F-2000C Dassault Mirage 2000 RDI


História e Desenvolvimento. 
Durante a segunda metade da década de 1950, a intensificação das tensões entre os países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e o Pacto de Varsóvia aprofundou o clima de confronto característico da Guerra Fria. A possibilidade real de ataques aéreos  convencionais ou nucleares levou as grandes potências e seus aliados a ampliar significativamente os investimentos em defesa, com especial ênfase na proteção do espaço aéreo nacional. Nesse cenário, tornou-se prioritária a busca por soluções capazes de neutralizar bombardeiros de alta velocidade e grande altitude, o que impulsionou o desenvolvimento de uma nova geração de caças interceptadores supersônicos de alto desempenho. Embora houvesse iniciativas de cooperação tecnológica no âmbito da OTAN, a política estratégica adotada pelo governo francês seguia uma orientação distinta. Paris defendia firmemente a autonomia nacional no desenvolvimento e na produção de sistemas de defesa considerados estratégicos, evitando dependência tecnológica ou política de outras nações. Essa diretriz, que se tornaria um dos pilares da doutrina de defesa francesa no pós-guerra, influenciou diretamente os rumos da indústria aeronáutica do país. Nesse contexto, em 1953, o comando da Força Aérea Francesa (Armée de l’Air) encomendou estudos preliminares para o desenvolvimento de um interceptador supersônico leve, concebido como uma aeronave de elevada performance e vocacionada para a defesa aérea. Entre os requisitos operacionais estabelecidos destacavam-se a capacidade de operar em quaisquer condições meteorológicas (all-weather), atingir a altitude de 18.000 metros em até seis minutos e alcançar velocidade máxima de Mach 1,3 (aproximadamente 1.590 km/h) em voo horizontal. Atendendo prontamente a essas especificações, a Marcel Dassault Aviation apresentou ao Ministério da Defesa francês um projeto designado MD.550 Mystère-Delta, um interceptador puro, compacto e extremamente ágil, caracterizado pela adoção da configuração de asa em delta  solução aerodinâmica ainda experimental à época, mas promissora para o voo supersônico. O projeto previa a utilização de dois motores turbojato britânicos Armstrong Siddeley MD.30R Viper, equipados com pós-combustores, cada um fornecendo 9,61 kN (2.160 lbf) de empuxo, complementados por um motor-foguete de combustível líquido capaz de gerar empuxo adicional de 14,7 kN (3.300 lbf), recurso destinado a maximizar a razão de subida da aeronave. A proposta despertou o interesse da Armée de l’Air, que autorizou a liberação de recursos para a construção de um protótipo funcional. Contudo, a aeronave experimental não recebeu os pós-combustores originalmente previstos, apresentando um perfil de missão limitado a cerca de vinte minutos de voo, com desempenho máximo restrito a Mach 0,95 (aproximadamente 1.170 km/h) e teto operacional modesto. Esses resultados foram considerados insatisfatórios diante das exigências estratégicas da defesa aérea francesa. Diante disso, o projeto passou por uma revisão profunda, resultando em uma aeronave significativamente aprimorada. A nova versão passou a ser equipada com o motor turbojato francês Snecma Atar 101G1, dotado de pós-combustor e capaz de desenvolver 43,2 kN (9.700 lbf) de empuxo, o que representou um salto expressivo em desempenho. Com essas modificações, o projeto recebeu sua designação definitiva: Dassault Mirage III.

O avanço técnico alcançado levou à celebração de um primeiro contrato para a produção de um lote de pré-série, com as aeronaves iniciais sendo entregues a partir de maio de 1957. Após a conclusão dos ensaios em voo e a validação do conceito operacional, no início do ano seguinte a Força Aérea Francesa formalizou a encomenda de 95 aeronaves de série, cujas entregas tiveram início em fevereiro de 1961. Mesmo antes de sua plena incorporação operacional na França, o Mirage III já despertava considerável interesse internacional, assegurando diversos contratos de exportação. Paralelamente, atendendo às solicitações dos operadores, a equipe de projetos do fabricante foi instada a desenvolver uma versão biplace, destinada a treinamento avançado e conversão operacional, ampliando ainda mais o alcance e a relevância do programa Mirage no cenário aeronáutico mundial. O Dassault Mirage IIIE, na condição de caça multifuncional, alcançou expressivo êxito comercial e operacional no cenário internacional, afirmando-se, a partir de meados da década de 1960, como um dos principais vetores de combate da Força Aérea Francesa (Armée de l’Air). Inserido no contexto estratégico da Guerra Fria, o modelo desempenhou papel de destaque nas missões de primeira linha, integrando o sistema de defesa aérea francês concebido para enfrentar a possibilidade de incursões de bombardeiros soviéticos sobre o território nacional. Sua combinação de desempenho supersônico, simplicidade estrutural e flexibilidade de emprego refletia a maturidade do projeto desenvolvido pela Marcel Dassault Aviation, consolidando o Mirage III como um marco da aviação militar do pós-guerra. Entretanto, o ritmo acelerado da evolução tecnológica, impulsionado pela competição estratégica entre as potências ocidentais e o bloco soviético, rapidamente evidenciou as limitações inerentes ao Mirage IIIE. Avanços em aviônica, sistemas de armas e desempenho aerodinâmico tornaram obsoletos, em um intervalo relativamente curto, conceitos que haviam sido revolucionários poucos anos antes. Diante dessa realidade, o governo francês passou a buscar soluções capazes de assegurar a continuidade da autonomia estratégica e da superioridade aérea, princípios centrais de sua política de defesa. Nesse esforço, destacou-se o ambicioso Programa ACF  Avion de Combat Futur (Avião de Combate do Futuro), lançado no início da década de 1970. O projeto previa o desenvolvimento de uma aeronave multifuncional de última geração, dotada de asas de geometria variável, solução então considerada de vanguarda por prometer elevada flexibilidade operacional, conciliando desempenho em alta velocidade com capacidade de operação em baixas velocidades e curtas pistas. Contudo, as elevadas estimativas de custo, somadas à complexidade técnica e às restrições orçamentárias do período, tornaram o programa insustentável. Em 1972, o programa ACF, foi oficialmente cancelado, frustrando as expectativas de uma ruptura tecnológica imediata na aviação de combate francesa. Em paralelo, a Marcel Dassault Aviation buscava preservar sua posição no mercado internacional por meio da promoção do novo Mirage F1, concebido como sucessor direto do Mirage III. Embora tecnicamente competente e bem aceito por algumas forças aéreas, o Mirage F1 não conseguiu repetir o êxito comercial de seu antecessor. 
O cenário competitivo tornara-se mais desafiador, especialmente com a ascensão do General Dynamics F-16 Fighting Falcon, cuja combinação de desempenho avançado, aviônica moderna e custos operacionais relativamente baixos frequentemente se mostrava mais atraente em processos de seleção internacionais. Essa conjuntura representou um revés relevante para a indústria aeronáutica francesa, evidenciando a necessidade de uma resposta estratégica mais abrangente. Foi nesse contexto de desafios tecnológicos e intensa concorrência global que a Dassault redefiniu suas prioridades. A empresa passou a concentrar seus esforços no desenvolvimento de uma nova aeronave que reunisse inovação tecnológica, eficiência operacional e viabilidade econômica, sem abdicar da filosofia de independência industrial francesa. Assim tomou forma o programa Mirage 2000, concebido como um caça multimissão capaz de substituir, de maneira progressiva, não apenas os Mirage IIIC e IIIE, mas também o SEPECAT Jaguar e o próprio Mirage F1. Ainda em 1972, enquanto o programa ACF permanecia formalmente ativo, a Dassault havia iniciado discretamente um projeto alternativo, designado provisoriamente “Delta 1000”, baseado na evolução da consagrada configuração de asa em delta. Com o cancelamento definitivo do ACF, esse projeto secundário passou a ocupar o centro das atenções da empresa.  Submetido a sucessivas refinarias conceituais, o Delta 1000 viria a constituir o alicerce técnico e doutrinário do futuro  Mirage 2000. Seu desenvolvimento se beneficiaria das experiências acumuladas e das inovações técnicas do programa ACF, entre esses avanços, destacou-se a adoção do motor SNECMA M53, outro aspecto inovador foi a incorporação de slats automáticos ao longo do bordo de ataque das asas, controlados por um avançado sistema de comando de voo elétrico (fly-by-wire).  A decisão de abandonar as asas de geometria variável  e retornar à tradicional configuração de asa em delta  oferecia vantagens relevantes, como maior simplicidade estrutural, redução de peso, menor assinatura radar e significativa capacidade interna de combustível. Todavia, a asa delta impunha desafios bem conhecidos, particularmente em regimes de baixa velocidade, incluindo maiores velocidades de pouso, distâncias mais longas de decolagem e aterrissagem e manobrabilidade limitada em baixas altitudes. Para mitigar essas limitações, introduziu-se o conceito de instabilidade aerodinâmica controlada, deslocando o centro de pressão para uma posição posterior ao centro de gravidade da aeronave. Essa configuração, inviável sem auxílio eletrônico, tornou-se plenamente operacional graças ao sistema fly-by-wire digital e redundante, que garantiu estabilidade artificial, maior agilidade em combate e redução significativa da distância de decolagem. A eficiência nas fases de aproximação e pouso foi ainda aprimorada com a adoção de freios de fibra de carbono, tecnologia de ponta à época, que proporcionava maior capacidade de frenagem, menor peso e melhor resistência térmica. Complementando o foco na eficiência operacional, o Mirage 2000 foi equipado com o sistema HOTAS (Hands On Throttle And Stick), permitindo ao piloto acessar e controlar a maioria dos sistemas essenciais da aeronave diretamente pelo manche e pelo manete de potência. Essa filosofia de interface homem-máquina reduzia a carga de trabalho do piloto, aumentava a consciência situacional e ampliava a eficácia em ambientes de combate de alta intensidade.

O primeiro protótipo do Mirage 2000 realizou seu voo inaugural em 10 de março de 1978, apenas 27 meses após a autorização oficial do programa, concedida pelo governo francês em dezembro de 1975. Esse intervalo notavelmente curto evidenciou não apenas a maturidade técnica da indústria aeronáutica francesa, mas também a urgência estratégica de modernizar os meios de defesa aérea nacionais em um contexto internacional marcado por intensas tensões geopolíticas. A apresentação pública da nova aeronave ocorreu no Farnborough Air Show, em setembro de 1978, onde o Mirage 2000 despertou grande interesse entre especialistas, autoridades militares e potenciais clientes estrangeiros, impressionando pela modernidade de sua concepção. O programa de ensaios em voo foi conduzido com elevado rigor técnico e ritmo acelerado. O segundo protótipo decolou em outubro de 1978, seguido pelo terceiro exemplar, em abril de 1979. Essa fase de testes extensivos permitiu a validação progressiva das características aerodinâmicas, dos sistemas de controle e do desempenho geral da aeronave, culminando na assinatura de um contrato inicial para a produção de 37 unidades. O primeiro exemplar de produção do  foi oficialmente entregue em novembro de 1982, marcando o início da incorporação operacional de uma aeronave que viria a se tornar um dos principais vetores de defesa aérea da França nas décadas seguintes. Em 1984, após um período intensivo de avaliações técnicas, treinamento de tripulações e amadurecimento doutrinário, os caças interceptadores Mirage 2000C foram declarados plenamente operacionais, consolidando sua integração ao sistema de defesa aérea nacional. As primeiras unidades do Mirage 2000C, produzidas nos padrões S1 a S3, foram equipadas com o radar Thomson-CSF RDM (Radar Doppler Multifuncional). Para os padrões tecnológicos da época, esse sistema representava um avanço significativo, oferecendo capacidades eficazes de detecção, acompanhamento e engajamento de múltiplos alvos aéreos. O padrão S3, em particular, introduziu a capacidade de empregar o míssil ar-ar Matra Super R-530F, guiado por radar, o que ampliou de forma substancial o alcance e a eficácia do Mirage 2000 em combates além do alcance visual (BVR), reforçando sua vocação como interceptor de primeira linha. O sucesso inicial do programa levou à assinatura de um segundo contrato, prevendo a produção de 87 aeronaves adicionais, correspondentes aos padrões S4 e S5. Essas versões incorporaram o radar Thomson-CSF RDI (Radar Doppler Impulse), introduzido nas aeronaves entregues a partir de 1987. Esse novo sistema trouxe melhorias expressivas em relação ao RDM, destacando-se sua capacidade aprimorada de “look-down/shoot-down”, fundamental para a detecção e o engajamento de alvos voando a baixa altitude sobre o terreno  uma exigência crítica em cenários operacionais cada vez mais complexos e saturados. Associado ao radar RDI, foi introduzido o míssil Matra Super R-530D, de maior alcance e desempenho, consolidando definitivamente o Mirage 2000C como um vetor de superioridade aérea altamente competitivo no contexto europeu e internacional. Além de sua função primária como caça interceptor, o Mirage 2000 demonstrava considerável flexibilidade em missões de ataque ao solo, com a designação de alvos sendo realizada por meio de pods de designação integrados à própria aeronave ou, alternativamente, por outra plataforma aérea especializada.

No contexto estratégico da Guerra Fria, a manutenção de uma capacidade de dissuasão nuclear crível e independente permaneceu como um dos pilares da política de defesa francesa, desta demanda nasceria a variante Mirage 2000N, projetada especificamente para operar o míssil nuclear Air-Sol Moyenne Portée (ASMP). Seu programa de ensaios em voo do  teve início em 3 de fevereiro de 1983, um segundo protótipo foi incorporado ao programa em 1984, consolidando os testes que culminaram na entrada em serviço operacional do Mirage 2000N em 1988. As primeiras células de produção em série foram baseadas na Base Aérea de Luxeuil, operadas pelo 4º Esquadrão de Caça (Escadre de Chasse). O êxito operacional do Dassault Mirage 2000N, somado à solidez de seu projeto e à comprovada adaptabilidade da plataforma, estimulou naturalmente o desenvolvimento de uma variante especificamente voltada para missões de ataque convencional de precisão. Dessa iniciativa surgiu o Mirage 2000D, concebido para ampliar o espectro de emprego operacional da aeronave e atender às novas exigências estratégicas da Força Aérea Francesa (Armée de l’Air) no período pós-Guerra Fria. O protótipo , convertido a partir de uma célula do Mirage 2000N, realizou seu voo inaugural em 19 de fevereiro de 1991, dando início a um extenso programa de ensaios e validações operacionais. Esses testes confirmaram a viabilidade da aeronave como uma plataforma dedicada ao ataque ao solo, capaz de empregar armamentos convencionais e guiados com elevado grau de precisão, mesmo em cenários operacionais complexos e sob condições adversas. Na sequência, foram formalizados contratos para a aquisição de 75 exemplares do Mirage 2000N e 86 unidades do Mirage 2000D, assegurando a continuidade e a maturidade do programa Mirage 2000 em suas vertentes estratégicas e táticas. As primeiras entregas do Mirage 2000D ocorreram em 31 de março de 1993, e a aeronave atingiu sua capacidade operacional plena em abril de 1995. A partir de então, o modelo tornou-se um dos principais vetores de ataque de precisão da França, desempenhando papel central em diversas operações expedicionárias francesas ao longo das décadas seguintes. No total, as encomendas francesas para o programa Mirage 2000 somaram 315 aeronaves, abrangendo todas as variantes produzidas. Desse conjunto, 20 unidades corresponderam ao Mirage 2000B, versão biposto destinada à formação, conversão operacional e treinamento avançado de pilotos, essencial para garantir a transição segura e eficiente entre os diferentes modelos da família Mirage 2000. As variantes de combate do Mirage 2000, em especial o Mirage 2000C, foram equipadas com um avançado pacote de contramedidas eletrônicas e sistemas de autodefesa, refletindo a crescente importância da guerra eletrônica nos conflitos modernos. Esse conjunto incluía: Receptor de alerta radar (RWR) Thales Serval, com antenas instaladas nas extremidades das asas e na parte posterior da deriva, responsável por alertar o piloto sobre emissões radar hostis; Sistema de contramedidas eletrônicas Dassault Sabre, destinado à interferência ativa em sensores e radares adversários; Dispensadores de chaff e flares Matra Spirale, instalados na raiz das asas, oferecendo proteção eficaz contra mísseis guiados por radar ou infravermelho. Com o objetivo de manter o modelo tecnologicamente relevante e competitivo no mercado internacional, em 1990 seria iniciado o desenvolvimento do  Mirage 2000-5, incorporando radares de nova geração, sistemas de missão mais avançados e maior integração de armamentos modernos, ampliando consideravelmente as capacidades de combate da aeronave. Concebido como multimissão, o avião foi projetado para atuar com eficiência em missões de superioridade aérea, ataque ao solo e reconhecimento. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Ao final da década de 1990, a Força Aérea Brasileira (FAB) encontrava-se diante de um cenário particularmente desafiador no campo da aviação de caça e ataque, reflexo direto do esgotamento tecnológico e estrutural de seus principais vetores de combate. A frota de primeira linha contava então com aproximadamente 65 aeronaves, distribuídas entre os caças franceses Marcel Dassault Mirage F-103E  e os norte-americanos Northrop F-5E Tiger II. Esses meios estavam concentrados em quatro unidades de caça, incluindo o tradicional 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) e o 1º/14º Grupo de Aviação – Esquadrão Pampa, responsáveis por missões estratégicas de defesa aérea do território nacional. Embora reconhecidos por sua robustez e confiabilidade operacional, tanto o F-103E quanto o F-5E pertenciam, respectivamente, à segunda e à terceira gerações de aeronaves de combate, encontrando-se tecnologicamente defasados frente aos caças de quarta geração que, àquela altura, já constituíam o padrão predominante nas principais forças aéreas do mundo. Durante a Guerra Fria, essas aeronaves haviam desempenhado papel fundamental na defesa do espaço aéreo brasileiro, destacando-se em missões reais de interceptação, como o episódio ocorrido em 1982, quando caças da F-5E interceptaram um bombardeiro Avro Vulcan britânico durante o conflito das Ilhas Malvinas. Contudo, o cenário estratégico da década de 1990 evidenciava uma mudança profunda na natureza do combate aéreo. A participação brasileira em exercícios multinacionais conjuntos ao longo desse período revelou de forma clara as limitações de seus vetores frente a aeronaves mais modernas, como o Dassault Mirage 2000 e o Lockheed Martin F-16C/D Fighting Falcon. A principal deficiência residia na incapacidade de operar em combates além do alcance visual (Beyond Visual Range – BVR), uma capacidade considerada essencial na guerra aérea contemporânea. Tal limitação decorria da ausência de radares multimodo avançados, mísseis ar-ar de longo alcance e sistemas aviônicos plenamente integrados, elementos indispensáveis para a obtenção e manutenção da superioridade aérea em cenários modernos. Além das restrições tecnológicas, somavam-se preocupações de ordem estrutural e logística. Muitos dos F-103E, incorporados na década de 1970, aproximavam-se do limite de sua vida útil estrutural, apresentando sinais crescentes de fadiga nas células. Os custos de manutenção aumentavam progressivamente, tornando a continuidade de sua operação economicamente onerosa e operacionalmente arriscada. Os F-5E Tiger II, embora mais recentes e passiveis de modernização , também careciam de sistemas compatíveis com os padrões da quarta geração, como mísseis BVR do tipo AIM-120 AMRAAM e sensores de maior alcance e capacidade. Diante desse quadro, passou-se a reconhecer, de forma inequívoca, a necessidade de adquirir um novo vetor de combate, estimando-se a incorporação de ao menos 50 aeronaves multimissão de quarta geração, destinadas a substituir os F-103E  e complementar a frota de F-5E. Esse entendimento materializou-se institucionalmente em julho de 2000, com a aprovação do Programa de Fortalecimento do Controle do Espaço Aéreo Brasileiro, no qual o projeto FX BR representava o componente de natureza ofensiva e dissuasória.

Com um orçamento inicial estimado em aproximadamente US$ 700 milhões, o programa FX BR previa a aquisição de 12 a 24 caças de superioridade aérea, capazes de operar em ambientes de combate moderno e de fortalecer de forma significativa o Sistema de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo (SISDACTA). Sob a coordenação do Ministério da Defesa, foi conduzido um criterioso processo de análise técnica e operacional, envolvendo propostas de diversos fabricantes internacionais. Entre os concorrentes avaliados destacavam-se aeronaves consagradas no mercado global, como o Dassault Mirage 2000-5, o Lockheed Martin F-16C/D, o Sukhoi Su-30 e o Saab JAS 39 Gripen. Após uma avaliação rigorosa, foi estabelecida uma lista final (short list) com os modelos considerados mais alinhados aos requisitos operacionais, logísticos e financeiros. Contudo, apesar do avanço técnico alcançado pelo programa, o ímpeto do FX BR foi interrompido em 2002. Apesar de contar com financiamento externo já assegurado, o que reduziria substancialmente a necessidade de desembolsos imediatos por parte do Estado brasileiro, a nova administração federal optou por cancelar o programa de aquisição de novos caças, redirecionando as prioridades orçamentárias para políticas sociais consideradas mais urgentes naquele contexto. Ainda assim, a necessidade premente de substituição e atualização da frota de combate permanecia incontornável. Consciente de suas limitações orçamentárias e da responsabilidade de preservar a capacidade mínima de defesa aérea do país, o Ministério da Defesa, , optou por adotar uma estratégia dual, buscando maximizar resultados com recursos escassos. O primeiro eixo dessa estratégia consistiu na realização de um estudo aprofundado para a modernização da frota de caças F-5E/F Tiger II.  O segundo eixo  buscava uma solução imediata para a substituição dos F-103E/D Mirage, cujas células, com mais de 30 de serviço, encontravam-se próximas do limite de sua vida útil estrutural, tornando técnica e economicamente inviável qualquer tentativa de modernização. Assim passou-se a estudar a aquisição ou o arrendamento de caças usados, que atuariam como um vetor tampão, garantindo a continuidade da defesa aérea. Entre as alternativas avaliadas figuraram propostas para o leasing caças  Kfir C-10, o aluguel  Sukhoi Su-27SK e a aquisição de caças F-16 usados holandeses. Contudo, por uma combinação de fatores técnicos, financeiros, logísticos e políticos, nenhuma dessas propostas ultrapassou as fases preliminares de estudo.  Somente em 2003 o processo de aquisição de um novo vetor de combate foi formalmente retomado, agora sob a designação oficial de Programa FX-2 BR. Nessa nova fase, propostas atualizadas foram apresentadas por diversos fabricantes, e o processo de avaliação técnica foi reiniciado do zero, com um cronograma que previa a definição do vencedor em março de 2004. Tornou-se evidente que, mesmo após a escolha de um vencedor no FX-2, haveria um intervalo mínimo de cinco anos entre a decisão final e a entrega das primeiras aeronaves, um hiato considerado inaceitável do ponto de vista estratégico, pois deixaria a defesa aérea brasileira seriamente comprometida por um período excessivamente longo. 
Diante desse cenário crítico,  decidiu-se retomar os estudos em busca de uma solução provisória, voltada à aquisição ou ao arrendamento de vetores de caça disponíveis no mercado internacional, capazes de preencher temporariamente a lacuna deixada pela iminente desativação dos F-103E Mirage III. Entre as opções consideradas, destacou-se uma nova e particularmente vantajosa proposta apresentada pela Dassault Aviation, que, paralelamente, participava da concorrência do Programa FX-2 BR com seu caça multimissão Rafale C. Esta envolvia a venda de 10 células do Mirage 2000C e 02 do  Mirage 2000B (biposto para treinamento e conversão),  provenientes de esquadrões operacionais de primeira linha da Força Aérea Francesa (Armée de l’Air).  A proposta foi formalmente validada pelo Ministério da Defesa do Brasil, culminando na assinatura em 12 de julho de 2003, em Paris, de um  contrato avaliado em 80 milhões de euros, envolvendo  além das aeronaves, armamentos e um pacote abrangente de suporte, incluindo treinamento operacional de pilotos e mecânicos, assistência técnica especializada e um extenso suprimento de peças de reposição, assegurando a manutenção da frota e sua plena operacionalidade ao longo dos anos seguintes. Para garantir a seleção das células em melhor estado de conservação, uma comissão técnica composta por oficiais da  Força Aérea Brasileira (FAB) foi enviada à França, encarregada de avaliar e escolher as aeronaves mais adequadas. Deste seriam  selecionadas 10 células do  Mirage 2000C fabricadas em 1984, equipadas com motores SNECMA M53-5, capazes de gerar 8.998 kgf de empuxo, além do radar Thales RDI S-5.2C Pulse Doppler, dotado de capacidade look-down/shoot-down. O pacote aviônico incluía ainda o sistema de alerta radar RWR Serval e lançadores de contramedidas Éclair, reforçando a sobrevivência em ambientes hostis.  Estas aeronaves seriam acompanhadas de uma gama completa sistemas de armas, incluindo mísseis ar-ar de médio alcance Matra Super 530D (BVR), mísseis de curto alcance Matra Magic 2, munição de 30 mm para os canhões DEFA, além de suprimentos de chaffs e flares. Para ampliar o raio de ação e a autonomia das aeronaves, foram fornecidos tanques suplementares de combustível ventrais, com capacidades de 1.300 e 2.000 litros, instalados nos pontos internos das asas. Paralelamente à preparação logística, foram selecionados pilotos e mecânicos brasileiros para participarem de um programa intensivo de treinamento e conversão operacional na Base Aérea de Orange, no sul da França.  Esse processo foi fundamental para garantir a rápida incorporação do novo vetor às rotinas operacionais brasileiras. O cronograma de entregas foi cuidadosamente estruturado, prevendo a transferência das doze aeronaves em três lotes de quatro unidades cada. Os translados foram realizados por pilotos brasileiros do 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), evidenciando o alto nível de confiança operacional já alcançado. O primeiro lote chegou ao Brasil em 2006, seguido por mais quatro aeronaves em 2007, e, por fim, o último grupo foi entregue em 2008, marcando a conclusão bem-sucedida do programa de aquisição dos Mirage 2000C/B pela Força Aérea Brasileira (FAB).

Em 2006, as aeronaves Dassault Mirage 2000, designadas pela Força Aérea Brasileira (FAB) como F-2000, foram oficialmente declaradas plenamente operacionais, assinalando um avanço relevante na capacidade de defesa aérea do Brasil. Incorporados ao 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), sediado na Base Aérea de Anápolis, em Goiás, esses caças passaram a ocupar um papel central na proteção do espaço aéreo nacional, substituindo os jatos de treinamento avançado Embraer AT-26 Xavante, empregados de forma provisória a partir de dezembro de 2005, após a desativação dos últimos Dassault F-103E Mirage IIIEBR. A entrada em serviço dos F-2000 representou um salto qualitativo para a FAB em um momento de transição estratégica, no qual o país buscava preservar sua capacidade de defesa aérea enquanto aguardava a definição de uma aeronave de quarta geração no âmbito do programa F-X2-BR. Embora o Mirage 2000C fosse classificado como um caça de terceira geração, incorporava tecnologias desenvolvidas na segunda metade da década de 1980 que o tornavam substancialmente superior ao Mirage IIIEBR, tanto em desempenho aerodinâmico quanto em sistemas aviônicos e de armamento. Entre os avanços mais significativos destacava-se a introdução do sistema fly-by-wire, baseado em comandos eletrônicos computadorizados para o controle das superfícies móveis da aeronave. O F-2000 tornou-se, assim, o primeiro caça da Força Aérea Brasileira a empregar esse tipo de tecnologia, o que resultou em maior precisão de pilotagem, segurança de voo e desempenho em regimes de alta manobrabilidade. Esse sistema, aliado ao radar Thales RDI S5.2C Pulse Doppler, dotado de capacidade look-down/shoot-down, e ao emprego dos mísseis Matra Super 530D, conferiu ao F-2000 a capacidade de combate além do alcance visual (BVR – Beyond Visual Range), introduzindo uma nova dimensão às táticas de interceptação e defesa aérea do 1º GDA. A incorporação do F-2000C promoveu uma evolução sensível na doutrina operacional do esquadrão. A capacidade BVR possibilitou a realização de treinamentos de combate dissimilar contra os caças Northrop F-5EM Tiger II, operados por outras unidades da Força Aérea Brasileira (FAB). Esses exercícios, que colocavam em confronto aeronaves com características e desempenhos distintos, contribuíram de forma decisiva para o aprimoramento técnico dos pilotos e para a consolidação de novas táticas de combate aéreo. Adicionalmente, os mísseis de curto alcance Matra Magic 2, empregados pelos F-2000, apresentavam desempenho superior aos Rafael Python 3 utilizados anteriormente nos F-103E Mirage e nos F-5E Tiger II, elevando o nível de exigência e realismo nos treinamentos. Ao longo de sua trajetória operacional, os F-2000C também desempenharam papel de destaque em exercícios multinacionais, com especial ênfase na CRUZEX 2006 (Exercício Cruzeiro do Sul), um dos maiores exercícios aéreos da América Latina. O evento reuniu forças aéreas de países como Argentina, Chile, França e Uruguai, proporcionando um ambiente complexo e realista de operações conjuntas. Nessa ocasião, os Mirage F-2000C demonstraram elevada interoperabilidade e eficácia em missões simuladas de defesa aérea e combate aéreo, reforçando a credibilidade e o prestígio internacional da Força Aérea Brasileira (FAB).
Além da participação em exercícios, os F-2000C foram empregados em missões reais de policiamento do espaço aéreo nacional, incluindo interceptações realizadas no contexto de operações como a Ágata, voltadas ao combate ao tráfico de drogas e a crimes transfronteiriços. A operação destas aeronaves, foi concebida desde sua aquisição, em 2003, como uma solução de caráter transitório destinada a recompor e modernizar, de forma imediata, a capacidade de defesa aérea do país. Essa medida buscava assegurar a continuidade da vigilância e do controle do espaço aéreo nacional até a definição e a incorporação de um novo vetor de caça no âmbito do programa F-X2.  No ato da entrega entre os anos de 2006 e 2008 todas as células já se encontravam próximos do limite de sua vida útil, dispondo de aproximadamente mil horas de voo remanescentes por célula. Essa condição estrutural, associada ao caráter temporário do contrato de aquisição, estabeleceu desde o início que o ciclo operacional dos F-2000 se estenderia apenas até o final de 2013. Tratava-se de uma decisão estratégica cuidadosamente ponderada, que buscava equilibrar a necessidade imediata de modernização com critérios de viabilidade econômica e sustentabilidade a médio e longo prazo. Estudos técnicos aprofundados demonstraram que eventuais programas de modernização ou retrofit das aeronaves seriam economicamente inviáveis, em razão do desgaste avançado das células e dos elevados custos envolvidos na atualização de sistemas estruturais e eletrônicos. Diante desse cenário, a Força Aérea Brasileira (FAB) definiu a desativação definitiva do modelo para 31 de dezembro de 2013. Essa decisão também esteve diretamente relacionada ao cronograma do programa F-X2, que culminou na seleção do caça Saab Gripen NG, designado no Brasil como F-39E, cujas primeiras entregas estavam previstas apenas para a década seguinte, a partir de 2022. Para mitigar o hiato operacional resultante, o 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), sediado na Base Aérea de Anápolis, em Goiás, voltou a empregar, de forma provisória, os caças Northrop F-5EM Tiger II modernizados. Embora inferiores aos F-2000 em termos de desempenho e capacidade tecnológica, esses vetores apresentavam maior disponibilidade operacional e custos de manutenção significativamente menores. Em 2013, apenas seis das doze aeronaves F-2000 (nas versões C e B) ainda se mantinham em condições de voo, tendo as demais sido progressivamente desmontadas para servir como fonte de peças de reposição, prática comum em frotas de transição. O último voo operacional de um Mirage F-2000 ocorreu em 20 de dezembro de 2013, quando a aeronave Mirage 2000C, matrícula FAB 4948, decolou da Base Aérea de Anápolis às 10h42, com destino ao Museu Aeroespacial (MUSAL), no Rio de Janeiro. Esse voo, de forte caráter simbólico, marcou o encerramento definitivo da carreira do F-2000, com a aeronave sendo incorporada ao acervo histórico do MUSAL.  Ao longo de seus sete anos de serviço no Brasil, os F-2000 desempenharam um papel fundamental na manutenção da soberania do espaço aéreo nacional. Mais do que isso, introduziram tecnologias até então inéditas, como o sistema fly-by-wire e a capacidade de combate além do alcance visual (Beyond Visual Range – BVR), contribuindo de forma decisiva para a formação e a capacitação de pilotos, técnicos e doutrinadores.

Em Escala.
Para representarmos o Dassault Mirage F-2000C "FAB 4947" empregamos o modelo produzido pela Italeri na escala 1/48, kit este que mescla detalhes em alto e baixo relevo e representa naturalmente e a versão empregada pela Força Aérea Brasileira (FAB) sem a necessidade de se implementar mudanças. Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM Decals, presentes no antigo set 48/40.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático empregado pelas aeronaves táticas Mirage 2000  Força Aérea Francesa (Armée de l’Air) , e  por se tratar de um modelo “stop gap” com emprego por um determinado período, foram apenas adicionadas as marcações nacionais quando do recebimento das células, sendo mantidas o esquema de pintura, bem como as marcações de informações externas (stencials) em francês. Em 2012 o  F-2000C "FAB 4946" foi apresentado na feira internacional "XVI FIDAE" no Chille, com um esquema de pintura em tons de cinza com marcações de baixa visibilidade, porém este padrão foi aplicado somente nesta célula.

Bibliografia :
- Mirage 2000 Mudança de Vetores, Marcelo Mendonça - Revista Força Aérea Nº 40
- Anápolis a Toca dos Jaguares, Luciano R Melo – Revista Força Aérea Nº 61
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html

VH-35 & UH-17 Colibri EC/HM-135


História e Desenvolvimento. 
A Messerschmitt-Bölkow-Blohm (MBB) surgiu no final da década de 1960 como resultado direto dos esforços empreendidos pelo governo da Alemanha Ocidental para reorganizar, fortalecer e conferir competitividade à sua indústria aeroespacial, profundamente fragmentada e enfraquecida no período posterior à Segunda Guerra Mundial. A criação da empresa refletiu uma estratégia nacional mais ampla, voltada à reconstrução tecnológica do país e à reinserção da Alemanha no cenário industrial e aeronáutico internacional. A nova companhia foi constituída a partir da fusão da tradicional Messerschmitt AG amplamente reconhecida pelos caças produzidos durante a Segunda Guerra Mundial  com a Bölkow Entwicklungen KG, empresa de engenharia aeronáutica fundada pelo engenheiro Ludwig Bölkow, um dos mais destacados projetistas alemães de sua geração. Em um momento posterior, o grupo incorporaria também a Hamburger Flugzeugbau, subsidiária da Blohm & Voss, consolidando definitivamente a estrutura empresarial sob a denominação Messerschmitt-Bölkow-Blohm GmbH. A sede foi estabelecida em Ottobrunn, nos arredores de Munique, que se tornaria um dos principais polos da indústria aeronáutica alemã no pós-guerra. A MBB desempenhou papel central no renascimento da aviação alemã, participando ativamente de importantes programas de cooperação europeia. Destacou-se, em especial, por sua contribuição ao consórcio Airbus, notadamente no desenvolvimento e na produção de componentes estruturais e sistemas do Airbus A300, o primeiro avião comercial de grande porte concebido e produzido de forma conjunta por diversos países europeus. Esse envolvimento simbolizou não apenas a recuperação da capacidade industrial alemã, mas também a consolidação de uma nova lógica de integração tecnológica no continente. Entretanto, o produto que melhor representaria a vocação inovadora da empresa no campo da aviação de asas rotativas teve sua origem anterior à própria formação da MBB. Em 1964, ainda sob a égide da Bölkow Entwicklungen KG, o Ministério da Defesa da Alemanha Ocidental (Bundeswehr) emitiu uma solicitação para o desenvolvimento de um helicóptero leve e multifuncional, capaz de atender tanto a missões militares quanto civis. O projeto foi conduzido por uma equipe de engenheiros liderada diretamente por Ludwig Bölkow, que definiu como princípios fundamentais a elevada manobrabilidade, a robustez estrutural e a simplicidade de manutenção  características consideradas essenciais para uma aeronave destinada a operar em múltiplos cenários e sob condições variadas. Dessa filosofia de projeto emergiu o Bölkow Bo 105, um verdadeiro marco na história da aviação de helicópteros. O modelo introduziu um sistema de rotor principal rígido confeccionado em fibra de vidro, desprovido de articulações mecânicas convencionais uma inovação tecnológica de grande impacto. Essa solução conferiu à aeronave excepcional agilidade, precisão de controle e resistência estrutural, tornando o Bo 105 o primeiro helicóptero do mundo capaz de executar manobras acrobáticas completas, como loops e rolls, até então impensáveis para aeronaves de asas rotativas. O protótipo realizou seu voo inaugural em 16 de fevereiro de 1967, demonstrando de imediato desempenho notável, estabilidade em voo e excelente resposta aos comandos. Após uma extensa e criteriosa campanha de ensaios em solo e em voo, o Bo 105 obteve a certificação de tipo da autoridade aeronáutica alemã (Luftfahrt-Bundesamt) em 13 de outubro de 1970, o que permitiu o início das entregas a operadores civis e governamentais na Europa.

O reconhecimento internacional veio rapidamente. Em 1972, o helicóptero recebeu certificação da Federal Aviation Administration (FAA), dos Estados Unidos, e da Civil Aviation Authority (CAA), do Reino Unido, abrindo caminho para sua ampla exportação e adoção por forças armadas, agências governamentais e operadores civis em diversos países. No segmento civil, o Bo 105 destacou-se por sua robustez, confiabilidade e versatilidade, sendo amplamente empregado em missões de resgate aeromédico, transporte leve, policiamento aéreo e operações especiais. O desempenho notavelmente elevado do Bölkow Bo 105 rapidamente despertou o interesse do meio militar, culminando na celebração de um contrato com o Exército Alemão (Heer) para o desenvolvimento de uma versão especializada em combate anticarro, designada Bo 105 PAH-1 (Panzerabwehrhubschrauber 1). Essa variante foi equipada com até seis mísseis guiados Euromissile HOT, destinados à neutralização de veículos blindados inimigos, e representou uma das primeiras plataformas europeias concebidas especificamente para o emprego ofensivo de helicópteros no campo de batalha. Apesar de seu amplo sucesso comercial e operacional traduzido em milhões de horas de voo acumuladas em todo o mundo, no início da década de 1980 o Bo 105 já começava a evidenciar limitações decorrentes da rápida evolução tecnológica, sobretudo no contexto militar. A ausência, em suas versões iniciais, de plena capacidade para operações noturnas, aliada a níveis reduzidos de proteção contra ameaças antiaéreas modernas, levou o Bundeswehr a identificar a necessidade de um substituto capaz de assumir, no curto e médio prazos, missões de transporte leve, ligação, reconhecimento e ataque de baixa intensidade. Antecipando essa demanda, a Messerschmitt-Bölkow-Blohm iniciou o desenvolvimento de um novo projeto, designado BO 108, cuja fase conceitual foi concluída em 1984. Concebido inicialmente como um demonstrador tecnológico destinado a suceder o Bo 105, o programa buscava preservar características consagradas do modelo anterior  como o rotor principal rígido, sem dobradiças , ao mesmo tempo em que incorporava avanços aerodinâmicos, estruturais e de sistemas. O desenvolvimento inicial ocorreu em cooperação com a francesa Aérospatiale. O primeiro protótipo do BO 108, matriculado D-HBOX e equipado com dois motores Allison 250-C20R, realizou seu voo inaugural em outubro de 1988, em data registrada entre os dias 15 e 17 daquele mês. Pouco tempo depois, em 1989, a MBB foi incorporada à Daimler-Benz Aerospace (DASA), fato que assegurou maior estabilidade financeira e permitiu a continuidade do programa com recursos ampliados. O segundo protótipo, que voou em 5 de junho de 1991, recebeu motores Turbomeca TM319-1B Arrius e incorporou melhorias significativas, como o alongamento da fuselagem e a introdução de sistemas de voo por instrumentos (IFR) compatíveis com operação por piloto único. Diferentemente das aeronaves de produção que se seguiriam, ambos os protótipos ainda utilizavam rotores de cauda convencionais. O BO 108 destacou-se como um verdadeiro laboratório de inovações. Entre seus avanços mais relevantes figurava a introdução do primeiro sistema de controle digital de motor de autoridade plena (FADEC) aplicado a um helicóptero, além de uma nova transmissão e de um rotor principal rígido otimizado com o emprego intensivo de materiais compósitos. 

No início da década de 1990, o projeto passou por uma revisão profunda, incorporando o sistema Fenestron, um rotor principal rígido de concepção ainda mais avançada, o uso extensivo de materiais compósitos na estrutura e sistemas de isolamento de ressonância destinados à atenuação de vibrações transmitidas à fuselagem.  No contexto da ampla reestruturação da indústria aeroespacial europeia ao longo da década de 1990  marcada pela consolidação de empresas nacionais em conglomerados transnacionais capazes de competir em um mercado global cada vez mais exigente, neste momento nasceria em 1992 o Eurocopter Group. Este processo de fusão, que uniu a alemã Daimler-Chrysler Aerospace (DASA) à francesa Aérospatiale-Matra, refletia não apenas a integração econômica do continente europeu no período pós-queda do Muro de Berlim, mas também os esforços da União Europeia para preservar e fortalecer sua soberania tecnológica nos setores de defesa e aviação civil. Inserido nesse cenário de transformação industrial e política, o BO 108 deixou de ser apenas um demonstrador tecnológico para assumir o papel de base de uma nova geração de helicópteros leves europeus. Como parte desse processo, o projeto sofreu modificações estruturais e tecnológicas significativas. Entre as mais relevantes esteve a substituição do rotor de cauda convencional, com pás expostas, pelo sistema Fenestron de nova geração, composto por dez lâminas alojadas em uma carenagem circular. Essa solução, já experimentada com sucesso em helicópteros franceses como o Aérospatiale Gazelle, foi aprimorada no novo modelo, proporcionando redução substancial dos níveis de ruído, maior segurança durante operações em solo e ganhos de eficiência aerodinâmica. Um novo protótipo, representativo dessa configuração revisada, foi construído e realizou seu voo inaugural em 15 de fevereiro de 1994. Diferentemente dos protótipos anteriores, equipados com motores franceses Turbomeca Arrius 2B, essa aeronave adotou propulsores norte-americanos Pratt & Whitney Canada PW206B. Tal escolha ilustra a estratégia deliberada da Eurocopter de diversificar fornecedores, mitigando riscos geopolíticos e econômicos, além de otimizar custos e desempenho em um mercado aeronáutico cada vez mais globalizado. Uma segunda célula foi concluída ainda no mesmo ano, sendo incorporada ao programa de ensaios em voo e aos processos de validação de desempenho e certificação. Redesignado oficialmente como EC 135, o helicóptero foi concebido como uma aeronave bimotora, dotada de rotor principal de quatro pás, trem de pouso do tipo esqui e capacidade para transportar até sete ocupantes, incluindo tripulação. Desde sua concepção, o modelo foi projetado para operações completas por instrumentos (IFR), atendendo às exigências crescentes de segurança e disponibilidade operacional impostas por autoridades regulatórias europeias e internacionais. A produção inicial foi atribuída à divisão alemã da Eurocopter, nas instalações de Donauwörth, na Baviera. O desenho  priorizava a redução dos custos operacionais e de manutenção, incorporando extensivamente materiais compósitos avançados, aviônicos digitais de última geração, aerodinâmica refinada e motorização eficiente. A aeronave foi concebida para manter voo seguro com apenas um motor em funcionamento em caso de falha, elevando de forma significativa os padrões de segurança aspecto particularmente relevante em um período de crescente rigor regulatório, cujos fundamentos culminariam, anos mais tarde, na criação da Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA). Adicionalmente, o EC 135 incorporava o sistema de controle digital de motores FADEC (Full Authority Digital Engine Control), responsável por otimizar o desempenho, reduzir o consumo de combustível e simplificar a operação para a tripulação.  Por fim, integrava o sistema Anti-Resonance Isolation System (ARIS), que minimizava vibrações e proporcionava elevado conforto na cabine para até seis passageiros, posicionando o EC-135 como uma plataforma ideal para transporte executivo, serviços médicos de emergência (EMS) e missões militares leves.

Após a obtenção de todas as certificações regulatórias exigidas pelas autoridades aeronáuticas internacionais, a direção de marketing da Eurocopter estruturou uma ampla campanha de lançamento de alcance global. Esse esforço culminou na apresentação pública do novo helicóptero em janeiro de 1995, durante a Heli-Expo, realizada em Las Vegas, nos Estados Unidos  então, como hoje, o mais importante evento internacional dedicado à indústria de helicópteros. A estreia causou impacto imediato entre operadores civis e governamentais, não apenas pelas qualidades técnicas demonstradas, mas também pelo desenho inovador da aeronave, que conciliava eficiência funcional com uma estética moderna e marcadamente europeia. Fiel às premissas originais do projeto, o EC 135 destacou-se desde o início por seus níveis excepcionalmente baixos de ruído externo, atributo em grande medida decorrente da adoção do sistema Fenestron de rotor de cauda carenado. Essa característica, pioneira entre helicópteros leves bimotores em produção seriada, respondia diretamente às crescentes exigências ambientais e urbanísticas impostas por autoridades civis, especialmente em centros densamente povoados. Como resultado, ao longo dos quinze anos seguintes, o EC 135 consolidou-se como a aeronave de asas rotativas mais silenciosa de sua categoria no mercado internacional, um diferencial decisivo para sua ampla aceitação operacional. A carreira operacional do modelo teve início formal em 1º de agosto de 1996, com a entrega das duas primeiras aeronaves de produção  números de série 0005 e 0006  ao Deutsche Rettungsflugwacht, serviço alemão de resgate aeromédico, e à Polizei Bayern, a Polícia do Estado da Baviera. Esse momento simbólico marcou não apenas a transição definitiva do programa de desenvolvimento para a operação em serviço ativo, mas também o início de uma rápida e consistente penetração do EC 135 no mercado civil europeu de helicópteros leves. Em curto espaço de tempo, a aeronave conquistou participação expressiva nos segmentos de transporte executivo, policiamento aéreo e evacuação médica de emergência, expandindo-se de forma igualmente bem-sucedida para o mercado norte-americano, onde havia forte demanda por plataformas confiáveis, seguras e de baixos custos de operação e manutenção. Sua reputação internacional consolidou-se, sobretudo, no exigente campo das missões aeromédicas. Em 2013, o EC 135 atingiu um marco notável ao responder por aproximadamente 25% de todas as operações globais desse tipo, um feito que refletia a elevada confiabilidade, a versatilidade operacional e a eficiência econômica do modelo em um setor altamente regulado e sensível a custos. O fortalecimento dessa liderança foi acompanhado por importantes avanços no campo da certificação. Em 2 de dezembro de 1999, a Luftfahrt-Bundesamt (LBA), autoridade aeronáutica da Alemanha, concedeu ao EC 135 a certificação para operações IFR com piloto único (Single Pilot Instrument Flight Rules – SPIFR), habilitando a aeronave a cumprir missões noturnas e em condições meteorológicas adversas com tripulação reduzida. Em dezembro de 2000, a Civil Aviation Authority (CAA) do Reino Unido emitiu certificação equivalente, ampliando significativamente a aceitação do modelo no mercado britânico e nos países da Commonwealth. Nesse mesmo período, a Eurocopter anunciou o desenvolvimento da variante EC 135 P2, equipada com os novos motores Pratt & Whitney Canada PW206B2. Esses propulsores ofereciam maior potência em regime de operação com apenas um motor (One Engine Inoperative – OEI), além de capacidade de emergência de 30 segundos, ampliando ainda mais as margens de segurança em operações críticas. A certificação dessa versão foi obtida em 10 de julho de 2001, e a primeira unidade foi entregue em 10 de agosto do mesmo ano à Polisen, a Polícia Nacional da Suécia, reforçando a presença do EC 135 em missões de segurança pública e vigilância aérea no norte da Europa.
Em setembro de 2002, a Eurocopter apresentou ao mercado a variante EC 135 T2, equipada com os motores Turbomeca Arrius 2B2. Essa nova versão oferecia aos operadores uma alternativa de motorização caracterizada por melhor desempenho em regime de operação com um único motor (One Engine Inoperative-OEI), além de maior flexibilidade logística e de manutenção, aspecto particularmente relevante para frotas governamentais e militares com cadeias de suprimento diversificadas. A introdução dessa variante ocorreu em um momento de profundas transformações no panorama estratégico europeu. Após o término da Guerra Fria, entre 1989 e 1991, as forças armadas do continente passaram por um amplo processo de reestruturação, marcado pela dissolução do Pacto de Varsóvia, pela redução dos grandes efetivos convencionais e pela transição para doutrinas centradas na projeção expedicionária, na interoperabilidade no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e na participação em operações multinacionais de apoio à paz. Nesse contexto de contenção orçamentária e redefinição de prioridades, crescia a demanda por plataformas aéreas versáteis, confiáveis e de baixo custo operacional  um espaço no qual o EC 135 se mostrou particularmente adequado. O Exército Alemão (Heer) foi o primeiro operador militar a adotar o modelo, incorporando a variante EC-135T1. Ao todo, sessenta aeronaves foram destinadas a missões de transporte de autoridades, ligação, observação e treinamento básico de pilotos. Essa aquisição, iniciada ainda no final da década de 1990, refletia o esforço de modernização da exército  alinhado à lógica de forças armadas mais enxutas, porém tecnologicamente avançadas, e permitiu a substituição gradual de helicópteros mais antigos, como o consagrado, porém já limitado, Bölkow Bo 105. Na sequência,  a aviação do Exército Espanhol (Fuerzas Aeromóviles del Ejército de Tierra-FAMET), também optaram pelo EC-135, integrando-o a unidades de instrução e apoio logístico. Essa decisão acompanhava o processo de profissionalização e modernização das forças armadas espanholas, em consonância com os compromissos assumidos no âmbito da OTAN e da política europeia de segurança e defesa. O maior operador militar da atualidade é o Reino Unido. Nesse país, a variante EC 135 T3, designada localmente como Juniper HT1, equipa a No. 1 Flying Training School da Força Aérea Real (RAF), bem como unidades do Exército Real (Army Air Corps). Desde 2016, no âmbito do sistema de treinamento comum das forças armadas britânicas,  UK Military Flying Training System (UKMFTS), o modelo vem substituindo progressivamente a envelhecida frota de helicópteros Aérospatiale SA 341 Gazelle. A introdução do EC 135 proporcionou ganhos significativos em termos de modernidade tecnológica, com a adoção de cockpit digital, aviônicos compatíveis com óculos de visão noturna (NVG) e uma redução estimada de cerca de 40% nos custos operacionais  um fator decisivo em um cenário de restrições fiscais acentuadas após a crise financeira internacional de 2008. Ao longo das duas décadas seguintes, a família EC 135 ampliou sua presença para forças armadas distribuídas por quatro continentes, sendo adotada por países como Austrália, Japão, Brasil, Portugal, Iraque, Irlanda, Gabão, Marrocos e Nigéria. Paralelamente, diversas organizações governamentais de caráter não militar passaram a empregar o modelo em funções de aplicação da lei, busca e salvamento e segurança interna, em nações como Argentina, Áustria, Canadá, Croácia, República Tcheca, Hungria, Lituânia, Noruega, Romênia, Eslovênia, Turquia e Estados Unidos. Até o final de 2020, mais de 1.400 exemplares do EC-135 haviam sido entregues a cerca de 350 operadores em 75 países. Essa ampla difusão internacional consolidou o EC-135 como o helicóptero leve bimotor mais produzido e amplamente operado do mundo no século XXI.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A incorporação de aeronaves de asas rotativas pela Força Aérea Brasileira (FAB) constituiu um marco relevante no processo de modernização de suas capacidades operacionais, inserindo-se em um contexto mais amplo de evolução tecnológica e doutrinária Esse processo teve início no final de 1952, quando foram recebidas quatro primeiras células do Bell Model 47D-1, designadas como H-13D. À época, essas aeronaves representavam o estado da arte em helicópteros leves e passaram a desempenhar funções essenciais em missões de ligação, instrução de tripulações e busca e salvamento (Search and Rescue – SAR). Operando a partir do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, sede da  Seção de Aeronaves de Comando (SAC), subordinada ao Quartel-General da III Zona Aérea,  em pouco tempo, estes  helicópteros passaram a assumir um papel estratégico no transporte de autoridades civis e militares, atendendo às demandas de mobilidade rápida.  Com a ampliação dessas atribuições, a organização responsável pela operação das aeronaves de asas rotativas evoluiu gradualmente, culminando na criação do Esquadrão de Transporte Especial (ETE), vinculado ao 2º Esquadrão, dedicado especificamente à operação de helicópteros. Todavia, as limitações inerentes ao Bell Model 47D-1 cuja capacidade restringia-se a apenas um passageiro além do piloto tornaram-se rapidamente evidentes diante das crescentes exigências do transporte de autoridades. Em resposta a esse quadro, o Ministério da Aeronáutica (MAer) iniciou a busca por uma aeronave de maior capacidade e melhor desempenho. Após análises no mercado internacional, a escolha recaiu sobre o Bell Model 47J, designado H-13J, capaz de transportar até três passageiros.  Em meados de 1958, foram negociadas a aquisição de cinco unidades novas, o que representou um avanço significativo nas capacidades operacionais. Nesse mesmo período, foi criado o Grupo de Transporte Especial (GTE), unidade especializada subordinada diretamente ao Comando da Aeronáutica, com a missão de prover apoio aéreo permanente ao Presidente da República e às mais altas autoridades do Estado brasileiro. Apesar dos progressos proporcionados pelo H-13J, o acelerado desenvolvimento tecnológico da aviação de asas rotativas ao longo da década de 1960 trouxe novos desafios. A introdução de helicópteros equipados com motores turboeixo elevou significativamente os padrões de desempenho, confiabilidade e segurança, tornando os modelos a pistão gradualmente obsoletos, sobretudo para missões sensíveis de transporte especial de altas autoridades. Diante desse cenário, o Ministério da Aeronáutica (MAer) instituiu uma comissão técnica composta por especialistas, encarregada de conduzir estudos detalhados para a seleção de um novo helicóptero. O objetivo era atender simultaneamente às necessidades de transporte especial, treinamento, ligação e observação. Essa demanda seria atendida em 1967, com a aquisição de três helicópteros Bell 206A JetRanger, designados  como VH-4, com matrículas FAB 8570, 8571 e 8583.Essas aeronaves passaram a ser empregadas exclusivamente em missões de transporte presidencial e de autoridades nas proximidades de Brasília, capital federal inaugurada em 1960.  O VH-4 introduziu um novo patamar de desempenho, oferecendo maior velocidade, autonomia e confiabilidade operacional, além de maior conforto aos passageiros. Entretanto, ao longo dos anos, o uso intensivo dessas aeronaves, aliado a acidentes relevantes  notadamente a perda da FAB 8570 em 1972 e do 8583 em 1979  e ao desgaste estrutural decorrente da elevada frequência de missões, comprometeu progressivamente a disponibilidade operacional do 3º Esquadrão do GTE.  Tentativas de recomposição da frota por meio da incorporação de células adaptadas da versão OH-4 mostraram-se insuficientes para restaurar plenamente a capacidade da unidade.

No início da década de 1980, a obsolescência técnica dos helicópteros monomotores e os riscos operacionais a eles associados tornaram imperativa a adoção de uma plataforma bimotora, em consonância com os padrões internacionais de segurança então consolidados para o transporte de autoridades de alto escalão. Diretrizes emanadas por organismos como a Federal Aviation Administration (FAA) e a International Civil Aviation Organization (ICAO) reforçavam essa necessidade, sobretudo no transporte de chefes de Estado. Contudo, as severas restrições orçamentárias impostas ao país em decorrência da crise da dívida externa e da recessão econômica que marcou o período  acabaram por adiar, por tempo indeterminado, a implementação de um programa abrangente de modernização da frota de helicópteros de transporte especial.  A questão só retornou à agenda estratégica em 1984, quando da efetivação de um  amplo programa de reequipamento da Força Aérea Brasileira (FAB), seria negociada junto a empresa estatal de capital misto Helibras S/A,  a aquisição de um lote de aeronaves HB350B B1 Esquilo, com este processo sendo complementado a seguir pela encomenda de duas células bimotoras HB-355F2 Esquilo 2 , configuradas para o emprego em tarefas de transporte VIP (Very Important Person). Após sua incorporação ao serviço ativo, essas aeronaves receberam a designação de  VH-55 e passaram a ser empregadas de forma exclusiva no transporte presidencial em deslocamentos de curta e média distância, com raio operacional de até aproximadamente 300 quilômetros. Em missões de maior alcance, os VH-55 poderiam atuar de maneira complementar aos helicópteros pesados VH-34 (AS-332M1 Super Puma). Dessa forma, ao longo do período compreendido entre 1958 e 1985, a frota presidencial de helicópteros evoluiu de plataformas monomotoras de emprego genérico para uma estrutura especializada, bimotora e dedicada. Essa transformação refletiu não apenas os avanços tecnológicos da aviação de asas rotativas, mas também as mudanças políticas, administrativas e institucionais do Estado brasileiro ao longo da segunda metade do século XX, marcadas pela crescente complexidade das agendas governamentais e pela necessidade de elevados padrões de segurança e confiabilidade. Entretanto, ao final de 2005, tornou-se evidente a necessidade de substituir, em curto prazo, os helicópteros VH-55 Esquilo 2, que já acumulavam cerca de duas décadas de operação contínua. Essa demanda foi formalmente incorporada pelo Ministério da Defesa à Estratégia Nacional de Defesa (END), documento estruturante que orientava os investimentos em capacidades estratégicas das Forças Armadas, resultando no lançamento de uma concorrência internacional para a aquisição de novos helicópteros de transporte especial. Diversas propostas foram apresentadas e analisadas, com ênfase em requisitos como elevado conforto executivo, segurança avançada e modernos sistemas aviônicos, incluindo plena capacidade de operação por instrumentos (IFR) e desempenho adequado em regime de voo com um motor inoperante (One Engine Inoperative – OEI). Nesse contexto, destacou-se a proposta apresentada pela Helibras S.A., baseada no helicóptero Eurocopter EC-135, na variante P2i, que  atendia integralmente aos requisitos técnicos estabelecidos. Após as negociações, foi celebrado um contrato no valor aproximado de US$ 12 milhões, abrangendo a aquisição de duas aeronaves, o treinamento de pilotos, copilotos e equipes de manutenção, além do fornecimento de suporte logístico inicial. 
As duas células foram produzidas na Alemanha, nas instalações da então Eurocopter (atual Airbus Helicopters) em Donauwörth. Após sua conclusão, receberam as matrículas provisórias civis D-HECL e D-HECK e foram submetidas a um rigoroso processo de testes de voo e aceitação. Concluída essa etapa, as aeronaves foram desmontadas e transportadas para o Brasil, sendo encaminhadas às instalações da Helibras – Helicópteros do Brasil S.A., na cidade de Itajubá, no estado de Minas Gerais. Ali, foram remontadas, novamente ensaiadas e preparadas para incorporação definitiva ao serviço militar. Nesse momento, passaram a ostentar as matrículas FAB 8500 e FAB 8501 e, no início de julho de 2008, foram transladadas em voo para a Base Aérea de Brasília. A partir de então, integraram oficialmente o 3º Esquadrão do Grupo de Transporte Especial (GTE), consolidando uma nova etapa na história do transporte aéreo presidencial brasileiro, marcada pela adoção de padrões contemporâneos de segurança, eficiência e integração industrial. Neste momento foi iniciado um gradual processo de substituição dos VH-55 Esquilo Bi, finalizando esta transição no início de 2009. Como previsto este novo vetor rapidamente se mostraria muito superior ao seu antecessor, não só em termos de desempenho, mas também pela eletrônica embarcada de uma geração posterior que proporciona melhores condições de segurança de voo. Os novos VH-35 seriam utilizados em missões de transporte presidencial e de primeiro escalão, sendo principalmente utilizados em deslocamentos de pequena distância, como o translado entre o Palácio do Planalto e a Base Aérea de Brasília, No Final de 2010, visando melhorar os parâmetros de segurança em voo o comando do Grupo de Transporte Especial (GTE) decidiria pela a instalação de um sistema anti colisão do tipo TCAS, as duas células estão em perfeito estado de conservação e devem ser mantidas em operação até meados da próxima década. No início da década de 2010, o Comando da Aviação Naval da Marinha do Brasil passou a considerar, a possibilidade de aquisição de aeronaves pertencentes a essa mesma família de helicópteros leves bimotores, com o objetivo de substituir a frota de UH-13 Esquilo (Aérospatiale AS355 F2 Twin Écureuil) então em serviço.  Os helicópteros UH-13 foram incorporados à Marinha do Brasil a partir de 1986, no âmbito de um contrato que previa a aquisição de onze células, todas alocadas ao 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (EsqdHU-1), sediado no Complexo Aeronaval de São Pedro da Aldeia, no estado do Rio de Janeiro. Desde sua entrada em serviço, essas aeronaves desempenharam papel central no apoio às atividades do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), substituindo progressivamente os antigos UH-2 Wasp e UH-12 Esquilo. A introdução do UH-13 representou um avanço significativo, sobretudo por oferecer maior segurança em voo na condição de um motor inoperante (One Engine Inoperative – OEI), requisito essencial para operações em regiões remotas, caracterizadas pela ausência de infraestrutura de pouso alternativa e por condições meteorológicas severas. Nesse contexto, os UH-13 passaram a operar regularmente embarcados em navios polares, com destaque para o Navio Polar Almirante Maximiano, desempenhando uma ampla gama de missões, incluindo transporte de pessoal e carga, reconhecimento glaciológico e meteorológico, evacuação aeromédica e apoio direto às atividades da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF). Tais operações exigiam elevada confiabilidade mecânica e precisão de navegação, dadas as particularidades do ambiente antártico, marcado por isolamento extremo, clima hostil e desafios logísticos singulares.

Entretanto, após aproximadamente três décadas de operação intensiva em um ambiente notoriamente agressivo caracterizado pela ação constante de maresia, gelo, baixas temperaturas e elevada umidade, a frota remanescente encontrava-se severamente reduzida, com apenas algumas células ainda em condições de voo. A esse quadro somava-se a obsolescência tecnológica inerente ao modelo, especialmente no que se refere à sua aviônica analógica, já ultrapassada para os padrões contemporâneos. A ausência de sistemas integrados de navegação por satélite (GPS), piloto automático e outros recursos modernos de auxílio à navegação e à consciência situacional passou a representar um fator adicional de risco, comprometendo os níveis desejáveis de segurança em um teatro operacional inóspito e praticamente desprovido de auxílios externos à navegação aérea. A obsolescência técnica, somada ao elevado custo de modernização, tornou imperativa a substituição a curto prazo para manter a capacidade do EsqdHU-1. Essa necessidade foi formalmente incorporada, em 2015, ao Programa de Helicópteros de Emprego Geral de Pequeno Porte (UHP), instituído pela Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) no contexto da Estratégia Nacional de Defesa (END) e do Plano de Articulação e Equipamento da Marinha do Brasil (PAEMB). O UHP tinha por objetivo a renovação abrangente da frota de helicópteros leves da Aviação Naval, priorizando, em sua fase inicial, a substituição das numerosas aeronaves UH-12 Esquilo  e IH-6A Jet Ranger, cujos ciclos de vida se aproximavam do limite técnico-operacional. Tratava-se, contudo, de um programa estrutural de longo prazo, dependente de complexos processos de concorrência internacional, certificação, nacionalização logística e integração industrial com a Helibras S/A, o que inviabilizava uma resposta imediata às demandas mais urgentes.Diante da criticidade das operações antárticas que não comportavam lacunas de capacidade , optou-se por uma solução transitória de caráter emergencial, consistindo na aquisição de oportunidade de um pequeno lote de helicópteros bimotores, destinados ao emprego imediato.  Essa alternativa materializou-se por meio de proposta apresentada pela Airbus Helicopters, que ofereceu três unidades da variante H-135 T3, então disponíveis em estoque na linha de produção de Albacete, Espanha. As aeronaves encontravam-se configuradas para o exigente mercado europeu, incorporando aviônica digital avançada, sistema FADEC, rotor de cauda Fenestron e certificação para operações IFR, atributos plenamente compatíveis com o perfil operacional da Aviação Naval. Conforme registrado pelo portal especializado Defesa Aérea & Naval, uma das células com a matrícula D-HCBI (EC-307, número de série 1247) havia operado brevemente como helicóptero de Serviço Médico de Emergência (EMS) pela empresa espanhola TAF Helicopters, sendo posteriormente devolvida ao fabricante para recompra e estocagem. Essa condição singular de disponibilidade imediata possibilitou uma aquisição célere, com custos significativamente reduzidos e prazos de entrega compatíveis com a urgência do cenário. A adoção do H-135 T3 representou um salto geracional em relação à frota então existente. A aeronave, bimotora e dotada da suíte aviônica Helionix, incorporava sistemas como TCAS, piloto automático de quatro eixos, capacidade de operação em condições de gelo (FIKI – Flight Into Known Icing) e plena compatibilidade com óculos de visão noturna (NVG), ampliando substancialmente os níveis de segurança, consciência situacional e flexibilidade operacional. Esses atributos asseguraram a continuidade das missões antárticas da Marinha do Brasil até a maturação e implementação definitiva do programa UHP. 

Do ponto de vista técnico-operacional, a variante caracterizava-se pela adoção dos motores Turbomeca Arrius 2B2 PLUS, capazes de desenvolver até 750 shp, incorporando atualizações significativas de software e uma nova configuração de tomada de ar lateral. Tais aprimoramentos resultaram em ganhos substanciais de desempenho em condições de elevada carga e maior eficiência global, atributos particularmente relevantes para operações conduzidas em ambientes extremos e com reduzidas margens de segurança, como o rigoroso teatro antártico. Para além de configurar uma aquisição de oportunidade reconhecidamente vantajosa, a escolha do H-135 foi igualmente influenciada por seus reduzidos custos de manutenção ao longo do ciclo de vida. Esses custos decorrem, em grande medida, dos intervalos ampliados entre inspeções, com revisões intermediárias previstas a cada 500 horas de voo e inspeções periódicas realizadas a cada 1.000 horas ou três anos de operação, parâmetros alinhados às exigências de uma aviação naval moderna e sustentável. A possibilidade de integração de kits de remoção aeromédica ampliou ainda mais o espectro de emprego da aeronave, reforçando de forma decisiva as capacidades dos meios médicos embarcados do Navio-Aeródromo Multipropósito “Atlântico” e do Navio Doca Multipropósito “Bahia”, tanto em operações anfíbias quanto em missões humanitárias, de assistência a desastres e de manutenção da paz.As três células adquiridas foram transportadas diretamente da Espanha para as instalações da Helibras S.A., onde passaram por um abrangente processo de militarização e customização, conduzido em conformidade com as especificações da Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) e do Comando da Aviação Naval. Entre as principais modificações implementadas destacaram-se a instalação de flutuadores de emergência, essenciais para operações sobre o mar; radar meteorológico, assegurando maior segurança em condições de visibilidade degradada; equipamentos compatíveis com óculos de visão noturna (NVG); ganchos de carga externa com capacidade de até 1.200 kg; e kits médicos de UTI aeromédica, dotados de recursos de ventilação e monitoração avançada. O contrato contemplou ainda um abrangente pacote de Apoio Logístico Integrado (ILS) com duração de cinco anos, incluindo manutenção programada, fornecimento de peças sobressalentes e treinamento contínuo de pilotos e técnicos. Esse modelo contratual refletiu as melhores práticas de aquisição de sistemas de defesa adotadas pela OTAN, assegurando elevada disponibilidade operacional e transferência de conhecimento técnico. Designadas UH-17 e matriculadas N-7090, N-7091 e N-7092, as aeronaves foram progressivamente declaradas operacionais junto ao 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (EsqdHU-1) no período compreendido entre 28 de fevereiro e 10 de julho de 2020. A substituição imediata dos UH-13 Esquilo constituiu prioridade estratégica, permitindo a formação de Destacamentos Aéreos Embarcados (DAE) plenamente capacitados para a Operação Antártica XXXIX, realizada entre 28 de outubro de 2020 e 5 de abril de 2021. Nesse contexto, os UH-17 N-7090 e N-7091 integraram o DAE embarcado no Navio Polar “Almirante Maximiano” (H-41), operando em coordenação com o navio de apoio oceanográfico “Ary Rongel” (H-44). O primeiro voo de um UH-17 no continente antártico ocorreu em 25 de novembro de 2020, marco simbólico da consolidação dessa nova capacidade aérea. Em maio de 2021, os UH-17 estrearam em operações junto à Esquadra durante a ADEREX-Anfíbia-Superfície 2021 prestando apoio logístico móvel ao DAE do 1º Esquadrão de Helicópteros Antissubmarino (EsqdHS-1). 


Em Escala.
Infelizmente, o mercado de kits de aeromodelismo sempre demonstrou uma atenção limitada às aeronaves de asas rotativas na escala 1/48, privilegiando, em geral, modelos de asas fixas. No caso específico do Eurocopter EC-135, essa lacuna é ainda mais evidente, uma vez que existem apenas kits disponíveis nas escalas 1/72 e 1/32. Diante desse cenário, optou-se pela customização de um modelo die cast na escala 1/43, produzido pela Sky Pilot. Para representar com fidelidade o VH-35 operado pela Força Aérea Brasileira (FAB), tornou-se necessário realizar uma série de intervenções em scratch, incluindo a adição do radome do radar meteorológico, antenas, carenagens específicas e os dispositivos corta-fios. Como inexiste no mercado um conjunto de decais dedicado a esse modelo, fizemos uso de partes  provenientes de diferentes sets produzidos pela FCM Decais. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura aplicados a todas as aeronaves de transporte VIP (Very Important Person) da Força Aérea Brasileira (FAB), sendo recebidas neste esquema diretamente do fabricante. Já as aeronaves UH-17 pertencentes a Aviação Naval da Marinha do Brasil, receberam o esquema padrão em cinza aplicado a todas as aeronaves de asas rotativas navais brasileiras, se destacando destes por portar marcações de alta visibilidade necessárias para a  operação no continente antártico.
Bibliografia:
- História da Força Aérea Brasileira por:  Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Eurocopter EC-135 Wikipedia -  https://en.wikipedia.org/wiki/Eurocopter_EC135
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916/ 2016 – Jackson Flores Jr
-  Defesa Aérea e Naval por Guilherme Wiltgen  www.defesaaereanaval.com.bww.

A-26C/B-26C Douglas Invader

História e Desenvolvimento.
A Douglas Aircraft Company foi fundada em 22 de julho de 1921, em Santa Monica, Califórnia, por Donald Wills Douglas, um dos mais influentes engenheiros aeronáuticos da primeira geração da aviação moderna. A criação ocorreu após a dissolução da Davis–Douglas Company, experiência que forneceu a Douglas as bases técnicas e empresariais para empreender de forma independente. Seu primeiro grande salto reputacional ocorreu com sua participação no ambicioso programa World Flight, conduzido pelo Serviço Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USASS). Para essa missão histórica, cujo objetivo era realizar a primeira circum-navegação aérea do globo, a empresa desenvolveu o Douglas World Cruiser (DWC), derivado do bombardeiro biplano DT. Projetado sob a liderança do engenheiro Jack Northrop, combinava robustez estrutural, versatilidade operacional e soluções inovadoras para longos voos sobre regiões inóspitas. Em 1924, duas das quatro aeronaves construídas completaram com êxito a volta ao mundo, percorrendo cerca de 43.500 quilômetros em 175 dias. O sucesso da missão projetou a empresa internacionalmente e levou a empresa a adotar o lema “First Around the World”, símbolo de sua excelência técnica e pioneirismo. Ao longo da década de 1920,  consolidou-se como fornecedora de aeronaves militares, com especial ênfase nas necessidades da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy). A empresa especializou-se em bombardeiros torpedeiros embarcados, desenvolvendo modelos como o T2D e o XT3D. Essas aeronaves estabeleceram um padrão de confiabilidade que se tornaria uma das marcas registradas. Paralelamente, expandiu suas instalações e transferiu-se para Clover Field, em Santa Monica, que se tornaria um dos principais polos industriais e de testes da aviação norte-americana. A década de 1930 marcou uma profunda transformação,  atenta às mudanças do mercado e às oportunidades da aviação civil, diversificou-se significativamente sua linha de produtos, passando a desenvolver bombardeiros, caças, aeronaves de reconhecimento, transportes e projetos experimentais. Em 1934, ingressou definitivamente no setor de transporte comercial com o Douglas DC-2, um bimotor moderno, eficiente e confiável, que rapidamente conquistou companhias aéreas nos Estados Unidos e na Europa. O DC-2 demonstrou que o transporte aéreo poderia ser seguro, regular e economicamente viável, abrindo caminho para uma revolução no setor. O verdadeiro ápice ocorreu em 1936, com o lançamento do DC-3, aeronave que transformaria de forma definitiva a história da aviação mundial. O DC-3 tornou o transporte aéreo lucrativo sem subsídios governamentais, estabelecendo padrões de conforto, alcance e confiabilidade jamais vistos até então. O extraordinário sucesso principalmente no mercado civil,  forneceu à Douglas não apenas solidez financeira, mas também a confiança institucional necessária para avançar em projetos ainda mais ambiciosos no campo da aviação militar. Assim no final desta década, a  empresa voltou sua atenção ao desenvolvimento de um bombardeiro médio de alta velocidade, capaz de transportar uma carga significativa de armamentos e, ao mesmo tempo, suficientemente rápido e manobrável para reduzir sua vulnerabilidade à interceptação inimiga. 

Esse esforço, iniciado em 1936 e conduzido por uma equipe de engenheiros liderada por Donald Douglas, Jack Northrop e Ed Heinemann, culminou na concepção do Model 7A, apresentada no primeiro trimestre de 1937,  projeto que abriria caminho para uma nova geração de aeronaves de ataque e consolidaria ainda mais a posição da empresa  como protagonista da aviação militar. Em 1938, a aeronave evoluiu para o Model 7B, um projeto significativamente mais ambicioso, concebido para atender aos rigorosos requisitos estabelecidos pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), em uma concorrência destinada ao desenvolvimento de uma aeronave de bombardeio médio de alta velocidade. O protótipo  realizou seu primeiro voo em 26 de outubro de 1938, nas instalações da Douglas, em Santa Monica, Califórnia. Embora apresentasse especificações promissoras e desempenho competitivo, o projeto não foi selecionado , sendo preterido em favor do North American B-25, que entraria em serviço a partir de 1941. À primeira vista, essa decisão poderia ter representado o fim do Model 7B; contudo, os desdobramentos do cenário internacional alterariam profundamente o destino da aeronave.  Com o agravamento das tensões globais após a Crise de Munique, em setembro de 1938, as principais potências europeias passaram a adotar programas acelerados de reaparelhamento de suas forças aéreas. A França, em particular, buscou nos Estados Unidos aeronaves modernas capazes de reforçar rapidamente sua aviação de bombardeio. Nesse contexto, o Model 7B encontrou uma nova e decisiva oportunidade. A encomenda inicial francesa de 100 aeronaves, posteriormente ampliada para 270 unidades, marcou a transformação definitiva do projeto no Douglas DB-7, um bombardeiro leve que viria a se tornar um dos modelos mais importantes da Segunda Guerra Mundial. Paralelamente, em junho de 1939, o próprio orpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) decidiu adquirir 63 aeronaves DB-7, que receberam a designação militar A-20. Essas aeronaves eram equipadas com motores Wright R-2600-7 e apresentavam características semelhantes às versões DB-7B destinadas ao Reino Unido. Dentro dessa encomenda, 60 aeronaves seriam convertidas para a função de caça noturno, recebendo a designaçãoP-70. Essas versões foram equipadas com o radar britânico AI Mk. IV e armadas com quatro canhões de 20 mm instalados sob o ventre da fuselagem.  A queda da França em junho de 1940 interrompeu significativamente as entregas previstas aos franceses, levando à redistribuição das células já produzidas. As aeronaves remanescentes foram então incorporadas pela Força Aérea Real (RAF), que as redesignou como Boston I e  II. Esses aviões tornaram-se peças-chave nas operações aliadas no Norte da África, no Mediterrâneo e sobre a Europa Ocidental, destacando-se pela velocidade, robustez e versatilidade. A evolução do projeto prosseguiu com o surgimento de novas variantes. O A-20A, equipado com motores Wright R-2600-3, era equivalente ao Boston III. Em seguida, o A-20B incorporou motores Wright R-2600-11 e passou a contar com armamento reforçado, incluindo metralhadoras Browning calibre 12,7 mm no nariz e nas posições defensivas. Destes 665 unidades foram enviadas à União Soviética no âmbito do programa Lend-Lease.
Outra variante significativa foi o A-20C, equipado com motores Wright R-2600-23, tanques de combustível autos selantes e blindagem aprimorada. Embora originalmente encomendado pelos britânicos, a maior parte dessas aeronaves também foi destinada à União Soviética, enquanto algumas unidades foram incorporadas ao Exército dos Estados Unidos (U.S Army) após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Apesar dos resultados operacionais positivos obtidos a partir do início de 1942, tornou-se evidente a necessidade de desenvolver, em curto prazo, um substituto mais moderno, potente e versátil para o A-20. Esse novo esforço de engenharia foi confiado à renomada equipe de projetos da Douglas Aircraft Company, liderada por Edward H. Heinemann, Robert Donovan e Ted R. Smith, profissionais cuja competência técnica e criatividade moldariam o futuro da aviação de bombardeio tático norte-americana. O primeiro protótipo, designado XA-26, realizou seu voo inaugural em 10 de julho de 1942, a partir da Mines Field, na cidade de El Segundo, Califórnia. A aeronave foi imediatamente submetida a um extenso e rigoroso programa de ensaios em voo. Embora apresentasse desempenho promissor e um perfil operacional considerado adequado, o Corpo Técnico Militar,  realizou uma avaliação minuciosa, resultando em uma extensa lista de modificações e exigências, sobretudo relacionadas à configuração do armamento ofensivo e defensivo. Essas demandas provocaram um alongamento significativo do cronograma de desenvolvimento, e a configuração definitiva da aeronave somente seria aprovada no início de 1944. Poucos meses depois, o novo bombardeiro, agora oficialmente designado A-26 Invader, teve seu batismo de fogo no Teatro de Operações Europeu. Em julho de 1944, aeronaves do 553º Esquadrão de Bombardeio, baseadas na Inglaterra, realizaram ataques contra alvos alemães na França ocupada, marcando o início de sua carreira operacional. Apesar dos elogios iniciais quanto ao desempenho, alguns problemas de projeto, como fragilidade das pernas do trem de pouso e problemas no sistema de refrigeração dos motores, passariam constantemente a afligir a frota, reduzindo em muitas suas surtidas operacionais de combate.  Já no teatro de operações do Pacífico, inicialmente o modelo encontraria forte resistência a sua implantação, muito em virtude de as tripulações estarem muito bem entrosadas com a operação dos A-20 Havoc. O processo de convencimento seria árduo, porém enfim, o A-26 Invader  já disposto nas versões mais aprimoradas, acabaria por ser aceito integralmente por todas a unidades aéreas alocadas naquele teatro de operações, tendo participado das mais importantes batalhas do conflito. Originalmente conforme proposta, a aeronave seria desenvolvida em duas configurações distintas, com a primeira sendo designada como A-26B destinada a ataque a solo, que seria dotado  com um nariz sólido, prevendo a instalação de diversas combinações de armamentos fazendo uso de metralhadoras M-2 Browning calibre .50 e canhões de 20 mm, com suas configurações mais distintas recebendo os codinomes de "six-gun nose" ou "eight-gun nose (seis ou oito armas no nariz).  A segunda versão designada como A-26C, teria aplicação específica para missões de bombardeio de queda livre em média altitude, e para isto dispunha do nariz transparente em plexiglass, equipado com as sofisticadas miras Norden. 

Inicialmente para autodefesa, seriam instaladas duas metralhadoras M-2 Browning calibre .50 fixadas no nariz na fuselagem, a exemplo dos A-20 Havoc, posteriormente a partir de 1570° célula produzida esta configuração original de armas, passariam a ser substituídas por seis metralhadoras do mesmo modelo, que seriam alojadas internamente nas asas. Sua  capacidade de transporte de carga útil como bombas e foguetes não guiados de até 1.814 kg , aliada ao seu eficiente sistema de autodefesa, manobrabilidade e comando dóceis, reuniria nos  A-26, qualidades especiais que estavam separados em diversos modelos de aeronaves de ataque e caça. Além do piloto, a tripulação era composta por um navegador que também executava as tarefas de carregador de munição das armas frontais, um terceiro assento estava localizado no compartimento traseiro e tinha por função a operação de controlar remotamente as torretas elétricas de metralhadoras dorsal e ventral.   Em 1944, a Douglas  recebeu substanciais contratos para a produção do A-26  refletindo a confiança, em sua capacidade de cumprir missões de ataque e reconhecimento. Um feito extraordinário com o A-26 ocorreu nos céus da Europa em 1945, quando uma aeronave pilotada pelo  Major Myron L. Durkee, do 386º Esquadrão de Bombardeiros, A-26 envolveu-se em um confronto singular contra um grupo de jatos  Me-262 Schwalbe. Apesar dessa disparidade tecnológica, o A-26 demonstrou notável eficácia ao alvejar gravemente um dos Me-262, se configurando como um possível crédito por abate.  Neste período com a iminência do fim do conflito, o governo norte-americano reavaliou suas necessidades estratégicas, revisando todos os contratos militares pendentes, com este processo envolvendo as encomendas dos A-26 resultando na entrega de apenas aproximadamente 2.400 células até agosto daquele ano. Diferentemente da maioria das aeronaves a pistão, que foram rapidamente desativadas ou destinadas a reservas após a guerra, o  modelo destacou-se por sua longevidade. Suas versões de ataque (A-26B e A-26C) e de reconhecimento (RB-26C) continuaram em serviço ativo, operadas por unidades da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) estacionadas na Europa ocupada e no Japão. A eclosão da Guerra da Coreia, em junho de 1950, marcou um novo capítulo na história do A-26 Invader. As unidades do 3º Grupo de Bombardeiros, baseadas no sul do Japão, foram das primeiras a entrar em ação, conduzindo missões sobre a Coreia do Sul nos dias 27 e 28 de junho de 1950. Essas operações precederam a primeira missão de bombardeio norte-americana na Coreia do Norte, realizada em 29 de junho, quando um campo de aviação próximo a Pyongyang foi alvo de um ataque. Durante este conflito, o Douglas A-26 demonstrou sua eficácia devastadora, sendo responsável pela destruição de aproximadamente 38.000 veículos, 406 locomotivas, 3.000 composições ferroviárias e sete aeronaves inimigas em solo. Variantes especializadas, como os WB-26 e RB-26, pertencentes à 67ª Ala de Reconhecimento Tático, desempenharam papéis cruciais em missões de observação e reconhecimento climático. Essas operações forneceram informações vitais para o planejamento de ataques aéreos, garantindo maior precisão e eficácia nas campanhas militares.
A Guerra da Coreia representou um marco na transição da aviação militar, com a introdução gradual de jatos como o F-86 Sabre e o MiG-15, que desafiavam a supremacia das aeronaves a pistão. Apesar disso, o A-26, com seus motores radiais Pratt & Whitney R-2800 Double Wasp, manteve sua relevância devido à sua capacidade de operar em baixa altitude e em missões noturnas, onde jatos ainda enfrentavam limitações. Com o término deste conflito, uma significativa parcela da frota foi classificada como "excedente de guerra", passando a serem transferidas para as unidades de Guarda Aérea Nacional (National Guard), onde seriam empregadas em tarefas de treinando, sendo posteriormente armazenadas.   Neste mesmo período, os Estados Unidos implementaram programas de assistência militar para nações amigas, e neste contexto seria decidido que o A-26 Invader seria incluído como ativo a ser destinado a estes programas.  As primeiras aeronaves seriam cedidas a França, onde seriam inclusive empregadas na Guerra da Indochina (1946-1954). Na sequencia seriam disponibilizadas mais células para Colômbia, Chile, Brasil, República Dominicana, Guatemala, Indonésia, Laos, Nicarágua, Peru, Portugal, Arábia Saudita e Turquia. Nestas nações os Douglas A-26 Invaders seriam operados em missões  de segurança interna e contra insurgência, com destaque para as aeronaves portuguesas extremamente utilizadas nas guerras coloniais na África. Na década de 1960, o A-26  foi selecionado pela CIA para missões especiais devido à sua robustez, capacidade de operar em ambientes austeros, no ano seguinte 20 células foram secretamente transferidas para uma base na Guatemala. Lá, exilados cubanos, apoiados pelos Estados Unidos, foram treinados para a tentativa de invasão da Baía dos Porcos, em 15 de abril de 1961. O capítulo final das operações da CIA com o A-26 ocorreu na Tailândia, onde células operadas por militares norte-americanos apoiaram o governo do Laos na luta contra a guerrilha comunista Pathet Lao, durante os anos 1960.  Durante a Guerra do Vietnã (1955-1975), o A-26 foi revitalizado com a introdução da variante A-26K Counter-Invader, uma versão significativamente modernizada equipada com motores mais potentes e hélices atualizadas e tanques suplementares nas pontas das asas, que estendiam o alcance e a autonomia para operações prolongadas. E por fim inclusão de sistemas avançados, como o FLIR (Forward-Looking Infrared) para visão noturna, permitindo maior precisão em missões noturnas. O A-26K foi amplamente empregado na campanha contra a Trilha Ho Chi Minh, uma rede de rotas de suprimento usada pelas forças norte vietnamitas. Operando em missões noturnas, o Counter-Invader atacava comboios, depósitos e posições inimigas, dificultando a logística do Vietnã do Norte. O 609º Esquadrão de Operações Especiais, baseado na Tailândia, foi responsável por mais de 7.000 missões de combate, totalizando 19.762,7 horas de voo ao longo de dois anos.  O A-26K Counter-Invader marcou a última fase operacional do A-26, sendo retirado do serviço ativo somente no final de 1969. Essa desativação representou um marco histórico, pois o A-26 foi a última aeronave de ataque oriunda da Segunda Guerra Mundial a permanecer em operação na Força Aérea dos Estados Unidos (USAF). 

Emprego na Força Aérea Brasileira
Ao término da Segunda Guerra Mundial, o Brasil encontrava-se em uma posição de destaque no cenário aeronáutico do continente americano. Graças aos programas de cooperação militar estabelecidos com os Estados Unidos durante o conflito, a Força Aérea Brasileira (FAB) consolidou-se como a maior força aérea do Hemisfério Sul e uma das mais expressivas das Américas. Seu inventário ultrapassava 1.500 aeronaves consideradas modernas para os padrões da época, compondo uma frota diversificada e operacionalmente equilibrada, capaz de desempenhar uma ampla gama de missões militares. Entre os principais vetores de combate destacavam-se os caças e caças-bombardeiros  P-47D Thunderbolt e  P-40 Warhawk, complementavam esse poder aéreo os bombardeiros médios  B-25 Mitchell e as aeronaves de ataque  A-20 Havoc, além de uma variada frota de transporte, patrulha marítima e guerra antissubmarino (ASW). O período que se seguiu ao conflito foi igualmente marcado por profundas transformações no cenário geopolítico internacional. Com o início da Guerra Fria, os Estados Unidos passaram a intensificar seus esforços para consolidar sua influência estratégica no hemisfério ocidental. Nesse contexto, Washington ampliou seus programas de assistência militar e econômica destinados às nações latino-americanas, buscando fortalecer laços políticos e militares com governos considerados aliados. O objetivo era assegurar a estabilidade regional, promover a interoperabilidade entre as forças armadas do continente e, sobretudo, impedir a expansão da influência soviética no hemisfério ocidental. Foi dentro desse ambiente estratégico que o governo brasileiro recebeu uma proposta considerada particularmente vantajosa para a incorporação de aeronaves excedentes provenientes dos estoques norte-americanos. A oferta abrangia diversos modelos de comprovada eficiência operacional, incluindo células dos bombardeiros leve Douglas A-26 Invader, uma das aeronaves de ataque mais modernas produzidas pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. O Ministério da Aeronáutica (MAer), entretanto, optou inicialmente por não aderir à proposta. A decisão baseava-se na avaliação de que a frota então em serviço dos bombardeiros North American B-25 Mitchell, nas versões B-25B e B-25J, continuava plenamente capaz de atender às necessidades operacionais nas missões de ataque, bombardeio e treinamento avançado. A robustez, confiabilidade e versatilidade  amplamente comprovadas, justificavam a manutenção desse vetor como principal aeronave de ataque  naquele momento. Contudo, essa posição começaria a ser gradualmente revista, pois em 1956, o programa de suporte logístico norte-americano destinado ao B-25 foi  encerrado. O término da assistência decorria do fato de a produção da aeronave ter sido descontinuada havia mais de uma década, resultando na  redução dos estoques de peças de reposição e componentes de manutenção. O envelhecimento natural das células, somado aos anos de intenso emprego, passou então a impactar os índices de disponibilidade da frota. A crescente dificuldade na obtenção de componentes essenciais e o aumento dos custos de manutenção provocaram uma gradual redução da prontidão dos esquadrões equipados com o B-25. 

Diante do agravamento da crise logística que afetava a frota de bombardeiros B-25 , o Alto-Comando  viu-se obrigado a iniciar estudos destinados à seleção de um novo vetor de ataque, capaz de assegurar a continuidade das missões de bombardeio tático, apoio aéreo aproximado e interdição. A ambição estratégica era clara dotar a Força Aérea Brasileira (FAB) de uma aeronave moderna, preferencialmente equipada com motores a reação. Nesse contexto, o  britânico English Electric Canberra destacava-se como a solução ideal. Considerado um dos mais avançados vetores de ataque de sua geração, havia conquistado sólida reputação  graças ao seu elevado desempenho, grande alcance e versatilidade operacional.  Entretanto, a realidade econômica  impunha severas limitações. As dificuldades orçamentárias enfrentadas pelo país ao longo da década de 1950 tornavam inviável a aquisição de um sistema de armas tão sofisticado e oneroso. Diante desse cenário, as expectativas seriam revistas, e neste momento o  governo brasileiro retomou entendimentos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Como resultado dessas negociações, foi apresentada, no âmbito do Programa de Assistência Militar (MAP), uma proposta considerada extremamente vantajosa. O acordo previa a transferência de 28 aeronaves Douglas B-26B e B-26C Invader,  que se encontravam  armazenadas em excelentes condições , com reduzidas horas de voo acumuladas, além de suporte logístico, fornecimento de peças de reposição, documentação técnica e assistência operacional, fatores que garantiriam a manutenção da frota por um longo período. Com o objetivo de assegurar a seleção das melhores aeronaves disponíveis, uma comissão de oficiais  foi enviada, em janeiro de 1957, à Base Aérea de Davis-Monthan, localizada em Tucson, no estado do Arizona. Esta missão consistia em realizar uma criteriosa avaliação técnica das células disponíveis, identificando aquelas que apresentassem melhores condições estruturais e maior potencial de recuperação. Após a conclusão desse processo de seleção, as aeronaves escolhidas foram transferidas por pilotos norte-americanos para as instalações da Fairchild Aircraft Support Division (ASD), localizadas em St. Augustine, na Flórida, e Hagerstown, no estado de Maryland. Nessas unidades especializadas, as células passaram por um extenso programa de revisão e revitalização. O trabalho envolveu inspeções estruturais completas, substituição de componentes desgastados, reparos preventivos, atualização de sistemas e a realização de testes destinados a garantir elevados padrões de segurança e confiabilidade operacional. Ao final desse processo, as aeronaves encontravam-se plenamente aptas para iniciar uma nova fase de serviço ativo. As primeiras aeronaves chegaram ao Brasil em setembro de 1957, marcando o início de uma importante etapa na modernização da aviação de ataque. O processo de incorporação prosseguiu até fevereiro de 1958, quando foi concluída a entrega dos exemplares previstos. Ao final da operação haviam sido recebido 24 aeronaves em condições de voo, distribuídas em seis missões de translado conduzidas por tripulações norte-americanas. A chegada dos Invader representou um significativo reforço para a capacidade de ataque da Força Aérea Brasileira (FAB). 
Desse total, 10 exemplares pertenciam à variante B-26C, destinadas a  missões de bombardeio de queda livre em média altitude, e para isto dispunha do nariz transparente em plexiglass, equipado com as sofisticadas miras Norden. Diferentemente de algumas versões anteriormente empregadas pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), os exemplares incorporados  não possuíam a tradicional torreta ventral. Foram distribuídos ao 5º Grupo de Aviação (5º GAv),  sediado na Base Aérea de Natal, no Rio Grande do Norte. O 1º/5º GAv - Esquadrão Rumba, assumiu a responsabilidade pelas missões de ataque e bombardeio, tornando-se a principal unidade operacional do modelo no país. Já o 2º/5º GAv, o Esquadrão Joker, passou a desempenhar funções voltadas à formação e à especialização de tripulações, concentrando-se na transição de pilotos para aeronaves multimotoras e no treinamento operacional avançado. Durante seus primeiros anos de serviço, participaram de uma ampla gama de atividades operacionais. Entre suas atribuições destacavam-se patrulhas em áreas de fronteira, exercícios de ataque a alvos terrestres, missões de adestramento tático e a capacitação de novas gerações de aviadores militares.  Entretanto  a manutenção da frota revelou-se progressivamente mais complexa. Desde os primeiros anos de emprego começaram a surgir dificuldades relacionadas à obtenção de peças de reposição e ao suporte técnico especializado. Tratava-se de um cenário semelhante ao que anteriormente havia afetado a frota dos bombardeiros B-25 Mitchell. A maior parte das aeronaves transferidas havia sido produzida entre os anos de 1944 e 1945. Assim, já no início da década de 1960,  acumulavam significativo desgaste estrutural decorrente de anos de operação intensiva. Em consequência, passou-se a adotar medidas destinadas a preservar a vida útil remanescente . Nesse contexto, em maio de 1963, os B-26 foram retirados das atividades de instrução e treinamento, função que passou a ser desempenhada pelas aeronaves Beechcraft H-18S (TC-45T), recentemente incorporadas ao 2º/5º GAv – Esquadrão Joker. Com essa reorganização, os Invader remanescentes foram concentrados exclusivamente no 1º/5º GAv, permanecendo dedicados às missões de ataque e bombardeio sob a coordenação do Comando Aerotático Terrestre. A medida permitiu racionalizar o emprego da frota e direcionar os recursos disponíveis para as atividades consideradas prioritárias. Entretanto, os problemas estruturais não se restringiam as células brasileiras, pois em diversos países que ainda operavam o  B-26 , começaram a ser registrados sinais preocupantes de fadiga estrutural.  Como consequência, inspeções técnicas passaram a identificar rachaduras e deformações nas longarinas das asas, componentes essenciais para a integridade estrutural da aeronave. Essas falhas representavam um risco crescente à segurança de voo e à continuidade das operações, exigindo a adoção de programas de inspeção mais rigorosos e a implementação de medidas corretivas urgentes. 

Como resposta ao crescente problema de fadiga estrutural o governo dos Estados Unidos, por intermédio do Programa de Assistência Militar (MAP), desenvolveu o projeto  “Wing Spar”, iniciativa destinada a substituir e reforçar as longarinas das asas das aeronaves ainda em operação em diversas forças aéreas aliadas. O programa representava uma solução abrangente para um problema que já preocupava operadores em todo o mundo. Apesar das evidentes vantagens oferecidas, a Força Aérea Brasileira (FAB) optou por não aderir imediatamente ao programa. Essa decisão pode ser compreendida à luz do contexto econômico vivido pelo país naquele período, marcado por restrições orçamentárias e pela necessidade de priorizar outros projetos considerados estratégico. Ao longo dos anos seguintes, o intenso perfil de emprego das aeronaves brasileiras acelerou o processo de desgaste estrutura, em 1966, inspeções técnicas identificaram pela primeira vez a presença de rachaduras nas longarinas das asas de algumas aeronaves. Além dos riscos inerentes às operações, havia o receio de que a indisponibilidade crescente da frota comprometesse a capacidade de ataque e bombardeio. Diante desse cenário, foram iniciadas negociações com a Hamilton Aircraft Company, empresa  especializada em recuperação estrutural e modernização de aeronaves militares.  O contrato resultante previa um extenso programa de revitalização, incluindo  revisão completa das estruturas alares, com especial atenção às longarinas, bem como a recuperação de diversos componentes críticos afetados pelo desgaste acumulado. Contemplava ainda  ainda a atualização dos sistemas aviônicos e de comunicações, melhorias ergonômicas na cabine de pilotagem e modificações no armamento defensivo.  Entre estas destacava-se a remoção da torreta elétrica dorsal, permanecendo contudo, o poderoso armamento ofensivo original da aeronave. Para participar do programa, foram selecionadas 16 aeronaves consideradas em melhores condições estruturais, sendo 12 B-26B e 05 B-26C. Em junho de 1967, essas aeronaves foram transladadas para os Estados Unidos, As avaliações estruturais realizadas  que uma das células apresentava níveis excessivos de corrosão, tornando economicamente inviável sua recuperação. Como consequência, o exemplar foi retirado do programa e substituído por outra aeronave disponível nos estoque da empresa. paralelamente, três células adicionais foram adquiridas para compensar perdas operacionais. Os primeiros 04 B-26B modernizados retornaram ao Brasil em 7 de setembro de 1968.  A revitalização conduzida pela Hamilton Aircraft Company representou, assim, um dos mais importantes programas de recuperação estrutural já realizados pela Força Aérea Brasileira  (FAB) até então. O retorno dessas aeronaves marcou o início de uma nova fase operacional para o Invader no Brasil, permitindo sua utilização por mais uma década.  Em consonância com a nomenclatura originalmente adotada pelo fabricante, a partir de 1970 os antigos B-26 passaram a ser oficialmente redesignados pela Força Aérea Brasileira (FAB) como A-26B e A-26C, denominação que refletia com maior precisão sua principal função de aeronave de ataque tático e apoio aproximado.
Um capítulo particularmente singular na história do B-26/A-26 Invader ocorreu em 1970, quando uma célula adicional foi incorporada à frota de maneira absolutamente inesperada. Tratava-se de uma aeronave originalmente convertida para uso civil, empregada como transporte de carga, que foi apreendida pela Polícia Federal em decorrência de seu envolvimento em atividades ilícitas, notadamente contrabando e tráfico de entorpecentes.  Após criteriosa avaliação técnica e administrativa, decidiu-se por sua incorporação ao inventário, onde recebeu a designação Douglas CB-26B e a matrícula FAB 5176, passando a integrar oficialmente a frota.  No ano seguinte, em 1971, nove aeronaves  A-26 Invader foram transferidas para o 1º/10º Grupo de Aviação (GAv) – Esquadrão Poker, então sediado na Base Aérea de São Paulo (BASP). Essa transferência marcou a substituição dos já veteranos Douglas A-20K Havok, fazendo do Esquadrão Poker a terceira unidade  a operar o Invader. A partir desse momento, o A-26 passou a ser empregado em um amplo espectro de missões, incluindo ataque ao solo, reconhecimento fotográfico, esclarecimento marítimo e operações de COIN (contra-insurgência). Essas atribuições assumiam particular relevância no contexto estratégico da década de 1970, período em que o Brasil enfrentava desafios internos relacionados a movimentos armados de inspiração ideológica, ao mesmo tempo em que buscava reforçar a vigilância sobre suas extensas fronteiras terrestres e marítimas. A notável versatilidade do A-26 Invader permitiu ao Esquadrão Poker desempenhar um papel estratégico, combinando ações ofensivas pontuais com missões de vigilância, reconhecimento e apoio às forças terrestres. Embora a carreira operacional do modelo já se aproximasse de sua fase final, há indícios de que os A-26 da Força Aérea Brasileira tenham participado de ações reais de combate entre 1972 e 1973. Nesse período, as aeronaves teriam sido empregadas em missões sigilosas de contra-insurgência e reconhecimento fotográfico, inseridas no conjunto de operações militares conduzidas contra os movimentos de luta armada liderados por integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) na região do Araguaia, situada no então Centro-Oeste do país. Tais incursões, realizadas em um ambiente operacional sensível, foram cercadas por elevado grau de sigilo, característica marcante daquele conturbado momento da história nacional. Apesar do processo de revisão e modernização, logo em 1972, seriam novamente identificadas rachaduras nas longarinas das asas de algumas aeronaves, o que levou ao seu imediato recolhimento para inspeções e avaliações de segurança. Como consequência desse desgaste progressivo, em meados de 1974, apenas doze exemplares permaneciam em condições de voo. Diante desse cenário, foi iniciado o processo de retirada gradual do A-26 do serviço ativo, encerrando-se definitivamente em 3 de setembro de 1975. Nessa data, durante uma singela solenidade militar realizada na Base Aérea de Cumbica, o pouso do Douglas A-26C FAB 5159, encerrando 28 anos de serviço. Algumas células foram preservadas como testemunhos desse legado, com destaque para o FAB 5159 (U.S. BuNo 41-39288), originalmente um Douglas B-26C, que atualmente integra o acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL), no Rio de Janeiro.

Em Escala.
Para representar o Douglas A-26C Invader FAB 5175, foi utilizado o kit da Monogram na escala 1/48, que reutiliza os moldes clássicos da Monogram. Embora o kit seja detalhado e fiel ao design original do A-26, ele apresenta um desafio técnico comum aos moldes mais antigos: as linhas de painel em alto relevo, que contrastam com os padrões modernos de modelismo que favorecem linhas em baixo relevo para maior realismo. Para compor a versão original recebida pela Força Aérea Brasileira (FAB)  é necessário apenas remover a torreta dorsal das metralhadoras calibre .50 Fizemos uso de decais produzidos pela FCM Decals  presentes no antigo Set 48/02.
O esquema de cores (FS) mencionado abaixo refere-se ao padrão de pintura inicial das aeronaves Douglas B-26B e B-26C recebidas em 1957, refletindo o esquema adotado pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) no início da Guerra Fria. Neste período o padrão de pintura mais comum para essas aeronaves, especialmente em configurações operacionais, era o metal natural polido (sem pintura ou com acabamento em alumínio natural) ou um esquema monocromático, geralmente com superfícies metálicas expostas e áreas específicas pintadas para reduzir reflexos ou identificar unidades. Na Força Aérea Brasileira (FAB),  este padrão  foi mantido até 1967, com as aeronaves revitalizadas passando a seguir a adotar  um novo padrão tático em verde e cinza.

Bibliografia :
- Douglas A-26 Invader , Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/Douglas_A-26_Invader
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores
- Invader na FAB , Claudio Lucchesi e José R. Mendonça  - Revista Asas  nº 10
- História da Força Aérea Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html