Schneider C-17S - M1919 (155 mm)

História e Desenvolvimento.
Em 1836, os irmãos Adolphe Schneider (1802–1845) e Joseph Eugène Schneider (1805–1875), oriundos de uma família da região da Lorena, fundaram a empresa Schneider, Frères & Cie. na cidade de Le Creusot, situada na região da Borgonha, na França. Estruturada como uma sociedade em comandita por ações, a empresa nasceu a partir da aquisição das forjas e fundições locais, então em situação de falência. A operação contou com o apoio financeiro do banqueiro François-Alexandre Seillière e do industrial Louis Boigues, proprietário das Forges de Fourchambault, que viam no empreendimento uma oportunidade de revitalizar a atividade metalúrgica na região. A localidade situava-se próxima a importantes reservas de carvão e minério de ferro, matérias-primas essenciais para a indústria siderúrgica, além de contar com acesso ao Canal du Centre.  Esse contexto geográfico favorável somava-se ao ambiente de transformação econômica vivido pela França na primeira metade do século XIX, marcado pela expansão da Revolução Industrial e pelo rápido desenvolvimento das ferrovias, criando condições propícias para o florescimento de novos empreendimentos industriais. Embora não possuíssem formação técnica formal, os irmãos Schneider demonstraram notável visão empresarial e capacidade administrativa. Dentro da empresa, estabeleceram uma divisão clara de responsabilidades: Adolphe dedicava-se à gestão administrativa e comercial, enquanto Eugène concentrava-se nos aspectos técnicos e operacionais da produção. Essa complementaridade de funções revelou-se decisiva para o rápido desenvolvimento da companhia. Desde sua fundação, a Schneider, Frères & Cie. foi concebida com a ambição de modernizar a indústria metalúrgica francesa, inspirando-se em inovações tecnológicas já consolidadas no Reino Unido, então líder mundial no setor. A partir de 1837, a empresa iniciou um amplo processo de modernização de suas instalações industriais, introduzindo altos-fornos alimentados a coque, fornos de pudlagem mecanizados e equipamentos de forjamento de grande porte. Entre as inovações adotadas destacava-se o emprego do chamado marteau-pilon (martelo-pilão), uma poderosa máquina de forjamento desenvolvida pelo engenheiro François Bourdon. Esse equipamento permitia a fabricação de peças metálicas de grandes dimensões com maior precisão e eficiência, representando um avanço significativo para a siderurgia da época. O dinamismo industrial da empresa rapidamente produziu resultados notáveis. Em 1838, a Schneider, Frères & Cie. fabricou a primeira locomotiva a vapor construída em território francês, denominada La Gironde, destinada à Compagnie du Chemin de Fer Paris–Versailles.  Além da fabricação de locomotivas, a empresa passou a produzir trilhos, pontes metálicas e estruturas destinadas a estações ferroviárias, atendendo à crescente demanda por infraestrutura ferroviária tanto na França quanto em outros países europeus. Ao longo das décadas seguintes, seus produtos seriam exportados para mercados internacionais, incluindo a Itália, a Espanha e o Império Russo. Paralelamente, a empresa investiu em uma estratégia de integração vertical de sua cadeia produtiva.

Esse modelo permitia controlar todas as etapas do processo industrial, desde a extração de matérias-primas até a fabricação final dos produtos. Para isso, foram adquiridas minas de carvão no bassin de Blanzy e depósitos de minério de ferro, garantindo segurança no abastecimento das usinas siderúrgicas. Outro fator importante para o sucesso da empresa foi a criação de modernos ateliês de mecânica e montagem em Le Creusot, apoiados por escritórios internos de engenharia e projetos. Essa estrutura permitiu à companhia desenvolver suas próprias máquinas-ferramentas e soluções industriais, um diferencial tecnológico. Em 1845, a trajetória da empresa sofreu um duro revés com a morte prematura de Adolphe Schneider, vítima de um acidente a cavalo. A perda de uma das figuras centrais do empreendimento representou um momento delicado para a jovem companhia. A partir de então, seu irmão, Joseph Eugène Schneider, assumiu integralmente a condução dos negócios, reorganizando a estrutura administrativa e renomeando a empresa como Schneider & Cie. Apesar das dificuldades iniciais, Eugène demonstrou notável capacidade de liderança e visão estratégica, garantindo não apenas a continuidade das atividades industriais em Le Creusot, mas também ampliando progressivamente o alcance econômico e político da companhia. Sob sua direção, consolidou-se como um dos mais importantes grupos industriais da França ao longo do século XIX. A empresa diversificou suas atividades, expandindo-se para setores estratégicos como engenharia pesada, construção naval e, posteriormente, a indústria de armamentos. Um dos momentos decisivos para essa transformação ocorreu após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana. O conflito evidenciou a superioridade tecnológica da artilharia prussiana, especialmente no uso de canhões de aço produzidos pela indústria alemã. Diante desse cenário, o governo francês passou a incentivar o fortalecimento de sua própria base industrial militar, estimulando empresas nacionais a investir no desenvolvimento de novos armamentos. A Schneider & Cie. respondeu prontamente a essa demanda estratégica. A empresa passou a produzir canhões, blindagens e ligas metálicas avançadas, incluindo o aço ao níquel, material particularmente adequado para aplicações militares e construção naval. Paralelamente, o grupo expandiu suas atividades no setor naval, participando da produção de navios de guerra e componentes estruturais destinados a grandes estaleiros.  No campo ferroviário, a Schneider & Cie. manteve igualmente posição de destaque, exportando locomotivas e equipamentos para diversos mercados internacionais. Entre os projetos de maior relevância esteve sua participação no fornecimento de material ferroviário para a construção da Ferrovia Transiberiana, no Império Russo, uma das mais ambiciosas obras de infraestrutura do final do século XIX. A capacidade produtiva da empresa também foi ampliada com a aquisição, em 1876, de um gigantesco marteau-pilon de 100 toneladas. Esse equipamento permitia o forjamento de peças metálicas de grande porte, como eixos de navios, componentes estruturais e tubos de artilharia pesada, reforçando a posição da empresa como uma das mais avançadas siderúrgicas da Europa. 
No plano social, Eugène Schneider implementou em Le Creusot uma política de caráter paternalista voltada para a organização da vida operária. No auge do desenvolvimento industrial da cidade, a empresa chegou a empregar cerca de 10 mil trabalhadores.  Após a morte de Eugène Schneider, em 1875, a direção da empresa foi assumida por seu filho, Henri Schneider, e durante sua gestão, foram introduzidos processos siderúrgicos mais avançados, como os convertidores,  processo Bessemer e os fornos Processo Siemens-Martin, que permitiam produzir aço em maior escala e com qualidade superior Aproveitando a legislação francesa de 1884, que autorizava a exportação de material militar, a empresa. passou a fornecer artilharia para diversos países. Entre os modelos estavam os canhões Long Tom, desenvolvidos a partir de projetos da escola técnica associada ao engenheiro Gustave Canet. Essas peças foram empregadas por diferentes exércitos estrangeiros, incluindo forças do Transvaal, onde demonstraram grande eficácia em combates contra tropas britânicas no sul da África. Foi justamente nesse contexto, após o término da Guerra Franco-Prussiana, que o setor militar passou a ocupar um papel cada vez mais central nas atividades da corporação Schneider–Creusot. Sob a liderança de Henri Schneider, foram estabelecidas linhas industriais dedicadas ao desenvolvimento e à produção de uma ampla variedade de canhões e morteiros, consolidando definitivamente a empresa como um dos principais polos de engenharia de artilharia. Esse processo de expansão atingiu um novo patamar em 1897, quando a empresa adquiriu as instalações das Forges et Chantiers de la Méditerranée, localizadas na cidade de Le Havre. A incorporação dessas oficinas especializadas em engenharia naval e produção de armamentos trouxe para o grupo uma equipe altamente qualificada de engenheiros e técnicos, além de conhecimentos avançados no desenvolvimento de sistemas de artilharia moderna, fortalecendo ainda mais a posição da empresa no cenário internacional. Ao incorporar aos seus quadros toda a equipe de engenheiros e projetistas o grupo absorveria um amplo know how neste segmento, se destacando principalmente a tecnologia de produção de canhões sem recuo.  Neste momento o principal trunfo da corporação era proporcionado pela atuação do engenheiro Gustave Canet, que ao longo dos anos alçaria os postos de diretor de artilharia no Creusot e diretor honorário da Artilharia de Schneider. Ele seria o principal responsável pelo desenvolvimento da família de canhões Canet Schneider, produzida em uma variada gama de calibres, para as mais diversas aplicações em âmbito terrestre e naval.  No início do ano de 1909 a Schneider Fréres & Cie seria procurada pelo governo imperial russo, visando o desenvolvimento de um obuseiro pesado de campanha, resultando na proposta de uma arma de  152 mm, que seria aceito, recebendo a designação de Modelo 1910  Nos anos seguintes, este projeto passaria a despertar o interesse por parte do Exército Frances (Armée de Terre), levando a criação de uma versão customizada, contando agora com o calibre padrão de 155 mm, passando a ser denominado como "Canon de 155 C modèle 1915 Schneider". 

Este obuseiro apresentava uma concepção convencional envolvendo um sistema de recuo hidropneumático montado sob o cano de disparo e um escudo de arma para proteger a tripulação. Todo o conjunto estava disposto em uma carruagem com rodas de madeira. Empregava ainda uma culatra de parafuso interrompido com munição de carga separada; o projétil sendo carregado primeiro seguido pela quantidade adequada de propelente em uma caixa de cartucho de latão. Uma bandeja de carregamento seria articulada ao lado esquerdo do berço, e seria colocado na posição após a culatra se abrir para segurar o projétil antes de ser empurrado para dentro da câmara, mantendo o projetil na posição até que pudesse ser acionado.  A peça seria tracionada por um conjunto de oito cavalos mediante o acoplamento de um suporte com duas rodas. Diferentemente do canhão Modelo 1910 russo, contava com um cano mais longo e maior velocidade de saída, projetando um alcance de 2.500 metros, porém apresentava um peso extra na ordem de 1.100 kg . Rapidamente este modelo se tornaria a principal arma de artilharia pesada de campanha das forças francesas, em seguida contratos de exportação seriam firmados, com o governo espanhol com os primeiros canhões sendo entregues em 1917, e posteriormente em novembro declarada padrão para uso do Exército Espanhol (Ejército de Tierra), embora seu primeiro uso militar tenha sido na África em 1921, durante o assalto a Turiet Hamed.  Curiosamente este armamento seria largamente operado pelos dois lados durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).  Operacionalmente o Exército Frances (Armée de Terre) preferia o emprego cargas ensacadas para suas munições em detrimento aos cartuchos de latão usados pelo Canon de 155 C modèle 1915, principalmente em função do custo de produção e alta necessidade de latão (um material estratégico) utilizado neste processo. Esta exigência se mostraria um problemas real durante o início da Primeira Guerra Mundial, dado o grande número de projéteis gastos. Neste contexto seria solicitado a Schneider Fréres & Cie um redesenho de seu projeto original , permitindo assim o uso de pólvora ensacada. A empresa atenderia a esta demanda passando a fazer uso de um novo obturador, adaptando um a nova culatra para o cano original. Muitas armas armas tiveram suas bandejas de carregamento removidas porque isso diminuiu a taxa de tiro, uma bandeja portátil foi usada pelos carregadores.  No entanto este processo enfrentaria problemas de ordem técnica, com a arma que receberia a designação de Canon de 155 C modèle 1917 Schneider, sendo colocada em serviço somente no final de 1916. Ao todo até o termino do conflito 3.000 canhões deste seriam entregues, com muitas centenas do Canon de 155 C modèle 1915 sendo atualizados para o modelo 1917.  No decorrer da Primeira Guerra Mundial, este modelo seria adotado como obuseiro padrão pela Força Expedicionária Americana - AEF, sendo adquiridos maios de 1.500 peças. O último tiro americano disparado durante o conflito seria realizado pelo obuseiro  chamado "Calamity Jane", do 11º Regimento de Artilharia de Campanha. Seriam adquiridos os diretos  não exclusivos sobre o design e projetos, resultando na produção local. Estes diferiam um pouco dos modelos franceses, apresentando um escudo reto em vez de curvo, pneus de borracha em vez de aço em rodas raiadas de madeira, uma pá giratória e um mecanismo de disparo ligeiramente diferente. 
Contratos de exportação seriam firmados, com centenas de peças sendo incorporadas as forças terrestres da Grécia, Romênia, Polônia, Portugal, Espanha, Finlândia, Argentina, Iugoslávia, Brasil, Sérvia e Rússia. Ao longo da década de 1920 os investimentos mundiais destinados a defesa permaneceriam estagnados, não havendo neste período nenhum desenvolvimento significativo de novas armas de artilharia desta categoria, com os canhões Schneider Modelos 1917 e 1918 se mantendo como arma padrão em diversos exércitos europeus. Nos Estados Unidos, entre os anos de 1934 e 1936, uma grande parte destas peças seriam modernizadas, recebendo vagões de transporte equipados com freios a ar, novas rodas metálicas e pneus pneumáticos de borracha para tração de motores de alta velocidade, adaptando os assim a tração mecanizada de alta velocidade.  Este programa permitiria que estes canhões  permanecessem como arma padrão de artilharia, até começarem a ser substituídos pelos novos obuseiros M-1 de 155 mm a partir do final de 1942.  Com a queda da França em junho de 1940, um número significativo de canhões Schneider M-1917 e M-1918 foi capturado pelo Exército Alemão (Wehrmacht).  Essas peças foram rapidamente incorporadas ao serviço ativo, recebendo a designação alemã SFH 414 15,5 cm, sendo empregados  em diversas frentes. Na Muralha do Atlântico, os canhões Schneider reforçaram posições defensivas ao longo do litoral francês. Além disso, foram alocados a divisões de infantaria de segunda linha estacionadas na França ocupada e empregados na Campanha do Norte da África, onde apoiaram as forças do Afrika Korps. Durante a Guerra de Continuação (1941-1944),  cerca de 160 obuses Schneider foram fornecidos ao Exército Finlandês pelas forças alemãs. Essas peças foram intensivamente utilizadas contra as tropas soviéticas, especialmente em operações defensivas na Frente da Carélia. A capacidade dos M-1917 e M-1918 de operar em terrenos acidentados e condições climáticas adversas, como os rigorosos invernos finlandeses, tornou-os valiosos.  O Exército Real Italiano (Regio Esercito Italiano) também se beneficiou da captura de canhões Schneider durante o conflito. Durante a Batalha da França em 1940, os italianos tomaram oito peças, e, posteriormente, na Campanha dos Balcãs, em outubro de 1940, capturaram 96 obuses na Grécia. Essas armas foram redesignadas como Obice da 155/14 PB e integradas ao arsenal italiano, sendo empregadas em operações nos Balcãs e no Norte da África. O Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) fez uso limitado dos obuses Schneider M-1917 e M-1918 nas fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, sendo   empregadas em combates iniciais, com destaque para a invasão japonesa das Filipinas . Durante a defesa de Bataan, o 301º Regimento de Artilharia do Exército Colonial Filipino, equipado com obuses Schneider, utilizou essas peças contra as forças japonesas, marcando seu batismo de fogo no conflito. Cerca de cem obuseiros M-1918 modernizados seriam fornecidos ao Reino Unido sob o programa Lend-Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), passando a ser empregados no final de 1941 no teatro de operações do norte da África. Após o término do conflito, muitos destes canhões permaneceriam em serviço até a década e 1960. Já o Exército Boliviano, receberia em 1976 uma doação de dezesseis obuses do Exército Argentino pertencentes aos modelos Schneider L.15.05 e L.30.05, com estes se mantendo em serviço até o início do século XXI. 

Emprego no Exército Brasileiro.
A artilharia brasileira, enraizada nas lutas coloniais e consolidada após a Independência de 1822, é um pilar da história militar do país, marcada por momentos de bravura, inovação e resiliência. As origens da artilharia brasileira remontam ao período colonial, quando brasileiros se mobilizaram em conflitos como as Batalhas de Guararapes, enfrentando forças holandesas em Pernambuco com táticas rudimentares, mas corajosas. Após a Independência, em 1822, a artilharia de campanha começou a se estruturar como uma arma organizada, ganhando prestígio no Império do Brasil. Diferentemente da infantaria e da cavalaria, que exigiam menos anos de formação, a artilharia demandava treinamento completo na Academia Militar do Império, refletindo sua complexidade técnica. Os artilheiros, muitas vezes jovens oficiais, dedicavam-se a dominar cálculos balísticos e manobras táticas, forjando uma tradição de excelência que marcaria gerações. O auge desse período foi a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), onde a artilharia brasileira, sob o comando do Marechal Emílio Luís Mallet, se destacou na Batalha de Tuiuti (1866), a maior batalha campal da América do Sul. Apelidada de “Artilharia Revólver” por sua precisão e rapidez, a força brasileira, protegida por um fosso tático inovador, resistiu a ataques paraguaios com uma determinação eternizada na frase de Mallet: “Eles que venham! Por aqui não passam!”. Nascido na França em 1801 e naturalizado brasileiro, Mallet comandou com destreza, sendo promovido a brigadeiro por mérito e agraciado com o título de Barão de Itapevi em 1878, ascendendo a marechal em 1885. Sua liderança transformou a artilharia em um símbolo de orgulho nacional, inspirando gerações de artilheiros. A influência da Friedrich Krupp AG no Brasil começou em 1872, com a aquisição dos primeiros canhões de campanha de 75 mm, destinados aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Essas peças, fabricadas em Essen, Alemanha, representavam o auge da tecnologia bélica, superando os canhões franceses La Hitte, que até então equipavam o arsenal brasileiro. Na década de 1880, o Exército Imperial recebeu mais três dezenas de canhões Krupp 75 mm Modelo 1895, recomendados pelo Conde d’Eu, Comandante Geral da Artilharia e presidente da Comissão de Melhoramento de Material do Exército. Como genro do Imperador Dom Pedro II, o Conde d’Eu desempenhava um papel central como conselheiro militar, defendendo a superioridade dos canhões alemães, que alcançavam até 12.000 metros, uma melhoria significativa em relação aos modelos anteriores. A adoção em larga escala dos canhões Krupp marcou uma virada na modernização do Exército Brasileiro, recuperando o potencial militar após anos de estagnação. Para os artilheiros, operar essas armas era um desafio que exigia precisão e treinamento. Em exercícios nos campos de treinamento do Rio de Janeiro, equipes de cinco a sete homens carregavam projéteis de 6,5 kg, ajustavam sistemas de mira e disparavam sob o calor carioca, fortalecendo a camaradagem. Ironicamente, os canhões recomendados pelo Conde d’Eu foram usados contra uma rebelião monarquista na Guerra de Canudos (1896-1897), onde provaram sua eficácia em combates reais, apesar das condições adversas do sertão baiano.

No início do século XX, o Exército Brasileiro enfrentava desafios significativos decorrentes da obsolescência de seus armamentos e doutrinas militares. As limitações técnicas haviam sido expostas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), o maior conflito da América do Sul, e confirmadas na Campanha de Canudos (1896-1897), que revelou a inadequação do arsenal brasileiro frente às demandas de combates modernos. Os canhões Krupp de 75 mm, adquiridos em 1872 e 1895, embora inovadores em sua época, já não acompanhavam os avanços tecnológicos da artilharia global, como os sistemas de recuo hidropneumático e a maior mobilidade exigida pelas táticas contemporâneas. Este cenário refletia não apenas a ausência de uma indústria bélica nacional, mas também a dependência de importações e a necessidade urgente de modernização para alinhar o Brasil às potências militares da época. A transformação do Exército Brasileiro ganhou impulso com a liderança de figuras visionárias, como os Marechais João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Francisco de Paula Argolo e, sobretudo, Hermes da Fonseca, que, com o apoio do Barão do Rio Branco, então Ministro das Relações Exteriores, impulsionaram a chamada Reforma Hermes (1900-1908). Este processo de reestruturação, conduzido durante o governo de Rodrigues Alves e intensificado sob a presidência de Afonso Pena, buscava reposicionar o Exército como uma força moderna, capaz de responder aos desafios estratégicos do novo século. Inspirado pelo modelo do Exército Prussiano, particularmente pelo sistema de Estado-Maior desenvolvido por Helmuth von Moltke, Hermes da Fonseca defendia a necessidade de equipar o Brasil com armamentos de ponta e adotar uma organização militar baseada na disciplina, na eficiência e na inovação tecnológica. A Reforma Hermes incluiu a reorganização territorial do país, com a divisão em 21 regiões para alistamento militar e 13 para inspeção, além da criação e regulamentação do Estado-Maior do Exército, um órgão central para planejamento estratégico e coordenação operacional. Essas medidas visavam não apenas modernizar a estrutura militar, mas também fortalecer a soberania nacional em um contexto de crescente influência geopolítica do Brasil na América do Sul. Reconhecendo a inexistência de uma indústria bélica nacional capaz de suprir as necessidades do Exército, Hermes da Fonseca organizou, em agosto de 1908, uma missão militar à Europa, com destino à Alemanha e à França, dois dos principais centros de tecnologia militar da época. A missão, composta por oficiais de alto escalão, tinha como objetivo identificar fornecedores de armamentos modernos e estabelecer parcerias para a transferência de conhecimentos técnicos e profissionais, essenciais para a capacitação do Exército Brasileiro. Os resultados dessa missão foram expressivos, culminando na aquisição de um vasto arsenal de equipamentos destinados a renovar as capacidades da infantaria, cavalaria e artilharia. Para a infantaria, foram adquiridos 400.000 fuzis Mauser de calibre 7 mm, fabricados na Alemanha, reconhecidos por sua precisão e confiabilidade. A cavalaria foi equipada com 10.000 lanças Ehrhardt, 20.000 espadas e 10.000 mosquetões, adaptados às táticas de combate montado. 
O início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) marcou uma transformação profunda na arte da guerra, com avanços significativos em tecnologia de armamentos e doutrinas militares. A introdução de tanques, aviação militar, artilharia pesada e táticas de guerra de trincheiras elevou os padrões da guerra moderna, expondo a obsolescência de muitas forças armadas ao redor do mundo. No Brasil, o Exército, apesar dos avanços promovidos pela Reforma Hermes (1900-1908), viu-se rapidamente superado a partir de 1918, tanto em termos de equipamentos quanto de organização doutrinária. Os canhões Schneider-Canet de 75 mm e Krupp de mesmo calibre, adquiridos no início do século XX, embora robustos, não acompanhavam as inovações tecnológicas, como os sistemas de recuo mais avançados e a mobilidade exigida pelas novas táticas de combate. Essa obsolescência era agravada pelo contexto geopolítico da América do Sul, onde a Argentina experimentava um rápido desenvolvimento econômico e militar, emergindo como a principal ameaça hipotética ao Brasil. A rivalidade histórico-estratégica entre os dois países, intensificada desde a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), motivou o governo brasileiro a buscar soluções urgentes para reequilibrar a balança militar na região. A partir do segundo semestre de 1918, sob a presidência de Delfim Moreira e com o apoio do Ministro da Guerra, General Alberto Cardoso de Aguiar, o Brasil iniciou esforços para implementar um novo ciclo de modernização militar, visando recuperar sua capacidade defensiva e projeção regional. Reconhecendo a necessidade de expertise externa para conduzir esse processo, o governo brasileiro abriu negociações com a França, uma potência militar reconhecida por sua avançada indústria bélica e doutrina de combate, especialmente após seu desempenho na Primeira Guerra Mundial. Em 1918, diálogos avançados foram conduzidos em Paris entre o adido militar brasileiro na França, Coronel Malan d’Angrogne, e o Ministro da Guerra francês, Georges Clemenceau, uma figura central na vitória aliada. Paralelamente, o General Maurice Gamelin, que mais tarde se tornaria comandante-chefe do Exército Francês, foi enviado ao Brasil em uma missão de avaliação. Sua tarefa era analisar o estado das Forças Armadas Brasileiras, identificando deficiências em equipamentos, treinamento e organização, para embasar uma proposta francesa de cooperação. As negociações culminaram na assinatura de um contrato em Paris, ratificado meses depois no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1919, durante o governo de Epitácio Pessoa. Este acordo criou oficialmente a Missão Militar Francesa, um marco na história militar brasileira. Pelo contrato, oficiais franceses assumiriam, por quatro anos, o comando de instituições-chave, como a Escola de Estado-Maior (EEM), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), a Escola de Intendência e a Escola de Veterinária.  Em contrapartida, o Brasil comprometeu-se a priorizar a indústria militar francesa em suas aquisições de armas e equipamentos, desde que as propostas francesas fossem competitivas em preço e prazo de entrega em relação a outros fornecedores internacionais.  A chegada da Missão Militar Francesa, liderada por oficiais experientes como o General Louis Gillet, marcou o início de uma transformação profunda no Exército Brasileiro. 

A partir de 1921, novos regulamentos foram adotados, alinhados às doutrinas francesas, incluindo normas para a Direção e Emprego das Grandes Unidades, o Exercício e Emprego da Artilharia e o Serviço de Estado-Maior em Campanha. Essas mudanças modernizaram a organização tática e logística, introduzindo conceitos de mobilidade, coordenação interarmas e planejamento estratégico, inspirados nas lições da Primeira Guerra Mundial.  As avaliações iniciais dos oficiais franceses identificaram a urgência de atualizar o arsenal brasileiro, com ênfase na substituição de equipamentos obsoletos. Uma concorrência internacional foi aberta, e, conforme estipulado no contrato, as propostas da indústria francesa, lideradas pela Schneider & Cie., foram priorizadas devido a custos competitivos e qualidade técnica. Entre os armamentos adquiridos, destacaram-se: Canhões Schneider C-50 1902 de 150 mm: Utilizados em aplicações terrestres e ferroviárias, reforçando a artilharia de costa e de campanha. Canhões Schneider 75/28 Modelo 1906 de 75 mm: Peças de tiro rápido, ideais para apoio tático em operações móveis. Canhões Schneider C-18-6 Modelo 1919 de 75 mm: Modelos de montanha, leves e adaptados para terrenos acidentados. Obuses Schneider C-17S de 155 mm: Peças pesadas, destinadas a equipar unidades de artilharia de fronteira, com entregas realizadas em 1923. Os obuses Schneider C-17S de 155 mm, projetados para atender às necessidades de artilharia pesada, foram adaptados ao contexto do Exército Brasileiro, que na década de 1920 era predominantemente hipomóvel, ou seja, dependente de tração animal. Essas peças foram entregues com rodas de madeira, adequadas ao transporte por cavalos e muares, mas que limitavam sua mobilidade em terrenos irregulares. Destinados às unidades de artilharia de fronteira, os C-17S ofereciam maior poder de fogo em comparação com os canhões de montanha Schneider-Canet de 75 mm, que eram leves e facilmente transportáveis, mas apresentavam restrições devido ao seu peso e dimensões. Seguindo o padrão francês, as baterias de artilharia equipadas com os Schneider C-17S eram organizadas com: Quatro canhões de 155 mm por bateria. Quatro carros de munição, cada um transportando 38 munições por canhão, complementados por 60 unidades adicionais em carros de apoio. Um carro de apoio com ferramental para manutenção. Um carro-forja, responsável por reparos em campanha, incluindo consertos nas rodas de madeira e nos carros de tração. Cada bateria era operada por um efetivo de três oficiais, dez sargentos e 121 praças, mobilizando 39 cavalos e 96 muares para a tração das peças, munições e pessoal.  Em comparação com os canhões de montanha Schneider-Canet 75 mm Mountain Gun, notabilizados por sua leveza e relativa facilidade de transporte em terrenos acidentados, os obuses Schneider C-17S 155 mm apresentavam desafios operacionais mais significativos. Seu elevado peso, associado ao uso de rodas de madeira  características comuns à artilharia pesada do início do século XX restringia sensivelmente sua mobilidade. Em consequência, essas peças mostravam-se mais adequadas ao emprego em posições defensivas relativamente fixas ou em áreas de terreno regular, como nas extensas regiões de fronteira do território brasileiro. 
Ao todo, oitenta unidades do modelo seriam incorporadas ao Exército Brasileiro. Por se tratar de sistemas de artilharia considerados modernos para a época, apresentaram desempenho operacional satisfatório e, a exemplo dos canhões Schneider-Canet de 75 mm, estiveram presentes em diversos episódios de conflito interno que marcaram o país nas primeiras décadas do século XX. Essas peças de artilharia participaram, direta ou indiretamente, de acontecimentos como a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932, sendo neste último conflito empregadas por forças em ambos os lados da contenda. Tal presença evidencia o papel central que esses obuseiros desempenharam na estrutura de artilharia do Exército Brasileiro durante o período entre guerras. Os obuses Schneider C-17S de 155 mm permaneceriam como um dos principais meios de artilharia pesada do país até o final da década de 1930. A partir de 1940, entretanto, iniciou-se um processo gradual de modernização com a introdução dos canhões britânicos Vickers Armstrong 152.4 mm Gun, cujo principal avanço residia no alcance significativamente superior  cerca de 18.400 metros  aliado a uma cadência de tiro de aproximadamente três disparos por minuto. Esse desempenho superava amplamente o das peças então em serviço, cujo alcance máximo situava-se em torno de 9.000 metros. No ano seguinte, esse processo de modernização seria reforçado com a chegada dos canhões alemães Krupp Flak 88 mm C/56 Modelo 18, amplamente reconhecidos por sua versatilidade e eficiência. Diferentemente das peças mais antigas, esses sistemas já eram concebidos para tração motorizada, passando a equipar unidades de artilharia de costa e defesa antiaérea do Exército Brasileiro. A modernização do parque de artilharia nacional ganharia novo impulso a partir de 1942, quando o Brasil passou a integrar o programa norte-americano Lend-Lease Act. Por meio desse acordo, o país recebeu, entre diversos equipamentos militares, os obuseiros norte-americanos M1 155 mm Howitzer, que representavam um padrão mais avançado de artilharia de campanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, embora já não representassem o estado da arte da artilharia moderna, os obuses Schneider C-17S de 155 mm continuaram a desempenhar papel relevante em manobras e exercícios de defesa, equipando especialmente regimentos de artilharia a cavalo. Com a gradual ampliação da motorização  a partir do final da década de 1930, essas peças passaram por um processo de modernização realizado nos arsenais de guerra localizados no Rio de Janeiro e em General Câmara, no Rio Grande do Sul. Nessas instalações, os obuseiros receberam novas rodas metálicas com pneus, substituindo as antigas rodas de madeira, o que possibilitou sua tração por caminhões alemães produzidos pela empresa Henschel & Sohn. Graças a essas adaptações, os obuses Schneider C-17S permaneceram em serviço por várias décadas, integrando o sistema de artilharia do Exército Brasileiro até a segunda metade da década de 1960, quando foram finalmente retirados de operação. Algumas dessas peças foram preservadas, permanecendo atualmente como importantes testemunhos materiais da evolução histórica da artilharia no Brasil.

Em Escala.
Para recriar o canhão Schneider C-17S de 155 mm em escala, foi selecionado o  kit produzido pela Das Werk na escala 1/35. Este modelo destaca-se pela excepcional qualidade de seus componentes, incluindo um conjunto de peças em photo-etched que reproduzem com precisão os detalhes técnicos do obuseiro, como o sistema hidropneumático de recuo, o berço de aço cromo-níquel e os cilindros do freio e recuperador. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura com que estes canhões foram recebidos no pais em 1923, e seguem o esquema de camuflagem tática aplicada aos canhões Schneider  C-17S 155 mm empregados pela Força Expedicionária Americana - AEF durante a Primeira Guerra Mundial. No Brasil estas peças receberiam posteriormente uma pintura total em verde oliva, a exemplo dos canhões norte-americanos recebidos durante a Segunda Guerra Mundial. 

Bibliografia: 
- Schneider Frères et Compagnie - https://www.lesechos.fr
- Schneider-Canet - https://pt.wikipedia.org/wiki/Schneider-Canet
- Missão Militar Francesa por Rodrigo N. Araujo -  https://cpdoc.fgv.br/
- Arquivos do Museu Militar de Conde de Linhares – Rio de Janeiro

CV3-35 Ansaldo II (Carro de Assalto)


História e Desenvolvimento.
A Gio. Società Giovanni Ansaldo & Compagnia, uma das mais emblemáticas indústrias italianas do período moderno, teve sua origem no século XIX, fundada por um grupo de proeminentes empreendedores genoveses — Raffaele Rubattino, Giacomo Filippo Penco, Carlo Bombrini e Giovanni Ansaldo. Este último, personalidade de destacada relevância histórica, imprimiu à empresa uma visão inovadora e empreendedora que viria a definir sua trajetória nas décadas seguintes. De formação humanista e com interesses que se estendiam das artes e ciências à engenharia industrial, Ansaldo tornou-se um verdadeiro símbolo do espírito de modernização que caracterizava a Itália unificada e em processo de industrialização. Nos primeiros anos de existência, até o final do século XIX, a Gio. Ansaldo & C. concentrou suas atividades no setor ferroviário, dedicando-se à fabricação e ao reparo de locomotivas, vagões, caldeiras, guindastes e equipamentos metalúrgicos. Essa especialização refletia as necessidades de uma Itália em transformação, cujo desenvolvimento econômico dependia fortemente da expansão da malha ferroviária e da modernização de sua infraestrutura. Durante esse período, a empresa conheceu um crescimento expressivo, alcançando um contingente de dez mil empregados distribuídos em sete unidades fabris, o que a posicionou entre as maiores organizações industriais do país. Com o avanço do século XX, a companhia iniciou uma fase de diversificação de atividades, expandindo-se para os setores de construção naval e obras mecânicas de grande porte. Essa estratégia visava reduzir a dependência do setor ferroviário e consolidar sua presença em áreas estratégicas para o desenvolvimento nacional italiano. Em 1904, a empresa passaria por um momento de inflexão em sua história, ao ser adquirida por Ferdinando Maria Perrone, figura influente da indústria e das finanças italianas. Sob sua liderança — e posteriormente com o apoio de seus filhos, Mário e Pio Perrone —, a Gio. Ansaldo & C. entrou em um processo de reorganização e modernização empresarial, pautado pela busca da autossuficiência industrial. Para tanto, implementou-se uma ampla integração vertical, abrangendo todas as etapas do processo produtivo, desde a siderurgia básica até a fabricação de armamentos e material bélico. Essa estratégia transformou a Ansaldo em um verdadeiro conglomerado industrial, capaz de competir com os maiores grupos europeus da época. O início da Primeira Guerra Mundial (1914–1918) representou uma virada decisiva para a empresa. Embora a Itália tenha inicialmente mantido uma posição de neutralidade, os dirigentes da Ansaldo desempenharam papel ativo na defesa da entrada do país no conflito. Por meio de lobby político e financiamento de grupos nacionalistas e beligerantes, entre os quais se destacava o movimento protofascista liderado por Benito Mussolini, a companhia alinhou-se aos interesses expansionistas e industriais da elite italiana. Com a entrada efetiva da Itália na guerra, a Gio. Ansaldo & C. vivenciou um surto de prosperidade sem precedentes. A demanda por armamentos, locomotivas, motores e embarcações impulsionou exponencialmente seu crescimento. O valor de mercado da empresa, que em 1914 era de cerca de 30 milhões de liras, ultrapassou 500 milhões de liras ao término do conflito — um aumento de mais de 1.500% em apenas quatro anos.

No auge de sua expansão, durante o verão de 1918, a Ansaldo empregava aproximadamente 80 mil trabalhadores em dezenas de complexos industriais distribuídos por toda a Itália. Nesse período, o grupo controlava uma vasta rede de subsidiárias e empresas associadas, entre as quais se destacavam a A. Cerpelli & C., Banca Industriale Italiana, Cantieri Officine Savoia, Dynamit Nobel, Gio. Fossati & C., Lloyd Italico, Nazionale di Navigazione, Pomilio, Società Idroelettrica Negri e Transatlantica Italiana, consolidando-se como um dos maiores conglomerados industriais e financeiros da Europa. Entretanto, o rápido crescimento, sustentado sobretudo pela economia de guerra, revelou-se insustentável no período pós-conflito. Já a partir de 1910, a empresa enfrentava tensões financeiras estruturais, especialmente em sua relação com o Banco Italiano di Sconto, seu principal credor. Com o fim da guerra e o colapso da demanda militar, essas fragilidades tornaram-se evidentes, levando a Gio. Ansaldo & C. a uma crise de liquidez e endividamento, que ameaçou a continuidade de suas operações e marcou o início de um longo processo de reestruturação e declínio. Em 1921, a família Perrone retirou-se da direção da Gio. Ansaldo & Compagnia, deixando para trás uma das maiores indústrias italianas em meio a uma grave crise financeira que ameaçava sua solvência. Para evitar a falência, formou-se um consórcio liderado pelo Banco Italiana di Sconto, que assumiu a missão de reestruturar a empresa e preservar um dos pilares da indústria nacional. Durante a década de 1920, a Ansaldo adotou uma postura mais conservadora, marcada pela retração de suas operações e pela busca de estabilidade econômica. Embora o setor eletromecânico tenha apresentado sinais modestos de crescimento, o conjunto da companhia permaneceu fragilizado, lutando para recuperar o dinamismo e a rentabilidade do período anterior à Primeira Guerra Mundial. A crise estrutural que assolava a economia italiana — agravada pela instabilidade política e pelas transformações do período entre guerras — levou, na década de 1930, à intervenção do Istituto per la Ricostruzione Industriale (IRI), criado pelo governo para salvar conglomerados estratégicos em dificuldades. Sob a administração do IRI, a Gio. Ansaldo & C. viveu um processo de revitalização, impulsionado pelo programa de rearmamento e pela política autárquica do regime fascista, que visava à autossuficiência nacional em setores essenciais, especialmente o militar e o energético. Nesse contexto, a fábrica Ansaldo de Gênova recebeu uma importante encomenda do Regio Esercito Italiano (Exército Real Italiano): o desenvolvimento de um carro de combate leve sobre lagartas, que combinasse mobilidade, simplicidade construtiva e baixo custo operacional. O projeto foi inspirado no bem-sucedido Carden-Loyd Mk VI, blindado britânico projetado pela Vickers-Armstrongs no início da década de 1920 para o Exército Real Britânico. Esse veículo multifuncional era utilizado tanto para tracionar peças de artilharia quanto para realizar missões de reconhecimento, sendo considerado um dos primeiros tanques leves modernos.
Os engenheiros italianos da Ansaldo e da Fiat Automobiles S.p.A. trabalharam em conjunto na adaptação do modelo britânico às necessidades locais. Em janeiro de 1929, o governo italiano celebrou um contrato de licença com a Vickers-Armstrongs, autorizando a produção nacional do Carden-Loyd Mk VI. As unidades fabricadas na Itália receberam modificações, como a instalação de metralhadoras aeronáuticas de 8 mm e, em alguns casos, lança-chamas Fiat OCI, resultando em um veículo versátil e adequado às exigências do exército. No serviço italiano, o modelo foi designado CV-29, sigla de Carro Veloce 1929, refletindo sua natureza de “tanque rápido” e o ano de introdução em serviço. Durante os primeiros anos de operação, o CV-29 foi amplamente elogiado por suas qualidades técnicas — especialmente sua agilidade, leveza e confiabilidade —, tornando-se uma referência no segmento de veículos blindados leves. O sucesso do projeto italiano ultrapassou fronteiras. Mais de 450 unidades derivadas do conceito original foram exportadas para mais de vinte países, consolidando a reputação técnica da Ansaldo no mercado internacional. O modelo também exerceu forte influência sobre o desenvolvimento de outros carros de combate leves, como o japonês Type 92 Jyū-Sokosha, o polonês TKS e o italiano CV3-33, evidenciando o papel da indústria bélica italiana como vetor de modernização tecnológica no período entre guerras. Com o propósito de racionalizar custos e acelerar o desenvolvimento tecnológico, o novo modelo de carro blindado leve foi projetado tomando como base o bem-sucedido Fiat CV-29, resultando em uma colaboração estratégica entre as equipes de engenharia da Fiat Automobiles S.p.A. e da Gio. Ansaldo & Compagnia. Essa parceria representou um marco importante na integração da indústria bélica italiana, permitindo a conjugação de recursos técnicos, experiência produtiva e capacidade industrial, em consonância com as diretrizes de autossuficiência estabelecidas pelo regime fascista. Em maio de 1933, o primeiro protótipo funcional do novo blindado foi concluído e submetido a um rigoroso programa de testes e avaliações de campo. Os resultados revelaram desempenho satisfatório em termos de mobilidade, confiabilidade e potência de fogo, levando o governo fascista italiano a firmar um contrato inicial para a aquisição de 300 unidades. A produção foi dividida entre as duas empresas: a Fiat, em sua planta de Turim, e a Ansaldo, em suas instalações de Gênova. O veículo recebeu a designação oficial de Fiat-Ansaldo CV-33, sendo incorporado ao Regio Esercito Italiano (Exército Real Italiano) como o principal carro leve de reconhecimento da década. Pouco tempo depois, atendendo às solicitações de oficiais do exército e com base nas experiências operacionais iniciais, foi iniciado, em 1934, o desenvolvimento de uma versão aprimorada do modelo. O projeto foi finalizado em 1935, resultando na criação do Tankette CV-35 (Carro Veloce 1935), um veículo de pequeno porte, destinado a missões de reconhecimento, apoio à infantaria e transporte leve de armamento.

O CV-35 possuía tripulação de dois homens — motorista e artilheiro — e destacava-se por suas dimensões compactas (3,15 metros de comprimento, 1,28 metro de altura e 1,40 metro de largura) e peso aproximado de 3.100 kg, características que lhe conferiam excelente mobilidade. Equipado com um motor Fiat-Spa CV3, de 43 cavalos de potência e 2.746 cm³, refrigerado a água, o blindado podia alcançar velocidades de até 42 km/h em estrada e 12 km/h em terrenos acidentados, com autonomia média de 140 km, desempenho notável para um veículo de sua categoria. Entre as principais inovações técnicas, destacavam-se a adoção de chapas de blindagem aparafusadas — substituindo o método tradicional de rebitagem ou soldagem —, que simplificava a manutenção e reduzia custos, e a introdução de metralhadoras gêmeas Fiat Mod. 14/35 de 8 mm, que substituíram as antigas Fiat-Revelli Mod. 1914 de 6,5 mm, proporcionando maior poder de fogo e confiabilidade em combate. Em 1935, foram autorizadas a construção e entrega de cinco unidades pré-série do CV-35, destinadas a um novo ciclo de testes e avaliações operacionais, conduzidos ao longo de quatro meses. Os resultados foram altamente promissores, demonstrando significativa melhoria em desempenho e robustez. O sucesso desses ensaios consolidou o potencial militar e industrial do CV-35, assegurando à Fiat e à Ansaldo uma posição de destaque no emergente complexo industrial de defesa italiano, fortemente apoiado pelo governo de Benito Mussolini. Em 1935, o Comando do Regio Esercito Italiano (Exército Real Italiano) oficializou uma encomenda de 1.300 unidades do carro blindado leve Fiat-Ansaldo CV-35, consolidando o modelo como o principal veículo de reconhecimento e apoio da força terrestre italiana. As entregas iniciaram-se no começo de 1936, em paralelo à assinatura de um contrato complementar com a Gio. Ansaldo & Compagnia, destinado à modernização dos carros Fiat CV-33 já em serviço. Após as atualizações — que incluíram melhorias na blindagem, no sistema de ventilação e na adequação para armamento duplo —, os veículos modernizados receberam a nova designação L3/33, em que “L” significa Leggero (leve). Esses tanques ligeiros, além de sua função de reconhecimento, foram empregados em tarefas de tração de peças de artilharia leve e adaptados em versões lança-chamas, demonstrando a versatilidade e o valor tático do projeto. Os Fiat-Ansaldo CV-35 entraram em serviço ativo ainda em 1935 e tiveram seu batismo de fogo durante a Segunda Guerra Ítalo-Abissínia (1935–1936), conflito que marcou o auge do expansionismo colonial promovido pelo regime de Benito Mussolini. Sob o comando do marechal Emilio De Bono, aproximadamente 200 mil soldados italianos partiram da Eritreia, então colônia italiana, rumo ao território da Abissínia (atual Etiópia), sem declaração formal de guerra. Os CV-35 desempenharam papel crucial no avanço das forças italianas, oferecendo apoio direto à infantaria e contribuindo para o êxito das operações ofensivas em terreno montanhoso e irregular, ainda que dentro de um cenário de guerra assimétrica. Durante a década de 1930, o CV-35 ganhou amplo reconhecimento internacional, sendo exportado para diversos países da Europa, da América Latina e da Ásia, o que o transformou em um dos veículos blindados mais difundidos de sua época. Seu desempenho prático o levou a ser empregado em múltiplos conflitos, refletindo a política italiana de projeção de influência militar por meio da exportação de armamentos.
Um dos episódios mais notáveis de sua carreira internacional ocorreu na Guerra Civil Espanhola, onde o CV-35 foi amplamente utilizado pelo Corpo de Tropas Voluntárias (Corpo Truppe Volontarie, CTV), enviado pela Itália em apoio às forças nacionalistas lideradas por Francisco Franco. Embora inicialmente eficaz contra forças mal equipadas, o CV-35 mostrou-se vulnerável nos combates diretos, sendo frequentemente destruído por contra-ataques de infantaria e canhões antitanque soviéticos de 37 mm, além de superado pelos tanques leves T-26 e BT-5, fornecidos às forças republicanas. Além do teatro espanhol, o CV-35 foi empregado em diversos outros conflitos internacionais, incluindo a Segunda Guerra Sino-Japonesa, a Guerra Eslovaco-Húngara e a Guerra Anglo-Iraquiana , consolidando sua presença global em diferentes frentes. No momento em que a Itália ingressou na Segunda Guerra Mundial, em 10 de junho de 1940, o Regio Esercito dispunha de cerca de 100 unidades do L3/33, organizadas em dois batalhões blindados, enquanto os  CV-35 equipavam as três divisões blindadas italianas, atuando ao lado de carros médios e veículos de apoio mecanizado. Eles também integravam os batalhões de tanques das divisões motorizadas, as esquadras de tanques leves das divisões “Rápidas” (Celere) e uma série de batalhões independentes destacados para operações de apoio direto. Contudo, apesar de sua ampla presença nos teatros de operação do Norte da África, dos Bálcãs e do Mediterrâneo, o CV-35 revelou-se obsoleto já nos primeiros anos do conflito mundial. Sua blindagem delgada, eficaz apenas contra armas leves, mostrou-se incapaz de resistir aos canhões antitanque de 37 mm utilizados pelas forças britânicas e francesas, evidenciando a defasagem tecnológica e doutrinária das forças blindadas italianas diante das exigências do combate moderno. Após a Campanha dos Bálcãs (1940–1941), a maioria dos carros de combate leves CV3-35 foi realocada para tarefas secundárias, com poucas unidades permanecendo em serviço na linha de frente. Durante a Guerra Greco-Italiana (1940–1941), aproximadamente 40 blindados CV3-35 foram capturados e utilizados pelo Exército Grego (Ελληνικός Στρατός) na 19ª Divisão Mecanizada, desempenhando um papel significativo nos combates. Após a invasão da Iugoslávia e da Grécia em abril de 1941, mais unidades dos modelos CV3-35 e L3/33 foram capturadas e empregadas pelas forças de resistência iugoslavas e gregas. Com a assinatura do armistício em 1943, grande parte da frota remanescente dos blindados CV3-33 e CV3-35 foi incorporada pelas tropas de ocupação do Exército Alemão (Wehrmacht) e pelo Exército Republicano Nacional da República Social Italiana (Esercito Nazionale Repubblicano). Essas unidades permaneceram em operação até a rendição final em 8 de maio de 1945. Entre os anos de 1933 e 1943, aproximadamente 2.500 unidades do CV3-33 e CV3-35 foram produzidas. Esses blindados foram fabricados em diversas variantes, incluindo:  L3 CC: Versão antitanque equipada com um canhão Solothurn de 20 mm, instalado no lugar da metralhadora. L3 LF: Versão lança-chamas, que tracionava um tanque de combustível blindado com capacidade de 500 litros. L3 Lança-Pontes: Configuração projetada para o transporte e lançamento de pontes.  L3 Radio Comando: Equipado com um rádio Marelli RF1 CA de alta potência para funções de comando e comunicação. Uma parcela significativa dos blindados CV3-33 e CV3-35 foi exportada para países como China Nacionalista, Afeganistão, Albânia, Áustria, Bolívia, Brasil, Bulgária, Croácia, Hungria, Iraque e Espanha Nacionalista. Os últimos operadores dos modelos CV3-33 e CV3-35 mantiveram esses blindados em serviço até meados da década de 1950, principalmente em funções de apoio e segurança.

Emprego no Exército Brasileiro.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o Ministério da Guerra brasileiro enviou o 1º Tenente de Cavalaria José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque à França, como parte de um programa de intercâmbio militar e educacional. Na Escola de Carros de Combate de Versalhes, o tenente dedicou-se ao estudo das especialidades de motorização e mecanização. Em abril de 1919, foi designado como observador no 503º Regimento de Artilharia de Carros-de-Assalto, onde teve contato direto com a operação dos carros de combate Renault FT-17, adquirindo valiosa experiência prática. José Pessoa destacou-se como autor do tratado Os "Tanks" na Guerra Europeia, publicado em 1921 no Rio de Janeiro. A obra analisava o desenvolvimento e o emprego de veículos blindados no teatro de operações europeu durante a Primeira Guerra Mundial, consolidando seu papel como um dos principais pensadores militares brasileiros sobre o tema. Além disso, foi um dos idealizadores da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, Rio de Janeiro, e fundador do Centro de Instrução de Artilharia de Costa, que em 1942 foi transformado em escola. Ao retornar ao Brasil, a experiência do Tenente José Pessoa exerceu significativa influência no comando do Exército Brasileiro, incentivando a aquisição de carros de combate. A escolha recaiu sobre o Renault FT-17, impulsionada por uma aproximação político-militar entre os governos brasileiro e francês. Contudo, o próprio José Pessoa expressava ressalvas quanto à adequação do modelo para as necessidades da futura força blindada brasileira, considerando-o menos que ideal. Por meio do Decreto nº 15.235, de 31 de dezembro de 1921, foi criada a Companhia de Carros de Assalto, sediada na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Com isso, o Exército Brasileiro tornou-se pioneiro no uso de armas blindadas na América do Sul, embora a operacionalidade dessas forças já existisse antes de sua formalização. A introdução dos Renault FT-17 representou uma inovação significativa, mas enfrentou resistência entre oficiais mais antigos, devido à ausência de uma visão estratégica clara e à falta de uma cultura de inovação. A resistência à adoção dos carros de combate gerou deficiências doutrinárias no Exército Brasileiro, que comprometeram o desenvolvimento e a eficácia da Companhia de Carros de Assalto. Essas limitações persistiram, dificultando o emprego efetivo dos blindados durante as crises políticas e militares das décadas de 1920 e 1930. O uso operacional dos Renault FT-17 ocorreu durante a Revolução Constitucionalista de 1932, em que os blindados foram empregados em missões de defesa de pontes e neutralização de ninhos de metralhadoras. Apesar de seu papel limitado, essas operações marcaram a primeira utilização prática de carros de combate pelo Exército Brasileiro em um conflito interno.

Em 22 de abril de 1935, por meio do Aviso nº 248, foi criada a Seção de Carros-de-Combate no Batalhão de Guardas, utilizando os carros de combate já existentes no Batalhão Escola de Infantaria. No mesmo período, sob a influência direta do chefe da Missão Militar Francesa, General Paul Noel, foi instituída a Seção de Motomecanização no Estado-Maior do Exército. Essas iniciativas representaram um avanço significativo na modernização das forças terrestres brasileiras, sinalizando um esforço para integrar a motomecanização na doutrina militar. A criação da Companhia de Carros de Assalto em 1921, sob a liderança do Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, foi uma tentativa pioneira de introduzir a arma blindada no Exército Brasileiro. Contudo, a falta de visão estratégica por parte de setores conservadores da oficialidade resultou no abandono progressivo dessa iniciativa. A resistência à motomecanização revelou deficiências doutrinárias que comprometeram a continuidade do projeto, evidenciando a necessidade de uma mudança cultural para evitar o atraso operacional da Força Terrestre. Em 1938, o General Waldomiro Castilho de Lima, inspirado pelas operações militares italianas na Segunda Guerra Ítalo-Abissínia (1935–1936), trouxe novo ímpeto à discussão sobre a motomecanização no Ministério da Guerra. Reconhecendo a obsolescência dos carros de combate Renault FT-17, utilizados pelo Exército Brasileiro desde os anos 1920, foi decidida a substituição desses veículos por modelos modernos. A escolha recaiu sobre os carros de combate Fiat-Ansaldo CV3-35 II, que haviam demonstrado desempenho satisfatório em terrenos montanhosos durante a Guerra Civil Espanhola (1936–1939) e nas regiões áridas da Etiópia. Os Fiat-Ansaldo CV3-35 II representavam o auge do sucesso comercial da indústria bélica italiana, sendo adquiridos por diversos exércitos ao redor do mundo. Seguindo essa tendência, o governo brasileiro celebrou um contrato com o fabricante italiano para a compra de um lote desses veículos blindados. Apesar da relevância dessa decisão, a eficácia operacional dos novos carros de combate ainda enfrentava desafios devido a preconceitos persistentes entre a oficialidade mais tradicional do Exército Brasileiro em relação à adoção de armas blindadas. As ideias visionárias do Capitão José Pessoa, que defendia a importância da motomecanização desde os anos 1920, foram retomadas com entusiasmo pelo Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves. Sua dedicação foi fundamental para a consolidação da arma blindada no Brasil, superando resistências internas e promovendo a modernização da doutrina militar. A iniciativa de Flores marcou um ponto de inflexão, pavimentando o caminho para o fortalecimento das capacidades operacionais do Exército Brasileiro no campo da motomecanização.
Em 1938, o Exército Brasileiro iniciou um novo e decisivo capítulo em sua trajetória de modernização militar. Por determinação do Alto-Comando, a Seção de Carros-de-Combate do Batalhão de Guardas, sediada no Rio de Janeiro, passou a ser responsável pela operação dos recém-adquiridos carros de combate leves Fiat-Ansaldo CV3-35 II. Coube à mesma unidade reunir o efetivo e os equipamentos remanescentes da antiga força de blindados, incluindo os veteranos Renault FT-17, ainda em serviço. Essa reorganização teve como objetivo centralizar os recursos de motomecanização, conferindo maior eficiência operacional, administrativa e doutrinária à nascente arma blindada nacional. No final de abril de 1938, o Brasil recebeu 23 unidades dos Fiat-Ansaldo CV3-35 II, transportadas por via terrestre até o Depósito de Material Bélico de Deodoro, no Rio de Janeiro. Entre esses veículos, cinco eram equipados com metralhadoras Breda de calibre 13,2 mm, enquanto os dezoito restantes traziam metralhadoras duplas Madsen de 7 mm, de origem dinamarquesa. A chegada desses blindados simbolizou o início concreto da mecanização da Cavalaria brasileira, em sintonia com as tendências militares internacionais da década de 1930, marcadas pela valorização da mobilidade e da potência de fogo. Por meio do Aviso nº 400, de 25 de maio de 1938, foi criado o Esquadrão de Auto-Metralhadoras, incorporado ao Centro de Instrução de Motorização e Mecanização, como parte da recém-fundada Subunidade-Escola de Motomecanização. A nova organização foi aquartelada em Deodoro, em um edifício originalmente projetado para abrigar a Escola de Engenharia — estrutura que mais tarde daria origem à Escola de Material Bélico (EsMB). Essa medida consolidou o esforço institucional do Exército em integrar o ensino técnico e a experimentação prática no processo de modernização militar. A implantação do Esquadrão de Auto-Metralhadoras contou com o empenho notável do Capitão Carlos Flores de Paiva Chaves, oficial de reconhecida competência e dedicação. Com o auxílio de um sargento mecânico da Escola de Aviação Militar, o capitão coordenou a complexa transferência dos 23 blindados do Depósito de Material Bélico para as novas instalações da unidade, demonstrando notável espírito de iniciativa e compromisso com a consolidação da arma blindada no Brasil. Os Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram apresentados oficialmente ao público em 7 de setembro de 1938, durante a tradicional parada militar do Dia da Independência, realizada no Rio de Janeiro. O desfile marcou o surgimento da primeira subunidade mecanizada da Cavalaria brasileira, o Esquadrão de Auto-Metralhadoras, representando um marco simbólico na história militar nacional. O advento dessa unidade mecanizada refletiu o esforço do Exército Brasileiro em harmonizar a tradição da cavalaria hipomóvel — profundamente enraizada em sua cultura militar — com as demandas tecnológicas e estratégicas da motomecanização moderna. Assim, o ano de 1938 consolidou-se como um divisor de águas, em que tradição e inovação se uniram para moldar o futuro das forças blindadas no Brasil.

O Esquadrão de Auto-Metralhadoras, sediado em Deodoro, no Rio de Janeiro, consolidou-se, a partir de 1938, como o núcleo inicial da Cavalaria mecanizada brasileira. Seus 23 carros blindados leves Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram organizados em quatro pelotões, cada um composto por cinco veículos, além de três unidades de reserva. Em uma solução prática e simbólica, cada pelotão recebeu insígnias representando os naipes de baralho — copas, espadas, paus e ouros — pintadas em círculos brancos nas laterais dos blindados, sistema que facilitava a identificação tática e expressava o espírito de unidade e distinção entre as frações. Do ponto de vista técnico, quatro veículos de cada pelotão estavam armados com duas metralhadoras dinamarquesas Madsen de 7 mm, enquanto o quinto blindado, reservado ao comandante do esquadrão ou do pelotão, era equipado com uma metralhadora italiana Breda de 13,2 mm, de maior calibre e poder de fogo. A estrutura de apoio da unidade incluía duas viaturas de turismo, nove caminhões leves, sete motocicletas e oito motocicletas com sidecar, compondo o pelotão de apoio logístico e administrativo. O efetivo total atingia 102 militares, dos quais sete oficiais e noventa e cinco praças, com dois tripulantes designados para cada blindado Fiat-Ansaldo. Em um gesto de continuidade histórica, o esquadrão incorporou também os cinco últimos carros de combate Renault FT-17 ainda operacionais — símbolos da primeira experiência brasileira com forças blindadas, iniciada na década de 1920. Assim, a unidade reunia, em um mesmo aquartelamento, dois momentos distintos da evolução da motomecanização nacional: o experimentalismo dos anos pós-Primeira Guerra Mundial e a modernização impulsionada pelas transformações da década de 1930. A partir de 1939, o Esquadrão de Auto-Metralhadoras alcançou plena operacionalidade, assumindo um papel central na formação doutrinária e técnica da futura força blindada brasileira. O emprego dos Fiat-Ansaldo CV3-35 II, aliado à introdução de novos métodos de instrução, transformou gradualmente a mentalidade da oficialidade do Exército, ainda fortemente vinculada à tradição da cavalaria montada. Essa transição conceitual foi decisiva para consolidar os fundamentos táticos e organizacionais da Cavalaria Mecanizada, promovendo uma integração mais eficiente entre veículos blindados e unidades de infantaria. Entretanto, as limitações materiais logo se tornaram evidentes. O reduzido número de carros — apenas 23 unidades — impedia qualquer emprego operacional em larga escala, restringindo-os às atividades de ensino e adestramento. Além disso, sua obsolescência técnica tornava-os inadequados para os padrões bélicos emergentes na Europa, onde o poder de fogo e a blindagem dos tanques evoluíam rapidamente. Com o aprofundamento das relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos, no contexto da Segunda Guerra Mundial, o país passou a integrar programas de cooperação e assistência militar. Em agosto de 1941, chegaram os dez primeiros carros de combate leves M-3 Stuart, armados com canhões de 37 mm  um salto tecnológico significativo em relação aos antigos modelos italianos.
Esse fluxo de material ampliou-se em 1942, com a chegada de centenas de carros de combate M-3A3 e M-3A5 Lee, além dos M-3 e M-3A1 Stuart, consolidando a modernização da frota blindada nacional. Com a introdução desses novos veículos, os Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram gradualmente retirados de serviço, encerrando uma fase pioneira da história da blindagem no Brasil. Embora tecnologicamente superados, esses blindados italianos cumpriram um papel fundamental como instrumento de formação, experimentação e transição, preparando o Exército Brasileiro para ingressar na era moderna da guerra mecanizada — uma etapa decisiva para o fortalecimento da Doutrina Blindada Nacional nas décadas seguintes. Em meados de 1942, os carros blindados Fiat-Ansaldo CV3-35 II, embora substituídos por modelos mais modernos, não foram imediatamente retirados de serviço. Eles foram transferidos para Recife, Pernambuco, onde passaram a integrar o Esquadrão de Reconhecimento da Ala Motomecanizada do 7º Regimento de Cavalaria Divisionário. Essa unidade ficou sob o comando do 1º Tenente Plínio Pitaluga, que posteriormente lideraria o 1º Esquadrão de Reconhecimento da Força Expedicionária Brasileira (FEB), a única unidade de Cavalaria do Exército Brasileiro a atuar no teatro de operações europeu durante a Segunda Guerra Mundial. Em agosto de 1944, os Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram transferidos de volta ao Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Até o término da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945, esses blindados foram empregados em missões de patrulha em bases militares. Após o conflito, foram formalmente desativados e armazenados no Depósito Central de Material de Motomecanização, localizado no Rio de Janeiro. Em 1948, pelo menos cinco unidades dos Fiat-Ansaldo CV3-35 II foram transferidas para a Polícia Militar do Distrito Federal, onde permaneceram em operação até meados da década de 1950. Após esse período, foram recolhidas ao depósito. No mesmo ano, parte da frota foi doada ao governo da República Dominicana. Nos anos subsequentes, alguns desses veículos foram utilizados como alvos em exercícios de artilharia e lança-chamas, refletindo sua obsolescência operacional. Em reconhecimento à importância histórica dos Fiat-Ansaldo CV3-35 II, alguns exemplares foram preservados para fins museológicos e cerimoniais. Dois veículos estão em exposição no Museu Militar Conde de Linhares e no 15º Regimento de Cavalaria Mecanizada, ambos localizados no bairro de Campinho, Rio de Janeiro. Além disso, dois outros blindados, equipados com metralhadoras Madsen de calibre 7 mm e mantidos em condições operacionais, são utilizados em eventos e cerimônias na Escola de Material Bélico (EsMB), no Rio de Janeiro, e na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, RJ. Essas iniciativas asseguram a preservação da memória militar brasileira e o legado dos primeiros esforços de motomecanização no Exército Brasileiro.

Em Escala.
Para a representação do carro blindado Fiat-Ansaldo CV3-35 Modelo II, foi selecionado o kit da Bronco Models na escala 1/35. Este modelo destaca-se pelo elevado nível de detalhamento, incluindo componentes em photo-etched, que conferem maior realismo à maquete. Não foram necessárias modificações adicionais para reproduzir fielmente a versão utilizada pelo Exército Brasileiro, dado que o kit já atende às especificações históricas do veículo. Os emblemas e marcações do Fiat-Ansaldo CV3-35 Modelo II foram representados por meio de decais personalizados, desenvolvidos com base em diversos conjuntos produzidos pela FCM Decais. Essa customização garantiu a precisão histórica das insígnias e símbolos empregados pelo Exército Brasileiro, assegurando uma reprodução autêntica do veículo em sua configuração operacional.
O esquema de cores descrito, conforme o padrão Federal Standard (FS), foi adotado pelo Exército Brasileiro para todos os seus veículos militares nas décadas de 1920 e 1930. Inicialmente, os carros blindados Fiat-Ansaldo CV3-35 foram recebidos com o padrão de camuflagem utilizado pelo Exército Real Italiano (Regio Esercito Italiano). Contudo, esse esquema foi prontamente substituído para adequar os veículos ao padrão estipulado pelo Exército Brasileiro, garantindo uniformidade e conformidade com as normas nacionais.

Bibliografia :
- Carro Veloce L3/35 (CV-35) - http://www.tanks-encyclopedia.com
- CV33 Ansaldo Wikipédia - https://it.wikipedia.org/wiki/CV33
- CV35 Ansaldo Wikipédia - https://it.wikipedia.org/wiki/CV35
- Consolidação dos Blindados no Brasil - Expedito Carlos Stephani Bastos - www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/DC3.PDF

PT-19A/B e PT-3FG Fairchild M62

História e Desenvolvimento.
A Fairchild Aviation Corporation figura entre as mais emblemáticas fabricantes aeronáuticas da história do século XX. A empresa foi fundada em 1924 pelo visionário empreendedor norte-americano Sherman Fairchild, um prolífico industrial que, ao longo de sua vida, esteve diretamente envolvido na criação de mais de setenta empresas nos setores aeronáutico, fotográfico e eletrônico. Inicialmente estabelecida nas localidades de Farmingdale e East Farmingdale, no estado de Nova York, a Fairchild Aviation surgiu como a companhia-mãe destinada a coordenar e integrar os diversos interesses aeronáuticos de Fairchild, servindo como eixo central de um ambicioso conglomerado industrial. Desde seus primeiros anos, a empresa destacou-se pela inovação tecnológica. Entre suas realizações pioneiras esteve o desenvolvimento da Fairchild FC-1, reconhecida como a primeira aeronave norte-americana a incorporar uma cabine de pilotagem totalmente fechada, além de um sistema de trem de pouso com acionamento hidráulico  avanços significativos em uma época em que a maioria das aeronaves ainda operava com cockpits abertos e soluções mecânicas rudimentares. Essas inovações refletiam a preocupação da empresa com segurança, conforto e eficiência operacional, características que se tornariam marcas registradas de seus projetos. Dando continuidade à sua estratégia de crescimento e consolidação industrial, a Fairchild Aviation expandiu-se por meio da aquisição e incorporação de outras empresas relevantes do setor. Em 1925, integrou ao grupo a Caminez Engine Company, ampliando sua capacidade no desenvolvimento de motores aeronáuticos. Poucos anos depois, em 1929, adquiriu a Kreider-Reisner Aircraft Company, sediada em Hagerstown, no estado de Maryland, fortalecendo sua base produtiva e diversificando ainda mais seu portfólio de aeronaves. Em consonância com sua visão internacional e com a crescente demanda por aeronaves no mercado global, a Fairchild estabeleceu, ainda na década de 1920, sua primeira planta industrial fora dos Estados Unidos, criando a subsidiária Fairchild Aircraft Ltd. na cidade de Longueuil, na província de Quebec, Canadá. Essa unidade desempenharia papel fundamental na produção de aeronaves civis e militares, mantendo-se ativa até o início da década de 1950 e contribuindo significativamente para o esforço industrial norte-americano e aliado durante períodos críticos, como a Segunda Guerra Mundial. Além da FC-1, a Fairchild alcançou grande notoriedade com o lançamento do modelo Fairchild 71, uma aeronave projetada especificamente para missões de fotografia aérea. Diferentemente dos aviões então em serviço, o Fairchild 71 possuía desempenho e estabilidade suficientes para voar de forma contínua em altitudes mais elevadas, superando limitações operacionais que comprometiam a qualidade dos levantamentos fotográficos. Sua robustez, alcance e capacidade de carga rapidamente o tornaram um dos aviões mais populares de sua época. O prestígio do Fairchild 71 foi ainda reforçado por sua associação a feitos históricos, como sua utilização pelo explorador polar Richard E. Byrd durante a célebre expedição ao Polo Sul, realizada entre 1928 e 1929. Esse episódio projetou internacionalmente a reputação da empresa, demonstrando a confiabilidade de seus projetos em condições extremas. 

O reconhecimento governamental não tardaria: em 1935, a Fairchild firmou seu primeiro grande contrato oficial ao ser selecionada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos para o desenvolvimento de pesquisas baseadas em fotografia aérea, destinadas ao mapeamento da erosão do solo e à análise de seus impactos ambientais. Nesse contexto de expansão e consolidação institucional, a empresa passou a adotar oficialmente a denominação Fairchild Aircraft Manufacturing Company, reafirmando sua posição de destaque na indústria aeronáutica norte-americana. Apesar de deter uma participação relevante no mercado civil norte-americano especialmente no segmento de aeronaves destinadas ao treinamento básico e a usos utilitários, a presença da empresa no setor militar permanecia até o final da década de 1930, relativamente modesta. Sua atuação restringia-se, em grande medida, ao fornecimento de componentes e subconjuntos para outros fabricantes responsáveis pela produção de aeronaves militares destinadas as forças armadas. Tal cenário, contudo, começaria a se transformar à medida que o poder aéreo assumia papel central no pensamento estratégico das forças armadas norte-americanas, em um contexto internacional marcado pela crescente instabilidade política e militar que precedeu a Segunda Guerra Mundial. Naquele período, o treinamento básico dos futuros pilotos do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos  USAAC) era realizado quase exclusivamente com o emprego dos biplanos Boeing PT-17 Stearman. Embora robusta e confiável, essa aeronave apresentava uma concepção já ultrapassada, típica da aviação dos anos 1920. Seus comandos dóceis e comportamento previsível facilitavam o aprendizado inicial, mas não exigiam dos cadetes o desenvolvimento pleno das habilidades de pilotagem avançadas que seriam indispensáveis na operação das modernas aeronaves de combate, cada vez mais rápidas, pesadas e complexas. A percepção dessa lacuna formativa levou o comando militar, em 1939, a reconhecer a necessidade urgente de substituir seus obsoletos treinadores biplanos por uma aeronave mais representativa das características de voo dos caças e bombardeiros contemporâneos. Assim, ainda naquele ano, foi lançada uma concorrência oficial para o desenvolvimento de um novo treinador básico: um monomotor monoplano de asa baixa, capaz de oferecer aos futuros pilotos uma progressão gradual de aprendizado, estimulando o domínio de técnicas mais refinadas de controle, navegação e consciência situacional. Como requisito fundamental, a nova aeronave deveria apresentar baixos custos de aquisição, operação e manutenção, refletindo a necessidade de produção em larga escala em um cenário de rápida expansão das forças aéreas. O certame despertou grande interesse na indústria aeronáutica norte-americana. Oito fabricantes responderam ao chamado, submetendo um total de dezoito propostas distintas de aeronaves de treinamento. Entre os concorrentes encontrava-se a Fairchild Aircraft Manufacturing Company, que apresentou o modelo M-62. Diferentemente de algumas propostas concebidas exclusivamente para a competição, este modelo era fruto de um esforço de desenvolvimento interno da empresa, financiado com recursos próprios. 
Seus estudos preliminares haviam sido iniciados ainda em 1933, sob a liderança do engenheiro-chefe Armand Thiebolt, e tinham como princípios fundamentais o emprego de componentes mecânicos amplamente disponíveis no mercado, com elevada intercambiabilidade, bem como a utilização de materiais não estratégicos, reduzindo custos e facilitando a produção em grande escala. O primeiro protótipo do Fairchild M-62 realizou seu voo inaugural em 15 de maio de 1939, a partir das instalações da empresa em Hagerstown, no estado de Maryland. A aeronave era propulsionada por um motor Fairchild Ranger L-440, de seis cilindros em linha e 175 cavalos de potência, combinação que oferecia desempenho adequado às exigências do treinamento inicial, ao mesmo tempo em que mantinha a simplicidade mecânica e a confiabilidade desejadas pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Esse voo inaugural marcaria o início de um processo que não apenas redefiniria o papel da Fairchild no setor militar, mas também contribuiria de forma decisiva para a formação de toda uma geração de pilotos militares norte-americanos. Todas as propostas apresentadas foram submetidas a um amplo e rigoroso programa de avaliações comparativas e ensaios em voo, conduzidos sob a supervisão militar. Ao término desse processo, a decisão final recaiu sobre o modelo M-62, desenvolvido pela Fairchild Aircraft Manufacturing Company, considerado o mais equilibrado em termos de desempenho, custo, robustez e adequação pedagógica às exigências do treinamento militar moderno. A aeronave selecionada era um monomotor biplace, com assentos dispostos em tandem e cockpit aberto, adotando uma configuração monoplana de asa baixa cantiléver uma solução contemporânea que aproximava o aluno das características de voo dos caças então em desenvolvimento. O trem de pouso fixo, de bitola ampla, aliado ao tradicional volante de cauda, proporcionava excelente estabilidade durante as operações em solo, reduzindo a incidência de acidentes nas fases mais críticas do aprendizado. Seu projeto estrutural refletia uma filosofia de simplicidade aliada à robustez. A fuselagem era construída em tubos de aço soldados, revestidos em tecido, enquanto as asas e superfícies de cauda empregavam extensivamente compensado de madeira. A seção central das asas possuía revestimento em madeira compensada, assim como os painéis externos e a estrutura da empenagem. Essa solução construtiva, além de resistente, permitia a utilização de materiais não estratégicos, aspecto considerado fundamental diante da crescente mobilização industrial norte-americana. A propulsão ficava a cargo do motor Ranger L-440-3, com seis cilindros em linha invertido, com potência inicial de 175 hp. Essa configuração proporcionava uma seção frontal estreita, garantindo excelente visibilidade para instrutor e aluno uma característica altamente valorizada em uma aeronave de treinamento básico. O conjunto, aliado ao trem de pouso robusto e amplamente espaçado, resultava em uma plataforma estável e previsível, ideal para a formação inicial de pilotos militares. Em 22 de setembro de 1939, foi celebrado o primeiro contrato oficial entre a Fairchild Aircraft Manufacturing Company e o Exército dos Estados Unidos (U.S Army), prevendo a aquisição de 270 aeronaves.  

Em virtude do elevado emprego de madeira em sua estrutura, o acordo envolveu uma ampla rede de subcontratações, abrangendo 27 empresas especializadas em marcenaria, fábricas de móveis e indústrias correlatas, além de uma fundição dedicada à produção dos componentes metálicos. Essa estratégia não apenas acelerou a produção como também contribuiu para a mobilização do parque industrial civil em apoio ao esforço de defesa nacional. As primeiras aeronaves começaram a ser entregues às escolas de aviação em meados de 1940, recebendo a designação PT-19. Rapidamente, o modelo conquistou a confiança e a simpatia tanto dos instrutores quanto dos alunos, destacando-se por suas qualidades de voo, resistência estrutural e baixo custo operacional. O sucesso inicial levou, naturalmente, à intenção de formalizar novas encomendas. Entretanto, o agravamento da situação internacional com a intensificação da guerra na Europa e o avanço do expansionismo japonês no Sudeste Asiático impôs uma aceleração sem precedentes nos programas de fortalecimento das forças armadas norte-americanas. Nesse contexto, o poder aéreo assumiu papel central, ampliando de forma exponencial a necessidade de formação de pilotos militares. Como resposta direta a essa demanda urgente, em janeiro de 1941 foi firmado um contrato emergencial para a produção de mais de 3.000 aeronaves da versão aprimorada PT-19A, agora equipadas com o motor Ranger L-440-3 de 200 hp, consolidando definitivamente o treinador da Fairchild como um dos pilares da formação às vésperas da Segunda Guerra Mundial. A capacidade industrial instalada do fabricante revelou-se insuficiente para atender, nos prazos estipulados, ao ambicioso cronograma de entregas imposto pela rápida expansão do programa de treinamento aéreo norte-americano. Diante dessa limitação, decidiu-se pelo licenciamento da produção da aeronave a outras empresas do setor, entre elas a Howard Aircraft Corporation, a St. Louis Aircraft Corporation, a Aeronca Aircraft e, por fim, a canadense Fleet Aircraft. Essa medida permitiu a rápida ampliação da capacidade produtiva, ao mesmo tempo em que integrava diferentes polos industriais ao esforço de mobilização aeronáutica aliado. Paralelamente, a crescente necessidade de capacitar os futuros pilotos para o voo por instrumentos uma habilidade cada vez mais essencial em um cenário operacional moderno e de guerra total levou à adaptação de parte da linha de produção. Inicialmente, seis aeronaves foram convertidas mediante a incorporação de uma capota de lona móvel, que podia ser estendida sobre o cockpit dianteiro, permitindo que o cadete realizasse o voo completamente sem referências externas, orientando-se exclusivamente pelos instrumentos de bordo. Essa variante experimental demonstrou desempenho plenamente satisfatório e passou a ser designada PT-19B. O sucesso do conceito resultou na adoção da versão para produção em série, conduzida pela Fairchild  e pela Aeronca, totalizando cerca de 900 aeronaves construídas nessa configuração. Com frequência, o PT-19B é confundido com o PT-26, embora se trate de modelos distintos. O PT-26 foi desenvolvido especificamente para as Forças Armadas Canadenses e possuía cabine de pilotagem totalmente fechada, uma adaptação voltada a oferecer maior conforto e proteção às tripulações, especialmente em função das severas condições climáticas predominantes no Canadá. 
À medida que a produção das células passou a superar a disponibilidade de motores Ranger em linha, a equipe de engenharia desenvolveu uma nova variante, designada PT-23. Essa versão era equipada com o motor radial Continental R-670, com potência de 220 hp, solução que permitiu manter o ritmo de entregas sem comprometer a padronização do treinamento. No total, foram produzidas 869 aeronaves do modelo PT-23 e outras 250 da versão PT-23A, esta última adaptada especificamente para o treinamento de voo por instrumentos. Todas essas unidades foram construídas pelas linhas de montagem das empresas originalmente envolvidas no programa de produção da família PT-19. Entretanto, em 1943, o Comando de Treinamento passou a registrar um número crescente de reclamações relacionadas à durabilidade das asas de compensado dos modelos PT-19 e PT-23. Os problemas tornaram-se particularmente evidentes nas bases de treinamento localizadas nos estados do Texas e da Flórida, onde as aeronaves eram submetidas a elevadas temperaturas e altos índices de umidade. Nessas condições, verificaram-se casos recorrentes de deterioração da madeira, apodrecimento estrutural e separação das camadas de compensado. Como solução paliativa, adotou-se a substituição periódica das seções de asa em madeira após apenas dois a três meses de serviço ativo. Comparado aos antigos treinadores biplanos anteriores, o Fairchild PT-19 pode ser considerado um divisor de águas, pois pela primeira vez no estágio de treinamento básico os cadetes tinham acesso a uma aeronave de bom desempenho em altas velocidades e o carregamento das asas aproximava-se mais do das aeronaves de combate, com as características de voo exigindo mais precisão e cuidado, resultando assim na formação das habilidades e melhor rendimento dos alunos.  Desta maneira ao longo do conflito, o PT-19 realmente faria jus ao seu apelido, o "Berço dos Heróis". Suas principais virtudes estavam baseadas em sua simplicidade, baixo custo de aquisição e operação além de confiabilidade e segurança em voo. Vale citar que os Fairchild PT-19 foram a principal aeronave de treinamento das Mulheres Pilotos de Serviço da Força Aérea - WASP (Women's Airforce Service Pilots), organizações civis destinadas especificamente a formação de aviadoras, principalmente entre os anos de 1942 a 1944, liberando assim os homens para atuar nas missões de combate. Suas características positivas como treinador básico seriam notadas por outros países, sendo inclusive produzido sob licença no Canada e Brasil, com o objetivo de se desafogar as linhas de produção norte-americanas durante o conflito. Ao todo seriam entregues 7.742 unidades dispostas em dez versões, que seriam empregadas pelas forças aéreas dos. Estados Unidos, Canada, Brasil, Chile, China, Colômbia, Equador, Haiti, Índia, México, Nicarágua, Noruega, Paraguai, Peru, Filipinas, África do Sul, Rodésia, Reino Unido, Venezuela e Uruguai. Mesmo após sua aposentadoria no final da década de 1940, um número substancial encontraria seu caminho no meio civil, atualmente existem ainda centenas de aeronaves em condições de voo sendo mantidas por museus ou colecionadores. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano passaria a considerar com extrema preocupação uma possível ameaça de invasão no continente americano por parte das forças do Eixo (Alemanha – Itália – Japão). Quando a França capitulou em junho de 1940, o perigo nazista a América se tornaria claro se este país estabelecer bases operacionais nas ilhas Canárias, Dacar e outras colônias francesas. Neste contexto o Brasil seria o local mais provável de invasão ao continente pelas potencias do Eixo, principalmente devido a sua proximidade com o continente africano que neste momento também passava a figurar nos planos de expansão territorial do governo alemão. Além disso, no início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com crescente apreensão a possibilidade de uma ameaça direta ao continente americano, decorrente de uma eventual expansão das potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão para o hemisfério ocidental. A capitulação da França, em junho de 1940, representou um ponto de inflexão decisivo nesse cenário, ao evidenciar o risco concreto de que forças alemãs viessem a utilizar possessões francesas estratégicas, como as ilhas Canárias, Dacar e outras colônias no Atlântico e na África, como bases avançadas de operações. Nesse contexto, o Brasil passou a ser identificado como o ponto mais vulnerável para uma eventual tentativa de penetração do Eixo no continente sul-americano. Tal percepção decorria, sobretudo, de sua posição geográfica privilegiada, marcada pela relativa proximidade entre o Nordeste brasileiro e a costa ocidental africana região que, naquele momento, também figurava nos planos de expansão territorial e estratégica do governo alemão. A curta distância entre os dois continentes transformava o litoral nordestino em um elo natural entre os teatros de operações do Atlântico, da África e da Europa. Somava-se a essa vulnerabilidade estratégica a relevância econômica do Brasil no esforço de guerra aliado. Com o avanço japonês no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, as tradicionais fontes de látex matéria-prima essencial para a produção de borracha tornaram-se inacessíveis. Nesse cenário, o Brasil emergiu como o principal fornecedor desse insumo vital para a indústria de guerra aliada, reforçando ainda mais sua importância geopolítica e logística. Do ponto de vista militar e operacional, a extensa costa brasileira assumiu papel central na estratégia aliada. O litoral do Nordeste, em especial, apresentava condições ideais para o estabelecimento de bases aéreas e a operação de portos estratégicos, fundamentais para o translado de tropas, aeronaves, veículos e suprimentos rumo aos teatros de operações europeu e norte-africano. Tratava-se, na prática, do ponto de ligação aérea mais curto entre as Américas e o continente africano, conferindo ao Brasil um papel logístico insubstituível. Esse conjunto de fatores levou, de forma quase imediata, a um processo de intensificação das relações políticas, econômicas e militares entre o Brasil e os Estados Unidos. Tal aproximação materializou-se por meio de uma série de acordos de cooperação e investimentos estratégicos, entre os quais se destacou a adesão brasileira ao programa de ajuda militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). O principal objetivo desse programa era promover a modernização das Forças Armadas Brasileiras, que à época se encontravam próximas da obsolescência, tanto no que se referia a equipamentos e armamentos quanto, de forma igualmente crítica, à doutrina operacional. 

Os termos estabelecidos pelo acordo garantiram ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material bélico moderno. Por meio desses recursos, o país passou a ter acesso a aeronaves, armamentos, veículos militares, blindados e carros de combate compatíveis com os padrões tecnológicos então vigentes nas forças aliadas. Tal aporte revelou-se essencial para capacitar o Brasil a enfrentar as crescentes ameaças representadas pelas ações de submarinos alemães contra a navegação civil e militar ao longo de seu vasto litoral. No âmbito do poder aéreo, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB) figurava como o ramo das Forças Armadas que mais urgentemente demandava modernização. Sua frota era composta, em grande medida, por aeronaves já obsoletas, e carecia, de forma particularmente crítica, de meios adequados para o treinamento básico e avançado de pilotos. Tal deficiência comprometia não apenas a formação quantitativa de aviadores militares, mas, sobretudo, a qualidade técnica necessária à consolidação de uma força aérea moderna, eficiente e apta a responder às exigências impostas pelo contexto da guerra. No que se refere às aeronaves de instrução disponíveis à época, o quadro era limitado e heterogêneo. Encontravam-se em serviço pequenas quantidades de modelos como os Stearman Boeing A75, A76 e B76, os De Havilland DH-60T Moth Trainer e DH-82 Tiger Moth, o alemão Focke-Wulf FW-44J Stieglitz, além de pouquíssimas aeronaves de concepção mais moderna, como os North American BT-9 e NA-72. Esse conjunto era claramente insuficiente para sustentar um programa abrangente de formação de pilotos militares, especialmente diante da expansão acelerada das necessidades operacionais. Esse cenário começou a ser gradualmente revertido a partir de meados de 1942, quando o programa de apoio militar norte-americano passou a prever a entrega, em lotes sucessivos, de grandes quantidades de aeronaves de treinamento básico e avançado ao Brasil. No pacote inicial desse esforço de modernização estava incluídas cem células novas de fábrica do Fairchild PT-19 Cornell, destinadas ao emprego na instrução primária de voo. Entretanto, o desafio de transferir essas aeronaves para o território brasileiro revelou-se de elevada complexidade. O agravamento da Batalha do Atlântico, marcado pela intensificação das ações de submarinos alemães e italianos, tornava extremamente arriscado e, em muitos casos, inviável o transporte marítimo das aeronaves desmontadas. Diante dessa ameaça, optou-se por uma solução audaciosa: todas as aeronaves seriam trasladadas em voo desde os Estados Unidos, a partir das instalações do fabricante, até o Brasil, sendo pilotadas por oficiais da própria Força Aérea Brasileira (FAB). Tratava-se, sem dúvida, de uma missão de altíssimo risco. Na década de 1940, a infraestrutura aeronáutica na América Central e no norte da América do Sul era bastante precária. Existiam poucos campos de pouso adequados, os auxílios rádio à navegação eram escassos ou inexistentes, e o suporte logístico e de manutenção ao longo da rota era extremamente limitado. Ademais, o Fairchild PT-19, concebido para o treinamento primário, não era uma aeronave ideal para uma travessia de tal envergadura. Construído em grande parte em madeira, o modelo possuía cockpit aberto, oferecendo reduzido conforto à tripulação, além de apresentar autonomia limitada.
Essas restrições eram ainda agravadas por um fator adicional: o motor Ranger L-440, de seis cilindros em linha invertida, consumia quantidades consideráveis de óleo lubrificante. Em um percurso longo e repleto de incertezas, no qual os pontos de reabastecimento eram raros e pouco estruturados, a disponibilidade desse insumo tornava-se um elemento crítico para o sucesso da missão. Ainda assim, conscientes da importância estratégica daquela transferência, os aviadores brasileiros assumiram o desafio, demonstrando elevado grau de coragem, profissionalismo e comprometimento com a consolidação da aviação militar nacional. Assim, as aeronaves recebidas nas instalações da Fairchild Aircraft Manufacturing Company, na cidade de Hagerstown, Maryland, eram normalmente organizadas em esquadrilhas compostas por cinco aviões, cada qual pilotado por um único oficial aviador da Força Aérea Brasileira (FAB). Na seção dianteira da fuselagem  junto à nacele do motor  era instalado um tanque suplementar de combustível, medida indispensável para ampliar o alcance operacional do pequeno treinador e viabilizar as longas etapas do translado. A cada uma dessas primeiras esquadrilhas era incorporada uma aeronave de apoio do tipo Fairchild UC-61, monomotor de asa alta e cabine fechada, com capacidade para quatro tripulantes. Nesse avião de acompanhamento viajavam o comandante da esquadrilha, um sargento mecânico e um piloto reserva, além de ferramentas básicas e suprimentos indispensáveis à manutenção de campanha. A quantidade de bagagem transportada era deliberadamente reduzida, uma vez que parte significativa da capacidade disponível precisava ser destinada ao transporte de latas de óleo lubrificante, item crítico para o funcionamento dos motores Ranger L-440. Entre os meses de julho e agosto de 1942, trinta aeronaves Fairchild PT-19 foram trasladadas em voo desde Hagerstown até o Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, seguindo uma rota que atravessava a América Central continental e acompanhava o litoral norte da América do Sul. À época, sobrevoar o interior da Amazônia era praticamente inviável, em razão da inexistência de campos de pouso, da precariedade das comunicações e das severas limitações de navegação aérea na região. Essas primeiras esquadrilhas protagonizaram uma travessia verdadeiramente épica. O Brasil encontrava-se às vésperas de sua entrada formal na guerra, e não havia margem para postergar a missão à espera de condições meteorológicas mais favoráveis. As etapas foram realizadas sob circunstâncias climáticas extremamente adversas. Enquanto as aeronaves voavam sobre o território dos Estados Unidos, predominavam massas de ar quente e seco, com extensas áreas cobertas por névoa seca. A partir da América Central, contudo, o cenário mudava drasticamente: o ar tornava-se permanentemente úmido, com formação frequente de nuvens do tipo cumulonimbus e sucessivas pancadas de chuva, condições que se estenderiam até o litoral brasileiro e o Rio de Janeiro. Os pilotos brasileiros voavam em cockpits totalmente abertos, protegidos apenas por capacetes de couro e óculos de aviação, enfrentando longas horas de voo sob chuva, turbulência e calor intenso. Nos Estados Unidos, ainda era possível obter previsões meteorológicas relativamente confiáveis para a etapa seguinte. Entretanto, a partir do México e, sobretudo, na América Central, os voos eram realizados praticamente às cegas do ponto de vista meteorológico, sem qualquer garantia quanto às condições que seriam encontradas adiante. 

Os campos de pouso disponíveis ao longo da rota eram escassos e muito distantes entre si, e quase inexistiam aeródromos intermediários de alternativa. Em inúmeras etapas, após percorrida aproximadamente metade da distância prevista, tornava-se impossível retornar ao ponto de origem, pois o combustível restante já não permitia o regresso. Nessas circunstâncias, a única opção era prosseguir, independentemente do tempo à frente ou de eventuais problemas mecânicos. Não por acaso, oficiais do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), ao tomarem conhecimento da intenção dos aviadores brasileiros de trasladar os Fairchild PT-19 em voo até o Brasil, fizeram previsões sombrias. Segundo suas estimativas, ao menos 40% das aeronaves ficariam pelo caminho, vítimas das condições imprevisíveis e das limitações inerentes a um avião de treinamento primário, claramente não concebido para deslocamentos de tão longa distância. O sucesso dessas travessias, portanto, representaria não apenas uma vitória logística, mas também um testemunho eloquente da determinação e da coragem dos pilotos brasileiros naquele momento decisivo de sua história aeronáutica. Embora o risco da viagem fosse óbvio, houve problemas de diversa ordem, com várias aeronaves realizando pousos emergências em praias, à espera de condições meteorológicas mais favoráveis. Apesar de todos os prognósticos negativos, só houve uma perda de vida em todas as viagens durante esta megaoperação de translado aéreo: o Primeiro-Tenente Aviador QO Auxiliar Kenneth Lindsay Molineaux, acidentou-se com o seu Fairchild PT-19 quando sobrevoava o Território do Amapá, sob forte chuva. O seu avião chocou-se com as árvores, sendo totalmente destruído. Além dessa aeronave, houve somente mais duas perdas de aviões Fairchild PT-19, mas ambos os pilotos sobreviveram. Isso dá um índice de perda de menos de 3 % do total de cento e seis aeronaves, que foram transladadas em voo dos Estados Unidos ao Brasil, durante toda a Segunda Guerra Mundial. Os motores Ranger L-440 por sua vez, revelaram-se extremamente confiáveis, ocorrendo relativamente, pouca incidência de panes de motor. As perdas de outros tipos de aeronaves em outros traslados seriam ainda menores, furando as terríveis previsões iniciais dos oficiais norte-americanos.  Esses primeiros voos eram feitos em 46 etapas, da fábrica até os Afonsos: Hagerstown, Washington, Greensboro, Atlanta, Mobile, New Orleans, Beaumont, San Antonio, Brownsville, Tampico (México), Vera Cruz, Minatitlan, Tapacula, El Salvador, Manágua (Nicarágua), San Jose da Costa Rica, Golfito, David, Rio Hato, Turbo (Colômbia), Barranquilha, Maracaibo (Venezuela), Coro, La Guaíra, Barcelona, Ciudad Bolivar, Tumereno, Georgetown (Guiana Inglesa), Panamaribo (Guiana Holandesa), Caiena (Guiana Francesa), Oiapoque (Brasil), Amapá, Macapá, Belém, Bragança, São Luiz, Parnaíba, Fortaleza, Mossoró, Natal, Recife, Maceió, Salvador, Ilhéus, Caravelas, Vitória, e, finalmente, Rio de Janeiro (Campo dos Afonsos). Essas etapas eram cumpridas, normalmente, com 110 horas de voo, quinze mil quilometros, percorridos e em 25 dias de missão. A partir de 1943, a viagem ficou mais curta, pois todos os aviões destinados ao Brasil passaram a ser entregues em Kelly Field, em San Antonio, Texas. 
Logo após a chegada das primeiras esquadrilhas ao Brasil, os Fairchild PT-19  foram destinados à Escola de Aeronáutica (EAer), sediada no tradicional Campo dos Afonsos, na cidade do Rio de Janeiro. Ali passaram a desempenhar papel central no estágio básico de formação dos futuros pilotos militares da recém-criada Força Aérea Brasileira, em um momento em que a consolidação da instrução aérea representava uma prioridade estratégica nacional. A exemplo do que ocorrera nas instituições de ensino do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), o Fairchild PT-19 rapidamente conquistou a confiança de alunos e instrutores brasileiros. Sua robustez estrutural, comportamento previsível em voo e adequação às exigências do treinamento primário despertaram o interesse do Ministério da Aeronáutica (MAer) na ampliação da frota disponível. Nesse contexto, foram iniciadas negociações com o governo norte-americano que culminariam na obtenção de uma licença para a produção da aeronave em território nacional. O programa industrial foi direcionado às instalações da Fábrica do Galeão, no Rio de Janeiro, marco inicial da indústria aeronáutica militar brasileira. O plano previa a montagem de vinte aeronaves de pré-série com componentes integralmente importados. Nos lotes subsequentes, adotou-se uma política de nacionalização progressiva, com o objetivo de produzir localmente a maior parte dos componentes  à exceção do motor Ranger L-440  reduzindo a dependência externa e fomentando o desenvolvimento tecnológico e industrial do país. Após os necessários ajustes de ferramental e processos produtivos, a fabricação teve início em 1944, estendendo-se até meados de 1947. Ao longo desse período, foram entregues 234 aeronaves, que receberam a designação local de 3-FG (Modelo 3 – Fábrica do Galeão). Em anos posteriores, uma solução técnica desenvolvida no próprio país resultou na adoção de uma cabine fechada, visando maior conforto e proteção aos tripulantes; essas aeronaves passaram a ser designadas como T-19. Durante toda a sua carreira operacional, os Fairchild PT-19 e PT-3FG foram responsáveis pela formação de mais de 2.500 pilotos militares brasileiros, desempenhando papel decisivo na consolidação da doutrina de instrução aérea no pós-guerra. Contudo, a partir de meados da década de 1950, tornou-se evidente a necessidade de substituição do modelo por aeronaves de concepção mais moderna, capazes de atender às novas exigências operacionais e pedagógicas. Essa demanda conduziu à criação de um novo programa de produção sob licença de um treinador primário mais avançado, culminando na contratação para a fabricação dos modelos holandeses Fokker S.11 e S.12. O avanço desse projeto determinou, a partir de 1956, o início do processo de retirada gradual dos Fairchild PT-19 do serviço ativo, processo este que se encerraria em 1963. Nessa fase final, as células em melhor estado de conservação foram transferidas ao Departamento de Aviação Civil (DAC), para posterior doação a aeroclubes distribuídos por todo o território nacional. Cabe ao Fairchild PT-19 e à sua variante nacional PT-3FG o registro histórico de terem sido as aeronaves militares empregadas em maior número pela Força Aérea Brasileira (FAB), alcançando a expressiva marca de 404 células incorporadas ao longo de sua trajetória, um testemunho inequívoco de sua relevância na formação da aviação militar brasileira.

Em Escala.
Para representarmos o Fairchild PT-19B "FAB 0310" pertencente a Escola de Aeronáutica (EAer), fizemos uso do kit em resina na escala 1/48 do fabricante GIIC Models. Modelo este que apresenta facilidade de montagem e opções de detalhamentos interessantes, procedemos como alteração apenas a inclusão dos tripulantes. Empregamos decais confeccionados pela GIIC Models, com numerais que permitem montar três aeronaves empregadas pela  Escola de Aeronáutica (EAer).
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o  segundo padrão de aeronaves de instrução empregadas pela Escola de Aeronáutica (EAer), salientando que as primeiras células recebidas ostentavam  um padrão de pintura em metal natural. Já todas as aeronaves produzidas no Brasil receberam este esquema de pintura. Registros fotográficos apresentam pequenas alterações neste padrão, como a inclusão de identificação numérica de esquadrilhas de adestramento e  marcações tipo "Shark Mouth" (bocas de tubarão).

Bibliografia :
- Fairchild PT-19 - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Fairchild_PT-19
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha- http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras  1916 – 2015 Jackson Flores Jr
- Fairchild  M-62 Cornell | Fábrica do Galeão – Brasil - https://www2.fab.mil.br/musal/
- A grande epopéia dos PT-19 - https://culturaaeronautica.blogspot.com/2010/12/grande-epopeia-dos-pt-19-da-fab-25-dias.html