WC-62 e WC-63 Dodge (VTR-VTNE)

História e Desenvolvimento.
A Dodge Brothers Motors Company desempenhou um papel de destaque na consolidação da indústria automobilística norte-americana durante as primeiras décadas do século XX, evoluindo de uma pequena oficina de manufatura para uma das mais importantes fabricantes de automóveis e veículos utilitários dos Estados Unidos.  A origem da empresa remonta a 1900, quando os irmãos John Francis Dodge e Horace Elgin Dodge, ambos experientes mecânicos e fabricantes de componentes de precisão, estabeleceram em Detroit um empreendimento voltado inicialmente à produção de peças para a nascente indústria automobilística. Reconhecidos pela elevada qualidade de seus componentes, tornaram-se importantes fornecedores da Oldsmobile e Ford contribuindo para a expansão da produção em série. Após acumularem sólida experiência técnica e recursos financeiros, os irmãos decidiram desenvolver seu próprio automóvel. Em 1914 a empresa foi formalmente estabelecida, cuja primeira linha de veículos  conquistou excelente reputação pela robustez, confiabilidade e acabamento superior aos padrões da época. Beneficiando-se da moderna produção em série e de rigorosos processos de controle de qualidade, a empresa experimentou rápido crescimento, consolidando-se em poucos anos entre as principais fabricantes de automóveis de passeio. O sucesso comercial permitiu sucessivos investimentos na ampliação da capacidade industrial, no aperfeiçoamento dos processos produtivos e no desenvolvimento de novos modelos. Ao final da década de 1910, a montadora já ocupava posição de destaque no competitivo mercado automobilístico. Apesar da perda de seus fundadores durante o ano de 1930, a empresa manteve sua expansão sob nova administração, preservando os elevados padrões de engenharia que haviam construído sua reputação e preparando-se para enfrentar uma nova fase de crescimento em um mercado cada vez mais competitivo.  Em 1928  foi adquirida pela Chrysler Corporation, passando a integrar um dos maiores conglomerados automobilísticos. A incorporação ampliou seus recursos financeiros, tecnológicos e industriais, preservando, porém, a identidade da marca. A partir de então, a empresa intensificou o desenvolvimento de veículos comerciais leves e utilitários, utilizando componentes e chassis derivados de seus automóveis de passeio para reduzir custos de produção. Essa estratégia resultou em veículos robustos, confiáveis e competitivos, cujo sucesso comercial consolidou a posição da montadora no mercado comercial norte-americano e impulsionou novos investimentos em expansão e desenvolvimento tecnológico. Na primeira metade da década de 1930, a ascensão do nazismo e o rearmamento das potências europeias levaram a identificar uma oportunidade estratégica no setor de defesa. Beneficiada pela capacidade industrial da Chrysler Corporation e por sua experiência na fabricação de veículos utilitários, a empresa preparou-se para atender às demandas militares.

Assim  fazendo uso recursos próprios, iniciou o desenvolvimento de protótipos conceituais de caminhões militares de médio e grande porte. Esses projetos foram fundamentados na experiência adquirida durante a Primeira Guerra Mundial, quando a empresa forneceu veículos leves às forças armadas norte-americanas. Em 1937, realizou uma apresentação oficial aos militares, exibindo seu primeiro caminhão experimental, o K-39-X-4, um modelo de 1½ toneladas com tração integral. Submetido a testes de campo, o veículo impressionou os militares por seu desempenho, resultando na assinatura de um contrato para a produção de aproximadamente 800 unidades. As entregas começaram nos meses subsequentes, marcando o início da colaboração da Dodge com o setor militar. O sucesso do K-39-X-4 levou à assinatura de novos contratos, mais significativos, para a produção dos modelos Dodge VC-1 e VC-6, ambos de ½ tonelada. Paralelamente foram criadas versões destinadas ao mercado comercial, alcançando grande sucesso comercial no mercado doméstico. Esse êxito incentivou a montadora a expandir sua linha de produtos em 1938, introduzindo novos modelos que passaram a ser fabricados na recém-inaugurada planta industrial Warren Truck Assembly, em Michigan, projetada especificamente para a produção de caminhões leves e médios. Em 1939,  apresentou uma linha completamente redesenhada de picapes e caminhões, caracterizada por um design moderno e designada como “Job-Rated”. Essa linha foi desenvolvida para atender a uma ampla variedade de tarefas e trabalhos, combinando funcionalidade, durabilidade e estética contemporânea. O lançamento reforçou sua posição no mercado  e preparou a empresa para atender às demandas emergentes do setor militar. No final da década de 1930, as crescentes tensões geopolíticas na Europa e no Pacífico evidenciaram a necessidade urgente de modernizar e reequipar as forças armadas dos Estados Unidos. O Exército definiu um padrão para veículos de transporte, categorizando-os em cinco classes com base na capacidade de carga útil: ½ tonelada, 1½ tonelada, 2½ toneladas, 4 toneladas e 7½ toneladas. Esse padrão visava garantir a eficiência logística e a prontidão operacional em um cenário de potenciais conflitos globais. Em junho de 1940, o Quartel-General do Comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army Quartermaster Corps) testou e aprovou três caminhões comerciais padrão com tração nas quatro rodas: Dodge de 1½ toneladas 4x4; GMC de 2½ toneladas 6x6; Mack de ½ tonelada 6x6. Esses modelos foram selecionados para atender às necessidades estratégicas do Exército, estabelecendo as bases para contratos de produção em larga escala. No verão de 1940, a Dodge-Fargo Division da Chrysler Corporation recebeu um contrato para fornecer 14.000 unidades de caminhões de ½ tonelada com tração integral 4x4, designados como série VC. A produção em larga escala teve início em novembro de 1940. 
Com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, dezembro de 1941, o programa de produção de veículos militares foi significativamente ampliado. Nesse contexto, os caminhões da série VC passaram a integrar a família WC (Weapons Carrier), designação que identificava uma ampla gama de veículos militares desenvolvidos pela Dodge. Embora popularmente o significado de WC seja associado à expressão Weapons Carrier ("transportador de armamentos"), na nomenclatura interna da empresa a letra "W" indicava o ano do projeto militar (1941), enquanto a letra "C" correspondia originalmente à classe de carga de meia tonelada, sendo posteriormente mantida também nas versões de ¾ de tonelada e 1½ tonelada 6x6. Os primeiros integrantes dessa família pertenciam à série G-505, de meia tonelada e tração integral 4x4, que rapidamente se tornou um dos pilares da logística do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Ainda em 1940, antes mesmo da entrada oficial do país no conflito, foram produzidos mais de 6.000 caminhões sob dois contratos firmados com o Departamento de Guerra. Identificados pelas designações VF-401 a VF-407,  eram derivados dos protótipos pré-guerra RF-40 e TF-40 e utilizavam o confiável motor Dodge T-203, montado sobre um chassi com distância entre eixos de 143 polegadas (3,63 metros). Essas versões substituíram os modelos VC-1 e VC-6. A rápida expansão do esforço de guerra elevou significativamente os volumes de produção. Entre o final de 1940 e o início de 1942, aproximadamente 82.000 caminhões Dodge WC de ½ tonelada  foram produzidos em diferentes versões, resultado de sucessivos contratos. A fabricação foi compartilhada entre a Dodge Motors Company e a Fargo Motor Car Company, evidenciando a elevada capacidade industrial da Chrysler Corporation em atender às crescentes demandas das forças armadas. A experiência adquirida nos primeiros meses de operação revelou, entretanto, a necessidade de veículos com maior capacidade de carga e melhor desempenho em terrenos difíceis. Em resposta a essas exigências, a Dodge introduziu, em 1942, a série G-502, composta pelos novos caminhões 4x4 de ¾ de tonelada, que se tornariam a versão mais numerosa e conhecida da família WC. No ano seguinte foi lançada a série G-507, um caminhão 6x6 de 1½ tonelada, desenvolvido para missões de transporte de tropas, cargas e reboque de equipamentos de maior porte. Apesar das diferenças de capacidade e dimensões, a Dodge manteve um dos princípios fundamentais do projeto: a elevada padronização de componentes. Aproximadamente 80% das peças mecânicas eram intercambiáveis entre as diferentes versões, característica que simplificava o abastecimento de peças de reposição, reduzia os estoques necessários e facilitava os reparos em campanha. Essa padronização constituiu uma importante vantagem logística, permitindo que veículos de diferentes versões fossem rapidamente recuperados e devolvidos ao serviço, mesmo nas condições adversas dos diversos teatros de operações.

Em fins do ano de 1942 o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) viria a alterar a configuração padrão de um pelotão armado de infantaria, passando de 08 para 12 homens, aumentando assim além da capacidade de combate a possibilidade de sobrevivência no campo de combate. No entanto em termos de material esta nova disposição, traria problemas na capacidade de mobilidade das tropas, tendo em vista que 12 soldados não podiam ser transportados nos modelos Dodge WC-51 e WC-52. Para solucionar este problema, o Major General Courtney Hodges, sugeriu a montadora o desenvolvimento de uma versão alongada dos modelos de utilitários em serviço até então, visando assim comportar a nova configuração do pelotão de infantaria. Com base neste pleito, em fevereiro de 1943, sua equipe de projetos iniciou o desenvolvimento de um novo utilitário de maior porte que fizesse uso de um sistema de tração integral 6X6. No objetivo de se buscar o aproveitamento do ferramental existente e consequente otimização do processo de produção, seria empregado como ponto de partida a plataforma e componentes do WC-51. Ao fazer uso de um chassi de maiores dimensões, seria necessário promover mudanças em componentes críticos como suspensão e transmissão, o peso extra resultando deste processo levaria a necessidade de incorporação de um motor mais potente sendo escolhido então o Dodge T-223 com 93 hp de potência. O veículo que emergiria deste conceito poderia ser classificado como um caminhão de infantaria com grande capacidade fora de estrada (off road), apresentando uma estabilidade incrível em terrenos acidentados, graças ao seu baixo centro de gravidade e banda de rodagem larga (que é a mesma, dianteira e traseira).  A tração nas seis rodas e a grande distância ao solo permitiam que o veículo superasse muitos perigos, seu bom ângulo de aproximação e saída o possibilitava subir e descer encostas íngremes sem enterrar o para-choque ou a estrutura traseira no solo. Sua distribuição de carga era feita de forma uniforme sobre os três eixos podendo operar sem maiores percalços em terrenos lamacentos ou praias. Ainda como ponto positivo, sua silhueta baixa o tornava de difícil visualização a distância, e seu consequente piso baixo da carroceria facilitava em muito os processos de carregamento e descarregamento. Os primeiros carros pré-série seriam completados até meados do mesmo sendo então submetidos a testes de aceitação pelo Quartel General do Comando do Exército dos Estados Unidos, com estes sendo validados para emprego operacional em setembro. O modelo agora designado como WC-62  (G-507/ T-223 ) teria sua produção em série iniciada no mês de novembro, com os primeiros carros sendo entregues logo em seguida. A exemplo dos modelos anteriores da família de utilitários desta montadora, seria desenvolvida uma versão equipada com um sistema de guincho elétrico do modelo Braden MU2 com capacidade de tração de até 3.409 kg, com este veículo recebendo a denominação de WC-63. 
Após um breve período de adaptação e treinamento, os  WC-62 e WC-63 passaram a ser entregues em grande escala às forças armadas norte-americanas, sendo rapidamente distribuídos aos principais teatros de operações. Inicialmente concebidos para o transporte de tropas, cargas e suprimentos na linha de frente, logo demonstraram um desempenho superior ao esperado. A configuração com tração 6x6 proporcionava excelente mobilidade não apenas em terrenos acidentados, enlameados ou sem infraestrutura, mas também em estradas pavimentadas, ampliando significativamente sua versatilidade operacional. Em razão dessas qualidades, tiveram seu emprego gradualmente expandido. Além das funções logísticas, passaram a ser amplamente utilizados como tratores de artilharia leve, rebocando principalmente canhões anticarro de 37 mm e 57 mm. Produzidos nas instalações da Mound Road Truck Plant, em Detroit, pertencente à Chrysler Corporation, alcançaram uma produção aproximada de 43.000 unidades. Seu batismo de fogo ocorreu em 1944, quando começaram a equipar unidades de infantaria, artilharia e engenharia durante a campanha da Europa Ocidental. A estreia operacional aconteceu no contexto das grandes ofensivas aliadas que sucederam o Dia D, quando o rápido avanço a partir da Normandia exigiu um intenso esforço logístico para o transporte de tropas, munições, equipamentos de engenharia e peças de artilharia. Nesse cenário desempenharam papel fundamental na sustentação das operações terrestres que culminaram na derrota da Alemanha Nazista. Com o término da guerra, uma parcela significativa da frota utilizada na Europa foi desmobilizada. Muitos desses veículos permaneceram no continente e foram incorporados às forças armadas de países como Áustria, Bélgica e França. A eclosão da Guerra da Coreia trouxe novamente os WC-62 e WC-63 ao serviço ativo. Nos primeiros meses do conflito, durante a retirada das forças das Nações Unidas para o Perímetro de Pusan, esses caminhões foram empregados intensivamente no transporte de tropas, munições e suprimentos, na evacuação de feridos e no deslocamento de equipamentos de engenharia. A tração integral 6x6 revelou-se especialmente valiosa nas precárias estradas coreanas, frequentemente destruídas pelos combates ou transformadas em lama pelas condições climáticas. A partir da segunda metade da década de 1950, com a introdução de uma nova geração de caminhões militares, especialmente da família Dodge M-37 e de outros veículos táticos mais modernos, os WC-62 e WC-63 começaram a ser gradualmente retirados de serviço nas forças armadas norte-americanas. A desativação gerou um expressivo excedente de veículos, posteriormente distribuído a países aliados dos Estados Unidos por meio dos programas de assistência militar da Guerra Fria. Nações como Grécia, Irã, Nicarágua, Portugal e Suíça receberam esses caminhões, que permaneceram em operação por muitos anos, comprovando a robustez, confiabilidade e longevidade.

Emprego no Exército Brasileiro.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com crescente apreensão a possibilidade de uma ofensiva das forças da Alemanha, Itália e Japão  contra o continente americano. Essa preocupação intensificou-se de forma decisiva após a capitulação da França, em junho de 1940, uma vez que o colapso do poder francês na Europa abriu a perspectiva de que a Alemanha nazista pudesse utilizar antigas colônias francesas, como as Ilhas Canárias, Dacar e outros territórios estratégicos no Atlântico, como pontos de apoio para operações militares de longo alcance. Nesse cenário, o Brasil passou a ser identificado pelos estrategistas norte-americanos como um dos alvos mais sensíveis em caso de expansão do conflito para o hemisfério ocidental. Sua posição geográfica, especialmente no Nordeste, colocava o país na menor distância entre os continentes americano e africano, região que figurava nos planos de expansão territorial alemães. Paralelamente, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul interromperam o acesso dos Aliados às tradicionais fontes de borracha natural, transformando o Brasil no principal fornecedor de látex para o esforço de guerra aliado  insumo vital para a indústria bélica, indispensável à produção de pneus, mangueiras, vedações e inúmeros componentes militares. Além dos aspectos econômicos, o litoral brasileiro assumia importância estratégica singular do ponto de vista militar. A região Nordeste, em especial a cidade do Recife, destacava-se como local privilegiado para a instalação de bases aéreas e portuárias, capazes de funcionar como elo logístico entre as Américas, a África e, posteriormente, os teatros de operações europeu e norte-africano. A partir desses pontos, seria possível o deslocamento rápido de aeronaves, tropas e suprimentos, reduzindo significativamente o tempo e os riscos das travessias transatlânticas. Diante desse contexto geopolítico, verificou-se, em curto espaço de tempo, uma acentuada aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa convergência materializou-se por meio de investimentos estratégicos e acordos de cooperação, entre os quais se destacou a adesão brasileira ao Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). O programa tinha como objetivo central a modernização das Forças Armadas dos países aliados, e, no caso brasileiro, assegurou uma linha inicial de crédito de aproximadamente US$ 100 milhões, destinada à aquisição de material bélico moderno, incluindo armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Esses recursos revelaram-se fundamentais para o fortalecimento da capacidade defensiva do país, especialmente em face da crescente ameaça representada pelos ataques de submarinos alemães no Atlântico Sul. Tais ações comprometiam a segurança da navegação civil e afetavam diretamente o comércio exterior brasileiro, em especial o fluxo contínuo de matérias-primas estratégicas enviadas aos Estados Unidos para sustentar sua indústria de guerra.

Naquele contexto, o Exército Brasileiro encontrava-se em um avançado estado de defasagem no que se referia a armamentos, meios de transporte e equipamentos militares em geral. As limitações eram resultado de anos de reduzidos investimentos em modernização e da dependência de uma frota heterogênea, composta em grande parte por veículos civis adaptados ao serviço militar ou por modelos já tecnologicamente ultrapassados. Entre as deficiências mais críticas destacava-se a escassez de caminhões militares dotados de tração integral, considerados essenciais para assegurar a mobilidade das tropas, o transporte de suprimentos e o apoio logístico às unidades em operações realizadas em terrenos acidentados ou de difícil acesso. Os poucos veículos disponíveis eram insuficientes para atender às necessidades operacionais, restringindo sua capacidade de deslocamento, reduzindo sua flexibilidade tática e comprometendo sua prontidão para o emprego em larga escala. Essa realidade começou a se modificar a partir do final de 1941, quando foram recebidos primeiros lotes de veículos militares fornecidos no âmbito do programa de assistência militar. Entretanto, os utilitários pertencentes à família Dodge WC somente começaram a chegar em quantidades realmente significativas no final de 1942. Entre os modelos recebidos destacavam-se os caminhões Dodge WC-62 e WC-63, conhecidos pela designação Big Shot, que passaram a equipar inicialmente regimentos de infantaria sediados na então Capital Federal, a cidade do Rio de Janeiro. Dotados de tração integral e elevada capacidade de transporte de pessoal e carga, esses veículos representaram um avanço substancial para a capacidade operacional. Sua incorporação marcou o início de uma profunda transformação na doutrina de emprego da força terrestre, ampliando significativamente sua mobilidade tática, sua autonomia logística e sua capacidade de operar nos mais variados ambientes. A introdução dessa nova geração de viaturas permitiu também a gradual substituição da reduzida frota existente, como os Vidal & Sohn Tempo-Werk Tempo G1200, adquiridos em 1938. Estima-se que, nessa fase, aproximadamente 300 viaturas dos modelos  WC-51, WC-52, WC-62 e WC-63 tenham sido entregues. Embora modesto diante das necessidades, esse quantitativo representou o inicio do processo de transição de uma força ainda predominantemente hipomóvel, para uma organização progressivamente mecanizada. Paralelamente, o Brasil consolidava seu compromisso político e militar com os Aliados, formalizando sua participação direta no esforço de guerra em 9 de agosto de 1943, com a criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), organizada para atuar no Teatro de Operações do Mediterrâneo, integrando o dispositivo aliado na campanha da Itália. Estruturada de acordo com a doutrina e a organização do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), foi concebida para operar plenamente integrada, adotando seus métodos de instrução, organização logística, comunicações, apoio de fogo e comando. 
O efetivo inicialmente previsto era de aproximadamente 25.000 homens e para assegurar a mobilidade desse contingente, tornou-se indispensável dotá-lo de uma ampla frota de veículos destinados ao transporte de tropas, armamentos, equipamentos, munições, víveres e demais suprimentos necessários à sustentação das operações em campanha. Em conformidade com o cronograma estabelecido pelos Aliados, o primeiro escalão  desembarcou no porto de Nápoles, em 16 de julho de 1944. Após um breve período de adaptação às condições locais e de treinamento complementar, a força brasileira recebeu integralmente seu material, incluindo armamentos, equipamentos individuais, sistemas de comunicações e viaturas militares. Todo esse material foi retirado dos estoques estratégicos de recomplementação do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), mantidos na cidade de Tarquinia, o parque de veículos colocado à disposição compreendia um expressivo número de caminhões, jipes, ambulâncias e utilitários militares de diferentes capacidades. Entre essas viaturas destacavam-se 137 exemplares dos utilitários  Dodge WC-62 e WC-63, sendo empregados durante o batismo de fogo em 14 de setembro de 1944, durante as operações iniciais desenvolvidas no Vale do Rio Serchio, na região da Toscana. Naquela ocasião, o 6º Regimento de Infantaria (6º RI), tradicionalmente conhecido como Regimento Ipiranga, entrou em combate contra posições alemãs integradas à Linha Gótica, o mais importante sistema defensivo construído pelas forças do Eixo no norte da Itália. A partir desse momento,  passou-se  a participar de forma contínua das operações ofensivas aliadas, onde os WC-62 e WC-63 desempenharam papel de grande relevância nas operações conduzidas. Seriam empregados intensivamente no transporte de tropas, munições, combustível, víveres, equipamentos e demais suprimentos.  Sua robustez mecânica e a eficiente tração 6×6 mostraram-se particularmente adequadas às severas condições do teatro de operações italiano, caracterizado por regiões montanhosas, estradas estreitas, avarias e frequentemente enlameadas, além de rigorosas condições climáticas durante o inverno. Durante toda a campanha da Itália, os  Dodge WC-62 também foram empregados em atividades de caráter humanitário. Em determinadas ocasiões, passaram a servir ao Pelotão de Sepultamento (PS), organização responsável pela difícil e honrosa missão de localizar, recolher, identificar e sepultar os militares brasileiros mortos em combate, bem como catalogar e encaminhar seus pertences pessoais às respectivas famílias no Brasil. Nessas operações, realizadas frequentemente sob condições adversas e, por vezes, ainda sob risco de fogo inimigo, os veículos proporcionaram o apoio logístico indispensável ao deslocamento das equipes e ao transporte dos despojos, contribuindo para que uma das tarefas mais sensíveis e moralmente relevantes desempenhadas fosse executada com dignidade, respeito e eficiência.

Em conformidade com a doutrina operacional adotada pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), os  WC-62 passaram a desempenhar também a função de tracionar peças de artilharia leves e médias empregadas pela Força Expedicionária Brasileira (FEB). Ao longo da Campanha  os WC-62 e WC-63 estiveram presentes em algumas das mais importantes e exigentes operações conduzidas, participando dos combates de Camaiore, Monte Prano, Monte Castello, Castelnuovo di Vergato, Montese, Zocca, Collecchio e Fornovo. Nessas campanhas, os veículos enfrentaram condições extremamente severas de emprego e apesar dessas adversidades, demonstraram elevado grau de confiabilidade mecânica, robustez estrutural e notável capacidade de adaptação ao ambiente operacional, mantendo elevados índices de disponibilidade mesmo quando submetidos a manutenção corretiva realizada diretamente em campanha, muitas vezes sem oficinas adequadamente equipadas ou ferramental especializado. Com o encerramento das hostilidades na Europa, iniciou-se o processo de desmobilização das forças aliadas. Os  WC-62 e WC-63, assim como os demais veículos, armamentos e equipamentos utilizados pelo Exército Brasileiro e pela Força Aérea Brasileira (FAB), foram encaminhados ao Comando de Material do Exército dos Estados Unidos, sediado em Roma. Nessa organização, todo o material passou por criteriosa inspeção técnica, sendo selecionadas para repatriação as viaturas que apresentavam melhores condições de conservação e operação. Posteriormente,  foram embarcados por via marítima com destino ao Brasil, retornando a tempo de participar do Desfile da Vitória, realizado em 18 de julho de 1945, com esta cerimônia representando um dos mais importantes atos cívico-militares do período pós-guerra. No período imediatamente posterior ao conflito, os WC-62 e WC-63 foram incorporados às unidades de infantaria motorizada e às companhias de canhões anticarro, permanecendo empregados principalmente no reboque dos canhões M1 de 57 mm e no transporte de tropas e suprimentos.  Durante as duas décadas seguintes, essas viaturas constituíram um dos principais pilares do processo de mecanização,   entretanto, à medida que a década de 1950 se aproximava do fim, a frota começou a apresentar sinais cada vez mais evidentes de desgaste decorrentes do intenso emprego e da idade avançada dos veículos. Os índices de disponibilidade operacional passaram a diminuir progressivamente, situação agravada pela crescente dificuldade de obtenção de componentes de reposição. O principal obstáculo encontrava-se no fornecimento de peças para o motor Dodge T-214, cuja produção havia sido encerrada nos Estados Unidos em 1947. Com o passar dos anos, a interrupção da fabricação de componentes tornou a manutenção desses veículos progressivamente mais complexa e onerosa, comprometendo sua permanência em serviço. Esse cenário marcou o início do processo de retirada gradual dos Dodge WC-62 e WC-63 das unidades operacionais do Exército Brasileiro. 
Diante do crescente processo de obsolescência da frota Dodge WC e das limitações logísticas decorrentes da escassez de peças de reposição, tornou-se indispensável a adoção de medidas capazes de assegurar a continuidade da mobilidade operacional. A manutenção de veículos cuja produção havia sido encerrada  tornava-se cada vez mais onerosa e complexa, comprometendo os índices de disponibilidade da frota e exigindo a busca de soluções. Nesse contexto por intermédio de negociações conduzidas no âmbito do Programa de Assistência Militar (MAP), seria viabilizada  a partir de 1966 a obtenção de 300 viaturas dos modelos Dodge M-37 e M-43. Paralelamente à renovação da frota, buscou-se alternativas para prolongar a vida útil dos utilitários remanescentes da família Dodge WC. Com esse propósito, a equipe técnica do Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2), desenvolveu estudos destinados à substituição dos motores originais Dodge T-214 por propulsores de concepção mais moderna e maior eficiência. A iniciativa inseria-se em um amplo programa de racionalização logística conduzido durante as décadas de 1960 e 1970, período em que também foram desenvolvidos projetos de remotorização de outras viaturas militares, como os caminhões GMC CCKW e Studebaker US6, além dos veículos meia-lagarta M3, M3A1 e M5 . O objetivo comum desses programas era reduzir custos operacionais, aumentar a confiabilidade mecânica, diminuir o consumo de combustível e ampliar a padronização dos sistemas de manutenção. Embora os estudos tenham demonstrado a viabilidade técnica da remotorização dos Dodge WC, o projeto não ultrapassou a fase inicial de prototipagem. Restrições orçamentárias impediram sua implementação, diante dessa realidade, optou-se por uma solução de caráter paliativo, baseada na recuperação dos conjuntos mecânicos originais através de processos de retifica. Os serviços foram executados pela empresa Motopeças S/A, permitindo recuperar as condições de funcionamento dos motores e prolongar por vários anos a vida útil dessas viaturas. Ainda assim, a evolução tecnológica dos veículos militares e o fortalecimento da indústria automobilística nacional tornaram inevitável a substituição definitiva da família Dodge WC. A partir do final da década de 1970, os utilitários remanescentes passaram a ser progressivamente retirados das unidades operacionais, sendo substituídos por caminhões militarizados de fabricação nacional, processo que se estendeu até o final da década de 1980. Essa renovação representou não apenas a incorporação de equipamentos mais modernos, mas também a consolidação de uma política voltada ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira e à crescente nacionalização dos meios empregados. Com a desativação gradual da frota, muitos dos antigos Dodge WC foram alienados por meio de leilões públicos, enquanto outros, em condições irrecuperáveis, tiveram como destino o desmanche ou a sucata. 

Em Escala.
Para representarmos o Dodge WC-63 "FEB 330", pertencente ao 11º Regimento de Infantaria da Companhia Anti Carros da Força Expedicionária Brasileira (FEB) empregamos o excelente kit da AFV Club, na escala 1/35. Modelo este que prima pelo nível de detalhamento e possibilita também a montagem da versão WC-62 (sem o guincho elétrico frontal). Incluímos em resina, artefatos que simulam a carga em formato de caixas e lonas de campanha. Fizemos uso de decais produzidos pela Decals e Books, presentes como complemento do livro "FEB na Segunda Guerra Mundial" de Luciano Barbosa Monteiro.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático aplicado a todos os veículos em serviço no Exército dos Estados Unidos (U.S Army) durante a Segunda Guerra Mundial, padrão este com os veículos foram cedidos ao Exército Brasileiro, recebendo neste momento apenas as marcações nacionais. Este esquema seria mantido durante o tempo de serviço dos Dodges WC-62 e WC-63, alterando-se apenas o padrão de matrícula, seguindo este esquema até sua desativação.

Bibliografia :
- FEB na Segunda Guerra Mundial, por Luciano Barbosa Monteiro
- Dodges WC Series - http://en.wikipedia.org/wiki/Dodge_WC_series#WC51
- Standard Catalog of U.S. Military Vehicles, 1942
- Dodge 6X6 WC-63 da  FEB, por Expedito Stephani Bastos - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/Dodge.pdf