Gepard 1A2 Flakpanzer (VBC AAe)

História e Desenvolvimento.
Do ponto de vista da engenharia, a Segunda Guerra Mundial foi um período de evolução sem igual. Num intervalo de seis anos, exércitos que ainda utilizavam a cavalaria de forma literal com cavalos seriam substituídos por divisões blindadas com tanques de até 76 toneladas. Na ponta de lança dessa corrida tecnológica estava a Alemanha e sua já prestigiada indústria automotiva, que ao longo do conflito conceberia e produziria em larga escala lendários modelos de carros de combate, os "Panzer ou Panzerkampfwagen" (que em alemão, significa couraça). Estes em maciço conjunto com veículos blindados especializados e de transporte de tropas seriam as ferramentas empregadas na doutrina Blitzkrieg (Guerra Relâmpago), que em combate rompiam  rompiam os pontos frágeis das defesas inimigas e os exploravam com velocidade atordoante, garantindo nas fases iniciais da guerra retumbantes vitórias. No entanto apesar de deterem a vantagem tecnológica, os icônicos Panzers seriam superados em números por seus rivais norte americanos no front ocidental ou pelos eficientes T-34 soviéticos no leste europeu. A rendição incondicional seria assinada no dia 7 de maio de 1945, com pais sendo dividido entre os aliados ocidentais e a União Soviética. Neste contexto a  Alemanha Ocidental permaneceria completamente desmilitarizada, sendo proibida pela regulamentação dos termos da rendição de constituir instituições militares, mesmo para autodefesa, com sua outrora pujante indústria automotiva passando a focar seus esforços no mercado comercial. No entanto o antigo território alemão seria transformado em uma região de grande tensão, representando a principal linha de  frente no conflito da Guerra Fria, entre as forças do Pacto de Varsóvia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte  - OTAN. Este cenário levaria junto ao comando a decisão de se revisionar o conceito da proibição de constituição de forças de defesa da Alemanha Ocidental, tendo em vista a necessidade de se reforçar as defesas da região, para assim fazer frente a constante ameaça representadas pelas forças dos países do bloco soviético. Desta maneira no dia 12 de novembro de 1955 seria promulgada dentro da constituição, as normativas que constituiriam a nova estrutura das forças armadas da República Federal da Alemanha, sendo composta pelo Deutsches Heer (Exército Alemão), Deutsche Marine (Marinha Alemã) e a Deutsche Luftwaffe (Força Aérea Alemã). De imediato seria iniciado um vasto programa de rearmamento, sendo fornecidos principalmente, equipamentos, armas, veículos, aeronaves, navios, blindados, e carros de combate de origem norte-americana. Em termos de carros de combate, o recém criado Exército Alemão (Deutsches Heer) passaria a ser equipado imediatamente, com uma respeitável frota composta pelos modelos M-41 Walker Buldog, M-47 Paton e M-48 Paton.   

Porém neste mesmo momento, estes carros de combate já se mostravam inadequados frente as ameaças representadas pelos modelos T-44, T-54 e T-55 que equipavam as forças blindadas do Pacto de Varsóvia.  A solução para atendimento a esta demanda ainda neste momento não estava disponível para emprego junto aos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte  - OTAN, apesar de existirem projetos em desenvolvimento como o norte-americano MBT T-95.   Esta realidade motivaria o governo alemão a retomar sua indústria de defesa, sendo iniciados estudos ao final desta década, visando assim o desenvolvimento de projetos nacionais englobando uma variada gama de veículos blindados, desde carros de combate, transporte e versões especializadas de serviço. No que tange a carros de combate, os esforços seriam direcionados ao desenvolvimento de um MBT (Main Battle Tank), com suas especificações de projeto sendo definidas em 1956, sendo baseadas na necessidade de se superar os novos T-54 e T-55. Estas abrangiam um veículo na ordem de mais trinta toneladas, devendo ter alta mobilidade como prioridade em detrimento ao poder de fogo, e por isso sendo dotado com um canhão de 105 mm. Vários norteamentos seriam sugeridos, se destacando o programa “Europa Panzer”, um consórcio formado em 1958 por Alemanha, França e Itália. Diversas propostas seriam apresentadas, com os primeiros protótipos sendo disponibilizados em 1960, com o modelo Porsche 734 sendo declarado vencedor. Esta decisão, no entanto, levaria a repercussões de ordem política e motivado por sentimentos nacionalistas o governo da França decidiu abandonar o consorcio, optando em desenvolver um veículo novo totalmente nacional. A seguir o modelo da Dr. Ing. H.C. F. Porsche AG seria batizado como Leopard I, com sua versão final estando equipada com o consagrado canhão inglês, Royal Ordinance L-7 de calibre 105 mm, dispunha ainda de completo sistema de proteção NBC (Radiação Nuclear e Química). Em termos de blindagem atendendo aos parâmetros de mobilidade, possuía uma blindagem leve, porém eficiente com capacidade de resistir a impactos rápidos de armas de 20 mm em qualquer direção. Estas características lhe permitiam atingir uma velocidade máxima de 65 km/h no campo de batalha. Após a finalização de um programa de testes de aceitação, seria celebrado um contrato inicial para cem carros, que seriam produzidos nas instalações fabris da  Krauss-Maffei Wegmann GmbH & Co. KG  em Munique. Os primeiros Leopard I, seriam entregues ao Exército Alemão (Deutsches Heer) entre setembro de 1965 e junho de 1966. O emprego operacional revelaria qualidades de projeto, passando a despertar o interesse de outras nações pelo modelo (além da Itália), gerando assim contratos de exportações para a Bélgica, Holanda, Noruega, Itália, Dinamarca, Austrália, Canada, Turquia e Grécia.

Ao ser operado por diversos países nos mais variados ambientes, verificaria-se suas qualidades operacionais e robustez em campo, abrindo assim estudos que partiam do empregado da plataforma original para o desenvolvimento de versões especializadas. Neste escopo em setembro de 1965, o Ministério Federal de Defesa da República Federal da Alemanha (Bundesministerium der Verteidigung) deflagaria uma concorrência visando o desenvolvimento de uma versão volta a tarefas de defesa antiaérea, objetivando a substituição do modelo norte-americano GMC M-42 Duster, que era equipado com os antigos canhões Bofors M-2A1, de 40 mm. Seus parâmetros de projeto previam o emprego de dois canhões de 30 mm, controlados por um sistema digital de controle de fogo, que tinha com finalidade engajar alvos aéreos em manobras evasivas. Deveria ainda apresentar um peso máximo de 45.500 kg e maior comunalidade no emprego de componentes presentes nos carros de combate Leopard 1. Dois consórcios industriais alemãs um formado pela Rheinmetall/AEG Telefunken/Porsche e outro pela Oerlikon-Contraves/Siemens-Albis responderiam à esta concorrência. A proposta apresentada pelo primeiro concorrente propunha o conceito de “grupo de batalha” (composto por viaturas equipadas separadamente com dispositivos de vigilância -identificação e outras com radar de controle de fogo/canhões, ambos os tipos sendo liderados por um veículo de comando). Já o segundo apregoava que todas estas funcionalidades fossem reunidas em um só veículo autônomo, armado com canhões de 35 mm (calibre rejeitado em 1962, por não ser padrão empregado naquela época). As duas propostas seriam analisadas entre os anos de 1966 e 1970, e neste momento o projeto apresentado pelo consórcio  Rheinmetall/AEG Telefunken/Porsche seria oficialmente cancelado. Neste contexto a proposta vencedora seria aperfeiçoada, passando a receber o radar de vigilância Siemens MPDR 12 acoplado a um identificador de contatos aliados/hostis. Os primeiros protótipos receberiam a designação militar de “5 PFZ-A”, e após serem inseridos em um extenso programa de testes e avaliações, resultariam em uma variada gama de modificações e melhorias. Deste processo emergiria o um modelo de “segunda geração”, o "5 PFZ-B” que passaria a incorporar novos sistemas de radar de vigilância com capacidades aperfeiçoadas de supressão de interferências e de discriminação de alcance e radar Doppler de rastreio de alvos. Seu habitáculo seria soldado na torreta, usando placas de blindagem espaçadas nas seções frontal, traseira e superior; carro receberia uma proteção ao longo da lateral superior esquerda, cobrindo a saída do motor auxiliar e absorvedores de choque nas porções dois e seis do braço de suspensão.   

Sua blindagem apresentava apenas uma camada, com 70 mm de espessura à frente, variando entre 20 e 30 mm nas partes traseira e lateral, proporcionando satisfatória proteção em combate. Suas baterias elétricas seriam realocadas, com o veículo recebendo geradores auxiliares para os canhões antiaéreos, alocados no antigo paiol de munições do carro de combate original, estando estes isolados dos chassis por paredes blindadas com painel de acesso e extintor de incêndio próprios. Os protótipos desta "segunda geração" seriam testados e avaliados entre os anos de 1971 e 1974, com este programa avançando para o estágio de pré-produção, com dois veículos sendo produzidos e novamente submetidos a testes de campo. Em seguida seria firmado um contrato para a produção de doze carros, que englobariam mais modificações, tendo destaque o aumento do casco em 80 mm; reposicionamento da torreta em 20 mm ao centro; instalação de doze absorvedores de choque e lagartas mais cumprida, com este novamente direcionados ao programa de avaliação.  Finalmente, em fevereiro de 1975, Ministério Federal de Defesa da Alemanha (Bundesministerium der Verteidigung), anunciaria a homologação do modelo 5PFZ Tipo B, com este sendo inicialmente adotado pelo Exército Alemão (Deutsches Heer). Um novo contrato seria celebrado em maio do mesmo ano com a empresa Krauss-Maffei AG (atual Krauss Maffei Wegman), definindo como subcontratadas as empresas  Oerlikon-Contraves e Siemens AG.  Estes termos previam a produção de vinte carros iniciais, classificados como "lote piloto" sendo seguido por mais cento e vinte dois carros da versão B-1. Porém havia a previsão contratual para aquisição de para 432 torres  e 420 cascos com um valor total de DEM 1.200.000.000,00  de marcos alemães, neste patamar cadaveículo custaria cerca de três vezes o preço de um Leopard 1 normal. Esta segunda fase seria alterada, com o desenvolvimento da versão B-2 com radar aperfeiçoado, na qual seria autorizada a produção de cento e noventa cinco carros. Um segundo contrato seria assinado em 1977 para a aquisição de duzentos e vinte cinco carros da versão B-2L, que passava a contar com um sistema de medidor de distância a laser, para alvos a até 5.100 metros.  O veículo apresentaria um peso final de  47.5 toneladas, medindo 7,68 metros de comprimento, 3, 27 metros de largura e 3, 29 metros de altura, (com a antena do radar de busca rebatida).  Estava equipado com dois motores, um Mercedes Benz MTU 838 Cam 500, multi combustível, de 10 cilindros, gerando 830 HP e outro auxiliar Daimler Benz OM 314, a diesel, gerando 90 HP para o acionamento dos canhões, complementado por dois geradores de 20 kVA cada.  Este conjunto mecânico lhe proporcionava uma velocidade máxima de 65 km/h e 550 km de alcance. 

Em termos de armamento ofensivo, seus dois canhões Oerlikon KDA L/R04, apresentavam uma cadência conjunta de 1.100 disparos por minuto, com os projéteis tendo velocidade inicial de 1.175 metros por segundo e alcance de 4 km. O projétil padrão pesava 550 gramas, podendo ser dos tipos de Alto Explosivo Incendiário (HEI), perfurante de Blindagem Incendiário (API), além de traçante. Cada arma levava 320 munições antiaéreas (armazenadas no interior da torreta) e 20 projéteis perfurantes, estocados ao lado dos canhões.  Este sistema de armas seria orientado por um radar de busca Siemens MPDR 12 S-band instalado em um braço oscilante (abaixado atrás da torre para trânsito) na parte traseira da torre, que fornece um alcance de detecção hemisférica de 15 km e possui um interrogador MSR 400 Mk XII integrado para discriminação automatizada de alvos. Além disso, o Gepard possuía um sistema de mira óptica de backup para aquisição e engajamento passivo de alvos, consistindo em dois periscópios panorâmicos estabilizados para o artilheiro e o comandante, com uma ampliação variável (1,5× e um campo de visão de 50 ° e 6× com um FOV estreito de 12,5 °). Esses periscópios podem ser acionados mecanicamente pelo radar de rastreamento e direcionados automaticamente ao alvo para identificação preliminar. Um telêmetro a laser foi fornecido em veículos atualizados para o padrão B2L e instalado no topo da caixa da antena para o radar de rastreamento. O modelo que receberia por parte do fabricante o nome de batismo de "Gepard", com os primeiros blindados sendo entregues ao Exército Alemão (Deutsches Heer) entre os anos de 1976 e 1980, se consolidando como principal linha de defesa área a média e baixa altitude. O Gepard 1A2 Flakpanzer seria exportado para Bélgica e a Holanda, que adquiriram entre 54 e 95 carros, respectivamente.  Entre os anos de 1997 e 2007, cento e quarenta e sete carros foram submetidos a um programa de modernização, visando assim a extensão de vida útil, os sistemas foram atualizados, passando a contar com um novo computador digital, conexão com o sistema de defesa aérea e gerenciamento de batalha através de rádios SEM 93. Os canhões receberam modificações para poder empregar munições do tipo HVFAPDS/FAPDS (perfurante de blindagem, estabilizada por aleta e calço descartável, de alta velocidade), proporcionado até 1.400 metros por segundo de velocidade inicial, o que elevou o alcance e teto operacional dos canhões para 5000 e 3.500 metros respectivamente. No Exército Alemão (Deutsches Heer), o Gepard seria descontinuado no final de 2010 e substituído pelo sistema Wiesel 2 Ozelot Leichtes Flugabwehrsystem (LeFlaSys) com quatro lançadores de mísseis FIM-92 Stinger ou LFK NG que passavam a oferecer uma proteção mais adequada a defesa área a média e baixa altitude. Seu batismo de fogo se daria durante a Guerra da Ucrânia, quando em 2023 veículos doados pela Alemanha seriam implantados naquele teatro de operações, obtendo grande êxito contra os drones russos.   

Emprego no Exército Brasileiro.
O processo de implementação de um sistema de artilharia antiaérea no Exército Brasileiro, teve sua origem no dia  4 de outubro de 1940, data de criação do 1º Grupo do 1º Regimento de Artilharia Antiaérea (1/1º RAAAé) na cidade do Rio de Janeiro. Este grupamento seria equipado com os famosos canhões alemães Flak 88 mm C/56 Modelo 18 que passariam em operar em conjunto preditores Carl Zeiss WIKOG 9SH e aparelhos de localização pelo som Electroacoustic GmbH ELASCOPORTHOGNOM. A partir de 1942 a artilharia antiaérea brasileira seria fortalecida pelo recebimento de uma grande quantidade de canhões norte-americanos dos modelos M-2A2 AA de 37 mm, M-3 AA de 76 mm e por fim M-1A3 AA de 90 mm. No entanto curiosamente não seriam cedidos ao país sistemas de artilharia antiaérea autopropulsados, que já eram empregados em grande escala no conflito. Esta lacuna operacional infelizmente perduraria durante as décadas seguintes, com a necessidade de criação de um sistema de defesa antiaérea a média e baixa altitude, sempre se fazendo presente, principalmente pelas dimensões continentais da nação. No início da década de 1970 seria implementado na Força Terrestre o “Plano Impere”, um programa que visava recuperar a operacionalidade diversos veículos de combate do III Exército Brasileiro que se encontravam parados há alguns anos, analisando inclusive a possibilidade de conversão de carros de combate dos modelos M-4 Sherman e M-3 Stuart como veículos de serviço e suporte. Entre diversas alternativas seria desenvolvido um protótipo de uma viatura blindada antiaérea, com um carro M-3 Stuart recebendo a instalação de um reparo de metralhadoras antiaéreas quadruplo calibre .50 do modelo M-45 Quadmount . Testes de campo se mostrariam extremamente promissores, porém infelizmente não se sabe por quais motivos, o comando do Exército Brasileiro, não demonstraria neste momento o devido interesse, levando assim ao cancelamento do projeto. O conceito para o desenvolvimento de uma viatura antiaérea autopropulsada, ressurgiria em fins da década de 1970, tendo como alicerce o programa do Carro Combate Leve Nacional MB-1 (X-1A Pioneiro e X1-A2 Carcará), com este gerando uma família de veículos especializados sobre esta nova plataforma, incluindo um modelo dedicado defesa antiaérea. Nascia assim o projeto M.01.15, que seria gerido Centro de Tecnologia do Exército (CETEX) em parceria com a empresa Bernardini S/A. Dois protótipos seriam construídos recebendo a designação de Viatura de Combate Antiaérea XM3D1 (VBC AAe) que contariam como armamento orgânico com quatro metralhadoras Browning M-2 calibre .50 montadas em uma torre M-55M Quadmout modernizada.  Estes protótipos seriam exaustivamente testados e avaliados pelo Exército Brasileiro, porém a baixa cadência de fogo e o alcance das armas de calibre .50, se mostraram inadequados face a nova ameaça proporcionada pelas aeronaves de ataque a reação existentes naquela época, levando assim ao cancelamento definitivo do projeto. 

A partir de meados da década de 1970, o sistema de defesa antiaéreo do Exército Brasileiro se mostrava complemente obsoleto contendo em suas filiares de antigos canhões Boffors de 40 mm, se fazendo necessário a implementação de sua imediata substituição. Para o atendimento a esta demanda, entre os anos de 1977 e 1978 novos investimentos seriam feitos, envolvendo a aquisição do sistema suíço de artilharia antiaérea Oerlikon de 35 mm, que posteriormente seriam integrados com o conjunto diretor de tiro de fabricação nacional EDT FILA, controlando os canhões de 40 mm C/70 Bofors e canhões Oerlikon 35 mm C/90. Uma tentativa mais ousada seria materializada na aquisição do sistema de mísseis terra-ar Roland II montados no veículo sob esteiras alemão Marder 1A2, no entanto só seriam incorporadas quatro baterias com elas apresentando uma carreira efêmera no Exército Brasileiro. Nos anos vindouros não seriam registrados mais investimentos significativos neste segmento, porém em 1994, dentro do escopo do programa de modernização da Força Terrestre -  FT 90 seriam incorporados os primeiros misseis russos Igla-S, armas terra ar de curto alcance do tipo Manpad (Man-Portable Air-Defense Systems). Mesmos estas iniciativas, ainda não trariam ao Exército Brasileiro uma real capacidade de defesa de ponto antiaérea, com este segmento tornando assim o principal "Calcanhar de Aquiles" da Força Terrestre. No início deste século, o Ministério da Defesa e o Exército Brasileiro conduziriam um amplo processo de transformação e modernização das suas estruturas, equipamentos e veículos de combate blindados, com este programa recebendo a denominação de modernização dos Produtos de Defesa (PRODE). Entre diversas vertentes este contemplaria a partir do ano de 2006 a aquisição da Viatura Blindada de Combate Carro de Combate (VBCCC) LEOPARD 1A5 BR para o emprego junto aos Regimentos de Carro de Combate (RCC). Apesar de que neste momento o Exército Brasileiro passaria a contar em sua frota com um veículo moderno e de elevada capacidade de sobrevivência, ainda as Baterias Antiaéreas (Bia AAAe) orgânicas das Brigadas Blindadas seriam desprovidas de um sistema autopropulsado. Assim sua defesa de ponto ficaria somente a cargo do emprego dos misseis antiaéreos (AAe) portáteis russos  Igla-S, o que reduzia em muita sua capacidade de proteção contra-ataques aéreos, principalmente de helicópteros de ataque a média altura. Em um cenário de conflagração moderna, nossas forças mecanizadas em trânsito ficariam completamente desprotegidas contra ataques aéreos, com este cenário se repetindo para a defesa de ponto em objetivos estratégicos espalhados pelo país.     
A partir de meados do ano de 2012, seriam conduzidos estudos referentes a adoção de possíveis soluções dedicadas a proteção do espaço aéreo nacional. Curiosamente apesar de ser um pleito antigo da Força Terrestre, esta demanda logo seria priorizada não por questões estratégicas e sim políticas, pois o país logo sediaria dois eventos internacionais de grande relevância, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Dentre as várias medidas de segurança exigidas ao país sede, figurava a defesa antiaérea de ponto dos locais onde estes eventos seriam realizados, assim a fim de sanar esta lacuna operacional, a Diretoria de Material do Exército Brasileiro emitiria ao mercado de defesa internacional, uma Solicitação de Informação - RFI (Request for Information), para assim estruturar a sua capacidade de defesa antiaérea de ponto, que passaria a ser denominado como "Projeto Estratégico Defesa Antiaérea". Em seguida começariam a ser apresentadas a Diretoria de Material, diversas propostas de empresas do segmento de defesa de renome internacional, uma criteriosa análise seria então elaborada, tendo como primícias básicas a busca por uma equilibrada relação de custo-benefício. Neste contexto a proposta comercial e técnica apresentada pela empresa alemã Krauss-Maffei Wegman que contemplava o modelo Gepard 1A2 uma versão modernizada. Estas propostas após ser analisada se mostraria mais viável em termos operacionais e financeiros, tendo como destaque sua rápida disponibilidade de entrega. Pesava sobre esta escolha também o histórico operacional do modelo junto a países europeus, com seus canhões de 35 mm operando em conjunto com um sofisticado sistema de radar com alcance de 15 km, efetuando ainda a varredura no espaço aéreo juntamente com o radar de tiro e computador digital de direcionamento e controle de fogo com o mesmo alcance. Como principal vantagem operacional, destacava-se que o sistema era montado sobre o chassi do carro de combate  Leopard I, modelo com o qual o Exército Brasileiro já estava familiarizado em termos de operação e manutenção, o que facilitaria em muita sua incorporação, não havendo a necessidade de se proceder investimento adicionais em termos de treinamentos e ferramental. Após negociações seria celebrado entre as partes um acordo na ordem de US$ 50 milhões de dólares, englobando trinta e seis carros (oriundos dos estoques do Exército Alemão), munição, sobressalentes, ferramental e pacote de treinamento. Atendendo ao cronograma contratual, entre os dias 4 de março a 17 de maio de 2013, uma delegação de dez oficiais de dez sargentos realizaria a primeira fase de treinamento na cidade, cidade de Hardheim (Alemanha). O primeiro lote com dez carros Krauss Maffei Flakpanzer Gepard 1A2, seria recebido no  Brasil dia 17 de maio de 2013, momento em que oficialmente seriam incorporados a a estrutura do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA), ficando a estes subordinados até a realização destes grandes eventos. 

Neste momento estes mesmos militares participariam da segunda fase de formação, agora no Brasil, com a fase final deste treinamento resultando no processo de Tiro de Recebimento do GEPARD, conduzido pela 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), nos dias 22 e 23 de junho de 2013. Junto as instalações do Campo de Provas da Marambaia, no Rio de Janeiro seriam executados 755 tiros sobre alvos aéreos ECLIPSE, operados por integrantes do 3º Grupo de Artilharia Antiaérea e 871 tiros sobre alvos fixos a 500 e 1500 metros de distância, na Linha I.  Seus canhões de  35 milímetros apresentam uma cadência de tiros de 1100 tiros por minuto sendo 550 em cada arma, com uma capacidade 640 tiros antiaéreo e mais 40 terrestre sendo 320 e 20 em cada arma com suas funções respectivamente, com este perfil operacional representando um grande avanço para a Força Terrestres. A partir deste momento, a Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea passaria a ser responsável pela formação dos oficiais e sargentos do Exército Brasileiro operadores do Sistema GEPARD. Logo após, os oito carros deste primeiro lote seriam liberados para plena operação, com a missão de defesa de ponto, com este processo sendo conduzido a tempo de participar da edição da Copa da Confederações da Fifa, realizada no Rio de Janeiro entre os dias  15 a 30 de junho de 2013.  Os veículos restantes seriam recebidos em diversos lotes entre maio de 2013 a setembro de 2014, totalizando trinta e quatro Gepard 1A2, operacionais e dois dedicados para treinamento. Em serviço operacional os estes blindados  passariam a ser denominados como Veículo Blindado de Combate Antiaéreo (VBC AAe), sendo distribuídos a Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea (EsACosAAe), 11ª Bateria de Artilharia Antiaérea Autopropulsada (GAAAe), 6º Brigada de Infantaria Blindada (Bda Inf Bld), 1º Brigada de Artilharia Antiaérea (Bda AAAe), 6º Brigada de Infantaria Blindada (Bda Inf Bld), 2º Brigada de Artilharia Antiaérea (Bda AAAe), 2º Grupo de Artilharia Antiaérea (GAAe) e 5ª Brigada Blindada (Bda C Bld). Apesar de se encontrarem em excelente estado de conservação, os veículos adquiridos pelo Exército Brasileiro foram produzidos durante a década de 1970 e modernizados em 1996, necessitando então da implementação de um novo processo de atualização.  Para atendimento a esta demanda seria celebrado em 2014 um contrato junto a Brasil Krauss-Maffei Wegmann, visando a modernização das viaturas e simuladores, abrangendo os sistemas sistema de tiro digital, visores termais estabilizados, data link a um centro de controle de defesa aérea - monitoramento, sensores de velocidade da munição. Este pacote englobava ainda a realização de revisões nos sistemas estruturais e mecânicos permitindo estender a vida útil do modelo até o ano de 2030. 
A primeira unidade modernizada do sistema Flakpanzer Gepard 1A2, pertencente a um lote inicial de oito veículos contratados, foi oficialmente entregue ao Exército Brasileiro em 9 de março de 2016, marcando o início de uma nova etapa na capacidade de defesa antiaérea da Força Terrestre. O processo de modernização e incorporação foi concluído até o final de 2018, consolidando o Gepard como o principal sistema autopropulsado de defesa antiaérea do país. Apesar de críticas internas dentro do próprio Exército, especialmente quanto à efetividade do sistema diante das ameaças aéreas contemporâneas, a aquisição do Flakpanzer Gepard 1A2 representou um reforço substancial para o sistema de defesa antiaérea de baixa altura, cobrindo altitudes de até 3.000 metros. Essa capacidade confere um importante elemento de proteção às tropas blindadas e mecanizadas, garantindo maior sobrevivência e eficiência operacional em cenários modernos de combate. A relevância do Gepard foi amplamente comprovada no contexto da Guerra da Ucrânia (a partir de 2022), onde o sistema alemão demonstrou notável eficácia no combate a drones de ataque e reconhecimento, um dos principais vetores de ameaça às forças blindadas envolvidas naquele conflito. Essa experiência internacional reforçou a pertinência da escolha brasileira, evidenciando que o sistema, embora concebido originalmente na Guerra Fria, ainda possui grande valor no campo de batalha contemporâneo, especialmente frente às novas táticas e tecnologias emergentes. No Brasil, os Flakpanzer Gepard 1A2 são empregados como parte orgânica das Brigadas Blindadas, integrando as Baterias Antiaéreas Autopropulsadas (Bia AAAe AP). Cada brigada é composta por quatro Seções de Artilharia Antiaérea (Seç AAAe), que constituem as menores unidades de emprego da Artilharia Antiaérea. Cada uma dessas seções opera com quatro viaturas Gepard 1A2, totalizando uma estrutura altamente móvel e autônoma. Cada veículo, por sua vez, é considerado uma Unidade de Tiro (U Tir), capaz de detectar, rastrear e engajar alvos aéreos de forma independente, tanto em operação estática quanto em movimento — como em uma Marcha para o Combate, quando os Gepard são desdobrados no interior das colunas blindadas para garantir a cobertura aérea das forças amigas. Em 2023, o Programa Estratégico do Exército – Defesa Antiaérea passou a concentrar seus esforços na recuperação de capacidades existentes e na aquisição de novos sistemas de defesa antiaérea de baixa, média e grande altura, com o objetivo de modernizar e integrar as Organizações Militares de Artilharia Antiaérea da Força Terrestre. Nesse contexto, os Gepard 1A2 continuarão operando em conjunto com novos sistemas de defesa antiaérea previstos para os próximos anos, consolidando-se como vetores essenciais na proteção das tropas e na estrutura do Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro (SISDABRA).

Em Escala.
Para representarmos o Krauss Maffei Gepard 1A2 Flakpanzer  em uso pelo Exército Brasileiro, empregamos o antigo kit da Tamiya na escala 1/35, salientando que este apresenta a versão Gepard 1A1, desta maneira é necessário implementar uma série de mudanças em scratch building. Já os kit mais recentes produzidos pela Meng e Takon representam o modelo empregado pelo Exército Brasileiro, sendo indicados estes para compor a versão brasileira. Para representarmos a versão em uso no Brasil, não há necessidade de se proceder qualquer alteração em relação ao kit original. Fizemos uso de decais confeccionados pela  Decals & Books presentes no set  "Forças Armadas Brasileiras".
O esquema de cores descrito abaixo representa o padrão de pintura tático empregado pelo Exército Alemão (Deutsches Heer), com o qual estes blindados foram recebidos a partir de 2013. Nos dois primeiros não receberiam nenhuma marcação nacional, com o escudo do Exército Brasileiro sendo aplicado após o ano de 2018, salientamos ainda que mesmos os veículos modernizados não passaram por qualquer alteração em seu esquema de pintura. 

Bibliografia :
- Gepard  - Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Flakpanzer_Gepard
- Blindados no Brasil - Um Longo e Árduo Aprendizado Volume II - Expedito Carlos Stephani Bastos
- Gepard 1A2 – Plano Brasil por Sergio Santana www.planobrazil.com

X-1 Pioneiro e X-1A1/A2 Carcará (CCL)

História e Desenvolvimento.
Na Europa, durante a segunda metade da década de 1930, o processo de rearmamento conduzido pelo governo nacional-socialista encontrava-se em plena expansão. Além da produção acelerada de armamentos, o Alto Comando Alemão passou a dedicar atenção especial ao desenvolvimento de novas doutrinas militares, concebidas para integrar avanço tecnológico, rapidez operacional e atuação conjunta entre forças terrestres e aéreas. Esse movimento resultaria na formulação do conceito de Guerra Relâmpago (Blitzkrieg), cujo êxito dependia de uma combinação de velocidade, mobilidade, poder de fogo, blindagem eficiente e coordenação tática superior. Os carros de combate alemães, concebidos nesse contexto, foram projetados para superar amplamente os modelos existentes no cenário internacional. Tal desenvolvimento ocorreu apesar das severas limitações impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes (1919), que restringia a produção de armamentos e o tamanho de suas forças militares. Ainda assim, por meio de programas secretos e iniciativas de cooperação com outros países, o regime nazista avançou rapidamente na modernização de sua força blindada. Do outro lado do Atlântico, o serviço de inteligência dos Estados Unidos acompanhava atentamente esses avanços. Os relatórios enviados ao Departamento de Guerra e ao comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) alertavam para a crescente superioridade dos novos carros de combate alemães, que superariam com facilidade os modelos norte-americanos então em serviço. Tal constatação evidenciava a urgência de modernizar a frota de blindados, composta majoritariamente pelos já obsoletos M-1 e M-2, incapazes de enfrentar, em condições de equilíbrio, as forças blindadas da Alemanha ou do Japão, que igualmente desenvolvia modernos veículos de combate. Diante desse cenário, em abril de 1939 foi iniciado um amplo programa de estudos voltado ao desenvolvimento de novos carros de combate, capazes de atender às demandas impostas por um conflito de escala global que já se mostrava iminente. O objetivo central consistia em projetar veículos modernos, robustos e aptos a operar em cenários de combate manobrados, respondendo aos desafios impostos pelos avanços tecnológicos europeus e asiáticos. Como desdobramento dessa iniciativa, em julho de 1940 o Exército dos Estados Unidos lançou o programa de desenvolvimento do carro de combate leve M-3 Light Tank. A condução do projeto ficou a cargo das equipes do Corpo de Material Bélico do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army Ordnance Department), sediadas em Fort Lee, Virgínia, que imediatamente iniciaram os trabalhos conceituais. Os parâmetros iniciais estabelecidos previam a adoção do novo canhão M-22 de 37 mm, considerado adequado para o enfrentamento dos blindados adversários da época, além de uma blindagem projetada para resistir ao impacto de munições anticarro de calibre equivalente ao de sua arma principal.

O acréscimo de peso decorrente da blindagem definida no projeto exigiu a adoção de um sistema de suspensão substancialmente distinto daquele empregado no M-2 Light Tank. Para garantir melhor distribuição da massa total do veículo, optou-se por incorporar uma polia tensora traseira de maior diâmetro, ampliando a área de contato das lagartas com o solo e melhorando a estabilidade em terrenos irregulares. Paralelamente, o desenvolvimento de uma nova torre tornou-se necessário para acomodar o canhão M-22 de 37 mm. Essa torre, inicialmente construída com chapas soldadas e rebitadas em formato octogonal, possuía capacidade de giro de 360°. Em versões posteriores, foi substituída por um modelo mais robusto, confeccionado a partir de uma única peça laminada moldada, oferecendo maior resistência estrutural. O veículo foi projetado para operar com uma tripulação reduzida de quatro homens — motorista, comandante, municiador e auxiliar — refletindo a tendência da época de simplificar a operação de carros de combate leves. Nos primeiros lotes produzidos, acumulava-se ao comandante a função de artilheiro, dada a limitação do conjunto periscópico e da ergonomia interna. Entretanto, nas variantes mais recentes, com a introdução de novos dispositivos ópticos, a posição do comandante foi realocada para o lado direito da torre, passando ele a desempenhar também a função de municiador. Os testes de campo, embora satisfatórios sob determinados aspectos, suscitaram críticas entre especialistas do Exército norte-americano. Alguns analistas apontavam que a blindagem relativamente delgada proporcionava proteção limitada contra munições anticarro modernas, enquanto outros questionavam a eficácia do canhão de 37 mm diante das blindagens cada vez mais espessas dos carros de combate alemães de última geração. Apesar dessas ressalvas, a conjuntura internacional e a necessidade urgente de reequipar tanto o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) quanto seus aliados pressionaram pela imediata produção em larga escala do novo modelo. Nesse contexto estratégico, o Reino Unido foi priorizado no recebimento das primeiras unidades, destinadas ao teatro de operações do Norte da África. Ali, o carro de combate recebeu seu batismo de fogo, desempenhando papel relevante no reforço provisório das debilitadas forças blindadas britânicas. Embora suas limitações fossem evidentes, o M-3 Light Tank contribuiu significativamente para manter a resistência aliada até que a capacidade industrial norte-americana pudesse prover substitutos mais avançados. Os primeiros combates envolvendo unidades norte-americanas ocorreram em 8 de dezembro de 1941, durante os confrontos que se seguiram à invasão japonesa das Filipinas, onde o desempenho do veículo foi condicionado pelas dificuldades logísticas e pela superioridade material das forças japonesas naquele teatro de operações.
A partir de 1943, as limitações inerentes ao projeto — sobretudo no que se refere à blindagem e ao poder de fogo tornaram evidente a necessidade de sua substituição nas linhas de frente. Esse processo foi iniciado em 1944, com a introdução do M-24 Chaffee, um carro de combate leve mais moderno, dotado de canhão de 75 mm e projetado para atender às exigências de um campo de batalha cada vez mais mecanizado e letal. Apesar do término da Segunda Guerra Mundial em 1945, a trajetória operacional dos carros de combate leves M-3 e M-5 Stuart não se encerrou naquele momento. Após sua retirada gradual do serviço ativo no Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), essas viaturas passaram a ser classificadas como “excedente militar”, integrando os amplos programas de assistência e ajuda externa promovidos pelo governo norte-americano no contexto da Guerra Fria. Como parte dessa iniciativa estratégica, milhares de unidades foram cedidas a mais de trinta países aliados ou cuja cooperação os Estados Unidos buscavam consolidar. Nessa nova fase de utilização, os Stuart voltariam a participar de conflitos reais, desempenhando papel relevante em diversos teatros de operações. Entre esses conflitos destacam-se a Guerra Civil Chinesa (1946 - 1949), Guerra da Indochina (1946 - 1954), nas primeiras fases das Guerras Indo-Paquistanesas e por fim durante a Guerra de Independência de Angola (Guerra de Ultramar).  Embora tecnologicamente ultrapassados já ao final da década de 1950, os M-3 e M-5 Stuart conservaram características altamente valorizadas, como simplicidade mecânica, robustez estrutural, facilidade de operação e baixo custo de manutenção. Esses atributos permitiram que diversos países desenvolvessem programas de modernização e revitalização, prolongando a vida útil desses veículos por décadas. Entre esses esforços, destacaram-se especialmente os projetos implementados pelas Forças de Defesa de Israel (Israel Defense Forces – IDF), que se tornariam referência internacional e exerceriam influência direta sobre estudos posteriores realizados no Brasil. No final da década de 1960, o Exército Brasileiro possuía uma expressiva frota de carros de combate leves M-3 e M-3A1 Stuart, totalizando mais de quatrocentos exemplares. Contudo, a maior parte desses veículos já se encontrava fora de serviço. A principal dificuldade residia na obtenção de peças de reposição — particularmente para os motores a gasolina Continental AOS-895A3 e Guiberson T-1020A  cujo custo elevado e escassez inviabilizavam a manutenção regular da frota. Embora muitos desses blindados permanecessem estocados como reserva estratégica, o cenário caminhava para sua desativação definitiva e posterior alienação como sucata.

Nesse contexto, em 1969, o 1º Batalhão de Carros de Combate Leve (1º BCCL), sediado na cidade do Rio de Janeiro, recebeu a visita de uma delegação israelense. O objetivo dos representantes da IDF era adquirir plataformas blindadas antigas para posterior conversão em veículos utilitários sobre lagartas, conforme práticas já consolidadas em Israel. Essa iniciativa despertou o interesse do comandante da unidade, Coronel Oscar de Abreu Paiva, que percebeu o potencial dos M-3 e M-3A1 brasileiros para funções especializadas. Os militares israelenses reforçaram essa percepção ao expor os resultados positivos dos programas de adaptação e modernização conduzidos em sua própria força terrestre, abrindo caminho para reflexões mais profundas e estudos subsequentes. Neste momento o Exército Brasileiro apontava a necessidade de uma renovação de sua frota de carros de combate e veículos em geral, com o atendimento desta demanda ser cerceada principalmente falta de recursos. Desta maneira neste momento surgiriam as primeiras iniciativas visando estudos para a implementação de programas de modernização da frota de M-3 e M-3A1 Stuart. Os primeiros resultados práticos seriam obtidos pelo Parque Regional de Motomecanizacão de Santa Maria (PqRMnt/3) no Rio Grande do Sul. Esta organização estava profundamente comprometida nos esforços do “Plano Impere” , programa este que visava recuperar diversos veículos de combate e transporte pertencentes ao III Exército. Os primeiros exemplos do emprego da plataforma destes carros de combate leves resultariam na criação de um trator de artilharia ou rebocador e no primeiro protótipo da Viatura de Combate Antiaérea. Apesar desta tímida iniciativa, um grande impulso neste sentido seria motivado pelos resultados positivos obtidos pelo Parque Regional de Motomecanização da Segunda Região Militar de São Paulo (PqRMM/2) no processo de remotorização de carros blindados como os Ford M-8 Greyhound e meia lagarta White M-2/M-3/M-5. Desta maneira logo em seguida o Ministério do Exército criaria o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Blindados (CPDB). O principal objetivo desta organização era o de desenvolver uma nova família de blindados leves tendo por base a plataforma e componentes vitais dos antigos M-3 e M-3A1 Stuart.  Um dos pontos de partida deste processo se baseava na substituição do motor original a gasolina por um novo conjunto de produção nacional a diesel, elencando como opção de análises modelos de motores produzidos nacionalmente pela MWM Motores S/A , Deutz do Brasil S/A e Scania Vabis do Brasil S/A. A instalação destes novos motores demandaria alterações na estrutura do veículo, que tiveram de ser alongados com chapas de aço  SAE 5150 fornecido pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Com esta mudança seria necessário efetuar a troca da suspensão original do M-3 Stuart em virtude da diferença de altura do solo proporcionada. Como solução seria empregado o sistema utilizado originalmente no  trator de artilharia M-4 de 18 toneladas, que era maior e mais larga. 
Seriam então completados três protótipos, que seriam exaustivamente testados em ensaios comparativos, com o modelo com o motor Deutz apresentando a melhor performance, no entanto logo esta empresa encerraria suas operações no Brasil, com a escolha recaindo sobre o motor produzido pela Scania Vabis do Brasil S/A que apresentava uma potência nominal de 250 cv.  Ao ser definido seu grupo propulsor a diesel, as atenções se voltariam ao desing do modelo, neste quesito suas principais deficiências estavam baseadas em suas linhas retas e planos verticais da carcaça que impunham fragilidade a sua blindagem original. Também pesavam negativamente sua elevada pressão sobre o solo em função de suas lagartas estreitas e principalmente seu baixo poder de fogo da munição do canhão de 37mm. Assim realizaram-se estudos envolvendo uma total reformulação da carcaça do veículo, abrangendo muito além da simples substituição do motor, como previsto inicialmente. Os resultados destes trabalhos indicavam a necessidade de uma reformulação total, com um novo desenho da carcaça com aproveitamento das partes traseira e frontal, suportando principalmente a instalação do novo motor a diesel, com modificações especiais de cárter e turbina. Como dito, incluindo a adaptação de um novo sistema de suspensão que permitisse o uso de lagartas mais largas adequadas a equalizar sobre o terreno o peso superior do veículo. Como maior destaque se encontrava o desenvolvimento de uma nova torre que pudesse abrigar um canhão de calibre 90 mm.  Estes trabalhos tiveram início em 28 de junho de 1973, com autorização do DPET (Diretoria Pesquisa de Ensino Técnico) e apoio da Diretoria de Motomecanização, que positivamente estava comprometida com o novo projeto. O primeiro protótipo funcional seria completado em dois meses nas instalações da Biselli Viaturas e Equipamentos Ltda, com este processo sendo diretamente supervisionado pela equipe técnica do Parque Regional de Motomecanização da 2º Região Militar (PqRMM/2) em São Paulo.  Este veículo seria submetido a um intenso programa de testes de campo na cidade de Peruíbe no litoral de São Paulo, operando em percursos em estradas de terra e asfalto, continuamente dia e noite, parando apenas para substituição de motorista e abastecimento.  Inicialmente este protótipo estaria equipado com uma torre produzida pela Engesa S/A, com está sendo substituída posteriormente por uma nova projetada pela Bernardini S/A, que receberia a designação inicial de B-90, em seguida, B-90 A1 (nos de série). Neste conjunto seria adaptado o canhão francês DEFA D-921A 90 F1 90 mm (3,54 pol), que poderia ainda fazer uso de munição  HEAT, HESH e APFSDS. Esta torre era construída totalmente em aço especial com uma polegada de espessura, resistente a tiros de metralhadoras calibre .50 a pelo menos 200 metros de distância.  

Emprego no Exército Brasileiro.
Os trabalhos de avaliação, testes e aperfeiçoamentos do projeto avançaram conforme o cronograma originalmente estabelecido. O primeiro protótipo foi apresentado ao público durante o desfile de 7 de setembro de 1973, em Brasília, no Distrito Federal, ocasião em que teve a honra de abrir a participação das forças motorizadas. Nesta demonstração, o veículo foi comandado pelo então Diretor de Motomecanização do Exército Brasileiro, simbolizando a importância estratégica atribuída ao programa no contexto da modernização da força terrestre. Após os ajustes finais e a validação dos resultados obtidos nos testes iniciais, a versão definitiva do projeto foi oficialmente aprovada, o que possibilitou a celebração dos contratos de produção com as empresas Biselli Viaturas e Equipamentos Ltda. e Bernardini S/A Indústria e Comércio. O acordo inicial previa a fabricação de cinquenta e três viaturas, com possibilidade de ampliação para até cento e treze unidades, de acordo com aditivo contratual. O modelo recebeu a designação de Viatura Blindada de Combate – Carro de Combate MB-1, marcando o início do mais ambicioso programa brasileiro de conversão e modernização de carros de combate até então.  Seu processo de produção seria dividido fases, com a primeira envolvendo o recebimento dos M-3 e M-3A1 Stuart pelo Parque Regional de Motomecanização da 2º Região Militar (PqRMM/2) em São Paulo, que seria responsável pode proceder a desmontagem do veículo. A seguir as carcaças seriam entregues a empresa Biselli Viaturas e Equipamentos Ltda, nesta etapa seriam recuperadas a caixa de mudança e o sistema de transmissão original. Paralelamente seriam iniciados os trabalhos de transformação da carcaça, envolvendo principalmente o aumento no comprimento para a instalação do motor a diesel Scania DS-11 e caixa de transmissão. Nesta fase seria feito também o processo de rebaixamento da silhueta, e por fim seriam instalados acessórios, toda a parte elétrica e as lagartas produzidas pela Novatração. O veículo saia rodando e seguiria para as instalações da Bernardini S/A, onde seria realizada instalação da a torre e o canhão. Em um espaço reservado nestas instalações,  os técnicos do Parque Regional de Motomecanização da 2º Região Militar (PqRMM/2) procediam a instalação do armamento secundário e do equipamento de comunicações. Por fim seriam conduzidos testes em estrada na ordem de 200 a 300 km e testes de armas secundárias e principal, devendo ser disparados seis tiros com o canhão de baixa pressão de 90 mm.. No entanto o cronograma original previsto pela Diretoria de Motomecanização enfrentaria uma série de atrasos, entre a assinatura do contrato em dezembro de 1973 e a entrega dos primeiros veículos pré-série seriam transcorridos mais de vinte e sete meses, com estes sendo disponibilizados entre os meses de março e abril de 1976.

Os atrasos verificados no cronograma de produção decorreram de um conjunto de fatores inter-relacionados. Entre eles, destacam-se a proibição inicial de importação de componentes críticos, que dificultou o abastecimento industrial; deficiências nos processos de engenharia de projeto, ainda em fase de amadurecimento no setor nacional de blindados; e problemas administrativos e financeiros envolvendo a Bernardini S/A, que resultaram em interrupções no fluxo de peças e na alocação de recursos. Soma-se a isso o desvio de atenção e capacidade produtiva para o desenvolvimento das variantes subsequentes do programa, notadamente os modelos X-1A1 e X-1A2, o que contribuiu de maneira significativa para dilatar os prazos originalmente estipulados. Durante esse período, foram concluídos dezessete carros classificados como pré-série, os quais foram incorporados ao 4º Regimento de Cavalaria Blindada (RCB). Em serviço, essas viaturas apresentaram uma variedade de problemas técnicos e operacionais de menor complexidade, circunstâncias que exigiram seu retorno ao fabricante para as correções necessárias, todas posteriormente solucionadas. A segunda série de produção, composta por dezesseis veículos, teve quatorze unidades entregues em abril de 1979 ao 6º Regimento de Cavalaria Blindada (RCB). As duas viaturas remanescentes foram destinadas à Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e à Escola de Material Bélico, para fins de instrução. Embora não haja documentação detalhada  essa fase, registros oficiais indicam que estes foram os últimos carros produzidos na versão inicial, cuja designação oficial foi alterada para CCL-MB-1 Pioneiro X1. O programa representou a primeira incursão significativa da indústria brasileira no desenvolvimento de blindados sobre lagartas. Diferentemente do êxito alcançado anteriormente com veículos sobre rodas, o projeto enfrentou limitações técnicas e estruturais que geraram críticas — muitas delas severas — tanto no âmbito militar quanto industrial. Ainda assim, o esforço proporcionou um importante acúmulo de conhecimento, servindo como referência para iniciativas posteriores e contribuindo para a formação de uma base técnico-industrial de defesa mais sólida. No ambiente operacional dos Regimentos de Cavalaria Blindada, os CCL-MB-1 Pioneiro X1 foram empregados de maneira intensa. Inicialmente, mantiveram índices aceitáveis de disponibilidade, amparados por um conjunto mecânico robusto e de manutenção relativamente simples. Os problemas mais frequentes estavam associados a falhas técnicas de baixa complexidade e rápida solução. Entretanto, o ciclo operacional das viaturas foi gradualmente reduzido, sobretudo em função da insuficiência de manutenção preventiva, o que levou ao desgaste prematuro de componentes essenciais. Essa situação foi agravada pela ausência de manuais técnicos adequados, documentos que deveriam ter sido elaborados e fornecidos pelo fabricante juntamente com os veículos, dificultando o estabelecimento de procedimentos padronizados de manutenção no âmbito militar.
Nos anos subsequentes, começaram a ser registradas falhas de maior gravidade nos CCL-MB-1 Pioneiro X1, posteriormente classificadas como problemas crônicos. Entre as ocorrências mais recorrentes, destacavam-se a ruptura da embreagem, considerada deficiente por empregar apenas um disco; a quebra frequente das molas volutas, herdadas dos tratores M-4 e de modelos nacionais semelhantes; e o trincamento do garfo da polia tensora, provocado pelo peso elevado da própria roda tensora, que submetia esse componente a esforços excessivos durante deslocamentos em alta velocidade sobre terrenos acidentados. Apesar dessas limitações, avançaram paralelamente os estudos para o desenvolvimento de uma família de veículos especializados, todos baseados na plataforma do Pioneiro X1. Nesse esforço, foram concebidos e produzidos: XLP-10, veículo lançador de pontes (quatro protótipos); XLF-40, veículo lançador de foguetes (um protótipo); XCS, veículo porta-morteiro (um protótipo). Também foram estudadas, ainda que apenas em nível conceitual, as versões de carro de engenharia do tipo buldôzer e carro destruidor de minas, que não avançaram para fases de prototipagem. Em julho de 1978, um relatório da 4ª Subchefia do Estado-Maior do Exército recomendou a interrupção da produção do X-1 Pioneiro, sugerindo que os remanescentes M-3 e M-3A1 Stuart fossem convertidos para o então novo modelo X-1A, então em testes, bem como para suas variantes especiais — porta-morteiro, antiaérea, lança-ponte e lança-foguete. A degradação da frota tornou-se evidente ao longo da década de 1980. Em fevereiro de 1983, oito veículos encontravam-se fora de operação; ao final do mesmo ano, apenas dois dos trinta e quatro CCL-MB-1 originalmente destinados ao 4º Regimento de Cavalaria Blindada (RCB) permaneciam operacionais. O cenário começou a ser parcialmente revertido em junho de 1984, com o retorno ao sistema de lubrificação a óleo, o que permitiu o reparo e a reintegração de vinte e três viaturas ao serviço. Inicialmente, estava prevista a produção, pela Bernardini S/A, de cinquenta e oito novos conjuntos de marchas destinados a corrigir essas falhas estruturais. No entanto, os custos elevados inviabilizaram essa solução. Além dos braços oscilantes, que continuaram a apresentar rachaduras, o próprio casco dos veículos passou a trincar na região de montagem dos bogies, fenômeno decorrente do suporte inadequado das suspensões ao peso adicional adquirido pelas modificações implementadas. A partir de 1988, os CCL-MB-1 Pioneiro X1 passaram a ser gradualmente substituídos pelos Bernardini M-41C Caxias, marcando o início de sua retirada definitiva. O último exemplar foi oficialmente desativado em julho de 1994, encerrando um ciclo que, apesar de marcado por dificuldades técnicas, representou uma etapa importante no desenvolvimento da indústria brasileira de blindados e no processo de modernização da força terrestre. A partir das lições obtidas com o desenvolvimento e a operação do X-1 Pioneiro, o novo X-1A1 incorporou modificações estruturais e mecânicas significativas, refletindo o amadurecimento do esforço nacional de engenharia de blindados. 

Entre as alterações mais relevantes, destacou-se a adoção de um sistema de suspensão redesenhado, composto por três bogies, em substituição aos dois utilizados no X-1 original, além da incorporação de uma polia tensora independente. Essa configuração proporcionou uma pressão sobre o solo de 0,53 kg/cm², aumentando sensivelmente a capacidade de adaptação ao terreno, facilitando a transposição de fossos e oferecendo maior durabilidade e resistência — parâmetros superiores, inclusive, aos de sistemas equivalentes empregados no exterior. A carcaça também passou por alterações importantes, sendo alongada em 20 centímetros, o que possibilitou a redistribuição interna dos componentes, o reposicionamento da saída de emergência e, sobretudo, o aumento do espaço destinado ao anel da torre. Com isso, tornou-se possível integrar uma nova torre com rolamento ampliado para 1,60 metro, dotada de giro hidráulico. Suas dimensões superiores garantiam maior conforto à tripulação e ampliavam a capacidade interna de armazenamento de munição. A torre permitiu ainda a instalação de um segundo rádio, com respectiva antena, e de uma escotilha giratória para o chefe de carro, preparada para o emprego de uma metralhadora antiaérea. O modelo incorporou também melhorias no posto de condução, dentre as quais o acionamento hidráulico das alavancas de controle das lagartas, reduzindo consideravelmente o esforço físico exigido do motorista e conferindo maior precisão operacional. Completado o protótipo, o veículo foi entregue ao Exército Brasileiro, sendo submetido a um amplo programa de testes e avaliações entre 1977 e 1978. O desempenho do X-1A1 forneceu subsídios para um projeto mais ambicioso, o X-15, que buscava desenvolver um carro de combate de maior porte. Contudo, restrições orçamentárias acabaram por inviabilizar essa iniciativa, redirecionando o foco para a plataforma já existente. Nesse novo contexto, visava-se criar um veículo intermediário e de menor custo, destinado principalmente a atividades de adestramento, preservando assim a vida útil da frota de carros de combate médios M-41 Walker Bulldog. Foi nesse processo que surgiu o X-1A2, batizado de “Carcará”, amplamente considerado o primeiro carro de combate sobre lagartas integralmente concebido no Brasil. Sua carcaça foi totalmente redesenhada, suprimindo o espaço destinado ao auxiliar do motorista, o que permitiu a aplicação de um conjunto de blindagem frontal com desempenho balístico muito superior ao dos modelos predecessores, além de conferir ao veículo um perfil externo mais moderno. Entre as inovações mecânicas, destacou-se a substituição da caixa de transmissão original por uma Allison CD-500 Cross-Drive, com três marchas à frente (em versões alta e baixa) e uma à ré. O veículo passou a ser impulsionado por um motor Saab-Scania diesel de 300 cv, adequado ao peso ampliado, agora em torno de 19 toneladas, garantindo autonomia operacional aproximada de 580 quilômetros. No campo da proteção, o X-1A2 recebeu um sistema de controle e detecção de incêndios desenvolvido pela D.F. Vasconcelos S/A, que representava um avanço expressivo em termos de segurança e sobrevivência em combate, aproximando o veículo dos padrões internacionais da época.
O modelo manteve a torre empregada em seu antecessor, mas passou a contar com um sistema de giro hidráulico, o que representou um avanço significativo em termos de precisão e conforto operacional. O veículo continuou equipado com o canhão EC-90 de 90 mm, o mesmo utilizado nos veículos de reconhecimento EE-9 Cascavel. Essa padronização de armamento reforçava o esforço do Exército Brasileiro em racionalizar a logística e simplificar a cadeia de suprimentos. Em paralelo, o X-1A2 passou a incorporar um índice mais elevado de nacionalização de componentes, aspecto que correspondia diretamente aos interesses estratégicos do Exército naquele período. O objetivo institucional era reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros  especialmente em um contexto de instabilidade política global e restrições econômicas internas  e consolidar uma capacidade industrial autônoma na produção e manutenção de veículos blindados. Submetido a extensos testes de campo, o X-1A2 foi homologado para emprego operacional pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Blindados (CPDB). A partir dessa aprovação, celebrou-se contrato com a Bernardini S/A para a produção inicial de vinte e quatro unidades, divididas em dois lotes. O primeiro, composto por dez carros, foi entregue ao 6º Regimento de Cavalaria Blindada (RCB) em meados de 1981, onde substituiu os últimos carros M-4 Sherman ainda em uso na Força Terrestre.Entretanto, a operação em ambiente real revelou falhas recorrentes no X-1A2. Entre elas, destacou-se um vazamento crônico no selo mecânico do conversor de torque, além de elevado índice de quebras no sistema de manches de direção. Embora tais problemas fossem tecnicamente corrigíveis, o panorama orçamentário e estratégico do Exército à época determinou que quase todos os recursos disponíveis fossem direcionados ao ambicioso programa de modernização dos carros de combate médios M-41 Walker Bulldog, posteriormente convertidos no modelo M-41C Caxias.O segundo lote, entregue em 1984, teve destino curioso: as viaturas foram armazenadas no próprio 6º RCB e nunca chegaram a ser ativadas operacionalmente. O modelo permaneceria em serviço até 1994, quando foi definitivamente substituído pelos M-41C. Do ponto de vista histórico, o desenvolvimento das famílias X-1 e X-1A2 pode ser objeto de debate, sobretudo considerando que o veículo sobre rodas Engesa EE-9 Cascavel apresentava, sob vários aspectos, capacidades similares e em certos pontos superiores  às viaturas derivadas do M-3 Stuart. Contudo, essa comparação não reflete o propósito estratégico que orientava o programa.  Em termos operacionais, a série X-1 desempenhou um papel transitório, porém essencial: prolongou a vida útil da frota de M-3 Stuart e manteve a capacidade de instrução e prontidão das unidades blindadas até que os programas de modernização do M-41 fossem efetivamente implementados.

Em Escala.
Para representarmos o Bernardini CCL-MB-1 Pioneiro X1 “EB11-232” utilizamos como ponto de partida kit da Academy na escala 1/35, desenvolvendo em scracth todo o chassi, canhão e torre. Fizemos uso de fotos de referência e desenhos, buscando a maior proximidade possível com o veículo real. Empregamos decais confeccionados Eletric Products pertencentes ao set “Exército Brasileiro  1942 - 1982".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregados em todos os carros de combate leve (CCL) X-1 , X-1A1 e X-1A2 operados pelo Exército Brasileiro até 1983, sendo que após este ano alguns carros de combate receberam o padrão de camuflagem tático em dois tons adotado pelos Engesa EE-9 Cascavel e Bernardini M-41C Caxias, mantendo este esquema até a sua desativação em julho do ano de 1994.

Bibliografia :
- O Stuart no Brasil – Helio Higuchi, Reginaldo Bachi e Paulo R. Bastos Jr.
- M3 Stuart Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/M3_Stuart
- Blindados no Brasil Volume I, por Expedito Carlos S. Bastos

EE-T1/T2 Engesa Osório (VBC CC)

História e Desenvolvimento.
A Engesa – Engenheiros Especializados S.A., fundada em 1958 na cidade de São Paulo, SP, por um grupo de engenheiros recém-formados liderado por José Luiz Whitaker Ribeiro, consolidou-se como o principal fabricante de equipamentos militares terrestres do Brasil. Nos anos iniciais, a empresa concentrou suas atividades na produção de equipamentos para prospecção, produção e refino de petróleo. Composta por profissionais altamente qualificados, muitos deles formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Engesa destacou-se pela excelência técnica e inovação. Em 1966, a Engesa iniciou um marco em sua trajetória com o projeto e a fabricação do sistema de tração 4×4, conhecido comercialmente como Tração Total. Esse sistema, composto por uma caixa de transferência com duas tomadas de força, eixo dianteiro direcional e guincho opcional, foi projetado para equipar veículos nacionais de série, como picapes e caminhões das marcas Chevrolet, Ford e, posteriormente, Dodge. O sucesso do sistema levou ao desenvolvimento das versões 6×4 e 6×6, que aproveitavam eixos e feixes de molas traseiros originais dos veículos. O sistema Tração Total conferiu excepcional desempenho fora de estrada, até então inédito no Brasil para veículos dessa categoria. Um exemplo notável foi a picape F-100 6×6, cuja capacidade de carga foi duplicada, permitindo a transposição de rampas com inclinação de até 85%. Devido à sua eficiência, o sistema foi patenteado no Brasil e em diversos países, consolidando a reputação da Engesa no mercado. O crescimento da Engesa esteve intrinsecamente ligado ao período da ditadura militar (1964–1985). Em 1967, o sistema Tração Total foi declarado “de interesse para a Segurança Nacional”, resultando em contratos com o Exército Brasileiro para o fornecimento de centenas de caminhões novos (modelos Chevrolet 4×4 e 6×6) e a modernização de parte da frota herdada da Segunda Guerra Mundial. Esses contratos incluíam a reforma de chassis e carrocerias, repotencialização de motores e substituição de suspensões e sistemas de tração pelos fabricados pela Engesa. Paralelamente, a empresa continuou atendendo o mercado civil, adaptando veículos para empresas como Petrobras, empreiteiras, concessionárias de energia e madeireiras. A partir de 1968, a Engesa passou a exibir seus produtos em diversas edições do Salão do Automóvel, ampliando sua visibilidade no setor. Os laços da Engesa com as Forças Armadas foram fortalecidos pelo Decreto-Lei nº 200/67, que promovia a descentralização de atividades da administração federal e incentivava a execução indireta de tarefas por meio da iniciativa privada. O decreto estipulava que a administração deveria transferir atividades executivas para empresas privadas capacitadas, o que resultou na redução de verbas e de quadros de servidores dedicados à pesquisa e desenvolvimento no setor público, incluindo o Exército. Essa política beneficiou diretamente a Engesa, que assumiu parte das responsabilidades de pesquisa e desenvolvimento militar. 

O crescimento da empresa foi expressivo, com a adaptação de 960 veículos em 1968, número que alcançou 1.371 dois anos depois. Esse avanço foi acompanhado pela criação de novos produtos voltados às Forças Armadas, consolidando a Engesa como um dos principais fornecedores militares do Brasil. Em abril de 1971, a Engesa – Engenheiros Especializados S.A. demonstrou sua capacidade como fabricante de armamentos modernos ao apresentar à imprensa brasileira dois blindados sobre rodas, desenvolvidos conforme especificações do Exército Brasileiro. O primeiro, um Carro de Reconhecimento (CRR), e o segundo, um Carro de Transporte de Tropas Anfíbio (CTR-A), foram os protótipos dos modelos EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu, respectivamente. Esses lançamentos marcaram o início de uma linha de equipamentos militares identificada por nomes de cobras venenosas, que se tornaria característica da Engesa nas décadas seguintes. As primeiras unidades do EE-9 Cascavel foram equipadas com canhões de 37 mm reutilizados, provenientes de blindados M3 Stuart recebidos pelo Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. A segunda série do veículo incorporou uma configuração modernizada, com uma torreta francesa armada com um canhão de 90 mm. Contudo, esse sistema apresentava custos elevados e dependia de autorizações prévias do governo francês para exportações, o que levou a Engesa a desenvolver um canhão de 90 mm próprio, fabricado sob licença com base em um projeto belga. O EE-9 Cascavel, equipado com esse canhão “nacionalizado”, foi posteriormente reconhecido por analistas internacionais como um dos melhores blindados leves de reconhecimento do mundo. Estimulada pelos planos de investimento das Forças Armadas Brasileiras e pelo potencial de mercado no Oriente Médio, a Engesa transferiu, em 1974, suas principais instalações para São José dos Campos, SP. No mesmo ano, a empresa criou a Engex S.A., uma unidade fabril em Salvador, BA, dedicada à produção de engrenagens, caixas de transmissão e canhões. Ainda em 1974, a Engesa lançou os caminhões EE-15 e EE-25, com capacidades de carga de 1,5 e 2,5 toneladas, respectivamente, projetados para operações fora de estrada, com o dobro da capacidade em superfícies regulares. No início de 1982, o comando do Exército Brasileiro solicitou à Engesa estudos para o desenvolvimento de um carro de combate médio sobre lagartas, com peso de aproximadamente 35 toneladas. Este seria o veículo mais pesado a entrar em serviço no Brasil e o primeiro projeto desse porte conduzido pela empresa. Considerando a limitada demanda interna, a Engesa optou por adaptar o projeto às necessidades do mercado internacional de defesa, aumentando o peso do veículo para 41 toneladas. Com isso, o projeto foi elevado à categoria de Main Battle Tank (MBT – Carro Principal de Combate), ampliando seu potencial competitivo no cenário global.

Na década de 1980, o Exército da Arábia Saudita lançou uma concorrência internacional para o desenvolvimento e aquisição de um novo Carro de Combate Principal (Main Battle Tank – MBT), destinado a substituir os obsoletos AMX-30B de fabricação francesa. O programa previa a compra de aproximadamente mil unidades, em um contrato estimado em US$ 3 bilhões. A Engesa – Engenheiros Especializados S.A., reconhecendo o potencial de exportação, identificou nessa oportunidade a possibilidade de alcançar a escala industrial necessária para viabilizar o atendimento às demandas do Exército Brasileiro, além de fortalecer sua posição no mercado global. A Engesa  S/A  já detinha significativa notoriedade como fornecedora de veículos militares e equipamentos para nações do Oriente Médio, o que a posicionava como uma concorrente relevante na concorrência saudita. Sua experiência prévia na exportação de blindados, como o EE-9 Cascavel e o EE-11 Urutu, reforçava sua credibilidade no setor de defesa. O projeto do novo carro de combate, inicialmente denominado T-1 e posteriormente batizado EE-T1, foi concebido para atender aos padrões modernos de MBTs, com ênfase em poder de fogo, proteção e mobilidade. O veículo deveria incorporar tecnologias avançadas, incluindo: Pontaria a laser e controles para tiro em movimento; Sistemas de visão noturna; Proteção contra ameaças químicas, radioativas e biológicas (QRB); Sensores térmicos infravermelhos. A blindagem do EE-T1 foi projetada para ser leve e resistente, utilizando chapas compostas de materiais metálicos e compostos, desenvolvidas pela Eletrometal S.A., empresa responsável também pela produção de aços especiais para os canhões da Engesa. Para acelerar o desenvolvimento e reduzir custos, a Engesa buscou parcerias com fabricantes internacionais renomados, como a Dr. Ing. hc F. Porsche AG e a Thyssen-Henschel, ambas alemãs. O objetivo era adquirir tecnologia por meio de transferência, mas divergências comerciais e diferenças nos parâmetros de projeto inviabilizaram essas colaborações. Diante do fracasso nas negociações, a Engesa optou por desenvolver o EE-T1 de forma autônoma, incorporando as tecnologias mais avançadas disponíveis no mercado. O projeto foi estruturado em duas vertentes: Versão para Exportação: Customizada para atender às especificações exigidas pelo mercado internacional, incluindo a concorrência saudita. Versão para o Exército Brasileiro: Configuração simplificada, adaptada às necessidades operacionais nacionais. Para equipar o EE-T1, a Engesa encomendou à britânica Vickers Defence Systems duas torres intercambiáveis com comando elétrico, compatíveis com canhões de 105 mm e 120 mm, este último de origem francesa. Essa abordagem permitiu flexibilidade no armamento, atendendo a diferentes requisitos operacionais

O Engesa EE-T1, projetado para uma tripulação de quatro membros, foi concebido com uma estrutura monobloco composta por chapas blindadas soldadas, utilizando materiais monometálicos, bimetálicos e compostos. A blindagem composta, aplicada no arco frontal com pequenos ângulos de incidência, assegurava baixa silhueta e maximizava a proteção balística. Em 1986, essa configuração permitia resistência razoável contra munições antitanque disponíveis à época. O veículo incluía saias laterais em aço blindado para proteger as lagartas e os sistemas de suspensão, enquanto o motor e a transmissão automática com conversor de torque eram posicionados na traseira. O monobloco foi dividido em dois compartimentos principais — tripulação e power pack — separados por uma parede estrutural “corta-fogo” com isolamento térmico-acústico. O compartimento do power pack contava com três tampas em aço blindado bimetálico, projetadas para facilitar o acesso, complementadas por grades balísticas nas entradas e saídas de ar. A suspensão hidropneumática, fabricada pela Dunlop, atuava sobre as doze rodas de apoio (seis por lado), utilizando lagartas Dhil. O sistema de frenagem, hidráulico a disco com retarder, era assistido por computador, garantindo maior controle e segurança. Para propulsão, foi selecionado o motor MWM TBD 234 V12 a diesel, refrigerado a ar, com 1.020 cv, importado da Alemanha, acoplado à transmissão ZF Friedrichshafen AG LSG 3000, de seis velocidades (quatro à frente e duas à ré). O EE-T1 estava equipado com o sistema de controle de fogo britânico Marconi Centaur, integrado a dois periscópios franceses SFIM VS580 VICAS, um para o atirador (com telêmetro a laser) e outro para o comandante (com visão panorâmica). Adicionalmente, o sistema de visão noturna Philips UA9090, de fabricação holandesa, proporcionava visores para ambos os tripulantes, ampliando a capacidade operacional em condições de baixa luminosidade. Em julho de 1985, um protótipo do EE-T1 (P.1) foi enviado à Arábia Saudita para participar do processo de pré-seleção da concorrência internacional promovida pelo Exército Saudita. O veículo demonstrou plena adaptação ao terreno desértico, obtendo excelentes resultados e sendo classificado para a fase seguinte, onde competiu diretamente com modelos de fabricantes da França, Grã-Bretanha e Estados Unidos. Conforme o cronograma, em julho de 1987, o protótipo definitivo, equipado com um canhão de 120 mm e sistemas eletrônicos de ponta, foi despachado para o Oriente Médio para a seleção final. Durante os testes, o EE-T1 apresentou os seguintes dados de desempenho: Rampa máxima: 65% ; Obstáculo vertical máximo: 1,15 m; Capacidade de vau: 1,20 m (sem preparação) a 2,00 m (com preparação); Velocidade máxima: 70 km/h; Autonomia aproximada de : 550 km.

O Engesa EE-T1 Al Fahd (P.2) destacou-se como um dos carros de combate principais (Main Battle Tank – MBT) mais avançados de sua categoria, rivalizando com os melhores projetos globais, exceto o alemão Leopard, que não participou da concorrência saudita. Sua combinação de qualidade mecânica e sistemas de controle sofisticados conferiu ao veículo um desempenho excepcional, particularmente nos testes de autonomia e precisão de tiro. O sistema de controle de fogo do EE-T1 Al Fahd era notavelmente avançado, incorporando uma "janela de coincidência" que analisava a posição do canhão e a mira do atirador. Esse recurso permitia disparos apenas quando o alinhamento entre o canhão e os periscópios era coincidente, mesmo durante oscilações do veículo, resultando em alta precisão. Nos testes, o EE-T1 foi o único a acertar um alvo a 4 km de distância. Em disparos contra alvos móveis a distâncias entre 1,5 e 2,5 km, o veículo brasileiro obteve oito acertos em doze tentativas, superando o M1A1 Abrams norte-americano (cinco acertos) e os demais concorrentes (um acerto cada). Na fase inicial da concorrência, os carros de combate franceses AMX-40 e britânicos Challenger foram desclassificados, deixando o EE-T1 Al Fahd e o M1A1 Abrams como finalistas. Na etapa final de testes de campo, iniciada em 1987, o EE-T1 Al Fahd (P.2) novamente demonstrou superioridade técnica em relação ao modelo norte-americano, consolidando a confiança da Engesa na vitória do certame. Como resultado de seu desempenho, a Engesa S.A. assinou um pré-contrato com o governo saudita para o fornecimento inicial de 316 carros de combate, em um acordo avaliado em US$ 15 bilhões (valores ajustados para 2020). Esse contrato representava não apenas uma conquista comercial, mas também a validação do projeto brasileiro no cenário internacional de defesa. Apesar da superioridade técnica do EE-T1 Al Fahd, em 1989, o Departamento de Estado e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos apresentaram ao Congresso norte-americano um relatório detalhado defendendo a importância estratégica do contrato para os interesses geopolíticos e a indústria de defesa dos EUA. O M1A1 Abrams, já em serviço nas unidades de cavalaria do Exército dos Estados Unidos desde o início da década de 1980, havia sido amplamente testado em operações reais, conferindo-lhe uma vantagem operacional comprovada. Além disso, a versão do M1A1 Abrams ofertada, equipada com o canhão alemão Rheinmetall L/44 de 120 mm, estava em produção seriada desde 1986, permitindo entregas imediatas ao Exército da Arábia Saudita. Esses fatores, aliados à significativa influência política dos Estados Unidos, favoreceram a escolha do modelo norte-americano, impactando diretamente o desfecho da concorrência. Embora o EE-T1 Al Fahd tenha demonstrado excelência técnica e competitividade, a decisão final da Arábia Saudita refletiu a complexidade de fatores políticos e logísticos em concorrências internacionais de defesa. O episódio destacou os desafios enfrentados pela Engesa em competir com potências estabelecidas no mercado global, apesar de sua capacidade de desenvolver um MBT de classe mundial.

Emprego no Exército Brasileiro.
Durante a década de 1970, a força de carros de combate do Exército Brasileiro encontrava-se em um momento de transição tecnológica e doutrinária. O parque blindado nacional era composto, majoritariamente, pelos M-41, M-41A1 e M-41A3 Walker Bulldog, de fabricação norte-americana, complementados por um número limitado de Bernardini X-1 e X-A2, estes últimos resultantes da modernização de antigos M3A1 Stuart. Embora cumprissem adequadamente seu papel nas décadas anteriores, esses veículos já demonstravam acentuada obsolescência frente às novas demandas táticas e às potenciais ameaças regionais, sobretudo nas fronteiras do sul do país. Com o avanço tecnológico das forças blindadas na América do Sul especialmente a modernização dos meios mecanizados da Argentina e do Chile, tornou-se evidente para o comando do Exército Brasileiro que os blindados nacionais careciam de um salto qualitativo. Programas paliativos, como a modernização dos M-41 Walker Bulldog e o desenvolvimento do carro de combate médio Bernardini MB-3 Tamoyo, foram implementados, mas logo se constatou que tais iniciativas não seriam suficientes para suprir, a médio prazo, a lacuna tecnológica existente. Diante desse cenário, o Exército Brasileiro  passou a buscar uma solução nacional capaz de integrar as lições acumuladas com a motorização e mecanização de décadas anteriores. Assim, em 1982, a empresa Engesa – Engenheiros Especializados S.A., reconhecida por sua experiência na produção dos veículos blindados sobre rodas EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu, foi oficialmente consultada para desenvolver um novo carro de combate sobre lagartas, com peso estimado em cerca de 35 toneladas. No entanto, o reduzido potencial de aquisição interna  restrito à demanda do próprio Exército Brasileiro inviabilizava economicamente um projeto dessa magnitude. Em resposta, a Engesa propôs o desenvolvimento de um Carro de Combate Principal (MBT – Main Battle Tank), de peso superior a 40 toneladas, visando também o mercado de exportação, em especial o Oriente Médio. Essa decisão, contudo, gerou divergências técnicas e conceituais com o Exército. O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) alertava que veículos com mais de 40 toneladas e largura superior a 3,5 metros poderiam enfrentar sérias restrições logísticas no território nacional  em especial nas malhas rodoviária e ferroviária , além de apresentarem custos de aquisição e manutenção significativamente mais elevados. Apesar das divergências, prevaleceu o entendimento de que o projeto representava uma oportunidade estratégica para consolidar a capacidade industrial de defesa do Brasil. Assim, foi estabelecida uma parceria formal entre a Engesa e o governo federal, com acompanhamento técnico direto dos engenheiros militares do Centro Tecnológico do Exército (CTEx). Os trabalhos começaram em 1982, empregando recursos tecnológicos de ponta, como o sistema de desenho assistido por computador CAD/CAM, algo inédito na indústria bélica nacional. 

Em 1983, foi concluído o mock-up em escala real do novo blindado, seguido pela construção do primeiro chassi funcional, que realizou seus testes iniciais em setembro de 1984. O protótipo recebeu a designação P.0 e o apelido informal de “Cachaça”, em alusão à tradicional bebida brasileira. Para fins de simulação, foi equipado com uma torre e um canhão falsos, pintura camuflada e marcações do Exército Brasileiro, possibilitando testes realistas em campo. No plano estratégico da Engesa, o projeto do blindado  denominado EE-T1 “Osório” — foi estruturado em duas versões distintas: Versão para exportação: configurada com sistemas e componentes de alta tecnologia, destinados a atender às exigências do mercado internacional, com destaque para a concorrência promovida pelo governo da Arábia Saudita. Versão para o Exército Brasileiro: concebida em configuração simplificada, priorizando a viabilidade econômica, a manutenção facilitada e a adaptação às condições operacionais do país. O Carro Principal de Combate (Main Battle Tank – MBT) desenvolvido pela Engesa S.A. recebeu a designação EE-T1 P1, sendo oficialmente batizado como “Osório”, em homenagem ao General Manuel Luís Osório, Marquês do Herval, patrono da Arma de Cavalaria do Exército Brasileiro. A escolha do nome não apenas prestava tributo a um dos maiores heróis militares do país, como também simbolizava o espírito de independência tecnológica e de soberania industrial que movia o projeto — um marco na busca por autonomia nacional na área de defesa durante os anos 1980. O EE-T1 Osório foi concebido com o que havia de mais moderno à época. Seu armamento principal consistia no consagrado canhão britânico Royal Ordnance L7, de 105 mm e alma raiada, amplamente utilizado por diversas nações membros da OTAN. O sistema de controle de tiro Marconi Centaur proporcionava elevada precisão, mesmo em movimento, enquanto os periscópios OiP LRS-5DN (para o comandante) e OiP LRS-5DNLC (para o atirador), ambos dotados de visão noturna, asseguravam plena capacidade de operação em condições de baixa luminosidade. A torre, de concepção avançada, integrava sensores de alta sensibilidade acoplados ao sistema de controle de fogo, conferindo ao veículo uma notável precisão balística. Para defesa secundária, o Osório podia receber uma metralhadora Hughes EX-34 de 7,62 x 51 mm (acionada por corrente), além de uma arma coaxial, que variava entre uma Browning M2HB de 12,7 x 99 mm ou uma FN MAG de 7,62 x 51 mm, conforme o perfil da missão. O grupo motriz adotado era idêntico ao da versão destinada à exportação, incluindo a viabilidade de nacionalização progressiva  uma vez que os fabricantes do motor e da transmissão já possuíam instalações no território brasileiro. Essa característica refletia o planejamento estratégico da Engesa S/A de fomentar a autossuficiência industrial e reduzir a dependência de componentes estrangeiros.
Entre 16 de dezembro de 1986 e 14 de abril de 1987, o EE-T1 Osório foi submetido a um rigoroso programa de testes de campo, supervisionado pelo Exército Brasileiro. Ao longo das avaliações, o protótipo percorreu 3.296 km, dos quais 750 km foram realizados sob condições severas no Campo de Provas de Marambaia, no Rio de Janeiro, a fim de verificar sua mobilidade em terrenos desafiadores. Foram efetuados 50 disparos com o canhão de 105 mm, todos com excelente desempenho em precisão e confiabilidade. Os resultados foram consolidados em dois relatórios oficiais: o Relatório Técnico do Exército (RETEx) e o Relatório Técnico Operacional (RETOp). Ambos apresentaram avaliações extremamente positivas, destacando a excepcional mobilidade, precisão e robustez do veículo. O desempenho do EE-T1 Osório superou as expectativas do Exército, gerando entusiasmo entre os engenheiros militares e reforçando o prestígio da Engesa como expoente da indústria bélica nacional. Apesar do êxito técnico, o projeto enfrentou obstáculos de natureza doutrinária e estratégica. O Exército Brasileiro, cuja doutrina à época era essencialmente defensiva e voltada à proteção territorial, não priorizava a adoção de um carro de combate pesado, considerado de caráter ofensivo. Além disso, a política externa brasileira, marcada pela neutralidade e pela não intervenção em conflitos internacionais, reduzia o ímpeto político para a aquisição de um MBT de grande porte. Essas divergências conceituais, somadas às restrições orçamentárias e à ausência de uma diretriz clara de reequipamento, acabaram por limitar as perspectivas de adoção do EE-T1 Osório pelo Exército Brasileiro. Ainda assim, o projeto consolidou-se como um símbolo do auge tecnológico da indústria nacional de defesa, representando o ponto culminante da engenhosidade e da ambição da Engesa em colocar o Brasil entre os países capazes de produzir seus próprios carros principais de combate. A decisão do Exército Brasileiro de não adotar o Carro Principal de Combate (Main Battle Tank – MBT) EE-T1 Osório, desenvolvido pela Engesa S.A., foi fortemente influenciada por fatores econômicos, políticos e doutrinários. O principal deles residia no elevado custo de aquisição do veículo, inicialmente estimado em US$ 1,5 milhão por unidade, mas que, em 1987, já alcançava aproximadamente US$ 4 milhões, sem incluir despesas de manutenção, treinamento e operação. Esses valores mostraram-se incompatíveis com as severas restrições orçamentárias enfrentadas pela Força Terrestre, em um período em que o Brasil atravessava uma profunda crise econômica, marcada por inflação crônica, endividamento externo e cortes nos investimentos públicos. A carência de recursos inviabilizou a incorporação do Osório às fileiras do Exército, resultando na estagnação do programa nacional de carros de combate.  Esse revés foi agravado pela frustração de uma promissora negociação internacional: a Arábia Saudita, que avaliava a aquisição de 316 unidades do EE-T1, cancelou a concorrência que poderia ter movimentado cerca de US$ 15 bilhões (em valores ajustados para 2020). 

Essa perda representou um golpe devastador para a Engesa, que havia direcionado boa parte de seus esforços técnicos e financeiros à concretização dessa venda. As estimativas de custo de desenvolvimento do EE-T1 Osório variavam entre US$ 50 milhões e US$ 150 milhões, valores expressivos para uma empresa nacional de capital privado. A ausência de um apoio institucional robusto do governo brasileiro, aliada à percepção negativa no mercado internacional — de que o próprio Exército não demonstrava interesse pelo blindado —, acabou afastando eventuais compradores estrangeiros. A situação financeira da Engesa deteriorou-se rapidamente, agravada por uma inadimplência de aproximadamente US$ 200 milhões do governo iraquiano, então um de seus principais clientes no setor de defesa. A empresa ainda acalentava esperanças de obter auxílio financeiro do Governo Federal, mas esse apoio não se concretizou, sobretudo em um momento em que o país buscava o reequilíbrio fiscal e a redução dos gastos públicos. Em março de 1990, a Engesa protocolou um pedido de concordata preventiva, marcando o início de uma fase de declínio irreversível. Dois anos depois, a imprensa já descrevia o estado da empresa como pré-falimentar, destacando seu endividamento crescente, incapacidade de cumprir contratos e sucessivas demissões em massa. Em 1993, foi decretada oficialmente a falência da Engesa S.A., encerrando-se um dos capítulos mais emblemáticos da história da indústria bélica nacional. O desfecho teve consequências profundas. O rico acervo técnico e industrial acumulado pela empresa — fruto de décadas de pesquisa, inovação e experiência — foi disperso ou perdido. Grande parte dos equipamentos e maquinários foi vendida como sucata, enquanto a biblioteca técnica, que reunia documentação inédita sobre projetos de blindados e sistemas de defesa, foi destruída e comercializada por peso. Entre 1993 e 1995, quatro leilões judiciais liquidaram os principais ativos físicos da Engesa, incluindo suas unidades em São José dos Campos e Barueri (SP). Os engenheiros, técnicos e operários que compunham o corpo da empresa tiveram destinos variados: muitos abandonaram o setor de defesa, alguns migraram para o exterior, levando consigo um conhecimento técnico que dificilmente seria recuperado. A falência da Engesa não representou apenas o encerramento de uma companhia, mas a dissolução de um projeto nacional de soberania tecnológica, que havia colocado o Brasil entre os poucos países do mundo capazes de projetar e construir seus próprios carros principais de combate. Em retrospecto, a queda da Engesa não decorreu unicamente da perda da concorrência saudita, mas foi o resultado de uma crise estrutural e financeira latente, agravada pela dependência de contratos externos, pela ausência de uma política de defesa contínua e pela falta de apoio estatal em um mercado global extremamente competitivo. Assim, o destino do EE-T1 Osório e de sua fabricante acabou simbolizando o fim de uma era de ambição industrial e autoconfiança tecnológica que marcou o auge da indústria de defesa brasileira nos anos 1980.
Durante o processo de concordata da Engesa S.A., diversos protótipos de veículos militares foram desmantelados, com seus componentes importados — como canhões, sistemas optrônicos, motores e transmissões — devolvidos aos fabricantes estrangeiros como forma de pagamento de dívidas. As carcaças remanescentes foram sucateadas, restando apenas alguns exemplares incompletos em posse de colecionadores, incluindo o EE-18 Sucuri II, o EE-T4 Ogum e outros caminhões e blindados. O protótipo de pré-série EE-T1 Osório P.0 foi vendido como sucata, com seus componentes importados também devolvidos para aliviar os débitos da empresa. Como o governo brasileiro era um dos principais credores da massa falida da Engesa, uma decisão judicial determinou que grande parte dos ativos, peças de reposição e veículos fosse incorporada ao Exército Brasileiro. Entre os equipamentos transferidos estavam dois EE-3 Jararaca, um EE-T4 Ogum (P.1), um EE-11 Urutu e os dois protótipos do EE-T1 Osório: o P.1 (equipado com canhão de 105 mm) e o P.2, também conhecido como EE-T2 Al Fahd (equipado com canhão de 120 mm). Esses dois carros de combate foram colocados sob a custódia do 13º Regimento de Cavalaria Mecanizado (RCMec), em Pirassununga, SP, onde permaneceram armazenados, sem integração às operações da unidade. Em atendimento a exigências judiciais, os protótipos EE-T1 Osório P.1 e P.2 estavam programados para serem leiloados em 20 de novembro de 2002, como parte do processo de pagamento aos credores privados da massa falida. Contudo, a pedido do Exército Brasileiro, o Ministério Público de São Paulo interpôs uma ação cautelar que impediu com sucesso a venda dos veículos a terceiros. Em 2003, os dois protótipos foram oficialmente entregues ao 2º Regimento de Carros de Combate, em Pirassununga, onde foram entronizados, garantindo sua preservação em estado operacional. Essa medida assegurou que os veículos permanecessem como um tributo à capacidade tecnológica brasileira e como referência para o desenvolvimento futuro da arma blindada no Brasil. Em 2013, um dos protótipos do EE-T1 Osório foi transferido para o acervo do Museu Militar Conde de Linhares, no Rio de Janeiro, onde passou a integrar a coleção de itens históricos. O outro foi enviado ao Centro de Instrução de Blindados (CIBld), em Santa Maria, RS, para fins educacionais e de preservação. No início de 2024, foi iniciada uma operação de restauração dos dois protótipos, conduzida pelo Parque Regional de Manutenção/5 (Pq R Mnt/5), em Curitiba, PR. Em abril de 2024, o EE-T1 Osório P.1 recuperou seu status operacional, marcando um esforço significativo para manter o legado do projeto. Embora o EE-T1 Osório não tenha alcançado sucesso comercial, ele permanece um marco na história da indústria de defesa brasileira. O veículo demonstrou a capacidade do Brasil de desenvolver tecnologia militar avançada, posicionando o país como um ator relevante no cenário global de produção de carros de combate. Apesar de sua breve trajetória, o Osório deixou um legado de orgulho e conhecimento técnico, servindo como testemunho do talento e da competência dos engenheiros brasileiros no setor de defesa. A preservação dos protótipos assegura que futuras gerações possam reconhecer e se inspirar nesse feito, enquanto o veículo continua a contribuir para a evolução doutrinária e tecnológica da arma blindada no Brasil.

Em Escala:
Para representar o protótipo Engesa EE-T2 Osório (P.2), registrado como "EB 346606180", foi utilizado o kit da Trumpeter na escala 1/35. Este modelo, embora detalhado, exigiu uma série de modificações para retratar com precisão as características específicas do protótipo. As alterações foram implementadas para garantir a fidelidade histórica e estética em relação ao veículo original. Os emblemas e marcações do EE-T2 Osório foram reproduzidos utilizando uma combinação de decais originais fornecidos com o kit da Trumpeter e complementos do conjunto "Exército Brasileiro 1983-2002", produzido pela Eletric Products. 
O esquema de cores descrito, conforme o padrão Federal Standard (FS), corresponde ao segundo padrão de pintura aplicado ao protótipo Engesa EE-T2 Osório (P.2) após seu retorno dos testes realizados na Arábia Saudita em 1987. Este padrão foi adotado para adequar o veículo às especificações visuais do Exército Brasileiro, refletindo as diretrizes de camuflagem utilizadas na época.  O primeiro protótipo, EE-T2 Osório (P.1), foi submetido a dois padrões distintos de camuflagem tática em dois tons ao longo de sua trajetória. O último desses padrões foi alinhado ao esquema de camuflagem predominante nos veículos do Exército Brasileiro, garantindo uniformidade visual com a frota militar nacional.

Bibliografia: 
- Blindados no Brasil - Um Longo e Árduo Aprendizado - Volume I , por Expedito Carlos Stephani Bastos
- Blindados no Brasil - Um Longo e Árduo Aprendizado - Volume II, por Expedito Carlos Stephani Bastos
- Engesa – Lexicar - http://www.lexicarbrasil.com.br/engesa/