Espanhola quanto nas regiões áridas da Etiópia, tornando-se a escolha natural para inaugurar uma nova etapa na evolução das forças blindadas brasileiras. Nesse contexto, as ideias pioneiras de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque encontrariam novo impulso por intermédio do Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves, um dos mais destacados defensores da modernização. Em 25 de maio de 1938, por meio do Aviso nº 400, foi criado o Esquadrão de Autometralhadoras do Centro de Instrução de Motorização e Mecanização. A  unidade incorporava não apenas os veículos recém-adquiridos na Itália, mas também o pessoal, os equipamentos e a experiência acumulada pela antiga Seção de Carros de Combate do Batalhão de Guardas. Sua criação representou o renascimento efetivo das forças blindadas brasileiras e marcou o início de uma nova fase no processo de modernização do Exército. A introdução dos CV-3/35 II, contudo, não significou a retirada imediata dos veteranos FT-17 do serviço ativo. Os últimos 05 exemplares permaneceram em operação junto à Seção de Carros de Combate do Batalhão de Guardas, que passou a concentrar os meios blindados ainda disponíveis. Entretanto, esses  continuavam a enfrentar sérias limitações operacionais, decorrentes principalmente da escassez de peças de reposição e do desgaste acumulado por mais de duas décadas de serviço, fatores que comprometiam sua disponibilidade e eficiência nos exercícios e atividades de instrução. Em 1941, o estreitamento das relações diplomáticas e militares entre o Brasil e os Estados Unidos proporcionou um novo impulso ao processo de modernização, a adesão ao programa Lend-Lease Act, abriram caminho para o reequipamento. Ainda em agosto do mesmo ano seriam recebidos os primeiros carros de combate leves M-3 Stuart.  Pouco tempo depois, o Decreto-Lei Reservado nº 4.130, de 26 de fevereiro de 1942, transformou o Pelotão de Carros de Combate do Centro de Instrução de Motorização e Mecanização na Companhia Escola de Carros de Combate, consolidando institucionalmente a renovação da força blindada nacional. Neste momento ocorreu a retirada definitiva dos últimos Renault FT-17 em condições operacionais. Os FT-17  remanescentes foram preservados como patrimônio histórico, e décadas mais tarde, em 2011, uma iniciativa conjunta do Centro de Instrução de Blindados e do Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar, sediado em Santa Maria (RS), resultou na completa restauração de um exemplar , devolvendo-o à condição operacional e assegurando a preservação de um dos mais importantes marcos da história dos blindados no Brasil.

Em Escala.
Para representarmos o carro de combate leve Renault FT-17, fizemos uso do excelente kit da Meng  na escala 1/35, modelo este que prima pelo detalhamento, apresentando set em photo etched para refinamento. Não há necessidade de se promover nenhuma alteração para se representar a versão empregada pelo Exército Brasileiro, podendo se optar pela versão armada com canhão Puteaux de 37 mm ou equipada com metralhadoras Hotchkiss de calibre 7 mm. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura aplicado aos Renault FT-17, inicialmente os carros foram recebidos em um esquema na cor marrom terra (Flat Earth), momento no qual receberam algumas identificações especificas. Este padrão se manteria até o ano de 1925, quando foram repintados nas cores normativas adotadas pelo Exército Brasileiro naquele período, mantendo este esquema até sua desativação em 1942.
Bibliografia :
- O Brasil na Era dos Blindados  por Expedito Carlos S. Bastos - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/DC2.PDF
- Renault Ft-17 O Primeiro Carro De Combate Do Exército Brasileiro - por Expedito Carlos S. Bastos
- Consolidação dos Blindados no Brasil - Expedito Carlos Stephani Bastos - www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/DC3.PDF