História e desenvolvimento.
A partir da segunda metade da década de 1930, a Europa passou a testemunhar um intenso e progressivo programa de rearmamento conduzido pela Alemanha, que, embora formalmente limitada pelas disposições do Tratado de Versalhes, firmado ao término da Primeira Guerra Mundial, avançava de maneira cada vez mais assertiva na reconstrução de seu poder militar. Sob a liderança do Partido Nacional-Socialista (Partido Nazista) , o estado alemão passou a delinear ambições expansionistas que despertaram crescente apreensão entre as demais potências europeias. Esse processo de fortalecimento militar foi conduzido de forma inicialmente discreta, mas altamente estruturada, tendo como eixo central o desenvolvimento de novos conceitos e doutrinas operacionais. Tais estudos culminariam na formulação da tática conhecida como Blitzkrieg (Guerra Relâmpago), um método revolucionário de guerra ofensiva baseado na aplicação de golpes rápidos e concentrados, obtidos por meio da ação coordenada de forças altamente móveis. Essa doutrina previa o emprego integrado de carros de combate, infantaria mecanizada e apoio aéreo próximo, com o objetivo de romper as defesas inimigas, desorganizar suas linhas de comando e impedir qualquer reação eficaz. No cerne dessa concepção encontrava-se o desenvolvimento de uma nova geração de carros de combate blindados, concebidos para reunir, de forma equilibrada, velocidade, mobilidade, proteção blindada, controle de tiro e poder de fogo. A intenção era clara: produzir veículos que superassem, em todos os aspectos relevantes, os modelos então disponíveis nos arsenais das demais nações. Do outro lado do Atlântico, essas transformações não passaram despercebidas ao comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), pois ainda antes da eclosão do conflito, as autoridades militares deram início a um ambicioso programa de estudos e desenvolvimento, voltado à criação de carros de combate capazes de rivalizar com os blindados alemães. Essa iniciativa não se limitava à concepção de tanques propriamente ditos, mas abrangia igualmente o desenvolvimento de uma ampla família de veículos de apoio, incluindo carros blindados sobre rodas, veículos de recuperação, resgate e manutenção em campo, destinados a sustentar operacionalmente essa nova força mecanizada. Nesse período, os carros de combate leves M-3 Stuart, passaram a constituir o principal esteio das forças blindadas norte-americanas. Embora estivessem disponíveis em números considerados satisfatórios, começaram a surgir dúvidas quanto à sua real eficácia diante das ameaças emergentes. Tais questionamentos estavam diretamente relacionados ao emprego do canhão de 37 mm como armamento principal, calibre que, à luz das experiências europeias, mostrava-se progressivamente insuficiente frente à evolução da blindagem dos novos carros de combate. Apesar dessas limitações reconhecidas, as demandas emergenciais de reequipamento, levaram à decisão de manter a produção do M-3 em larga escala, tornando-se ainda o primeiro carro de combate a ser exportado a para o Reino Unido. Conforme antecipado, seu desempenho em combate revelou-se modesto diante de adversários mais bem armados e protegidos. Ainda assim, sua simplicidade construtiva e facilidade de produção em massa permitiram suprir, em parte, as necessidades imediatas do esforço de guerra Aliado.
No início da década de 1930, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) passou a reconhecer a existência de uma lacuna crítica em seus meios de apoio à artilharia. Embora as unidades começassem a ser reequipadas com peças cada vez mais modernas, potentes e de maior massa, os tratores então disponíveis revelavam-se inadequados às novas exigências operacionais: eram lentos, mecanicamente pouco confiáveis e incapazes de acompanhar, de forma coerente, o ritmo das emergentes formações mecanizadas e blindadas. As experiências obtidas durante exercícios e manobras mecanizadas evidenciaram que os novos obuseiros e canhões demandavam veículos de reboque com características até então inéditas no arsenal norte-americano. Esses meios deveriam ser capazes de manter velocidades compatíveis com colunas motorizadas, operar com eficiência fora de estrada, em terrenos irregulares ou pouco preparados, transportar não apenas a peça de artilharia, mas também sua guarnição e parte da munição, além de oferecer proteção básica contra intempéries e estilhaços leves, ampliando a sobrevivência e a autonomia das unidades em campanha. Diante desse cenário, o Departamento de Artilharia do Exército dos Estados Unidos (Ordnance Department) deu início a estudos voltados ao desenvolvimento de uma nova família de tratores sobre lagartas, concebidos para operar em alta velocidade em comparação aos modelos existentes. Esses veículos passaram a ser designados como High Speed Tractors (HST) e seriam classificados de acordo com a carga rebocável e o tipo de peça de artilharia a ser atendida. Dentro dessa padronização, destacaram-se o M-2, destinado às peças mais leves; o M-4, projetado para a artilharia média; e, por fim, o M-5, concebido para o apoio a peças pesadas e sistemas antiaéreos. Nesse contexto, foi aberta uma concorrência industrial que estabelecia como requisito fundamental o emprego de componentes já em uso na produção de veículos blindados de combate então em desenvolvimento. Tal diretriz buscava racionalizar a produção em larga escala, aproveitando ferramental existente, além de simplificar a cadeia logística e a manutenção em campanha, fatores considerados decisivos à luz das experiências recentes e das perspectivas de um conflito de grandes proporções. Foi nesse processo que ganhou destaque a proposta apresentada pela Allis-Chalmers Corporation, empresa tradicionalmente especializada na fabricação de tratores, transmissões e implementos agrícolas. A companhia apresentou um conceito de “trator de artilharia” desenvolvido a partir da plataforma básica do carro de combate leve M-3 Stuart, solução que atendia plenamente às exigências de padronização, mobilidade e robustez estabelecidas pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Destacava-se no entanto a adoção do Motor a gasolina Continental W-670, de sete cilindros radiais, reconhecido por sua robustez e confiabilidade; garantindo anda uma velocidade máxima de aproximadamente 55 km/h em estrada, parâmetro este considerado a época, alto para um trator de artilharia.

Os dois primeiros protótipos desse trator de alta velocidade foram concluídos nas instalações da Allis-Chalmers, em Milwaukee, no estado de Wisconsin, nos meses de agosto e setembro de 1942. Inicialmente designados de forma genérica como High Speed Tractor, esses veículos foram então apresentados às autoridades militares, sendo submetidos a um rigoroso programa de avaliações pré-operacionais, etapa fundamental para a validação do conceito e sua eventual adoção em serviço ativo. O programa de avaliações teve a duração aproximada de três meses, período no qual o protótipo demonstrou desempenho plenamente satisfatório, atendendo de forma integral às especificações técnicas e operacionais estabelecidas pelo Exército dos Estados Unidos. Os resultados positivos obtidos durante os ensaios levaram à sua rápida homologação operacional, abrindo caminho para a adoção formal do veículo. Na sequência, foi celebrado um primeiro contrato que previa a produção de sessenta unidades, as quais receberam a designação oficial de Trator de Artilharia M-4. O novo modelo passou a ser classificado de acordo com sua capacidade operacional, enquadrando-se na categoria de dezoito toneladas, e foi inicialmente homologado para o tracionamento de uma ampla gama de peças de artilharia de grande porte. Entre estas destacavam-se os obuseiros M-1 de 155 mm e Long Ton de 240 mm, bem como os canhões antiaéreos M-1A3 de 90 mm e M-3 de 76 mm, refletindo sua vocação para apoiar tanto a artilharia de campanha quanto a defesa antiaérea. Em função das elevadas massas rebocadas e das exigências de segurança veicular, o M-4 foi equipado com um sofisticado e eficiente sistema combinado de freios a ar e elétrico, concebido para garantir controle e estabilidade mesmo em condições adversas de terreno, declives acentuados ou manobras de emergência. Esse recurso representava um avanço significativo em relação aos tratores de artilharia então em serviço. O projeto do veículo também contemplava uma ampla área de armazenamento na seção traseira, refletindo a doutrina segundo a qual parte substancial da munição deveria acompanhar a peça de artilharia em deslocamento. Para esse fim, dispunha de racks modulares e customizáveis, aptos a acomodar projéteis de 90 mm, 155 mm, 200 mm e 240 mm. No caso específico das munições de maior calibre e elevado peso, a movimentação dos projéteis desde os racks até a culatra da peça era realizada com o auxílio de um guindaste mecânico integrado ao próprio veículo, recurso que aumentava significativamente a eficiência e reduzia o esforço físico da guarnição. A capacidade total de transporte de munição podia alcançar até 54 projéteis de artilharia, além de aproximadamente 500 cartuchos de metralhadora calibre .50, reforçando o caráter multifuncional do trator. O amplo espaço da carroceria permitia, ainda, o transporte confortável de até 10 soldados pertencentes à guarnição da peça de artilharia, além do condutor, consolidando o como um verdadeiro veículo de apoio integrado. Como medida adicional de autoproteção, era equipado com uma metralhadora Browning M-2 calibre .50, instalada em um anel giratório no teto da cabine, possibilitando seu emprego tanto contra alvos aéreos de baixa altitude quanto contra ameaças terrestres.
Os primeiros exemplares de produção do trator de artilharia M-4 começaram a ser entregues ao Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) no início da década de 1940, inicialmente em caráter experimental, com o objetivo de equipar unidades de artilharia selecionadas. Nessa fase preliminar, os veículos foram submetidos a extensos testes de campo, nos quais se avaliaram sua capacidade de tracionar peças de artilharia média, acompanhar colunas mecanizadas e operar de forma eficaz em terrenos adversos, como lama profunda, areia solta e trilhas não preparadas. Com a entrada na Segunda Guerra Mundial, em dezembro de 1941, a necessidade de meios móveis e confiáveis tornou-se imediata. Nesse contexto, o M-4 foi rapidamente incorporado ao serviço regular, sendo distribuído às unidades de artilharia de campanha e antiaérea do Exército, com destaque inicial para aquelas destinadas ao Teatro do Pacífico, onde as condições geográficas e climáticas impunham severas exigências logísticas. O batismo de fogo do M-4 ocorreria nos primeiros dias de agosto de 1942, durante as operações anfíbias conduzidas pelas forças aliadas lideradas pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) nas ilhas de Guadalcanal, Tulagi e Florida, no arquipélago das Ilhas Salomão. O objetivo estratégico dessas ações era negar ao Japão o uso dessas posições avançadas como bases para ameaçar as linhas de suprimento e comunicações entre os Estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia. Durante essa campanha, foi amplamente empregado no reboque de peças de artilharia média e pesada, transportando-as desde as praias recém-conquistadas até posições avançadas no interior das ilhas. As condições operacionais eram extremamente severas, caracterizadas por terreno pantanoso, vegetação densa, ausência quase total de infraestrutura viária e pela constante ameaça inimiga, tanto terrestre quanto aérea. Nesse ambiente hostil, teve suas qualidades plenamente testadas. Seu sistema de esteiras largas, a blindagem leve e a capacidade de acompanhar unidades de infantaria e artilharia em ritmo acelerado mostraram-se decisivos para garantir a mobilidade do apoio de fogo, mesmo sob fogo inimigo direto e ataques aéreos esporádicos. O desempenho satisfatório do veículo durante a campanha de Guadalcanal consolidou sua reputação como um meio robusto, confiável e adaptado a operações, validando definitivamente o conceito de tratores de artilharia de alta velocidade no contexto da guerra moderna. O incremento da produção em série permitiu, equipar um número crescente de regimentos, não apenas no Teatro do Pacífico, mas também nas unidades de artilharia estacionadas na Grã-Bretanha, que se encontravam em intenso processo de treinamento e preparação para a Operação Overlord a invasão aliada pelas praias da Normandia, em junho de 1944. Nesse processo evolutivo, surgiu a versão aprimorada M-4A1, equipada com um novo modelo de esteiras mais largas do tipo “duckbill” (bico de pato), especialmente otimizado para operação em terrenos difíceis, como lama e areia. Essa modificação seguia a mesma lógica das melhorias introduzidas nos carros M-4 Sherman a partir de 1944, reforçando a capacidade do trator de acompanhar as forças blindadas e mecanizadas aliadas nos estágios finais do conflito europeu.

Durante o conflito , o M-4 consolidou-se como um dos principais tratores de artilharia empregados pelas forças armadas aliadas, operando em praticamente todos os teatros de operações. Projetado para garantir elevada mobilidade às unidades de artilharia pesada, o veículo destacou-se pela robustez mecânica, capacidade de tração e desempenho em terrenos difíceis, tornando-se peça fundamental no deslocamento de obuseiros de grande calibre, munições e equipes de apoio. Ao longo da produção, seriam desenvolvidas versões melhoradas, se destacando o M-4C, que incorporava modificações internas significativas, especialmente a adoção de compartimentos e racks de munição reprojetados, permitindo maior capacidade de transporte de projéteis e melhor organização logística no interior do veículo. A produção da família M-4 foi encerrada em maio de 1945, após a fabricação de aproximadamente 5.811 veículos, número que refletia a importância estratégica atribuída ao modelo. Com o término da guerra e o início do processo de desmobilização das forças armadas norte-americanas, centenas desses tratores passaram gradualmente a ser retirados do serviço ativo e armazenados como reserva estratégica. Posteriormente, muitos exemplares foram incorporados ao programa de assistência militar, conhecido como Military Assistance Program (MAP), sendo cedidos a Portugal, Brasil, Nova Zelândia, Paquistão, Iugoslávia e Japão. Paralelamente ao uso militar, um número expressivo de tratores foram desmilitarizados e comercializados no mercado civil, passando a operar em atividades de construção pesada, mineração e exploração florestal. Durante a década de 1960, cerca de 500 unidades foram adquiridas pela empresa canadense G.M. Philpott Ltd., sediada em Vancouver, permanecendo em atividade por várias décadas, alguns sobrevivendo operacionalmente até os dias atuais. O início da Guerra da Coreia, em 1950, levou o M-4 novamente a um cenário de conflagração real, porém diferentemente do ambiente operacional altamente móvel observado durante a Segunda Guerra Mundial, o conflito coreano assumiria progressivamente características de guerra estática e de posições, especialmente após 1951. Nesse contexto, desempenhou papel essencial no deslocamento e reposicionamento constante das baterias de artilharia, permitindo ajustes rápidos de alcance, orientação e cobertura de fogo conforme a evolução das linhas defensivas. Sua capacidade de operar em terrenos acidentados e sob condições climáticas severas mostrou-se particularmente valiosa no ambiente montanhoso da península coreana. Apesar de sua reconhecida utilidade operacional, o conflito também evidenciou os sinais de obsolescência do projeto. Ao longo da década de 1950, o papel anteriormente desempenhado pelo M-4 High Speed Tractor passou progressivamente a ser assumido por sistemas mais modernos de artilharia autopropulsada e veículos de apoio logístico mecanizado. Além disso, o constante aumento do peso e da complexidade das peças de artilharia modernas, aliado à crescente padronização de caminhões táticos 6×6 mais potentes e versáteis, contribuiu para a gradual substituição dos tratores de artilharia sobre lagartas por plataformas mais modernas e especializadas, encerrando assim a trajetória operacional de um dos mais importantes tratores de artilharia empregados pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial e os primeiros anos da Guerra Fria.
Emprego no Exército Brasileiro.
No início da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), o governo dos Estados Unidos passou a observar com crescente apreensão a possibilidade de uma incursão das potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão no continente americano. A rápida expansão militar alemã na Europa, culminando com a capitulação da França em junho de 1940, agravou essas preocupações, sobretudo pela hipótese de que forças nazistas pudessem utilizar territórios coloniais franceses, como Dacar, na África Ocidental, e as Ilhas Canárias, no Atlântico, como bases avançadas para operações militares. Nesse cenário de incerteza geopolítica, o Brasil emergiu como peça fundamental na estratégia hemisférica de defesa dos Aliados, tanto por sua posição geográfica privilegiada no Atlântico Sul o ponto mais próximo entre as Américas e o continente africano quanto por seu papel como fornecedor de matérias-primas indispensáveis ao esforço de guerra. A vulnerabilidade do litoral brasileiro, especialmente da região Nordeste, despertou a atenção dos planejadores norte-americanos, que viam o país como o elo mais frágil da defesa continental. A proximidade com a costa africana, aliada às ambições expansionistas alemãs naquele território, tornava o Brasil o ponto mais provável para uma tentativa de desembarque inimigo em caso de ofensiva do Eixo no hemisfério ocidental. Paralelamente, a expansão japonesa no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul ampliava o valor estratégico do Brasil. Com a queda da Malásia sob domínio nipônico, o país consolidou-se como o principal fornecedor mundial de látex natural matéria-prima essencial para a produção de borracha, componente vital da indústria bélica aliada. A crescente dependência norte-americana desses insumos fortaleceu os laços comerciais e políticos entre Brasília e Washington. Do ponto de vista geoestratégico, o Nordeste brasileiro assumiu papel central na logística intercontinental. As cidades de Natal, Recife e Fortaleza ofereciam condições ideais para o estabelecimento de bases aéreas e navais, permitindo o trânsito de tropas, aeronaves e suprimentos entre a América e os teatros de operações no Norte da África e na Europa. A chamada “rota do Atlântico Sul” tornou-se vital para o transporte de material bélico, configurando o território brasileiro como uma verdadeira ponte entre os continentes. A intensificação das ameaças globais e o avanço das potências do Eixo aproximaram politicamente o Brasil dos Estados Unidos. Essa cooperação resultou em acordos bilaterais de defesa e em expressivos investimentos militares, voltados à modernização das Forças Armadas Brasileiras. O ponto culminante dessa parceria foi a adesão do Brasil ao Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), promulgado pelo governo Roosevelt, que permitiu o fornecimento de armamentos, veículos e aeronaves aos países aliados. Naquele momento, o Exército Brasileiro enfrentava sérias limitações materiais e doutrinárias, operando com equipamentos obsoletos e insuficientes. Por meio deste programa, o Brasil recebeu uma linha de crédito inicial de US$ 100 milhões de doláres, destinada à aquisição de material militar moderno incluindo carros de combate, viaturas, navios, aeronaves e armamentos leves.
Apesar de o Exército Brasileiro ter sido amplamente beneficiado pelo processo de reequipamento decorrente da cooperação militar com os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, os acordos de fornecimento de material bélico não contemplaram, de forma imediata, a cessão dos então modernos tratores de artilharia M-4 e M-5 High Speed Tractor. Essa lacuna teve impacto direto sobre a mobilidade operacional dos obuseiros de grande calibre e das peças antiaéreas, recebidas em número significativo ao longo do conflito, cuja movimentação em território nacional passou a enfrentar consideráveis limitações logísticas. Diante dessa realidade, a tarefa de tracionar e apoiar tais sistemas de armas continuou a recair sobre os tratores Minneapolis-Moline GTX-147 6×6, adquiridos nos Estados Unidos em 1941. Embora robustos e confiáveis para sua época, esses veículos já não atendiam plenamente às exigências impostas pela doutrina moderna de artilharia mecanizada, sobretudo no que dizia respeito à mobilidade tática, à capacidade fora de estrada e à integração com unidades motorizadas e blindadas. Nesse contexto de crescente envolvimento brasileiro no esforço de guerra aliado, consolidou-se a decisão política e militar de empregar tropas nacionais no teatro europeu. Tal intenção materializou-se em 9 de agosto de 1943, quando, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, publicada em boletim reservado no dia 13 do mesmo mês, foi oficialmente constituída a Força Expedicionária Brasileira (FEB). A criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) marcou um ponto de inflexão na história militar do país, exigindo um nível de padronização logística e operacional compatível com os padrões adotados pelos exércitos aliados. Curiosamente, entretanto, os tratores M-4 High Speed Tractor (HST), mais modernos e adequados à artilharia média, não foram disponibilizados aos contingentes brasileiros enviados à Itália. Para o apoio direto às unidades de artilharia da Força Expedicionária Brasileira (FEB), foram fornecidos apenas 05 tratores de artilharia sobre esteiras do modelo M-5, destinados ao emprego junto à principal unidade de artilharia de campanha brasileira no teatro europeu, o 1º Grupo do 1º Regimento de Artilharia Pesada Curta (1º/1º RAP). Esses veículos blindados desempenharam papel fundamental na tração das peças, no transporte de guarnições e na manutenção da mobilidade da artilharia brasileira em condições operacionais severas, típicas do relevo e do clima italianos. Com o encerramento das hostilidades na Europa, em maio de 1945, os tratores de artilharia M-5, assim como os demais veículos, armamentos e equipamentos pertencentes ao Exército Brasileiro empregados, foram recolhidos e encaminhados ao Comando de Material do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), sediado na cidade de Roma. Nessa organização logística, o material brasileiro passou por processos de triagem e avaliação técnica, sendo que os veículos em melhor estado de conservação foram armazenados e, posteriormente, reembarcados para o Brasil por via marítima, onde seriam incorporados ao inventário da Força Terrestre e empregados no processo de modernização do pós-guerra.
Na segunda metade da década de 1940, o governo dos Estados Unidos, com o objetivo de preservar e ampliar sua influência política e militar junto às nações aliadas, instituiu o Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP). Essa iniciativa visava não apenas fortalecer a capacidade defensiva de países considerados estratégicos, mas também consolidar alianças no contexto do início da Guerra Fria, por meio da criação de linhas de crédito e de condições econômicas favoráveis para o fornecimento de material militar excedente, proveniente principalmente dos vastos estoques acumulados durante o conflito. Nesse contexto, o Brasil foi incluído entre os países beneficiários do programa. A partir do final de 1948, as Forças Armadas Brasileiras passaram a receber volumes expressivos de equipamentos militares, abrangendo armamentos, munições, motores, ferramental especializado e um amplo conjunto de peças de reposição, fundamentais para a modernização e padronização de seus meios operacionais. No campo dos veículos blindados e de apoio à artilharia, o Exército Brasileiro foi contemplado com um lote significativo composto por carros de combate médios M-4 Sherman e tratores de artilharia do modelo M-4A1 High Speed Tractor. O acordo previa a cessão de 64 unidades desse último tipo, considerado à época um meio moderno e altamente adequado para o reboque de peças de artilharia pesada e antiaérea. Para assegurar a incorporação de veículos em condições satisfatórias de uso, uma comitiva brasileira foi enviada aos Estados Unidos com a missão de selecionar os tratores em melhor estado de conservação. Após essa triagem, os veículos escolhidos foram submetidos a um processo completo de revisão mecânica e recuperação, antes de serem despachados por via marítima ao Brasil. As entregas ocorreram de forma escalonada, em diferentes lotes, ao longo do período compreendido entre 1949 e 1952, marcando uma etapa relevante no reaparelhamento e na modernização dos meios do Exército Brasileiro no pós-guerra. O recebimento e a incorporação em serviço do trator de artilharia M-4A1 representaram um avanço significativo para a mobilidade e a eficiência operacional da artilharia de campanha do Exército Brasileiro. Até então, essa capacidade encontrava-se seriamente limitada, uma vez que o tracionamento das peças de artilharia dependia de meios escassos e heterogêneos. Entre eles destacavam-se alguns poucos tratores M-5 remanescentes da Campanha da Itália, já bastante desgastados, bem como dois ou três tratores alemães de meia-lagarta Hanomag Sd.Kfz.7, incorporados havia mais de duas décadas. Esses meios eram ainda complementados, de forma claramente inadequada, pelos obsoletos e pouco eficientes tratores Minneapolis-Moline GTX-147 6×6, cuja substituição tornara-se urgente diante das novas exigências operacionaiNesse contexto, os então “novos” M-4 High Speed Tractor passaram a ser destinados, em um primeiro momento, aos Grupos de Artilharia de Campanha (GAC) e aos Grupos de Artilharia de Costa Motorizados (GACosM), estendendo-se posteriormente aos Grupos de Canhões Antiaéreos (GC AAe).
Entre as principais organizações militares contempladas com esses veículos destacaram-se o 5º Grupo de Canhões Antiaéreos de 90 mm (5º GCan 90 AAe), o 1º Grupo de Canhões Antiaéreos de 90 mm (1º GCan 90 AAe), no Rio de Janeiro, a Escola de Artilharia de Costa (EAC), a Escola de Defesa Antiaérea (EsDAAe), o 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (6º GACosM), o 1º Grupo do 7º Regimento de Obuses 105 (1º GA/7º RegOb), o 8º Grupo de Artilharia 75 Auto-Rebocado (8º GaRec 75), o 26º Grupo de Artilharia de Campanha (26º GAC) e o 2º Grupo de Obuses de 155 mm (2º GaOb 155 mm). Nessas unidades, os M-4 High Speed Tractor designados como Trator de transporte sobre lagartas (Tt SL) passaram a complementar os tratores M-5 ainda em serviço e, gradualmente, substituíram de forma definitiva os antigos Minneapolis-Moline GTX-147 6×6. Embora projetados originalmente para o reboque de peças de artilharia pesada, esses tratores demonstraram elevada versatilidade, sendo empregados no tracionamento de uma ampla variedade de armamentos. Entre eles figuravam obuseiros de origem alemã Krupp de 88 mm, peças britânicas Vickers-Armstrong de 152 mm, obuseiros norte-americanos M-114A2 de 155 mm, bem como os pesados canhões antiaéreos M-3 de 76 mm e M-1A3 de 90 mm. Dessa forma, a introdução do M-4A1 Tt SLr contribuiu decisivamente para a modernização logística e para o aumento da capacidade de manobra da artilharia do Exército Brasileiro. Nesse contexto, os então “novos” M-4 High Speed Tractor passaram a ser destinados, em um primeiro momento, aos Grupos de Artilharia de Campanha (GAC) e aos Grupos de Artilharia de Costa Motorizados (GACosM), estendendo-se posteriormente aos Grupos de Canhões Antiaéreos (GC AAe). Entre as principais organizações militares contempladas com esses veículos destacaram-se o 5º Grupo de Canhões Antiaéreos de 90 mm (5º GCan 90 AAe), o 1º Grupo de Canhões Antiaéreos de 90 mm (1º GCan 90 AAe), no Rio de Janeiro, a Escola de Artilharia de Costa (EAC), a Escola de Defesa Antiaérea (EsDAAe), o 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (6º GACosM), o 1º Grupo do 7º Regimento de Obuses 105 (1º GA/7º RegOb), o 8º Grupo de Artilharia 75 Auto-Rebocado (8º GaRec 75), o 26º Grupo de Artilharia de Campanha (26º GAC) e o 2º Grupo de Obuses de 155 mm (2º GaOb 155 mm). Nessas unidades, os M-4 High Speed Tractor designados como Trator de transporte sobre lagartas (Tt SL) passaram a complementar os tratores M-5 ainda em serviço e, gradualmente, substituíram de forma definitiva os antigos Minneapolis-Moline GTX-147 6×6. Embora projetados originalmente para o reboque de peças de artilharia pesada, esses tratores demonstraram elevada versatilidade, sendo empregados no tracionamento de uma ampla variedade de armamentos. Entre eles figuravam obuseiros de origem alemã Krupp de 88 mm, peças britânicas Vickers-Armstrong de 152 mm, obuseiros norte-americanos M-114A2 de 155 mm, bem como os pesados canhões antiaéreos M-3 de 76 mm e M-1A3 de 90 mm. Dessa forma, a introdução do M-4A1 Tt SL contribuiu decisivamente para a modernização logística e para o aumento da capacidade de manobra da artilharia do Exército Brasileiro.
Durante anos, os M-4A1 Tt SL prestaram relevantes e continuados serviços às unidades de artilharia. Mesmo equipados com um grupo motopropulsor distintos daquele empregado nos carros de combate leves M-3 Stuart, esses veículos mantiveram elevados índices de disponibilidade operacional. Cabe destacar que os M-4A1 apresentavam ampla comunalidade de componentes com os carros de combate M-3 Stuart, especialmente nos sistemas de suspensão, hidráulico e elétrico. Tal característica revelou-se estratégica do ponto de vista logístico, pois possibilitou a formação de um significativo estoque de peças de reposição, garantindo a manutenção contínua dos tratores e assegurando que sua operação não comprometesse a capacidade operacional da artilharia de campanha. Essa proximidade de concepção e de soluções técnicas também favoreceu a inclusão do M-4A1 nos estudos de modernização e remotorização da frota de carros de combate M-3 Stuart, conduzidos a partir do final da década de 1960 pela equipe técnica do Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2). O cerne desse programa consistia na substituição dos motores originais a gasolina por modernos motores a diesel de fabricação nacional, mais econômicos, confiáveis e compatíveis com a realidade industrial brasileira. A exemplo do que fora implementado com êxito nos carros de combate M-3 e M-3A1 Stuart, o mesmo processo foi estendido à frota de tratores de artilharia M-4A1Tt SL
. Esses veículos passaram a receber o motor diesel Scania-Vabis D-11, com potência de 205 hp, o que resultou em significativa melhoria de desempenho e autonomia, além de uma sensível redução nos custos de operação e manutenção. Visualmente, os tratores modernizados distinguiam-se apenas por um detalhe externo discreto: o posicionamento do tubo de escape, semelhante ao adotado nos caminhões civis a diesel. Paralelamente, este processo contemplou a nacionalização de diversos componentes críticos, com destaque para os patins de borracha das esteiras. Essa iniciativa prolongou de forma decisiva a vida útil operacional dos M-4A1 Tt SL. A desativação dos antigos canhões ingleses Vickers Armstrong de 152,4 mm em meados da década de 1970, reduziria drasticamente necessidade do emprego dos veteranos tratores de artilharia M-4A1 Tt SL . Desta maneira a partir de 1980 seria iniciado um gradativo processo de desativação destas viaturas, com a maioria destes sendo armazenados. Neste contexto cerca de 17 destes M-4A1 Tt SL seriam destinados a servir como fonte de peças de reposição, principalmente componentes do seu sistema de suspensão, que seria empregado no desenvolvimento dos protótipos e pré-séries dos novos carros de combate leve nacional Bernardini CCL X1 Pioneiro, ajudando assim a viabilizar este importante programa. Poucos tratores de artilharia M-4A1 Tt SL seriam mantidos ainda em operação junto a alguns Grupos de Artilharia de Campanha (GAC) e Grupos de Canhões Antiaéreo (GC AAe), até meados da década de 1990, quando enfim foram desativadas do serviço ativo. Algumas destas viaturas seriam conservadas em museus militares ou ainda preservados em condições de uso para emprego em datas cerimoniais.
Em Escala.
Para representarmos o trator de artilharia sobre lagartas M-4A1 High Speed Tractor (Tt SL) “EB31-201” em sua versão original, fizemos uso do excelente kit da Hobby Boss, que prima pelo detalhamento e nos brinda com sets em photo etched que trazem ao modelo um excelente nível de acabamento. Para se representar a versão brasileira podemos montar o modelo direto da caixa sem a necessidade de alterações, apesar de algumas fotos de época apresentarem a roda tratora de coroa sólida. Temos informações que o Exército Brasileiro recebeu viaturas dos dois tipos. Empregamos decais Eletric Products pertencentes ao set “Exército Brasileiro 1942 - 1982".O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), com quais os M-4A1 High Speed Tractor (Tt SL), foram recebidos em 1949, com este mantendo até o final de sua carreira em 1997. Salientamos ainda que pelo menos cinco destestratores de artilharia receberam em fins da década de 1980 o novo o esquema de camuflagem tático em dois tons adotado pela Força Terrestre, adotado naquele período.
Bibliografia :
- O Stuart no Brasil – Helio Higuchi, Reginaldo Bachi e Paulo R. Bastos Jr.
- M-4 Tractor Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/M4_Tractor
- Blindados no Brasil Volume I, por Expedito Carlos S. Bastos
- Blindados no Brasil Volume II, por Expedito Carlos S. Bastos