Curtiss P-40E Warhawk

História e Desenvolvimento.
A trajetória da Curtiss Airplane and Motor Company está profundamente ligada aos primórdios da aviação. Nesse cenário emergiu a figura de Glenn Hammond Curtiss, fundador da  companhia que se dedicariaà fabricação de aeronaves e motores aeronáuticos, destacando-se especialmente no desenvolvimento de hidroaviões e aeronaves de treinamento. Curtiss tornou-se amplamente reconhecido como o “pai dos hidroaviões”, título conquistado graças às importantes inovações que introduziu na aviação naval. Entre essas realizações destaca-se o NC-4, integrante de uma série de grandes hidroaviões projetados para operações de longo alcance. Em 1919, o NC-4 protagonizou um feito histórico ao realizar a primeira travessia aérea transatlântica com escalas, ligando Newfoundland, no Canadá, aos Açores e  Lisboa. A missão demonstrou o potencial estratégico das aeronaves de grande autonomia e consolidou a reputação da Curtiss como uma das principais forças da indústria aeronáutica emergente Com a entrada dos Estados Unidos no conflito, a Curtiss tornou-se a principal fornecedora de aeronaves de treinamento. Nesse contexto destacou-se o célebre  JN-4 Jenny, um biplano de dois lugares introduzido em 1915 que se tornaria uma das aeronaves mais emblemáticas da fase inicial da aviação militar. Equipado com o confiável  OX-5, de aproximadamente 90 cv potência, o Jenny caracterizava-se por sua robustez estrutural e facilidade de pilotagem, qualidades essenciais para a formação de pilotos em larga escala. Mais de 6.000 exemplares foram produzidos durante a guerra, treinando milhares de aviadores dos Estados Unidos e do Canadá. Após o conflito, muitas dessas aeronaves foram vendidas como excedentes militares, desempenhando papel fundamental na popularização da aviação civil na década de 1920. Paralelamente, a empresa desenvolveu importantes hidroaviões militares, como o  H-12 e  H-16, utilizados em missões de patrulha marítima e combate antissubmarino tanto pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) quanto pelo Serviço Aéreo Real (RNAS) Essas aeronaves desempenharam papel relevante na vigilância contra a força submarina alemã. Na década de 1920, já consolidada como uma das principais empresas aeronáuticas do mundo, a Curtiss ampliou significativamente seu escopo industrial. A companhia passou a investir de maneira intensiva em pesquisa e desenvolvimento, produzindo tanto aeronaves civis quanto militares, além de avançados motores aeronáuticos. Entre os projetos mais importantes desse período destacou-se o caça Curtiss P-1 Hawk, introduzido em 1925 para o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Esta aeronave incorporava avanços significativos, incluindo maior uso de estruturas metálicas e motores mais potentes, características que anunciavam a transição para uma nova geração de caças. No campo da propulsão aeronáutica, a empresa também obteve grande destaque com o desenvolvimento do D-12, um V-12 refrigerado a líquido que se revelou notavelmente eficiente e aerodinamicamente vantajoso em comparação aos motores radiais predominantes da época. O desempenho desse motor foi amplamente demonstrado em competições internacionais, particularmente quando o hidroavião de corrida  R3C, pilotado pelo então tenente Jimmy Doolittle, conquistou a vitória na Schneider Trophy de 1925. 

Em 1929, a empresa fundiu-se com a Wright Aeronautical, resultando na criação da Curtiss-Wright Corporation, com esta sendo herdeira direta do legado técnico dos pioneiros Orville Wright e Wilbur Wright. Nas décadas seguintes, a empresa consolidou-se como uma das principais forças da indústria aeronáutica norte-americana. Um exemplo emblemático dessa trajetória pode ser observado no desenvolvimento do Model 75, um moderno caça monomotor monoplano . O projeto surgiu no contexto de um ousado programa de planejamento estratégico da empresa, cujo objetivo era antecipar futuras necessidades operacionais dos militares. O primeiro protótipo do novo caça foi concluído em maio de 1934 e incorporava soluções estruturais consideradas avançadas para a época. A aeronave apresentava construção predominantemente metálica, mantendo superfícies de controle revestidas em tecido, prática ainda comum na transição tecnológica daquele período. O conjunto propulsor escolhido foi o motor radial experimental Wright XR-1670, capaz de desenvolver aproximadamente 900 hp (670 kW). No que se refere ao armamento, o protótipo estava equipado com duas metralhadoras de calibre 7,62 mm instaladas nas asas, complementadas por uma metralhadora de calibre 12,7 mm sincronizada para disparar através do arco da hélice. Como era característico de muitos caças do início da década de 1930, o projeto inicial ainda não incorporava blindagem para o piloto nem tanques de combustível auto-vedantes  recursos que se tornariam padrão apenas alguns anos mais tarde, diante da experiência adquirida em conflitos reais. O primeiro voo do protótipo ocorreu em 6 de maio de 1935. Durante os ensaios iniciais, a aeronave demonstrou desempenho promissor, alcançando cerca de 452 km/h a 10.000 pés (aproximadamente 3.000 metros). Embora apresentasse limitações em altitudes elevadas decorrentes da ausência de um sistema de turbocompressor  o projeto impressionou os avaliadores militares. Como resultado, em 1937 foi firmado um contrato para a produção de 210 exemplares da aeronave, agora oficialmente designada Curtiss P-36 Hawk. As primeiras unidades de série foram entregues em abril de 1938 ao 20th Pursuit Group, baseado em Barksdale Field, no estado da Louisiana. Ali iniciou-se o processo de conversão operacional de pilotos e a formação de quadros instrutores responsáveis por difundir o emprego da nova aeronave nas unidades de caça do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Entretanto, a rápida evolução do cenário internacional alteraria significativamente os parâmetros de desempenho exigidos para aeronaves de combate. Os intensos combates aéreos decorrentes da Segunda Guerra Sino-Japonesa, iniciada com a invasão japonesa da China em 7 de julho de 1937, bem como a eclosão da Segunda Guerra Mundial na Europa em setembro de 1939, demonstraram que os caças de nova geração precisariam apresentar maior velocidade, melhor armamento e maior capacidade de sobrevivência em combate. A rápida evolução da aviação militar ao final da década de 1930 alterou profundamente os parâmetros de desempenho exigidos para aeronaves de caça. 
A rápida evolução da aviação militar ao final da década de 1930 alterou profundamente os parâmetros de desempenho exigidos para aeronaves de caça. A experiência obtida nos primeiros combates da época demonstrava que os novos caças deveriam apresentar velocidades mais elevadas, maior razão de subida, armamento mais pesado e melhor capacidade de sobrevivência em combate. Exemplos emblemáticos dessa nova geração eram o alemão Messerschmitt Bf 109 e o japonês Mitsubishi A6M Zero, aeronaves que rapidamente se destacaram por sua elevada performance e eficácia operacional. Diante desse cenário, tornava-se cada vez mais evidente, que o então moderno  P-36 Hawk dificilmente conseguiria competir em igualdade de condições com os novos padrões estabelecidos pela aviação de combate internacional. Embora representasse um avanço importante em relação aos biplanos que ainda equipavam muitas unidades no início da década de 1930, o P-36 já demonstrava limitações diante do ritmo acelerado da evolução tecnológica. Com o objetivo de superar essa deficiência, a equipe de engenharia buscou explorar ao máximo o potencial de desenvolvimento de seu projeto existente. A estratégia adotada consistia em aproveitar a célula básica do P-36  já comprovada estruturalmente como ponto de partida para uma nova aeronave dotada de maior potência e melhor desempenho, reduzindo assim os custos e o tempo de desenvolvimento. Nesse contexto, os engenheiros da empresa iniciaram estudos para combinar a estrutura do P-36 com um novo sistema de propulsão. A solução proposta consistia na adoção de um motor em linha refrigerado a líquido desenvolvido pela Allison Engine Company, especificamente o Allison V-1710, um moderno motor de doze cilindros em “V” que prometia maior potência e melhor desempenho aerodinâmico quando comparado aos motores radiais então utilizados. O projeto resultante recebeu a designação militar Curtiss XP-37. O programa avançou a ponto de se  firmar um contrato para a produção de treze aeronaves de pré-série destinadas à avaliação operacional. No entanto, após sua entrega, os protótipos revelaram uma série de problemas técnicos significativos. As dificuldades estavam concentradas principalmente no grupo motopropulsor e em seus sistemas auxiliares, comprometendo a confiabilidade e o desempenho da aeronave. Em razão dessas limitações, o programa acabou sendo cancelado antes que pudesse atingir maturidade operacional. Determinada a encontrar uma solução viável, a Curtiss-Wright decidiu seguir uma abordagem mais conservadora. Mantendo a célula básica derivada do P-36, os engenheiros desenvolveram um novo projeto que abandonava as soluções mais complexas testadas no XP-37 e incorporava uma instalação mais eficiente do motor Allison V-1710, capaz de desenvolver aproximadamente 1.150 hp. Esse novo caça recebeu a designação Curtiss XP-40. O primeiro protótipo realizou seu voo inaugural em 14 de outubro de 1938, sendo pilotado pelo experiente piloto de testes da companhia, Edward Elliott. Apesar das expectativas depositadas no novo projeto, os resultados iniciais do programa de ensaios em voo foram decepcionantes. 

O desempenho apresentado pela aeronave mostrou-se inferior ao esperado, gerando preocupações tanto na diretoria da empresa quanto entre os responsáveis pelo programa dentro do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC).  Para o projetista-chefe Don R. Berlin, o cenário era particularmente delicado, pois o futuro do projeto dependia diretamente de sua aceitação pelos militares. Diante da possibilidade de cancelamento, a equipe técnica da empresa iniciou um processo emergencial de revisão do projeto. Diversas modificações foram implementadas com o objetivo de melhorar o desempenho geral da aeronave, incluindo refinamentos aerodinâmicos, alterações no sistema de admissão do motor e melhorias estruturais destinadas a reduzir o arrasto e aumentar a eficiência em voo. Apesar desses esforços, persistia entre os avaliadores a percepção de que a nova aeronave continuava aquém do desempenho demonstrado pelos caças mais avançados então em serviço em outras forças aéreas. Quando comparado aos modernos caças alemães e japoneses, o projeto da Curtiss apresentava desvantagens perceptíveis tanto em velocidade quanto em manobrabilidade. Mesmo compreendendo as limitações deste novo modelo, o comando do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) se viu premido pela urgente necessidade de se reaparelhar sua arma aérea, levando este cenário a influenciar profundamente a decisão de aquisição desta nova aeronave.  Aliado a esta importante motivação, estava o baixo custo de aquisição e operação, e a possibilidade de poder ser colocado em produção seriada, muito antes de qualquer aeronave de melhor performance que poderia estar em desenvolvimento naquele momento.  Desta maneira em 26 de abril de 1939, seria assinado o primeiro contrato para a produção de exemplares da versão Curtiss P-40B, com este modelo sendo popularmente chamado de "Tomahawk". As primeiras aeronaves de série começariam a ser entregues aos grupos de caça norte-americanos a partir de abril de 1940.  Seu batismo de fogo ocorreria no final de 1941, junto a Força Aérea da República da China (ROCAF), quando caças pertencentes à esquadrilha "Tigres Voadores", pilotados por voluntários norte-americanos entrariam em combate pela primeira vez contra aeronaves japonesas. Apesar de performance inferior aos seus opositores, o líder do esquadrão o lendário Coronel Claire Chennault, treinaria seus pilotos a exaustão, conseguindo assim extrair ao máximo as poucas características positivas do Curtiss P-40B Tomahawk. Este processo resultaria durante toda a campanha na destruição de quase trezentas aeronaves inimigas contra a perda de apenas quatro caças Curtiss P-40B Tomahawk, em ocorrências de combates ar-ar. A Força Aérea Real (RAF) em 1940, se tornaria o segundo operador internacional desta família de aeronaves, com o governo britânico se valendo dos termos programa Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos), procedendo a encomenda de centenas de células das versões P-40B  Tomahawk IIA e P-40C Tomahawk IIB. Seu batismo de fogo junto aos britânicos ocorreria a partir de agosto de 1942, quando empregados nas operações aérea na África do Norte, neste campo e batalha os embates ar-ar se dariam a média altura ou missões de ataque a solo.  Este perfil de operação ajudaria a aeronave a melhorar seus resultados, tendo em vista seu sofrível desempenho em altas altitudes.
Neste contexto o 112º Esquadrão de Caças da Força Aérea Real (RAF) seria o pioneiro neste front de batalha, com suas aeronaves empregando o famoso esquema de nose art "Shark Mouth" (boca de tubarão), com estes sendo inspirados nos mesmos grafismos empregados nos caças pesados  Me-110 Zerstörer alemães. A ausência de turbo compressores nos modelos  P-40B e P-40C tornavam estas aeronaves nitidamente inferior  também aos caças  BF 109 e  FW 190 em combate a altas altitudes. No intuito de sanar esta deficiência,  a partir de 1941, seriam criadas as versões  P-40D e P-40E, que passavam a contar com motores mais potentes, turbo compressores, armamento orgânico renovado e blindagem reforçada.  Destas variantes iniciais, seriam produzidas mais 1.500 células, que apesar de todas as falhas de projeto, seriam notabilizadas por grandes resultados quando em serviço em teatros de operações como China, Burma, Leste Europeu, Pacífico Sul e Norte da África. O primeiro envolvimento em combate com os  P-40E Warhawk do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), se daria durante o ataque e Pearl Harbour em 7 de dezembro de 1941, quando dois destes caças lograram êxito em decolar em meio ao bombardeio, chegando a abater vários aviões japoneses. No início da campanha do Pacífico, a maior parte das operações de interceptação e ataque executadas, seriam suportadas pelo binômio de caças  P-40 Warhawk e P-39 Airacobra, atuando em conjunto com os  F-4F Wildcat da aviação naval da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), contribuindo decisivamente assim para suportar a pressão japonesa durante o período crítico inicial do conflito. Já em serviço no exército, os P-40E Warhawks seriam operados por um total de 15 grupos de caça entre os anos de 1941 e 1945 e por algumas unidades de reconhecimento tático. Neste período, novas versões seriam desenvolvidas como o  P-40K e P-40M que passariam a ser equipados com varia melhorias como motores mais potentes Allison 1710-73 (F4R) V-12, sistema de refrigeração válvula rotativa, adoção de radiadores e resfriadores em alumínio, carlingas sem moldura e maior capacidade de transporte de bombas. Além da Grã-Bretanha e China Nacionalista, os caças Curtiss P-40 Warhawk seriam cedidos nos termos do programa de ajuda militar Leand & Lease Act Bill (Lei de Arrendamentos e Empréstimos), a mais nações aliadas durante o conflito, como Austrália, Canada, Nova Zelândia, União Soviética e Brasil. O modelo passaria a ser substituído no Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF)a partir do ano de 1944 pelos novos  P-51 Mustang e P-47 Thunderbolt. Ao todo entre os anos de 1939 e 1944, seriam produzidas um total de 13.739 células, divididas em 12 versões distintas. Após o término do conflito estas aeronaves se manteriam em uso pelas forças aéreas do Egito, Brasil, Finlândia, França, Indonésia, Polônia, Holanda, África do Sul e Turquia, operando pelo menos até a segunda metade da década de 1950.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de uma invasão do continente americano pelas potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão. A capitulação da França em junho de 1940 intensificou esses temores, especialmente diante da possibilidade de que a Alemanha nazista estabelecesse bases operacionais em territórios coloniais franceses, como as Ilhas Canárias e Dacar (atual Senegal). Nesse cenário, o Brasil emergiu como um ponto estratégico vulnerável devido à sua proximidade geográfica com o continente africano, que, após a campanha alemã no Norte da África iniciada em 1940, figurava nos planos expansionistas do Terceiro Reich. Além disso, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, incluindo a ocupação da Indochina em 1940 e das Filipinas em 1942, transformaram o Brasil no principal fornecedor de látex para os Aliados, uma matéria-prima essencial para a produção de borracha, utilizada em pneus, vedações e outros componentes críticos para a indústria bélica. A costa nordeste brasileira, particularmente nas cidades de Recife e Natal, adquiriu relevância estratégica por ser o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano, facilitando o translado aéreo de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para os teatros de operações na Europa e no Norte da África, como a Operação Tocha de novembro de 1942.  Diante dessas ameaças, o governo brasileiro, liderado pelo presidente Getúlio Vargas, intensificou a aproximação política e econômica com os Estados Unidos, resultando em uma série de acordos estratégicos. Um dos mais significativos foi a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar Lend-Lease Act (Lei de Arrendamento e Empréstimo), promulgado pelo Congresso americano em março de 1941. Esse programa destinou ao Brasil uma linha de crédito inicial de US$ 100 milhões (equivalente a cerca de US$ 2 bilhões em valores ajustados para 2025), voltada para a aquisição de armamentos modernos, incluindo aeronaves, veículos blindados, carros de combate e navios. O objetivo principal era modernizar as Forças Armadas, que na época, enfrentavam obsolescência em equipamentos, armamentos e doutrina operacional militar. Estes recurso foram essenciais para capacitar o Brasil a enfrentar as ameaças representadas pelos submarinos alemães (U-boats) da Kriegsmarine e italianos da Regia Marina, que intensificaram ataques contra a navegação civil e militar ao longo do extenso litoral brasileiro. Entre 1942 e 1943, cerca de 20 navios mercantes brasileiros foram afundados, impactando o transporte de matérias-primas cruciais para os Estados Unidos. A modernização naval e aérea, impulsionada pelo programa, permitiu ao Brasil desempenhar um papel ativo na defesa do Atlântico Sul e na proteção das rotas marítimas aliadas. Neste período a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), estabelecida em 20 de janeiro de 1941, enfrentava desafios significativos devido à obsolescência de sua frota. Composta por aeronaves ultrapassadas, a Aeronáutica carecia de equipamentos modernos, incluindo aviões de treinamento básico e avançado, essenciais para formar pilotos militares em quantidade e qualidade suficientes para atender às demandas de um conflito global. 

Um ambicioso programa de reequipamento foi implementado com o objetivo de fortalecer a defesa territorial do país, tanto em seu vasto território continental quanto em suas áreas ultramarinas. Esse esforço buscava garantir uma resposta eficaz às crescentes ameaças do conflito, que já se espalhava pela Europa e pelo Pacífico, exigindo do Brasil uma postura de prontidão para proteger seus interesses estratégicos. Nesse contexto inicial de envolvimento brasileiro na guerra, as aeronaves militares da recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), estabelecida oficialmente em 20 de janeiro de 1941, desempenhavam um papel essencial, mas ainda limitado. As missões se concentravam em voos de presença e patrulha ao longo do extenso litoral brasileiro, muitas vezes realizadas por monomotores como o North American AT-6B Texan e o Vought V-65B Corsair. Contudo, a aviação de caça da Aeronáutica enfrentava sérias limitações, operando com aeronaves como os Boeing F-4B e P-12, que, além de disponíveis em quantidades reduzidas, eram completamente obsoletos frente aos padrões tecnológicos da época. Essa defasagem colocava a Força Aérea Brasileira (FAB) em desvantagem significativa, tornando a modernização de sua frota uma prioridade inadiável. O programa de reequipamento foi planejado em fases, considerando as demandas emergenciais dos fronts europeu e pacífico, que absorviam grande parte da produção aeronáutica dos Estados Unidos e seus aliados. A primeira etapa priorizou a entrega de aeronaves de treinamento e conversão, fundamentais para a formação de um quadro de pilotos capacitados a atender às exigências operacionais de um conflito moderno. Em seguida, a aviação de patrulha marítima foi fortalecida, com o objetivo de proporcionar cobertura aérea aos comboios militares e civis que navegavam pelas costas brasileiras, vulneráveis a ataques de submarinos inimigos, como os U-boats alemães que operavam no Atlântico Sul. Essa abordagem escalonada, no entanto, postergava a aquisição de caças modernos diretamente das linhas de produção. A introdução de aeronaves de combate de ponta só se concretizaria mais tarde, com a entrega dos caças-bombardeiros Republic P-47D Thunderbolt, que equipariam o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa). Essas aeronaves desempenhariam um papel crucial nos céus da Itália, onde o Brasil se destacou como o único país sul-americano a enviar forças de combate ao teatro europeu da Segunda Guerra Mundial. Enquanto a chegada de caças novos de fábrica era aguardada, a Força Aérea Brasileira (FAB) recebeu, em 8 de março de 1942, um lote inicial de dez células do Curtiss-Wright P-36A Mohawk, provenientes de unidades de reserva ou treinamento do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Apesar de serem consideradas modernas para os padrões brasileiros da época, essas aeronaves foram classificadas como “restritas para voo”, o que limitava severamente seu uso em operações de combate devido a questões de manutenção e desempenho.
Um marco significativo no processo de modernização ocorreu em abril de 1942, com a entrega de 06 células novas de fábrica do P-40E-1-CU Warhawk. Originalmente destinadas à Força Aérea Real (RAF), essas aeronaves foram redirecionadas para atender às necessidades urgentes da Força Aérea Brasileira (FAB). As células chegaram ao Brasil ostentando o padrão de camuflagem britânico, incluindo a icônica pintura “Shark Mouth” (boca de tubarão) na fuselagem, um detalhe que conferia um caráter distintivo e intimidador. Com matrículas originais ET-742, ET-778, ET-779, ET-780, ET-782 e ET-785, elas foram redesignadas no Brasil, inicialmente como “FAB 01 a 05” e, posteriormente, como “FAB 4020 a 4025”. Curiosamente existem um registro fotográfico de pelo menos uma célula deste modelo ostentando padrão de pintura do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Estas aeronaves seriam destinadas a Base Aérea de Fortaleza, onde foram incorporadas ao Agrupamento de Aeronaves de Adaptação (AAA), unidade esta que fora criada em 4 de fevereiro de 1942, tendo com sua principal missão a adaptação dos militares brasileiros as aeronaves norte-americanas. Sob a tutela de instrutores norte-americanos, seriam ministrados cursos nessas e em outras aeronaves pertencentes à dotação, para assim atualizar o conhecimento técnico do pessoal brasileiro, auferindo-lhe melhor instrução sobre procedimentos e táticas de emprego que estavam sendo utilizados nos combates aéreos sobre a Europa e o Pacífico. Em novembro deste mesmo ano, um segundo lote de aeronaves de caça seria transferido composto por dez células do modelo P-40K-10CU, e logo em seguida um terceiro lote com dezessete unidades da variante  P-40K-15CU e por fim dez aeronaves do modelo  P-40M-5-CU. Logo em seguida os P-40E seriam transferidos para operação junto a Base Aérea de Natal, onde voariam ao lado de aeronaves  AT-6,  P-40K e  P-40M, no Grupo Monoposto Monomotor (GMM). Esta unidade era composta por quatro esquadrilhas, sendo os veteranos  P-40E Warhawks concentrados na primeira esquadrilha do grupo. Mesmo não dispondo de armamento adequado para combate contra submarinos, a presença de caças monomotores como os  P-40E Warhawk, já era suficiente para inibir as atividades dos submarinos alemães e italianos em missões de torpedeamento no litoral brasileiro, pois estes submersíveis não possuíam meios para diferenciar distintos tipos de aeronaves a grandes distancias e altitudes. O agravamento do estado beligerante provocado pelo evoluir de torpedeamentos de navios mercantes brasileiros, levaria a urgência de realização de um grande número de surtidas de patrulha fazendo uso de todos os meios disponíveis no Grupo Monoposto Monomotor (GMM). Assim tão logo os novos pilotos fossem declarados como "habilitados" naquelas aeronaves, já passavam a ser escalados para a participação em longas e tediantes missões de patrulha nas regiões litorâneas do nordeste brasileiro. No entanto periodicamente, estes pilotos também exercitavam suas habilidades de tiro ar-terra no estande de exercício militar adjacente ao campo de pouso de Jardim de Angicos no estado do Rio Grade do Norte. 

A partir de 1943, os  P-40E Warhawks  passariam também a serem empregados pelo II Grupo Monoposto Monomotor, sediado na Base Aérea de Recife.  O dia 17 de agosto de 1944, ) marcou um momento significativo com a extinção do Grupo Monoposto Monomotor (GMM) e a criação do  2º Grupo de Caça (2º GpCa), uma unidade destinada a concentrar todos os caças P-40 Warhawk em operação na cidade de Natal, Rio Grande do Norte. Essa nova organização foi a primeira a receber as modernas células do modelo P-40N, representando um avanço na capacitação para o pleno atendimento das demandas do conflito.  Contudo, a permanência do 2º GpCa em Natal foi breve. Apenas um mês após sua criação,  foi determinada a sua transferência para a Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, acompanhada de parte de sua equipe, equipamentos e aeronaves. Para preencher o vazio deixado em Natal, foi criado o 1º Grupo Misto de Aviação (1º GMA), uma unidade que combinava esquadrilhas de caças equipados com diferentes versões do P-40 incluindo os modelos P-40E, P-40K, P-40M e P-40N  e bombardeiros  B-25B e B-25J Mitchell. Essa estrutura, no entanto, também teve vida curta, pois pouco tempo depois, o 1º GMA foi substituído pelo 5º Grupo de Bombardeio Médio (5º GBM), e todas as células remanescentes da família P-40 foram transferidas para a Base Aérea de Santa Cruz, consolidando a presença desses caças no Rio de Janeiro. A transição dos veteranos P-40E, porém, não foi imediata. Antes da transferência, decidiu-se que essas aeronaves, intensamente utilizadas nas fases iniciais do conflito, passariam por uma revisão geral no Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP). Para isso, foi formada uma comissão técnica encarregada de implementar um processo de manutenção extensiva, com o objetivo de prolongar a vida útil dessas células. Durante as inspeções, no entanto, foram identificados desgastes estruturais significativos, resultado do uso prolongado e intensivo em missões de patrulha e treinamento. Esses problemas culminaram na decisão de condenar quatro dessas aeronaves, declaradas inaptas para voo, evidenciando os limites impostos pela fadiga estrutural após anos de operação em condições exigentes. Com o término da Segunda Guerra Mundial em 1945, a Força Aérea Brasileira (FAB) iniciou um novo capítulo em sua história. O retorno ao Brasil da frota de caças-bombardeiros P-47D Thunderbolt, operada pelo 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) nos céus da Itália, marcou um momento de renovação. Esses aviões, que se destacaram em combate no teatro europeu, assumiram o papel principal como caças e aeronaves de ataque, aliviando a carga operacional das células remanescentes dos P-40. A chegada de mais dezenove células novas de fábrica do modelo P-47D-40 Thunderbolt, entregues no pós-guerra, reforçou ainda mais a capacidade da Força Aérea Brasileira (FAB), permitindo uma reorganização estratégica de sua frota. Nesse contexto, as células sobreviventes da família P-40 Warhawk foram transferidas para a região Sul do Brasil, passando a operar a partir da Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul. 
Na Base Aérea de Canoas, o 3º Grupo de Caça, então subordinado ao 3º Regimento de Aviação, passou a operar as células remanescentes desta família,  e a manutenção da operacionalidade dessas aeronaves exigiu grande esforço logístico e técnico por parte dos oficiais, pilotos e especialistas em manutenção.  Entre as aeronaves então em serviço destacava-se o veterano  P-40E, matriculado como “FAB 4021”. Considerada inicialmente passível de recuperação e modernização, essa célula foi submetida a um longo e meticuloso processo de revisão nas oficinas do Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP). O trabalho, conduzido com elevado rigor técnico, revelou-se particularmente complexo, exigindo quase cinco anos de intervenções estruturais e mecânicas destinadas a restaurar a integridade da aeronave. Somente no final de março de 1950 o “FAB 4021” foi finalmente reintegrado ao serviço ativo. Após a conclusão dos ensaios e verificações operacionais, a aeronave foi transladada em voo para a Base Aérea de Canoas, onde passou a integrar a dotação do 1º/14º Grupo de Aviação, unidade conhecida como Esquadrão Pampa. Essa designação havia sido adotada em 1947, quando o antigo 3º Grupo de Caça do 3º Regimento de Aviação foi reorganizado segundo a nova estrutura . Dentro da unidade, o “FAB 4021” foi incorporado à Esquadrilha Branca, uma das subdivisões operacionais do esquadrão. Durante esse período, o Esquadrão Pampa concentrou praticamente todas as aeronaves remanescentes da família P-40 ainda em serviço. Embora essas aeronaves continuassem a desempenhar missões de treinamento avançado, patrulha aérea e familiarização operacional, sua importância estratégica diminuía gradativamente diante da crescente predominância de aeronaves mais modernas, como o Republic P-47 Thunderbolt, que se tornara o principal vetor de caça da aviação brasileira no pós-guerra. O “FAB 4021” permaneceu em operação regular até agosto de 1953, quando, em conformidade com o calendário de manutenção preventiva de segundo nível, foi novamente encaminhado ao PqAerSP para uma revisão programada. Concluídos os reparos necessários, a aeronave retornou ao serviço ativo; contudo, sua carreira operacional já se aproximava do final. Em abril de 1954, inspeções técnicas mais aprofundadas revelaram danos estruturais críticos, entre eles nervuras de asas partidas e rachadas, indícios claros do desgaste acumulado ao longo de anos de emprego intensivo, tanto durante o período da guerra quanto no prolongado serviço pós-conflito. Diante desse quadro, e considerando os custos e a complexidade de uma nova recuperação estrutural, decidiu-se pela retirada definitiva da aeronave de serviço. A célula foi então encaminhada ao Núcleo do Parque de Aeronáutica de Porto Alegre (PqAerPA), onde foi desmontada para o aproveitamento de componentes e materiais destinados à manutenção de outras aeronaves ainda em operação. 

Em Escala.
Para representarmos o Curtiss P-40E-1-CU  Warhawk "FAB 02“ quando em serviço pelo Agrupamento de Aeronaves de Adaptação (AAA) sediado na Base Aérea de Fortaleza durante o ano de 1942, fizemos uso do antigo kit produzido pela Arii Models na escala 1/48. Modelo este que apresenta qualidade razoável de injeção e montagem, apresentando como diferencial a possibilidade de expormos o motor Alison V-1710 em linha da aeronave, o que assim retratamos em nosso trabalho. Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM Decals presentes no antigo set 48/02.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático empregado pela quase totalidade das aeronaves norte-americanas cedidas a Real Força Aérea (Royal Air Force) nos termos do programa Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos. Os P-40E brasileiros manteriam este padrão pelo menos até o ano de 1950, quando foram submetidos a uma grande revisão geral em âmbito de parque, deste processo apenas o P-40E "FAB 4021" emergiria passando a ostentar o esquema de pintura em metal natural dos demais modelos desta aeronave em uso pela Força Aérea Brasileira (FAB).

Bibliografia :
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 / 2015  - Jackson Flores Jr
- Curtiss P-40 Warfawk  - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/curtiss_P-40_warhawk
História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha -  http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html

Jeep M-151 Mutt (VTrOp-VTNE-VTECsR)


História e Desenvolvimento.
No final da década de 1920, o Exército dos Estados Unidos (US Army) deu início a um ambicioso processo de modernização estrutural, motivado pela percepção de que os futuros conflitos exigiriam maior mobilidade, rapidez de resposta e flexibilidade tática. Até então, grande parte de suas unidades ainda dependia de tração animal, característica de uma força essencialmente hipomóvel. A mecanização tornava-se, portanto, não apenas uma inovação desejável, mas uma necessidade estratégica diante das transformações tecnológicas que marcavam o período entreguerras. O vigoroso crescimento da indústria automotiva norte-americana oferecia as bases técnicas para essa transformação. Caminhões de carga, veículos de transporte de pessoal e tratores militares passaram a integrar os estudos de modernização. Contudo, uma das prioridades estabelecidas pelo comando do Exército era o desenvolvimento de um veículo utilitário leve com tração integral 4x4, capaz de operar em terrenos acidentados, superar obstáculos naturais e transportar até quatro militares completamente equipados. Esse futuro veículo deveria reunir robustez, simplicidade mecânica e versatilidade operacional  qualidades indispensáveis para missões de reconhecimento, ligação, transporte leve e apoio direto à infantaria. Entretanto, a crise econômica desencadeada pela Grande Depressão impôs severas restrições orçamentárias ao Departamento de Guerra, retardando temporariamente o avanço do programa de mecanização. Somente a partir de 1936, com a gradual recuperação econômica e a crescente preocupação com o cenário internacional, o projeto foi retomado com maior prioridade. Após a abertura de um processo competitivo, a Bantam Car Company, sediada em Butler, na Pensilvânia, foi selecionada para desenvolver o primeiro lote experimental. No final da década de 1930, a Bantam produziu os primeiros setenta veículos utilitários leves com tração nas quatro rodas, que se tornariam o embrião da futura e célebre família Jeep. Submetidos a testes rigorosos e empregados inicialmente por unidades de infantaria, esses protótipos demonstraram desempenho notável, especialmente em termos de mobilidade e adaptabilidade a diferentes tipos de terreno. A versatilidade do projeto rapidamente chamou a atenção dos planejadores militares, que reconheceram seu potencial para emprego em larga escala. Diante dos resultados positivos, o Exército decidiu ampliar a produção por meio de um novo processo de contratação que envolveu também a Willys-Overland Company e a Ford Motor Company. Em 1941, após intensos debates técnicos e administrativos, consolidou-se o modelo que seria produzido em grande quantidade pelas três fabricantes. As primeiras unidades começaram a ser entregues a partir de março de 1942, já em plena Segunda Guerra Mundial, quando a necessidade de mobilidade tática tornara-se urgente. Assim, o termo “Jeep” consolidou-se não apenas como designação informal do veículo, mas como um verdadeiro símbolo de robustez, engenhosidade e versatilidade militar. Ao longo do conflito, o Jeep tornar-se-ia um dos ícones mais reconhecidos da Segunda Guerra Mundial, representando de forma emblemática a transição definitiva das forças terrestres norte-americanas para a era da mecanização.

Ao longo de todo o conflito, a produção dessa notável e versátil família de veículos utilitários leves ultrapassaria a expressiva marca de meio milhão de unidades. Desse total, aproximadamente 363.000 exemplares foram fabricados pela Willys-Overland Company, enquanto cerca de 280.000 unidades saíram das linhas de montagem da Ford Motor Company. O modelo destacou-se, ainda, como um dos principais vetores materiais do Programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), instrumento estratégico da política externa norte-americana que viabilizou o fornecimento de equipamentos militares aos países aliados. Com o término da guerra, em agosto de 1945, os Estados Unidos iniciaram um rápido processo de desmobilização industrial. A súbita retração das encomendas militares provocou o cancelamento de inúmeros contratos de defesa, impactando de forma significativa o complexo industrial que havia sido expandido para sustentar o esforço bélico. Entre as empresas diretamente afetadas encontrava-se a Willys-Overland, cuja infraestrutura produtiva estava, naquele momento, quase integralmente dedicada à fabricação da família Jeep. Diante desse novo cenário econômico, a companhia foi compelida a redefinir sua estratégia empresarial. No final da década de 1940, reconhecendo a necessidade de diversificar seu portfólio e assegurar a continuidade de suas operações, a Willys voltou-se decididamente para o mercado civil. Nesse processo de transição, contou com uma vantagem mercadológica significativa: a Ford Motor Company encontrava-se judicialmente impedida de utilizar a denominação “Jeep”, o que permitiu à Willys capitalizar, com exclusividade, o prestígio e a notoriedade já associados ao nome. O termo, que nascera como designação informal de um veículo militar padronizado, transformara-se em sinônimo de robustez, simplicidade mecânica e versatilidade. A partir dessa base simbólica e técnica, a empresa lançou os fundamentos da versão civil de seu consagrado veículo militar, o Willys MB. Surgia, assim, o Willys CJ-2 (Civil Jeep). Inicialmente, foram produzidos quarenta exemplares de pré-série, destinados a testes e demonstrações. A produção em escala industrial, entretanto, teve início apenas em julho de 1945, com o aperfeiçoado modelo CJ-2A. Embora mantivesse as linhas gerais e a arquitetura mecânica do MB, o CJ-2A foi adaptado às demandas do uso civil, recebendo modificações significativas na carroceria e na configuração construtiva. Equipado com o confiável motor Willys “Go-Devil” de quatro cilindros, o modelo incorporava carburador e sistema de ignição específicos para aplicações não militares, além de suprimir equipamentos estritamente bélicos. O resultado foi um veículo que preservava as qualidades de resistência e mobilidade do Jeep original, mas com maior adequação às atividades agrícolas, industriais e utilitárias do pós-guerra. Em 1949, a linha evoluiu para o CJ-3A, produzido até 1953, quando foi sucedido pelo CJ-3B. O CJ-3A era impulsionado pelo motor L-134 “Go-Devil”, com potência de 60 hp (aproximadamente 45 kW), associado à transmissão manual T-90, à caixa de transferência Dana 18, ao eixo dianteiro Dana 25 e aos eixos traseiros Dana 41 ou 44. Essa configuração mecânica consolidou a reputação da Willys no mercado civil, oferecendo confiabilidade estrutural, facilidade de manutenção e desempenho satisfatório em terrenos acidentados.
Paralelamente, no âmbito militar, os  modelos MB e GPW ainda permaneciam em serviço no final da década de 1940. Contudo, já apresentavam sinais de desgaste e obsolescência frente às novas exigências operacionais do pós-guerra. O Exército dos Estados Unidos (U.S Army) necessitava de um veículo que preservasse a reconhecida versatilidade e capacidade fora de estrada dos modelos anteriores, mas que incorporasse melhorias substanciais em durabilidade estrutural, capacidade de carga e aptidão para operar em ambientes extremos, como travessias de cursos d’água profundos e terrenos intensamente lamacentos. A Willys-Overland, detentora de ampla experiência acumulada na produção do MB e beneficiando-se do desenvolvimento recente do CJ-3A, foi selecionada para conceber essa nova geração de veículo militar leve. O programa previa a militarização da base civil, porém com significativas adaptações estruturais e técnicas dimensionadas às exigências especificadas. Desse esforço resultaria o projeto do jipe M-38, que marcaria a transição para uma nova fase na evolução dos utilitários militares leves norte-americanos. Os primeiros carros pré-série seriam extensamente avaliados junto ao Quartel General do Departamento Exército dos Estados Unidos no Forte de Holabird em Baltimore (Maryland), sendo logo homologados para uso operacional.  Em janeiro de 1951 seria celebrado um primeiro contrato para cinco mil veículos que passariam a ser entregues no segundo semestre do mesmo ano. Este seriam implantados no principal teatro de operações durante a Guerra da Coreia (1950-1953). Mais contratos seriam firmados logo em seguida, com o modelo ficando conhecido também na Europa pela utilização por unidades militares norte-americanas na então Alemanha Ocidental. Aproximadamente dois mil e trezentos jipes M-38, seriam fabricados pela Ford Motors do Canadá para as Forças Armadas Canadenses a partir do ano de 1952, sendo localmente designados como jipe M38-CDN.  Apesar do excelente desempenho, já se previa a médio um ambicioso  programa de renovação da força motomecanizada, com esta intenção resultando em uma concorrência deflagrada pelo Departamento de Comando da Força Automotriz e Tanques do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army's Ordnance Tank Automotive), destinada a desenvolver um novo veículo utilitário de 1/4 Toneladas com tração integral 4X4.  Ao todo, sete montadoras de carros e caminhões responderiam a esta concorrência, apresentando aos militares do exército seus projetos e propostas a partir de maio do ano seguinte. Um auspicioso processo de análise seria realizado, com a decisão pendendo para a proposta apresentada pela Ford Motor Company, este projeto abordava um utilitário que apesar de manter o mesmo lay out básico e as dimensões de seus  predecessores, passava a apresentar um desing final completamente novo, pois ao contrário dos projetos de “jeeps” anteriores, o novo carro contava com uma estrutura que consistia em uma cuba de aço aparafusada em uma estrutura de aço separada, empregando um novo conceito de quadro integrado, combinando os trilhos da estrutura no chassi do veículo composto por chapas soldadas. A adoção deste conceito em substituição ao quadro separado conceberia ao veículo uma distância maior do solo, baixando assim o centro de gravidade, este processo ocasionaria em um pequeno aumento no comprimento, tornando o também mais confortável, outra melhoria resultante foi implementada na suspensão, através da eliminação dos eixos rígidos dianteiros e traseiros, lhe permitindo viagens em alta velocidade em terrenos acidentados.

Uma vez aprovado, o projeto passou a receber do Exército dos Estados Unidos (U.S Army) a designação oficial de M-151, sendo então autorizado para produção em série. Em maio de 1956, foi firmado o primeiro contrato com a Ford Motor Company, prevendo inicialmente a aquisição de quatro mil viaturas. A produção seriada teve início em janeiro de 1958, e, ainda no segundo semestre desse mesmo ano, os primeiros exemplares foram incorporados ao U.S. Army Ordnance Tank-Automotive Command, órgão responsável pela gestão do material automotivo e blindado. O batismo operacional do Ford M-151 em cenário de conflagração real ocorreria no Sudeste Asiático. Após os primeiros ataques conduzidos por forças vietcongues e pelo Exército regular do Vietnã do Norte contra instalações norte-americanas no Vietnã do Sul, a administração do presidente John F. Kennedy decidiu ampliar o envio de assistência militar ao governo sul-vietnamita. Inicialmente, essa ajuda consistia majoritariamente em equipamentos usados provenientes dos estoques de reserva das Forças Armadas dos Estados Unidos, refletindo a hesitação de Washington em envolver-se de maneira direta em um conflito distante, sobretudo à luz das recentes tensões hemisféricas e do desgaste político decorrente da frustrada invasão da Baía dos Porcos, em Cuba. Entretanto, em agosto de 1964, o episódio conhecido como Incidente do Golfo de Tonkin posteriormente alvo de controvérsias históricas alterou substancialmente o nível de comprometimento norte-americano. A decisão do presidente Lyndon B. Johnson de enviar contingentes regulares de combate marcou a escalada formal da intervenção dos Estados Unidos no Vietnã. Nesse processo, grandes quantidades de veículos e equipamentos modernos foram desdobradas no teatro de operações, entre eles o recém-adotado jipe Ford M-151. Todavia, o emprego intensivo do modelo em ambiente operacional revelou fragilidades de projeto até então subestimadas. Entre as principais críticas destacava-se a tendência à instabilidade em velocidades mais elevadas ou em manobras bruscas, característica que podia resultar em acidentes graves, inclusive capotamentos. Como medida empírica e paliativa, militares norte-americanos e sul-vietnamitas passaram a improvisar lastro adicional, frequentemente posicionando uma caixa de munição preenchida com areia sob o banco traseiro quando o veículo não transportava carga, com o intuito de reduzir o centro de gravidade e melhorar a estabilidade. O elevado número de acidentes registrados gerou ampla documentação de não conformidade junto aos órgãos federais responsáveis pela regulamentação da segurança veicular nos Estados Unidos. Esse contexto acabou por impor restrições significativas à comercialização do modelo no mercado civil, impedindo não apenas a venda de unidades novas, mas também, posteriormente, sua ampla disponibilização a entusiastas e colecionadores militares. Diante das críticas e visando sanar as deficiências estruturais identificadas, engenheiros da Ford Motor Company procederam a um redesenho substancial do sistema de suspensão traseira, originalmente baseado no conceito de semi-eixo oscilante. A solução adotada consistiu na introdução de um novo arranjo do tipo semi-trailing arm (braço semi-arrastado), que proporcionava maior estabilidade direcional e comportamento dinâmico mais previsível. O resultado dessas modificações culminou, em 1970, no lançamento da versão M-151A2. Após testes extensivos em campo, o novo modelo demonstrou ao comando de material do Exército dos Estados Unidos que as principais falhas haviam sido corrigidas, consolidando-se como a variante mais madura e tecnicamente aprimorada da família M-151.
Com base nesse cenário, decidiu-se pela celebração de novos contratos de produção. À época, a Ford Motor Company operava no limite de sua capacidade industrial, o que levou o governo norte-americano a autorizar a fabricação sob licença pelas montadoras Kaiser Motors Company e AM General Corporation, garantindo assim o atendimento às crescentes e emergenciais demandas militares. No que se refere às diferenças estéticas entre as distintas versões da família, o modelo M-151A2 destacava-se principalmente pelo reposicionamento das luzes indicadoras de direção. Essa modificação implicou alterações no desenho dos para-lamas dianteiros, conferindo ao veículo uma aparência ligeiramente distinta em relação às versões anteriores. A exemplo do modelo original, o M-151A2 também serviu de base para o desenvolvimento de diversas variantes especializadas. Entre elas destacaram-se a ambulância M-718A1; o porta-canham sem recuo M-825; a versão de ataque rápido aerotransportado M-151A2 FAV; e a configuração anticarro equipada com mísseis TOW, designada M-151A2 TOW. Essa versatilidade reforçava o caráter modular do projeto e sua adequação a múltiplos perfis operacionais. O Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (United States Marine Corps – USMC) tornou-se o segundo maior operador da família M-151, iniciando suas aquisições em 1971. As versões customizadas para essa força receberam designações específicas, como Marine FAV Mk I e Mk II “Super Jeep”, Airborne Marine FAV, MR-C108 e, por fim, a versão M-1051, dedicada ao combate a incêndios. Até meados da década de 1980, a família de jipes Ford–Kaiser–AM General M-151 consolidou-se como o principal vetor de mobilidade das forças armadas norte-americanas no segmento de utilitários ¼ de tonelada com tração integral 4x4. Embora atendessem de maneira satisfatória às exigências operacionais daquele período, tornava-se evidente que, a médio prazo, esses veículos precisariam ser substituídos por plataformas mais robustas, dotadas de maior capacidade de carga, proteção e desempenho. Esse processo resultou na abertura de uma nova concorrência para o desenvolvimento do denominado Veículo de Rodas Multiuso de Alta Mobilidade (High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle – HMMWV), culminando na criação do consagrado AM General HMMWV, popularmente conhecido como “Humvee”. Os primeiros lotes passaram a ser incorporados às unidades regulares do Exército dos Estados Unidos a partir de 1983. Com a introdução do novo modelo, iniciou-se gradualmente a retirada de serviço dos M-151 “Mutt”, sendo parte significativa da frota transferida para a reserva estratégica. Em 1984, muitos desses veículos passaram a ser disponibilizados a nações aliadas em condições bastante favoráveis, por meio do programa Foreign Military Sales (FMS). Milhares de unidades foram adquiridas por países da África, Europa, Oriente Médio, Ásia e América Latina, ampliando significativamente a presença internacional da família M-151. Ainda hoje, uma parcela considerável desses utilitários permanece em serviço ativo em diversas forças armadas ao redor do mundo. Entre 1958 e 1982, foram produzidos mais de cem mil exemplares da família M-151. De forma excepcional, em 1988 a linha de montagem foi reativada para atender a uma encomenda específica do governo da Jordânia, resultando na fabricação adicional de aproximadamente mil unidades.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A trajetória dos veículos utilitários leves com tração integral 4x4 popularmente conhecidos como jipes nas Forças Armadas Brasileiras teve início em 1942, em meio ao contexto estratégico da Segunda Guerra Mundial. A adesão do Brasil ao programa norte-americano Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos) representou um marco decisivo na modernização material das forças militares nacionais, ao viabilizar a transferência de expressivos volumes de equipamentos e viaturas de origem norte-americana. No âmbito desse acordo bilateral, aproximadamente dois mil jipes foram destinados ao Brasil. Não havia, contudo, uniformidade quanto ao fabricante ou ao modelo, sendo incorporadas unidades produzidas tanto pela Ford Motor Company quanto pela Willys-Overland Company. Embora inexistam registros consolidados que detalhem a proporção exata entre as diferentes versões, sabe-se que os primeiros lotes  compostos por veículos novos e usados provenientes da frota ativa e da reserva estratégica do Exército dos Estados Unidos  começaram a chegar ao país a partir de março de 1942. Parte significativa dessas viaturas, especificamente 655 unidades, foi enviada diretamente ao teatro de operações italiano para equipar a Força Expedicionária Brasileira (FEB). No cenário europeu, os jipes desempenharam papel relevante no apoio às operações da tropa brasileira, contribuindo para o deslocamento rápido de pessoal, comunicações, reconhecimento e transporte leve em terreno adverso. A experiência adquirida nesse ambiente de combate revelou-se de valor inestimável para o Exército Brasileiro, não apenas do ponto de vista operacional, mas também doutrinário. Robustos, versáteis e de manutenção relativamente simples, os jipes tornaram-se instrumentos fundamentais na consolidação da doutrina motomecanizada da Força Terrestre. Sua introdução promoveu uma mudança estrutural na mobilidade tática das unidades de infantaria e apoio, ampliando significativamente a capacidade de manobra, comando e controle. Ao longo das décadas de 1940 e 1950, essa frota  complementada por outros meios de transporte proporcionou às Forças Armadas Brasileiras, em especial ao Exército, um patamar de mobilidade até então inédito. Com o passar dos anos, entretanto, o intenso emprego operacional, aliado à obsolescência natural dos modelos utilizados durante a guerra, passou a comprometer a disponibilidade da frota. A escassez de programas estruturados de manutenção e as crescentes dificuldades na obtenção de peças de reposição sobretudo para veículos cuja produção já havia sido encerrada  resultaram no aumento progressivo do número de viaturas inoperantes. Tal situação impactava diretamente a prontidão das unidades. Diante desse quadro, o governo federal passou a considerar a aquisição de um novo lote de jipes diretamente dos fabricantes norte-americanos, avaliando, entre outras possibilidades, modelos da família Willys M-38, sucessores naturais dos consagrados Ford GPW e Willys MB. O objetivo era substituir as viaturas mais desgastadas e revitalizar a capacidade operacional dos utilitários leves em serviço.

Contudo, essa alternativa foi preterida em favor de uma proposta considerada mais vantajosa sob o ponto de vista econômico e estratégico. O governo dos Estados Unidos ofereceu ao Brasil um significativo lote de jipes Willys MB armazenados como reserva estratégica e classificados como material excedente de guerra. A incorporação dessas viaturas permitiu ao Exército Brasileiro suprir suas necessidades imediatas com menor impacto orçamentário, assegurando a continuidade da operacionalidade da frota e prolongando a vida útil do conceito de mobilidade leve que se consolidara desde o conflito mundial. Na década de 1950, em um período marcado pelo início da consolidação da indústria automotiva nacional impulsionada por políticas de incentivo e substituição de importações promovidas pelo governo federal  as Forças Armadas Brasileiras deram início a um relevante processo de modernização de sua frota de veículos utilitários leves. Esse movimento inseria-se em um contexto mais amplo de reorganização estrutural e de busca por maior autonomia logística, especialmente no âmbito do Exército Brasileiro. Nesse cenário, a Willys-Overland do Brasil passou a desempenhar papel estratégico ao produzir versões nacionalizadas e militarizadas dos consagrados jipes da linha CJ. Inicialmente foram incorporados os modelos CJ-2A, seguidos pelos CJ-3, CJ-4 e, posteriormente, pelo CJ-5. A adoção desses veículos representou não apenas a renovação do parque motomecanizado leve, mas também um avanço institucional, pois consolidava a parceria entre a indústria nascente e as demandas da defesa nacional. A produção local de peças de reposição constituiu um marco significativo desse processo. Ao reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros e assegurar maior disponibilidade de componentes, o Exército Brasileiro alcançou níveis mais elevados de prontidão operacional. Tal autossuficiência logística permitiu que a frota de jipes 4x4 da categoria 1/4 tonelada permanecesse em condições adequadas de emprego, posicionando a Força Terrestre entre as mais bem equipadas da América do Sul nesse segmento. Paralelamente, no âmbito dos acordos de assistência militar firmados com os Estados Unidos, o Brasil recebeu um expressivo lote de jipes Willys M-38 usados, provenientes de estoques norte-americanos. A combinação entre a industrialização interna e o apoio externo consolidou uma estrutura logística robusta, capaz de atender com agilidade às exigências operacionais da época. Em meados da década de 1960, entretanto, novos acontecimentos no cenário internacional influenciariam novamente a composição da frota brasileira. Em 1961, a República Dominicana mergulhou em profunda instabilidade política após o assassinato do ditador Rafael Leónidas Trujillo Molina, encerrando mais de três décadas de regime autoritário. As eleições realizadas em dezembro de 1962 conduziram à presidência Juan Bosch, fundador do Partido Revolucionário Dominicano (PRD), cuja proposta de reformas estruturais incluía medidas como redistribuição de terras e maior controle estatal sobre determinados setores da economia.
As transformações pretendidas, contudo, encontraram forte resistência de setores conservadores e das Forças Armadas dominicanas, culminando, em setembro de 1963, em um golpe liderado pelo general Elías Wessin y Wessin, então comandante do Centro de Entrenamiento de las Fuerzas Armadas (CEFA). Essa unidade de elite, criada ainda no período trujillista, desempenhou papel central na deposição de Bosch. O poder passou a ser exercido por um denominado “Triunvirato Civil”, que suspendeu a Constituição e assumiu o governo sob bases excepcionais. A instabilidade política agravou-se em 24 de abril de 1965, quando uma rebelião liderada pelo coronel Francisco Caamaño e por jovens oficiais conhecidos como “Constitucionalistas” reivindicou o restabelecimento da ordem constitucional e o retorno de Juan Bosch à presidência. Esse movimento desencadeou uma nova fase de confrontos internos, com repercussões diretas no contexto hemisférico da Guerra Fria e consequências para diversos países da região, inclusive o Brasil. A escalada do conflito na República Dominicana, marcada pela distribuição de armas à população civil pelos insurgentes "Constitucionalistas", gerou um cenário de guerra civil que abalou profundamente o país caribenho. Diante do risco de agravamento da crise, o Departamento de Estado dos Estados Unidos, preocupado com a possibilidade de a instabilidade evoluir para uma situação semelhante à de Cuba, iniciou os preparativos para a evacuação de seus cidadãos e de outros estrangeiros que desejassem deixar o país. Relatórios de inteligência norte-americana alertavam que o avanço dos rebeldes poderia transformar a República Dominicana em um foco de influência esquerdista na região. Para evitar esse cenário, o presidente Lyndon Johnson autorizou uma intervenção militar, sob o pretexto oficial de proteger a segurança de estrangeiros. A operação, deflagrada pelo Corpo de Fuzileiros Navais (US Marine Corps) e pela 82ª Divisão Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos, contou com o respaldo da Organização dos Estados Americanos (OEA). Essa coalizão culminou na formação da Força Interamericana de Paz (IAPF), oficialmente criada em 23 de maio de 1965, com a participação de contingentes militares de Brasil, Honduras, Paraguai, Nicarágua, Costa Rica e El Salvador. Os Estados Unidos assumiram a responsabilidade de prover armamentos, munições, suprimentos e equipamentos para as nações envolvidas, garantindo o suporte logístico necessário para as operações de pacificação e estabilização política na República Dominicana. O Brasil, representado pelo Exército Brasileiro, integrou a missão com um contingente inicial que desembarcou em 25 de maio de 1965. Para equipar suas tropas, foram fornecidos 88 veículos utilitários de origem norte-americana, incluindo os modelos Ford M-151A1, Kaiser M-151AC (equipado com o canhão sem recuo M-40A1 de 106 mm) e M-718 Ambulância. Durante mais de um ano, esses veículos desempenharam um papel central nas operações conduzidas pelo contingente brasileiro, que contava com mais de quatro mil soldados. 

Atuando em turnos, os militares brasileiros participaram de missões de pacificação, garantindo a segurança e contribuindo para a restauração da ordem no país. Com o término da intervenção da Força Interamericana de Paz, em 21 de setembro de 1966, as tropas brasileiras iniciaram os preparativos para seu retorno ao Brasil. Nesse contexto, o Departamento de Estado dos Estados Unidos determinou a doação de todo o material militar utilizado pelos países participantes, incluindo os jipes Ford M-151A1, Kaiser M-151AC e M-718 Ambulância. Em 23 de setembro de 1966, os jipes Ford M-151A1, Kaiser M-151AC e M-718 Ambulância foram oficialmente transferidos ao Exército Brasileiro, como parte da doação de equipamentos utilizados na Força Interamericana de Paz (IAPF) na República Dominicana. No início de outubro do mesmo ano, esses veículos, acompanhados do último contingente de soldados brasileiros, foram transportados por navios da Marinha do Brasil de volta ao país. Após um processo de revisão e manutenção, os jipes foram distribuídos a diversas unidades de infantaria motorizada localizadas na região Sudeste, reforçando significativamente suas capacidades operacionais. Embora apresentassem algumas limitações em alta velocidade, os modelos Ford M-151A1 (VTNE) e Kaiser M-151AC (VTE CSR) demonstraram desempenho notavelmente superior aos jipes então em uso pelo Exército Brasileiro, como os Willys MB e M-38. Em operação os primeiros modelos seriam empregados em tarefas de reconhecimento tático, com as unidades de infantaria motorizada usavam os M-151A1 para missões de patrulha e reconhecimento, aproveitando sua agilidade para explorar terrenos e identificar ameaças potenciais. Já as Viaturas de Transporte Especializado - Canhão sem Recuo, equipados com a arma M-40 Recoilless Rifle de 106 mm seria utilizada como apoio a infantaria atuando em operações de fogo direto contra alvos blindados ou fortificados, funcionando como uma plataforma móvel de artilharia leve. Por fim a terceira versão a Viatura Especializada Ambulância M-718 operaria em tarefas de evacuação médica, desempenhando um papel crucial em operações de movimentação de feridos para a retaguarda nos hospitais de campanha, especialmente em exercícios e missões em áreas remotas, onde a mobilidade era essencial.  Um dos momentos mais significativos do emprego dos jipes Ford M-151 pelo Exército Brasileiro ocorreu durante a participação na Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF) na Crise do Canal de Suez, no Egito. Durante essa missão de paz, iniciada em 1956 e com participação brasileira até 1967, pelo menos 30 viaturas cedidas pela ONU foram utilizadas pelos últimos contingentes brasileiros, a partir de meados da década de 1960. Esses jipes, incluindo modelos M-151A1 e Kaiser M-151AC, seriam extensamente empregados nas missões de monitoramento de zonas de cessar-fogo e áreas de tensão no deserto do Sinai, em tarefas de transporte de suprimentos e pessoal em terrenos áridos, garantindo a mobilidade das tropas brasileiras e por fim em apoio a missões de observação da Organização das Nações Unidas (ONU), com a variante M-151AC oferecendo capacidade de resposta rápida em caso de incidentes. 
Em 1968, a Marinha do Brasil fortaleceu sua capacidade operacional ao adquirir um lote de pelo menos 20 jipes usados dos modelos Ford M-151A1 e Kaiser M-151AC, destinados ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). Essa aquisição representou um marco significativo para a Força de Fuzileiros de Esquadra (FFE), especialmente em operações anfíbias e terrestres, onde a mobilidade e a versatilidade eram essenciais. Carinhosamente apelidados de “Patinhas” pelos fuzileiros, esses jipes demonstraram sua robustez e confiabilidade em diversas missões, com destaque para a Operação Dragão IX, em 1974. Durante esse exercício, os veículos foram desembarcados a partir do Navio de Desembarque de Carros de Combate (NDCC) Garcia D’Avila (G-28), desempenhando um papel crucial em manobras que exigiam rapidez e eficiência em terrenos desafiadores. A participação dos “Patinhas” reforçou a tradição de excelência do CFN, consolidando sua capacidade de projeção de força em cenários operacionais complexos. Os jipes Ford M-151 permaneceram em serviço na Marinha do Brasil até meados da década de 1980, quando começaram a ser substituídos pelos veículos militarizados da família Toyota Bandeirante. Sua longevidade reflete não apenas a qualidade intrínseca desses utilitários, mas também a habilidade dos fuzileiros navais em maximizar seu uso, mesmo diante de recursos limitados. Esses veículos, que marcaram presença em missões nacionais e internacionais, tornaram-se símbolos da dedicação e da capacidade de adaptação dos militares brasileiros, que souberam extrair o máximo de suas viaturas para cumprir suas missões com eficiência e coragem. No Exército Brasileiro, os jipes Ford M-151A1, Kaiser M-151AC e M-718 Ambulância, originalmente recebidos em 1966 após a Força Interamericana de Paz (IAPF) na República Dominicana, continuaram a desempenhar um papel vital em unidades de infantaria motorizada. Contudo, no início da década de 1990, com o avanço do desgaste natural e a crescente obsolescência, foi decidido concentrar as viaturas remanescentes no 24º Batalhão de Infantaria Motorizado (BIM), sediado na cidade do Rio de Janeiro. Apesar de sua confiabilidade comprovada e do potencial para anos adicionais de serviço, a frota enfrentava desafios crescentes devido à dificuldade de obtenção de peças de reposição no mercado internacional, uma vez que a produção dos modelos M-151 havia sido descontinuada em 1982. Diante desse cenário, o Exército Brasileiro optou pela desativação progressiva desses veículos, substituindo-os por modelos mais modernos, como os britânicos Land Rover Defender e os nacionais Agrale Série AM Marruá. A retirada oficial dos últimos jipes Ford M-151 do serviço ativo ocorreu em meados de 2004, encerrando uma era de contribuições significativas para a Força Terrestre. Muitos desses veículos foram preservados em museus militares, onde permanecem como testemunhos de uma época marcada por desafios e conquistas, enquanto outros foram adquiridos por entusiastas e colecionadores civis, mantendo viva a memória de sua importância histórica.

Em Escala.
Para representarmos o VTE CSR Kaiser M-151A1C "EB-22-1430", fizemos uso do excelente kit da Academy, presente na escala 1/35, que nos brinda com um bom detalhamento do grupo motriz e munição para o canhão M-40A1 de 106 mm. Este modelo permite ainda montagem out of box (direto da caixa) para assim se representar a versão utilizada pelo Exército. Empregamos decais confeccionados pela Eletric Products presentes no Set Exército Brasileiro  1944 -1982. 
O esquema de cores  (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado em todos  os veículos Ford – Kaiser  M-151A1, M-151A1C e M-718 Ambulância, quando de seu recebimento na República Dominicana, já em posse do Exército Brasileiro passariam a ostentar o Cruzeiro do Sul e identificações da Força Interamericana de Paz (IAPF). Após seu recebimento no Brasil passariam contar com as matrículas seriais padrão, este esquema se manteria até o ano de 1983, quando passaram a receber um novo padrão de camuflagem tática de dois tons, permanecendo este até sua desativação. 

Bibliografia : 
- M-151 Truck Utility - Wikipedia http://en.wikipedia.org/wiki/M151_Truck,_Utility,_l/4-Ton
- M-151 no Brasil - Arquivo Pessoal - Paulo Bastos
- O Brasil e a Rep Dominicana  Bruno P . Vilella http://www.uff.br

P-47D 27/28/30RA Thunderbolt

História e Desenvolvimento.
A Seversky Aircraft Company foi fundada em 1931, em Farmingdale, por Alexander de Seversky, um expatriado russo e veterano piloto da Primeira Guerra Mundial. Naquele momento, Seversky também atuava como assessor técnico do Departamento de Guerra (United States War Department), posição que lhe permitiu acompanhar de perto os rumos da modernização da aviação militar norte-americana e apresentar ideias inovadoras para o desenvolvimento de novas aeronaves. Nos primeiros anos de operação, a empresa reuniu uma equipe de engenheiros aeronáuticos altamente qualificados, em grande parte originários da Rússia e da Geórgia. Entre os principais nomes estavam Michael Gregor e Alexander Kartveli, profissionais que desempenhariam papéis decisivos no desenvolvimento de diversos projetos que marcariam a trajetória da companhia. O caminho até o sucesso, contudo, revelou-se complexo. Após vários projetos experimentais e tentativas iniciais sem grande repercussão comercial, a empresa alcançou um marco importante em 1936 ao vencer uma concorrência promovida pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) para o desenvolvimento de um novo caça. O projeto vencedor, designado Seversky SEV-1XP, resultou no primeiro contrato militar relevante da empresa. A versão operacional desse projeto receberia a designação P-35, tornando-se um marco na evolução da aviação militar norte-americana. O P-35 foi o primeiro caça moderno adotado pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army), incorporando diversas características que definiriam a nova geração de aeronaves militares: fuselagem inteiramente metálica, configuração monoplano de asa baixa e trem de pouso retrátil  embora ainda parcialmente exposto. A aeronave era equipada com um motor radial Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp com aproximadamente 850 cavalos de potência. No final da década de 1930, o governo norte-americano iniciou um ambicioso programa de reequipamento de suas forças aéreas, estimulando o desenvolvimento de novas aeronaves de combate, neste momento seria deflagrada  uma nova concorrência destinada à criação de um caça-bombardeiro mais moderno e capaz. Em resposta a essa iniciativa, a empresa apresentou, em 1939, o projeto  XP-41. Essa aeronave incorporava melhorias significativas em relação ao P-35, incluindo uma fuselagem mais aerodinâmica, cuja seção traseira se elevava gradualmente até a deriva configuração que ficaria conhecida posteriormente como perfil “razorback”. O XP-41 também apresentava um trem de pouso totalmente retrátil, duas metralhadoras calibre .30 instaladas sobre o capô do motor e uma versão mais potente do motor Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp, equipada com turbocompressor e capaz de gerar cerca de 1.150 cavalos de potência, permitindo à aeronave atingir aproximadamente 515 km/h a 15.000 pés de altitude. Apesar dessas melhorias, o projeto não atendeu plenamente às expectativas do , sendo considerado insuficiente em termos de desempenho. Como recomendação, os avaliadores sugeriram a adoção de um sistema de turbocompressão semelhante ao utilizado no bombardeiro pesado  B-17 , cuja eficiência em grandes altitudes já havia sido comprovada. Atendendo a essa pleito, este sistema seria instalado na parte traseira da fuselagem, com complexas tubulações conduzindo os gases de escape sob a cabine do piloto. 

Além disso, o armamento foi reforçado com a adição de duas metralhadoras calibre .50 instaladas nas asas. Esta modificações resultariam no modelo YP-43,  sendo capaz de atingir aproximadamente 563 km/h a uma altitude de 38.000 pés, agradando os militares que aprovariam a contratação de um de um lote de 54 células do agora designado P-43A Lancer. Atenta a rápida  evolução da tecnologia aeronáutica naquele período, a empresa lançaria esforço no desenvolvimento do projeto XP-44, um caça projetado com características avançadas para a época. O modelo apresentava uma cabine mais aerodinâmica e um cubo de hélice que encobria o motor, reduzindo o arrasto aerodinâmico causado pela ampla área frontal dos motores radiais de alta potência. Inicialmente planejado para ser equipado com o motor Pratt & Whitney R-2180 de 1.400 hp. Infelizmente o projeto enfrentou um revés quando o desenvolvimento desse motor foi cancelado, obrigando o fabricante a adotar o mais potente Pratt & Whitney XR-2800 “Double Wasp” de 2.000 hp.  As qualidades promissoras do XP-44 impressionaram o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), que, em um gesto de confiança, encomendou 80 células antes mesmo da construção de um protótipo. Contudo, o cenário global mudou drasticamente com a queda da França em junho de 1940, onde clarificou-se a  superioridade dos caças Messerschmitt Bf-109, face aos parâmetros apresentados pelo XP-44. Essa constatação levou ao cancelamento da encomenda, um golpe significativo para a agora renomeada Republic Aircraft Corporation, que que viu seus planos de produção em larga escala frustrados. Determinado a apoiar a continuidade da empresa, o  Departamento de Guerra (United States War Department), optou por exercer a opção por uma segundo lote do P-43A Lancer, envolvendo 80 aeronaves.  Embora menos avançado que o XP-44, o P-43A oferecia uma solução prática para atender às necessidades imediatas. Em julho de 1941, a Força Aérea da República da China (ROCAF), assinaria um contrato para a compra de 125 aeronaves, das quais 108 seria efetivamente entregues. Com o cancelamento do XP-44, a empresa redirecionou seus esforços para um projeto ainda mais ambicioso: o “Advanced Pursuit Design No. 10” (AP-10), designado pelos militares como XP-47. Inicialmente concebido para ser propulsionado pelo motor em linha Allison V-1710 refrigerado a água, o XP-47 enfrentou exigências crescentes para a inclusão de armamento mais pesado, tanques de combustível auto-selantes, blindagem para o piloto e cabides subalares para cargas externas. Essas demandas impactariam no peso final da  aeronave, comprometendo seu desempenho. Diante desse desafio, a equipe de engenheiros demonstrou notável resiliência, resultando em uma proposta revisada designada como XP-47A, contudo, a nova versão ainda não alcançava os parâmetros necessários para rivalizar com os caças alemães, resultando em sua rejeição.  Correndo contra o tempo e sob pressão para oferecer uma solução competitiva, os engenheiros voltaram às pranchetas e desenvolveram um projeto completamente novo, o XP-47B. A aeronave apresentava uma construção toda em metal (exceto para as superfícies de controle da cauda que eram cobertas de tecido) asas elípticas, e um bordo de ataque direto ligeiramente deslocado para traz.  
A aeronave dispunha de uma cabine ampla, projetada para oferecer razoável conforto ao piloto e equipada com certo nível de proteção blindada. Tanques de combustível auto-vedantes completavam o conjunto de medidas destinadas a aumentar a sobrevivência em combate. O sistema propulsor era baseado no potente motor radial Pratt & Whitney R-2800 Double Wasp, um propulsor de dezoito cilindros capaz de desenvolver cerca de 2.000 hp (aproximadamente 1.500 kW). Esse motor era combinado com um sistema de turbocompressor, permitindo ao novo caça alcançar velocidades superiores a cerca de 643 km/h e operar a altitudes próximas de 40.000 pés. Na realidade, o protótipo do XP-47B foi concebido praticamente em torno do conjunto motor-turbocompressor. O turbocompressor foi instalado na parte traseira da fuselagem, atrás da cabine do piloto, com um complexo sistema de dutos conduzindo os gases de escape até o conjunto. Essa solução técnica determinou as grandes dimensões da aeronave. Ao observar o projeto final,  Alexander Kartveli teria comentado de forma bem-humorada: “será um dinossauro, mas um dinossauro bem proporcionado.” O primeiro voo ocorreu em 6 de maio de 1941. A aeronave possuía uma cobertura transparente fixa para a cabine, e o acesso do piloto era realizado por meio de uma porta lateral na fuselagem. Após a solução de alguns problemas iniciais de projeto identificados durante os testes de voo, o modelo recebeu autorização para produção em série, passando a adotar a designação oficial P-47B Thunderbolt. As primeiras aeronaves começaram a ser entregues às unidades operacionais em dezembro de 1941. A entrada dos Estados Unidos no conflito evidenciaria rapidamente o potencial do novo caça, que passou a ser considerado um recurso estratégico de grande importância para o esforço de guerra aliado. Nesse contexto surgiu a versão P-47C, que embora  visualmente muito semelhante ao modelo anterior, essa variante incorporava diversas melhorias estruturais e operacionais. Entre as modificações introduzidas estavam reforços nas superfícies metálicas de controle, a adoção de um mastro de rádio vertical mais curto e a instalação de um sistema regulador mais eficiente para o turbocompressor. Com base nessas melhorias, foi firmado um contrato para a produção de mais de 600 aeronaves, cujas primeiras unidades começaram a ser entregues em setembro de 1942. Após a produção das primeiras cinquenta e sete aeronaves, novas melhorias de engenharia foram implementadas, resultando na versão  P-47C-1 , da qual foram produzidas 125  unidades. Em seguida, surgiria a variante  P-47C-2 , cuja produção totalizou cerca de 120 aeronaves. Essa versão introduziu uma modificação importante,  a instalação de um ponto de fixação sob a linha central da fuselagem, permitindo o transporte de bombas ou tanques suplementares de combustível.  Em novembro  a variante, o P-47C-5 que introduziria o novo motor Pratt & Whitney R-2800-59 equipado com sistema de injeção de água-metanol com um aumento na potência final. No final de 1942, a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), concluiu que a maioria dos problemas presentes nas primeiras versões, haviam sido resolvidos, levando a decisão de se enviar para a Inglaterra o 56 º Grupo de Caça com seus novos P-47C-5, para assim se juntar aos efetivos da 8º Oitava Força Aérea. 

Desde o início de seu desenvolvimento, seria concebido como um caça fortemente armado. Seu armamento padrão consistia em oito metralhadoras Browning M2 calibre .50, distribuídas nas asas e alimentadas por aproximadamente 2.500 cartuchos de munição. Essa poderosa combinação conferia à aeronave um elevado poder de fogo, tornando-a extremamente eficaz tanto em missões de combate aéreo quanto em operações de ataque ao solo. A primeira missão de combate do P-47C ocorreu em 10 de março de 1943, quando um grupo dessas aeronaves realizou uma missão de varredura de caça sobre a França ocupada. Pouco mais de um mês depois, em 15 de abril de 1943, seria registrada a primeira vitória aérea do modelo: o major Don Blakeslee conseguiu abater um caça alemão Focke-Wulf Fw 190.  As experiências acumuladas durante esse período inicial de operações revelaram diversos aspectos passíveis de aprimoramento no projeto da aeronave. Essas observações operacionais levariam a uma série de refinamentos técnicos que culminaram na introdução da versão  P-47D , rapidamente liberada para produção em grande escala. As primeiras células  eram em essência, muito semelhantes ao  P-47C , sendo inicialmente produzidas 10células designadas P-47D-1-RA. O sufixo final utilizado na designação indicava a unidade fabril responsável por sua produção: o código “RE” identificava as aeronaves produzidas na planta de Farmingdale, enquanto o sufixo “RA” era aplicado às aeronaves fabricadas na instalação industrial de Evansville. Na prática, o  P-47D consistiu em uma longa série de blocos de produção progressivamente aperfeiçoados. As primeiras subvariantes  D-1, PD-6, D-10 e P-D-11  incorporaram diversas melhorias estruturais, incluindo a adição de novos flaps de refrigeração do motor ao redor da seção superior do capô. Essas modificações foram introduzidas para reduzir problemas de superaquecimento observados em operações de campo. Posteriormente, a versão P-47D-15  foi desenvolvida em resposta a solicitações de unidades de caça norte-americanas e britânicas, que buscavam ampliar o alcance operacional da aeronave. Para isso, foram introduzidos sistemas de combustível sob pressão, capazes de transferir combustível a partir de tanques subalares externos. As variantes subsequentes  D-16, D-20, D-22 e D-23  mantiveram características semelhantes às do P-47D-15, incorporando principalmente melhorias nos sistemas de combustível e em diversos subsistemas do motor. A partir da versão P-47D-20, passou a ser adotada com novo motor Pratt & Whitney R-2800-59  Double Wasp. As primeiras versões da aeronave  incluindo os modelos  e  as variantes iniciais do P-47D e ainda o  P-47G ( P-47C produzido sob licença pela Curtiss-Wright)  apresentavam a fuselagem traseira elevada conhecida como configuração “razorback”. Esse desenho era acompanhado por uma cobertura deslizante da cabine com molduras estruturais espessas, o que limitava significativamente a visibilidade traseira do piloto e dificultava a detecção antecipada de aeronaves inimigas aproximando-se por esse setor. Para solucionar esse problema a partir do P-47D-25 seria foi adotada uma nova cobertura de cabine em formato de bolha  conhecida como “bubbletop” que proporcionava visibilidade praticamente irrestrita em todas as direções.
Para permitir essa alteração, a seção traseira da fuselagem foi rebaixada e redesenhada, com as primeiras aeronaves passando a ser entregues a partir de maio de 1944 as unidades da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). Entretanto, essa modificação trouxe consequências aerodinâmicas inesperadas. A redução da área lateral da fuselagem traseira comprometeu a estabilidade direcional da aeronave, gerando tendência à instabilidade em guinada. Para solucionar o problema, foi introduzida  uma pequena quilha dorsal à frente da deriva, recurso que restaurava parte da área lateral perdida e melhorava o controle em voo. Essa solução passou a ser adotada em produção a partir da variante P-47D-40, sendo posteriormente aplicada retroativamente às versões D-25, D-27, D-28 e D-30 por meio de kits de modificação instalados em campo. Paralelamente à evolução das variantes padrão, novas versões especializadas foram desenvolvidas para responder às exigências operacionais do conflito.  Uma delas foi o P-47M  concebido especificamente para enfrentar aeronaves alemãs de alto desempenho que surgiram nos estágios finais da guerra, como o Messerschmitt Me 262 e o Focke-Wulf Fw 190D.  Essa variante empregava um motor mais potente, tendo seu armamento reduzido para seis metralhadoras, buscando melhorar o desempenho e a velocidade máxima. Apesar de suas qualidades, entrou em serviço relativamente tarde e foi utilizado apenas por um grupo de. Outra evolução importante foi o P-47N Thunderbolt, projetado especificamente para operações no vasto teatro de operações do Oceano Pacífico. Essa versão foi otimizada para missões de longo alcance, particularmente aquelas destinadas a escoltar os bombardeiros estratégicos Boeing B-29  em ataques contra o território do Japão. O P-47N possuía asas redesenhadas com maior envergadura e pontas semi-elípticas, maior capacidade de combustível e uma quilha dorsal ampliada, que contribuía para melhorar a estabilidade durante longos voos. Durante o conflito, o P-47 destacou-se particularmente como caça-bombardeiro da , desempenhando papel decisivo em missões de apoio aproximado e interdição. A robusta estrutura da aeronave permitia transportar uma grande variedade de armamentos, incluindo bombas de 230 kg e 450 kg, foguetes M8 rocket de 4,5 polegadas e foguetes de alta velocidade High Velocity Aircraft Rocket (HVAR) de 5 polegadas . Essa combinação transformou o avião em uma plataforma extremamente eficaz para ataques contra colunas blindadas, linhas ferroviárias e infraestruturas logísticas. Entre junho de 1944 e maio de 1945, pilotos reivindicaram a destruição de cerca de 86.000 vagões ferroviários, 9.000 locomotivas, 6.000 veículos blindados e aproximadamente 68.000 caminhões, contribuindo significativamente para o colapso da infraestrutura militar do Eixo. Foi empregado por diversas forças aéreas aliadas, incluindo a Grã-Bretanha, a França, a União Soviética, o México e o Brasil.  Após o término da guerra,  continuou a servir  até a segunda metade da década de 1950, na Bolívia, Chile, China, Colômbia, Equador, Honduras, Irã, Itália, Iugoslávia, Nicarágua, Peru, Portugal, República Dominicana, Turquia e Venezuela. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente preocupação a possibilidade de uma eventual expansão das potências do Potências do Eixo  em direção ao continente americano. Esses receios foram intensificados após a capitulação francesa em junho de 1940, levantando preocupações quanto à possibilidade da Alemanha utilizar territórios coloniais franceses como bases operacionais, incluindo regiões como as Ilhas Canárias e Dakar. Paralelamente, os avanços militares japoneses no Sudeste Asiático e no Pacífico incluindo a ocupação da Indochina em 1940 e das Filipinas em 1942  alteraram profundamente as cadeias globais de suprimento de matérias-primas estratégicas. Nesse cenário, o Brasil assumiu papel fundamental como fornecedor de látex natural, matéria-prima essencial para a produção de borracha sintética e natural, amplamente empregada na fabricação de pneus, mangueiras, vedantes e inúmeros componentes utilizados na indústria militar. Diante desse contexto estratégico, o governo brasileiro intensificou a aproximação diplomática, econômica e militar com os Estados Unidos. Essa cooperação resultou na assinatura de diversos acordos bilaterais voltados ao fortalecimento da defesa, ente estes o programa de assistência militar  Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). Por meio deste instrumento o Brasil recebeu uma linha de crédito inicial estimada em aproximadamente US$ 100 milhões de dólares.  Esses recursos foram destinados à modernização das capacidades militares brasileiras que até então enfrentavam sérias limitações decorrentes da obsolescência de seus equipamentos, aeronaves, blindados e navios e da defasagem de sua doutrina operacional. Nesse período, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), instituída oficialmente em 20 de janeiro de 1941, enfrentava desafios significativos relacionados à modernização de sua frota. A aviação militar brasileira era composta majoritariamente por aeronaves consideradas ultrapassadas para os padrões do conflito, o que limitava sua capacidade operacional. Seria decidido também  que o país enviaria um contingente expedicionário para ajudar no esforço aliado no teatro europeu de operações, operando em conjunto com duas unidades áreas, uma de observação e ligação e outra de caça bombardeio. Em cumprimento aos termos estabelecidos nos acordos de cooperação militar firmados entre o Brasil e os Estados Unidos, foi criado, em 18 de dezembro de 1943, o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa). Essa unidade seria integrada operacionalmente ao 350º Grupo de Caça (Fighter Group) da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), passando a operar como unidade de caça-bombardeio equipada com o Republic P-47D Thunderbolt, aeronave que se tornaria o principal vetor de ataque do grupo durante a campanha na Europa. A fase inicial de preparação ocorreu em Aguadulce, onde os pilotos brasileiros realizaram treinamento de adaptação utilizando aeronaves  P-40 Warhawk. Após essa etapa, os integrantes do grupo  incluindo pilotos e equipes de manutenção foram transferidos para a base aérea de Suffolk Army Air Field, onde tiveram o primeiro contato com o P-47D Thunderbolt, aeronave que seria empregada nas operações de combate no teatro europeu. O processo de conversão operacional seguiu os mesmos padrões aplicados aos pilotos de caça norte-americanos naquele período. Em média, cada piloto realizou cerca de setenta horas de treinamento no novo caça, período ao final do qual eram considerados plenamente qualificados para operações de combate. 

Concluída a fase de instrução, o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) foi deslocado por via marítima para a Itália, onde chegou em 6 de outubro de 1944, passando a integrar as forças aéreas aliadas engajadas nas operações da Campanha da Itália.  As primeiras aeronaves destinadas à unidade foram recolhidos pelos próprios pilotos brasileiros e transportados até a base aérea de Tarquínia, que se tornaria o principal ponto de operações do grupo. Essas aeronaves faziam parte do lote fornecido à Força Aérea Brasileira (FAB), composto por 68 exemplares do modelo. No início da campanha, 31 aeronaves foram efetivamente entregues à unidade, com as demais permanecendo armazenadas como reserva estratégica, junto ao  “Army Air Force Storage Center - Mediterranean Theater of Operations”, em Nápoles, um depósito que atendia às unidades da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), baseadas no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Entre essas primeiras aeronaves, 15  pertenciam à versão P-47D-25-RE, as demais 16 células representavam os modelos P-47D 27-RE e 28-RE/Ra. O início efetivo das operações de combate destinadas a missões Apoio aéreo aproximado, Interdição tática e Ataque a Infraestruturas de transporte, se deu em 31 de outubro de 1944.  Durante as primeiras missões, os pilotos brasileiros voavam individualmente, integrados como quarto elemento às esquadrilhas dos três esquadrões norte-americanos que compunham o  350º Grupo de Caça (Fighter Group),  o 345th, 346th e 347th  Esquadrões de Caça (Fighter Squadron). Essa fase inicial de integração operacional permitiu que os pilotos do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) adquirissem experiência prática nas condições reais de combate da frente italiana, familiarizando-se com os procedimentos táticos empregados pela pelos norte-americanos antes de iniciar operações plenamente autônomas. As missões a serem realizadas pelo 1º Grupo de Aviação de Caça (Gp Av Ca), eram basicamente de dois tipos: ataque ao solo e escolta de bombardeiros (com esta última ocorrendo com baixa incidência em virtude do estágio final do conflito). No primeiro tipo de emprego, eram equipados com bombas de emprego geral AN/M43 de 500lb (227 Kg), de fragmentação de 260lb (118 Kg) ou de 90lb (40 Kg), ou ainda as FTI (“Fuel Tank Incendiary”), as quais eram tanques de combustível de 90 galões (340 litros), 110 galões (416 litros) ou 165 galões (624 litros), equipados com espoletas e preenchidos com gasolina de aviação e compostos químicos para tornar gelatinosa a consistência da gasolina. As FTI (“Fuel Tank Incendiary”), eram altamente eficientes contra concentrações veículos e de tropas. Um outro armamento utilizado foram os foguetes anti-tanque M-8A2 de 4,5 polegadas, disparados de tubos M10, instalados em triplas sob as asas; não tiveram sucesso, no entanto, pois os M-8A2 eram altamente imprecisos, além do prejuízo causado às características aerodinâmicas dos P-47D Thunderbolt pela instalação daqueles tubos. Nas missões de escolta, estes caças bombardeiros valiam-se de seu pesado armamento de oito metralhadoras de 12,7mm nas asas, além de levarem tanques alijáveis de combustível sob as asas, a fim de aumentar o seu raio de ação e permitir que acompanhassem os bombardeiros aliados até a fronteira com a Áustria, o Passo de Brenner sendo um dos alvos prediletos. Pelo menos três P-47D brasileiros receberam a instalação de uma câmera fotográfica K-25A, oblíqua, colocada no bordo de ataque do cabide subalar esquerdo. 
Essa modificação foi realizada pelos próprios mecânicos brasileiros da unidade, demonstrando elevado grau de iniciativa técnica e capacidade de adaptação em condições de guerra. A presença desse equipamento permitia a obtenção de fotografias logo após a execução dos ataques, registrando os efeitos do bombardeio sobre os alvos inimigos. Normalmente, essa tarefa era desempenhada pela aeronave que voava na posição número quatro da esquadrilha  a última a mergulhar sobre o alvo  possibilitando a captura de imagens das explosões provocadas pelas bombas lançadas pelas demais aeronaves da formação. Contudo, essa função tornava o avião de reconhecimento particularmente vulnerável, pois permanecia mais tempo sobre a área do alvo e, por essa razão, recebia frequentemente a maior atenção da artilharia antiaérea alemã. Entre os pilotos brasileiros que se destacaram nas operações aéreas na Itália, merece especial menção o Pedro de Lima Mendes, 2º Tenente Aviador integrante da esquadrilha Azul do 1º Grupo de Aviação de Caça, considerado o piloto mais eficiente tanto da unidade brasileira quanto do 350th Grupo de Caça durante a campanha. Igualmente notável foi o desempenho do pessoal de manutenção e apoio em terra. A dedicação e a competência técnica desses profissionais refletiram-se na elevada taxa média de aeronaves disponíveis para operações: cerca de 81%, índice que jamais caiu abaixo de 77% ao longo da campanha. Esse desempenho figurava entre os mais elevados registrados entre as unidades aéreas sob comando norte-americano no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Durante as missões de combate, muitos aviões retornavam às bases com danos estruturais provocados principalmente pela artilharia antiaérea alemã. Ainda assim, graças à eficiência das equipes de manutenção, essas aeronaves eram rapidamente reparadas e preparadas para novas missões, garantindo a continuidade das operações do grupo. Com o encerramento das hostilidades na Itália, em 3 de maio de 1945, foi possível apresentar o balanço de suas atividades operacionais, pois ao  longo de 184 dias de operações, a unidade realizou 445 missões, totalizando 2.546 surtidas ofensivas e quatro surtidas defensivas. Mesmo tendo sido responsável por apenas 5% do total de missões montadas pelo XXII Comando Aéreo Tático, seria responsável pela destruição de 85% dos depósitos de munições, 36% dos depósitos de combustível, 28% das pontes (19% danificadas), 15% dos veículos motorizados (13% danificados) e 10% dos veículos hipomóveis (10% danificados). Devido à escassez de pilotos substitutos, muitos aviadores brasileiros acumularam um número excepcionalmente elevado de missões de combate, com vários deles ultrapassando a marca de 80 surtidas.  Mas o preço pago foi alto e do total , 05 foram mortos em combate, 04 em acidentes aéreos (um deles ainda no Panamá, durante o treinamento), 08 foram abatidos com 05  feitos prisioneiros, 03 abatidos e por fim 07 foram afastados por motivos de saúde.  Em junho de 1945, todos os 26 P-47Ds brasileiros, foram levados em vôo até Capodichino, ao Army Air Force Storage Center - Mediterranean Theater of Operations, onde foram desmontados e enviados por via terrestre para Nápoles, para serem embarcados para o Brasil. No traslado, o P-47D-27-RE n° 42-26788 acidentou-se durante o pouso em Capodichino, sendo considerado perda total.  As 25 aeronaves restantes foram desmontadas, acondicionadas em caixas e enviadas por via terrestre até o porto de Nápoles, onde foram embarcadas no navio de transporte de tropas USS W. S. Jennings, responsável por levá-las de volta ao Brasil. O pessoal de terra e parte dos oficiais aviadores regressaram ao país a bordo do navio de transporte de tropas USS General M. C. Meigs, que também conduzia o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira. 

A embarcação deixou o porto de Nápoles em 6 de julho de 1945, marcando o retorno ao Brasil dos integrantes do 1º Grupo de Aviação de Caça após sua participação na campanha aérea da Segunda Guerra Mundial.Uma equipe de 20 pilotos seria escolhida para se deslocar por via aérea aos Estados Unidos, para receberem 19 P-47D-30-RA novos, equipados com o que de mais avançado existia, como miras K-14B, cabides subalares S-1, radar de alerta traseiro AN/APS-13 (para detecção de aeronaves aproximando-se no quadrante traseiro da aeronave, em um cone de 60° e um alcance de 8Km); equipamento para roupas anti-G e provisão para instalação de cinco foguetes HVAR de 127mm em cabides subalares “zero-length”  (sem trilhos para os foguetes).  Esses P-47D-30 chegaram ao Brasil em julho de 1945, antes mesmo dos  embarcados da Itália, e vieram a equipar o 1º 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) com os P-47D "veteranos da Campanha na Itália" ao  chegaram ao Brasil sendo montados no Galeão, para serem transladados em voo até a Base Aérea de Santa Cruz, para serem alocados junto ao  2º Grupo de Caça (GpCa), unidade criada em 17 de agosto de 1944 na Base Aérea de Natal e transferida em outubro para o Rio de Janeiro, estando inicialmente equipados com aeronaves Curtiss P-40 Warhawk.   Com o reequipamento desta nova unidade com os P-47D, e novas turmas de pilotos necessitando serem treinadas,  decidiu-se que, após passarem por rigoroso treinamento em aeronaves AT-6D no Estágio de Seleção de Pilotos de Caça (ESPC), os pilotos selecionados seriam transferidos ao 2º Grupo de Caça (GpCa) para a conversão operacional para o modelo. Neste momento restavam poucas células ativas ainda do modelo inicial P-47D-RE-25, que conviviam com as versões posteriores.  Em 1947, a fim de recompor a frota, seriam  adquiridas 25 células usadas do  P-47D Thunderbolt, provenientes da reserva estratégica da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), no âmbito do programa de assistência militar conhecido como American Republics Project (Projeto Repúblicas Americanas).  Durante o translado dessas aeronaves para o Brasil, uma delas foi perdida em acidente, sendo as vinte e quatro restantes incorporadas às unidades de caça da Aeronáutica brasileira. Essas aeronaves passaram a equipar o 1º/9º Grupo de Aviação e o 2º/9º Grupo de Aviação, designações recentemente adotadas pelos antigos grupos de aviação de caça da força aérea. Ainda em 1947, três dessas células foram destacadas para o Esquadrão Misto de Instrução do Curso de Tática Aérea (EMI-CTA), unidade responsável pela formação e aperfeiçoamento tático de pilotos militares. Esse esquadrão estava sediado na Base Aérea de São Paulo, localizada em Cumbica, importante centro de instrução e treinamento da aviação militar brasileira no período. Uma dessas aeronaves seria posteriormente perdida em um acidente ocorrido em 1950. As duas restantes permaneceriam em operação até serem devolvidas às unidades de caça operacionais da Força Aérea Brasileira, retornando ao 1º/9º Grupo de Aviação e ao 2º/9º Grupo de Aviação, onde continuaram a integrar a linha de frente da aviação de caça brasileira durante os anos iniciais da década de 1950. Em 1949, os esquadrões de caça sediados na Base Aérea de Santa Cruz (BASC) recuperaram suas designações históricas, passando a ser conhecidos como 1º/1º Grupo de Aviação de Caça e 2º/1º Grupo de Aviação de Caça.  Essas unidades constituíam o núcleo da aviação de caça da Força Aérea Brasileira no período imediato do pós-guerra. 
Em 1951 foi criado o 3º/1º Grupo de Aviação de Caça, unidade que sucedeu o Estágio de Seleção de Pilotos de Caça (ESPC). Inicialmente, essa unidade foi equipada com aeronaves  AT-6D Texan, utilizadas para o treinamento avançado e para a preparação tática de pilotos destinados à aviação de caça. Em 13 de outubro de 1952, os P-47D  em serviço receberam uma nova designação, passando a ser identificados como F-47 Thunderbolt, de acordo com o sistema de nomenclatura adotado pela Aeronáutica brasileira naquele período. Entretanto, no início da década de 1950, o número de aeronaves disponíveis encontrava-se significativamente reduzido. Em 1952 restavam poucos F-47 em condições operacionais, em grande parte devido à escassez de peças de reposição  incluindo itens básicos como pneus  além do desgaste natural decorrente de anos de uso intensivo. Desde o início de sua operação no Brasil, 24 aeronaves haviam sido perdidas em acidentes. Com o objetivo de recompor parcialmente a frota, em 1953 foram adquiridos outros 25 exemplares do Republic P-47D-30-RA, obtidos por meio do Mutual Defense Assistance Program (MDAP), programa de assistência militar. Nesse mesmo período, a Força Aérea Brasileira (FAB) iniciou a transição para a era da aviação a jato com a incorporação dos caças Gloster Meteor F.8 e   T.7, recebidos em 1953. Com a chegada dessas aeronaves, os 1º/1º Grupo de Aviação de Caça e 2º/1º Grupo de Aviação de Caça foram reequipados com o novo caça a reação britânico, marcando o início da substituição dos F-47  nas unidades de primeira linha. Como consequência desse processo, os aviões remanescentes foram transferidos para o 3º/1º Grupo de Aviação de Caça. Contudo, com a extinção dessa unidade ainda em 1953, decidiu-se redistribuir as aeronaves restantes para outras organizações da Aeronáutica. Assim, em novembro daquele mesmo ano, doze F-47  foram deslocados para Natal, no Rio Grande do Norte, com o objetivo de equipar o 2º/5º Grupo de Aviação  conhecido pelo indicativo operacional “Joker”. Essa unidade passou então a assumir a responsabilidade pelo treinamento e pela formação de novos pilotos de caça. Posteriormente, no final de 1956, os F-47 ainda em operação foram transferidos para o 1º/4º Grupo de Aviação, conhecido como “Pacau”, sediado na Base Aérea de Fortaleza. Nessa fase final de sua carreira operacional, as aeronaves já apresentavam elevado índice de panes mecânicas, comprometendo gradualmente a segurança das operações. Diante desse cenário, em 30 de julho de 1957, foram encerradas as operações regulares com o F-47  Força Aérea Brasileira (FAB). Gradualmente, as aeronaves remanescentes foram transferidas em voo para o Parque de Aeronáutica de São Paulo, onde seriam desativadas. Durante um desses voos de traslado, ocorrido em 25 de novembro de 1957, um piloto que conduzia um  desde Fortaleza sofreu um desmaio provocado pela intoxicação causada por vapores de gasolina que infiltravam a cabine da aeronave. Em consequência desse incidente, no dia 26 de novembro de 1957 foi oficialmente determinada a proibição de voos operacionais com os F-47 Thunderbolt no Brasil. Registra-se, contudo, que um último voo teria sido realizado em São Paulo, na primeira semana de dezembro daquele ano, por um jovem piloto do 1º/4º Grupo de Aviação.


Em Escala.
Para representarmos o Republic P-47D-27RA Thunderbolt "B-5 229265” quando em uso pelo 1º/1º Grupo de Aviação de Caça durante a campanha da Itália, empregamos o excelente kit da Academy na escala 1/48 embalado pela HTC Modelismo. Fizemos uso ainda do set de conversão da Commando 5 em resina que apresenta a barbatana dorsal, sendo a mesma facilmente adaptada no modelo original. Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM Decals que estão presentes no kit da HTC - Academy.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura padrão presente em algumas das células entregues a Força Aérea Brasileira no teatro de operações da Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Após o regresso ao Brasil, as aeronaves mantiveram este padrão principalmente com as insígnias nacionais “americanizadas”, até passarem pelo processo de revisão em âmbito e parque quando passar a adotar a pintura em metal natural com aplicação de verde oliva para parte superior frontal para evitar reflexos. Este último padrão com algumas alterações como a inclusão de marcações de alta visibilidade seria mantido até a desativação do modelo no ano de 1958.

Bibliografia :
- O Trator Voador por Jackson Flores Junior- Revista Força Aérea Nº 2
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 por Jackson Flores
- P-47D Thunderbolt - Wikipédia http://en.wikipedia.org/wiki/Republic_P-47_Thunderbolt
- Republic P-47 Thunderbolt na FAB por Aparecido Camazano Alamino - Revista Asas Nº 62