História e Desenvolvimento.
A Segunda Guerra Mundial (1939–1945) não apenas impulsionou avanços significativos em armamentos convencionais, como também desempenhou papel decisivo no surgimento da aviação de asas rotativas para fins militares. Embora o emprego de helicópteros nesse conflito tenha sido ainda limitado em razão da relativa imaturidade tecnológica e das prioridades industriais voltadas à produção em massa de aeronaves já consolidadas, os primeiros modelos desenvolvidos nesse período estabeleceram as bases para a revolução que se consolidaria no pós-guerra. Nesse contexto, a Alemanha Nazista destacou-se por conduzir as primeiras experiências práticas com o uso militar de helicópteros, explorando conceitos inovadores ainda em estágio embrionário. Paralelamente, do lado dos Aliados, o desenvolvimento de aeronaves de asas rotativas ganhou impulso sobretudo nos estágios finais do conflito, quando os avanços tecnológicos começaram a tornar viável sua aplicação operacional. Um marco fundamental nesse processo foi o desenvolvimento do R-4, projetado pela Sikorsky Aircraft Corporation. Considerado o primeiro helicóptero verdadeiramente funcional empregado em operações militares, o R-4 foi introduzido em serviço ativo nos últimos meses da guerra. Em junho de 1945, a aeronave foi destacada para o teatro de operações do Pacífico, onde, mesmo em um período relativamente curto de emprego, demonstrou de forma inequívoca o potencial transformador dos helicópteros. Sua capacidade de executar missões de resgate, transporte e reconhecimento inaugurou novas possibilidades táticas e operacionais para a aviação militar. Simultaneamente, outros fabricantes norte-americanos passaram a investir nesse promissor segmento tecnológico. Entre eles, destacou-se a Bell Aircraft Company, que, antecipando o potencial de mercado, estabeleceu em Fort Worth, no estado do Texas, uma unidade dedicada ao desenvolvimento e produção de helicópteros. Sob a liderança do engenheiro aeronáutico Arthur Young, a empresa iniciou o desenvolvimento de um projeto inovador de aeronave leve de asas rotativas. Esses esforços culminaram no Model 30, que, após um extenso programa de ensaios e testes, evoluiu para o Model 47. Este último realizou seu voo inaugural em 8 de junho de 1945, tornando-se rapidamente um dos helicópteros mais bem-sucedidos de sua geração. Suas versões militares, como o OH-13, foram incorporadas às forças armadas norte-americanas já no final da década de 1940. Dotado de capacidade para transportar um piloto e até dois passageiros, aliado a uma notável confiabilidade mecânica, o Model 47 conquistou ampla aceitação tanto no meio civil quanto governamental. Durante a década seguinte, a Bell consolidou expressivo sucesso comercial com o modelo, cuja produção ultrapassou a marca de cinco mil unidades. Esse êxito foi amplamente reforçado durante a Guerra da Coreia (1950–1953), quando o helicóptero passou a ser empregado em larga escala em missões de ligação, observação e, sobretudo, evacuação aeromédica. Nesse último papel, destacou-se pela capacidade de transportar rapidamente feridos da linha de frente para unidades médicas de campanha, consolidando o conceito de MEDEVAC (Medical Evacuation) e evidenciando, de forma definitiva, o valor operacional dos helicópteros no ambiente de combate.
Em 1952, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) identificou a necessidade de desenvolver um novo helicóptero dedicado a missões de evacuação aeromédica, com o objetivo de superar as limitações apresentadas pelos primeiros modelos então em operação. Entre os principais requisitos estabelecidos, destacava-se a adoção de um sistema de propulsão baseado em turbina, substituindo os motores a pistão utilizados em aeronaves como o H-13 e os helicópteros de médio porte, a exemplo do UH-34. Em novembro de 1953, os parâmetros do projeto foram revisados, resultando no lançamento de uma concorrência nacional que atraiu propostas técnicas e comerciais de cerca de vinte fabricantes. Após um criterioso processo de avaliação comparativa, dois projetos foram selecionados como finalistas, sendo então contemplados com recursos governamentais para a construção de protótipos. Nesse contexto, a Bell Helicopter Company desenvolveu o modelo que viria a ser conhecido como Model 204. Seu protótipo, designado XH-40, realizou seu primeiro voo em 20 de outubro de 1956. A aeronave incorporava soluções inovadoras para a época, como o rotor principal bipá semirrígido e a utilização de um motor turboeixo Lycoming T53-L1, com potência de aproximadamente 700 shp, características que lhe conferiam desempenho superior em comparação aos helicópteros convencionais então disponíveis. Paralelamente, foi conduzido um programa comparativo envolvendo o modelo da Bell e o Kaman H-43, com o objetivo de avaliar seu desempenho operacional e adequação aos requisitos estabelecidos. Ao final desse processo, em 23 de fevereiro de 1955, o projeto da Bell foi declarado vencedor. A aeronave passou então a ser designada XH-40 pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e XHU-1 pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Em seguida, foi firmado um contrato inicial para a construção de 03 protótipos, destinados a um programa ampliado de desenvolvimento e testes. Os resultados obtidos durante essa fase mostraram-se altamente satisfatórios, levando à encomenda de mais três aeronaves de pré-série, incorporando melhorias significativas e aperfeiçoamentos estruturais e de sistemas. Essas unidades foram entregues e avaliadas entre 1957 e 1959. O sucesso do programa culminou, em março de 1960, na assinatura do primeiro contrato de produção em série com o Exército dos Estados Unidos. O modelo recebeu a designação militar HU-1A e o nome “Iroquois”, em referência às tribos indígenas do nordeste da América do Norte. Com o tempo, contudo, a aeronave passaria a ser amplamente conhecida pelo apelido “Huey”, derivado de sua designação original. As primeiras unidades de produção começaram a ser entregues em janeiro de 1961 a diversas unidades de aviação do Exército, marcando o início do processo de substituição de modelos anteriores, como o UH-34 e o H-19D. Assim, o HU-1A Iroquois inaugurava uma nova geração de helicópteros utilitários, estabelecendo um padrão que influenciaria profundamente o emprego de aeronaves de asas rotativas em conflitos nas décadas seguintes.
As versões especializadas na missão de evacuação aeromédica designadas SHU-1A foram inicialmente alocadas a unidades de elite do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), incluindo a 101ª Divisão Aerotransportada, a 82ª Divisão Aerotransportada e o 57º Destacamento Médico. Essas aeronaves desempenhariam um papel crucial no desenvolvimento da doutrina moderna de evacuação em combate, ao possibilitar a remoção rápida de feridos diretamente da linha de frente para instalações médicas avançadas. O primeiro emprego em um cenário real de conflito ocorreu em meados de 1964, durante as fases iniciais do envolvimento norte-americano na Guerra do Vietnã. A experiência acumulada nesse ambiente revelou, contudo, limitações importantes, especialmente no que se refere à sua potência disponível, considerada insuficiente para atender plenamente às exigências do teatro de operações, caracterizado por altas temperaturas, elevada umidade e terrenos desafiadores. Com o objetivo de superar essas restrições, foi introduzido um motor mais potente, o Lycoming T53-L-5, com 960 shp. Essa modificação deu origem à versão UH-1B, que incorporava não apenas melhorias no desempenho, mas também um aumento nas dimensões da fuselagem, permitindo ampliar sua capacidade de transporte para até sete soldados completamente equipados ou quatro macas acompanhadas por um médico. A primeira unidade de produção dessa versão foi entregue em março de 1965, sendo igualmente implementado um programa de atualização que elevou diversas células anteriores ao novo padrão. Apesar dos avanços alcançados, o processo de aperfeiçoamento da aeronave prosseguiu de forma contínua. Ainda no segundo semestre de 1965, o corpo técnico da aviação do exército apresentou ao fabricante uma série de recomendações, muitas delas decorrentes de deficiências aerodinâmicas identificadas, sobretudo nas versões adaptadas como plataformas de armas. Nesse contexto, o grupo propulsor voltou a ser objeto de aprimoramento, com a adoção do motor Lycoming T53-L-11, com 1.100 shp de potência. Paralelamente, foram introduzidas modificações estruturais significativas, incluindo um novo desenho da seção de cauda, dotado de estabilizador redesenhado, destinado a melhorar a estabilidade e a eficiência aerodinâmica, especialmente em condições de voo com elevada carga de armamentos. O aumento da potência e a adoção de um rotor de maior diâmetro exigiram ainda o desenvolvimento de uma nova lança traseira, incorporando uma aleta vertical de maior corda no pilão do rotor de cauda, bem como superfícies horizontais ampliadas e sincronizadas. Essas alterações resultaram na versão UH-1C, que apresentava desempenho superior em termos de velocidade de cruzeiro, manobrabilidade e capacidade de carga. O novo sistema de rotor contribuiu para reduzir a incidência do fenômeno de estol da pá em retirada durante manobras de alta demanda, especialmente em mergulhos, além de proporcionar maior estabilidade e controle em voo. Além das novas encomendas, o fabricante foi contemplado com contratos adicionais para a modernização de aeronaves UH-1B já existentes, elevando-as ao padrão UH-1C.Apesar da satisfação com os resultados operacionais alcançados pelas versões iniciais do Huey, os militares norte-americanos passaram a demandar uma aeronave com maior capacidade de transporte de tropas, em consonância com a evolução das doutrinas de mobilidade aérea que se consolidavam no contexto da Guerra do Vietnã. Em resposta o fabricante optou por promover uma ampliação significativa da fuselagem da versão anterior, estendendo-a em aproximadamente 104 cm. Essa modificação estrutural foi acompanhada pela adoção de portas laterais deslizantes de maiores dimensões, dotadas de duas janelas, o que facilitava o embarque e desembarque rápido de tropas. Como resultado, passou a oferecer capacidade para até 15 ocupantes, entre tripulantes e soldados equipados. O protótipo agora designado UH-1D, realizou seu voo inaugural em 16 de agosto de 1965. Em seguida, foi submetido a um abrangente programa de ensaios em voo, cujos resultados confirmaram sua adequação operacional e viabilizaram sua entrada em produção seriada. Ainda em dezembro daquele ano, foi celebrado um contrato inicial para a fabricação de 200 unidades, com as primeiras entregas ocorrendo a partir de março de 1966, destinadas às principais unidades de aviação do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Posteriormente, o modelo também seria incorporado pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e pelo Corpo de Fuzileiros Navais (U.S. Marine Corps), ampliando seu espectro de emprego. A partir de meados de 1967, o UH-1D passou a ser empregado em larga escala no conflito do Vietnã, com mais de três mil aeronaves destacadas para o teatro de operações, incluindo unidades operadas pela Força Aérea do Vietnã do Sul (VNAF). A experiência adquirida nesse cenário contribuiu decisivamente para a consolidação de uma nova doutrina de emprego de aeronaves de asas rotativas, abrangendo uma ampla gama de missões, como evacuação aeromédica (MEDEVAC), busca e salvamento (SAR), assalto aéreo, transporte de tropas, apoio aéreo aproximado, comando e controle, além de transporte logístico. Entretanto, foi sobretudo como plataforma de ataque e apoio aproximado que o UH-1D se notabilizou, desempenhando um papel central na introdução e difusão desse conceito no campo de batalha moderno. Para tal, a aeronave passou a ser equipada com um variado conjunto de armamentos, incluindo metralhadoras laterais M-60D, instaladas nas portas, metralhadoras frontais montadas em casulos M-59, canhões de 20 mm, lançadores de foguetes não guiados de 70 mm ou 40 mm, além de sistemas de mísseis ar terra guiados por fio, como os modelos M-11 e M-22. Nessa configuração, os helicópteros eram empregados, sobretudo, em missões de escolta armada, abrindo caminho e protegendo o desembarque de tropas aerotransportadas em zonas hostis. Esse perfil operacional acabaria por imortalizar o Huey no imaginário coletivo, sendo amplamente retratado em produções cinematográficas e televisivas nas décadas seguintes, tornando-se um dos símbolos mais emblemáticos da Guerra do Vietnã.

Apesar de sua extensa lista de qualidades e dos expressivos êxitos operacionais, o UH-1D ainda apresentava limitações relacionadas à potência disponível, fator que continuava a impactar seu desempenho, especialmente em condições ambientais adversas e em missões que exigiam elevada carga útil. Novamente estudos seriam conduzidos pela equipe de engenharia, resultando na adoção do novo modelo um novo modelo de motor, o Lycoming T53-L-13 (LTC1K-4) que passava a oferecer 1.400 shp de potência ao helicóptero. Neste mesmo processo, o tubo de pitot seria transferido do nariz da aeronave para o teto da cabine, no intuito de se evitar danos durante as operações de pouso em terrenos de difícil acesso. Estas mudanças gerariam uma nova versão, que passaria a ser designada como UH-1H, que além de apresentar maior potência, passava a dispor maior capacidade de transporte de carga útil. Neste momento a existência de muitas células da versão do UH-1D em carga nas forças armadas norte-americanas, seria criado um programa de modernização elevando assim todas as aeronaves para o modelo UH-1H. Até o ano de 1987, seriam produzidas mais de 16.000 células dispostas desta família de aeronaves, dispostas em várias versões, incluindo aeronaves montadas sob licença pelas empresas italiana Augusta Spa., alemã Dornier Flugzeugwerke e japonea Fuji Heavy Co. Apesar da excelente e longa folha de serviços, em meados da década de 1970 seria lançado pelo comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), o programa “Sistema de Aeronave de Tático Utilitário e Transporte UTTAS”, que visava desenvolver um substituto, que culminaria na criação do projeto Sikorsky S-70A . Estes novos helicópteros passariam a ser entregues na primeira metade da década de 1980, gerando assim uma grande quantidade de aeronaves excedentes do modelo Bell UH-1H, que passariam a ser disponibilizadas em programa de ajuda militar a diversos países como Argentina, Brasil, Alemanha, El Salvador, Israel, Líbano, Nova Zelândia, Filipinas, Rodésia, Espanha, Portugal e Yemen. Já no início do ano de 1989, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), daria início ao processo de retirada destas aeronaves das unidades de primeira linha, transferindo cerca de setecentas células para o emprego em tarefas de treinamento. Com os Bel UH-1H se mantendo em operação neste escopo de missão até o início do ano de 2005, quando foram substituídos pelos Eurocopeter UH-72 Lakota. Junto a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) o modelo se manteria em operação até meados do ano de 2016 sendo totalmente substituídos pelos novos UH-60L Blackhawk. Atualmente somente o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), mantém em operação, algumas centenas de células da versão UH-1N. Muitas aeronaves do modelo UH-1H ainda se encontram em operação ao redor do mundo, porém dificilmente deverão estar se manter em uso ainda nos primeiros anos da década de 2030
A introdução das aeronaves de asas rotativas na o pais remonta a março de 1952, quando foi celebrado o primeiro contrato com a Bell Helicopter Company, visando à aquisição de 04 unidades do modelo Bell 47D-1 (designadas H-13D). À época, tratava-se da versão mais moderna e tecnologicamente avançada do célebre helicóptero leve norte-americano, amplamente reconhecido por sua versatilidade e confiabilidade. A incorporação desses aparelhos marcou o início de uma nova era na aviação nacional, inserindo o Brasil no seleto grupo de países que, no pós-Segunda Guerra Mundial, começaram a empregar helicópteros de forma sistemática em missões militares. Embora constituíssem uma frota modesta em termos quantitativos, os Bell 47D-1 foram empregados em diversas funções, incluindo missões de ligação, transporte especial (VIP) e operações de busca e salvamento (SAR – Search and Rescue). Nesse último campo, as aeronaves brasileiras se destacavam por estarem equipadas com kits especiais de flutuação, permitindo sua atuação também em ambientes marítimos. Essa capacidade anfíbia representou um marco doutrinário, pois lançou as bases para o desenvolvimento posterior de uma doutrina integrada de busca e salvamento em múltiplos ambientes terrestre, marítimo e aéreo dentro da estrutura da Força Aérea Brasileira (FAB). A relevância dessas iniciativas estava diretamente relacionada aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Desde 1944, o país figurava entre os signatários da Convenção sobre Aviação Civil Internacional (Convenção de Chicago), cujos dispositivos determinavam que os Estados contratantes deveriam dispor de infraestruturas adequadas de busca e salvamento (SAR), capazes de garantir a segurança de voo em suas respectivas áreas de responsabilidade, tanto continentais quanto oceânicas. Com o objetivo de atender a essas obrigações, o Ministério da Aeronáutica (MAer) instituiu oficialmente, em 16 de novembro de 1950, o Serviço de Busca e Salvamento (SAR). Para dotar o novo serviço de meios adequados, foram incorporadas aeronaves de longo alcance e ampla autonomia, como os quadrimotores Boeing SB-17G e os anfíbios bimotores Consolidated PBY-5A Catalina, aeronaves que já gozavam de reputação consolidada em missões de patrulha marítima e salvamento aéreo-naval durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar do notável desempenho desses vetores, verificou-se ainda uma lacuna operacional: a ausência de aeronaves de as asas rotativas, capazes de prover resposta rápida e precisão em áreas restritas ou de difícil acesso, características indispensáveis ao sucesso das missões SAR. Essa necessidade resultou, em 1958, na incorporação de 04 helicópteros Sikorsky H-19D, que passaram a substituir progressivamente os limitados Bell 47D-1 nas missões de busca e salvamento. Paralelamente, em 6 de dezembro de 1957, foi ativada a primeira unidade aérea dedicada exclusivamente às operações busca e salvamento, o 2º/10º Grupo de Aviação – Esquadrão Pelicano. A introdução dos H-19D representou um salto qualitativo significativo, pois proporcionou maior capacidade de carga, alcance ampliado e condições superiores de operação em ambientes adversos.
Apesar de operar com maestria nos anos seguintes, o natural desgaste progressivo dos helicópteros Sikorsky H-19D, empregados intensivamente em missões de busca e salvamento (SAR – Search and Rescue), tornava urgente a obtenção de um novo vetor capaz de atender às demandas operacionais emergentes. Tornava-se necessário, em curto prazo, dispor de uma aeronave moderna, dotada de maior autonomia, potência e versatilidade, capaz de operar tanto em missões de salvamento quanto em apoio tático e transporte. Paralelamente, o Ministério da Aeronáutica (MAer) buscava estabelecer uma doutrina mais ampla para o emprego de helicópteros em suas diversas vertentes operacionais. As experiências acumuladas até então evidenciavam o valor estratégico das aeronaves de asas rotativas em funções de ligação, evacuação médica, transporte de pessoal e apoio às forças de superfície. Nesse contexto, tornou-se natural a busca por um modelo capaz de unificar, em uma única plataforma, múltiplas funções operacionais. Tal diretriz visava não apenas à otimização de custos e à padronização logística, mas também à consolidação do helicóptero como vetor essencial nas operações da Força Aérea Brasileira (FAB). Assim, em meados da década de 1960, a Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA) iniciou um processo de avaliação internacional com o objetivo de selecionar uma aeronave de médio porte equipada com motores turboeixo tecnologia de ponta à época , apta a cumprir missões de transporte, ligação, ataque e busca e salvamento. Diversos fabricantes apresentaram propostas, destacando-se a da Bell Helicopter Company com o modelo Bell UH-1D Iroquois. Após intensas tratativas diplomáticas e técnicas, o contrato foi formalizado em maio de 1965, prevendo a aquisição de seis aeronaves novas de fábrica, configuradas especificamente para missões de busca e salvamento (SAR) e evacuação aeromédica (MEDEVAC). Essas aeronaves foram designadas SH-1D e receberam as matrículas "FAB 8530 a FAB 8535", sendo destinadas ao 2º/10º Grupo de Aviação – Esquadrão Pelicano, unidade tradicionalmente responsável pelas operações de resgate. Diante dos resultados operacionais altamente satisfatórios obtidos com o novo vetor, o Ministério da Aeronáutica deliberou, em 1970, pela ampliação da frota, com a aquisição de oito novas células do mesmo modelo (FAB 8536 a FAB 8542), destinadas aos recém-ativados 4º e 5º Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA). Inicialmente, essas aeronaves foram empregadas em missões de transporte, ligação e reconhecimento, estabelecendo as bases da doutrina de emprego do “Huey” no Brasil. Contudo, o perfil tático do Bell UH-1D Iroquois passaria a se consolidar a partir de 1972, quando as equipagens iniciaram programas específicos de adestramento voltados ao seu emprego como plataforma armada, apta a cumprir missões de ataque e apoio aproximado. A versatilidade do modelo também se estendeu às operações de Combat Search and Rescue (C-SAR), evidenciando sua elevada capacidade de adaptação e consolidando o “Huey” como um dos helicópteros mais emblemáticos da história da aviação militar brasileira.

As experiências acumuladas pela Força Aérea Brasileira (FAB) ao longo da década de 1970 confirmaram o valor estratégico das aeronaves de asas rotativas, particularmente em missões de caráter tático e de apoio às forças terrestres. O desempenho notável dos helicópteros Bell UH-1D Iroquois (equipados com metralhadoras M-60 de calibre 7,62 mm, instaladas tanto em montagens laterais quanto frontais, além de lançadores de foguetes não guiados de 2,75 polegadas) em operações de contra-insurgência (Counter-Insurgency – COIN), como as conduzidas contra forças armadas militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) durante o que seria denominado como "Guerrilha do Araguaia" na região centro-oeste , evidenciou de forma inequívoca a importância desse vetor para o êxito das ações de mobilidade e apoio aéreo em ambientes hostis. A eficácia demonstrada nessas operações levou o Comando da Aeronáutica a promover uma nova ampliação da frota de helicópteros utilitários, com o objetivo de consolidar a capacidade operacional em missões de transporte, ligação, evacuação aeromédica e ataque leve. Nesse contexto, no início de 1973, foi concretizada a aquisição de vinte e quatro células usadas do modelo Bell UH-1H Iroquois, provenientes dos estoques da aviação do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), no âmbito de programas norte-americanos de assistência militar vigente à época. Embora se tratassem de aeronaves de segunda mão, as unidades adquiridas encontravam-se em excelente estado de conservação, tendo sido submetidas a criteriosos processos de revisão antes de sua entrega. A distribuição dessas aeronaves contemplou quatro unidades recém estruturadas denominadas como Esquadrões Esquadrão Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA), sendo em designados como: 1º EMRA – Esquadrão Falcão, o 2º EMRA – Esquadrão Poti, o 3º EMRA – Esquadrão Polivalente e por fim o 4º EMRA – Esquadrão Dragão. Essa expansão representou um passo decisivo na consolidação da doutrina de emprego de asas rotativas permitindo maior capilaridade operacional e especialização regional. Em 1976, a Força Aérea Brasileira (FAB) incorporou 02 células adicionais do mesmo modelo, também oriundas dos estoques norte-americanos, com a finalidade de recompor perdas operacionais e preservar os níveis de prontidão das unidades. As características técnicas do Bell UH-1H Iroquois entre elas o motor Lycoming T53-L-13, o rotor principal de duas pás e a estrutura reforçada proporcionavam um expressivo incremento de potência e autonomia em relação às versões anteriores, assegurando maior confiabilidade em missões de longo alcance e em ambientes operacionais complexos, como a Amazônia Legal e o litoral brasileiro. No início de 1979, buscando a uniformização logística e a melhoria da performance global da frota, o Ministério da Aeronáutica (MAer) decidiu modernizar as células remanescentes dos modelos Bell SH-1D e UH-1D Iroquois, elevando-as ao padrão UH-1H Iroquois. Essa medida possuía um duplo propósito: estender a vida útil das aeronaves e racionalizar o sistema de manutenção, eliminando a necessidade de operar e sustentar diferentes configurações de motores e sistemas.
Um ano mais tarde, a reestruturação doutrinária da aviação de asas rotativas seria formalmente consolidada. Por meio da Portaria Ministerial nº 239/GM3, de 9 de setembro de 1980, foram desativados os Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA), dando lugar a novas unidades alinhadas às diretrizes operacionais contemporâneas. Assim, foram criados o 1º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão Falcão, o 2º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão Poti, e o 5º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão Pantera. O 3º EMRA foi desmembrado, originando duas novas formações: o 1º/13º Grupo de Aviação, que passou a atuar como Esquadrilha de Ligação e Observação (ELO), e o 3º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão Puma, estabelecido na Base Aérea dos Afonsos (BAAF), onde iniciaria suas operações com helicópteros até a chegada dos Aérospatiale CH-33 Puma, em 1981. Paralelamente, o 1º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão Falcão foi transferido para Manaus (AM), com a missão de operar na região amazônica, área estratégica para a soberania nacional e de enorme desafio operacional devido à vastidão territorial e às condições ambientais adversas. Nessa região, os Bell UH-1H permaneceram em serviço até 1987, desempenhando papel fundamental em missões de transporte, reconhecimento e apoio humanitário. Ainda em 1980, buscando repor perdas e ampliar a frota, realizou-se uma nova aquisição de oito células adicionais, desta vez provenientes dos estoques da Força Aérea de Israel (Heyl Ha’Avir). Dentre essas, cinco aeronaves haviam sido originalmente fabricadas como UH-1D e posteriormente modernizadas, enquanto as demais eram de origem italiana. As aeronaves possuíam tubos de pitot instalados no nariz, porém os modelos de fabricação italiana, produzidos sob licença, diferiam dos demais por apresentarem o rotor de cauda montado no lado esquerdo. Essa diferença exigiu a inversão da caixa de transmissão de 90°, de modo a padronizar a frota e garantir compatibilidade logística e operacional entre as unidades do modelo. As aeronaves provenientes de Israel, por sua vez, haviam sido empregadas anteriormente em situações reais de combate no contexto, e em razão desse histórico, diversas células apresentavam danos estruturais decorrentes de impactos de projéteis e estilhaços, demandando uma rigorosa inspeção técnica e reparos minuciosos antes de sua incorporação ao serviço ativo. Os trabalhos de restauração e padronização foram conduzidos com elevado grau de competência pelo Parque de Material Aeronáutico dos Afonsos (PAMAAF). Ao longo da década de 1990, passou-se a considerar seriamente a substituição gradual da frota de helicópteros Bell UH-1H. A idade avançada das células e o uso intensivo ao longo de três décadas de operação, haviam levado a um desgaste significativo. O resultado foi o aumento do número de acidentes e a redução acentuada da disponibilidade operacional. Como solução definitiva, o comando via com entusiasmo a aquisição do moderno Sikorsky UH-60 Black Hawk, todavia, os custos elevados do programa de substituição na ordem de 20 a 30 células mostraram-se incompatíveis com as limitações orçamentárias da época.
Diante dessa realidade, o Comando da Aeronáutica (COMAER) optou por uma solução intermediária e economicamente viável, realizando a aquisição de vinte aeronaves usadas Bell UH-1H provenientes de unidades do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) estacionadas na Alemanha Ocidental. As negociações foram conduzidas dentro nos termos do programa de Vendas Militares ao Exterior (Foreign Military Sales – FMS), o que assegurou condições financeiras favoráveis, além de suporte logístico e treinamento. A partir da introdução dessas aeronaves, foi iniciada a implantação da doutrina de emprego do sistema Night Vision Goggles (NVG) com óculos de visão noturna, tecnologia que ampliou substancialmente a capacidade de operação em cenários de baixa luminosidade, reforçando a versatilidade e o alcance tático das unidades aéreas. O 5º/8º Grupo de Aviação – Esquadrão Pantera, sediado na Base Aérea de Santa Maria (RS), foi designado como unidade-padrão para a introdução e disseminação do uso operacional dos NVGs na aviação de asas rotativas. Posteriormente a este processo, estas células seriam distribuídas também ao 2º/10º Grupo de Aviação - Esquadrão Pelicano e ao 7º/8º Grupo de Aviação - Esquadrão Harpia. Além de serem empregados em missões transporte de tropas e busca e salvamento (SAR) os Bell UH-1H seriam empregados em inúmeras missões de apoio a população em catástrofes naturais em missões de saúde como campanhas de vacinação de populações indígenas e ribeirinhas e tarefas de apoio ao levantamento cartográfico de regiões inóspitas do país. Em 2006 a aeronave teria sua designação alterada para H-1H, e durante muitos anos este modelo de aeronave representaria o esteio da aviação de asas rotativas da Força Aérea Brasileira (FAB), operando desde a quente e úmida floresta amazônica, até os frios e secos pampas gaúchos. O total de aeronaves empregadas na versão UH-1H (considerando as modernizações) atingiram a cifra de 62 aeronaves (seis UH-1D não chegariam a ser modernizados), e apesar do alto nível de profissionalismo desenvolvido na manutenção das células e seus motores pelos Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PAMAAF) e Parque de Aeronáutica de São Paulo (PAMASP), o modelo já estava próxima ao seu limiar de obsolescência operacional. Neste contexto as análises do Ministério Defesa, apontariam para a substituição derivando por dois modelos distintos de aeronaves, sendo eleitos os Sikorsky UH-60 Blackhawk e os Eurocopter EC725 Caracal. Um gradual processo de substituição e desativação teria início no ano de 2010, com as últimas células (todas pertencentes ao lote incorporado em 1997) sendo concentradas no 2º/10º GAv Esquadrão Pelicano. Durante este processo, quatro aeronaves seriam doadas a Força Aérea Boliviana (FAB) e duas para a Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. Em 22 de outubro de 2018, após cinquenta e um anos de operação, durante uma cerimônia realizada na Base Aérea de Campo Grande – MS, seria finalmente realizado o corte de motor final, encerrando assim a gloriosa carreira do famoso “Sapão” na Força Aérea Brasileira (FAB).
Em Escala.
Para representarmos o Bell UH-1H "FAB 8691" optamos pelo modelo produzido pela Italeri na escala 1/48 que representa inicialmente a versão “Delta”. Como as diferenças externas quanto ao modelo se resumem na alteração do posicionamento do tubo de pitot, a conversão para a versão UH-1H é simples, bastando acrescer alguns itens em scratch (dispositivos corta fios, antenas, sistema de visão noturna - NVG). Para finalizar o conjunto da obra empregamos decais confeccionados pelo fabricante FCM Decais presentes no antigo set 48/10.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático de baixa visibilidade empregado pelas aeronaves de asas rotativas do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), esquema este que foi mantido pela Força Aérea Brasileira (FAB) até a gradativa desativação das células, as aeronaves pertencentes aos lotes originais que ostentavam o padrão americano “Southeast Asia” em dois tons de verde e marrom.
Bibliografia:
- Bell UH-1D/H Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Bell_UH-1_Iroquois
- 2º/10º GAV Esquadrão Pelicano 50 anos, por Mauro Lins de Barros e Oswaldo Claro Junior
- História da Força Aérea Brasileira por, Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916/ 2016 – Jackson Flores Jr




















