C-28A Lockheed Hudson

História e Desenvolvimento.
A Lockheed Aircraft Manufacturing Company foi fundada em 1912 pelos irmãos Allan Lockheed e Malcolm Lockheed, na cidade de San Diego. Em seus primeiros anos de atividade, a empresa concentrou-se no desenvolvimento e na fabricação de aeronaves de pequeno porte, voltadas principalmente ao turismo aéreo e ao treinamento civil, inserindo-se em um mercado ainda incipiente, porém promissor. Ao longo da década de 1910, a companhia experimentou um crescimento consistente. Contudo, o término da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, provocou profundas transformações no setor aeronáutico. A desmobilização em massa de aeronaves militares excedentes levou à saturação do mercado civil, com grande oferta de aeronaves a baixo custo, o que comprometeu severamente a competitividade de novos fabricantes. Nesse contexto adverso, diversas empresas encerraram suas atividades, entre elas a própria Lockheed Aircraft Manufacturing Company. Após a interrupção de suas operações, os irmãos redirecionaram seus esforços para outros segmentos econômicos. Somente em 1926, Allan Lockheed retornaria ao setor aeronáutico ao associar-se aos engenheiros John Northrop, Kenneth Kay e Fred Keeler, fundando a Lockheed Aircraft Company, sediada em Hollywood, Califórnia. A nova empresa apoiou-se em desenvolvimentos tecnológicos anteriores, particularmente no projeto do Modelo S-1, para conceber o Lockheed Vega, que se tornaria seu primeiro grande sucesso comercial. O impacto desse modelo foi imediato: em 1928, a companhia transferiu suas instalações para Burbank e, ao final daquele ano, já registrava vendas superiores a um milhão de dólares. Nesse período, a produção alcançou escala significativa, com centenas de aeronaves fabricadas e uma força de trabalho superior a trezentos funcionários, operando em uma linha de montagem capaz de concluir até cinco aeronaves por semana. Em julho de 1929, Fred Keeler, então acionista majoritário, vendeu 87% das ações da empresa à Detroit Aircraft Corporation, viabilizando um ambicioso plano de expansão. Entretanto, a eclosão da Grande Depressão em meados do mesmo ano, impactou severamente o setor aeronáutico, conduzindo a empresa a uma situação de insolvência. Em 1932, durante o processo de liquidação, a companhia foi adquirida por um grupo de investidores liderado por Robert E. Gross e Courtland S. Gross, em associação com Walter Varney. Essa aquisição marcou o início de uma nova fase de reestruturação e recuperação, ao longo da qual a empresa voltou a se destacar no mercado aeronáutico. A retomada do crescimento foi impulsionada, sobretudo, pelo desenvolvimento de aeronaves inovadoras, entre as quais se destacou o Lockheed Model 10 Electra. Trata-se de uma aeronave totalmente metálica, com capacidade para transportar até dez passageiros, que rapidamente conquistou a confiança do mercado civil e comercial dos Estados Unidos, consolidando a reputação da empresa como um dos principais fabricantes aeronáuticos do período.

A partir de meados da década de 1930, especialmente após 1934, a Lockheed Aircraft Company passou a identificar uma oportunidade comercial de grande relevância no cenário internacional. A crescente instabilidade política na Europa, marcada pela ascensão da Alemanha Nazista e pelo expansionismo da Itália Fascista, alimentava a percepção, entre diversos governos europeus, de que um novo conflito no continente era iminente. Esse contexto levou à intensificação de programas de rearmamento das forças armadas alemães, mesmo diante das restrições impostas pelo Tratado de Versalhes. Paralelamente diversas nações europeias como França, Reino Unido, além de países como Bélgica e Países Baixos, iniciaram esforços para modernizar e expandir suas forças armadas. Todavia, suas indústrias de defesa não estavam plenamente preparadas para atender, em curto prazo, às crescentes demandas  sobretudo no campo do poder aéreo. Diante dessa limitação, esses países passaram a recorrer à aquisição de equipamentos produzidos nos Estados Unidos. Entre os potenciais clientes, destacou-se o Reino Unido, cujo governo empreendeu um esforço emergencial para renovar sua frota aérea, com especial atenção às aeronaves destinadas a bombardeio, transporte, patrulha marítima e guerra antissubmarino. No âmbito da Força Aérea Real (Royal Air Force), diversos modelos encontravam-se obsoletos, entre estes  o Avro Anson, empregado em missões de reconhecimento e vigilância marítima. Atenta a esse cenário, a diretoria da Lockheed Aircraft Company vislumbrou neste segmento um amplo mercado potencial e, em fevereiro de 1938, autorizou  com recursos próprios  o início do desenvolvimento de uma nova aeronave militar multifunção, destinada a missões de reconhecimento, patrulha e bombardeio. Com o objetivo de reduzir custos e acelerar o cronograma de desenvolvimento, o projeto foi baseado na plataforma do bimotor civil  Lockheed Model 14 Super Electra. O programa recebeu a designação Model B-14 (bomber), e seus trabalhos avançaram rapidamente, incluindo a construção de um modelo em madeira (mock-up) para avaliação preliminar. Coincidentemente, esse esforço ocorreu no mesmo período em que uma comissão britânica de compras visitava os Estados Unidos em busca de soluções para reequipar suas forças armadas. Aproveitando esta grande oportunidade, a Lockheed Aircraft Company promoveu uma apresentação detalhada do projeto, destacando suas capacidades para missões de patrulha marítima e guerra antissubmarino. A proposta causou impressão altamente favorável entre os oficiais britânicos, que, diante do potencial da aeronave, estenderam um convite formal à diretoria da empresa para visitar o Reino Unido, com o objetivo de aprofundar as discussões e avaliar a viabilidade de aquisição do novo modelo. Para atender ao novo perfil operacional exigido pela proposta apresentada a Força Aérea Real (RAF) questão, a plataforma do Lockheed Model 14 Super Electra passaria por significativas modificações estruturais e funcionais. 
Entre as principais modificações introduzidas no projeto, destacou-se a incorporação de um compartimento ventral destinado ao transporte de bombas, bem como a adaptação estrutural para a instalação de duas torres elétricas equipadas com metralhadoras Browning M2 calibre .50, voltadas à autodefesa da aeronave. O modelo, posteriormente designado como Lockheed Model B-14, foi concebido com o propósito de atender às necessidades da  Força Aérea Real (Royal Air Force), especialmente no que se referia à substituição dos já obsoletos Avro Anson. Após análise pelo corpo técnico britânico, o projeto original foi objeto de diversas recomendações de aprimoramento. Entre as alterações mais significativas destacou-se a reconfiguração da estação do navegador, originalmente posicionada na seção traseira da fuselagem e posteriormente transferida para a porção frontal. Essa mudança implicou a reformulação do nariz da aeronave, que passou a acomodar o tripulante em sua nova posição, com a possibilidade adicional de instalação de armamento de tiro frontal, ampliando sua capacidade de ataque a alvos de superfície. Apesar das modificações estruturais, e em função da necessidade de cumprimento dos prazos contratuais, a aeronave manteve características herdadas da versão civil, como as janelas laterais da fuselagem  um elemento distintivo de sua origem no Lockheed Model 14 Super Electra. Em 10 de outubro de 1938, o primeiro protótipo, já incorporando as alterações solicitadas, foi apresentado às autoridades britânicas, mantendo a designação Lockheed Model B-14. Submetido a um programa acelerado de ensaios em voo, o modelo obteve aprovação para produção em série, sendo designado no serviço britânico como Lockheed Hudson Mk I. Em dezembro do mesmo ano, foi formalizado um contrato para a aquisição de 200 unidades, com as primeiras entregas ocorrendo em fevereiro de 1939 ao 224º Esquadrão de Bombardeio, sediado na Escócia. Ao longo das fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea Real (Royal Air Force) ampliou significativamente suas encomendas, totalizando mais de 800 aeronaves distribuídas entre as variantes Lockheed Hudson Mk II, Mk III,  Mk IV,  Mk V e  Mk VI. O batismo de fogo desta família de aeronaves no âmbito da Força Aérea Real (Royal Air Force) ocorreu nas fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, logo após sua entrada em serviço operacional em 1939. Inicialmente destinados a missões de patrulha marítima e reconhecimento, esses bimotores rapidamente foram empregados em operações reais de guerra antissubmarino (ASW) no contexto da guerra aérea e naval travada sobre o Atlântico Norte e o Mar do Norte. O episódio mais emblemático desse “batismo de fogo” deu-se em 8 de outubro de 1939, quando uma aeronave A-28 Hudson do 224º Esquadrão  baseado em Leuchars, na Escócia, localizou e atacou o submarino alemão U-36. Durante a ação, a tripulação lançou cargas de profundidade que atingiram o alvo com precisão, resultando no afundamento do submarino.

Adicionalmente, a família Lockheed Hudson foi incorporada ao programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos) , sendo fornecida em larga escala às forças armadas de diversos países aliados, como Austrália, África do Sul, Canadá, Birmânia, França Livre e Nova Zelândia. Nessas nações, as aeronaves foram amplamente empregadas em missões de patrulha marítima, ataque, transporte e guerra antissubmarino (ASW), desempenhando papel de elevada importância ao longo de todo o conflito. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, em 7 de dezembro de 1941  após o ataque a Pearl Harbor  representou um ponto de inflexão que alçou a Lockheed Aircraft Corporation à condição de um dos principais fornecedores estratégicos das forças armadas norte-americanas. A partir desse momento, a empresa consolidou sua relevância no esforço de guerra aliado, destacando-se pela produção de aeronaves de elevado valor operacional. Dentre essas, sobressaiu-se o Lockheed A-28 Hudson,  amplamente empregado pelas forças armadas norte-americanas. Nos momentos iniciais da participação norte-americana no conflito, uma decisão emergencial determinou o redirecionamento de diversas aeronaves originalmente destinadas aos britanicos para reforçar as unidades baseadas na costa oeste dos Estados Unidos e nas ilhas do Pacífico, diante da ameaça japonesa. Nesse contexto, os A-28 Hudson desempenharam papel fundamental nas primeiras fases do conflito, sobretudo em missões de patrulha marítima e guerra antissubmarino (ASW). Atuando tanto no teatro europeu quanto no Pacífico, operaram em estreita cooperação com os hidroaviões Consolidated PBY Catalina, evidenciando elevada versatilidade e eficiência operacional. O Lockheed Hudson também se destacou por feitos históricos de grande relevância. Foi a primeira aeronave de projeto e fabricação norte-americana a abater um avião inimigo durante a guerra, em 8 de outubro de 1939, quando um exemplar operado pela Força Aérea Real (Royal Air Force) derrubou um Dornier Do 18 da Força Aérea Alema (Luftwaffe) durante patrulha no Mar do Norte. Posteriormente, em 27 de agosto de 1941, a mesma aeronave tornar-se-ia também a primeira britânica a afundar um submarino alemão, o U-656, mediante o emprego de cargas de profundidade. No âmbito da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), a versão naval Lockheed PBO-1 Hudson destacou-se por destruir os primeiros submarinos alemães atacados por aeronaves norte-americanas, além de introduzir, de forma pioneira, o emprego de foguetes não guiados em operações antissubmarino  uma inovação tática que ampliou significativamente a eficácia dessas missões. Do ponto de vista técnico, as diferentes variantes do Hudson refletiam distintas configurações de motorização. Os exemplares equipados com motores Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp receberam as designações Lockheed A-28 Hudson e A-28A no Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), enquanto aqueles dotados de motores Wright R-1820 Cyclone foram classificados como  A-29 Hudson e A-29A.




Pouco antes do envolvimento direto dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) transferiu à Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) a responsabilidade pelas operações de guerra antissubmarino (ASW) ao longo do litoral norte-americano. Em decorrência dessa decisão, a Aviação Naval passou a concentrar esforços na ampliação e modernização de seus meios de patrulha, o que incluiu a absorção dos contratos de produção de aeronaves anteriormente vinculados ao Exército. Para atender de forma mais eficaz aos exigentes requisitos dessas missões, os modelos em desenvolvimento foram submetidos a uma série de modificações estruturais e funcionais. Como resultado desse processo evolutivo, entraram em serviço, a partir do final de 1942, os Lockheed PV-1 Ventura também conhecidos na designação do Exército como B-34 seguidos, em 1943, pelos Lockheed PV-2 Harpoon. Essas aeronaves apresentavam desempenho superior, maior alcance e melhor capacidade de carga, sendo progressivamente introduzidas na linha de frente em substituição aos Lockheed A-28 Hudson. Até maio de 1943, aproximadamente 3.000 células da família Hudson haviam sido produzidas, permanecendo muitas delas ainda em boas condições operacionais. Diante desse cenário, a Força Aérea Real (Royal Air Force)  optou por reaproveitar parte dessa frota em funções logísticas, promovendo sua conversão para missões de transporte de carga e pessoal. Essas adaptações envolveram a remoção de sistemas de armamento, blindagem e equipamentos eletrônicos específicos para patrulha e guerra antissubmarino (ASW), permitindo maior eficiência no transporte. A partir do final de 1943, as primeiras aeronaves convertidas começaram a entrar em operação nessa nova configuração. Esse modelo de reaproveitamento também foi adotado pelas forças armadas norte-americanas, que passaram a empregar aeronaves de transporte derivadas da mesma linhagem tecnológica, como o Lockheed C-60 e  C-66 Lodestar. O uso dessas aeronaves foi favorecido pela padronização e intercambiabilidade de componentes, facilitando a manutenção e o suprimento logístico. Com o término da guerra, em setembro de 1945, grande parte das aeronaves remanescentes  tanto norte-americanas quanto britânicas  foi retirada do serviço ativo e transferida para o mercado civil. Nesse novo contexto, passaram a ser empregadas em atividades como transporte de passageiros e aerofotogrametria, permanecendo em operação, em alguns casos, até o final da década de 1960. Por sua vez, o  A-28 Hudson, especialmente em suas versões adaptadas para transporte militar, continuou a ser utilizado no período pós-guerra por diversas forças aéreas ao redor do mundo, incluindo as de Brasil, Austrália, Países Baixos, Israel, Trindade e Tobago e Portugal.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com grande preocupação a possibilidade de uma invasão do continente americano pelas forças do Eixo, compostas por Alemanha, Itália e Japão. Essa apreensão intensificou-se após a capitulação da França, em junho de 1940, evento que abriu a possibilidade de a Alemanha Nazista estabelecer bases operacionais em territórios como as Ilhas Canárias, Dacar e outras colônias francesas. Tais posições poderiam servir como pontos estratégicos para uma eventual incursão militar no continente americano. Nesse contexto, o Brasil emergiu como o alvo mais provável para uma ofensiva, devido à sua proximidade geográfica com o continente africano, que também integrava os planos de expansão territorial alemã. Adicionalmente, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul elevaram o Brasil à posição de principal fornecedor de látex para os Aliados, uma matéria-prima essencial à produção de borracha, recurso crítico para a indústria bélica. Além disso, a localização estratégica do litoral brasileiro, especialmente na região Nordeste, revelou-se vantajosa para a instalação de bases aéreas e portos militares. A cidade de Recife destacou-se como o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano, configurando-se como uma potencial ponte logística para o envio de tropas, suprimentos e aeronaves aos teatros de operações na Europa e no Norte da África. Diante desse cenário, observou-se uma rápida aproximação política e econômica entre Brasil e Estados Unidos, materializada por meio de investimentos estratégicos e acordos de cooperação militar. A ameaça representada pelos submarinos alemães e italianos ao longo da costa brasileira passou a ser enfrentada de forma mais incisiva após a declaração de guerra aos países do Eixo, em agosto de 1942. A partir desse momento, a Marinha dos Estados Unidos (US Navy) iniciou a operação de esquadrões antissubmarino a partir de bases localizadas predominantemente no litoral nordestino do Brasil. Nesse período, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB) enfrentava limitações significativas, carecendo de treinamento e equipamentos adequados para a realização de missões especializadas de patrulha marítima. Sua frota, herdada das aviações Militar e Naval, era composta majoritariamente por aeronaves obsoletas, sendo os modelos mais modernos, como o Vultee V-11 e o Focke-Wulf FW-58 Weihe, insuficientes para as demandas de combate aos submarinos do Eixo. Essas missões, essenciais ao esforço de guerra nacional, tinham como objetivo principal a busca e a destruição de submarinos inimigos, que representavam uma séria ameaça à navegação militar e civil nas águas territoriais brasileiras. Dessa forma, tornou-se imperativo um esforço emergencial para modernizar os meios de patrulha da  Força Aérea Brasileira (FAB). Esse processo ganhou impulso com a criação da Comissão de Compras de Material Aeronáutico, sediada nos Estados Unidos, encarregada de selecionar e adquirir os equipamentos necessários para atender às exigências de modernização e fortalecer a capacidade operacional do Brasil no conflito.

A adesão do governo brasileiro ao programa Lend-Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos) assegurou ao país uma linha de crédito inicial no valor de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de equipamentos bélicos. Esse financiamento possibilitou o acesso a armamentos modernos, incluindo aeronaves, veículos blindados e carros de combate, recursos essenciais para enfrentar as ameaças representadas pelos ataques de submarinos alemães. Esses ataques intensificavam os riscos à navegação civil, afetando diretamente o comércio exterior entre Brasil e Estados Unidos, que dependia do transporte diário de matérias-primas cruciais para a indústria bélica norte-americana. A participação brasileira no esforço de guerra aliado logo se expandiu. O presidente Getúlio Vargas declarou que o país não se limitaria ao fornecimento de materiais estratégicos aos Aliados, sinalizando a possibilidade de uma contribuição mais ativa no conflito, com o eventual envio de tropas para teatros de operações relevantes. Contudo, apesar dessa priorização, o rápido aumento das operações de submarinos alemães e italianos na costa brasileira exigiu que a Força Aérea Brasileira (FAB) realizasse missões de patrulha marítima, ainda que equipada com aeronaves inadequadas para tais tarefas, como os caças monomotores Curtiss P-36A e P-40E, enquanto aguardava a chegada de aeronaves especializadas. As primeiras missões de combate antissubmarino foram conduzidas de forma precária pelos bombardeiros North-American B-25B Mitchell. O primeiro confronto ocorreu em 22 de maio de 1942, antes mesmo da entrada oficial do Brasil na guerra, quando uma aeronave da FAB atacou um submarino alemão. Este, ao avistar a aeronave brasileira, respondeu com disparos de artilharia antiaérea. A capacidade de patrulha foi reforçada a partir de dezembro de 1942, com a entrega das primeiras dez unidades do Lockheed A-28A-LO Hudson, seguidas por mais dezesseis no mês seguinte. Essas aeronaves, originalmente destinadas à Força Aérea Real (Royal Air Force) , foram redirecionadas à Força Aérea Brasileira (FAB) devido à necessidade urgente de equipar esse novo aliado com os meios mínimos para o esforço de guerra antissubmarino (ASW). A primeira unidade a operar o modelo foi o Grupo de Aviões Bimotores (GAB) da Unidade Volante, sediado em Natal, Rio Grande do Norte. Em dezembro de 1942, o grupo iniciou suas operações, realizando missões de patrulhamento marítimo para proteger comboios de navios mercantes. Posteriormente, a Base Aérea de Salvador recebeu sete unidades do A-28 Hudson. Além disso, em 17 de agosto de 1944, o 2º Grupo de Bombardeio Médio (2º GBM) foi ativado em Salvador, no estado da Bahia, com cinco aeronaves desse modelo, desempenhando missões de cobertura de comboios, operações antissubmarino e bombardeio.
Ao longo do conflito, os Lockheed A-28A Hudson foram amplamente utilizados por diversas unidades da Força Aérea Brasileira no esforço de guerra contra submarinos alemães e italianos ao longo da costa do Brasil. Essas aeronaves foram operadas pelo 4º Grupo de Bombardeio Médio (4º GBM), pela Unidade Volante do Galeão, pelo 3º Grupo de Bombardeio Médio (3º GBM), pelo Grupo de Aviões Bimotores do 6º Regimento de Aviação (GAB-6º RAv), e pelo 1º Grupo de Bombardeio Médio (1º GBM), sediados nas Bases Aéreas de Canoas e Santa Cruz. Essas unidades desempenharam um papel crucial na proteção de grandes comboios marítimos, que frequentemente incluíam dezenas de navios mercantes responsáveis pela ligação diária entre o Brasil e os Estados Unidos. Os A-28A Hudson executavam padrões elaborados de varredura e acompanhamento, garantindo a segurança dos navios sob sua responsabilidade até que estes deixassem a área de cobertura designada. Durante essas missões de escolta e patrulha, foram registrados ataques confirmados contra submarinos inimigos, dos quais se destacam os seguintes eventos: Em 5 de abril de 1943: Um A-28A Hudson, baseado em Salvador e pilotado pelo 1º Tenente-Aviador Ivo Gastaldoni, realizou um ataque com cargas de profundidade contra um submarino localizado a aproximadamente sessenta quilômetros de Aracaju. Após o bombardeio, foram observados destroços e uma extensa mancha de óleo na superfície, sugerindo danos significativos à embarcação inimiga. Em 3 de julho de 1943: Um A-28A Hudson, operando a partir da Base Aérea de Santa Cruz e comandado pelo Tenente-Aviador Clóvis Labre de Lemos, atacou o submarino alemão U-199. Embora o ataque não tenha causado danos confirmados ao alvo, demonstrou a prontidão das forças brasileiras.31 de julho de 1943: Nas primeiras horas da manhã, um Martin PBM-3C Mariner do esquadrão VP-74 da Marinha dos Estados Unidos, baseado no Rio de Janeiro, localizou e atacou o submarino alemão tipo IXD-2 U-199. Apesar de danificado, o U-199 continuou operativo e respondeu ao ataque com sua artilharia antiaérea. Alertadas pelo confronto, as defesas brasileiras despacharam um A-28A Hudson do Rio de Janeiro, pilotado pelo Aspirante-Aviador Sergio Cândido Schnoor. Este realizou um primeiro ataque com duas cargas de profundidade Mk. 17, que explodiram próximas ao submarino. Em uma segunda passagem, Schnoor utilizou as metralhadoras de nariz do Hudson para atingir os artilheiros alemães, reduzindo a capacidade defensiva do U-199. Após a intervenção do Hudson, o submarino foi finalmente afundado por um PBY-5 brasileiro, comandado pelo Aspirante-Aviador Alberto Martins Torres, que patrulhava a região. A partir do segundo semestre de 1943, a atividade de submarinos alemães e italianos no Atlântico Sul diminuiu gradativamente, embora ainda representassem uma ameaça significativa aos comboios e à navegação em geral ao longo do litoral brasileiro. Nesse contexto, os A-28A Hudson mantiveram suas missões de escolta e cobertura, complementadas por surtidas de reconhecimento marítimo sempre que estações terrestres captavam transmissões de submarinos inimigos. Essas operações destacaram a importância estratégica das aeronaves na defesa das rotas marítimas durante o conflito.

É pertinente destacar que, em termos de configuração operacional, as células dos Lockheed A-28A Hudson destinadas ao Brasil foram originalmente projetadas para atender às especificações das forças britânicas, o que lhes conferiu peculiaridades técnicas distintas das aeronaves produzidas para as forças armadas dos Estados Unidos. Um exemplo notável era o sistema de frenagem do trem de pouso principal: diferentemente do modelo original, no qual a intensidade e o diferencial de frenagem eram controlados exclusivamente pelos pedais, o sistema britânico exigia a combinação dos pedais com uma alavanca de freio manual. Essa diferença operacional resultou em acidentes de pequena gravidade, ocasionando danos leves às aeronaves, especialmente durante manobras em solo. Embora pertencessem a um mesmo lote de 350 unidades, os primeiros A-28A Hudson entregues ao Brasil apresentavam variações estruturais significativas. As unidades iniciais eram equipadas com uma torre dorsal Boulton Paul, enquanto as subsequentes dispunham de um defletor aerodinâmico mais simples, porém volumoso, posicionado à frente da metralhadora dorsal. Essa configuração impactava a aerodinâmica da aeronave, reduzindo a autoridade dos lemes de direção em baixas velocidades, como nas fases de pouso e decolagem. Tal característica, possivelmente associada a outras particularidades do modelo, contribuiu para a ocorrência de acidentes, incluindo dois incidentes fatais registrados entre junho e novembro de 1943, envolvendo aeronaves do 2º Grupo de Bombardeio Médio (2º GBM). Posteriormente, uma aeronave da Unidade Volante do Galeão sofreu um acidente com severos danos estruturais, e um quarto A-28A Hudson foi perdido em Canavieiras, na Bahia. Entre o final de 1943 e o início de 1944, a Força Aérea Brasileira recebeu um reforço significativo em suas capacidades de patrulha e guerra antissubmarino, com a incorporação de novos modelos, como o Consolidated PBY-5A Catalina, o North American B-25J Mitchell, o Lockheed PV-1 Ventura e o PV-2 Harpoon. Contudo, a diversidade de aeronaves trouxe desafios logísticos e de manutenção, uma vez que quatro unidades aéreas passaram a operar distintos tipos de equipamentos. Visando a otimização de recursos, uma reestruturação organizacional foi implementada em 20 de dezembro de 1944, conforme determinado por um boletim reservado da Diretoria de Material Aeronáutico (DIRMA). A medida estipulou que todas as células remanescentes dos Lockheed A-28A Hudson fossem concentradas no 4º Grupo de Bombardeio Médio (4º GBM), sediado na Base Aérea de Fortaleza, com o objetivo de padronizar as operações e facilitar os processos de manutenção. Curiosamente, a última célula do modelo, entregue às autoridades brasileiras nos Estados Unidos, permaneceu naquele país. Essa aeronave foi utilizada em apoio às atividades dos oficiais brasileiros destacados no San Antonio Air Depot, o principal centro de manutenção e logística da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). Esse local também servia como ponto de partida habitual para o traslado das aeronaves destinadas ao Brasil, evidenciando sua relevância no esforço de guerra conjunto.
No lugar do grupo original, seriam criados diversos grupos de aviação. Nesse processo, o grupo em questão seria redesignado como 1º/4º Grupo de Aviação (1º/4º GAv). A partir de maio de 1948, a unidade passou a operar também os recém-adquiridos North American B-25J Mitchell, que rapidamente se tornaram o principal vetor da organização. Nesse período, a frota de Lockheed A-28A Hudson já estava significativamente reduzida devido a perdas operacionais em acidentes, e sua disponibilidade era ainda mais comprometida por dificuldades no suprimento de peças de reposição. As poucas aeronaves remanescentes foram mantidas em operação graças ao empenho do pessoal técnico do Núcleo do Parque de Aeronáutica de Recife (NPqAerRF). Entretanto, em 1950, foram detectados problemas estruturais graves nas aeronaves Hudson, o que resultou na imediata condenação de diversas células ao sucateamento. Durante esse processo de inspeção realizado em nível de parque, três aeronaves em melhor estado de conservação foram selecionadas para conversão em aeronaves de transporte de carga e pessoal. Esse trabalho foi executado nas oficinas do Parque de Aeronáutica de Recife, unidade responsável pelo suporte técnico das aeronaves. As principais modificações incluíram: remoção de blindagens, visando a redução de peso e melhoria de desempenho; retirada de sistemas de armas e equipamentos táticos; reconfiguração dos tanques de combustível; instalação de assentos para passageiros (na versão de transporte de pessoal); e adaptação do compartimento de bombas (bomb bay) para carga. Além disso, todas as aeronaves passaram por uma revisão estrutural completa, com o objetivo de prolongar sua vida útil na nova configuração. O programa de conversão foi concluído entre o final de 1951 e o início de 1952. As três aeronaves convertidas receberam a designação C-28 e as matrículas FAB 2900 (ex-FK653 RAF - MNU), FAB 2901 (ex-FK700 RAF - MNU) e FAB 2902 (ex-FK702 RAF - MNU). Essas unidades foram destinadas a missões de transporte e ligação. Uma das aeronaves foi alocada ao 1º/4º Grupo de Aviação para atender às frequentes demandas de deslocamento entre aeródromos da 2ª Zona Aérea, enquanto as duas restantes foram mantidas sob a responsabilidade do Núcleo do Parque de Aeronáutica de Recife (NPqAerRF) para uso como aviões de transporte logístico. Como era previsível, os C-28 marcaram o fim da trajetória operacional dos Lockheed Hudson na Força Aérea Brasileira. Em 19 de janeiro de 1955, nas proximidades da Fazenda Cupipe (BA), o C-28 pertencente ao 1º/4º Grupo de Aviação sofreu um acidente com perda total, encerrando definitivamente a história dos Lockheed A-28 e C-28 Hudson na FAB. As células remanescentes foram posteriormente sucateadas.

Em Escala.
Para representarmos o Lockheed C-28A Hudson “FAB 2902” pertencente ao 1º/4º Grupo de Aviação, fizemos uso do antigo kit da Airfix na escala 1/72. Para compormos a versão de transporte convertida pelo Núcleo de Parque de Aeronáutica de Recife (NPqAerRF), procedemos a retiradas do armamento orgânico da aeronave, fechando a posição da torreta dorsal original e do astrolábio. Empregamos decais confeccionados pela FCM Decals pertencentes a diversos sets na escala 1/72.
O esquema de cores (FS) total em metal natural que é descrito abaixo representa o padrão das aeronaves de transporte da Força Aérea Brasileira aplicada logo no período pós-guerra, seguindo o esquema básico aplicado a partir de 1947 nas últimas células dos Lockheeds A-28A Hudson em serviço. As aeronaves convertidas para a versão de transporte manteriam este último padrão de pintura.
Bibliografia :
- Bombardeiros Bimotores da FAB, Aparecido Camazano Alamino - C&R Editorial
- Lockheed Hudson – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_Hudson
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015  - Jackson Flores Jr

Jeep Ford G.P.W 1941 (N/E-VTrOp)

História e Desenvolvimento.
No final da década de 1920, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S Army) intensificou seus esforços para promover uma profunda transformação em sua estrutura operacional. O objetivo central era acelerar a transição de uma força terrestre ainda majoritariamente hipomóvel, fortemente dependente da tração animal, para uma força mecanizada, capaz de responder de forma eficaz às exigências de um cenário bélico cada vez mais moderno e dinâmico. Esse movimento foi favorecido pelos rápidos avanços tecnológicos da então pujante indústria automotiva norte-americana, que passou a oferecer soluções inovadoras para os desafios de mobilidade e logística militar. O programa de mecanização concebido pelo Exército abrangia o desenvolvimento de uma ampla variedade de veículos, incluindo caminhões de carga, transportes de pessoal e, de maneira prioritária, um novo veículo utilitário leve dotado de tração integral 4x4. Esse meio deveria ser capaz de operar com eficiência fora de estrada, transpor obstáculos com facilidade e transportar até quatro soldados completamente equipados, assegurando agilidade, flexibilidade e versatilidade em missões de caráter tático. As iniciativas voltadas à concepção desse utilitário envolveram uma colaboração estreita entre o meio militar e a indústria automotiva, embora não estivessem isentas de desafios técnicos, conceituais e orçamentários. O conceito definitivo começou a tomar forma no início de 1932, sob a liderança do coronel Robert G. Howie, então comandante da 7ª Companhia de Tanques, sediada em Fort Snelling, no estado de Minnesota. Convicto defensor da motomecanização integral da Força Terrestre, Howie possuía uma visão clara das novas necessidades operacionais impostas pela evolução da guerra terrestre. Sua experiência prática, aliada a uma compreensão estratégica aprofundada, foi decisiva para o avanço do projeto. Sob sua supervisão direta, o primeiro protótipo funcional foi construído nas oficinas do Fort Sam Houston, no Texas. Submetido a rigorosos testes de campo, o veículo apresentou resultados encorajadores, demonstrando capacidade de operar em terrenos difíceis e de atender às exigências táticas previamente estabelecidas. O desempenho observado nesses ensaios reforçou a confiança do alto comando do Exército na viabilidade do conceito, levando à decisão de destinar recursos para a produção de um lote pré-série composto por setenta unidades. Entretanto, as severas restrições orçamentárias impostas pela Grande Depressão acabaram por adiar essa etapa, interrompendo temporariamente o progresso do programa. O projeto somente seria retomado no final de 1936, quando a situação econômica começou a apresentar sinais de recuperação e o Exército voltou a priorizar a modernização de seus meios. Após a realização de uma concorrência aberta, a Bantam Car Company, sediada na Pensilvânia, foi selecionada para desenvolver e produzir o lote pré-série. Reconhecida por sua experiência e agilidade na fabricação de veículos leves, a Bantam entregou os primeiros utilitários a partir de meados de 1938, destinando-os ao Quartel-General do Departamento do Exército, localizado em Fort Holabird, em Baltimore, Maryland. Com essa frota inicial à disposição, o Exército ampliou significativamente o escopo de seu programa de testes, avaliando o desempenho dos veículos em uma ampla variedade de terrenos e condições operacionais.

Esse processo revelou-se fundamental não apenas para validar tecnicamente o projeto, mas também para iniciar a formulação de uma doutrina de emprego operacional específica para utilitários leves com tração integral 4x4. Os resultados obtidos nesses ensaios estabeleceram as bases conceituais e técnicas para o desenvolvimento do veículo que viria a ser conhecido como o Jeep, um ícone da motorização militar que revolucionaria a mobilidade tática das forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. No contexto de um amplo programa de testes de campo conduzido ao final da década de 1930, o Exército dos Estados Unidos (U.S Army) constatou que o novo veículo utilitário leve dotado de tração integral 4x4 possuía um potencial notável para ampliar de forma significativa a mobilidade da Força Terrestre. Capaz de operar com eficiência em uma grande variedade de ambientes fora de estrada, o veículo demonstrou elevada versatilidade em múltiplas funções, superando obstáculos naturais e assegurando o transporte eficaz de até quatro soldados plenamente equipados. Os resultados alcançados reforçaram a convicção do alto comando de que o utilitário representava um avanço estratégico fundamental no processo de mecanização das forças armadas, conduzindo à decisão de sua adoção em larga escala. Com base no êxito desses ensaios, foi lançada, em 1940, uma concorrência formal destinada à produção seriada do veículo utilitário leve 4x4. O processo foi concebido com elevado rigor técnico e administrativo, envolvendo o envio de convites a mais de uma centena de empresas da indústria automotiva norte-americana. As participantes deveriam apresentar propostas técnicas e comerciais detalhadas, acompanhadas de protótipos plenamente funcionais que atendessem às exigentes especificações estabelecidas pelo Exército. A iniciativa buscava garantir que o modelo final reunisse robustez, confiabilidade e viabilidade de produção em grande escala, em consonância com as necessidades operacionais da força. Entretanto, o rápido agravamento das tensões geopolíticas na Europa e no Pacífico, impulsionado pela expansão da Alemanha Nazista e do Império do Japão, alterou de maneira decisiva o contexto dessa concorrência. A perspectiva cada vez mais concreta de um conflito de dimensões globais evidenciou a urgência de reequipar as forças armadas norte-americanas. Diante desse cenário, o comando do Exército revisou o cronograma originalmente previsto e estabeleceu um prazo excepcionalmente reduzido, de apenas 49 dias, para a apresentação de protótipos funcionais. Tal exigência refletia a pressão por celeridade, ao mesmo tempo em que impunha desafios consideráveis às empresas envolvidas. Das mais de cem companhias convidadas, apenas três aceitaram o desafio de desenvolver um protótipo dentro do prazo estipulado: a Ford Motor Company, a American Bantam Car Company e a Willys-Overland Company. A American Bantam, uma pequena montadora sediada na Pensilvânia e especializada em veículos leves, foi a única a cumprir integralmente o cronograma, entregando seu protótipo funcional em setembro de 1940. Designado Bantam Reconnaissance Car (BRC), o veículo foi submetido a rigorosos testes comparativos, nos quais demonstrou desempenho expressivo em termos de mobilidade, resistência estrutural e conformidade com as especificações militares.
Apesar do êxito técnico alcançado pelo protótipo da Bantam, o comando do Exército, plenamente consciente da necessidade urgente de produção em grande escala, optou por aprovar também as propostas apresentadas pela Ford e pela Willys-Overland. Essa decisão foi motivada, sobretudo, pela limitada capacidade industrial da Bantam, insuficiente para atender sozinha à crescente demanda militar dentro dos prazos exigidos. Os testes comparativos realizados entre os diferentes protótipos contribuíram para o aperfeiçoamento substancial do projeto original, incorporando soluções técnicas e melhorias sugeridas pelas três montadoras, em um processo colaborativo que resultaria no amadurecimento definitivo do conceito do utilitário leve 4x4. O modelo de pré-série Bantam BRC, apresentava um desenho traseiro que ainda refletia os padrões estilísticos característicos dos automóveis civis da década de 1930, combinados a soluções técnicas cuidadosamente concebidas para atender às exigências do uso militar. Dotado de tração integral 4x4, suspensão reforçada e capacidade de carga de um quarto de tonelada, o BRC foi projetado para oferecer robustez, confiabilidade e versatilidade em operações de campo, respondendo de forma eficaz às necessidades táticas do Exército. Embora os protótipos apresentados pela American Bantam, pela Ford Motor Company e pela Willys-Overland Company tenham sido inicialmente aprovados, persistiam dúvidas quanto à maturidade técnica e à viabilidade operacional dos projetos desenvolvidos pelas duas últimas empresas. Com o objetivo de esclarecer essas incertezas, o Exército dos Estados Unidos (US Army) promoveu uma nova rodada de testes de campo, realizada entre 27 de setembro e 16 de outubro de 1940, nos campos de provas do Quartel-General do Departamento do Exército. Durante esses ensaios, o Bantam BRC voltou a se destacar, impressionando engenheiros e oficiais pela consistência de seu desempenho e pela adequação às especificações militares. Os resultados obtidos levaram o comando do Exército a reconsiderar a intenção inicial de produzir simultaneamente três modelos distintos, inclinando-se, em um primeiro momento, a favor da adoção do projeto desenvolvido pela Bantam. Assim, em 31 de março de 1941, foi firmado um contrato com a American Bantam Car Company para a fabricação de 1.500 unidades do modelo BRC 40. Contudo, à medida que o programa avançava, tornou-se evidente que a empresa não dispunha da capacidade industrial nem da solidez financeira necessárias para sustentar uma produção em larga escala compatível com os prazos e volumes exigidos pelo esforço de guerra. Diante dessa limitação, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos adotou uma decisão controversa: transferir o projeto e as plantas originais do BRC 40 para a Ford Motor Company e para a Willys-Overland Company. Essa medida possibilitou que ambas as montadoras desenvolvessem suas próprias versões do veículo utilitário, introduzindo aperfeiçoamentos técnicos a partir da base concebida pela Bantam. De forma surpreendente, a diretoria da American Bantam não contestou formalmente essa decisão, possivelmente em razão da delicada situação financeira enfrentada pela empresa naquele momento.

Como forma de compensação indireta, a American Bantam Car Company foi contemplada com contratos para a produção de diversos componentes automotivos, além de reboques de carga e de combustível do tipo T/1, com capacidade de três quartos de tonelada  totalizando mais de 70 mil unidades , bem como a fabricação de torpedos destinados à Marinha Real Britânica (Royal Navy). Essa estratégia assegurou a continuidade operacional da empresa, ainda que sua contribuição fundamental para o desenvolvimento do utilitário leve 4x4 tenha sido posteriormente ofuscada pelo êxito alcançado pelos modelos produzidos pela Ford e, sobretudo, pela Willys-Overland. Em agosto de 1941, o Exército dos Estados Unidos (U.S Army) firmou um novo contrato com a Willys-Overland  para a produção de mais 16.000 veículos, designados pela própria montadora como MA Quad, modelo que evoluiria em seguida para o consagrado Willys MB, consolidando definitivamente o padrão do utilitário que se tornaria conhecido mundialmente como Jeep. A Willys-Overland foi selecionada para a produção em larga escala do Jeep devido à sua capacidade industrial e às melhorias incorporadas ao projeto, destacando-se o motor Willys Go-Devil, reconhecido por sua maior potência e confiabilidade. Nos meses subsequentes, novos contratos foram celebrados, mas a Ford Motor  emergiu como a principal fornecedora, recebendo, até o final de 1945, as maiores encomendas para a fabricação do veículo. O modelo produzido pela Ford foi oficialmente designado como Ford G.P.W (General Purpose Willys, ou veículo de uso geral), compartilhando componentes e design com o Willys MB, mas fabricado em escala massiva nas instalações industriais da Ford. No Exército dos Estados Unidos (U.S Army), os condutores começaram a chamar o veículo pelo acrônimo “GP”, derivado de General Purpose (propósito geral), que, na pronúncia em inglês, soava como “Jeep”. Esse termo rapidamente ganhou popularidade entre os soldados, que viam no veículo um símbolo de agilidade e versatilidade. Curiosamente, a palavra “Jeep” também evocava Eugene the Jeep, um carismático personagem das tiras de quadrinhos do marinheiro Popeye, criado na década de 1930. Eugene, o animal de estimação de Olivia Palito, era conhecido por suas habilidades extraordinárias, como caminhar por paredes e tetos, o que ressoava com a robustez e a capacidade do veículo em superar desafios. Inspirados pela popularidade do desenho animado, os soldados passaram a chamar seus veículos de “Jeep”, associando-os à força e à versatilidade do personagem. A expressão “Hey, he’s a real Jeep!” (Ei, ele é um verdadeiro Jeep!) tornou-se comum para elogiar pessoas com habilidades físicas excepcionais, consolidando o termo como um ícone cultural. Assim, nasceu um dos nomes mais emblemáticos da história automotiva mundial. À medida que as montadoras intensificavam a produção, o Jeep foi incorporado em número crescente às frotas das unidades militares norte-americanas.  O batismo de fogo do Ford G.P.W ocorreu em 1942, com sua introdução em operações nos teatros do Pacífico Sul e do Norte da África. 
No Pacífico, o Ford G.P.W foi empregado em campanhas contra as forças do Exército do Império do Japão, desempenhando papéis vitais em missões de reconhecimento, transporte de tropas e suprimentos, e até como base improvisada para armamentos leves. Um dos primeiros registros de seu uso em combate foi durante as operações nas ilhas do Pacífico, onde sua capacidade de navegar por terrenos acidentados e lamacentos provou ser indispensável. No Norte da África, durante a Operação Torch (invasão aliada em novembro de 1942), o Ford G.P.W foi amplamente utilizado pelas forças norte-americanas e britânicas, enfrentando as duras condições do deserto e contribuindo para a mobilidade das tropas em cenários desafiadores. Embora modelos anteriores, como o Bantam BRC 40 e o Willys MA, tenham sido testados em combate em 1941, foi o modelo da Ford que consolidou a reputação do Jeep como um símbolo de mobilidade e resistência.  Durante a Segunda Guerra Mundial, a produção da família de utilitários leves Jeep alcançou a impressionante marca de mais de meio milhão de unidades, consolidando sua relevância histórica. Desse total, aproximadamente 363.000 veículos, dos modelos Willys MA Quad e MB Quad, foram fabricados pela Willys-Overland Company, enquanto cerca de 280.000 unidades do modelo Ford G.P.W saíram das linhas de produção da Ford Motor Company. Esses veículos tornaram-se um dos pilares do programa de ajuda militar Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), por meio do qual os Estados Unidos forneceram apoio militar aos aliados. Notavelmente, mais de 51.000 Jeeps foram enviados à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) para uso pelo Exército Vermelho de Trabalhadores e Camponeses, além de milhares de unidades cedidas a outras nações aliadas sob os mesmos termos, incluindo o Brasil. Com o fim do conflito, em maio de 1945, a produção em larga escala do Jeep (de todas as montadoras) foi interrompida devido ao cancelamentos dos contratos governamentais.  Nesse mesmo período, a Willys-Overland Company iniciou uma disputa legal contra a Ford Motor Company, reivindicando a exclusividade internacional da marca “Jeep”. A ação judicial baseava-se na aquisição prévia do projeto original pela Willys junto à American Bantam Car Company. Após uma prolongada batalha nos tribunais, em janeiro de 1946, a Ford Motors  foi legalmente proibida de utilizar a marca “Jeep”, consolidando a exclusividade da Willys sobre o nome e a logomarca. Diferentemente de outros veículos militares cuja produção foi descontinuada após a guerra, a família Jeep continuou a ser fabricada exclusivamente pela Willys-Overland. A partir do início da década de 1950, o modelo foi redesignado como M-38 (MC), substituindo gradualmente muitos dos Ford G.P.W ainda em serviço. Grande parte desses veículos foi transferida a nações aliadas por meio de programas de assistência e cooperação militar, reforçando a presença global do Jeep. A mecânica simples e robusta do Ford G.P.W garantiu sua longevidade, com muitos exemplares permanecendo em operação em diversas forças armadas ao redor do mundo até, pelo menos, o final da década de 1990. 

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente apreensão a possibilidade de uma expansão do conflito para o continente americano. A capitulação da França, em junho de 1940, alterou de forma profunda o equilíbrio estratégico global e ampliou os temores de Washington, uma vez que abriu à Alemanha Nazista a possibilidade de utilizar antigas possessões francesas como pontos de apoio avançados no Atlântico. Regiões como as Ilhas Canárias, Dacar e outras colônias africanas passaram a ser vistas como potenciais bases operacionais, capazes de sustentar ações militares que ameaçassem diretamente as Américas. Nesse novo contexto geopolítico, o Brasil assumiu posição central nas análises estratégicas norte-americanas. Sua proximidade geográfica com o continente africano  especialmente a partir do Nordeste brasileiro fazia do país um possível ponto de contato entre os dois lados do Atlântico, tornando-o vulnerável a uma eventual ofensiva do Eixo. Paralelamente, a expansão japonesa no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeu o acesso dos Aliados às tradicionais fontes de látex, transformando o Brasil no principal fornecedor dessa matéria-prima essencial à produção de borracha, insumo indispensável à indústria bélica e ao esforço de guerra aliado. Além do fator econômico, a posição geográfica do litoral brasileiro conferia-lhe elevada importância militar. O Nordeste, em particular, destacava-se como a região de menor distância entre os continentes americano e africano, com a cidade do Recife assumindo papel estratégico singular. A partir desse eixo, seria possível estabelecer bases aéreas, portos militares e corredores logísticos destinados ao trânsito de aeronaves, tropas e suprimentos com destino aos teatros de operações europeu e norte-africano, reforçando a capacidade de projeção de poder dos Aliados no Atlântico. Diante desse cenário, intensificou-se, em curto espaço de tempo, um movimento de aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa convergência resultou em investimentos estratégicos, acordos bilaterais e no fortalecimento da cooperação em defesa. Entre as iniciativas mais relevantes destacou-se a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar norte-americano conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), cujo objetivo central era apoiar países aliados por meio do fornecimento de equipamentos e recursos militares. Os termos desse acordo garantiram ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material bélico e à modernização das Forças Armadas Brasileiras. Por meio desse mecanismo, o país passou a ter acesso a armamentos modernos, aeronaves, veículos militares, carros de combate e outros meios essenciais para a defesa do território nacional. Esses recursos mostraram-se particularmente importantes diante da intensificação dos ataques de submarinos alemães no Atlântico Sul, que ameaçavam a navegação mercante e colocavam em risco o fluxo de matérias-primas estratégicas exportadas pelo Brasil aos Estados Unidos, fundamentais para a indústria de guerra norte-americana.

A participação brasileira no esforço aliado, inicialmente concentrada no fornecimento de recursos estratégicos e no apoio logístico, não tardaria a se ampliar. O então presidente Getúlio Vargas deixou claro que o Brasil não se limitaria ao papel de fornecedor e parceiro econômico, sinalizando a disposição do país em assumir uma postura mais ativa no conflito. Essa orientação política abriria caminho, nos anos seguintes, para o aprofundamento do comprometimento brasileiro com a causa aliada, culminando na decisão de empregar tropas nacionais em um teatro de operações de relevância internacional. No âmbito deste prorgama, o Brasil, a partir do final de 1941, começou a receber um expressivo volume de equipamentos bélicos provenientes dos Estados Unidos, abrangendo caminhões, veículos utilitários leves, aeronaves, embarcações e armamentos. O Exército Brasileiro foi o principal beneficiário desse aporte, que representou um marco significativo na modernização de suas capacidades operacionais. Os contratos inicialmente firmados entre os governos brasileiro e norte-americano, previam o fornecimento quase dois mil veículos utilitários leves com tração 4X4 do tipo "Jeep", com estes não atendendo a nenhum critério de padronização por fabricante ou modelo, não existindo registros oficiais por parte das forças armadas brasileiras sobre a quantidade de modelos recebidos que foram produzidos pela Ford Motors Company ou pela Willys Overland Company. Os primeiros veículos utilitários desta família começariam a ser recebidos no Brasil em lotes a partir de março 1942, e mesclavam veículos novos e usados, estes oriundos da frota pertencente ao Exército dos Estados Unidos (US Army), existindo relatos de alguns modelos raríssimos como alguns Willys MA (sem registro) poucos "Slatt Grill" (grade de grelha), e até uma unidade do modelo primordial Bantam BRC-40. Salientamos que a partir de registros fotográficos, nos permitem atestar que grande parte destes carros foram fabricados durante o ano de 1941, representado assim modelos da fase inicial de produção. Com este processo atendendo ao procedimento formal de cessão de equipamento militar a aliados, priorizaria-se assim a entrega de versões mais novas e aprimoradas para as forças armadas norte-americanas, com estas repassando seus veículos usados para exportação. O advento do recebimento destes carros e sua operação no Brasil, em muito contribuiria no processo de implantação do programa de motomecanização em larga escala no Exército Brasileiro, não só por sua versatilidade, mas também pela quantidade disponível. Pois neste momento a frota de veículos utilitários leves com tração integral deste porte, se resumia a poucos e antigos veículos do modelo Vidal & Sohn Tempo G-1200 de procedência alemã que foram recebidos em 1938, porém disponíveis em um número insuficiente para se dotar sequer uma unidade operacional completa. Uma pequena parcela destes novos utilitários norte-americanos seria ainda cedida a Força Aérea Brasileira e a Marinha do Brasil para o emprego em missões administrativas, transporte de pilotos ou de remoção médica.
Em 13 de agosto de 1943, em meio ao aprofundamento do engajamento brasileiro no esforço de guerra aliado, foi oficialmente criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Concebida como uma grande unidade expedicionária, a força reuniu aproximadamente 25.000 militares e foi estruturada segundo os padrões organizacionais e doutrinários do Exército dos Estados Unidos, que privilegiavam elevada mobilidade, flexibilidade logística e integração entre armas e serviços. Essa conformação refletia não apenas as exigências do teatro de operações europeu, mas também a necessidade de adaptar rapidamente tropas brasileiras a um modelo de guerra industrial e mecanizada. A composição evidenciava essa preocupação com a autonomia e a eficiência operacional. A força incluía quatro grupos de artilharia  três equipados com obuses de 105 mm e um com peças de 155 mm , além de uma esquadrilha da Força Aérea Brasileira (FAB) destinada a missões de ligação e observação. Completavam sua estrutura um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento, uma companhia de comunicações, um destacamento de saúde, uma companhia de manutenção, uma companhia de intendência, um pelotão de sepultamento, um pelotão de polícia militar e, de forma simbólica e tradicional, uma banda de música, elemento que contribuía para a coesão moral da tropa. Para atender às exigências de mobilidade impostas pela guerra moderna, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi dotada de uma frota expressiva de viaturas, incluindo cerca de 660 veículos utilitários leves com tração integral 4x4. Entre eles, destacavam-se cinco Jeeps anfíbios Ford G.P.A., entregues às forças brasileiras nas instalações do 5º Exército dos Estados Unidos, em Tarquinia, na Itália. Uma parcela significativa desses veículos, tanto leves quanto médios, já havia sido intensamente empregada em campanhas anteriores, como as operações na Sicília e no Norte da África, sendo, portanto, considerados verdadeiros “veteranos de guerra”. A cessão de viaturas usadas, muitas vezes em estado precário de conservação, refletia as prioridades estratégicas dos Estados Unidos naquele momento do conflito. Equipamentos novos e de primeira linha eram direcionados, sobretudo, para a preparação da invasão da França, materializada na Operação Overlord, em junho de 1944, o célebre “Dia D”. Ainda assim, o apoio norte-americano incluiu a realização de treinamentos especializados, nos quais oficiais dos Estados Unidos instruíram motoristas e mecânicos brasileiros, assegurando a correta operação e manutenção dos meios disponíveis. Parte dessa frota foi destinada à Força Aérea Brasileira (FAB), para emprego junto ao 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) e à 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1º ELO), onde os veículos desempenharam funções administrativas e de apoio. No entanto, os utilitários incorporados ao Exército Brasileiro mostraram-se insuficientes para atender plenamente às necessidades de deslocamento da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE) durante a campanha. Considerando o efetivo e a extensão das operações, seria necessário dispor de, ao menos, o dobro da frota disponível.

Essa escassez conferiu às viaturas um valor singular no cotidiano da tropa. Os soldados designados como motoristas passaram a tratá-las com extremo zelo, dedicando atenção quase artesanal aos processos de manutenção preventiva e corretiva. Não por acaso, muitos desses veículos receberam nomes de batismo, pintados na lataria, frequentemente em alusão a pessoas queridas deixadas no Brasil, como forma de manter um vínculo afetivo em meio às adversidades da guerra. Entre os exemplos mais conhecidos estão o Jeep FEB 330, batizado de “Delourdes”, o Jeep FEB 310, conhecido como “Macaca”, e o veículo de uso pessoal do General de Divisão João Baptista Mascarenhas de Morais, comandante em chefe, que recebeu o nome de “Liliana”, em homenagem à sua filha. Durante a Campanha da Itália, os veículos fornecidos à Força Expedicionária Brasileira (FEB), incluindo os Jeeps, apresentavam uma peculiaridade: as chaves de ignição eram soldadas aos painéis, um procedimento padrão do Exército dos Estados Unidos (U.S Army) para evitar sua perda em meio às operações de combate. Contudo, esses veículos, especialmente os Jeeps destinados, chegavam sem numeração serial padrão do Exército Brasileiro, e apenas algumas centenas exibiam marcações norte-americanas. Essa ausência de padronização gerou desafios significativos para o controle da frota pelas unidades brasileiras, resultando em extravios acidentais de viaturas em campo e, em alguns casos, em apropriações indevidas por outras forças aliadas. Curiosamente, essas perdas eram, por vezes, compensadas de maneira informal. Soldados brasileiros, conhecidos como pracinhas, frequentemente se apropriavam de Jeeps norte-americanos encontrados camuflados, abastecidos e prontos para uso. Aproveitando-se das chaves soldadas aos painéis, os brasileiros, em patrulhas, “tomavam emprestado” esses veículos de forma discreta, garantindo a continuidade de suas operações. Essa prática, embora não oficial, refletia a inventividade e a determinação dos pracinhas em manter a mobilidade em um cenário de guerra exigente. Dos Jeeps recebidos no teatro italiano, nove unidades foram configuradas como ambulâncias, desempenhando um papel vital no transporte de feridos até os hospitais de campanha. Alocadas ao Batalhão de Saúde, essas viaturas operavam em conjunto com outros tipos de veículos. Com o avanço da campanha, outras unidades da Força Expedicionária Brasileira (FEB) passaram a converter Jeeps adicionais para o transporte de feridos, adaptando-os às necessidades médicas. Essas conversões variavam desde uma configuração básica, com uma padiola posicionada transversalmente na parte traseira do veículo, apoiada nas laterais, até uma versão mais elaborada, com suportes específicos instalados na carroceria para sustentar a padiola, que se apoiava na primeira maca e no para-brisa rebaixado. Enquanto isso, no Brasil, os Jeeps consolidaram-se como a espinha dorsal da frota motomecanizada do Exército Brasileiro, sendo distribuídos por unidades militares em todo o país. Além disso, essas viaturas também equiparam bases da Força Aérea Brasileira (FAB) e da Marinha do Brasil, ampliando sua relevância nas Forças Armadas. 
Com o encerramento da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945, os jipes remanescentes, assim como outros veículos, armamentos e equipamentos fornecidos pelos Estados Unidos ao Brasil no âmbito do Lend-Lease Act, passaram por um processo de devolução e triagem sob a responsabilidade do Comando de Material do Exército dos Estados Unidos, sediado em Roma. Nesse centro logístico, as viaturas que se encontravam em melhores condições de conservação foram criteriosamente selecionadas, submetidas a procedimentos de preservação e, posteriormente, embarcadas para transporte marítimo com destino ao Brasil. Ao chegarem ao país, esses jipes foram incorporados à frota de veículos da mesma categoria que já se encontrava em operação desde 1942, sendo distribuídos às unidades operativas do Exército Brasileiro. Essa incorporação contribuiu para manter, no imediato pós-guerra, um nível mínimo de mobilidade e prontidão em um período marcado por restrições orçamentárias e pela necessidade de reorganização das Forças Armadas após o esforço expedicionário. A partir da segunda metade da década de 1950, as Forças Armadas Brasileiras voltaram a receber novos lotes de jipes oriundos do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), agora classificados como material excedente de guerra (war surplus). Essas viaturas foram cedidas no contexto do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP), fortalecendo de maneira significativa a capacidade operacional brasileira. A chegada desses veículos permitiu não apenas o reforço da frota existente, mas também a substituição gradual das unidades mais antigas, favorecendo uma maior padronização dos modelos em serviço e simplificando os processos de manutenção e suprimento, com reflexos diretos na eficiência logística. Na década de 1960, esse processo de renovação ganhou novo impulso com a incorporação dos primeiros jipes militarizados produzidos em território nacional, como os modelos Willys Overland e Ford CJ-2, CJ-5 e CJ-6. Paralelamente, o Brasil também recebeu unidades usadas do M-38A1, ampliando a diversidade de meios disponíveis. Esse movimento marcou o início da desativação progressiva dos jipes fornecidos durante a década de 1940, que, embora reconhecidos por sua robustez e confiabilidade, já apresentavam sinais naturais de obsolescência diante das novas exigências operacionais. Ainda assim, a longevidade desses veículos impressiona. Registros oficiais indicam que os últimos jipes originais permaneceram em serviço ativo até, pelo menos, o final da década de 1970, evidenciando a solidez de seu projeto e a competência das equipes responsáveis por sua manutenção. Atualmente, algumas dessas viaturas históricas continuam preservadas em condições operacionais no âmbito do Exército Brasileiro, sendo empregadas principalmente em solenidades, desfiles e eventos comemorativos. Mais do que simples meios de transporte, esses jipes tornaram-se símbolos materiais de um período decisivo da história nacional. 

Em Escala.
Para representarmos o Ford Jeep GPW "Malacara” matrícula FEB 210A, em uso pela Força Expedicionária Brasileira (FEB), durante a Segunda Guerra Mundial, fizemos uso do kit produzido pela Bronco Models na escala 1/35. Para melhor detalhamento adicionamos um set de armamentos em resina da Eletric Products. Fizemos uso de decais produzidos pela Decals e Books, presentes no livro " FEB na Segunda Guerra Mundial" de Luciano Barbosa Monteiro. Existem algumas diferenças sutis entre os jipes militares GPW e Willys produzidos após 1942, com os primeiros lotes  apresentando  marcas dos fabricantes estampadas em suas carrocerias, processo este descontinuado a mando do Departamento de Guerra Norte Americano (The War Department).
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado pelo Exército dos Estados Unidos em todos os seus veículos empregados durante a Segunda Guerra Mundial no teatro de operações da Europa, com estes Jeeps Ford GPW recebendo apenas as marcações e seriais do Exército Brasileiro. Alguns deste manteriam durante o conflito os números seriais norte-americanos ostentando o escudo do Cruzeiro do Sul. Em seu retorno ao Brasil os Jeeps Ford G.P.W mantiveram este padrão de pintura até sua desativação. Empregamos tintas, washes e vernizes produzidos pela Tom Colors.


Bibliografia : 
- Jeep Ford & Willys  https://en.wikipedia.org/wiki/Willys_MB
- Jeeps no Exército Brasileiro - https://jplopes.tripod.com/exbrz.htm
- FEB na segunda Guerra Mundial - Luciano Barbosa de Monteiro
- Leand & Lease Act  - Revista Tecnologia e Defesa - Edição 133.

A-28A Lockheed Hudson

História e Desenvolvimento.
A Lockheed Aircraft Manufacturing Company, tradicional empresa norte-americana do setor aeronáutico, foi fundada em 1912 pelos irmãos Allan e Malcolm Lockheed, na cidade de San Diego, no estado da Califórnia. Em sua fase inicial, a companhia concentrou seus esforços no projeto e na fabricação de aeronaves de pequeno porte, destinadas sobretudo ao turismo aéreo e ao treinamento civil, segmentos que então despontavam como promissores no nascente mercado da aviação. Ao longo das décadas seguintes, a empresa experimentou um crescimento gradual em suas vendas e em sua reputação técnica. Entretanto, o encerramento da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, trouxe profundas transformações para a indústria aeronáutica mundial. A súbita desmobilização de grandes frotas militares resultou na disponibilidade de milhares de aeronaves excedentes, vendidas a preços reduzidos e amplamente absorvidas pelo mercado civil. Esse cenário provocou uma retração severa na demanda por novos projetos, gerando uma crise generalizada que levou ao fechamento de diversas fabricantes, entre elas a própria Lockheed Aircraft Manufacturing Company. Com a suspensão das atividades da empresa, Allan e Malcolm Lockheed passaram a direcionar seus esforços empresariais para outros setores, em busca de novas oportunidades que lhes garantissem estabilidade financeira. Essa fase, contudo, não representou o abandono definitivo da aviação. Em 1926, Allan Lockheed associou-se aos engenheiros John Northrop, Kenneth Kay e Fred Keeler para fundar um novo empreendimento, agora denominado Lockheed Aircraft Company, estabelecido em Hollywood, Califórnia. Amparados por investidores privados, o grupo conseguiu reunir os recursos necessários para retomar a produção aeronáutica, utilizando como base tecnológica os avanços obtidos anteriormente com o Modelo S-1. A partir dessa experiência, foi desenvolvido o Lockheed Vega, aeronave que rapidamente se tornaria o primeiro grande sucesso comercial da nova companhia. O êxito foi tal que, em 1928, a empresa transferiu sua sede para Burbank, consolidando sua expansão industrial. Ao final daquele ano, as vendas já ultrapassavam a marca de um milhão de dólares, com uma produção que alcançava centenas de aeronaves e uma força de trabalho superior a trezentos funcionários, operando em uma linha de montagem capaz de concluir até cinco unidades por semana. Em julho de 1929, Fred Keeler, então acionista majoritário, negociou a venda de 87% das ações da Lockheed para a Detroit Aircraft Corporation, abrindo caminho para um ambicioso plano de expansão. Contudo, a eclosão da Grande Depressão, no mesmo ano, afetou de forma devastadora a economia norte-americana e, em particular, o setor aeronáutico. Como resultado, a Lockheed enfrentou sérias dificuldades financeiras, culminando em sua insolvência. Em 1932, durante o processo de liquidação judicial, a companhia foi adquirida por um grupo de investidores liderado pelos irmãos Robert e Courtland Gross, em associação com Walter Varney. Essa aquisição marcou o início de uma nova fase na história da empresa, caracterizada por uma bem-sucedida recuperação ao longo da década de 1930, impulsionada pelo desenvolvimento de projetos inovadores e tecnicamente avançados. 

Apesar das severas adversidades enfrentadas ao longo da década de 1920 e no início dos anos 1930, a Lockheed conseguiu restabelecer, em curto espaço de tempo, a confiança do mercado civil e comercial dos Estados Unidos. Esse processo de recuperação foi simbolizado pelo lançamento do Lockheed Model 10 Electra, uma aeronave moderna, inteiramente construída em metal e com capacidade para transportar até dez passageiros. O sucesso do Electra não apenas consolidou a reputação técnica da empresa, como também representou um marco de maturidade industrial, evidenciando a capacidade da Lockheed de competir em um mercado cada vez mais exigente e tecnologicamente sofisticado. A partir de meados de 1934, um novo e significativo horizonte comercial passou a se delinear para a Lockheed Aircraft Corporation. Em diversos países europeus, crescia a percepção de que a eclosão de um novo conflito armado no continente era apenas uma questão de tempo, diante da escalada de tensões políticas e militares. Os amplos programas de rearmamento conduzidos pela Alemanha, mesmo sob as restrições impostas pelo Tratado de Versalhes, e pela Itália fascista, despertaram preocupação em nações como França e Reino Unido, além de, em menor escala, Bélgica e Países Baixos. Como resposta, esses países iniciaram processos de modernização e expansão de suas forças armadas, ainda que de forma tardia. Entretanto, as indústrias de defesa europeias mostraram-se incapazes de atender, em prazo reduzido, às crescentes e urgentes demandas militares, especialmente no campo do poder aéreo, considerado cada vez mais decisivo em um eventual conflito futuro. Diante dessa limitação, os governos europeus voltaram-se para o mercado internacional, buscando equipamentos produzidos principalmente nos Estados Unidos, cuja indústria aeronáutica já demonstrava elevada capacidade produtiva e tecnológica. Nesse contexto, o governo britânico destacou-se como o mais ativo e determinado nesse esforço de reequipamento, empenhando-se na renovação de sua frota aérea, com ênfase em aeronaves destinadas a missões de bombardeio, transporte, patrulha marítima e guerra antissubmarino. Entre os modelos considerados obsoletos pela Força Aérea Real (Royal Air Force – RAF) encontravam-se os bimotores leves Avro Anson Model 18, então empregados em tarefas de reconhecimento e patrulhamento marítimo, mas já inadequados frente às exigências operacionais emergentes. Essa demanda foi rapidamente identificada pela alta administração da Lockheed Aircraft Corporation, que vislumbrou um mercado potencial de grandes proporções nesse segmento específico. Demonstrando visão estratégica e disposição para assumir riscos calculados, a empresa decidiu, em fevereiro de 1938, iniciar com recursos próprios o desenvolvimento de uma nova aeronave militar, concebida para missões de reconhecimento, patrulha marítima e bombardeio leve. Com o objetivo de acelerar o cronograma de desenvolvimento e racionalizar os investimentos, a nova aeronave foi projetada com base na plataforma do bimotor civil Lockheed Model 14 Super Electra, já comprovado em termos de desempenho e confiabilidade. 
O programa recebeu a designação interna Lockheed Model B-14, e seus trabalhos avançaram com notável celeridade, culminando na construção de um modelo em madeira (mock-up), empregado na avaliação preliminar da configuração geral e das soluções técnicas propostas. Esses esforços coincidiram com a presença, nos Estados Unidos, de uma comissão britânica de compras militares, incumbida de analisar potenciais aquisições destinadas à Força Aérea Real (Royal Air Force – RAF). Aproveitando essa conjuntura favorável, a Lockheed convidou os oficiais britânicos para uma apresentação formal em suas instalações, na qual expôs de maneira detalhada a proposta de uma nova aeronave voltada às missões de patrulha marítima e guerra antissubmarino. A apresentação causou impressão bastante positiva entre os representantes britânicos, que reconheceram no projeto uma resposta promissora às necessidades emergentes da RAF. Como desdobramento imediato, foi formalizado um convite para que a diretoria da Lockheed visitasse o Reino Unido, a fim de aprofundar as discussões técnicas e avaliar a viabilidade do projeto à luz dos requisitos operacionais britânicos. Para atender ao novo perfil operacional exigido, a plataforma do Lockheed Model 14 Super Electra passou por profundas modificações estruturais e funcionais. Entre as alterações mais relevantes destacou-se a incorporação de um compartimento ventral destinado ao transporte de bombas, bem como a adaptação da aeronave para receber duas torres elétricas equipadas com metralhadoras Browning calibre .50, destinadas à autodefesa. Assim configurado, o projeto — ainda sob a designação Lockheed Model B-14  foi apresentado ao comando da RAF como uma solução adequada para substituir os então obsoletos Avro Anson empregados em missões de patrulha e reconhecimento marítimo. Após a análise inicial pelo corpo técnico britânico, o projeto recebeu uma série de solicitações de aprimoramento. Entre as modificações mais significativas destacou-se a reconfiguração da estação do navegador, originalmente localizada na seção traseira da fuselagem, que foi transferida para a parte frontal da aeronave. Essa mudança exigiu o redesenho do nariz, adaptado para acomodar o tripulante em sua nova posição e, adicionalmente, permitir a instalação de armamentos de tiro frontal, ampliando o potencial da aeronave em missões de ataque a alvos de superfície. Curiosamente, em função da necessidade de cumprir um cronograma bastante apertado, o modelo manteve as janelas laterais características da versão civil, um traço distintivo que acompanharia as primeiras séries de produção. Em 10 de outubro de 1938, o primeiro protótipo da aeronave, já incorporando as modificações solicitadas, foi oficialmente apresentado às autoridades britânicas, recebendo a designação formal de Lockheed Model B-14. Submetido a um programa acelerado de ensaios em voo, o protótipo obteve rapidamente a homologação para produção em série. Em serviço, a aeronave passou a ser conhecida como Hudson Mk.I. Em dezembro do mesmo ano, foi firmado um contrato inicial para a aquisição de 200 unidades, com as primeiras entregas ocorrendo no início de fevereiro de 1939 ao 224º Esquadrão de Bombardeio, sediado na Escócia. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea Real (RAF) ampliou substancialmente suas encomendas, totalizando mais de 800 aeronaves distribuídas entre as versões Hudson Mk.II, Mk.III, Mk.IV, Mk.V e Mk.VI.

Além do serviço britânico, a família Lockheed Hudson foi incorporada ao programa da Lei de Empréstimos e Arrendamentos (Lend-Lease Act), sendo fornecida a numerosas forças aéreas aliadas, incluindo as da Austrália, África do Sul, Canadá, Birmânia, França Livre e Nova Zelândia. Nessas nações, as aeronaves desempenharam uma ampla gama de missões  patrulha marítima, ataque, transporte e guerra antissubmarino (ASW)  assumindo um papel de grande relevância ao longo de todo o conflito e consolidando-se como um dos mais importantes bimotores de patrulha do início da Segunda Guerra Mundial. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, em 7 de dezembro de 1941, representou um ponto de inflexão decisivo que alçou a Lockheed Aircraft Corporation à condição de um dos principais fornecedores estratégicos das forças armadas norte-americanas. A partir desse momento, a empresa consolidou-se como um ator central no esforço de guerra aliado, destacando-se pela produção em larga escala de aeronaves e sistemas considerados vitais para a condução do conflito. Nesse contexto, o bombardeiro e avião de patrulha bimotor Lockheed A-28 Hudson afirmou-se como um de seus produtos mais relevantes. Produzido em diversas variantes, o modelo passou a ser amplamente empregado tanto pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Corps – USAAC) quanto pela Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy). Nos momentos imediatamente posteriores ao ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, no Havaí, uma decisão de caráter emergencial determinou o redirecionamento de grande parte das aeronaves inicialmente destinadas à exportação, sobretudo à Força Aérea Real britânica (RAF), para o atendimento das necessidades defensivas dos Estados Unidos. Esse remanejamento visava reforçar, com rapidez, os efetivos aéreos estacionados na costa oeste norte-americana e nas ilhas estratégicas do Oceano Pacífico, consideradas particularmente vulneráveis naquele estágio inicial do conflito. Dessa forma, os Lockheed A-28 Hudson passaram a desempenhar um papel essencial nas primeiras fases da participação americana na guerra, especialmente em missões de patrulha marítima e guerra antissubmarino (ASW). Atuando tanto no teatro europeu quanto no Pacífico, essas aeronaves operaram de maneira complementar aos hidroaviões Consolidated PBY-5 Catalina, demonstrando elevada versatilidade, confiabilidade e eficiência operacional em ambientes marítimos extensos e hostis. O Hudson também se notabilizou por uma série de feitos históricos que reforçaram sua importância simbólica e operacional. Em 8 de outubro de 1939, um exemplar da RAF tornou-se a primeira aeronave projetada e construída nos Estados Unidos a abater um avião inimigo durante a Segunda Guerra Mundial, ao derrubar um hidroavião Dornier Do 18 da Luftwaffe durante uma missão de patrulha no Mar do Norte. Posteriormente, em 27 de agosto de 1941, o modelo alcançou outro marco significativo ao se tornar a primeira aeronave britânica a afundar um submarino alemão, o U-656, do Tipo VIIC, mediante o emprego de cargas de profundidade. No serviço naval norte-americano, a versão designada Lockheed PBO-1 Hudson também se destacou de maneira pioneira. Essas aeronaves foram responsáveis pela destruição dos dois primeiros submarinos alemães afundados por ação aérea dos Estados Unidos, além de figurarem entre as primeiras a empregar foguetes não guiados em operações antissubmarino, introduzindo uma inovação tática relevante no combate naval aéreo.
Do ponto de vista técnico, os exemplares da série B-414 equipados com motores Pratt & Whitney Twin Wasp receberam as designações A-28 e A-28A no âmbito do USAAC, enquanto aqueles motorizados com Wright Cyclone foram classificados como A-29 e A-29A. Essa diversidade de configurações refletiu tanto as exigências operacionais distintas quanto a necessidade de racionalizar a produção em um período de mobilização industrial sem precedentes. Pouco antes do envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) transferiu à Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) a responsabilidade pela execução das missões de guerra antissubmarino ao longo do litoral norte-americano. Em decorrência dessa decisão, a Marinha buscou aprimorar seus recursos aéreos de patrulha, o que resultou na transferência de todos os contratos de produção existentes. Para atender de forma mais eficaz aos requisitos técnicos das missões de patrulha, as aeronaves a serem fabricadas passaram por uma série de modificações estruturais e funcionais. A partir do final de 1942, entraram em serviço os novos Lockheed-Vega PV-1 Ventura B-34, seguidos, em 1943, pelos Lockheed-Vega PV-2 Harpoon B-34A. Esses modelos apresentavam desempenho superior e maior capacidade para missões especializadas, substituindo gradualmente os Lockheed A-28 Hudson na linha de frente. Até maio de 1943, cerca de três mil unidades haviam sido produzidas, e muitas aeronaves em bom estado ainda estavam operacionais. Esse cenário levou o comando da Força Aérea Real (Royal Air Force) a optar pelo uso dessas aeronaves em missões de transporte de pessoal e carga. Para tanto, as aeronaves foram adaptadas localmente, com a remoção de sistemas defensivos e ofensivos de armamento, blindagem e equipamentos eletrônicos voltados para patrulha e guerra antissubmarino (ASW). Assim, no final de 1943, as primeiras unidades convertidas começaram a ser utilizadas. Esse modelo de conversão foi posteriormente adotado pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) e pela Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), que passaram a operar os Lockheed Model 18 C-60 e C-66 Lodestar, aeronaves já projetadas especificamente para transporte de carga e pessoal. O uso dessas aeronaves foi otimizado pelo compartilhamento de peças de reposição comuns. Após o término do conflito, em setembro de 1945, a frota remanescente dessas aeronaves, tanto norte-americanas quanto britânicas, foi retirada do serviço ativo e transferida para o mercado civil. Lá, elas foram empregadas em atividades como transporte de passageiros e aerofotogrametria, permanecendo em operação pelo menos até o final da década de 1960. O Lockheed A-28 Hudson, em suas versões adaptadas para transporte militar, continuou a ser utilizado no pós-guerra por forças armadas de diversos países, incluindo Brasil, Austrália, Holanda, Israel, Trindade e Tobago e Portugal. As últimas unidades dessas aeronaves foram desativadas em meados da década de 1950.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente apreensão a possibilidade de uma projeção militar das potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão  em direção ao continente americano. Essa preocupação intensificou-se de forma significativa após a capitulação da França, em junho de 1940, evento que alterou profundamente o equilíbrio estratégico no Atlântico. Com a derrota francesa, abriu-se a perspectiva de que a Alemanha nazista pudesse estabelecer bases operacionais em territórios até então sob controle francês, como as Ilhas Canárias, Dacar e outras possessões coloniais na África, criando condições favoráveis para uma eventual ofensiva transatlântica. Nesse cenário, o Brasil passou a ser percebido como um dos pontos mais sensíveis e estratégicos do continente. Sua proximidade geográfica com a costa africana região que figurava nos planos de expansão alemães  colocava o país em posição particularmente vulnerável a incursões aéreas e navais. Paralelamente, o avanço japonês no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul elevou ainda mais a importância estratégica do Brasil, que se tornou o principal fornecedor de látex para os países Aliados, insumo indispensável à produção de borracha e, consequentemente, à indústria de guerra. A relevância do território brasileiro não se limitava aos recursos naturais. A extensa costa atlântica, em especial a região Nordeste, apresentava-se como local privilegiado para a instalação de bases aéreas e portuárias de caráter militar. A cidade do Recife, em particular, destacou-se por sua posição geográfica singular, constituindo o ponto mais curto entre os continentes americano e africano e consolidando-se como elo fundamental para o trânsito de aeronaves, tropas e suprimentos destinados aos teatros de operações da Europa e do Norte da África. Diante dessas circunstâncias, consolidou-se uma rápida e progressiva aproximação política, econômica e militar entre Brasil e Estados Unidos, materializada por meio de acordos de cooperação estratégica e investimentos em infraestrutura. A crescente ameaça representada pelos submarinos alemães e italianos ao longo da costa brasileira passou a ser enfrentada de forma mais sistemática após a declaração de guerra do Brasil às potências do Eixo, em agosto de 1942. A partir desse marco, a Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy) iniciou a operação regular de esquadrões dedicados à guerra antissubmarino, utilizando bases estabelecidas majoritariamente no litoral nordestino brasileiro. Nesse mesmo período, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB) ainda enfrentava limitações consideráveis. Carente de treinamento especializado e de meios adequados para missões de patrulha marítima, a força aérea herdara das antigas Aviações Militar e Naval uma frota predominantemente obsoleta. Mesmo os modelos mais modernos então disponíveis, como o Vultee V-11 e o Focke-Wulf FW-58 Weihe, mostravam-se insuficientes para atender às exigências operacionais impostas pela guerra antissubmarino. Ainda assim, cabia à aviação brasileira a árdua tarefa de vigiar extensas áreas marítimas e proteger as rotas de navegação militar e mercante, constantemente ameaçadas pela ação dos submarinos do Eixo. Diante dessa realidade, tornou-se imperativo um esforço emergencial de modernização dos meios aéreos de patrulha da Força Aérea Brasileira. Esse processo ganhou impulso decisivo com a criação da Comissão de Compras de Material Aeronáutico, sediada nos Estados Unidos, órgão responsável por identificar, selecionar e adquirir aeronaves e equipamentos capazes de atender às novas exigências operacionais. A atuação dessa comissão representou um passo fundamental no fortalecimento da capacidade defensiva do Brasil e na integração efetiva do país ao esforço aliado durante a Segunda Guerra Mundial.

A adesão do governo brasileiro ao Lend-Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos) constituiu um marco decisivo na consolidação do alinhamento estratégico do Brasil com os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Por meio desse programa, o país obteve uma linha de crédito inicial da ordem de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material bélico moderno. Esse aporte financeiro viabilizou o acesso a aeronaves, veículos blindados, carros de combate e outros meios militares indispensáveis para enfrentar a crescente ameaça representada pelos submarinos alemães e italianos que operavam no Atlântico Sul. Tais ações hostis colocavam em risco a navegação civil e militar, afetando diretamente o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos, fortemente dependente do fluxo contínuo de matérias-primas estratégicas fundamentais para a indústria de guerra norte-americana. Nesse contexto, a participação brasileira no esforço aliado gradualmente assumiu maior relevância política e militar. O presidente Getúlio Vargas deixou claro que o Brasil não se restringiria ao papel de mero fornecedor de recursos estratégicos, sinalizando a disposição do governo em ampliar sua contribuição ao conflito, inclusive com a possibilidade de emprego direto de forças militares em teatros de operações no exterior. Entretanto, antes que tal projeção pudesse ser concretizada, o agravamento das operações de submarinos do Eixo ao longo da costa brasileira impôs à Força Aérea Brasileira (FAB) a necessidade imediata de executar missões de patrulha marítima e combate antissubmarino, mesmo sem dispor, naquele momento, de meios plenamente adequados para esse tipo de operação. Assim, aeronaves concebidas para missões de caça, como os monomotores Curtiss P-36A e P-40E, passaram a ser empregadas de forma improvisada em tarefas de vigilância marítima, enquanto se aguardava a chegada de plataformas especializadas. De modo semelhante, os primeiros esforços sistemáticos de combate antissubmarino foram realizados com os bombardeiros North American B-25B Mitchell, utilizados de maneira emergencial. O primeiro contato hostil ocorreu em 22 de maio de 1942, ainda antes da declaração formal de guerra do Brasil, quando uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) atacou o submarino italiano Barbarigo, da classe Marcello, que reagiu ao avistamento com disparos de sua artilharia antiaérea. A capacidade operacional da Força Aérea Brasileira (FAB) começou a ser significativamente ampliada a partir de dezembro de 1942, com a entrega das primeiras dez aeronaves Lockheed A-28A-LO Hudson, seguidas por mais dezesseis unidades no mês subsequente. Originalmente destinadas à Royal Air Force (RAF), essas aeronaves foram redirecionadas ao Brasil em função da urgência em dotar o novo aliado sul-americano dos meios mínimos necessários para sua inserção efetiva no esforço de guerra. A primeira unidade brasileira a operar o modelo foi o Grupo de Aviões Bimotores (GAB) da Unidade Volante, sediado em Natal, no Rio Grande do Norte, que iniciou suas operações ainda em dezembro de 1942, realizando missões de patrulhamento marítimo e escolta de comboios. Posteriormente, a Base Aérea de Salvador, na Bahia, recebeu sete unidades adicionais do A-28 Hudson, ampliando a cobertura aérea ao longo do litoral nordestino. Esse processo culminou, em 17 de agosto de 1944, com a ativação do 2º Grupo de Bombardeio Médio (2º GBM), também em Salvador, equipado inicialmente com cinco aeronaves Hudson. 
Ao longo da Segunda Guerra Mundial, os Lockheed A-28A Hudson desempenharam papel de grande relevância no esforço da Força Aérea Brasileira (FAB) contra a ameaça representada pelos submarinos alemães e italianos que operavam ao longo da extensa costa do país. Essas aeronaves foram empregadas por diversas organizações aéreas, entre as quais se destacaram o 4º Grupo de Bombardeio Médio (4º GBM), a Unidade Volante do Galeão, o 3º Grupo de Bombardeio Médio (3º GBM), o Grupo de Aviões Bimotores do 6º Regimento de Aviação (GAB-6º RAv) e o 1º Grupo de Bombardeio Médio (1º GBM), sediados principalmente nas Bases Aéreas de Canoas e Santa Cruz. Em conjunto, essas unidades constituíram o núcleo do esforço aéreo brasileiro de vigilância, escolta e ataque no Atlântico Sul. Os A-28A Hudson foram empregados de forma sistemática na proteção de grandes comboios marítimos, frequentemente compostos por dezenas de navios mercantes responsáveis por manter a ligação regular entre o Brasil e os Estados Unidos. Nessas missões, as tripulações executavam padrões rigorosos de varredura, patrulha e acompanhamento, assegurando a integridade dos navios sob sua responsabilidade até o limite das áreas de cobertura previamente estabelecidas. Esse trabalho contínuo revelou-se essencial para a manutenção do fluxo logístico aliado, vital ao esforço de guerra. Durante as operações de escolta e patrulha, registraram-se ataques confirmados contra submarinos inimigos, alguns dos quais se tornaram episódios emblemáticos da participação brasileira no conflito. Em 5 de abril de 1943, um A-28A Hudson baseado em Salvador, pilotado pelo 1º Tenente-Aviador Ivo Gastaldoni, atacou um submarino localizado a cerca de sessenta quilômetros de Aracaju, empregando cargas de profundidade. Após o ataque, foram observados destroços e uma extensa mancha de óleo na superfície do mar, indícios consistentes de danos severos à embarcação adversária. Outro episódio significativo ocorreu em 3 de julho de 1943, quando um A-28A Hudson operando a partir da Base Aérea de Santa Cruz, sob o comando do Tenente-Aviador Clóvis Labre de Lemos, atacou o submarino alemão U-199. Embora não tenha sido possível confirmar danos imediatos ao alvo, a ação evidenciou o elevado grau de prontidão e vigilância mantido pelas forças aéreas brasileiras. O desfecho mais notável envolvendo o U-199 ocorreu em 31 de julho de 1943. Nas primeiras horas da manhã, um Martin PBM-3C Mariner do esquadrão VP-74 da Marinha dos Estados Unidos, baseado no Rio de Janeiro, localizou e atacou o submarino alemão do tipo IXD-2, causando-lhe avarias, embora este ainda permanecesse operacional e reagisse com sua artilharia antiaérea. Alertadas pelo confronto, as defesas brasileiras acionaram um A-28A Hudson a partir do Rio de Janeiro, pilotado pelo Aspirante-Aviador Sérgio Cândido Schnoor. Na primeira passagem, o Hudson lançou duas cargas de profundidade Mk.17, que explodiram nas proximidades do submarino. Em seguida, numa segunda investida, Schnoor empregou as metralhadoras frontais da aeronave contra os postos de tiro inimigos, neutralizando parte da defesa antiaérea do U-199. Posteriormente, o submarino foi definitivamente afundado por um PBY-5 Catalina da Força Aérea Brasileira (FAB), pilotado pelo Aspirante-Aviador Alberto Martins Torres, que se encontrava em patrulha na área. A partir do segundo semestre de 1943, a atividade de submarinos alemães e italianos no Atlântico Sul passou a declinar de forma progressiva, ainda que continuasse a representar uma ameaça potencial à navegação mercante e militar ao longo do litoral brasileiro. 

Nesse cenário, os A-28A Hudson mantiveram-se em operação contínua, executando missões de escolta, cobertura e reconhecimento marítimo, muitas vezes acionados a partir de indícios captados por estações terrestres de escuta e vigilância. Essas operações evidenciaram a importância estratégica da aeronave e de suas tripulações na defesa das rotas marítimas brasileiras e na consolidação da contribuição do Brasil para o esforço aliado durante a Segunda Guerra Mundial. É relevante destacar que, sob o ponto de vista da configuração operacional, as células dos Lockheed A-28A Hudson destinadas ao Brasil haviam sido originalmente projetadas para atender às especificações da Força Aérea Real britânica (Royal Air Force – RAF), o que lhes conferiu características técnicas distintas daquelas observadas nas aeronaves produzidas diretamente para as forças armadas dos Estados Unidos. Essa origem refletiu-se em diversos aspectos operacionais, exigindo um período adicional de adaptação por parte das tripulações e das equipes de manutenção brasileiras. Um exemplo particularmente significativo dizia respeito ao sistema de frenagem do trem de pouso principal. Enquanto nos modelos de configuração norte-americana o controle da intensidade e do diferencial de frenagem era realizado exclusivamente por meio dos pedais, o padrão britânico exigia a atuação simultânea dos pedais e de uma alavanca manual de freio. Essa diferença, embora tecnicamente simples, teve impacto prático considerável, resultando em incidentes de pequena gravidade, sobretudo durante manobras em solo, que ocasionaram danos leves às aeronaves e evidenciaram a necessidade de treinamento específico para o correto emprego do sistema. Embora integrassem um mesmo lote de aproximadamente 350 aeronaves, os primeiros A-28A Hudson entregues à Força Aérea Brasileira (FAB) apresentavam variações estruturais relevantes. As unidades iniciais eram dotadas da torre dorsal Boulton Paul, enquanto as aeronaves recebidas posteriormente passaram a contar com um defletor aerodinâmico mais simples, porém volumoso, instalado à frente da metralhadora dorsal. Essa alteração, embora concebida como solução prática, influenciava negativamente a aerodinâmica da aeronave, reduzindo a autoridade dos lemes de direção em regimes de baixa velocidade, especialmente durante as fases críticas de pouso e decolagem. Tal característica, possivelmente associada a outras particularidades do modelo, contribuiu para a ocorrência de acidentes mais graves. Entre junho e novembro de 1943, foram registrados dois incidentes fatais envolvendo aeronaves do 2º Grupo de Bombardeio Médio (2º GBM). Posteriormente, uma aeronave da Unidade Volante do Galeão sofreu um acidente com danos estruturais severos, e um quarto A-28A Hudson foi perdido em Canavieiras, no litoral da Bahia, reforçando as preocupações quanto às limitações operacionais do tipo em determinadas condições. Entre o final de 1943 e o início de 1944, a Força Aérea Brasileira (FAB) passou por um significativo processo de fortalecimento de suas capacidades de patrulha marítima e guerra antissubmarino, com a incorporação de aeronaves mais modernas e especializadas, como o Consolidated PBY-5A Catalina, o North American B-25J Mitchell, o Lockheed PV-1 Ventura e o PV-2 Harpoon. Entretanto, essa modernização trouxe consigo desafios logísticos e de manutenção, uma vez que diferentes unidades aéreas passaram a operar múltiplos tipos de aeronaves, cada qual com requisitos técnicos específicos.
Com o objetivo de racionalizar recursos, padronizar procedimentos e simplificar a cadeia logística, foi implementada uma reestruturação organizacional em 20 de dezembro de 1944, conforme estabelecido em boletim reservado da Diretoria de Material Aeronáutico (DIRMA). Essa medida determinou a concentração de todas as células remanescentes do Lockheed A-28A Hudson no 4º Grupo de Bombardeio Médio (4º GBM), sediado na Base Aérea de Fortaleza, permitindo maior eficiência na manutenção e no emprego operacional do modelo. De forma singular, a última célula do A-28A Hudson destinada ao Brasil, embora formalmente entregue às autoridades brasileiras nos Estados Unidos, permaneceu naquele país. Essa aeronave foi empregada em apoio às atividades dos oficiais brasileiros destacados no San Antonio Air Depot, então o principal centro de manutenção e logística da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). O local desempenhava papel estratégico no esforço de guerra conjunto, funcionando também como ponto habitual de preparação e partida das aeronaves destinadas ao traslado para o Brasil, simbolizando a profundidade da cooperação aeronáutica entre as duas nações durante o conflito. Curiosamente, a última célula do Lockheed A-28A Hudson entregue às autoridades brasileiras nos Estados Unidos permaneceu naquele país, sendo empregada em apoio às atividades dos oficiais brasileiros destacados no San Antonio Air Depot. Essa instalação, reconhecida como o maior centro de manutenção e logística da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), também funcionava como ponto de partida habitual para o traslado das aeronaves destinadas ao Brasil, desempenhando um papel estratégico durante o conflito. Com o término da Segunda Guerra Mundial em maio de 1945, os Lockheed A-28A Hudson ingressaram em uma nova fase operacional. O 4º Grupo de Bombardeio Médio (4º GBM), sediado na Base Aérea de Fortaleza, concentrou esforços para manter o nível de operacionalidade alcançado ao longo dos anos de guerra. No início de 1947, a Força Aérea Brasileira deu início a um amplo plano de reorganização, que incluiu a extinção de todos os grupos de bombardeio leve, médio e de picada, bem como os grupos de caça, patrulha e regimentos de aviação. Em substituição, foram criados diversos grupos de aviação, e nesse contexto, o 4º GBM foi redesignado como 1º/4º Grupo de Aviação (1º/4º GAv). A partir de maio de 1948, essa unidade passou a operar também os recém-incorporados North American B-25J Mitchell, que rapidamente se tornaram o principal vetor da frota, assumindo protagonismo nas operações. Nesse período, a frota de Lockheed A-28A Hudson já se encontrava significativamente reduzida devido a perdas operacionais decorrentes de acidentes. A situação foi agravada por dificuldades no suprimento de peças de reposição, especialmente para os motores radiais Pratt & Whitney R-1830-67, o que comprometeu ainda mais a disponibilidade das aeronaves. As poucas unidades remanescentes foram mantidas em condições de voo graças à dedicação do pessoal técnico do Núcleo do Parque de Aeronáutica de Recife (NPqAerRF), que realizou esforços notáveis para preservar a operacionalidade do modelo. Todavia, em 1950, inspeções em ambito de parque revelaram problemas estruturais graves nas células ainda existentes, levando à decisão de condenar a maioria delas ao sucateamento. Durante esse processo, três aeronaves (FAB 2900 Ex-FK653 RAF - MNU, FAB 2901 Ex-FK700 RAF - MNU e FAB 2902 Ex-FK702 RAF - MNU) foram identificadas em melhor estado de conservação e selecionadas para conversão pelo Núcleo de Parque de Aeronáutica de Recife (NPqAerRF) em modelos destinados ao transporte de carga e pessoal, prolongando parcialmente sua vida útil em uma nova função operacional.

Em Escala.
Para representarmos o Lockheed A-28A Hudson “FAB 72” (número de série4 14-7172 aeronave que foi doada ao Ministério da Aeronáutica pela Fraternidade do Fole), empregamos o kit da Classic Airframes na escala 1/48. Para compormos a versão brasileira tivemos de construir em scratch o posto do metralhadora dorsal (estrutura, assento do operador e armamento), pois o kit vem originalmente equipado com a torre elétrica Bounton Paul. Fizemos uso de decais impressos artesanalmente sob encomenda em conjunto com  decais pertencentes a diversos sets da FCM Decals.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático empregado pela Força Aérea Real (Royal Air Force) durante a Segunda Guerra Mundial. Vale citar que mesmo após receberem as marcações nacionais, estas aeronaves mantiveram durante algum tempo a identificação da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) nas partes inferiores das asas. Após o término do conflito os Lockheeds A-28 Hudsons receberiam um novo esquema de pintura em verde oliva e cinza, com este perdurando até o ano de 1947, quando as aeronaves remanescentes passaram a ostentar uma pintura em metal natural, com este esquema se mantendo até sua desativação.

Bibliografia :
- Bombardeiros Bimotores da FAB, Aparecido Camazano Alamino - C&R Editorial
- Lockheed Hudson – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_Hudson
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015  - Jackson Flores Jr