P-47D 25RE Republic Thunderbolt

História e Desenvolvimento.
A Seversky Aircraft Company foi fundada em 1931, em Farmingdale, por Alexander de Seversky, um expatriado russo e veterano piloto da Primeira Guerra Mundial. Naquele momento, Seversky também atuava como assessor técnico do Departamento de Guerra (United States War Department), posição que lhe permitiu acompanhar de perto os rumos da modernização da aviação militar norte-americana e apresentar ideias inovadoras para o desenvolvimento de novas aeronaves. Nos primeiros anos de operação, a empresa reuniu uma equipe de engenheiros aeronáuticos altamente qualificados, em grande parte originários da Rússia e da Geórgia. Entre os principais nomes estavam Michael Gregor e Alexander Kartveli, profissionais que desempenhariam papéis decisivos no desenvolvimento de diversos projetos que marcariam a trajetória da companhia. O caminho até o sucesso, contudo, revelou-se complexo. Após vários projetos experimentais e tentativas iniciais sem grande repercussão comercial, a empresa alcançou um marco importante em 1936 ao vencer uma concorrência promovida pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) para o desenvolvimento de um novo caça. O projeto vencedor, designado Seversky SEV-1XP, resultou no primeiro contrato militar relevante da empresa. A versão operacional desse projeto receberia a designação P-35, tornando-se um marco na evolução da aviação militar norte-americana. O P-35 foi o primeiro caça moderno adotado pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army), incorporando diversas características que definiriam a nova geração de aeronaves militares: fuselagem inteiramente metálica, configuração monoplano de asa baixa e trem de pouso retrátil  embora ainda parcialmente exposto. A aeronave era equipada com um motor radial Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp com aproximadamente 850 cavalos de potência. No final da década de 1930, o governo norte-americano iniciou um ambicioso programa de reequipamento de suas forças aéreas, estimulando o desenvolvimento de novas aeronaves de combate, neste momento seria deflagrada  uma nova concorrência destinada à criação de um caça-bombardeiro mais moderno e capaz. Em resposta a essa iniciativa, a empresa apresentou, em 1939, o projeto  XP-41. Essa aeronave incorporava melhorias significativas em relação ao P-35, incluindo uma fuselagem mais aerodinâmica, cuja seção traseira se elevava gradualmente até a deriva configuração que ficaria conhecida posteriormente como perfil “razorback”. O XP-41 também apresentava um trem de pouso totalmente retrátil, duas metralhadoras calibre .30 instaladas sobre o capô do motor e uma versão mais potente do motor Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp, equipada com turbocompressor e capaz de gerar cerca de 1.150 cavalos de potência, permitindo à aeronave atingir aproximadamente 515 km/h a 15.000 pés de altitude. Apesar dessas melhorias, o projeto não atendeu plenamente às expectativas do , sendo considerado insuficiente em termos de desempenho. Como recomendação, os avaliadores sugeriram a adoção de um sistema de turbocompressão semelhante ao utilizado no bombardeiro pesado  B-17 , cuja eficiência em grandes altitudes já havia sido comprovada. Atendendo a essa pleito, este sistema seria instalado na parte traseira da fuselagem, com complexas tubulações conduzindo os gases de escape sob a cabine do piloto. 

Além disso, o armamento foi reforçado com a adição de duas metralhadoras calibre .50 instaladas nas asas. Esta modificações resultariam no modelo YP-43,  sendo capaz de atingir aproximadamente 563 km/h a uma altitude de 38.000 pés, agradando os militares que aprovariam a contratação de um de um lote de 54 células do agora designado P-43A Lancer. Atenta a rápida  evolução da tecnologia aeronáutica naquele período, a empresa lançaria esforço no desenvolvimento do projeto XP-44, um caça projetado com características avançadas para a época. O modelo apresentava uma cabine mais aerodinâmica e um cubo de hélice que encobria o motor, reduzindo o arrasto aerodinâmico causado pela ampla área frontal dos motores radiais de alta potência. Inicialmente planejado para ser equipado com o motor Pratt & Whitney R-2180 de 1.400 hp. Infelizmente o projeto enfrentou um revés quando o desenvolvimento desse motor foi cancelado, obrigando o fabricante a adotar o mais potente Pratt & Whitney XR-2800 “Double Wasp” de 2.000 hp.  As qualidades promissoras do XP-44 impressionaram o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), que, em um gesto de confiança, encomendou 80 células antes mesmo da construção de um protótipo. Contudo, o cenário global mudou drasticamente com a queda da França em junho de 1940, onde clarificou-se a  superioridade dos caças Messerschmitt Bf-109, face aos parâmetros apresentados pelo XP-44. Essa constatação levou ao cancelamento da encomenda, um golpe significativo para a agora renomeada Republic Aircraft Corporation, que que viu seus planos de produção em larga escala frustrados. Determinado a apoiar a continuidade da empresa, o  Departamento de Guerra (United States War Department), optou por exercer a opção por uma segundo lote do P-43A Lancer, envolvendo 80 aeronaves.  Embora menos avançado que o XP-44, o P-43A oferecia uma solução prática para atender às necessidades imediatas. Em julho de 1941, a Força Aérea da República da China (ROCAF), assinaria um contrato para a compra de 125 aeronaves, das quais 108 seria efetivamente entregues. Com o cancelamento do XP-44, a empresa redirecionou seus esforços para um projeto ainda mais ambicioso: o “Advanced Pursuit Design No. 10” (AP-10), designado pelos militares como XP-47. Inicialmente concebido para ser propulsionado pelo motor em linha Allison V-1710 refrigerado a água, o XP-47 enfrentou exigências crescentes para a inclusão de armamento mais pesado, tanques de combustível auto-selantes, blindagem para o piloto e cabides subalares para cargas externas. Essas demandas impactariam no peso final da  aeronave, comprometendo seu desempenho. Diante desse desafio, a equipe de engenheiros demonstrou notável resiliência, resultando em uma proposta revisada designada como XP-47A, contudo, a nova versão ainda não alcançava os parâmetros necessários para rivalizar com os caças alemães, resultando em sua rejeição.  Correndo contra o tempo e sob pressão para oferecer uma solução competitiva, os engenheiros voltaram às pranchetas e desenvolveram um projeto completamente novo, o XP-47B. A aeronave apresentava uma construção toda em metal (exceto para as superfícies de controle da cauda que eram cobertas de tecido) asas elípticas, e um bordo de ataque direto ligeiramente deslocado para traz.  
A aeronave dispunha de uma cabine ampla, projetada para oferecer razoável conforto ao piloto e equipada com certo nível de proteção blindada. Tanques de combustível auto-vedantes completavam o conjunto de medidas destinadas a aumentar a sobrevivência em combate. O sistema propulsor era baseado no potente motor radial Pratt & Whitney R-2800 Double Wasp, um propulsor de dezoito cilindros capaz de desenvolver cerca de 2.000 hp (aproximadamente 1.500 kW). Esse motor era combinado com um sistema de turbocompressor, permitindo ao novo caça alcançar velocidades superiores a cerca de 643 km/h e operar a altitudes próximas de 40.000 pés. Na realidade, o protótipo do XP-47B foi concebido praticamente em torno do conjunto motor-turbocompressor. O turbocompressor foi instalado na parte traseira da fuselagem, atrás da cabine do piloto, com um complexo sistema de dutos conduzindo os gases de escape até o conjunto. Essa solução técnica determinou as grandes dimensões da aeronave. Ao observar o projeto final,  Alexander Kartveli teria comentado de forma bem-humorada: “será um dinossauro, mas um dinossauro bem proporcionado.” O primeiro voo ocorreu em 6 de maio de 1941. A aeronave possuía uma cobertura transparente fixa para a cabine, e o acesso do piloto era realizado por meio de uma porta lateral na fuselagem. Após a solução de alguns problemas iniciais de projeto identificados durante os testes de voo, o modelo recebeu autorização para produção em série, passando a adotar a designação oficial P-47B Thunderbolt. As primeiras aeronaves começaram a ser entregues às unidades operacionais em dezembro de 1941. A entrada dos Estados Unidos no conflito evidenciaria rapidamente o potencial do novo caça, que passou a ser considerado um recurso estratégico de grande importância para o esforço de guerra aliado. Nesse contexto surgiu a versão P-47C, que embora  visualmente muito semelhante ao modelo anterior, essa variante incorporava diversas melhorias estruturais e operacionais. Entre as modificações introduzidas estavam reforços nas superfícies metálicas de controle, a adoção de um mastro de rádio vertical mais curto e a instalação de um sistema regulador mais eficiente para o turbocompressor. Com base nessas melhorias, foi firmado um contrato para a produção de mais de 600 aeronaves, cujas primeiras unidades começaram a ser entregues em setembro de 1942. Após a produção das primeiras cinquenta e sete aeronaves, novas melhorias de engenharia foram implementadas, resultando na versão  P-47C-1 , da qual foram produzidas 125  unidades. Em seguida, surgiria a variante  P-47C-2 , cuja produção totalizou cerca de 120 aeronaves. Essa versão introduziu uma modificação importante,  a instalação de um ponto de fixação sob a linha central da fuselagem, permitindo o transporte de bombas ou tanques suplementares de combustível.  Em novembro  a variante, o P-47C-5 que introduziria o novo motor Pratt & Whitney R-2800-59 equipado com sistema de injeção de água-metanol com um aumento na potência final. No final de 1942, a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), concluiu que a maioria dos problemas presentes nas primeiras versões, haviam sido resolvidos, levando a decisão de se enviar para a Inglaterra o 56 º Grupo de Caça com seus novos P-47C-5, para assim se juntar aos efetivos da 8º Oitava Força Aérea. 

Desde o início de seu desenvolvimento, seria concebido como um caça fortemente armado. Seu armamento padrão consistia em oito metralhadoras Browning M2 calibre .50, distribuídas nas asas e alimentadas por aproximadamente 2.500 cartuchos de munição. Essa poderosa combinação conferia à aeronave um elevado poder de fogo, tornando-a extremamente eficaz tanto em missões de combate aéreo quanto em operações de ataque ao solo. A primeira missão de combate do P-47C ocorreu em 10 de março de 1943, quando um grupo dessas aeronaves realizou uma missão de varredura de caça sobre a França ocupada. Pouco mais de um mês depois, em 15 de abril de 1943, seria registrada a primeira vitória aérea do modelo: o major Don Blakeslee conseguiu abater um caça alemão Focke-Wulf Fw 190.  As experiências acumuladas durante esse período inicial de operações revelaram diversos aspectos passíveis de aprimoramento no projeto da aeronave. Essas observações operacionais levariam a uma série de refinamentos técnicos que culminaram na introdução da versão  P-47D , rapidamente liberada para produção em grande escala. As primeiras células  eram em essência, muito semelhantes ao  P-47C , sendo inicialmente produzidas 10células designadas P-47D-1-RA. O sufixo final utilizado na designação indicava a unidade fabril responsável por sua produção: o código “RE” identificava as aeronaves produzidas na planta de Farmingdale, enquanto o sufixo “RA” era aplicado às aeronaves fabricadas na instalação industrial de Evansville. Na prática, o  P-47D consistiu em uma longa série de blocos de produção progressivamente aperfeiçoados. As primeiras subvariantes  D-1, PD-6, D-10 e P-D-11  incorporaram diversas melhorias estruturais, incluindo a adição de novos flaps de refrigeração do motor ao redor da seção superior do capô. Essas modificações foram introduzidas para reduzir problemas de superaquecimento observados em operações de campo. Posteriormente, a versão P-47D-15  foi desenvolvida em resposta a solicitações de unidades de caça norte-americanas e britânicas, que buscavam ampliar o alcance operacional da aeronave. Para isso, foram introduzidos sistemas de combustível sob pressão, capazes de transferir combustível a partir de tanques subalares externos. As variantes subsequentes  D-16, D-20, D-22 e D-23  mantiveram características semelhantes às do P-47D-15, incorporando principalmente melhorias nos sistemas de combustível e em diversos subsistemas do motor. A partir da versão P-47D-20, passou a ser adotada com novo motor Pratt & Whitney R-2800-59  Double Wasp. As primeiras versões da aeronave  incluindo os modelos  e  as variantes iniciais do P-47D e ainda o  P-47G ( P-47C produzido sob licença pela Curtiss-Wright)  apresentavam a fuselagem traseira elevada conhecida como configuração “razorback”. Esse desenho era acompanhado por uma cobertura deslizante da cabine com molduras estruturais espessas, o que limitava significativamente a visibilidade traseira do piloto e dificultava a detecção antecipada de aeronaves inimigas aproximando-se por esse setor. Para solucionar esse problema a partir do P-47D-25 seria foi adotada uma nova cobertura de cabine em formato de bolha  conhecida como “bubbletop” que proporcionava visibilidade praticamente irrestrita em todas as direções.
Para permitir essa alteração, a seção traseira da fuselagem foi rebaixada e redesenhada, com as primeiras aeronaves passando a ser entregues a partir de maio de 1944 as unidades da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). Entretanto, essa modificação trouxe consequências aerodinâmicas inesperadas. A redução da área lateral da fuselagem traseira comprometeu a estabilidade direcional da aeronave, gerando tendência à instabilidade em guinada. Para solucionar o problema, foi introduzida  uma pequena quilha dorsal à frente da deriva, recurso que restaurava parte da área lateral perdida e melhorava o controle em voo. Essa solução passou a ser adotada em produção a partir da variante P-47D-40, sendo posteriormente aplicada retroativamente às versões D-25, D-27, D-28 e D-30 por meio de kits de modificação instalados em campo. Paralelamente à evolução das variantes padrão, novas versões especializadas foram desenvolvidas para responder às exigências operacionais do conflito.  Uma delas foi o P-47M  concebido especificamente para enfrentar aeronaves alemãs de alto desempenho que surgiram nos estágios finais da guerra, como o Messerschmitt Me 262 e o Focke-Wulf Fw 190D.  Essa variante empregava um motor mais potente, tendo seu armamento reduzido para seis metralhadoras, buscando melhorar o desempenho e a velocidade máxima. Apesar de suas qualidades, entrou em serviço relativamente tarde e foi utilizado apenas por um grupo de. Outra evolução importante foi o P-47N Thunderbolt, projetado especificamente para operações no vasto teatro de operações do Oceano Pacífico. Essa versão foi otimizada para missões de longo alcance, particularmente aquelas destinadas a escoltar os bombardeiros estratégicos Boeing B-29  em ataques contra o território do Japão. O P-47N possuía asas redesenhadas com maior envergadura e pontas semi-elípticas, maior capacidade de combustível e uma quilha dorsal ampliada, que contribuía para melhorar a estabilidade durante longos voos. Durante o conflito, o P-47 destacou-se particularmente como caça-bombardeiro da , desempenhando papel decisivo em missões de apoio aproximado e interdição. A robusta estrutura da aeronave permitia transportar uma grande variedade de armamentos, incluindo bombas de 230 kg e 450 kg, foguetes M8 rocket de 4,5 polegadas e foguetes de alta velocidade High Velocity Aircraft Rocket (HVAR) de 5 polegadas . Essa combinação transformou o avião em uma plataforma extremamente eficaz para ataques contra colunas blindadas, linhas ferroviárias e infraestruturas logísticas. Entre junho de 1944 e maio de 1945, pilotos reivindicaram a destruição de cerca de 86.000 vagões ferroviários, 9.000 locomotivas, 6.000 veículos blindados e aproximadamente 68.000 caminhões, contribuindo significativamente para o colapso da infraestrutura militar do Eixo. Foi empregado por diversas forças aéreas aliadas, incluindo a Grã-Bretanha, a França, a União Soviética, o México e o Brasil.  Após o término da guerra,  continuou a servir  até a segunda metade da década de 1950, na Bolívia, Chile, China, Colômbia, Equador, Honduras, Irã, Itália, Iugoslávia, Nicarágua, Peru, Portugal, República Dominicana, Turquia e Venezuela. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente preocupação a possibilidade de uma eventual expansão das potências do Potências do Eixo  em direção ao continente americano. Esses receios foram intensificados após a Batalha da França e a subsequente capitulação francesa em junho de 1940. A queda da França levantou preocupações estratégicas quanto à possibilidade de a Alemanha nazista utilizar territórios coloniais franceses como bases operacionais no Atlântico e na África Ocidental, incluindo regiões como as Ilhas Canárias e Dakar. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ser considerado uma área de importância estratégica singular, sobretudo em razão de sua posição geográfica no Atlântico Sul e de sua proximidade relativa com o continente africano. Paralelamente, os avanços militares japoneses no Sudeste Asiático e no Pacífico incluindo a ocupação da Indochina em 1940 e das Filipinas em 1942  alteraram profundamente as cadeias globais de suprimento de matérias-primas estratégicas. Nesse cenário, o Brasil assumiu papel fundamental como fornecedor de látex natural, matéria-prima essencial para a produção de borracha sintética e natural, amplamente empregada na fabricação de pneus, mangueiras, vedantes e inúmeros componentes utilizados na indústria militar. Diante desse contexto estratégico, o governo brasileiro liderado pelo presidente Getúlio Vargas intensificou a aproximação diplomática, econômica e militar com os Estados Unidos. Essa cooperação resultou na assinatura de diversos acordos bilaterais voltados ao fortalecimento da defesa hemisférica. Um dos instrumentos mais importantes dessa cooperação foi a adesão brasileira ao programa de assistência militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos, aprovado pelo Congresso norte-americano em março de 1941. Por meio desse programa, o Brasil recebeu uma linha de crédito inicial estimada em aproximadamente US$ 100 milhões de dólares. Esses recursos foram destinados à modernização das Forças Armadas Brasileiras, permitindo a aquisição de armamentos modernos, incluindo aeronaves militares, veículos blindados, carros de combate, navios de patrulha e diversos equipamentos logísticos. O objetivo central era atualizar as capacidades militares brasileiras, que até então enfrentavam sérias limitações decorrentes da obsolescência de seus equipamentos e da defasagem de sua doutrina operacional. Nesse período, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), instituída oficialmente em 20 de janeiro de 1941, enfrentava desafios significativos relacionados à modernização de sua frota. A aviação militar brasileira era composta majoritariamente por aeronaves consideradas ultrapassadas para os padrões do conflito, o que limitava sua capacidade operacional. Seria decidido também  que o país enviaria um contingente expedicionário para ajudar no esforço aliado no teatro europeu de operações, operando em conjunto com duas unidades áreas, uma de observação e ligação e outra de caça bombardeio. 

Em cumprimento aos termos estabelecidos nos acordos de cooperação militar firmados entre o Brasil e os Estados Unidos, foi criado, em 18 de dezembro de 1943, o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa). Essa unidade seria integrada operacionalmente ao 350º Grupo de Caça (Fighter Group) da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), passando a operar como unidade de caça-bombardeio equipada com o Republic P-47D Thunderbolt, aeronave que se tornaria o principal vetor de ataque do grupo durante a campanha na Europa. A fase inicial de preparação ocorreu em Aguadulce, onde os pilotos brasileiros realizaram treinamento de adaptação utilizando aeronaves  P-40 Warhawk. Após essa etapa, os integrantes do grupo  incluindo pilotos e equipes de manutenção foram transferidos para a Suffolk Army Air Field, onde tiveram o primeiro contato com o P-47D Thunderbolt, aeronave que seria empregada nas operações de combate no teatro europeu. O processo de conversão operacional seguiu os mesmos padrões aplicados aos pilotos de caça norte-americanos naquele período. Em média, cada piloto realizou cerca de setenta horas de treinamento no novo caça, período ao final do qual eram considerados plenamente qualificados para operações de combate. Concluída a fase de instrução, o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) foi deslocado por via marítima para a Itália, onde chegou em 6 de outubro de 1944, passando a integrar as forças aéreas aliadas engajadas nas operações da Campanha da Itália. As primeiras aeronaves destinadas à unidade foram recolhidos pelos próprios pilotos brasileiros e transportados até a base aérea de Tarquínia, que se tornaria o principal ponto de operações do grupo. Essas aeronaves faziam parte do lote fornecido à Força Aérea Brasileira (FAB), composto por 68 exemplares do modelo. No início da campanha, 31 aeronaves foram efetivamente entregues à unidade, com as demais permanecendo armazenadas como reserva estratégica, junto ao  “Army Air Force Storage Center - Mediterranean Theater of Operations”, em Nápoles, um depósito que atendia às unidades da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), baseadas no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Entre essas primeiras aeronaves, 15  pertenciam à versão P-47D-25-RE  passando a ostentar designações operacionais internas como “A3”, “A4”, “D2”, “B1”, “C1”, “C6”, “B3”, “B4”, “B5” e “D6”. Também pertencia a essa variante a aeronave utilizada pelo comandante do grupo, o Nero Moura, identificada como P-47D “1”. O início efetivo das operações de combate destinadas a missões Apoio aéreo aproximado, Interdição tática e Ataque a Infraestruturas de transporte, se deu em 31 de outubro de 1944.  Durante as primeiras missões, os pilotos brasileiros voavam individualmente, integrados como quarto elemento às esquadrilhas dos três esquadrões norte-americanos que compunham o  350º Grupo de Caça (Fighter Group),  o 345th, 346th e 347th  Esquadrões de Caça (Fighter Squadron). Essa fase inicial de integração operacional permitiu que os pilotos do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) adquirissem experiência prática nas condições reais de combate da frente italiana, familiarizando-se com os procedimentos táticos empregados pela pelos norte-americanos antes de iniciar operações plenamente autônomas.
À medida que os pilotos brasileiros acumulavam experiência operacional no teatro italiano da Segunda Guerra Mundial, passaram a ser designados para missões progressivamente mais complexas e arriscadas sobre o front da Itália. Essas operações envolviam frequentemente voos a baixa altitude e ataques diretos contra posições inimigas, o que expunha as aeronaves ao intenso fogo da artilharia antiaérea alemã. Em 6 de novembro de 1944, ocorreu a primeira perda em combate da unidade. O John Richardson Cordeiro e Silva, 2º Tenente Aviador, foi abatido pela artilharia antiaérea alemã (conhecida como flak) nas proximidades da localidade de Pianoro, durante uma missão na qual voava como número quatro de uma esquadrilha do 347th  Esquadrão de Caça. Na manhã do dia seguinte, 7 de novembro de 1944, a unidade sofreu uma segunda perda trágica. O aviador Oldegard Olsen Sapucaia, também 2º Tenente Aviador, faleceu durante um voo de treinamento quando os controles de seu P-47D-25-RE travaram durante a execução de manobras evasivas simuladas. A aeronave entrou em um parafuso invertido a aproximadamente 450 metros de altitude. Embora o piloto tenha conseguido ejetar-se da aeronave, seu paraquedas não chegou a abrir completamente antes do impacto com o solo. Dois dias após o acidente, a explicação técnica para o ocorrido começou a emergir. A seção de manutenção da unidade recebeu um boletim técnico alertando que as células dos P-47D-25/D-27 e D-28 não deveriam ser submetidos a manobras não coordenadas envolvendo aileron e leme. Nessas circunstâncias, o leme poderia travar na posição aplicada, provocando uma rotação descontrolada no eixo lateral e conduzindo a aeronave a um parafuso invertido de difícil recuperação. Esse fenômeno aerodinâmico estava relacionado à redução da área lateral da fuselagem traseira nas primeiras versões “bubbletop” do  P-47, característica que já havia sido identificada como fator de instabilidade direcional. A solução adotada posteriormente pelo fabricante foi a introdução de uma quilha dorsal à frente da deriva, medida aplicada nas versões mais recentes da aeronave. Contudo, como essa modificação só era instalada durante revisões estruturais de maior porte  realizadas no 80º Esquadrão de Manutenção em Cerignola  apenas um número limitado dos P-47  brasileiros chegou a receber essa atualização durante a campanha. Conforme determinado, as  missões executadas pelo 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) eram essencialmente de dois tipos principais: ataque ao solo e escolta de bombardeiros, embora esta última ocorresse com menor frequência em virtude da fase avançada do conflito na Itália. Nas missões de ataque ao solo, as aeronaves eram geralmente equipados com bombas de emprego geral AN-M43 de 500 libras (227 kg), bombas de fragmentação de 260 libras (118 kg) ou de 90 libras (40 kg). Outra arma frequentemente empregada era o dispositivo conhecido como Fuel Tank Incendiary (FTI), que consistiam em tanques de combustível descartáveis  com capacidades de 90 galões (340 litros), 110 galões (416 litros) ou 165 galões (624 litros), adaptados com espoletas e preenchidos com gasolina de aviação misturada a compostos químicos que tornavam o combustível gelatinoso. Quando lançados sobre o alvo, esses dispositivos atuavam como armas incendiárias improvisadas, demonstrando elevada eficácia contra concentrações de veículos, depósitos logísticos e agrupamentos de tropas inimigas.

Outro armamento utilizado foram os foguetes antitanque M8A2 de 4,5 polegadas, disparados a partir de lançadores M10  instalados sob as asas. Contudo, esse sistema revelou-se relativamente ineficaz em combate, pois os foguetes apresentavam baixa precisão, e a instalação dos lançadores prejudicava significativamente as características aerodinâmicas das aeronaves Nas missões de escolta, os caças brasileiros exploravam o poderoso armamento orgânico,  composto por oito metralhadoras calibre .50. Nessas operações, as aeronaves normalmente transportavam tanques alijáveis de combustível sob as asas, ampliando seu raio de ação e permitindo acompanhar formações de bombardeiros em voos de longa distância. Entre os alvos mais frequentes dessas missões encontrava-se a região do Passo do Brenner, importante corredor estratégico entre a Itália e a Áustria, utilizado pelas forças alemãs para o deslocamento de tropas e suprimentos ao longo dos últimos meses da guerra. A neutralização desse eixo logístico representava um objetivo prioritário para as forças aéreas aliadas na fase final da campanha italiana. Pelo menos três exemplares  P-47Ds  operados pelos brasileiros, receberam a instalação de uma câmera fotográfica oblíqua K-25A, posicionada no bordo de ataque do cabide subalar esquerdo. Essa modificação foi realizada pelos próprios mecânicos brasileiros da unidade, demonstrando elevado grau de iniciativa técnica e capacidade de adaptação em condições de guerra. A presença desse equipamento permitia a obtenção de fotografias logo após a execução dos ataques, registrando os efeitos do bombardeio sobre os alvos inimigos. Normalmente, essa tarefa era desempenhada pela aeronave que voava na posição número quatro da esquadrilha  a última a mergulhar sobre o alvo  possibilitando a captura de imagens das explosões provocadas pelas bombas lançadas pelas demais aeronaves da formação. Contudo, essa função tornava o avião de reconhecimento particularmente vulnerável, pois permanecia mais tempo sobre a área do alvo e, por essa razão, recebia frequentemente a maior atenção da artilharia antiaérea alemã. Entre os pilotos brasileiros que se destacaram nas operações aéreas na Itália, merece especial menção o Pedro de Lima Mendes, 2º Tenente Aviador integrante da esquadrilha Azul do 1º Grupo de Aviação de Caça, considerado o piloto mais eficiente tanto da unidade brasileira quanto do 350th Grupo de Caça durante a campanha. Igualmente notável foi o desempenho do pessoal de manutenção e apoio em terra. A dedicação e a competência técnica desses profissionais refletiram-se na elevada taxa média de aeronaves disponíveis para operações: cerca de 81%, índice que jamais caiu abaixo de 77% ao longo da campanha. Esse desempenho figurava entre os mais elevados registrados entre as unidades aéreas sob comando norte-americano no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Durante as missões de combate, muitos aviões retornavam às bases com danos estruturais provocados principalmente pela artilharia antiaérea alemã. Ainda assim, graças à eficiência das equipes de manutenção, essas aeronaves eram rapidamente reparadas e preparadas para novas missões, garantindo a continuidade das operações do grupo. Com o encerramento das hostilidades na Itália, em 3 de maio de 1945, foi possível apresentar o balanço de suas atividades operacionais, pois ao  longo de 184 dias de operações, a unidade realizou 445 missões, totalizando 2.546 surtidas ofensivas e quatro surtidas defensivas.
Mesmo tendo sido responsável por apenas 5% do total de missões montadas pelo XXII Comando Aéreo Tático, seria responsável pela destruição de 85% dos depósitos de munições, 36% dos depósitos de combustível, 28% das pontes (19% danificadas), 15% dos veículos motorizados (13% danificados) e 10% dos veículos hipomóveis (10% danificados). Devido à escassez de pilotos substitutos, muitos aviadores brasileiros acumularam um número excepcionalmente elevado de missões de combate, com vários deles ultrapassando a marca de 80 surtidas. Mas o preço pago foi alto e do total  , 05 foram mortos em combate, 04 em acidentes aéreos (um deles ainda no Panamá, durante o treinamento), 08 foram abatidos com 05  feitos prisioneiros, 03 abatidos e por fim 07 foram afastados por motivos de saúde.  Em junho de 1945, todos os 26 P-47Ds brasileiros, foram levados em vôo até Capodichino, ao Army Air Force Storage Center - Mediterranean Theater of Operations, onde foram desmontados e enviados por via terrestre para Nápoles, para serem embarcados para o Brasil. No traslado, o P-47D-27-RE n° 42-26788 acidentou-se durante o pouso em Capodichino, sendo considerado perda total.  As aeronaves  foram desmontadas encaixotadas e embarcadas e transportadas em um navio. O pessoal de terra e parte dos oficiais aviadores voltaram para ao país a bordo do navio de transporte de tropas  USS General M. C. Meigs (AP-116), embarcando  no dia 06 de julho de 1945.  Uma equipe de 20 pilotos seria escolhida para se deslocar por via aérea aos Estados Unidos, para receberem 19 P-47D-30-RA novos, equipados com o que de mais avançado existia, como miras K-14B, cabides subalares S-1, radar de alerta traseiro AN/APS-13 ; equipamento para roupas anti-G e provisão para instalação de cinco foguetes HVAR de 127mm em cabides subalares “zero-length”  sem trilhos para os foguetes).  Esses P-47D-30 chegaram ao Brasil em julho de 1945, antes mesmo dos  embarcados da Itália, e vieram a equipar o 1º GpAvCa com os P-47D "italianos" ao  chegaram ao Brasil sendo montados no Galeão, para serem transladados em voo até a Base Aérea de Santa Cruz, para serem alocados junto ao  2º Grupo de Caça (GpCa), unidade criada em 17 de agosto de 1944 na Base Aérea de Natal e transferida em outubro para o Rio de Janeiro, estando inicialmente equipados com aeronaves Curtiss P-40 Warhawk.   Com o reequipamento desta nova unidade com os P-47D, e novas turmas de pilotos necessitando serem treinadas,  decidiu-se que, após passarem por rigoroso treinamento em aeronaves AT-6D no Estágio de Seleção de Pilotos de Caça (ESPC), os pilotos selecionados seriam transferidos ao 2º GpCa para a conversão operacional para o modelo. Neste momento restavam poucas células ativas ainda do modelo inicial P-47D-RE-25, que conviviam com as versões posteriores. Em 13 de outubro de 1952, os  Thunderbolts seriam  redesignados como F-47, restanto neste momento poucas células disponíveis, devido à falta de peças de reposição, até mesmo de pneus.  Nesta fase restavam em voo somente cinco células do modelo P-47D-RE-25, com das demais estocadas ou perdidas em acidentes, sendo todas descarregadas do inventario da Força Aérea Brasileira em 17 de março de 1958.

Em Escala.
Para representarmos o P-47D-RE-25 "C-1 226762" pertencente 1º Grupo de Aviação de Caça (Gp Av Ca), pilotado pelo Capitão Aviador Fortunato Câmara de Oliveira durante a campanha da Itália,  empregamos o excelente kit da Academy na escala 1/48 embalado pela HTC Modelismo. Este modelo pode ser montado direto da caixa sem a necessidade de qualquer alteração para assim se representar a versão brasileira operada na Itália, antes da adoção uma quilha dorsal. Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM  Decals que estão presentes neste kit.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura padrão empregado na maioria das aeronaves recebidas no teatro de operações Italiano, sendo que apenas três das quinze aeronaves foram recebidas sem qualquer esquema de camuflagem. Após o regresso ao Brasil as células mantiveram o padrão original até passarem pelo processo de revisão em âmbito de parque, quando passaram a adotar a pintura em metal natural com aplicação de verde oliva para parte superior frontal para evitar reflexos, este último padrão foi mantido até a desativação do modelo no ano de 1958.

Bibliografia :
- O Trator Voador por Jackson Flores Junior- Revista Força Aérea Nº 2
-  P-47D Thunderbolt - Wikipédia http://en.wikipedia.org/wiki/Republic_P-47_Thunderbolt
-  Republic P-47 Thunderbolt na FAB por Aparecido Camazano Alamino - Revista Asas Nº 62
-  Aeronaves Militares Brasileiras 1916 / 2015  - Jackson Flores Jr

Jeep MB Willys Ambulância (T/E)

Historia e Desenvolvimento.
No final da década de 1920, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S Army) intensificou de maneira sistemática seus esforços para transformar a estrutura operacional da Força Terrestre, buscando acelerar a transição de um modelo predominantemente hipomóvel, fortemente dependente da tração animal, para uma força progressivamente mecanizada, capaz de responder às exigências de um cenário bélico em rápida transformação. Esse movimento foi diretamente impulsionado pelos avanços tecnológicos proporcionados pela vigorosa indústria automotiva norte-americana, que passou a oferecer soluções inovadoras e cada vez mais confiáveis para os desafios da mobilidade e da logística militar. O amplo programa de mecanização concebido pelo Exército abrangia o desenvolvimento de diferentes categorias de veículos, incluindo caminhões de carga, meios de transporte de tropas e, de forma prioritária, um veículo utilitário leve dotado de tração integral 4x4. Esse novo meio deveria ser capaz de operar com eficiência em terrenos fora de estrada, transpor obstáculos naturais com facilidade e transportar até quatro soldados totalmente equipados, assegurando rapidez, flexibilidade e autonomia às pequenas unidades em operações táticas. As primeiras iniciativas voltadas à concepção desse utilitário leve envolveram uma colaboração estreita entre oficiais do Exército e representantes da indústria automotiva, embora tenham sido marcadas por significativos desafios técnicos e severas restrições orçamentárias. O conceito começou a ganhar contornos mais definidos no início de 1932, sob a liderança do Coronel Robert G. Howie, então comandante da 7ª Companhia de Tanques, sediada em Fort Snelling, Minnesota. Entusiasta convicto da motomecanização integral da Força Terrestre, Howie possuía uma visão clara das novas exigências operacionais impostas pela evolução da guerra moderna. Sua experiência prática aliada a uma sólida compreensão estratégica revelou-se decisiva para o avanço do projeto. Sob sua supervisão direta, o primeiro protótipo funcional foi construído nas oficinas do Fort Sam Houston, no Texas. Submetido a rigorosos testes de campo, o veículo apresentou resultados animadores, demonstrando capacidade satisfatória de operação em terrenos difíceis e atendimento às exigências táticas estabelecidas. Esses ensaios iniciais reforçaram a confiança do alto comando do Exército na viabilidade do conceito, levando à decisão de destinar recursos para a produção de um lote pré-série de setenta veículos. Entretanto, as severas restrições financeiras impostas pela Grande Depressão acabaram por adiar essa etapa, interrompendo temporariamente o avanço do programa. O projeto somente seria retomado no final de 1936, quando o cenário econômico norte-americano começou a apresentar sinais de recuperação e o Exército voltou a priorizar, de forma mais enfática, seus esforços de modernização. Após a realização de uma concorrência aberta, a Bantam Car Company, sediada na Pensilvânia, foi selecionada para desenvolver e produzir o lote pré-série. Reconhecida por sua agilidade na fabricação de veículos leves, a Bantam entregou os primeiros exemplares a partir de meados de 1938, destinando-os ao Quartel-General do Departamento do Exército, localizado em Fort Holabird, Baltimore, Maryland.

Com essa frota inicial disponível, o Exército ampliou consideravelmente seu programa de testes, avaliando o desempenho dos veículos em diferentes tipos de terreno e sob variadas condições operacionais. Esse processo revelou-se fundamental não apenas para validar o projeto do ponto de vista técnico, mas também para iniciar a construção de uma doutrina específica de emprego operacional para veículos utilitários leves com tração integral 4x4. Esses testes estabeleceram as bases conceituais e práticas do que, em poucos anos, se consolidaria como o Jeep um ícone militar que revolucionaria a mobilidade tática durante a Segunda Guerra Mundial. No âmbito de um abrangente programa de ensaios de campo conduzido ao longo do final da década de 1930, o Exército dos Estados Unidos (U.S Army) constatou que o novo utilitário leve apresentava um potencial excepcional para ampliar de forma significativa a mobilidade da Força Terrestre. Capaz de operar com eficácia em uma ampla variedade de ambientes fora de estrada, o veículo demonstrou versatilidade em múltiplas funções, superando obstáculos naturais e assegurando o transporte eficiente de até quatro combatentes totalmente equipados. Esses resultados consolidaram a convicção do comando do Exército de que o utilitário representava um avanço estratégico decisivo para a mecanização das forças armadas, conduzindo à decisão de adotá-lo em larga escala. Com base nesses resultados promissores, foi lançada, em 1940, uma concorrência formal para a produção em série do veículo utilitário leve 4x4. O processo foi conduzido com elevado grau de rigor, envolvendo o envio de convites a mais de uma centena de empresas da indústria automotiva norte-americana. As participantes deveriam apresentar propostas técnicas e comerciais detalhadas, acompanhadas de protótipos plenamente funcionais que atendessem às exigentes especificações militares. O objetivo central da concorrência era assegurar que o veículo final reunisse robustez, confiabilidade e capacidade de produção em grande escala, em consonância com as necessidades operacionais do Exército. Entretanto, o rápido agravamento das tensões geopolíticas na Europa e no Pacífico Sul, impulsionado pela ascensão da Alemanha Nazista e do Império do Japão, alterou profundamente o contexto desse processo. A iminência de um conflito de proporções globais evidenciou a urgência de reequipar as forças armadas norte-americanas. Em resposta, o comando do Exército revisou drasticamente o cronograma original, estabelecendo um prazo excepcionalmente curto de apenas 49 dias para a apresentação de protótipos funcionais. Essa exigência, reflexo direto da pressão estratégica do momento, impôs desafios consideráveis às empresas concorrentes. Das mais de cem empresas inicialmente convidadas, apenas três aceitaram o desafio: a Ford Motor Company, a American Bantam Car Company e a Willys-Overland Company. A American Bantam, uma pequena montadora da Pensilvânia com experiência na produção de veículos leves, foi a única a cumprir integralmente o prazo estipulado, entregando um protótipo funcional em setembro de 1940. Designado Bantam Reconnaissance Car (BRC), o veículo foi submetido a rigorosos testes comparativos, nos quais demonstrou desempenho notável em termos de mobilidade, resistência estrutural e aderência às especificações militares. Embora o protótipo da Bantam tenha se destacado nos ensaios iniciais, o comando do Exército, consciente da necessidade urgente de produção em grande escala, optou por aprovar também os projetos apresentados pela Ford e pela Willys-Overland. 
Essa decisão foi motivada, sobretudo, pela limitada capacidade industrial da Bantam, insuficiente para atender sozinha à crescente demanda militar em tempo compatível com a conjuntura internacional. Os testes comparativos entre os diferentes protótipos resultaram em uma série de aprimoramentos técnicos no projeto original, incorporando contribuições das três montadoras e pavimentando o caminho para a padronização definitiva do veículo que se tornaria um dos maiores símbolos da mecanização militar do século XX. O modelo pré-série Bantam BRC, desenvolvido pela American Bantam Car Company, apresentava uma configuração que conciliava elementos estilísticos ainda influenciados pelos automóveis civis da década de 1930  perceptíveis sobretudo na seção traseira da carroceria com soluções técnicas especificamente concebidas para atender às rigorosas exigências militares. Dotado de tração integral 4x4, suspensão reforçada e capacidade de carga de um quarto de tonelada, o BRC foi projetado para oferecer robustez, confiabilidade e elevada versatilidade em operações de campo, características essenciais em um contexto de crescente preparação para a guerra. Embora os protótipos apresentados pela American Bantam, pela Ford Motor Company e pela Willys-Overland Company tenham sido inicialmente aprovados pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army), persistiam dúvidas quanto à viabilidade técnica e industrial dos projetos desenvolvidos pelas duas grandes montadoras. Com o objetivo de dirimir essas incertezas, o Exército promoveu uma nova e decisiva rodada de testes de campo, realizada entre 27 de setembro e 16 de outubro de 1940, nos campos de prova do Quartel-General do Departamento do Exército. Durante esses ensaios comparativos, o Bantam BRC voltou a se destacar de forma consistente, impressionando engenheiros e oficiais militares por seu desempenho superior, especialmente em termos de mobilidade, resistência estrutural e adequação às especificações operacionais. Os resultados levaram o Exército a reconsiderar a ideia inicial de adotar três modelos distintos, inclinando-se, naquele momento, a favorecer o projeto desenvolvido pela Bantam. Como consequência direta desse desempenho, em 31 de março de 1941 foi firmado um contrato com a American Bantam Car Company para a produção de 1.500 unidades do modelo BRC-40. Contudo, à medida que o cronograma militar se tornava cada vez mais exigente, ficou evidente que a Bantam não dispunha nem da capacidade industrial nem da solidez financeira necessárias para sustentar uma produção em larga escala, compatível com as demandas impostas pela iminência do conflito global. Diante dessa limitação, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos tomou uma decisão controversa e historicamente sensível: transferir o projeto técnico e as plantas originais do BRC-40 para a Ford Motor Company e para a Willys-Overland Company. Essa medida permitiu que ambas as empresas desenvolvessem suas próprias versões do veículo utilitário leve, introduzindo aperfeiçoamentos e adaptações a partir do conceito originalmente concebido pela Bantam. Apesar do caráter claramente arbitrário dessa decisão, ela não foi formalmente contestada pela diretoria da Bantam, possivelmente em razão da delicada situação financeira enfrentada pela empresa naquele momento. Como forma indireta de compensação, a American Bantam Car Company foi contemplada com contratos relevantes para a produção de componentes automotivos, reboques de carga e combustível T/1 de ¾ de tonelada — que totalizaram mais de 70 mil unidades  além da fabricação de torpedos destinados à Marinha Real Britânica (Royal Navy). 

Essa estratégia assegurou a sobrevivência da empresa durante o esforço de guerra, ainda que sua contribuição fundamental para a concepção do Jeep tenha sido progressivamente ofuscada pelo sucesso posterior dos modelos produzidos em grande escala pela Ford e pela Willys. Em agosto de 1941, consolidando a transição para a produção massiva, o Exército dos Estados Unidos assinou um novo contrato com a Willys-Overland Company para a fabricação de mais 16.000 veículos, designados inicialmente como MA Quad, modelo que evoluiria pouco depois para o consagrado Willys MB.  A Willys-Overland foi selecionada para a produção em larga escala do Jeep em razão de sua comprovada capacidade industrial e, sobretudo, das melhorias técnicas incorporadas ao projeto original, com destaque para o motor Willys Go-Devil, amplamente reconhecido por sua maior potência, robustez mecânica e confiabilidade em condições severas de operação. Esses atributos tornaram o veículo particularmente adequado às exigências de um conflito de dimensões globais, no qual a simplicidade construtiva e a facilidade de manutenção eram fatores decisivos. Nos meses subsequentes, à medida que a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial exigia uma expansão acelerada da capacidade produtiva, novos contratos foram firmados. Nesse contexto, a Ford Motor Company emergiu como a principal parceira industrial do esforço de guerra, recebendo, até o final de 1945, as maiores encomendas para a fabricação do utilitário. O modelo produzido pela Ford recebeu a designação oficial Ford G.P.W. (General Purpose Willys), refletindo tanto sua função de uso geral quanto a padronização do projeto desenvolvido pela Willys. Embora fabricado em diferentes plantas industriais da Ford, o G.P.W compartilhava essencialmente o mesmo desenho, componentes e especificações do Willys MB, assegurando plena intercambiabilidade e facilitando a logística militar. No âmbito do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), os soldados passaram a se referir informalmente ao veículo pela sigla “GP”, derivada da expressão General Purpose. Na pronúncia corrente em inglês, o termo soava como “Jeep”, denominação que rapidamente se disseminou entre as tropas e passou a identificar não apenas o veículo, mas também um conceito de mobilidade, agilidade e resistência no campo de batalha. Curiosamente, o termo “Jeep” também evocava Eugene the Jeep, personagem das histórias em quadrinhos do marinheiro Popeye, criado na década de 1930. O carismático animal de estimação de Olivia Palito era retratado como dotado de habilidades extraordinárias, como atravessar obstáculos, caminhar por paredes e alcançar lugares inacessíveis. Essa associação simbólica encontrou forte ressonância entre os soldados, que viam no utilitário leve qualidades semelhantes de versatilidade e superação. Expressões como “Hey, he’s a real Jeep!” tornaram-se comuns para elogiar pessoas de notável vigor físico ou capacidade de adaptação, contribuindo para a consolidação do nome como um ícone cultural e militar. À medida que a produção industrial se intensificava, o Jeep passou a integrar, em número crescente, as frotas das unidades militares norte-americanas destacadas nos mais diversos teatros de operações. O batismo de fogo do Ford G.P.W. ocorreu em 1942, com sua introdução em combate tanto no Pacífico Sul quanto no Norte da África. No teatro do Pacífico, o veículo foi amplamente empregado nas campanhas contra as forças do Exército Imperial Japonês, desempenhando funções essenciais em missões de reconhecimento, transporte de pessoal e suprimentos, além de servir como plataforma improvisada para armamentos leves. Sua capacidade de operar em terrenos acidentados, alagadiços ou lamacentos revelou-se crucial nas operações realizadas nas ilhas do Pacífico.
No Norte da África, durante a Operação Torch, iniciada em novembro de 1942, o Ford G.P.W. foi utilizado extensivamente pelas forças norte-americanas e britânicas. Enfrentando as severas condições do deserto, o veículo demonstrou notável resistência e confiabilidade, contribuindo de forma decisiva para a mobilidade tática das tropas aliadas em um ambiente hostil e desafiador.  Embora não tenham sido originalmente concebidos para atuar como ambulâncias, os Jeeps revelaram-se excepcionalmente adequados para a evacuação de soldados feridos em zonas de combate, graças a seu tamanho compacto, baixo perfil e notável capacidade de transpor terrenos acidentados.  A ampla disponibilidade de Jeeps nas frentes de combate contrastava fortemente com a escassez de ambulâncias militares dedicadas, como os modelos produzidos pela Dodge e pela International. Diante dessa realidade, o Jeep passou a ser empregado de forma improvisada no transporte de feridos, sobretudo nas fases iniciais do conflito. Em um primeiro momento, essas viaturas não recebiam modificações estruturais significativas: macas eram acomodadas sobre a seção traseira ou mesmo sobre o capô, fixadas de maneira precária, enquanto pacientes com ferimentos leves se posicionavam onde houvesse espaço disponível. Embora rudimentar, essa solução revelou-se essencial em situações de emergência, evidenciando a versatilidade do veículo e sua contribuição direta para a preservação de vidas em ambientes hostis. À medida que a guerra avançava, tanto no teatro europeu quanto no Pacífico, a experiência acumulada em campo levou ao desenvolvimento de adaptações progressivas, destinadas a melhorar a segurança e o mínimo de conforto no transporte de macas. No Pacífico, em particular, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) identificou rapidamente o potencial do Jeep como ambulância leve, capaz de operar em terrenos difíceis e de difícil acesso, onde veículos maiores enfrentavam severas limitações. Esse reconhecimento resultou na celebração de um contrato com a General Motors–Holden, em Melbourne, na Austrália, para a conversão de Jeeps em ambulâncias especificamente dedicadas a essa função. Conhecidos como “Holden Jeeps”, esses veículos representaram as primeiras versões produzidas em escala relativamente ampla com a finalidade exclusiva de evacuação médica. As modificações incluíam uma estrutura composta por tubos e perfis de ferro angular, destinada a sustentar um gabinete de lona, no interior do qual eram instalados suportes para duas macas, além de assentos traseiros para dois pacientes ambulatoriais. O acesso ao compartimento médico era facilitado por uma pequena porta localizada no lado esquerdo do painel traseiro, enquanto, no lado direito da carroceria, foi incorporado um compartimento específico para suprimentos médicos, estendendo-se até a área normalmente ocupada pelo passageiro dianteiro. O para-brisa passou a ser mantido em posição vertical, e a roda sobressalente foi transferida para o capô, soluções que visavam otimizar o espaço interno e melhorar a funcionalidade do conjunto. Após o término do conflito, os Jeeps adaptados como ambulâncias permaneceram em serviço ativo e continuaram a desempenhar um papel relevante durante a Guerra da Coreia (1950–1953).  O êxito dessas viaturas levou o comando do Exército dos Estados Unidos a solicitar à Willys-Overland Company o desenvolvimento de um modelo sucessor, concebido desde a origem para a função de evacuação médica. O resultado desse esforço foi o CJ-4MA-01, derivado da plataforma do M-38, porém dotado de maior distância entre eixos, de modo a atender de forma mais adequada às exigências do transporte de feridos. Produzido e adotado em larga escala, o CJ-4MA-01 substituiu progressivamente os veteranos Jeeps-ambulância. 

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente apreensão a possibilidade de uma expansão do conflito para o continente americano. A capitulação da França, em junho de 1940, alterou de forma profunda o equilíbrio estratégico global e ampliou os temores de Washington, uma vez que abriu à Alemanha Nazista a possibilidade de utilizar antigas possessões francesas como pontos de apoio avançados no Atlântico. Regiões como as Ilhas Canárias, Dacar e outras colônias africanas passaram a ser vistas como potenciais bases operacionais, capazes de sustentar ações militares que ameaçassem diretamente as Américas. Nesse novo contexto geopolítico, o Brasil assumiu posição central nas análises estratégicas norte-americanas. Sua proximidade geográfica com o continente africano  especialmente a partir do Nordeste brasileiro fazia do país um possível ponto de contato entre os dois lados do Atlântico, tornando-o vulnerável a uma eventual ofensiva do Eixo. Paralelamente, a expansão japonesa no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeu o acesso dos Aliados às tradicionais fontes de látex, transformando o Brasil no principal fornecedor dessa matéria-prima essencial à produção de borracha, insumo indispensável à indústria bélica e ao esforço de guerra aliado. Além do fator econômico, a posição geográfica do litoral brasileiro conferia-lhe elevada importância militar. O Nordeste, em particular, destacava-se como a região de menor distância entre os continentes americano e africano, com a cidade do Recife assumindo papel estratégico singular. A partir desse eixo, seria possível estabelecer bases aéreas, portos militares e corredores logísticos destinados ao trânsito de aeronaves, tropas e suprimentos com destino aos teatros de operações europeu e norte-africano, reforçando a capacidade de projeção de poder dos Aliados no Atlântico. Diante desse cenário, intensificou-se, em curto espaço de tempo, um movimento de aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa convergência resultou em investimentos estratégicos, acordos bilaterais e no fortalecimento da cooperação em defesa. Entre as iniciativas mais relevantes destacou-se a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar norte-americano conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), cujo objetivo central era apoiar países aliados por meio do fornecimento de equipamentos e recursos militares. Os termos desse acordo garantiram ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material bélico e à modernização das Forças Armadas Brasileiras. Por meio desse mecanismo, o país passou a ter acesso a armamentos modernos, aeronaves, veículos militares, carros de combate e outros meios essenciais para a defesa do território nacional. Esses recursos mostraram-se particularmente importantes diante da intensificação dos ataques de submarinos alemães no Atlântico Sul, que ameaçavam a navegação mercante e colocavam em risco o fluxo de matérias-primas estratégicas exportadas pelo Brasil aos Estados Unidos, fundamentais para a indústria de guerra norte-americana.

A participação brasileira no esforço aliado, inicialmente concentrada no fornecimento de recursos estratégicos e no apoio logístico, não tardaria a se ampliar. O então presidente Getúlio Vargas deixou claro que o Brasil não se limitaria ao papel de fornecedor e parceiro econômico, sinalizando a disposição do país em assumir uma postura mais ativa no conflito. Essa orientação política abriria caminho, nos anos seguintes, para o aprofundamento do comprometimento brasileiro com a causa aliada, culminando na decisão de empregar tropas nacionais em um teatro de operações de relevância internacional. No âmbito deste prorgama, o Brasil, a partir do final de 1941, começou a receber um expressivo volume de equipamentos bélicos provenientes dos Estados Unidos, abrangendo caminhões, veículos utilitários leves, aeronaves, embarcações e armamentos. O Exército Brasileiro foi o principal beneficiário desse aporte, que representou um marco significativo na modernização de suas capacidades operacionais. Os contratos inicialmente firmados entre os governos brasileiro e norte-americano, previam o fornecimento quase dois mil veículos utilitários leves com tração 4X4 do tipo "Jeep", com estes não atendendo a nenhum critério de padronização por fabricante ou modelo, não existindo registros oficiais por parte das forças armadas brasileiras sobre a quantidade de modelos recebidos que foram produzidos pela Ford Motors Company ou pela Willys Overland Company. Os primeiros veículos utilitários desta família começariam a ser recebidos no Brasil em lotes a partir de março 1942, e mesclavam veículos novos e usados, estes oriundos da frota pertencente ao Exército dos Estados Unidos (US Army), existindo relatos de alguns modelos raríssimos como alguns Willys MA (sem registro) poucos "Slatt Grill" (grade de grelha), e até uma unidade do modelo primordial Bantam BRC-40. Salientamos que a partir de registros fotográficos, nos permitem atestar que grande parte destes carros foram fabricados durante o ano de 1941, representado assim modelos da fase inicial de produção. Com este processo atendendo ao procedimento formal de cessão de equipamento militar a aliados, priorizaria-se assim a entrega de versões mais novas e aprimoradas para as forças armadas norte-americanas, com estas repassando seus veículos usados para exportação. O advento do recebimento destes carros e sua operação no Brasil, em muito contribuiria no processo de implantação do programa de motomecanização em larga escala no Exército Brasileiro, não só por sua versatilidade, mas também pela quantidade disponível. Pois neste momento a frota de veículos utilitários leves com tração integral deste porte, se resumia a poucos e antigos veículos do modelo Vidal & Sohn Tempo G-1200 de procedência alemã que foram recebidos em 1938, porém disponíveis em um número insuficiente para se dotar sequer uma unidade operacional completa. Uma pequena parcela destes novos utilitários norte-americanos seria ainda cedida a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Marinha do Brasil para o emprego em missões administrativas, transporte de pilotos ou de remoção médica.
Em 13 de agosto de 1943, em meio ao aprofundamento do engajamento brasileiro no esforço de guerra aliado, foi oficialmente criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Concebida como uma grande unidade expedicionária, a força reuniu aproximadamente 25.000 militares e foi estruturada segundo os padrões organizacionais e doutrinários do Exército dos Estados Unidos, que privilegiavam elevada mobilidade, flexibilidade logística e integração entre armas e serviços. Essa conformação refletia não apenas as exigências do teatro de operações europeu, mas também a necessidade de adaptar rapidamente tropas brasileiras a um modelo de guerra industrial e mecanizada. A composição evidenciava essa preocupação com a autonomia e a eficiência operacional. A força incluía quatro grupos de artilharia  três equipados com obuses de 105 mm e um com peças de 155 mm , além de uma esquadrilha da Força Aérea Brasileira (FAB) destinada a missões de ligação e observação. Completavam sua estrutura um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento, uma companhia de comunicações, um destacamento de saúde, uma companhia de manutenção, uma companhia de intendência, um pelotão de sepultamento, um pelotão de polícia militar e, de forma simbólica e tradicional, uma banda de música.  Para atender às rigorosas exigências de mobilidade impostas pelo teatro de operações italiano, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi dotada de uma frota considerável de veículos militares, entre os quais se destacavam cerca de 660 viaturas utilitárias leves com tração integral 4x4, popularmente conhecidas como Jeeps. Uma parcela significativa desses veículos, tanto leves quanto médios, já possuía um histórico operacional intenso, tendo participado de campanhas anteriores na Sicília e no Norte da África. A transferência de equipamentos usados ao Brasil, frequentemente em estado de conservação limitado, refletia a estratégia logística dos Estados Unidos, que concentravam seus recursos mais modernos e recém-fabricados na preparação da Operação Overlord, a grande invasão aliada da França, realizada em junho de 1944 e consagrada na história como o “Dia D”. Apesar das limitações decorrentes do desgaste acumulado, os Jeeps revelaram notável robustez e versatilidade, desempenhando funções essenciais nas operações da FEB ao longo da campanha italiana. Sua simplicidade mecânica, aliada à capacidade de transpor terrenos íngremes, enlameados ou destruídos pelos combates, fez dessas viaturas um elemento indispensável tanto no apoio logístico quanto nas ações de combate e de socorro. No âmbito do Serviço de Saúde da Força Expedicionária Brasileira, estruturado em um Batalhão de Saúde e um Destacamento de Saúde, parte dessa frota foi destinada a missões críticas de evacuação de feridos. Essas operações obedeciam a uma sistemática bem definida de socorro, evacuação, triagem e hospitalização, iniciada ainda na linha de frente. Nesse contexto, a mobilidade assumia papel central, envolvendo desde o trabalho dos padioleiros no campo de batalha até o emprego de viaturas capazes de transportar rapidamente os feridos aos Postos de Saúde (PS). Nos Postos de Saúde realizava-se a triagem dos combatentes atingidos, a estabilização inicial dos feridos graves, o tratamento de lesões leves que permitissem o pronto retorno ao combate e a adoção de medidas de caráter preventivo, fundamentais para a manutenção do efetivo. Em consonância com a doutrina operacional norte-americana então vigente, ao Exército Brasileiro  empregava dois tipos principais de viaturas nessas missões.

Os Jeeps Willys MB adaptados como ambulâncias de campanha, conhecidos como “Holden Jeeps”, eram utilizados na evacuação inicial, transportando os feridos diretamente da linha de frente até os Postos de Saúde. Sua leveza e agilidade permitiam operar com eficiência em terrenos difíceis e sob condições adversas. Para os casos que demandavam evacuação em maior profundidade, até os Postos de Atendimento Avançados (PAAs), operados pelas Companhias de Saúde Avançadas do Batalhão de Saúde (2º Escalão), eram empregadas as ambulâncias especializadas Dodge WC-54. Essas viaturas, de maior porte, ofereciam melhores condições de conforto e assistência durante o deslocamento, assegurando cuidados médicos mais completos aos feridos em trânsito. Dessa forma, a integração entre Jeeps e ambulâncias dedicadas constituiu um elemento fundamental do sistema de evacuação médica da Força Expedicionária Brasileira (FEB), contribuindo decisivamente para a eficiência do atendimento aos combatentes brasileiros durante a campanha da Itália. Ainda que essenciais, os utilitários leves fornecidos ao Exército Brasileiro para emprego pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) mostraram-se, de modo geral, insuficientes para atender plenamente às exigências de mobilidade da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE). Essa limitação também se fez sentir de maneira particularmente sensível no âmbito do Serviço de Saúde, uma vez que o número de jipes Willys MB adaptados como ambulâncias do tipo “Holden Jeeps” era extremamente reduzido: apenas nove unidades desses veículos especializados foram efetivamente recebidas. Após o batismo de fogo das tropas brasileiras em solo italiano, tornou-se evidente a necessidade de ampliar a disponibilidade de viaturas destinadas à evacuação médica, tanto junto ao Serviço de Saúde quanto aos seus Batalhões de Saúde. Diante da impossibilidade de receber reforços imediatos, a solução encontrada foi a improvisação, prática recorrente em cenários de guerra. Estima-se que pelo menos trinta jipes Willys MB, fabricados em 1942, tenham sido adaptados localmente para o cumprimento de missões de remoção de feridos. Essas adaptações variavam conforme os recursos disponíveis e a urgência da situação. Na configuração mais simples, sem alterações estruturais profundas na carroceria, procedia-se à instalação de uma padiola disposta transversalmente na parte traseira da viatura, com os punhos apoiados diretamente nas laterais do veículo. Em versões mais elaboradas, eram instalados suportes específicos para a padiola na carroceria, permitindo que seus punhos se apoiassem na padiola anterior e no para-brisa rebatido, proporcionando maior estabilidade durante o transporte. Uma vez adaptados para essa função, esses jipes passaram a ostentar as marcações da cruz vermelha em suas carrocerias, seguindo o padrão adotado pelas demais viaturas especializadas em evacuação e primeiros socorros ao longo de toda a Campanha da Itália. Paralelamente, no Brasil, os jipes dos modelos Ford GPW e Willys MB consolidavam-se como a espinha dorsal da frota motomecanizada do Exército Brasileiro, sendo distribuídos por unidades militares em todo o território nacional. Além disso, esses veículos passaram a equipar instalações da Força Aérea Brasileira e da Marinha do Brasil, evidenciando sua versatilidade e importância estratégica no pós-guerra imediato. Há registros não oficiais indicando que ao menos cinco jipes do tipo ambulância Willys MB “Holden Jeeps” teriam sido recebidos no país entre 1944 e 1945, permanecendo em serviço junto a unidades de infantaria sediadas no estado do Rio de Janeiro.
Com o encerramento das hostilidades na Europa, em maio de 1945, os jipes remanescentes da Força Expedicionária Brasileira, assim como os demais veículos, armas e equipamentos cedidos pelos Estados Unidos, foram entregues ao Comando de Material do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), na cidade de Roma. Nessa unidade, os veículos que se encontravam em melhores condições de conservação foram selecionados, armazenados e, posteriormente, remetidos ao Brasil por via marítima.  Ao chegarem ao Brasil, os Jeeps provenientes do teatro de operações europeu foram incorporados à frota de utilitários leves que já se encontrava em serviço no país desde 1942. Distribuídos entre as unidades operacionais do Exército Brasileiro, esses veículos passaram a desempenhar papel relevante no fortalecimento da capacidade logística e tática das Forças Armadas, contribuindo para a mobilidade, o transporte de pessoal e a sustentação das atividades operacionais em um período de reorganização do pós-guerra. A partir da segunda metade da década de 1950, o Brasil voltou a receber novos lotes de Jeeps classificados como “material excedente de guerra” (War Surplus), oriundos do Exército dos Estados Unidos no âmbito do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP). Essas remessas representaram um reforço significativo para o Exército Brasileiro, permitindo não apenas a ampliação da frota disponível, mas também a substituição gradual de viaturas mais antigas e desgastadas. Como resultado, observou-se uma maior padronização dos modelos em uso, o que simplificou os processos de manutenção, racionalizou o emprego de peças de reposição e elevou a eficiência operacional das unidades. Nesse mesmo contexto, registros indicam a incorporação de ao menos oito exemplares do Jeep Willys MB “Holden Jeeps”, configurados como ambulâncias de campanha. Projetados para a evacuação médica em condições adversas, esses veículos reforçaram o Serviço de Saúde do Exército Brasileiro, destacando-se por sua versatilidade e pela capacidade de operar em terrenos difíceis, onde outros meios de transporte apresentavam limitações. Na década de 1960, teve início um novo ciclo de modernização, marcado pela incorporação dos primeiros Jeeps militarizados produzidos em território nacional, como os modelos Willys-Overland e Ford CJ-2, CJ-5 e CJ-6. Paralelamente, o Brasil também recebeu viaturas usadas do modelo Willys M-38A1, que passaram a complementar a frota existente. A partir de 1962, começaram a entrar em serviço as primeiras ambulâncias militares desenvolvidas com base em veículos fabricados no país, a exemplo dos Ford Willys-Overland Rural F-75 e F-85, concebidos para atender de forma mais adequada às demandas do Serviço de Saúde. A produção em larga escala desses utilitários nacionais marcou o início de um processo gradual de desativação dos Jeeps recebidos nas décadas de 1940 e 1950, incluindo os emblemáticos Willys MB e Ford GPW, que haviam sido fundamentais durante a Segunda Guerra Mundial e no período imediatamente posterior. No que se refere especificamente aos 32 Jeeps Willys MB “Holden Jeeps” que estiveram em serviço no Exército Brasileiro, não há registros oficiais que esclareçam seu destino final. É plausível supor que, à medida que a frota foi modernizada e padronizada com veículos nacionais, essas viaturas tenham sido progressivamente retiradas de operação.

Em Escala.
Para representarmos o Willys MB "Holden Jeep" ambulância pertencente ao Serviço de Saúde da Força Expedicionária Brasileira (FEB), empregado na campanha da Itália durante a Segunda Guerra Mundial, fizemos uso do kit produzido pela Italeri na escala 1/35. Modelo este de baixo detalhamento e qualidade relativa de injeção. Fizemos uso de decais produzidos pela Decals e Books, presentes no livro "FEB na Segunda Guerra Mundial" de Luciano Barbosa Monteiro, em conjunto com decais originais do modelo. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado pelo Exército dos Estados Unidos em todos os seus veículos empregados durante a Segunda Guerra Mundial no teatro de operações da Europa, com estes Willys MB "Holden Jeep" recebendo apenas as marcações e seriais do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira. Alguns deste manteriam durante o conflito os números seriais norte-americanos ostentando o escudo do Cruzeiro do Sul. Em seu retorno ao Brasil os veículos mantiveram este padrão de pintura até sua desativação. 

Bibliografia : 
- Jeep Ford & Willys  https://en.wikipedia.org/wiki/Willys_MB
- Jeeps no Exército Brasileiro - https://jplopes.tripod.com/exbrz.htm
- FEB na segunda Guerra Mundial - Luciano Barbosa de Monteiro
- Leand & Lease Act  - Revista Tecnologia e Defesa - Edição 133.
- Serviço de Saúde na Segunda Guerra Mundial 1º Ten Al Jardel da Silva Pires e 1º Ten Al João Gabriel Mendes Morais

P-40N Curtiss Warhawk

História e Desenvolvimento.
A trajetória da Curtiss Airplane and Motor Company está profundamente ligada aos primórdios da aviação. Nesse cenário emergiu a figura de Glenn Hammond Curtiss, fundador da  companhia que se dedicariaà fabricação de aeronaves e motores aeronáuticos, destacando-se especialmente no desenvolvimento de hidroaviões e aeronaves de treinamento. Curtiss tornou-se amplamente reconhecido como o “pai dos hidroaviões”, título conquistado graças às importantes inovações que introduziu na aviação naval. Entre essas realizações destaca-se o NC-4, integrante de uma série de grandes hidroaviões projetados para operações de longo alcance. Em 1919, o NC-4 protagonizou um feito histórico ao realizar a primeira travessia aérea transatlântica com escalas, ligando Newfoundland, no Canadá, aos Açores e  Lisboa. A missão demonstrou o potencial estratégico das aeronaves de grande autonomia e consolidou a reputação da Curtiss como uma das principais forças da indústria aeronáutica emergente Com a entrada dos Estados Unidos no conflito, a Curtiss tornou-se a principal fornecedora de aeronaves de treinamento. Nesse contexto destacou-se o célebre  JN-4 Jenny, um biplano de dois lugares introduzido em 1915 que se tornaria uma das aeronaves mais emblemáticas da fase inicial da aviação militar. Equipado com o confiável  OX-5, de aproximadamente 90 cv potência, o Jenny caracterizava-se por sua robustez estrutural e facilidade de pilotagem, qualidades essenciais para a formação de pilotos em larga escala. Mais de 6.000 exemplares foram produzidos durante a guerra, treinando milhares de aviadores dos Estados Unidos e do Canadá. Após o conflito, muitas dessas aeronaves foram vendidas como excedentes militares, desempenhando papel fundamental na popularização da aviação civil na década de 1920. Paralelamente, a empresa desenvolveu importantes hidroaviões militares, como o  H-12 e  H-16, utilizados em missões de patrulha marítima e combate antissubmarino tanto pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) quanto pelo Serviço Aéreo Real (RNAS) Essas aeronaves desempenharam papel relevante na vigilância contra a força submarina alemã. Na década de 1920, já consolidada como uma das principais empresas aeronáuticas do mundo, a Curtiss ampliou significativamente seu escopo industrial. A companhia passou a investir de maneira intensiva em pesquisa e desenvolvimento, produzindo tanto aeronaves civis quanto militares, além de avançados motores aeronáuticos. Entre os projetos mais importantes desse período destacou-se o caça P-1 Hawk, introduzido em 1925 para o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Esta aeronave incorporava avanços significativos, incluindo maior uso de estruturas metálicas e motores mais potentes, características que anunciavam a transição para uma nova geração de caças. No campo da propulsão aeronáutica, a empresa também obteve grande destaque com o desenvolvimento do D-12, um V-12 refrigerado a líquido que se revelou notavelmente eficiente e aerodinamicamente vantajoso em comparação aos motores radiais predominantes da época. O desempenho desse motor foi amplamente demonstrado em competições internacionais, particularmente quando o hidroavião de corrida  R3C, pilotado pelo então tenente Jimmy Doolittle, conquistou a vitória na Schneider Trophy de 1925. 

Em 1929, a empresa fundiu-se com a Wright Aeronautical, resultando na criação da Curtiss-Wright Corporation, com esta sendo herdeira direta do legado técnico dos pioneiros Orville Wright e Wilbur Wright. Nas décadas seguintes, a empresa consolidou-se como uma das principais forças da indústria aeronáutica norte-americana. Um exemplo emblemático dessa trajetória pode ser observado no desenvolvimento do Model 75, um moderno caça monomotor monoplano . O projeto surgiu no contexto de um ousado programa de planejamento estratégico da empresa, cujo objetivo era antecipar futuras necessidades operacionais dos militares. O primeiro protótipo foi concluído em maio de 1934 e incorporava soluções estruturais consideradas avançadas para a época. A aeronave apresentava construção predominantemente metálica, mantendo superfícies de controle revestidas em tecido, prática ainda comum na transição tecnológica daquele período. O conjunto propulsor escolhido foi o motor radial Wright XR-1670, capaz de desenvolver aproximadamente 900 hp.  No que se refere ao armamento, o protótipo estava equipado com duas metralhadoras de calibre 7,62 mm instaladas nas asas, complementadas por uma metralhadora de calibre 12,7 mm sincronizada para disparar através do arco da hélice. Como era característico de muitos caças do início da década de 1930, o projeto inicial ainda não incorporava blindagem para o piloto nem tanques de combustível auto-vedantes  recursos que se tornariam padrão apenas alguns anos mais tarde, diante da experiência adquirida em conflitos reais. O primeiro voo do protótipo ocorreu em 6 de maio de 1935. Durante os ensaios iniciais, a aeronave demonstrou desempenho promissor, alcançando cerca de 452 km/h a 10.000 pés (aproximadamente 3.000 metros). Embora apresentasse limitações em altitudes elevadas decorrentes da ausência de um sistema de turbocompressor  o projeto impressionou os avaliadores militares. Como resultado, em 1937 foi firmado um contrato para a produção de 210 exemplares da aeronave, agora oficialmente designada  P-36 Hawk. As primeiras unidades de série foram entregues em abril de 1938 ao 20th Pursuit Group, baseado em Barksdale Field, no estado da Louisiana. Ali iniciou-se o processo de conversão operacional de pilotos e a formação de quadros instrutores responsáveis por difundir o emprego da nova aeronave nas unidades de caça do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Entretanto, a rápida evolução do cenário internacional alteraria significativamente os parâmetros de desempenho exigidos para aeronaves de combate. Os intensos combates aéreos decorrentes da Segunda Guerra Sino-Japonesa, iniciada em 7 de julho de 1937, bem como a eclosão da Segunda Guerra Mundial na Europa em setembro de 1939, demonstraram que os caças de nova geração precisariam apresentar maior velocidade, melhor armamento e maior capacidade de sobrevivência em combate. A experiência obtida nos primeiros combates da época demonstrava que os novos caças deveriam apresentar velocidades mais elevadas, maior razão de subida, armamento mais pesado e melhor capacidade de sobrevivência em combate. 
Exemplos dessa nova geração eram o alemão Bf 109 e o japonês A6M Zero, aeronaves que rapidamente se destacaram por sua elevada performance e eficácia operacional. Diante desse cenário, tornava-se cada vez mais evidente, que o então moderno  P-36 Hawk dificilmente conseguiria competir em igualdade de condições.  Com o objetivo de superar essa deficiência,  buscou-se explorar ao máximo o potencial de desenvolvimento de seu projeto existente. A estratégia adotada consistia em aproveitar a célula básica do P-36  já comprovada estruturalmente como ponto de partida para uma nova aeronave dotada de maior potência e melhor desempenho, reduzindo assim os custos e o tempo de desenvolvimento. A solução proposta consistia na adoção de um motor em linha refrigerado a líquido desenvolvido pela Allison , especificamente o Allison V-1710, um moderno motor de doze cilindros em “V” que prometia maior potência e melhor desempenho aerodinâmico quando comparado aos motores radiais então utilizados. O projeto resultante recebeu a designação militar  XP-37. O programa avançou a ponto de se  firmar um contrato para a produção de 13 aeronaves de pré-série destinadas à avaliação operacional. No entanto, após sua entrega, os protótipos revelaram uma série de problemas técnicos significativos. As dificuldades estavam concentradas principalmente no grupo motopropulsor e em seus sistemas auxiliares, comprometendo a confiabilidade e o desempenho da aeronave. Em razão dessas limitações, o programa acabou sendo cancelado antes que pudesse atingir maturidade operacional. Determinada a encontrar uma solução viável, a Curtiss-Wright decidiu seguir uma abordagem mais conservadora. Mantendo a célula básica derivada do P-36, os engenheiros desenvolveram um novo projeto que abandonava as soluções mais complexas testadas no XP-37 e incorporava uma instalação mais eficiente do motor Allison V-1710, capaz de desenvolver aproximadamente 1.150 hp. Esse novo caça recebeu a designação  XP-40. O primeiro protótipo realizou seu voo inaugural em 14 de outubro de 1938, sendo pilotado pelo experiente piloto de testes da companhia, Edward Elliott. Apesar das expectativas depositadas no novo projeto, os resultados iniciais do programa de ensaios em voo foram decepcionantes.  Diversas modificações foram implementadas com o objetivo de melhorar o desempenho geral da aeronave, incluindo refinamentos aerodinâmicos, alterações no sistema de admissão do motor e melhorias estruturais destinadas a reduzir o arrasto e aumentar a eficiência em voo. Apesar desses esforços, persistia entre os avaliadores a percepção de que a nova aeronave continuava aquém do desempenho demonstrado pelos caças mais avançados então em serviço em outras forças aéreas.  Mesmo compreendendo as limitações o comando militar se viu premido pela urgente necessidade de se reaparelhar sua arma aérea, levando este cenário a influenciar profundamente a decisão de aquisição desta nova aeronave.  Desta maneira em 26 de abril de 1939, seria assinado o primeiro contrato para a produção de exemplares da versão Curtiss P-40B, com este modelo sendo popularmente chamado de "Tomahawk". As primeiras aeronaves de série começariam a ser entregues aos grupos de caça norte-americanos a partir de abril de 1940.  

Seu batismo de fogo ocorreria no final de 1941, junto a Força Aérea da República da China (ROCAF), quando caças pertencentes à esquadrilha "Tigres Voadores", pilotados por voluntários norte-americanos entrariam em combate pela primeira vez contra aeronaves japonesas. A Força Aérea Real (RAF) em 1940, se tornaria o segundo operador internacional desta família de aeronaves, com o governo britânico se valendo dos termos programa Leand & Lease Bill Act, procedendo a encomenda de centenas de células das versões P-40B  Tomahawk IIA e P-40C Tomahawk IIB. Seu batismo de fogo junto aos britânicos ocorreria a partir de agosto de 1942, quando empregados nas operações aérea na África do Norte, neste campo e batalha os embates se dariam a média altura ou missões de ataque a solo.  No intuito de sanar esta deficiência, a partir de 1941 seriam desenvolvidas as  versões P-40D e P-40E, que passavam a contar com motores mais potentes, turbo compressores, armamento orgânico renovado e blindagem reforçada.  Destas variantes iniciais, seriam produzidas mais 1.500 células, que, seriam extensamente empregadas no início da campanha do Pacífico, atuando em conjunto com os P-39 Airacobra e  os F-4F Wildcat, contribuindo  para suportar a pressão japonesa durante o período crítico inicial do conflito. Já em serviço no Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) os  P-40E  seriam operados por um total de 15 grupos de caça entre os anos de 1941 e 1945 e por algumas unidades de reconhecimento tático. Neste período, novas versões seriam desenvolvidas,  incorporando sensíveis melhorias no projeto, porém a curva de aprendizado seria finalmente materializada no modelo  P-40K, marcando a introdução de um motor mais potente. O grupo propulsor produzido pela Allison  no modelo V-1710-73 (F4R) V-12 refrigerado a líquido com entregava uma potência de 1.325 hp para a decolagem e 1.150 hp de potência a 11.800 pés de altura, com este motor possuindo controle de impulso automático tornando o mais eficiente operacionalmente, quando comparado aos modelos anteriores. O primeiro modelo desta nova versão deixaria a linha de produção em agosto de 1942, pertencendo inicialmente a uma encomenda de 1.300 células. Já os P-40K-1-CU e P-40K-5-CU, se assemelhavam visualmente aos últimos lotes de produção de P-40E, exceto pela dotação do motor mais potente, neste contexto o P-40K-5 passava a ser dotado com um sistema de refrigeração válvula rotativa. Estas novas aeronaves apesar de apresentar maior potência e desempenho manteriam a fuselagem curta do P-40E, fator este que acarretaria problemas de estabilidade em altas velocidades, falha esta que seria resolvida somente nas versões posteriores. A solução seria apresentada no verão do ano de 1943, com o lançamento  do P-40N (87V - 87W), passando esta aeronave a dispor de uma nova fuselagem estendida, atendendo então a resolução dos problemas de estabilidade em voo durante o emprego da velocidade máxima da aeronave. Este modelo contemplava ainda a adoção de radiadores e resfriadores em alumínio e outras alterações de projeto que obtiveram uma sensível redução do peso da aeronave, proporcionando assim uma melhora na velocidade final, se tornando a versão mais rápida desta família. Já a versão P-40N-5CU introduziria uma nova carlinga sem moldura no intuito de melhorar a visibilidade do piloto no ângulo traseiro, sendo esta alteração mantida em todas as subversões subsequentes. 
Outro fato interessante seria seu aumento na capacidade de transporte de carga útil, passando de 485 kg útil, para 680 kg neste modelo.  Equipado com um motor Allison mais potente e modificações estruturais, como uma cauda reforçada, o P-40K era mais adequado para operar em altitudes médias e em papéis como escolta, interceptação e ataque ao solo. O principal cenário do batismo de fogo do P-40K ocorreu no teatro China-Birmânia-Índia, onde o 23º Grupo de Caça, baseado na China, enfrentou as forças aéreas japonesas a partir de meados de 1942. Após a dissolução do AVG em julho de 1942, o 23º Grupo assumiu muitos dos pilotos e P-40s dos Tigres Voadores, incluindo as novas células do P-40K. Essas aeronaves, frequentemente decoradas com a icônica pintura de “boca de tubarão” herdada do AVG, operavam a partir de bases precárias na China, como Kunming, sob condições logísticas desafiadoras. No entanto, ele ainda enfrentava limitações em comparação com caças inimigos mais ágeis, como o Mitsubishi AM6 Zero , especialmente em combates aéreos de manobra (dogfights). O primeiro combate significativo envolvendo o P-40K no CBI ocorreu em agosto de 1942, durante missões de defesa aérea contra bombardeiros japoneses e seus caças de escolta. Um exemplo notável envolveu o 75º Esquadrão de Caça, que operava P-40Ks em missões de interceptação contra formações de bombardeiros Mitsubishi G4M e caças Nakajima Ki-43 “Oscar”. A produção do P-40M começou em novembro de 1942, com um total de aproximadamente 600 unidades fabricadas, divididas em subvariantes como P-40M-1, M-5 e M-10, cada uma incorporando refinamentos como filtros de ar aprimorados e sistemas de combustível revisados. O modelo foi concebido como uma variante de exportação, mas devido à urgência das operações de guerra e à disponibilidade limitada de outros caças, várias células foram retidas ou reallocadas para unidades norte-americanas. O P-40M foi usado principalmente em teatros onde a robustez e a versatilidade eram essenciais, como o China-Birmânia-Índia (CBI) e o Mediterrâneo (MTO). Sua capacidade de operar em pistas rudimentares e resistir a danos o tornava ideal para missões de escolta, interceptação e apoio ao solo, embora não fosse o caça ideal para superioridade aérea pura. Além da Grã-Bretanha e China Nacionalista, os caças Curtiss P-40 Warhawk seriam cedidos nos termos do programa de ajuda militar Leand & Lease Act Bill (Lei de Arrendamentos e Empréstimos), a mais nações aliadas durante o conflito, como Austrália, Canada, Nova Zelândia, União Soviética e Brasil. O modelo passaria a ser substituído no Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) nas unidades de caça a partir do ano de 1944 pelos novos North American P-51 Mustang e Republic P-47 Thunderbolt. Ao todo entre os anos de 1939 e 1944, seriam produzidas um total de 13.739 células, divididas em doze versões distintas. Após o término do conflito estas aeronaves se manteriam em uso pelas forças aéreas do Egito, Brasil, Finlândia, França, Indonésia, Polônia, Holanda, África do Sul e Turquia, operando pelo menos até a segunda metade da década de 1950.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de uma invasão do continente americano pelas potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão. A capitulação da França em junho de 1940 intensificou esses temores, especialmente diante da possibilidade de que a Alemanha nazista estabelecesse bases operacionais em territórios coloniais franceses, como as Ilhas Canárias e Dacar (atual Senegal). Nesse cenário, o Brasil emergiu como um ponto estratégico vulnerável devido à sua proximidade geográfica com o continente africano, que, após a campanha alemã no Norte da África iniciada em 1940, figurava nos planos expansionistas do Terceiro Reich. Além disso, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, incluindo a ocupação da Indochina em 1940 e das Filipinas em 1942, transformaram o Brasil no principal fornecedor de látex para os Aliados, uma matéria-prima essencial para a produção de borracha, utilizada em pneus, vedações e outros componentes críticos para a indústria bélica. A costa nordeste brasileira,  adquiriu relevância estratégica por ser o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano, facilitando o translado aéreo de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para os teatros de operações na Europa e no Norte da África, como a Operação Tocha de novembro de 1942.  Diante dessas ameaças, o governo brasileiro, liderado pelo presidente Getúlio Vargas, intensificou a aproximação política e econômica com os Estados Unidos, resultando em uma série de acordos estratégicos. Um dos mais significativos foi a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar Lend-Lease Act (Lei de Arrendamento e Empréstimo), promulgado pelo Congresso americano em março de 1941. Esse programa destinou ao Brasil uma linha de crédito inicial de US$ 100 milhões (equivalente a cerca de US$ 2 bilhões em valores ajustados para 2025), voltada para a aquisição de armamentos modernos, incluindo aeronaves, veículos blindados, carros de combate e navios. O objetivo principal era modernizar as Forças Armadas Brasileiras, que, na época, enfrentavam obsolescência em equipamentos, armamentos e doutrina operacional militar. Estes recursos foram essenciais para capacitar o Brasil a enfrentar as ameaças representadas pelos submarinos alemães (U-boats) da Kriegsmarine e italianos da Regia Marina, que intensificaram ataques contra a navegação civil e militar ao longo do extenso litoral brasileiro. Entre 1942 e 1943, cerca de 20 navios mercantes brasileiros foram afundados, impactando o transporte de matérias-primas cruciais para os Estados Unidos. A modernização naval e aérea, impulsionada pelo programa, permitiu ao Brasil desempenhar um papel ativo na defesa do Atlântico Sul e na proteção das rotas marítimas aliadas. Neste período a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), estabelecida em 20 de janeiro de 1941, enfrentava desafios significativos devido à obsolescência de sua frota. Composta por aeronaves ultrapassadas, a Aeronáutica carecia de equipamentos modernos, incluindo aviões de treinamento básico e avançado, essenciais para formar pilotos militares em quantidade e qualidade suficientes para atender às demandas de um conflito global. 

Um ambicioso programa de reequipamento foi implementado com o objetivo de fortalecer a defesa territorial do país, tanto em seu vasto território continental quanto em suas áreas ultramarinas. Esse esforço buscava garantir uma resposta eficaz às crescentes ameaças do conflito, que já se espalhava pela Europa e pelo Pacífico, exigindo do Brasil uma postura de prontidão para proteger seus interesses estratégicos. Nesse contexto inicial de envolvimento brasileiro na guerra, as aeronaves militares da recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), estabelecida oficialmente em 20 de janeiro de 1941, desempenhavam um papel essencial, mas ainda limitado. As missões se concentravam em voos de presença e patrulha ao longo do extenso litoral brasileiro, muitas vezes realizadas por monomotores como o North American AT-6B Texan e o Vought V-65B Corsair. Contudo, a aviação de caça da Aeronáutica enfrentava sérias limitações, operando com aeronaves como os Boeing F-4B e P-12, que, além de disponíveis em quantidades reduzidas, eram completamente obsoletos frente aos padrões tecnológicos da época. Essa defasagem colocava a Força Aérea Brasileira (FAB) em desvantagem significativa, tornando a modernização de sua frota uma prioridade inadiável. O programa de reequipamento foi planejado em fases, considerando as demandas emergenciais dos fronts europeu e pacífico, que absorviam grande parte da produção aeronáutica dos Estados Unidos e seus aliados. A primeira etapa priorizou a entrega de aeronaves de treinamento e conversão, fundamentais para a formação de um quadro de pilotos capacitados a atender às exigências operacionais de um conflito moderno. Em seguida, a aviação de patrulha marítima foi fortalecida, com o objetivo de proporcionar cobertura aérea aos comboios militares e civis que navegavam pelas costas brasileiras, vulneráveis a ataques de submarinos inimigos, como os U-boats alemães que operavam no Atlântico Sul. Essa abordagem escalonada, no entanto, postergava a aquisição de caças modernos diretamente das linhas de produção. A introdução de aeronaves de combate de ponta só se concretizaria mais tarde, com a entrega dos caças-bombardeiros P-47D Thunderbolt, que equipariam o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa). Essas aeronaves desempenhariam um papel crucial nos céus da Itália, onde o Brasil se destacou como o único país sul-americano a enviar forças de combate ao teatro europeu da Segunda Guerra Mundial. Enquanto a chegada de caças novos de fábrica era aguardada, a Força Aérea Brasileira (FAB) recebeu, em 8 de março de 1942, um lote inicial de dez células do P-36A Mohawk, provenientes de unidades de reserva ou treinamento do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Apesar de serem consideradas modernas para os padrões brasileiros da época, essas aeronaves foram classificadas como “restritas para voo”, o que limitava severamente seu uso em operações de combate devido a questões de manutenção e desempenho.
Um marco significativo no processo de modernização ocorreu em abril de 1942, com a entrega de seis células novas de fábrica do Curtiss P-40E-1-CU Warhawk. Originalmente destinadas à Força Aérea Real (RAF) britânica, essas aeronaves foram redirecionadas para atender às necessidades urgentes da Força Aérea Brasileira (FAB). As células chegaram ao Brasil ostentando o padrão de camuflagem britânico, incluindo a icônica pintura “Shark Mouth” (boca de tubarão) na fuselagem, um detalhe que conferia um caráter distintivo e intimidador. Com matrículas originais ET-742, ET-778, ET-779, ET-780, ET-782 e ET-785, elas foram redesignadas no Brasil, inicialmente como “FAB 01 a 05” e, posteriormente, como “FAB 4020 a 4025”.  Estas aeronaves seriam destinadas a Base Aérea de Fortaleza, onde foram incorporadas ao Agrupamento de Aeronaves de Adaptação (AAA), unidade esta que fora criada em 4 de fevereiro de 1942, tendo com sua principal missão a adaptação dos militares brasileiros as aeronaves norte-americanas. Sob a tutela de instrutores do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), seriam ministrados cursos nessas e em outras aeronaves pertencentes à dotação, para assim atualizar o conhecimento técnico do pessoal brasileiro, auferindo-lhe melhor instrução sobre procedimentos e táticas de emprego que estavam sendo utilizados nos combates aéreos sobre a Europa e o Pacífico. Em novembro deste mesmo ano, um segundo lote de aeronaves de caça seria transferido a Força Aérea Brasileira, composto por dez células do modelo Curtiss P-40K-10CU, e logo em seguida um terceiro lote com dezessete unidades da variante Curtiss P-40K-15CU e por fim dez aeronaves do modelo Curtiss P-40M-5-CU. Todos estes voos de translado seriam feitos por pilotos especializados no transporte de aeronaves da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) pertencentes ao 5º Grupo de Transporte (Ferry Group), com este processo sendo feito em esquadrilhas de quatro aeronaves.  Como se tratava de um deslocamento de longa distância para aparelhos monomotores, esta missão não seria livre de percalços, registrando neste processo a perda de quatro aeronaves Curtiss P-40K Warhawk em infelizes acidentes no transcurso. Ao chegarem no Brasil, os primeiros Curtiss P-40K-10CU começariam a ser designados a 2 ª Esquadrilha do Grupo Monoposto Monomotor (2º EsqGMM) baseado em Natal- RN e ao 2 º Grupo Monoposto Monomotor (2º GMM) com base na cidade de Recife – PE. Mesmo não dispondo de armamento adequado para combate contra submarinos, a presença de caças monomotores como os Curtiss P-40E Warhawk, já era suficiente para inibir as atividades dos submarinos alemães e italianos em missões de torpedeamento no litoral brasileiro, pois estes submersíveis não possuíam meios para diferenciar distintos tipos de aeronaves a grandes distancias e altitudes. 

O agravamento do estado beligerante provocado pelo evoluir de torpedeamentos de navios mercantes brasileiros, levaria a urgência de realização de um grande número de surtidas de patrulha fazendo uso de todos os meios disponíveis no Grupo Monoposto Monomotor (GMM). Assim tão logo os novos pilotos fossem declarados como "habilitados" naquelas aeronaves, já passavam a ser escalados para a participação em longas e tediantes missões de patrulha nas regiões litorâneas do nordeste brasileiro. No entanto periodicamente, estes pilotos também exercitavam suas habilidades de tiro ar-terra no estande de exercício militar adjacente ao campo de pouso de Jardim de Angicos no estado do Rio Grade do Norte.  Este intenso emprego em missões de treinamento e patrulha cobrariam seu preço, registrando a perda de oito aeronaves em um período de apenas dezessete semanas. Em outubro do ano de 1944 seriam recebidas mais duas células, agora dispostas na versão Curtiss P-40K-1-CU, com estes aviões classificados pelos militares norte-americanos como "War-Weary" (cansadas de guerra), com restrições de voo, sendo então destinadas a Escola Técnica de Aviação (ETaV) no município de São Paulo - SP, a fim de serem empregadas como aeronaves de instrução em solo naquela instituição. Em 17 de agosto de 1944, seria extinto o Grupo Monoposto Monomotor (GMM), e em seu lugar, foi criado o 2º Grupo de Caça (2ºGpCa), esta nova unidade passaria a concentrar todos os caças P-40 Warhawk, na cidade da Natal - RN, sendo também o primeiro grupo a receber os novos  P-40N. Porém sua atuação nesta localidade seria temporária, pois apenas um mês depois, o comando do Ministério da Aeronáutica (MAer) decidiria pela transferência de toda a unidade, considerado parcialmente material, aeronaves e efetivo para a Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro - RJ. Em seu lugar seria criado o 1º Grupo Misto de Aviação (1ºGMA) organizado com esquadrilhas de caças equipados com os Curtiss  P-40E, P-40K, P-40M e P-40N Warhawk  e bombardeiros, estes equipados com os bimotores  B-25B e B-25J Mitchel.  Porém novamente esta organização apresentaria uma vida efêmera, sendo substituída pelo 5º Grupo de Bombardeio Médio (5º GBM), determinando assim a concentração de todas as células remanescentes dos P-40 Warhawk na Base Aérea de Santa Cruz (RJ). Ao final da Segunda Guerra Mundial, ocorreria o retorno ao Brasil de toda a frota de caças bombardeiros P-47D Thunderbolt pertencentes ao 1º Grupo de Aviação de Caça (GpAvCa), com estes assumindo na Força Aérea Brasileira (FAB) o principal papel de caça e aeronave de ataque, aliviando assim carga operacional sobre os P-40 Warhawk. Logo sem seguida seriam recebidas mais dezenove células novas de fábrica do  P-47D-40 Thunderbolt, este reforço motivaria a concentrar todas as células remanescentes dos  P-40 Warhawk na região sul do país, passando a operar a partir da Aérea de Canoas no estado do Rio Grande do Sul, onde viriam a equipar o 3º Grupo de Caça do 3º Regimento de Aviação. 
Assim antes de serem efetivamente transferidas, estas aeronaves seriam transladadas até o Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP), a fim de serem submetidas amplo processo de revisão e recuperação. Este programa envolveria dezessete aeronaves, pois devido ao enorme desgaste sofrido durante a operação no Nordeste durante o conflito, sete células do Curtiss P-40K e duas do Curtiss P-40M seriam declaradas como de recuperação antieconômica e imediatamente descarregadas da carga da Força Aérea Brasileira. Em 1947, o 3º Grupo de Caça passaria a denominar-se 1º/14º Grupo de Aviação (1º/14º GAv), continuando a operar os P-40, porém por mais esforço que a equipe do Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP) tenha empreendido em revisar e manter as células remanescentes logo em seguida ficava cada vez mais claro que o desgaste estrutural das aeronaves se tornava irreversível. A partir de 1948 a unidade abriu mão de seu papel como uma unidade de instrução, se tornando um esquadrão de emprego operacional, com participação constante nos exercícios de combate dissimulado com os Republic P-47D  Thunderbolt nas manobras do Curso de Tática Aérea (CTA). Em agosto de 1951 restavam apenas três caças Curtis P-40K e quatro Curtiss P-40M que em conjunto com os poucos Curtiss P-40N compunham a frota do o 1º/14º Grupo de Aviação (1º/14º GAv). Em abril de 1954, durante a inspeção rotina, seriam identificadas nervuras de asas partidas e rachadas, o que determinou a imediata suspensão de voo destas aeronaves. Rapidamente o Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP), desenvolveu um plano emergencial de substituição das nervuras comprometidas e inclusão de reforços, com duas células sendo remetidas a São Paulo para a implementação deste processo. Infelizmente no dia 09 de maio do mesmo ano, durante o primeiro voo de ensaio do primeiro protótipo o Curtiss P-40K FAB 4039, viria a sofrer um grave acidente, partindo em voo sua asa direita, resultando na perda total de material e pessoal. Está triste ocorrência selaria o destino destas aeronaves, com as células afetadas por este problema sendo recolhidas aos poucos ao Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP), com os últimos voos operacionais sendo registrados em fins de junho de 1954. Curiosamente o Curtiss P-40K-1-CU FAB 4102 permaneceu em uso na instrução em solo dos mecânicos da Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAer) até setembro de 1967, quando enfim foi descarregado, sendo o derradeiro Curtiss P-40 Warhawk em serviço ativo na Força Aérea Brasileira.

Em Escala.
Para representarmos o Curtiss P-40N Warhawk "FAB 4062" em sua última fase de emprego na Força Aérea Brasileira, empregamos o excelente modelo da Italeri na escala 1/48, kit este de fácil montagem que apresenta inclusive decais para a versão brasileira. Porém infelizmente alguns decais estão superdimensionados para a escala, o que nos levou a utilização dos decais confeccionados pela FCM Decals, presentes no set 48/23.
O padrão de pintura descrito abaixo representa o esquema aplicado nas últimas células recebidas das aeronaves no país, representando o modelo P-40N-40-CU. Salientamos que as primeiras aeronaves foram entregues no padrão de pintura em olive drab aplicado nas aeronaves dos modelos P-40K, P-40M e P-40N cedidos anteriormente. Este último padrão de pintura seria adotados pelas células remanescentes após serem submetidas as primeiras revisões em âmbito de parque realizadas em fins do ano de 1945 junto as oficinas do  Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP).

Bibliografia :
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 / 2015  - Jackson Flores Jr
- Curtiss P-40 Warfawk  - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/curtiss_P-40_warhawk
- Curtiss P-40 Um Caça Puro Sangue na FAB , Aparecido C.Alamino - Revista Asas Edição Nº 40
História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha -  http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html