História e Desenvolvimento.
Em 1836, os irmãos Adolphe Schneider (1802–1845) e Joseph Eugène Schneider (1805–1875), oriundos de uma família da região da Lorena, fundaram a empresa Schneider, Frères & Cie. na cidade de Le Creusot, situada na região da Borgonha, na França. Estruturada como uma sociedade em comandita por ações, a empresa nasceu a partir da aquisição das forjas e fundições locais, então em situação de falência. A operação contou com o apoio financeiro do banqueiro François-Alexandre Seillière e do industrial Louis Boigues, proprietário das Forges de Fourchambault, que viam no empreendimento uma oportunidade de revitalizar a atividade metalúrgica na região. A localidade situava-se próxima a importantes reservas de carvão e minério de ferro, matérias-primas essenciais para a indústria siderúrgica, além de contar com acesso ao Canal du Centre. Esse contexto geográfico favorável somava-se ao ambiente de transformação econômica vivido pela França na primeira metade do século XIX, marcado pela expansão da Revolução Industrial e pelo rápido desenvolvimento das ferrovias, criando condições propícias para o florescimento de novos empreendimentos industriais. Embora não possuíssem formação técnica formal, os irmãos Schneider demonstraram notável visão empresarial e capacidade administrativa. Dentro da empresa, estabeleceram uma divisão clara de responsabilidades: Adolphe dedicava-se à gestão administrativa e comercial, enquanto Eugène concentrava-se nos aspectos técnicos e operacionais da produção. Essa complementaridade de funções revelou-se decisiva para o rápido desenvolvimento da companhia. Desde sua fundação, a Schneider, Frères & Cie. foi concebida com a ambição de modernizar a indústria metalúrgica francesa, inspirando-se em inovações tecnológicas já consolidadas no Reino Unido, então líder mundial no setor. A partir de 1837, a empresa iniciou um amplo processo de modernização de suas instalações industriais, introduzindo altos-fornos alimentados a coque, fornos de pudlagem mecanizados e equipamentos de forjamento de grande porte. Entre as inovações adotadas destacava-se o emprego do chamado marteau-pilon (martelo-pilão), uma poderosa máquina de forjamento desenvolvida pelo engenheiro François Bourdon. Esse equipamento permitia a fabricação de peças metálicas de grandes dimensões com maior precisão e eficiência, representando um avanço significativo para a siderurgia da época. O dinamismo industrial da empresa rapidamente produziu resultados notáveis. Em 1838, a Schneider, Frères & Cie. fabricou a primeira locomotiva a vapor construída em território francês, denominada La Gironde, destinada à Compagnie du Chemin de Fer Paris–Versailles. Além da fabricação de locomotivas, a empresa passou a produzir trilhos, pontes metálicas e estruturas destinadas a estações ferroviárias, atendendo à crescente demanda por infraestrutura ferroviária tanto na França quanto em outros países europeus. Ao longo das décadas seguintes, seus produtos seriam exportados para mercados internacionais, incluindo a Itália, a Espanha e o Império Russo. Paralelamente, a empresa investiu em uma estratégia de integração vertical de sua cadeia produtiva.
Esse modelo permitia controlar todas as etapas do processo industrial, desde a extração de matérias-primas até a fabricação final dos produtos. Para isso, foram adquiridas minas de carvão no bassin de Blanzy e depósitos de minério de ferro, garantindo segurança no abastecimento das usinas siderúrgicas. Outro fator importante para o sucesso da empresa foi a criação de modernos ateliês de mecânica e montagem em Le Creusot, apoiados por escritórios internos de engenharia e projetos. Essa estrutura permitiu à companhia desenvolver suas próprias máquinas-ferramentas e soluções industriais, um diferencial tecnológico. Em 1845, a trajetória da empresa sofreu um duro revés com a morte prematura de Adolphe Schneider, vítima de um acidente a cavalo. A perda de uma das figuras centrais do empreendimento representou um momento delicado para a jovem companhia. A partir de então, seu irmão, Joseph Eugène Schneider, assumiu integralmente a condução dos negócios, reorganizando a estrutura administrativa e renomeando a empresa como Schneider & Cie. Apesar das dificuldades iniciais, Eugène demonstrou notável capacidade de liderança e visão estratégica, garantindo não apenas a continuidade das atividades industriais em Le Creusot, mas também ampliando progressivamente o alcance econômico e político da companhia. Sob sua direção, consolidou-se como um dos mais importantes grupos industriais da França ao longo do século XIX. A empresa diversificou suas atividades, expandindo-se para setores estratégicos como engenharia pesada, construção naval e, posteriormente, a indústria de armamentos. Um dos momentos decisivos para essa transformação ocorreu após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana. O conflito evidenciou a superioridade tecnológica da artilharia prussiana, especialmente no uso de canhões de aço produzidos pela indústria alemã. Diante desse cenário, o governo francês passou a incentivar o fortalecimento de sua própria base industrial militar, estimulando empresas nacionais a investir no desenvolvimento de novos armamentos. A Schneider & Cie. respondeu prontamente a essa demanda estratégica. A empresa passou a produzir canhões, blindagens e ligas metálicas avançadas, incluindo o aço ao níquel, material particularmente adequado para aplicações militares e construção naval. Paralelamente, o grupo expandiu suas atividades no setor naval, participando da produção de navios de guerra e componentes estruturais destinados a grandes estaleiros. No campo ferroviário, a Schneider & Cie. manteve igualmente posição de destaque, exportando locomotivas e equipamentos para diversos mercados internacionais. Entre os projetos de maior relevância esteve sua participação no fornecimento de material ferroviário para a construção da Ferrovia Transiberiana, no Império Russo, uma das mais ambiciosas obras de infraestrutura do final do século XIX. A capacidade produtiva da empresa também foi ampliada com a aquisição, em 1876, de um gigantesco marteau-pilon de 100 toneladas. Esse equipamento permitia o forjamento de peças metálicas de grande porte, como eixos de navios, componentes estruturais e tubos de artilharia pesada, reforçando a posição da empresa como uma das mais avançadas siderúrgicas da Europa.

No plano social, Eugène Schneider implementou em Le Creusot uma política de caráter paternalista voltada para a organização da vida operária. No auge do desenvolvimento industrial da cidade, a empresa chegou a empregar cerca de 10 mil trabalhadores. Após a morte de Eugène Schneider, em 1875, a direção da empresa foi assumida por seu filho, Henri Schneider, e durante sua gestão, foram introduzidos processos siderúrgicos mais avançados, como os convertidores, processo Bessemer e os fornos Processo Siemens-Martin, que permitiam produzir aço em maior escala e com qualidade superior Aproveitando a legislação francesa de 1884, que autorizava a exportação de material militar, a empresa. passou a fornecer artilharia para diversos países. Entre os modelos estavam os canhões Long Tom, desenvolvidos a partir de projetos da escola técnica associada ao engenheiro Gustave Canet. Essas peças foram empregadas por diferentes exércitos estrangeiros, incluindo forças do Transvaal, onde demonstraram grande eficácia em combates contra tropas britânicas no sul da África. Foi justamente nesse contexto, após o término da Guerra Franco-Prussiana, que o setor militar passou a ocupar um papel cada vez mais central nas atividades da corporação Schneider–Creusot. Sob a liderança de Henri Schneider, foram estabelecidas linhas industriais dedicadas ao desenvolvimento e à produção de uma ampla variedade de canhões e morteiros, consolidando definitivamente a empresa como um dos principais polos de engenharia de artilharia. Esse processo de expansão atingiu um novo patamar em 1897, quando a empresa adquiriu as instalações das Forges et Chantiers de la Méditerranée, localizadas na cidade de Le Havre. A incorporação dessas oficinas especializadas em engenharia naval e produção de armamentos trouxe para o grupo uma equipe altamente qualificada de engenheiros e técnicos, além de conhecimentos avançados no desenvolvimento de sistemas de artilharia moderna, fortalecendo ainda mais a posição da empresa no cenário internacional. Ao incorporar aos seus quadros toda a equipe de engenheiros e projetistas o grupo absorveria um amplo know how neste segmento, se destacando principalmente a tecnologia de produção de canhões sem recuo. Neste momento o principal trunfo da corporação era proporcionado pela atuação do engenheiro Gustave Canet, que ao longo dos anos alçaria os postos de diretor de artilharia no Creusot e diretor honorário da Artilharia de Schneider. Ele seria o principal responsável pelo desenvolvimento da família de canhões Canet Schneider, produzida em uma variada gama de calibres, para as mais diversas aplicações em âmbito terrestre e naval. No início do ano de 1909 a Schneider Fréres & Cie seria procurada pelo governo imperial russo, visando o desenvolvimento de um obuseiro pesado de campanha, resultando na proposta de uma arma de 152 mm, que seria aceito, recebendo a designação de Modelo 1910 Nos anos seguintes, este projeto passaria a despertar o interesse por parte do Exército Frances (Armée de Terre), levando a criação de uma versão customizada, contando agora com o calibre padrão de 155 mm, passando a ser denominado como "Canon de 155 C modèle 1915 Schneider".
Este obuseiro apresentava uma concepção convencional envolvendo um sistema de recuo hidropneumático montado sob o cano de disparo e um escudo de arma para proteger a tripulação. Todo o conjunto estava disposto em uma carruagem com rodas de madeira. Empregava ainda uma culatra de parafuso interrompido com munição de carga separada; o projétil sendo carregado primeiro seguido pela quantidade adequada de propelente em uma caixa de cartucho de latão. Uma bandeja de carregamento seria articulada ao lado esquerdo do berço, e seria colocado na posição após a culatra se abrir para segurar o projétil antes de ser empurrado para dentro da câmara, mantendo o projetil na posição até que pudesse ser acionado. A peça seria tracionada por um conjunto de oito cavalos mediante o acoplamento de um suporte com duas rodas. Diferentemente do canhão Modelo 1910 russo, contava com um cano mais longo e maior velocidade de saída, projetando um alcance de 2.500 metros, porém apresentava um peso extra na ordem de 1.100 kg . Rapidamente este modelo se tornaria a principal arma de artilharia pesada de campanha das forças francesas, em seguida contratos de exportação seriam firmados, com o governo espanhol com os primeiros canhões sendo entregues em 1917, e posteriormente em novembro declarada padrão para uso do Exército Espanhol (Ejército de Tierra), embora seu primeiro uso militar tenha sido na África em 1921, durante o assalto a Turiet Hamed. Curiosamente este armamento seria largamente operado pelos dois lados durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Operacionalmente o Exército Frances (Armée de Terre) preferia o emprego cargas ensacadas para suas munições em detrimento aos cartuchos de latão usados pelo Canon de 155 C modèle 1915, principalmente em função do custo de produção e alta necessidade de latão (um material estratégico) utilizado neste processo. Esta exigência se mostraria um problemas real durante o início da Primeira Guerra Mundial, dado o grande número de projéteis gastos. Neste contexto seria solicitado a Schneider Fréres & Cie um redesenho de seu projeto original , permitindo assim o uso de pólvora ensacada. A empresa atenderia a esta demanda passando a fazer uso de um novo obturador, adaptando um a nova culatra para o cano original. Muitas armas armas tiveram suas bandejas de carregamento removidas porque isso diminuiu a taxa de tiro, uma bandeja portátil foi usada pelos carregadores. No entanto este processo enfrentaria problemas de ordem técnica, com a arma que receberia a designação de Canon de 155 C modèle 1917 Schneider, sendo colocada em serviço somente no final de 1916. Ao todo até o termino do conflito 3.000 canhões deste seriam entregues, com muitas centenas do Canon de 155 C modèle 1915 sendo atualizados para o modelo 1917. No decorrer da Primeira Guerra Mundial, este modelo seria adotado como obuseiro padrão pela Força Expedicionária Americana - AEF, sendo adquiridos maios de 1.500 peças. O último tiro americano disparado durante o conflito seria realizado pelo obuseiro chamado "Calamity Jane", do 11º Regimento de Artilharia de Campanha. Seriam adquiridos os diretos não exclusivos sobre o design e projetos, resultando na produção local. Estes diferiam um pouco dos modelos franceses, apresentando um escudo reto em vez de curvo, pneus de borracha em vez de aço em rodas raiadas de madeira, uma pá giratória e um mecanismo de disparo ligeiramente diferente.

Contratos de exportação seriam firmados, com centenas de peças sendo incorporadas as forças terrestres da Grécia, Romênia, Polônia, Portugal, Espanha, Finlândia, Argentina, Iugoslávia, Brasil, Sérvia e Rússia. Ao longo da década de 1920 os investimentos mundiais destinados a defesa permaneceriam estagnados, não havendo neste período nenhum desenvolvimento significativo de novas armas de artilharia desta categoria, com os canhões Schneider Modelos 1917 e 1918 se mantendo como arma padrão em diversos exércitos europeus. Nos Estados Unidos, entre os anos de 1934 e 1936, uma grande parte destas peças seriam modernizadas, recebendo vagões de transporte equipados com freios a ar, novas rodas metálicas e pneus pneumáticos de borracha para tração de motores de alta velocidade, adaptando os assim a tração mecanizada de alta velocidade. Este programa permitiria que estes canhões permanecessem como arma padrão de artilharia, até começarem a ser substituídos pelos novos obuseiros M-1 de 155 mm a partir do final de 1942. Com a queda da França em junho de 1940, um número significativo de canhões Schneider M-1917 e M-1918 foi capturado pelo Exército Alemão (Wehrmacht). Essas peças foram rapidamente incorporadas ao serviço ativo, recebendo a designação alemã SFH 414 15,5 cm, sendo empregados em diversas frentes. Na Muralha do Atlântico, os canhões Schneider reforçaram posições defensivas ao longo do litoral francês. Além disso, foram alocados a divisões de infantaria de segunda linha estacionadas na França ocupada e empregados na Campanha do Norte da África, onde apoiaram as forças do Afrika Korps. Durante a Guerra de Continuação (1941-1944), cerca de 160 obuses Schneider foram fornecidos ao Exército Finlandês pelas forças alemãs. Essas peças foram intensivamente utilizadas contra as tropas soviéticas, especialmente em operações defensivas na Frente da Carélia. A capacidade dos M-1917 e M-1918 de operar em terrenos acidentados e condições climáticas adversas, como os rigorosos invernos finlandeses, tornou-os valiosos. O Exército Real Italiano (Regio Esercito Italiano) também se beneficiou da captura de canhões Schneider durante o conflito. Durante a Batalha da França em 1940, os italianos tomaram oito peças, e, posteriormente, na Campanha dos Balcãs, em outubro de 1940, capturaram 96 obuses na Grécia. Essas armas foram redesignadas como Obice da 155/14 PB e integradas ao arsenal italiano, sendo empregadas em operações nos Balcãs e no Norte da África. O Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) fez uso limitado dos obuses Schneider M-1917 e M-1918 nas fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, sendo empregadas em combates iniciais, com destaque para a invasão japonesa das Filipinas . Durante a defesa de Bataan, o 301º Regimento de Artilharia do Exército Colonial Filipino, equipado com obuses Schneider, utilizou essas peças contra as forças japonesas, marcando seu batismo de fogo no conflito. Cerca de cem obuseiros M-1918 modernizados seriam fornecidos ao Reino Unido sob o programa Lend-Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), passando a ser empregados no final de 1941 no teatro de operações do norte da África. Após o término do conflito, muitos destes canhões permaneceriam em serviço até a década e 1960. Já o Exército Boliviano, receberia em 1976 uma doação de dezesseis obuses do Exército Argentino pertencentes aos modelos Schneider L.15.05 e L.30.05, com estes se mantendo em serviço até o início do século XXI.
Emprego no Exército Brasileiro.
A artilharia brasileira, enraizada nas lutas coloniais e consolidada após a Independência de 1822, é um pilar da história militar do país, marcada por momentos de bravura, inovação e resiliência. As origens da artilharia brasileira remontam ao período colonial, quando brasileiros se mobilizaram em conflitos como as Batalhas de Guararapes, enfrentando forças holandesas em Pernambuco com táticas rudimentares, mas corajosas. Após a Independência, em 1822, a artilharia de campanha começou a se estruturar como uma arma organizada, ganhando prestígio no Império do Brasil. Diferentemente da infantaria e da cavalaria, que exigiam menos anos de formação, a artilharia demandava treinamento completo na Academia Militar do Império, refletindo sua complexidade técnica. Os artilheiros, muitas vezes jovens oficiais, dedicavam-se a dominar cálculos balísticos e manobras táticas, forjando uma tradição de excelência que marcaria gerações. O auge desse período foi a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), onde a artilharia brasileira, sob o comando do Marechal Emílio Luís Mallet, se destacou na Batalha de Tuiuti (1866), a maior batalha campal da América do Sul. Apelidada de “Artilharia Revólver” por sua precisão e rapidez, a força brasileira, protegida por um fosso tático inovador, resistiu a ataques paraguaios com uma determinação eternizada na frase de Mallet: “Eles que venham! Por aqui não passam!”. Nascido na França em 1801 e naturalizado brasileiro, Mallet comandou com destreza, sendo promovido a brigadeiro por mérito e agraciado com o título de Barão de Itapevi em 1878, ascendendo a marechal em 1885. Sua liderança transformou a artilharia em um símbolo de orgulho nacional, inspirando gerações de artilheiros. A influência da Friedrich Krupp AG no Brasil começou em 1872, com a aquisição dos primeiros canhões de campanha de 75 mm, destinados aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Essas peças, fabricadas em Essen, Alemanha, representavam o auge da tecnologia bélica, superando os canhões franceses La Hitte, que até então equipavam o arsenal brasileiro. Na década de 1880, o Exército Imperial recebeu mais três dezenas de canhões Krupp 75 mm Modelo 1895, recomendados pelo Conde d’Eu, Comandante Geral da Artilharia e presidente da Comissão de Melhoramento de Material do Exército. Como genro do Imperador Dom Pedro II, o Conde d’Eu desempenhava um papel central como conselheiro militar, defendendo a superioridade dos canhões alemães, que alcançavam até 12.000 metros, uma melhoria significativa em relação aos modelos anteriores. A adoção em larga escala dos canhões Krupp marcou uma virada na modernização do Exército Brasileiro, recuperando o potencial militar após anos de estagnação. Para os artilheiros, operar essas armas era um desafio que exigia precisão e treinamento. Em exercícios nos campos de treinamento do Rio de Janeiro, equipes de cinco a sete homens carregavam projéteis de 6,5 kg, ajustavam sistemas de mira e disparavam sob o calor carioca, fortalecendo a camaradagem. Ironicamente, os canhões recomendados pelo Conde d’Eu foram usados contra uma rebelião monarquista na Guerra de Canudos (1896-1897), onde provaram sua eficácia em combates reais, apesar das condições adversas do sertão baiano.
No início do século XX, o Exército Brasileiro enfrentava desafios significativos decorrentes da obsolescência de seus armamentos e doutrinas militares. As limitações técnicas haviam sido expostas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), o maior conflito da América do Sul, e confirmadas na Campanha de Canudos (1896-1897), que revelou a inadequação do arsenal brasileiro frente às demandas de combates modernos. Os canhões Krupp de 75 mm, adquiridos em 1872 e 1895, embora inovadores em sua época, já não acompanhavam os avanços tecnológicos da artilharia global, como os sistemas de recuo hidropneumático e a maior mobilidade exigida pelas táticas contemporâneas. Este cenário refletia não apenas a ausência de uma indústria bélica nacional, mas também a dependência de importações e a necessidade urgente de modernização para alinhar o Brasil às potências militares da época. A transformação do Exército Brasileiro ganhou impulso com a liderança de figuras visionárias, como os Marechais João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Francisco de Paula Argolo e, sobretudo, Hermes da Fonseca, que, com o apoio do Barão do Rio Branco, então Ministro das Relações Exteriores, impulsionaram a chamada Reforma Hermes (1900-1908). Este processo de reestruturação, conduzido durante o governo de Rodrigues Alves e intensificado sob a presidência de Afonso Pena, buscava reposicionar o Exército como uma força moderna, capaz de responder aos desafios estratégicos do novo século. Inspirado pelo modelo do Exército Prussiano, particularmente pelo sistema de Estado-Maior desenvolvido por Helmuth von Moltke, Hermes da Fonseca defendia a necessidade de equipar o Brasil com armamentos de ponta e adotar uma organização militar baseada na disciplina, na eficiência e na inovação tecnológica. A Reforma Hermes incluiu a reorganização territorial do país, com a divisão em 21 regiões para alistamento militar e 13 para inspeção, além da criação e regulamentação do Estado-Maior do Exército, um órgão central para planejamento estratégico e coordenação operacional. Essas medidas visavam não apenas modernizar a estrutura militar, mas também fortalecer a soberania nacional em um contexto de crescente influência geopolítica do Brasil na América do Sul. Reconhecendo a inexistência de uma indústria bélica nacional capaz de suprir as necessidades do Exército, Hermes da Fonseca organizou, em agosto de 1908, uma missão militar à Europa, com destino à Alemanha e à França, dois dos principais centros de tecnologia militar da época. A missão, composta por oficiais de alto escalão, tinha como objetivo identificar fornecedores de armamentos modernos e estabelecer parcerias para a transferência de conhecimentos técnicos e profissionais, essenciais para a capacitação do Exército Brasileiro. Os resultados dessa missão foram expressivos, culminando na aquisição de um vasto arsenal de equipamentos destinados a renovar as capacidades da infantaria, cavalaria e artilharia. Para a infantaria, foram adquiridos 400.000 fuzis Mauser de calibre 7 mm, fabricados na Alemanha, reconhecidos por sua precisão e confiabilidade. A cavalaria foi equipada com 10.000 lanças Ehrhardt, 20.000 espadas e 10.000 mosquetões, adaptados às táticas de combate montado.
O início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) marcou uma transformação profunda na arte da guerra, com avanços significativos em tecnologia de armamentos e doutrinas militares. A introdução de tanques, aviação militar, artilharia pesada e táticas de guerra de trincheiras elevou os padrões da guerra moderna, expondo a obsolescência de muitas forças armadas ao redor do mundo. No Brasil, o Exército, apesar dos avanços promovidos pela Reforma Hermes (1900-1908), viu-se rapidamente superado a partir de 1918, tanto em termos de equipamentos quanto de organização doutrinária. Os canhões Schneider-Canet de 75 mm e Krupp de mesmo calibre, adquiridos no início do século XX, embora robustos, não acompanhavam as inovações tecnológicas, como os sistemas de recuo mais avançados e a mobilidade exigida pelas novas táticas de combate. Essa obsolescência era agravada pelo contexto geopolítico da América do Sul, onde a Argentina experimentava um rápido desenvolvimento econômico e militar, emergindo como a principal ameaça hipotética ao Brasil. A rivalidade histórico-estratégica entre os dois países, intensificada desde a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), motivou o governo brasileiro a buscar soluções urgentes para reequilibrar a balança militar na região. A partir do segundo semestre de 1918, sob a presidência de Delfim Moreira e com o apoio do Ministro da Guerra, General Alberto Cardoso de Aguiar, o Brasil iniciou esforços para implementar um novo ciclo de modernização militar, visando recuperar sua capacidade defensiva e projeção regional. Reconhecendo a necessidade de expertise externa para conduzir esse processo, o governo brasileiro abriu negociações com a França, uma potência militar reconhecida por sua avançada indústria bélica e doutrina de combate, especialmente após seu desempenho na Primeira Guerra Mundial. Em 1918, diálogos avançados foram conduzidos em Paris entre o adido militar brasileiro na França, Coronel Malan d’Angrogne, e o Ministro da Guerra francês, Georges Clemenceau, uma figura central na vitória aliada. Paralelamente, o General Maurice Gamelin, que mais tarde se tornaria comandante-chefe do Exército Francês, foi enviado ao Brasil em uma missão de avaliação. Sua tarefa era analisar o estado das Forças Armadas Brasileiras, identificando deficiências em equipamentos, treinamento e organização, para embasar uma proposta francesa de cooperação. As negociações culminaram na assinatura de um contrato em Paris, ratificado meses depois no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1919, durante o governo de Epitácio Pessoa. Este acordo criou oficialmente a Missão Militar Francesa, um marco na história militar brasileira. Pelo contrato, oficiais franceses assumiriam, por quatro anos, o comando de instituições-chave, como a Escola de Estado-Maior (EEM), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), a Escola de Intendência e a Escola de Veterinária. Em contrapartida, o Brasil comprometeu-se a priorizar a indústria militar francesa em suas aquisições de armas e equipamentos, desde que as propostas francesas fossem competitivas em preço e prazo de entrega em relação a outros fornecedores internacionais. A chegada da Missão Militar Francesa, liderada por oficiais experientes como o General Louis Gillet, marcou o início de uma transformação profunda no Exército Brasileiro. A partir de 1921, novos regulamentos foram adotados, alinhados às doutrinas francesas, incluindo normas para a Direção e Emprego das Grandes Unidades, o Exercício e Emprego da Artilharia e o Serviço de Estado-Maior em Campanha. Essas mudanças modernizaram a organização tática e logística, introduzindo conceitos de mobilidade, coordenação interarmas e planejamento estratégico, inspirados nas lições da Primeira Guerra Mundial. As avaliações iniciais dos oficiais franceses identificaram a urgência de atualizar o arsenal brasileiro, com ênfase na substituição de equipamentos obsoletos. Uma concorrência internacional foi aberta, e, conforme estipulado no contrato, as propostas da indústria francesa, lideradas pela Schneider & Cie., foram priorizadas devido a custos competitivos e qualidade técnica. Entre os armamentos adquiridos, destacaram-se: Canhões Schneider C-50 1902 de 150 mm: Utilizados em aplicações terrestres e ferroviárias, reforçando a artilharia de costa e de campanha. Canhões Schneider 75/28 Modelo 1906 de 75 mm: Peças de tiro rápido, ideais para apoio tático em operações móveis. Canhões Schneider C-18-6 Modelo 1919 de 75 mm: Modelos de montanha, leves e adaptados para terrenos acidentados. Obuses Schneider C-17S de 155 mm: Peças pesadas, destinadas a equipar unidades de artilharia de fronteira, com entregas realizadas em 1923. Os obuses Schneider C-17S de 155 mm, projetados para atender às necessidades de artilharia pesada, foram adaptados ao contexto do Exército Brasileiro, que na década de 1920 era predominantemente hipomóvel, ou seja, dependente de tração animal. Essas peças foram entregues com rodas de madeira, adequadas ao transporte por cavalos e muares, mas que limitavam sua mobilidade em terrenos irregulares. Destinados às unidades de artilharia de fronteira, os C-17S ofereciam maior poder de fogo em comparação com os canhões de montanha Schneider-Canet de 75 mm, que eram leves e facilmente transportáveis, mas apresentavam restrições devido ao seu peso e dimensões. Seguindo o padrão francês, as baterias de artilharia equipadas com os Schneider C-17S eram organizadas com: Quatro canhões de 155 mm por bateria. Quatro carros de munição, cada um transportando 38 munições por canhão, complementados por 60 unidades adicionais em carros de apoio. Um carro de apoio com ferramental para manutenção. Um carro-forja, responsável por reparos em campanha, incluindo consertos nas rodas de madeira e nos carros de tração. Cada bateria era operada por um efetivo de três oficiais, dez sargentos e 121 praças, mobilizando 39 cavalos e 96 muares para a tração das peças, munições e pessoal. Em comparação com os canhões de montanha Schneider-Canet 75 mm Mountain Gun, notabilizados por sua leveza e relativa facilidade de transporte em terrenos acidentados, os obuses Schneider C-17S 155 mm apresentavam desafios operacionais mais significativos. Seu elevado peso, associado ao uso de rodas de madeira características comuns à artilharia pesada do início do século XX restringia sensivelmente sua mobilidade. Em consequência, essas peças mostravam-se mais adequadas ao emprego em posições defensivas relativamente fixas ou em áreas de terreno regular, como nas extensas regiões de fronteira do território brasileiro.

Ao todo, oitenta unidades do modelo seriam incorporadas ao Exército Brasileiro. Por se tratar de sistemas de artilharia considerados modernos para a época, apresentaram desempenho operacional satisfatório e, a exemplo dos canhões Schneider-Canet de 75 mm, estiveram presentes em diversos episódios de conflito interno que marcaram o país nas primeiras décadas do século XX. Essas peças de artilharia participaram, direta ou indiretamente, de acontecimentos como a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932, sendo neste último conflito empregadas por forças em ambos os lados da contenda. Tal presença evidencia o papel central que esses obuseiros desempenharam na estrutura de artilharia do Exército Brasileiro durante o período entre guerras. Os obuses Schneider C-17S de 155 mm permaneceriam como um dos principais meios de artilharia pesada do país até o final da década de 1930. A partir de 1940, entretanto, iniciou-se um processo gradual de modernização com a introdução dos canhões britânicos Vickers Armstrong 152.4 mm Gun, cujo principal avanço residia no alcance significativamente superior cerca de 18.400 metros aliado a uma cadência de tiro de aproximadamente três disparos por minuto. Esse desempenho superava amplamente o das peças então em serviço, cujo alcance máximo situava-se em torno de 9.000 metros. No ano seguinte, esse processo de modernização seria reforçado com a chegada dos canhões alemães Krupp Flak 88 mm C/56 Modelo 18, amplamente reconhecidos por sua versatilidade e eficiência. Diferentemente das peças mais antigas, esses sistemas já eram concebidos para tração motorizada, passando a equipar unidades de artilharia de costa e defesa antiaérea do Exército Brasileiro. A modernização do parque de artilharia nacional ganharia novo impulso a partir de 1942, quando o Brasil passou a integrar o programa norte-americano Lend-Lease Act. Por meio desse acordo, o país recebeu, entre diversos equipamentos militares, os obuseiros norte-americanos M1 155 mm Howitzer, que representavam um padrão mais avançado de artilharia de campanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, embora já não representassem o estado da arte da artilharia moderna, os obuses Schneider C-17S de 155 mm continuaram a desempenhar papel relevante em manobras e exercícios de defesa, equipando especialmente regimentos de artilharia a cavalo. Com a gradual ampliação da motorização a partir do final da década de 1930, essas peças passaram por um processo de modernização realizado nos arsenais de guerra localizados no Rio de Janeiro e em General Câmara, no Rio Grande do Sul. Nessas instalações, os obuseiros receberam novas rodas metálicas com pneus, substituindo as antigas rodas de madeira, o que possibilitou sua tração por caminhões alemães produzidos pela empresa Henschel & Sohn. Graças a essas adaptações, os obuses Schneider C-17S permaneceram em serviço por várias décadas, integrando o sistema de artilharia do Exército Brasileiro até a segunda metade da década de 1960, quando foram finalmente retirados de operação. Algumas dessas peças foram preservadas, permanecendo atualmente como importantes testemunhos materiais da evolução histórica da artilharia no Brasil.
Em Escala.
Para recriar o canhão Schneider C-17S de 155 mm em escala, foi selecionado o kit produzido pela Das Werk na escala 1/35. Este modelo destaca-se pela excepcional qualidade de seus componentes, incluindo um conjunto de peças em photo-etched que reproduzem com precisão os detalhes técnicos do obuseiro, como o sistema hidropneumático de recuo, o berço de aço cromo-níquel e os cilindros do freio e recuperador.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura com que estes canhões foram recebidos no pais em 1923, e seguem o esquema de camuflagem tática aplicada aos canhões Schneider C-17S 155 mm empregados pela Força Expedicionária Americana - AEF durante a Primeira Guerra Mundial. No Brasil estas peças receberiam posteriormente uma pintura total em verde oliva, a exemplo dos canhões norte-americanos recebidos durante a Segunda Guerra Mundial.
Bibliografia:
- Schneider Frères et Compagnie - https://www.lesechos.fr
- Schneider-Canet - https://pt.wikipedia.org/wiki/Schneider-Canet
- Missão Militar Francesa por Rodrigo N. Araujo - https://cpdoc.fgv.br/
- Arquivos do Museu Militar de Conde de Linhares – Rio de Janeiro
- Canon de 155 C modèle 1917 Schneider - Canon de 155 C modèle 1917 Schneider – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)





