M-2/M-2A1 Meia Lagarta (CBTT)

História e Desenvolvimento.
No início do século XX, o surgimento dos veículos de transporte meia-lagarta popularmente conhecidos como "half-tracks"  representou uma importante inovação no campo da mobilidade. Ao combinar rodas direcionais dianteiras convencionais com um sistema de lagartas traseiras, esses veículos reuniam características até então difíceis de conciliar em uma única plataforma: a facilidade de condução e manobrabilidade dos caminhões tradicionais com a capacidade de transposição de terrenos típica dos veículos sobre esteiras. Essa configuração proporcionava excelente desempenho fora de estrada, tornando-se particularmente valiosa em ambientes marcados por lama, areia, neve ou terrenos profundamente deformados pela guerra. A origem desse conceito remonta à década de 1920, período em que a Europa ainda buscava reconstruir-se dos efeitos da Primeira Guerra Mundial. Este havia evidenciado de forma dramática as limitações dos meios de transporte convencionais em campos de batalha dominados por crateras, trincheiras e terrenos completamente destruídos pela artilharia pesada. Diante desse cenário, diversos governos europeus passaram a investir no desenvolvimento de veículos capazes de operar em condições extremas, tanto para o transporte logístico quanto para o deslocamento de tropas. Nesse contexto destacou-se o sistema de tração desenvolvido pelo engenheiro francês Adolphe Kégresse, este conceito seria denominado como sistema “Kégresse”, consistindo  substituição do eixo traseiro por um conjunto de lagartas flexíveis de borracha, solução que aumentava significativamente a capacidade de tração em terrenos irregulares sem exigir a complexidade mecânica dos tanques de combate integralmente sobre esteiras. Inicialmente concebida para aplicações civis e utilitárias, essa tecnologia rapidamente despertou o interesse militar.  Entre os primeiros veículos a incorporar esse conceito destacou-se o Citroën-Kégresse P-17, que ganhou notoriedade ao participar de expedições de longa distância  em regiões remotas da África e da Ásia, como a célebre Croisière Noire e a Croisière Jaune, Embora inicialmente destinado ao uso civil e expedicionário, o P-17 logo revelou grande potencial para aplicações militares. Sua capacidade de superar obstáculos naturais, transpor terrenos enlameados e operar em regiões praticamente inacessíveis aos caminhões convencionais transformou-o em uma plataforma extremamente versátil.  Diversas versões militares passaram então a ser produzidas, incluindo variantes destinadas ao transporte de tropas e reboque de peças de artilharia, com algumas versões sendo armadas com  metralhadoras automáticas e canhões de 37 mm. Logo despertaria a atenção de exércitos estrangeiros, entre estes os Estados Unidos,  que no início da década de 1930, buscavam modernizar suas forças mecanizadas diante das transformações observadas nos exércitos europeus. Seus militares identificaram  nos veículos meia-lagarta uma solução promissora para aumentar a mobilidade de tropas e equipamentos em terrenos onde os caminhões convencionais apresentavam severas limitações. Em 1932, o governo norte-americano lançou uma concorrência internacional visando à aquisição de até 200 veículos meia-lagarta para avaliação operacional. Fabricantes norte-americanos e europeus apresentaram diferentes propostas, mas os testes comparativos realizados pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army)  demonstraram clara superioridade do Citroën-Kégresse P-17 em aspectos relacionados à mobilidade fora de estrada, confiabilidade mecânica e capacidade de transposição de obstáculos. 

Os resultados obtidos durante os ensaios  mostraram-se suficientemente positivos para que, ainda no final de 1932, os primeiros exemplares operacionais do Citroën-Kégresse P-17 fossem incorporados ao arsenal. Dessa forma, o modelo francês tornou-se o primeiro veículo meia-lagarta  empregado pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Apesar da derrota na concorrência, a indústria automotiva nacional rapidamente reconheceu o enorme potencial operacional dos veículos meia-lagarta. Como consequência, diversas fabricantes iniciaram programas próprios de pesquisa e desenvolvimento. Entre as empresas que se destacaram nesse processo encontrava-se a James Cunningham & Sons, celebre por  produzir automóveis sofisticados, tornando-se reconhecida por seu elevado padrão de engenharia e acabamento artesanal.  Buscando ingressar no crescente segmento militar, a Cunningham desenvolveu um modelo experimental denominado T-24,  um caminhão blindado equipado com sistema de tração meia-lagarta. Apresentava soluções técnicas consideradas avançadas para a época, combinando blindagem leve, elevada mobilidade fora de estrada e capacidade de carga.  Embora  demonstrasse potencial promissor, os militares norte-americanos optaram inicialmente por concentrar seus esforços na incorporação dos modelos Citroën-Kégresse. Entretanto, o cenário mudaria significativamente no ano seguinte, quando este fabricante foi incorporado pela White Motor Company, empresa que possuía sólida tradição industrial e destacava-se como uma das mais importantes fabricantes de caminhões.  Durante o processo de incorporação da Cunningham, a nova administração identificou diversos projetos considerados promissores, decidindo aperfeiçoá-los. Entre esses encontrava-se justamente o conceito do veículo meia-lagarta T-24, que passou a receber atenção prioritária por parte do departamento de engenharia da empresa. Seus engenheiros  promoveram uma série de revisões estruturais e mecânicas, buscando aumentar a confiabilidade, simplificar a produção e melhorar o desempenho operacional do projeto original. Neste mesmo período os militares intensificavam  estudos relacionados à mecanização das forças terrestres, e no final do ano de 1936, seria deflagrada uma nova concorrência visando à aquisição de um lote substancial de caminhões militares meia-lagarta destinados ao transporte de tropas, reboque de peças de artilharia e apoio logístico.  Atendendo aos requisitos estabelecidos, a White Motor Company apresentou, em 1938, uma proposta inovadora baseada no chassi do já consolidado M-2 Scout Car, veículo blindado leve com tração integral 4x4 que se encontrava em serviço desde 1934. O novo modelo recebeu inicialmente a designação experimental T-9 Half-Track Truck e, posteriormente, evoluiu para o T-14 Half-Track Scout Car. Durante os testes comparativos realizados pelo Exército norte-americano, o projeto da White destacou-se de forma significativa em relação aos demais concorrentes. Além de demonstrar excelente mobilidade em terrenos acidentados e elevada robustez mecânica, o veículo apresentava uma importante vantagem logística: o compartilhamento de diversos componentes com o M-2 Scout Car já em produção. Essa comunalidade mecânica reduzia custos de fabricação, simplificava a manutenção em campanha e facilitava o treinamento das equipes de apoio técnico. Esses fatores foram considerados decisivos pelo comando militar norte-americano, levando à escolha do projeto da White Motor Company como vencedor da concorrência. 
Desta forma, em meados de 1939, foi celebrado o primeiro contrato, prevendo a aquisição inicial de aproximadamente 2.000 veículos meia-lagarta. A produção em série teve início ainda no final daquele mesmo ano, refletindo o  esforço de modernização das forças armadas  diante da deterioração do cenário político internacional e da iminência de um novo conflito em escala global. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, e a rápida expansão das campanhas militares na Europa, o governo norte-americano acelerou significativamente seu programa de reequipamento. Nesse contexto, novos contratos foram firmados, e a fabricação do veículo passou a ser compartilhada também com as empresas Autocar Company e Diamond T. Motor Car Company, ampliando a capacidade industrial necessária para atender à crescente demanda. Entretanto, apesar do elevado empenho da indústria norte-americana, os primeiros anos de produção foram marcados por dificuldades relacionadas à engenharia de fabricação e à adaptação das linhas industriais para um veículo de concepção inovadora. A integração do sistema híbrido de tração  combinando rodas direcionais dianteiras e lagartas traseiras  exigiu o desenvolvimento de novos processos produtivos e padrões de montagem, resultando em atrasos no cronograma de entregas. Somente no início de 1941 os primeiros exemplares operacionais começaram a ser entregues às unidades  do Exército dos Estados Unidos (U.S Army). Superados os problemas iniciais, a cadência de produção foi rapidamente ampliada, demonstrando a extraordinária capacidade de mobilização da indústria automobilística norte-americana durante o período de guerra. Um dos fatores decisivos para esse aumento de produção foi a adoção de componentes mecânicos já empregados em veículos comerciais civis, permitindo o aproveitamento de ferramentas, linhas de montagem e cadeias logísticas já existentes. Essa estratégia reduziu custos, simplificou a manutenção e acelerou significativamente o processo de montagem. Oficialmente designado como M-2 Half Track, foi concebido com base em soluções já utilizadas nos modelos M-2  e M-3 Scout Car, compartilhando diversos componentes estruturais e mecânicos. Elementos visuais característicos, como a grade frontal, os para-lamas e o conjunto óptico, mantinham forte semelhança entre os veículos, favorecendo a padronização logística e manutenção. Apresentava ainda um cilindro metálico montado na parte frontal do chassi, destinado a auxiliar a transposição de trincheiras, obstáculos e elevações acentuadas do terreno recurso particularmente útil nos campos de batalha europeus. Para autodefesa, o veículo era equipado com 02 metralhadoras Browning M1917 calibre .30, instaladas sobre um trilho circular que percorria o compartimento de combate. Esse sistema permitia ampla liberdade de movimentação ao atirador, garantindo cobertura defensiva em praticamente todos os ângulos ao redor da viatura. Inicialmente concebido como um trator de artilharia destinado ao reboque de peças leves e médias, o M-2 tornou-se rapidamente um elemento indispensável nas unidades mecanizadas norte-americanas. Sua robustez, mobilidade e versatilidade operacional permitiram o transporte em terrenos onde caminhões convencionais apresentavam severas limitações. Entre as principais peças de artilharia rebocadas pelo veículo destacavam-se os obuseiros M2A1 105mm e os canhões anticarro M1 57mm, consolidando seu papel  como um dos mais importantes veículos de apoio tático das forças aliadas.

Além de tracionar essas peças de artilharia, o M-2 desempenhava também a importante função de veículo de suprimento de munições, assegurando o apoio logístico necessário para operações prolongadas em combate. Sua capacidade de deslocamento em terrenos difíceis permitia manter o fluxo contínuo de abastecimento mesmo em regiões onde caminhões convencionais encontravam severas restrições de mobilidade. Essa característica tornou o veículo particularmente valioso nas operações mecanizadas de rápida movimentação adotadas pelas forças norte-americanas. Entretanto, a versatilidade do M-2  extrapolou rapidamente sua função original de trator de artilharia. O veículo passou a ser amplamente empregado no transporte de esquadrões de infantaria especializados no uso da metralhadora pesada Browning M2 calibre .50. Nessas unidades, o blindado assegurava não apenas o deslocamento rápido das equipes de combate, mas também o transporte das armas, munições e equipamentos auxiliares necessários para o emprego contínuo em operações ofensivas e defensivas. Essa mobilidade tática aumentava consideravelmente a capacidade de reação das tropas em campo de batalha Seu batismo de fogo  ocorreu nos primeiros meses de 1942, durante a Campanha das Filipinas, no Teatro de Operações do Pacífico. Empregados inicialmente em funções de apoio e transporte, os veículos demonstraram boa capacidade de deslocamento em terrenos difíceis, embora também tenham revelado limitações operacionais importantes quando submetidos às duras condições de combate tropical. Na ausência inicial de veículos blindados especializados para reconhecimento, numerosos M-2 Half Track foram improvisadamente adaptados para missões de exploração e patrulhamento avançado. Centenas de unidades receberam modificações de campo destinadas a ampliar sua capacidade de observação e autodefesa, desempenhando temporariamente funções de reconhecimento tático tanto no Norte da África quanto posteriormente no teatro europeu. Contudo, à medida que veículos mais modernos e especializados começaram a entrar em serviço,  foi gradualmente substituído nessas funções. A partir do final de 1943, modelos como o M-20 Armored Utility Car e o M-8 Greyhound assumiram progressivamente as missões de reconhecimento blindado nas unidades mecanizadas. Apesar do entusiasmo inicial em torno do conceito meia-lagarta, a experiência operacional acumulada nos primeiros anos da guerra evidenciou diversos problemas mecânicos e limitações técnicas no M-2 Half Track. Relatórios enviados pelas unidades de combate apontavam falhas recorrentes na suspensão, desgaste prematuro de componentes da transmissão e dificuldades de manutenção em ambientes severos de operação. Além disso, a configuração interna do veículo apresentava limitações ergonômicas e operacionais que afetavam sua eficiência em combate. Melhorias seriam sugeridas, resultando do desenvolvimento do modelo M-2A1, onde se destacavam melhorias no conjunto motriz e nos componentes mecânicos, aumentando significativamente a confiabilidade operacional da viatura em terrenos difíceis. Externamente, passou a incorporar um suporte circular elevado sobre o assento do auxiliar do motorista, destinado à instalação de uma metralhadora Browning M2 calibre .50. Essa alteração ampliava consideravelmente o poder de fogo defensivo do veículo, permitindo engajar alvos terrestres e aeronaves em baixa altitude com maior eficiência. 

Outra mudança importante foi a substituição das metralhadoras  refrigeradas a água por modelos refrigerados a ar, mais leves, simples e confiáveis em combate. Essas armas permaneciam instaladas sobre trilhos laterais móveis. O M-2A1 também podia ser equipado com um guincho mecânico frontal, extremamente útil em operações de recuperação e desatolamento em lama, areia ou terrenos fortemente acidentados. Na parte traseira, foram incorporados suportes escamoteáveis para transporte adicional de carga e equipamentos. Apesar dessas melhorias,  ainda preservava algumas limitações estruturais do projeto original, particularmente a ausência de uma porta traseira de acesso para tropas embarcadas. Essa deficiência somente seria plenamente solucionada com o desenvolvimento do M-3 versão  concebida especificamente para o transporte  de infantaria. Seu emprego em larga escala se daria durante a Operação Tocha, que teve lugar em 8 de novembro de 1942, quando os Aliados desembarcaram no Norte da África (Marrocos e Argélia), abrindo uma nova frente de batalha para as tropas alemães do Afrika Korps naquele continente.  Nesse teatro de operações, os M-2 e M-2A1 foram fundamentais no apoio logístico, transportando tropas, munições e equipamentos em terrenos desérticos e acidentados. Sua capacidade de operar em condições adversas, combinada com a flexibilidade para desempenhar múltiplos papéis de transporte de artilharia a apoio à infantaria,  tornou-os indispensáveis para o sucesso da campanha. Ao longo do conflito, os M-2 e M-2A1 continuaram a desempenhar papéis destacados nos teatros europeu e do Pacífico. Na Europa, foram amplamente utilizados em campanhas como a invasão da Sicília (1943) e a subsequente campanha italiana, bem como na Normandia (1944) e nas ofensivas através da França e da Alemanha. A produção total de carros blindados da família M-2 e M-2A1seria efetivada nas linhas de montagem da White Motors Company, Autocar Company e Diamond T. Motor Car Company, entre os anos de 1940 e 1942, atingiria a cifra de aproximadamente 13.500 veículos. Uma versão para exportação seria desenvolvida exclusivamente para o atendimento de especificações  do Exército Vermelho Soviético. Assim seriam produzidos pela montadora International Harvester Corporarion, 800 veículos na versão designada como M-9  que seriam cedidos nos termos do programa do Leand & Lease Act Bill (Leis de Empréstimos e Arrendamentos) a União Soviética. Em meados de 1942 uma nova versão melhorada, o M-3  passaria a ocupar as linhas de produção das três montadoras. Porém a exemplo de seu antecessor, este novo modelo e suas versões subsequentes, compartilhavam as mesmas deficiências de conceito, principalmente no quesito de proteção aos infantes, seja pela ausência de cobertura, ou blindagem inadequada para suportar fogo de munição de médio calibre. O término da Segunda Guerra Mundial determinaria a retirada de serviço de todos os veículos remanescentes junto as forças armadas norte-americanas, com grande parte da frota sendo transformada em sucata. O restante seria cedido a nações alinhadas a política internacional norte-americana, entre elas Argentina, Brasil, Bélgica, Chile, Camboja, Chile,  Tchecoslováquia, Finlândia, França, Grécia, Israel, México, Holanda, Nicarágua, Paraguai, Filipinas, Polônia, Portugal e  Vietnã do Sul. 

Emprego no Exército Brasileiro.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a observar com crescente preocupação a possibilidade de uma expansão militar das potências do Eixo sobre o continente americano. Essa percepção tornou-se particularmente alarmante após a rápida derrota da França em junho de 1940, evento que alterou profundamente o equilíbrio estratégico no Atlântico. Com a capitulação francesa e a subsequente colaboração do regime de Vichy com a Alemanha, setores do comando militar norte-americano passaram a considerar a hipótese de utilização de territórios coloniais franceses e posições estratégicas no Atlântico  como Dakar, na África Ocidental Francesa, e as Ilhas Canárias  como potenciais bases de apoio para operações militares do Eixo no hemisfério ocidental. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a assumir importância estratégica singular para os Aliados. Sua posição geográfica, especialmente na região Nordeste, representava o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano, constituindo uma verdadeira ponte natural sobre o Atlântico Sul. Cidades como Recife e Natal tornaram-se fundamentais para o planejamento logístico aliado, pois permitiam o estabelecimento de rotas aéreas e marítimas destinadas ao envio de tropas, equipamentos e suprimentos para os teatros de operações do Norte da África, Mediterrâneo e posteriormente da Europa. Ao mesmo tempo, o avanço japonês no Sudeste Asiático e no Pacífico provocou a perda de importantes áreas produtoras de borracha natural sob controle aliado, especialmente nas colônias britânicas e holandesas da Ásia. Essa conjuntura elevou dramaticamente a relevância econômica do Brasil, que passou a desempenhar papel essencial como fornecedor de látex natural  matéria-prima indispensável para a produção de pneus, mangueiras, vedantes e inúmeros componentes críticos para a indústria de guerra norte-americana. A chamada “Batalha da Borracha” transformou a Amazônia brasileira em uma região de elevada importância estratégica para o esforço aliado. Paralelamente, a intensificação das operações submarinas alemãs no Atlântico Sul ampliou a vulnerabilidade das rotas marítimas que ligavam o Brasil aos Estados Unidos. Os ataques conduzidos por submarinos da Marinha Alemã  (Kriegsmarine) contra navios mercantes brasileiros e aliados passaram a representar séria ameaça ao fluxo de matérias-primas estratégicas destinadas à indústria bélica norte-americana. Esse cenário reforçou ainda mais a necessidade de estreita cooperação militar entre os dois países. Diante dessas circunstâncias, observou-se uma rápida aproximação diplomática, econômica e militar entre os governos de Getúlio Vargas e Franklin D. Roosevelt. Essa convergência de interesses resultou em uma série de acordos estratégicos voltados à modernização das Forças Armadas Brasileiras e à consolidação da defesa hemisférica continental. Entre as iniciativas mais relevantes destacou-se a adesão brasileira ao programa Lend-Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), pelo qual o pais recebeu  uma linha de crédito de aproximadamente US$ 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de armamentos, veículos militares, aeronaves, navios e equipamentos modernos. Os recursos oriundos do programa permitiram significativa modernização das Forças Armadas Brasileiras, possibilitando a incorporação de aeronaves de combate, veículos blindados, carros de combate, caminhões militares, sistemas de comunicação e armamentos.

À medida que a cooperação bilateral se intensificava, o envolvimento brasileiro no esforço aliado tornava-se cada vez mais amplo. O presidente Getúlio Vargas passou então a defender publicamente que o país não deveria limitar sua contribuição apenas ao fornecimento de matérias-primas estratégicas e à cessão de bases militares. Gradualmente começou a amadurecer, tanto nos meios políticos quanto militares, a possibilidade de participação direta brasileira no conflito, incluindo o eventual envio de tropas para atuar em teatros operacionais no exterior. No âmbito deste acordo, a partir do final de 1941, começou a receber um expressivo volume de equipamentos bélicos provenientes dos Estados Unidos, abrangendo caminhões, veículos utilitários leves, aeronaves, embarcações e armamentos.  Neste escopo estava prevista a cessão de  481 veículos novos de fábrica, distribuídos entre os modelos M-2, M-2A1 e M-3, com suas  entregas planejadas até o final de 1943. Contudo, esse cronograma sofreu alterações significativas devido à priorização do fornecimento desses veículos às forças aliadas que se preparavam para operações cruciais, como a Operação Tocha (invasão do Norte da África em 1942) e a subsequente campanha na Europa. A necessidade de equipar rapidamente as tropas aliadas em teatros de guerra prioritários resultou em atrasos consideráveis nas entregas. Como consequência, a maior parte dos veículos prometidos só foi recebida  após o término do conflito, em 1945, e em quantidades bem inferiores às originalmente estipuladas. Apesar disso, a partir do início de 1942, os primeiros lotes de equipamentos militares começaram a chegar ao país, incluindo um número inicial de veículos meia-lagarta: 08 viaturas do modelo M-2 e 25 do M-2A1 e algumas poucas unidades dos modelos M-3 e M-3A1. Nesta época, curiosamente o Exército Brasileiro já operava uma pequena quantidade de veículos meia lagarta dos modelos Sd.Kfz.7  e  Somua - Citroën Kegresse, que eram empregados nos grupos de artilharia antiaérea, tracionando canhões Flak Krupp 88 mm C/56 e sistemas de localização de aeronaves pelo som do tipo  BBT (Barbier,Bernard & Turenne). Assim os meia lagarta norte-americanos  representaram um marco na modernização da força terrestre, que neste momento buscava estruturar unidades blindadas motorizadas e motomecanizadas para atender às demandas de um contexto global de guerra. Logo que recebidos foram destinados a equipar as recém-criadas unidades blindadas motorizadas e motomecanizadas, que visavam aumentar a mobilidade e a capacidade operacional do Exército Brasileiro. Assim que disponibilizados, os M-2, M-2A1, M-3 e M-3A1 foram distribuídos às unidades, desempenhando funções essenciais no transporte de tropas, munições e cargas. Esses veículos complementavam os carros blindados sobre rodas M-3A1 Scout Car, que eram utilizados para tracionar canhões antitanque M-3 de 37 mm, integrando as baterias de artilharia anticarro auto rebocados. Como já se delineava desde o agravamento do conflito mundial, o Brasil acabaria assumindo uma participação mais ampla e efetiva no esforço de guerra aliado. Essa intenção seria oficialmente concretizada em 9 de agosto de 1943, quando, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744  publicada em boletim reservado no dia 13 do mesmo mês  foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB). A decisão representou um marco histórico, consolidando o alinhamento político e militar do país com os Aliados e inaugurando a participação direta no conflito. 
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi estruturada com base na organização da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), ficando sob o comando do General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais. Inspirada na doutrina operacional do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), a força foi concebida para atuar de forma integrada às forças norte-americanas no Teatro de Operações do Mediterrâneo, adotando padrões organizacionais, logísticos e táticos compatíveis com os empregados pelas forças aliadas. Além da divisão principal de infantaria, a estrutura  compreendia diversos órgãos não divisionários indispensáveis ao funcionamento da força expedicionária. Sua composição incluía quatro grupos de artilharia  sendo três equipados com obuseiros de 105 mm e um com peças de 155 mm , um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, uma companhia de comunicações, um esquadrão de reconhecimento mecanizado, além de unidades de apoio logístico e administrativo. A estrutura contemplava ainda um comando próprio, companhia de manutenção, companhia de intendência, destacamento de saúde, pelotão de polícia, pelotão de sepultamento e, simbolicamente, uma banda de música militar, elemento tradicional das  formações expedicionárias da época. Composta por aproximadamente 25 mil militares, o contingente foi preparado para operar segundo os conceitos modernos de guerra motomecanizada então empregados pelos Aliados. A elevada mobilidade tática exigida pelas operações contemporâneas demandava uma expressiva frota de veículos para transporte de tropas, reconhecimento, apoio logístico e deslocamento de artilharia. Dessa forma, a motorização tornou-se um dos pilares centrais de sua organização operacional. Entretanto, ao contrário do que inicialmente se esperava, os veículos meia-lagarta das versões M-2 e M-2A1 não foram fornecidos às tropas brasileiras. Em seu lugar, foi recebido um número limitado de veículos das versões M-3 e M-3A1, empregados principalmente pelo 1º Esquadrão de Reconhecimento. Essas viaturas desempenharam funções de transporte de pessoal, apoio logístico e reconhecimento tático, sendo utilizadas em diversas operações ao longo da campanha. Com o término do conflito, iniciou-se um amplo processo de redistribuição do excedente militar norte-americano. Nesse contexto, o Brasil passou a receber grandes quantidades de veículos blindados e equipamentos considerados excedentes de guerra, em condições operacionais ainda satisfatórias. Entre esses materiais encontravam-se numerosos veículos meia-lagarta das versões M-2A1, M-3, M-3A1 e M-5. O processo de incorporação desses blindados ao Exército Brasileiro estendeu-se até fevereiro de 1947, totalizando uma frota de 303 veículos. Neste momento receberiam a  designação  de “Transporte de Rolamento Misto ½ Lagarta”. A chegada desse expressivo volume de viaturas representou um verdadeiro divisor de águas para a evolução da Força Terrestre brasileira. Até então, o Exército Brasileiro ainda mantinha forte dependência de meios hipomóveis e de transporte convencional, herança de uma doutrina militar baseada, em grande medida, na tração animal e em estruturas logísticas típicas do período anterior à Segunda Guerra Mundial.  A incorporação dos veículos meia-lagarta norte-americanos permitiu acelerar de forma decisiva o processo de mecanização das unidades de infantaria e cavalaria, marcando o início da transformação do Exército Brasileiro em uma força efetivamente motomecanizada.

Posteriormente, essas viaturas passaram a receber oficialmente a designação de Carro Blindado de Transporte de Tropas (CBTT), sendo distribuídas entre diversas organizações militares, incluindo Batalhões de Infantaria Blindada (BIB), Esquadrões de Cavalaria Mecanizada (Esqd C Mec) e Esquadrões de Reconhecimento Mecanizado (Esqd RC Mec). Sua introdução proporcionou um salto qualitativo na mobilidade tática das tropas, permitindo deslocamentos mais rápidos, maior proteção durante o transporte de pessoal e significativa ampliação da capacidade operacional das unidades mecanizadas. Em serviço, os modelos M-2A1, M-3, M-3A1 e M-5 desempenharam múltiplas funções. Além do transporte de tropas e suprimentos, foram amplamente empregados no reboque de peças de artilharia, em especial dos obuseiros M-101 AR 105 mm, garantindo elevada mobilidade às unidades de apoio de fogo. Algumas viaturas receberam adaptações específicas para atuar como porta-morteiros de 81 mm, enquanto outras, equipadas com modernos sistemas de rádio de longo alcance, passaram a exercer funções de comando e controle no campo de batalha. Embora apresentassem limitações inerentes ao projeto original  sobretudo no que se referia à proteção blindada reduzida e à vulnerabilidade do compartimento aberto os veículos meia-lagarta cumpriram satisfatoriamente as missões para as quais haviam sido concebidos. Durante mais de duas décadas, constituíram a espinha dorsal da mobilidade blindada do Exército Brasileiro, contribuindo diretamente para a consolidação da doutrina mecanizada no país. Entretanto, ao final da década de 1960, o envelhecimento natural da frota começou a impor sérios desafios operacionais e logísticos. O desgaste estrutural das viaturas, associado à crescente dificuldade de obtenção de peças de reposição para os motores a gasolina e demais componentes mecânicos  cuja fabricação havia sido descontinuada havia muitos anos  resultou em um progressivo declínio dos índices de disponibilidade operacional. Em consequência, apenas uma parcela reduzida da frota permanecia em condições adequadas de emprego. Esse cenário tornava-se particularmente preocupante em um contexto de tensões geopolíticas regionais, no qual a manutenção da prontidão operacional das forças mecanizadas era considerada estratégica para a defesa nacional. Apesar da incorporação de novos blindados sobre lagartas no início da década de 1960, como os FMC M-59, e do avanço das negociações para a aquisição dos mais modernos FMC M-113A0, o Alto Comando do Exército identificava a existência de uma lacuna operacional de curto prazo. Havia receio de que o cronograma de recebimento e distribuição desses novos veículos sofresse atrasos, comprometendo a capacidade de transporte blindado das unidades mecanizadas. Diante dessa realidade, os veículos meia-lagarta ainda em serviço passaram a ser considerados ativos de elevado valor estratégico. Assim, foram iniciados estudos visando à implementação de um programa de remotorização e modernização parcial da frota remanescente. O objetivo principal consistia em prolongar a vida útil operacional dessas viaturas, reduzir os custos de manutenção e assegurar níveis mínimos de mobilidade e operacionalidade até a plena substituição pelos novos blindados de transporte de tropas sobre lagartas.
Essa missão foi confiada ao Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2), sediado em São Paulo, organização militar que à época concentrava importante capacidade técnica nas áreas de manutenção, recuperação e adaptação de viaturas blindadas. Coube à sua equipe de engenheiros e especialistas iniciar os estudos de viabilidade destinados à este programa, com os trabalhos concentrando na substituição do motor original a gasolina, por modelos a gasolina. Desde o principio a diretriz principal consistia em alcançar o maior índice possível de nacionalização de componentes, reduzindo a dependência de peças importadas e estimulando a participação da indústria nacional. Embora ainda existissem reservas dentro de determinados setores do Alto Comando  quanto à real capacidade técnica para executar um programa de repotenciamento dessa complexidade, prevaleceu gradativamente o entendimento de que a iniciativa representava uma solução viável. Como plataforma experimental para o programa foi selecionada uma viatura M-2, que após estudos deveria ser equipada com um motor nacional a diesel Perkins Modelo 6357 com 06 cilindros em linha, capaz de desenvolver aproximadamente 142 hp de potência. O programa apresentava perspectivas extremamente promissoras, sobretudo pelo êxito alcançado no objetivo secundário de ampliação da nacionalização de componentes.  Entre os itens incorporados destacavam-se as novas sapatas de borracha para as lagartas, produzidas pela empresa brasileira Novatração Artefatos de Borracha Ltda., além de pneus nacionais, novos sistemas de combustível e tanques auto-obturantes resistentes à perfuração balística. Essas modificações contribuíam não apenas para melhorar a operacionalidade dos veículos, mas também para reduzir significativamente os custos de manutenção e abastecimento. Os trabalhos evoluíram sem maiores dificuldades técnicas, sendo acompanhados de perto por representantes das empresas fornecedoras envolvidas no projeto.  Merece destaque especial a participação da equipe de engenharia da Perkins do Brasil S/A, que prestou suporte técnico direto durante as fases de adaptação e integração do novo conjunto motriz. O protótipo do M-2 remotorizado foi concluído em julho de 1972, sendo oficialmente apresentado ao Comando do Exército Brasileiro no mês seguinte.  Posteriormente, a viatura foi entregue à Diretoria de Motomecanização (DMM), responsável por conduzir um extenso programa de testes e avaliações operacionais destinados a verificar a viabilidade técnica e logística da modernização. Os resultados obtidos durante os ensaios foram considerados amplamente satisfatórios. Após a conclusão da fase de avaliação, o protótipo recebeu homologação oficial, autorizando o Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar a implementar o programa de remotorização em todos os veículos da família meia-lagarta ainda em serviço ativo. Gradativamente, as viaturas remanescentes passaram a ser recolhidas para modernização e posteriormente redistribuídas às unidades operacionais. Após o repotenciamento, esses blindados continuaram desempenhando satisfatoriamente suas funções rotineiras durante toda a década de 1970 e parte dos anos 1980, contribuindo para manter a capacidade de transporte mecanizado  até a chegada dos novos veículos blindados nacionais Engesa EE-11 Urutu.  As últimas unidades da família meia-lagarta somente seriam retiradas de serviço em meados da década de 1980, encerrando um importante capítulo da mecanização do Exército Brasileiro.

Em Escala.
A recriação do Carro Blindado de Transporte de Tropas M-2A1 "EB10-395", em escala 1/32, envolveu o uso de  um  modelo  básico do tipo "snap" da versão M-16, fabricado pela New Ray, sendo necessario empreender uma amplo processo de customização em scratch build. Este envolveu a confecção de assentos em scratch para replicar a disposição interna do M-2A1,  redesenho das laterais internar para incorporar os trilhos que suportavam as metralhadoras e por fim inclusão do sistema de rádio. Complementamos com  acessórios em resina, como ferramentas, caixas de munição, suportes de armas e outros equipamentos. A identificação do veículo como "EB10-395", representativa de sua utilização pelo Exército Brasileiro, foi realizada com decais personalizados do conjunto "Veículos Militares Brasileiros 1944–1982", produzido pela Eletric Products.
Os  blindados meia-lagarta White M-2, M-2A1, M-3, M-3A1 e M-5, como os demais veículos fornecidos ao Exército Brasileiro nos termos do Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), a partir de 1943, foram entregues ostentando o padrão de pintura tático do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) que fora empregado durante as década de 1940. Esse esquema, baseado no sistema de cores Federal Standard (FS) em olive drab, foi mantido pelo Exército Brasileiro após o término da Segunda Guerra Mundial, acompanhado de um sistema de matrícula que perdurou até a desativação dessas viaturas na década de 1980.

Bibliografia:
- Meia Lagartas no Exército Brasileiro por Expedito Carlos S. Bastos - Revista Hobby News Nº 27
- Blindados no Brasil Volume I, por Expedito Carlos S. Bastos
- M2 Half Track Car -  Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/M2_Half_Track_Car
- M3 Half Track Car -  Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/M3_Half-track


A-20C/K Douglas Havoc


História e Desenvolvimento.
A Douglas Aircraft Company foi fundada em 22 de julho de 1921 por Donald Wills Douglas, em Santa Monica, Califórnia, após a dissolução da Davis-Douglas Company. Desde sua criação, a empresa buscou estabelecer-se como uma referência na aviação, combinando inovação técnica com visão estratégica. Um dos primeiros marcos de sua trajetória ocorreu em 1923, com a participação no programa World Flight, uma iniciativa ambiciosa do Serviço Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USASS) para realizar a primeira circum-navegação aérea do planeta. Para atender a essa demanda, a Douglas desenvolveu o Douglas World Cruiser (DWC), uma versão modificada do bombardeiro biplano Douglas DT, projetada pelo jovem engenheiro Jack Northrop, que marcava sua estreia como um dos principais talentos da empresa. Quatro aeronaves DWC foram encomendadas, com a última entregue em 11 de março de 1924. Apesar de desafios logísticos e acidentes durante a jornada, que começou em 6 de abril de 1924 e terminou em 28 de setembro do mesmo ano, o World Flight foi um sucesso, com duas das quatro aeronaves completando a volta ao mundo. Esse feito histórico, que cobriu aproximadamente 43.500 quilômetros em 175 dias, consolidou a reputação da Douglas, que adotou o lema First Around the World (Primeira Volta ao Mundo), reforçando sua posição como líder na aviação norte-americana. Nos anos seguintes, a Douglas Aircraft Company concentrou-se na produção de aeronaves militares, especializando-se em bombardeiros-torpedeiros para a Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy). Modelos como o T2D e o XT3D, desenvolvidos na década de 1920, atenderam às necessidades para operações marítimas, destacando-se por sua robustez e confiabilidade. No final da década, a empresa expandiu seu portfólio para incluir aviões anfíbios, como o Douglas Dolphin, e mudou suas instalações para Clover Field, em Santa Monica, Califórnia, um local estratégico para testes e produção. Na década de 1930, a Douglas diversificou sua produção, desenvolvendo uma ampla gama de aeronaves, incluindo bombardeiros leves e médios, caças, transportes, aeronaves de reconhecimento e modelos experimentais. Em 1934, a empresa lançou o Douglas DC-2, um avião comercial bimotor que marcou sua entrada no mercado de transporte civil, ganhando reconhecimento por sua eficiência e segurança. Contudo, o maior sucesso veio em 1936 com o Douglas DC-3, uma aeronave de transporte que revolucionou a aviação comercial e militar. Sua versão militar, o C-47 Skytrain (conhecido como Dakota pelas forças britânicas), tornou-se um ícone da Segunda Guerra Mundial, utilizado em operações como o desembarque da Normandia em 1944 e o transporte de suprimentos na campanha do Pacífico. Com mais de 16.000 unidades produzidas, o DC-3/C-47 é amplamente considerado o avião de transporte mais significativo da história, devido à sua versatilidade, durabilidade e impacto global. O sucesso do DC-3 proporcionou à Douglas Aircraft os recursos financeiros e a confiança para explorar novos nichos na aviação militar. No final da década de 1930, a empresa voltou sua atenção para o desenvolvimento de uma aeronave de bombardeio médio de alta velocidade, capaz de transportar uma carga significativa de bombas e ágil o suficiente para evitar interceptações inimigas. Esse projeto, liderado pelos engenheiros Donald Douglas, Jack Northrop e Ed Heinemann, foi iniciado em 1936 e resultou no conceito do Model 7A, apresentado no primeiro trimestre de 1937. 

No final da década de 1930, o cenário geopolítico global era marcado por crescentes tensões que prenunciavam a eclosão da Segunda Guerra Mundial. A Guerra Civil Espanhola (1936–1939) serviu como um laboratório para táticas e tecnologias aéreas, revelando a superioridade de aeronaves como o Heinkel He 111 alemão e o Savoia-Marchetti SM.79 italiano. Relatórios de inteligência dos Estados Unidos, analisando essas campanhas, destacaram a necessidade de aeronaves de bombardeio médio com maior velocidade, alcance e capacidade de carga para competir com os avanços das potências do Eixo. Nesse contexto, a Douglas Aircraft Company, sob a liderança de Donald Douglas, Jack Northrop e Ed Heinemann, reavaliou o projeto do Model 7A, inicialmente concebido em 1936 como uma resposta a essas demandas, mas que não avançou além da fase conceitual devido às suas limitações frente às lições do conflito espanhol. Em 1938, o Model 7A deu lugar ao Model 7B, um projeto mais ambicioso que incorporava os requisitos do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) para uma concorrência lançada visando o desenvolvimento de uma aeronave de bombardeio médio de alta velocidade. O Model 7B aproveitava as asas projetadas para o 7A, mas introduzia melhorias significativas: era uma aeronave de maiores dimensões, equipada com trem de pouso triciclo e dois motores a pistão de 1.100 HP cada, oferecendo um alcance de 2.000 milhas e capacidade para transportar até 2.000 libras (aproximadamente 907 kg) de bombas. O nariz da aeronave podia ser configurado com uma área transparente para o bombardeador ou equipado com oito metralhadoras fixas de calibre .50 para missões de metralhamento contra alvos terrestres, conferindo versatilidade operacional. O protótipo do Douglas Model 7B realizou seu primeiro voo em 26 de outubro de 1938, nas instalações da Douglas Aircraft Company, em Santa Monica, Califórnia. Apesar de suas especificações promissoras, o Model 7B não foi selecionado pelo USAAC, que optou por outros projetos, como o North American B-25 Mitchell, que entraria em serviço em 1941. No entanto, o destino do Model 7B mudou com o agravamento das tensões globais após a Crise de Munique, em setembro de 1938, quando a anexação dos Sudetos pela Alemanha nazista intensificou os temores de um conflito iminente na Europa. Países aliados, como a França, iniciaram programas acelerados de reaparelhamento de suas forças aéreas, buscando adquirir aeronaves modernas nos Estados Unidos. Nesse contexto, uma comissão militar francesa visitou os Estados Unidos em 1939 para avaliar armamentos, incluindo o Model 7B. Apesar da política de neutralidade americana, mantida até o ataque a Pearl Harbor em 1941, a comissão foi autorizada a inspecionar o protótipo. Em 23 de janeiro de 1939, durante um voo de demonstração pilotado por John C. Able, piloto de testes da Douglas, e com um oficial francês a bordo, o Model 7B sofreu um acidente fatal que resultou na destruição da aeronave e na morte de Able. A presença do oficial francês, que sobreviveu, desencadeou um escândalo diplomático, levantando questões sobre a neutralidade dos Estados Unidos e os riscos de testes com observadores estrangeiros.  
Apesar de um trágico acidente durante um voo de demonstração em 23 de janeiro daquele ano, que resultou na destruição do protótipo e na morte do piloto de testes John C. Able. A encomenda inicial francesa de 100 unidades, posteriormente ampliada para 270, marcou o início da transformação do Model 7B no Douglas DB-7, uma aeronave que se tornaria um dos principais bombardeiros leves da Segunda Guerra Mundial. As especificações francesas exigiam modificações significativas para atender às necessidades operacionais da Força Aérea Francesa (Armée de l’Air). Essas alterações, supervisionadas por Ed Heinemann, incluíam maior alcance, maior capacidade de carga, blindagem reforçada, adaptação ao armamento francês e uma cabine de pilotagem configurada para padrões franceses, com controles no sistema métrico e manetes de potência operando em direção inversa ao padrão americano. Essas mudanças visavam tornar o DB-7 mais adequado às exigências do teatro europeu, onde a França enfrentava a crescente ameaça da Alemanha Nazista, porém estas aeronaves seriam pouco eficazes durante a Campanha da França. O Douglas DB-7 foi uma evolução significativa do Model 7B, projetado para combinar velocidade, manobrabilidade e capacidade de carga. As principais modificações incluíram: Fuselagem otimizada: A fuselagem foi redesenhada para ser mais profunda e estreita, reduzindo o arrasto aerodinâmico e permitindo maior capacidade de combustível, o que aumentou o alcance para cerca de 2.000 milhas. A área frontal reduzida também minimizava a vulnerabilidade a artilharia antiaérea durante missões de ataque ou metralhamento. Cabine de pilotagem tipo “caça”: A cabine foi projetada para acomodar apenas o piloto, com espaço limitado para a tripulação, composta por um bombardeador e um metralhador. Tentativas de incluir controles reduzidos para o metralhador operar a aeronave em caso de incapacitação do piloto foram testadas, mas abandonadas por sua ineficácia. Armamento: O nariz da aeronave apresentava uma área parcialmente transparente para o bombardeador, equipada com duas metralhadoras francesas Chatellerault de 7,5 mm em cada lado, operadas pelo piloto. Uma posição para o metralhador, com cobertura deslizante, foi instalada atrás das asas, equipada com uma metralhadora, e outra metralhadora foi posicionada no ventre da aeronave, abaixo dessa posição. Motores e trem de pouso: O DB-7 era equipado com dois motores Pratt & Whitney R-1830-SC3-G de 1.100 HP, montados em nacelas sob as asas, que permitiam um trem de pouso triciclo de altura adequada. As asas, montadas à meia-altura na fuselagem, contribuíam para a estabilidade e manobrabilidade. O protótipo do DB-7 realizou seu primeiro voo em meados de agosto de 1939, nas instalações da Douglas em El Segundo, Califórnia. O primeiro exemplar de série foi entregue em outubro do mesmo ano, marcando o início da carreira de uma aeronave que se destacaria por seu desempenho em combate. 

A queda da França em junho de 1940, limitou a entrega dos Douglas DB-7 à Armée de l’Air, com apenas algumas unidades entrando em serviço antes da rendição francesa. As aeronaves restantes foram adquiridas pela Força Aérea Real Britânica (RAF), que enfrentava uma grave escassez de bombardeiros modernos após as perdas na campanha francesa, onde seus Fairey Battle e Bristol Blenheim se mostraram vulneráveis frente aos caças alemães, como o Messerschmitt Bf 109. Os DB-7 foram redesignados pela RAF como Boston I e Boston II, tornando-se peças-chave em operações no Norte da África, Europa e Mediterrâneo. A Douglas também desenvolveu o DB-7A, equipado com motores mais potentes Wright R-2600-A5B de 1.600 HP, atendendo a uma encomenda francesa de 100 unidades. Embora poucas dessas aeronaves tenham chegado à França antes da derrota, elas foram amplamente utilizadas pela RAF e pelas Forças Francesas Livres, demonstrando versatilidade em missões de bombardeio, ataque ao solo e reconhecimento. A aquisição das aeronaves anteriormente destinadas à França traria, no entanto, vários problemas, seja pelo armamento diferente, seja pelo funcionamento diferente dos comandos e da instrumentação no sistema métrico a bordo da cabine de pilotagem, o que veio a causar acidentes. Assim os novos Douglas Boston I e II foram considerados inadequados para serem usados como bombardeiros e foram modificados para uso como aeronaves incursoras noturnas ou de caça noturna, sendo rebatizadas como Havoc I (Intruder) ou Havoc II (Nightfighter). Alguns Havoc I e Havoc II receberam a modificação “Turbinlite”, que consistia na instalação de um holofote no nariz da aeronave, com a qual ela deveria iluminar bombardeiros noturnos alemães, os quais seriam então abatidos por caças Hawker Hurricane, porém tal sistema teve pouco sucesso. Outra ideia mal-sucedida foi a instalação de minas aéreas presas a cabos, estendidos por aeronaves Havoc III ou Havoc I (Pandora); apenas um bombardeiro foi abatido dessa forma. Antes disso, o comando da Força Aérea Real (RAF) já estava impressionada com a aeronave da Douglas e havia adquirido 150 exemplares em fevereiro de 1940 e mais 150 aeronaves em abril do mesmo ano. As aeronaves adquiridas apresentavam um nariz modificado e incorporavam armamento britânico, vindo a serem denominadas Douglas DB-7B pela fábrica e Boston III localmente pelos militares britânicos. Alguns desses foram posteriormente equipados com quatro canhões de 20mm em um pacote instalado sob o ventre, e designados como Boston III Intruder. Em junho de 1939, o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) procederia a aquisição de 63 aeronaves Douglas DB-7 que receberiam a designação militar de A-20. Este modelo estava equipado com dois motores Wright R-2600-7 e eram similares aos DB-7B britânicos, destas 60 aeronaves seriam convertidas em caças noturnos, Douglas P-70, equipadas com o novo radar AI Mk. IV britânico e com quatro canhões de 20 mm sob o ventre.
Seguiu-se então o Douglas A-20A, dotado de motores Wright R-2600-3, similar ao Boston III britânico; o A-20B, incorporando os motores Wright R-2600-11 e equipado com metralhadores Browning 12,7mm no nariz e para o metralhador, aproximadamente 665 dos quais foram enviados à União Soviética através do Acordo “Lend-Lease”; o A-20C utilizava motores Wright R-2600-23 e tinha tanques autoselantes e melhor blindagem – encomendado pelos britânicos, a grande maioria acabou sendo utilizado pelos soviéticos e alguns foram transferidos para o  Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) após o ataque a Pearl Harbor. O Douglas A-20D representaria uma versão leve que, aparentemente não passaria da fase de projeto. Já o A-20E nasceriam de modificações dos A-20A utilizados em treinamento e desenvolvimento. Já o único A-20F resultou da incorporação de torretas dorsal e ventral, acionadas por controle remoto, e um canhão de 37mm no nariz. A versão seguinte foi o A-20G Havoc, que passava a incorporar uma série de modificações, principalmente no tocante ao armamento. O nariz transparente seria substituído por um nariz sólido, dotado de quatro metralhadoras fixas de 12,7mm ou quatro canhões de 20mm – esses utilizados apenas nos 250 primeiros exemplares da versão; na parte inferior do nariz, foram instaladas mais duas metralhadoras 12,7mm. Os primeiros 750 exemplares produzidos (blocos A-20G-1, A-20G-5, A-20G-10 e A-20G-15) tinham uma metralhadora móvel de 12,7mm no dorso e uma 12,7mm ou 7,7mm no ventre; a partir do A-20G-20, foi instalada na posição dorsal uma torreta Martin, de controle elétrico, equipada com duas metralhadoras 12,7mm, bem como se padronizou a instalação de uma metralhadora do mesmo calibre na posição ventral. Foram instalados, ainda, dois cabides embaixo de cada asa, permitindo carregar quatro bombas de 500lb; descobriu-se também que era possível transportar 4.000lb de bombas internamente, ao invés dos 2.000lb até então utilizados. Essa foi a versão mais produzida, totalizando 2.850 exemplares entregues. O A-20J foi uma variante do A-20G, equipada com um nariz transparente, e que era utilizada como aeronave líder de bombardeio, em conjunto com os A-20G. Aproximadamente metade dos 450 exemplares produzidos foram transferidos para a União Soviética e Grã-Bretanha. A instalação de motores Wright R-2300-29 usando as fuselagens do A-20G e A-20J levou às versões A-20H e A-20K, sendo produzidos 412 e 413 exemplares dessas variantes, respectivamente. Esses foram os últimos A-20 a saírem da linha de produção, a qual encerrou-se em 1944. Durante a Segunda Guerra Mundial, os A-20, DB-7 e Boston foram utilizados em praticamente todos os teatros de operações, incluindo Noroeste Europeu, Leste Europeu, Mediterrâneo, Norte da África e Sudoeste do Pacífico, pelas forças aéreas da França – incluindo a França Colaboracionista, de 1940 a 1942, e as unidades da França Livre – Grã-Bretanha, União Soviética, Estados Unidos e Austrália. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de uma invasão do continente americano pelas potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão. A capitulação da França em junho de 1940 intensificou esses temores, especialmente diante da possibilidade de que a Alemanha nazista estabelecesse bases operacionais em territórios coloniais franceses, como as Ilhas Canárias e Dacar (atual Senegal). Nesse cenário, o Brasil emergiu como um ponto estratégico vulnerável devido à sua proximidade geográfica com o continente africano, que, após a campanha alemã no Norte da África iniciada em 1940, figurava nos planos expansionistas do Terceiro Reich. Além disso, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, incluindo a ocupação da Indochina em 1940 e das Filipinas em 1942, transformaram o Brasil no principal fornecedor de látex para os Aliados, uma matéria-prima essencial para a produção de borracha, utilizada em pneus, vedações e outros componentes críticos para a indústria bélica. A costa nordeste brasileira, particularmente nas cidades de Recife e Natal, adquiriu relevância estratégica por ser o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano, facilitando o translado aéreo de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para os teatros de operações na Europa e no Norte da África, como a Operação Tocha de novembro de 1942.  Diante dessas ameaças, o governo brasileiro, liderado pelo presidente Getúlio Vargas, intensificou a aproximação política e econômica com os Estados Unidos, resultando em uma série de acordos estratégicos. Um dos mais significativos foi a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar Lend-Lease Act (Lei de Arrendamento e Empréstimo), promulgado pelo Congresso americano em março de 1941. Esse programa destinou ao Brasil uma linha de crédito inicial de US$ 100 milhões (equivalente a cerca de US$ 2 bilhões em valores ajustados para 2025), voltada para a aquisição de armamentos modernos, incluindo aeronaves, veículos blindados, carros de combate e navios. O objetivo principal era modernizar as Forças Armadas Brasileiras, que, na época, enfrentavam obsolescência em equipamentos, armamentos e doutrina operacional militar. Os recursos do Lend-Lease foram essenciais para capacitar o Brasil a enfrentar as ameaças representadas pelos submarinos alemães (U-boats) da Kriegsmarine e italianos da Regia Marina, que intensificaram ataques contra a navegação civil e militar ao longo do extenso litoral brasileiro. Entre 1942 e 1943, cerca de 20 navios mercantes brasileiros foram afundados, impactando o transporte de matérias-primas cruciais para os Estados Unidos. A modernização naval e aérea, impulsionada pelo programa, permitiu ao Brasil desempenhar um papel ativo na defesa do Atlântico Sul e na proteção das rotas marítimas aliadas. Neste período a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), estabelecida em 20 de janeiro de 1941, enfrentava desafios significativos devido à obsolescência de sua frota. Composta por aeronaves ultrapassadas, a Aeronáutica carecia de equipamentos modernos, incluindo aviões de treinamento básico e avançado, essenciais para formar pilotos militares em quantidade e qualidade suficientes para atender às demandas de um conflito global. 

Essa limitação comprometia a capacidade da Força Aérea Brasileira (FAB) de desenvolver uma força aérea eficiente, crucial para a defesa do extenso litoral brasileiro e para a proteção das rotas marítimas no Atlântico Sul. Com uma linha de crédito proporcionada pelo Estados Unidos, a partir de 1942 começariam a ser recebidos aeronaves de caça, patrulha, bombardeio e transporte, transformando sua capacidade operacional e alinhando-a com as necessidades do esforço de guerra aliado. A modernização da Força Aérea Brasileira (FAB) foi acompanhada por um esforço conjunto com os Estados Unidos por meio do United States Brazilian Air Training Unit (USBATU), um programa que trouxe equipes militares americanas para treinar pilotos brasileiros e implementar doutrinas operacionais modernas. Inicialmente, todas as aeronaves recebidas foram destinadas a missões de patrulha e guerra antissubmarino (ASW, Anti-Submarine Warfare), protegendo comboios mercantes que transportavam matérias-primas, como látex, essenciais para a indústria bélica aliada. As principais aeronaves empregadas incluíam: Consolidated PBY-5 Catalina: Um hidroavião de longo alcance, ideal para patrulhas marítimas e detecção de submarinos. North American B-25 Mitchell: Um bombardeiro médio utilizado em missões de ataque e patrulha. Lockheed A-28A Hudson: Um avião de patrulha marítima e bombardeio leve, amplamente usado no Atlântico Sul. Lockheed-Vega PV-1 Ventura e PV-2 Harpoon: Aeronaves de patrulha marítima com capacidade para detecção e ataques antissubmarino. Com o treinamento supervisionado pelo USBATU e a experiência adquirida em missões reais, a Força Aérea Brasileira (FAB) alcançou maturidade operacional na guerra antissubmarino, consolidando sua capacidade de proteger o litoral brasileiro e contribuir para a segurança das rotas marítimas aliadas. Com a consolidação das operações de patrulha e guerra antissubmarino, a Força Aérea Brasileira (FAB) buscou expandir suas capacidades para incluir missões de bombardeio terrestre, uma nova especialização que refletia sua crescente confiança e competência. Em agosto de 1944, por meio de um decreto ministerial, foram criados o 1º e o 2º Grupos de Bombardeio Leve (GBL), sediados, respectivamente, em Gravataí, no Rio Grande do Sul, e em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. Essas unidades foram equipadas com 30 aeronaves Douglas A-20K Havoc, cedidas sob os termos do Lend-Lease Act. O Douglas A-20K Havoc, a versão mais avançada do bombardeiro leve desenvolvido pela Douglas Aircraft Company, incorporava melhorias baseadas em experiências de combate das versões anteriores (como o DB-7 e o A-20) em diversos teatros da Segunda Guerra Mundial, incluindo o Norte da África, a Europa e o Pacífico. Equipado com dois motores Wright R-2600-A5B de 1.600 HP, o A-20K oferecia maior velocidade, alcance (cerca de 2.000 milhas) e capacidade de carga (até 2.000 libras de bombas). Sua configuração incluía um nariz com transparências para o bombardeador ou metralhadoras fixas de calibre .50 para missões de ataque ao solo, além de posições defensivas para metralhadores, tornando-o versátil para uma ampla gama de missões. 
A primeira aeronave Douglas A-20 a chegar ao Brasil, em 30 de julho de 1944, foi um modelo A-20C (conhecido como Boston Mk III pela Força Aérea Real Britânica – RAF), recebido no Campo de Marte, em São Paulo. Esta célula, com número de série 44-336 (c/n 23559) e matrícula FAB 6091, era uma aeronave usada, considerada “cansada de guerra” devido ao seu intenso emprego em operações pela RAF. Rematriculada pela Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) antes de sua transferência, ela foi destinada exclusivamente a tarefas de instrução em solo na Escola Técnica de Aviação (ETAv). Devido ao desgaste acumulado em combates anteriores, a aeronave não era adequada para operações de voo, sendo utilizada para treinamento de mecânicos e equipes de solo. Em 1947, foi transferida para o Parque de Aeronáutica de São Paulo (PASP), onde continuou a servir no treinamento de equipes de manutenção até junho de 1955, quando foi desativada e sucateada. A chegada desta aeronave marcou o início da familiarização da Força Aérea Brasileira (FAB) com o modelo A-20, preparando o terreno para a introdução de unidades mais modernas.  A partir de junho de 1944, a FAB começou a receber aeronaves Douglas A-20K-10DO e A-20K-15DO, novas de fábrica, transladadas diretamente da planta da Douglas Aircraft Company em El Segundo, Califórnia, para a Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Essas versões representavam o ápice do desenvolvimento do A-20 Havoc, incorporando melhorias baseadas em experiências de combate em diversos teatros da Segunda Guerra Mundial, como maior alcance, capacidade de carga de até 2.000 libras de bombas e motores Wright R-2600-A5B de 1.600 HP. As aeronaves foram inicialmente concentradas em Santa Cruz para um curso intensivo de 60 dias, ministrado por oficiais da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), que capacitou pilotos e mecânicos brasileiros nas operações e manutenção do A-20. Após o treinamento, as aeronaves foram distribuídas aos 1º e 2º Grupos de Bombardeio Leve, iniciando atividades operacionais e táticas. O A-20K, com sua configuração versátil — incluindo um nariz com transparências para o bombardeador ou metralhadoras de calibre .50 para ataque ao solo, além de posições defensivas para metralhadores — era ideal para missões de bombardeio leve e apoio tático, embora a Força Aérea Brasileira (FAB) tenha focado principalmente em treinamento devido ao estágio avançado do conflito. O perfil operacional arrojado do A-20K, combinado com a pouca experiência inicial dos tripulantes brasileiros, resultou em desafios significativos. Nos primeiros dois anos de operação (1944–1946), quatro aeronaves foram perdidas em acidentes: as de matrículas FAB 6079, 6075, 6081 e 6089. Esses incidentes, que envolveram perdas materiais e humanas, refletiram as dificuldades de adaptação a uma aeronave complexa e à falta de familiaridade com suas exigências operacionais.  No entanto, o perfil operacional arrojado do A-20, combinado com a inexperiência inicial dos tripulantes brasileiros, resultou em perdas significativas. Entre 1944 e meados de 1947, um terço das 30 aeronaves A-20 foi perdido em acidentes, deixando apenas 18 unidades em condições de voo.  Entre as perdas estavam as aeronaves de matrículas FAB 6079, 6075, 6081 e 6089, refletindo os desafios de operar uma aeronave complexa em um contexto de formação incipiente. 

Esses incidentes motivaram a reestruturação das operações do A-20 na Força Aérea Brasileira (FAB). Em 1947, o 1º GBL foi transferido de Gravataí para a Base Aérea de Cumbica, em Guarulhos, para concentrar todas as aeronaves A-20 em uma única base. A operação conjunta dos dois grupos facilitou a manutenção e otimizou as operações, eliminando a distinção entre as unidades. Esse cenário culminou na fusão dos grupos, formalizada em 1º de abril de 1947, com a criação do 1º Esquadrão do 10º Grupo de Aviação (1º/10º GAv), conhecido como Esquadrão Poker. Essa nova unidade tornou-se a espinha dorsal das operações de bombardeio leve da FAB, consolidando sua doutrina operacional para missões de ataque tático. Por mais de cinco anos, entre 1947 e 1952, o Esquadrão Poker operou os Douglas A-20K-10DO e A-20K-15DO, versões avançadas do A-20 Havoc equipadas com motores Wright R-2600-A5B de 1.600 HP, capazes de transportar até 2.000 libras de bombas e alcançar um alcance de aproximadamente 2.000 milhas. Essas aeronaves, entregues novas de fábrica a partir de junho de 1944 pela Douglas Aircraft Company, em El Segundo, Califórnia, foram fundamentais para o desenvolvimento de uma doutrina operacional robusta para missões de bombardeio tático e ataque ao solo. O treinamento intensivo, conduzido por oficiais da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) na Base Aérea de Santa Cruz, Rio de Janeiro, capacitou pilotos e mecânicos brasileiros, permitindo que o Esquadrão Poker alcançasse um alto nível de proficiência. As operações do A-20K fortaleceram a capacidade da FAB de realizar missões táticas, embora o fim da Segunda Guerra Mundial tenha reduzido a necessidade de operações de combate. A experiência adquirida durante esses anos lançou as bases para a evolução da aviação militar brasileira, preparando a Força Aérea Brasileira (FAB) para novos desafios no contexto da Guerra Fria. A partir de 1952, a FAB iniciou um processo de modernização de seus meios de ataque, optando por retirar os Douglas A-20K das missões de bombardeio tático. Essa decisão abriu uma oportunidade para a transformação do Esquadrão Poker na primeira unidade especializada em reconhecimento tático do Brasil. Para atender a essa nova missão, 11 aeronaves A-20K foram convertidas em plataformas de reconhecimento, recebendo a designação R-20. O processo de conversão, realizado nas oficinas do Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP), envolveu mudanças significativas: Remoção de armamento e blindagem: Todo o armamento ofensivo, incluindo metralhadoras de calibre .50 e posições defensivas, foi retirado, assim como a blindagem, para reduzir o peso e otimizar o desempenho em missões de reconhecimento Instalação de câmeras fotográficas: O compartimento de bombas (bombay) foi adaptado para receber câmeras verticais Fairchild K-17B e K-17C, permitindo a captura de imagens aéreas para inteligência militar Reconfiguração da fuselagem: A posição das metralhadoras superiores foi convertida em um posto para o operador de rádio, equipado com sistemas de comunicação modernos. Atualização de instrumentos: Todos os sistemas de navegação foram modernizados para atender às exigências de missões de reconhecimento tático. Novo padrão de camuflagem: As aeronaves receberam uma pintura tática rajada em tons de castanho e verde, adequada para operações em ambientes variados. As 11 aeronaves convertidas foram batizadas com nomes de origem indígena, refletindo a identidade cultural brasileira: Aboim Ema, Calango, Jurunas, Trumais, Gavião, Paranagua, Bororos, Xavantes, Rio Preto, Suias e Kalapagos.   
A primeira missão especializada do Esquadrão Poker ocorreu em 10 de novembro de 1952, um marco histórico para a aviação de reconhecimento tático no Brasil. A partir dessa data, a Força Aérea Brasileira (FAB) incorporou às suas capacidades as missões de reconhecimento fotográfico prévio e análise de fotos pós-ataque, essenciais para operações táticas e estratégicas. Em 1953, os Douglas R-20 passaram a realizar também missões de reconhecimento meteorológico, ampliando a versatilidade do esquadrão e contribuindo para a coleta de dados críticos para a segurança nacional durante a Guerra Fria. Apesar do sucesso inicial, a frota de Douglas R-20 enfrentou desafios significativos a partir de 1954. A disponibilidade operacional despencou devido à escassez crônica de peças de reposição, resultado do desgaste natural das aeronaves e da interrupção do suporte logístico após o fim do Lend-Lease Act. Além disso, dois acidentes fatais adicionais, somados às perdas anteriores (quatro aeronaves entre 1944 e 1946, com matrículas FAB 6079, 6075, 6081 e 6089), reduziram ainda mais a frota operacional. Em meados de 1947, apenas 18 das 30 aeronaves originais permaneciam em condições de voo, e, em 1954, a situação tornou-se insustentável, evidenciando a necessidade de substituição dos R-20 para preservar a capacidade operacional da Força Aérea Brasileira (FAB).  Diante desse cenário, o comando da Aeronáutica decidiu incorporar novas aeronaves convertidas para reconhecimento tático, incluindo o North American RB-25J Mitchell e o Beechcraft RT-11. A partir de março de 1955, os Douglas R-20 passaram a dividir as missões de reconhecimento com esses novos vetores, uma transição que culminou na desativação das últimas missões do R-20 na primeira quinzena de outubro de 1955. As células remanescentes em condições de voo foram estocadas na Base Aérea de São Paulo (BASP), em Cumbica, Guarulhos. Duas aeronaves R-20, com matrículas FAB 6085 e FAB 6068, foram transferidas para funções educacionais. A FAB 6085 foi destinada à Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAer), enquanto a FAB 6068 foi enviada ao Centro Técnico Aeroespacial (CTA), ambas para uso em estudos e treinamento de manutenção por alunos dessas instituições. A aeronave FAB 6085, após anos exposta ao tempo em Guarulhos, foi restaurada e incorporada ao acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL), no Rio de Janeiro, onde permanece até hoje, em 2025, como um testemunho da história da FAB e da dedicação dos militares que operaram e mantiveram os Douglas R-20. O legado dos Douglas A-20 Havoc no Brasil  é multifacetado, abrangendo avanços operacionais, técnicos e culturais. Operacionalmente, o A-20 foi instrumental na transição da  Força Aérea Brasileira (FAB) de uma força focada em patrulhas marítimas para uma instituição capaz de realizar missões complexas de bombardeio tático e reconhecimento aéreo. 

Em Escala.
Para a construção do modelo em escala 1/48 do Douglas A-20K Havoc, identificado como “FAB 6071” e operado pela Força Aérea Brasileira (FAB) durante a Segunda Guerra Mundial, foi utilizado o kit produzido pela AMT. Embora o referido kit contemple originalmente as versões A-20G e A-20J, trata-se, atualmente, da opção mais próxima ao modelo A-20K empregado pela FAB, o que demandou a realização de pequenas modificações superficiais no kit para adequá-lo às características específicas da variante desejada. A fim de garantir a autenticidade das marcações do “FAB 6071” batizado como "Dioguinho Voador" , foram aplicados decais de alta qualidade do Set 48/03, produzido pela FCM Decals, completando o conjunto com as insígnias e detalhes históricos correspondentes à aeronave em operação no período.
O padrão de pintura tático descrito, conforme especificações da Federal Standard (FS), reflete o esquema adotado pela Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) para as aeronaves Douglas A-20K Havoc entregues à Força Aérea Brasileira (FAB) em 1944. A partir de 1945, foram introduzidas pequenas alterações nesse padrão, com ênfase em elementos de identificação visual das aeronaves. Esse esquema de cores foi mantido até 1952, quando os A-20K remanescentes passaram a adotar um novo padrão de camuflagem tático, caracterizado por uma pintura rajada em tons de castanho e verde, alinhada às exigências operacionais da época.

Bibliografia : 
- Douglas A-20 Havoc  - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Douglas_A-20_Havoc 

- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 Jackson Flores Jr. 
- A-20K o Devastador na FAB, Claudio Luchesi - Revista Asas Nº6 
Havoc – O Bombardeiro Douglas A-20 na FAB – Leandro Casella – Revista Força Aérea nº 97