Duwk 353 GMC/Bisseli (CAMANF)

História e Desenvolvimento.
A General Motors Corporation, que viria a se consolidar como uma das maiores e mais influentes montadoras de veículos do mundo, foi fundada em 16 de setembro de 1908 por William C. Durant, um bem-sucedido empresário oriundo do setor de carruagens. A empresa teve sua origem na cidade de Flint, no estado de Michigan, como um empreendimento ainda modesto, voltado para atender a um mercado automotivo em rápida expansão. Desde seus primeiros anos, contudo, a companhia demonstrou notável dinamismo, crescendo de forma acelerada por meio da incorporação de fabricantes já consagrados, como a Buick Company e, posteriormente, a Oldsmobile Company, ambas amplamente reconhecidas pela confiabilidade de seus produtos no mercado norte-americano. Na sequência desse processo de expansão, a General Motors ampliou significativamente seu portfólio ao adquirir outras marcas de destaque. Entre elas sobressaía a Cadillac Motor Car Division, símbolo de luxo, inovação tecnológica e sofisticação, que passou a coexistir com a recém-criada Pontiac, concebida como uma marca de posicionamento premium dentro do grupo. Esse crescimento acelerado, entretanto, trouxe consigo desafios administrativos e financeiros, além de frequentes divergências entre William Durant e os demais acionistas, culminando em sua saída da companhia. Fiel ao seu espírito empreendedor, Durant não se afastou do setor automotivo. Em 1911, associou-se ao mecânico e piloto suíço Louis Chevrolet para fundar a Chevrolet Motor Company of Michigan, iniciativa que viria a desempenhar papel central na história da indústria automobilística norte-americana. No mesmo ano, a General Motors lançou a marca GMC (General Motors Truck Company), dedicada especificamente à produção e comercialização de caminhonetes e caminhões leves, atendendo à crescente demanda por veículos comerciais robustos e versáteis. Paralelamente às fusões e aquisições no mercado interno, a General Motors passou a vislumbrar oportunidades além das fronteiras dos Estados Unidos. Em maio de 1918, estabeleceu sua primeira operação comercial no Canadá, experiência que se mostrou bem-sucedida e serviu de estímulo para a abertura de filiais em diversos outros países. No ano seguinte, em 1919, a companhia incorporou a Frigidaire Company, tradicional fabricante de refrigeradores, marcando sua entrada em um setor não automotivo e evidenciando uma estratégia de diversificação e expansão global. A partir da década de 1920, a General Motors assumiu um papel cada vez mais relevante no setor militar, tornando-se fornecedora de grandes volumes de caminhões para as Forças Armadas dos Estados Unidos. Destacaram-se, nesse período, modelos dotados de tração integral, como os Chevrolet G-506 e G-621, nas configurações 4x4 e 6x2, que contribuíram significativamente para a mobilidade e a capacidade logística das tropas. Na década seguinte, os avanços tecnológicos no campo automotivo e as novas exigências operacionais levaram o Exército dos Estados Unidos a iniciar um amplo programa de modernização de suas forças motomecanizadas. Esse processo incluiu a aquisição em larga escala de uma nova família de caminhões com tração 6x6, concebidos para substituir ou complementar modelos então em serviço, como os Chevrolet G-506 e G-621, além de veículos similares produzidos pelas marcas Dodge e Ford, como a série G-540.

Em meados da década de 1930, o agravamento do cenário internacional, marcado pelas políticas expansionistas da Alemanha Nazista e do Império do Japão, elevou o nível de alerta entre as autoridades norte-americanas. Embora o Tratado de Versalhes, firmado em 1918, tivesse imposto severas restrições à capacidade militar alemã, tornava-se cada vez mais evidente que o país empreendia um amplo e sistemático processo de rearmamento, com especial ênfase na construção de uma força motomecanizada moderna e eficiente. Esse contexto reforçou, nos Estados Unidos, a percepção da necessidade de preparar sua indústria e suas forças armadas para um eventual conflito de grandes proporções. Esse esforço visava conferir às forças terrestres alemãs uma mobilidade excepcional, materializada no inovador conceito de "Guerra Relâmpago" (Blitzkrieg), que logo se tornaria conhecido mundialmente.  Diante dessas percepções geopolíticas, os comandantes militares dos Estados Unidos reconheceram a necessidade urgente de fortalecer suas forças armadas, sendo a motomecanização um dos pilares centrais dessa estratégia. Nesse contexto, em julho de 1939, foi lançada uma concorrência para o desenvolvimento de um novo caminhão com tração integral 6x6, que deveria atender a requisitos específicos, incluindo uma área de carga útil de 3,7 metros e capacidade de transporte de até 2.268 kg. Diversas montadoras, como Ford Motors, General Motors, Studebaker Corporation, Corbitt Automobile, REO Motors, Federal Motors, Biederman Motors e Kenworth Motors, apresentaram propostas, que foram minuciosamente avaliadas por uma equipe técnica do Corpo de Armas do Exército dos Estados Unidos (United States Army Ordnance Corps). Após a análise, apenas os projetos da Ford Motors e da General Motors foram considerados promissores, dado o histórico consolidado dessas empresas na produção de caminhões militarizados para as forças armadas norte-americanas. A concorrência foi concluída em janeiro de 1940, com a proposta da General Motors sendo declarada vencedora. O modelo apresentado baseava-se no GMC ACKWX 353 6x6, desenvolvido em 1939 para o Exército Francês (Armée de Terre). Diferentemente de seu antecessor, o novo modelo incorporava a cabine do caminhão comercial Chevrolet G-506 e apresentava extensas modificações e aprimoramentos na plataforma original, de modo a atender integralmente aos parâmetros estabelecidos na concorrência. No início da Segunda Guerra Mundial, as conquistas territoriais do Eixo destacaram a necessidade de operações anfíbias para a retomada de territórios. A logística de suporte às forças invasoras tornou-se essencial, demandando veículos capazes de operar em ambientes aquáticos e terrestres. O caminhão anfíbio foi projetado para ser lançado de navios de desembarque, transportando cargas e pessoal até as praias, eliminando a dependência de portos improvisados. Sua estrutura em forma de barco e tração 6x6 permitiam mobilidade em águas agitadas e terrenos acidentados. Iniciado em 1941, o projeto foi coordenado pelo Comitê de Pesquisa de Defesa Nacional e pelo Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico, com liderança dos engenheiros Roderick Stephens Jr., Dennis Puleston (Sparkman & Stephens, Inc.) e Frank W. Speir (MIT). O veículo foi baseado no chassi do caminhão General Motors AFKWX, um modelo cab-over-engine de 2,5 toneladas com tração 6x6. Um casco estanque e uma hélice foram adicionados para garantir funcionalidade anfíbia, mantendo a compatibilidade com peças de reposição de plataformas existentes. 
A concepção do caminhão anfíbio surgiu como resposta direta às exigências de agilidade e eficiência logística impostas pela guerra moderna, especialmente no contexto das operações anfíbias. A necessidade de reabastecer rapidamente as tropas nas linhas de frente e de ampliar a capacidade operacional das forças aliadas durante desembarques em praias expostas levou ao desenvolvimento de um veículo capaz de transitar com eficácia tanto em terra quanto na água. O projeto previa a instalação de um motor a gasolina GMC Model 269, de seis cilindros em linha e 5,4 litros de deslocamento (270 pol³), associado a uma transmissão de cinco velocidades com overdrive. Esse conjunto mecânico acionava uma primeira caixa de transferência responsável pela propulsão da hélice e, em seguida, uma segunda caixa de duas velocidades destinada à transmissão de força aos eixos. Tanto a hélice quanto o eixo dianteiro podiam ser acionados de forma seletiva pelo condutor, conferindo ao veículo notável versatilidade operacional em diferentes ambientes. O primeiro protótipo foi concluído no início do ano seguinte, recebendo a designação militar DUWK. A nomenclatura seguia a lógica adotada pelo Exército dos Estados Unidos: a letra “D” indicava o ano de projeto, 1942; “U” referia-se à categoria utilitária; “K” identificava o veículo sobre rodas; e “W” fazia alusão aos seus dois eixos de hélice. Após sua conclusão, o protótipo foi disponibilizado à Marinha dos Estados Unidos (US Navy) para integração em um programa de avaliações técnicas. Apesar dos resultados iniciais promissores, o conceito encontrou resistência por parte de oficiais do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), que inicialmente rejeitaram sua adoção. Essa oposição, contudo, seria rapidamente superada por um episódio decisivo. Durante uma forte tempestade, uma lancha de patrulha da Guarda Costeira dos Estados Unidos encalhou em um banco de areia nas proximidades de Provincetown, no estado de Massachusetts. Com ventos de até 60 nós (cerca de 110 km/h), chuva intensa e mar revolto, as embarcações convencionais foram incapazes de resgatar os sete tripulantes isolados. Um protótipo do novo caminhão anfíbio encontrava-se nas imediações e, desafiando condições extremas, conseguiu executar o resgate com êxito. O episódio teve forte repercussão entre as autoridades militares e foi suficiente para dissipar as resistências existentes quanto ao emprego do veículo. A partir desse momento, o programa do caminhão anfíbio GMC 353 DUKW recebeu autorização formal para prosseguir. O projeto definitivo de produção passou então a ser aprimorado pela equipe de engenharia da Yellow Truck & Coach, em Pontiac, Michigan. Entre os refinamentos introduzidos destacava-se a incorporação de um sistema de bomba de porão de alta capacidade, capaz de manter o veículo à tona mesmo no caso de o casco sofrer perfurações de até 2 polegadas (51 mm) de diâmetro. Outro avanço notável foi a adoção, de forma pioneira em um caminhão militar, de um sistema centralizado de controle da pressão dos pneus, operado remotamente pelo motorista. Esse recurso permitia a adaptação imediata do veículo a diferentes tipos de terreno, como areia fofa durante desembarques anfíbios, estradas de terra ou vias pavimentadas. Os primeiros contratos de fornecimento foram celebrados em caráter emergencial, com a produção sendo atribuída majoritariamente às instalações da General Motors Corporation. Essa decisão deveu-se ao fato de que, naquele momento, as linhas de montagem da Yellow Truck & Coach Corporation encontravam-se amplamente comprometidas com a produção dos caminhões GMC CCKW 352 e CCKW 353. 

As entregas iniciais foram priorizadas ao Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), visando sua futura utilização no teatro de operações do Pacífico, enquanto os lotes subsequentes passaram a equipar o Exército dos Estados Unidos (US Army), consolidando o DUKW como um dos mais emblemáticos veículos anfíbios da Segunda Guerra Mundial. Seu batismo de fogo ocorreria em de agosto de 1942, quando do inicio da Campanha de Guadalcanal.  Durante a invasão de 7 de agosto de 1942, os DUKWs ainda estavam em fase de teste e produção, com um número limitado disponível. No entanto, a partir de setembro de 1942, pequenos contingentes de DUKWs foram empregados para transportar suprimentos, como munições, alimentos e combustível, das praias para as posições aliadas, especialmente em torno do Campo Henderson. Sua capacidade de operar em águas rasas e praias rochosas foi crucial, dado que as condições do terreno dificultavam o uso de veículos convencionais. Os DUKWs foram usados para manter o fluxo de suprimentos em um ambiente onde os japoneses frequentemente bombardeavam as praias e os navios de apoio. Com capacidade de carga de até 2.268 kg (5.000 libras) ou 25 soldados equipados, o DUKW permitia o transporte rápido de recursos essenciais, como suprimentos médicos e peças de artilharia, diretamente dos navios para depósitos improvisados. Além do transporte de carga, os DUKWs ocasionalmente serviram como plataformas improvisadas para evacuação de feridos e até como suporte para operações de reconhecimento costeiro, aproveitando sua mobilidade anfíbia. Sua bomba de porão de alta capacidade, capaz de lidar com perfurações de até 51 mm no casco, garantiu operação contínua mesmo em condições adversas. Neste mesmo teatro de operações, os GMC Duwks seriam empregados em travessias de áreas de recifes de corais como Saipan e Guam, com seus pneus e cascos não sendo afetados por estas formações naturais.  Os caminhões anfíbios GMC DUKW, desempenharam um papel crucial durante a invasão da Sicília, codinome Operação Husky, realizada entre 9 de julho e 17 de agosto de 1943. Esta operação marcou a estreia do DUKW no teatro de operações europeu, sendo um dos primeiros usos em larga escala de veículos anfíbios em uma invasão aliada. Durante os primeiros três dias da invasão, os DUKWs foram amplamente utilizados para desembarcar tropas, veículos e suprimentos nas praias da Sicília, particularmente nas áreas de Gela, Licata e Scoglitti, onde o Sétimo Exército concentrou seus esforços. O sucesso dos DUKWs na Sicília foi tão significativo que o General Dwight D. Eisenhower, comandante supremo das forças aliadas, descreveu o veículo como "um dos equipamentos mais valiosos produzidos pelos Estados Unidos durante a guerra". O General George S. Patton também utilizou cerca de 1.000 DUKWs em uma missão de reabastecimento durante a campanha, destacando sua versatilidade. O comandante aliado General Harold Alexander afirmou que "o DUKW revolucionou o problema de manutenção nas praias", facilitando o suporte logístico às tropas em avanço. Além de seu uso logístico, os DUKWs foram empregados em diversas funções, como plataformas de artilharia e veículos de evacuação médica, demonstrando sua versatilidade. Sua capacidade de operar sob fogo inimigo e em condições adversas contribuiu para o rápido estabelecimento de cabeças de praia, permitindo que o Sétimo Exército avançasse para Palermo em 22 de julho, cortando as forças italianas na metade oeste da ilha.
No âmbito do programa de assistência militar Lend-Lease Act (Lei de Arrendamento e Empréstimo), foram fornecidos 2.000 caminhões anfíbios GMC DUKW ao Reino Unido e 535 à Austrália. Esses veículos foram amplamente utilizados durante a segunda onda de desembarques nas praias da Normandia, na Operação Overlord, em junho de 1944, e posteriormente na Operação Dragoon, no sul da França, em 15 de agosto do mesmo ano. Nessas operações, o DUKW demonstrou notável navegabilidade, cruzando o Canal da Mancha com eficiência. Posteriormente, participou de operações cruciais, incluindo a Batalha do Escalda, a Operação Veritable e a Operação Plunder. Nessas campanhas, as cabeças de ponte anfíbias eram extremamente vulneráveis a contra-ataques inimigos, e o risco de esgotamento de munições pelas unidades desembarcadas era iminente. Nesse contexto, o DUKW desempenhou um papel indispensável, transportando suprimentos dos navios para terra e realizando a evacuação médica de feridos das praias para navios-hospital. Próximo ao fim do conflito, os DUKWs foram utilizados pela 10ª Divisão de Montanha do Exército dos Estados Unidos na travessia do Lago de Garda, na Itália. Durante essa operação, um veículo afundou na travessia de Torbole sul Garda para Riva del Garda, na noite de 30 de abril de 1945. Até o final de 1945, as plantas industriais da Yellow Truck and Coach Co. (posteriormente GMC Truck and Coach Division após 1943), Pontiac West e Chevrolet Division da General Motors Corporation produziram um total de 21.147 unidades do DUKW. Após a Segunda Guerra Mundial, um número reduzido permaneceu em serviço nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Austrália, enquanto a maioria foi armazenada para descarte ou reciclagem de materiais. Em 1946, uma quantidade significativa foi transferida para a França, sendo empregada pelas Troupes de Marine em tarefas de transporte nos territórios ultramarinos franceses. Com o início da Guerra da Coreia (1950-1953), pelo menos 400 DUKWs foram reativados. O 1º Grupo de Treinamento de Substituição de Transporte foi responsável pelo treinamento das tripulações, e os veículos foram extensivamente utilizados para transporte de suprimentos durante a Batalha do Perímetro de Pusan e nos desembarques anfíbios em Incheon. O Reino Unido empregou seus DUKWs durante a Emergência Malaia (1948-1960) e, posteriormente, realocou alguns para Bornéu durante o Confronto Indonésia-Malásia (1962-1966). Na França, os DUKWs foram utilizados durante a Primeira Guerra da Indochina (1946-1954). Na década de 1970, alguns receberam novos cascos, permanecendo em serviço até sua aposentadoria final em 1982. Notavelmente, cinco DUKWs foram mantidos em condições operacionais pelo Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha Real Britânica (Royal Marines) até 2012.

Emprego na Marinha do Brasil
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com profunda apreensão a possibilidade de uma incursão do Eixo — Alemanha, Itália e Japão no continente americano. A capitulação da França, em junho de 1940, intensificou essas preocupações, pois a ocupação nazista de territórios estratégicos, como as Ilhas Canárias, Dacar e outras possessões coloniais francesas, oferecia aos alemães a oportunidade de estabelecer bases avançadas muito próximas às rotas do Atlântico Sul. Nesse novo cenário geopolítico, o Brasil assumiu papel central, tanto pela sua posição geográfica quanto pela extensão de sua costa. A proximidade do Nordeste brasileiro em relação ao continente africano transformava o território nacional no ponto mais vulnerável a uma possível ofensiva inimiga e, simultaneamente, em um dos locais mais estratégicos para o esforço de guerra dos Aliados. Além disso, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul provocaram um colapso na oferta tradicional de látex, tornando o Brasil o principal fornecedor de borracha natural para os Estados Unidos e demais potências aliadas. A borracha constituía matéria-prima indispensável à indústria bélica, empregada, entre outros usos, na fabricação de pneus, cabos elétricos, revestimentos e equipamentos essenciais ao esforço militar. A convergência desses fatores acelerou um movimento de aproximação política, militar e econômica entre Brasília e Washington. Essa cooperação bilateral materializou-se em uma série de acordos estratégicos, dos quais se destaca a adesão do Brasil ao programa de assistência militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Arrendamento e Empréstimo). O objetivo do programa era fortalecer militarmente as nações aliadas por meio do fornecimento de materiais modernos, treinamento e créditos de aquisição. Por intermédio do Lend-Lease Act, o Brasil recebeu uma linha de crédito inicial de US$ 100 milhões (cerca de US$ 2 bilhões em valores ajustados para 2025), destinada à compra de armamentos modernos, aeronaves de combate e transporte, veículos blindados, carros de combate e demais equipamentos essenciais para a elevação da capacidade operacional das Forças Armadas. Nesse contexto, a Marinha do Brasil foi contemplada com um expressivo conjunto de meios navais, sobretudo navios e equipamentos voltados para operações de guerra antissubmarino (ASW) — área considerada prioritária diante da intensificação das ações de submarinos alemães no Atlântico Sul. Todavia, essa ênfase nas operações ASW acabou por restringir o desenvolvimento de outras capacidades navais, especialmente aquelas relacionadas ao combate anfíbio, tema que havia ganhado destaque estratégico durante a guerra. Embora a ideia de estruturar uma força anfíbia fosse antiga nos círculos de planejamento da Marinha Brasileira, ela não havia recebido a devida prioridade em termos de meios, doutrina e equipamentos específicos. Com o término da guerra, em agosto de 1945, tornou-se evidente a importância e a eficácia das operações anfíbias — largamente demonstradas nos desembarques dos Aliados na Europa, no Norte da África e, principalmente, nas campanhas do Pacífico conduzidas pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC).

Inspirada pelo êxito dessas operações e amparada pela nova conjuntura internacional, a Marinha do Brasil iniciou, já em 1946, os primeiros esforços sistemáticos para constituir uma força de combate anfíbia propriamente dita, moldada nos princípios doutrinários e organizacionais do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC). As campanhas anfíbias observadas durante a guerra serviram como base para estudos detalhados e para a adaptação de uma doutrina nacional, que em curto prazo começaria a orientar a formação e consolidação de uma força terrestre especializada  a futura estrutura anfíbia brasileira, que então dava seus primeiros passos. A constituição de uma força anfíbia moldada nos padrões do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) representou um ponto de inflexão na história do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN). Para que essa ambição se concretizasse, seria necessário promover transformações profundas nos paradigmas organizacionais e doutrinários que, até então, orientavam a infantaria naval brasileira. Àquela época, a formação do CFN baseava-se majoritariamente em referenciais herdados do Exército Brasileiro, uma vez que muitos dos oficiais do Corpo realizavam seus cursos de aperfeiçoamento em estabelecimentos de ensino do próprio Exército. Embora esse intercâmbio proporcionasse sólida instrução militar geral, ele não contemplava, de forma específica, os preceitos fundamentais da guerra anfíbia, uma modalidade de combate altamente especializada que exige integração estreita entre forças navais e terrestres, técnicas de desembarque, logística peculiar e equipamentos dedicados. Além do desafio doutrinário, o CFN carecia de meios materiais adequados para desempenhar operações de desembarque. Faltavam-lhe tanto veículos anfíbios quanto, sobretudo, navios e embarcações de desembarque, sem os quais nenhuma ação anfíbia poderia ser executada de forma eficaz. A expressiva participação do Brasil no esforço de guerra aliado durante a Segunda Guerra Mundial aproximou profundamente a Marinha do Brasil da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), abrindo espaço para uma cooperação inédita. Graças a esse relacionamento fortalecido, foram instituídos os primeiros programas de intercâmbio, nos quais grupos de oficiais brasileiros foram enviados aos Estados Unidos para realizar cursos, estágios e instruções especializadas. Lá, esses militares tiveram contato direto com a doutrina, as práticas operacionais e a experiência de combate anfíbio acumulada pelo USMC nos mais diversos teatros de operações, especialmente no Pacífico. Ao retornarem ao país, esses oficiais assumiram papel central na difusão dos novos conhecimentos. Atuaram como instrutores e multiplicadores nas escolas de formação da Marinha do Brasil, contribuindo decisivamente para a criação de um ambiente institucional propício à modernização doutrinária. Contudo, a aplicação prática dessas inovações enfrentava limitações materiais concretas: na ausência de meios adequados, muitos exercícios de desembarque tinham de ser realizados de maneira improvisada, com emprego de recursos navais e terrestres limitados. Na década de 1950, a consolidação de uma doutrina e de uma estrutura anfíbias tornou-se prioridade estratégica no planejamento naval brasileiro. 
Os primeiros avanços se materializaram com a promulgação de uma nova regulamentação para o Corpo de Fuzileiros Navais, que representou uma ruptura significativa com os paradigmas anteriores.  Esse marco normativo estabeleceu uma organização moderna, orientada para o desenvolvimento progressivo da capacidade anfíbia. Entre suas disposições estava a criação da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), formulada como núcleo estruturante da futura força anfíbia brasileira embora sua ativação plena estivesse projetada para etapas posteriores. A partir da segunda metade da década, os progressos tornaram-se mais tangíveis. A Marinha do Brasil recebeu seus primeiros navios especialmente destinados ao transporte de tropas, veículos e materiais, fortalecendo sua capacidade expedicionária. Entre os principais meios incorporados estavam os transportes G-20 Custódio de Mello, G-16 Barroso Pereira, G-21 Ary Parreiras e G-22 Soares Dutra, complementados por embarcações de desembarque de pessoal, material e viaturas (EDVP e EDVM). Esses recursos inauguraram uma nova era para a Marinha do Brasil e para o CFN, estabelecendo a infraestrutura essencial para a realização de operações anfíbias em larga escala e pavimentando o caminho para a consolidação de uma doutrina anfíbia genuinamente brasileira. Nesse período, iniciaram-se os primeiros investimentos destinados à construção efetiva de uma capacidade anfíbia no âmbito da Marinha do Brasil. Foram então incorporados os primeiros veículos concebidos para apoiar operações de desembarque, entre eles os jipes M-38A1, M-38A1C, os Willys CJ-5 de fabricação nacional (militarizados para o serviço), bem como os utilitários leves Dodge M-37. Essas viaturas, robustas e de fácil manutenção, passaram a operar a partir das recém-adquiridas Embarcações de Desembarque de Viaturas e Material (EDVM), possibilitando os primeiros ciclos de adestramento com foco em desembarques de baixa complexidade envolvendo tropas, veículos leves, peças de artilharia e cargas gerais. Entre as atividades de instrução realizadas nesse período, destacam-se a Operação Brisa, em outubro de 1959, e a Operação Corvina, em novembro do mesmo ano. Esta última marcou um momento simbólico e operacionalmente relevante: a ativação, pela primeira vez, do Destacamento de Praia, componente essencial em qualquer operação anfíbia moderna. Em setembro de 1960, a Operação Arfagem representou mais um avanço significativo no amadurecimento da doutrina e das práticas de desembarque. Paralelamente, unidades da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE) passaram a participar de exercícios e manobras interaliadas, que ampliaram o repertório técnico e tático de oficiais e praças, colocando-os em contato direto com a doutrina anfíbia contemporânea e consolidando uma cultura operacional marcada pela interoperabilidade e pelo profissionalismo. Esse conjunto de esforços preparatórios elevou substancialmente a capacidade de projeção anfíbia do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), criando as condições para a execução de operações de maior envergadura.  Assim, no início de 1964, foi conduzida no litoral do Espírito Santo a primeira edição da série Operações Dragão, marco histórico da evolução anfíbia brasileira. O exercício envolveu o lançamento de uma tropa percussora helitransportada a partir do porta-aviões ligeiro A-11 Minas Gerais, seguida pela projeção terrestre  em um intervalo de apenas dez horas  de 800 militares, 20 viaturas leves M-38A1 e M-37, e quatro obuseiros M-3A3 de 105 mm, empregando-se tanto o transporte por superfície como o movimento navio-terra direto sobre a cabeça de praia. 

A execução dessa operação revelou de forma inequívoca a necessidade de dotar o CFN de veículos anfíbios sobre esteiras, capazes não apenas de desembarcar diretamente sobre praias não preparadas, mas também de transportar tropas e cargas da zona de desembarque até as linhas avançadas de combate. À época, destacavam-se internacionalmente modelos como o norte-americano LVTP-5 (veículo de desembarque de pessoal) e o blindado FMC M-113, que embora possuísse mobilidade anfíbia limitada, era amplamente empregado como transporte de tropas. No entanto, tais equipamentos estavam muito acima das possibilidades orçamentárias da Marinha do Brasil, especialmente em um contexto nacional marcado por restrições financeiras e prioridades concorrentes. Diante disso, ao final da década de 1960, passaram a ser avaliadas alternativas de compras de oportunidade, buscando material bélico eficiente, disponível e economicamente viável. Foi nesse contexto que ganhou força a possibilidade de adquirir os caminhões anfíbios GMC 353 DUKW, fabricados originalmente na década de 1940. Embora veteranos da Segunda Guerra Mundial, esses veículos ainda existiam em grande quantidade no mercado internacional, apresentavam manutenção relativamente simples e encontravam-se, em muitos casos, em bom estado de conservação características que os tornavam particularmente adequados às necessidades e às condições orçamentárias brasileiras. Dentre as opções existentes, chamaria a atenção a uma proposta apresentada em 1972, pelo governo francês, para o fornecimento de um lote de caminhões anfíbios deste modelo. A Marinha Nacional Francesa (Marine Nationale) após o término da Segunda Guerra Mundial ser tornara o segundo maior operador dos caminhões GMC Duwk, dispondo ainda neste período de uma grande quantidade destes veículos em sua frota. As as tratativas comerciais serem finalizadas, uma comitiva de oficiais brasileiros seria enviada a base naval de Angoulême, sede do 1º Regimento de Infantaria de Fuzileiros Navais (1º RIMa), para proceder a escolha de trinta e quatro caminhões deste modelo, tomando como critério o estado de conservação. Neste meio tempo seria negociado junto a empresa brasileira Novatração Artefatos de Borracha Ltda, um contrato para revitalização e revisão destes veículos, com esta empresa passando a alugar instalações de manutenção no porto de Antuérpia localizado em Flandres na Bélgica. Este processo seria conduzido com pleno êxito, com os trinta e quatro caminhões sendo então despachados por via naval ao Brasil e dezembro do ano de 1973.  Após seu recebimento e incorporação junto a frota do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, os caminhões GMC Dukw, receberiam a designação de Caminhão Anfíbio - CAMANF.  Após a realização do treinamento de seus condutores e equipes de manutenção estes veículos seriam destacados para operação do  Batalhão de Blindados do Corpo de Fuzileiros Navais, sediado no Rio de Janeiro. Com a adoção deste caminhão, seria possível enfim implementar completamente a doutrina de desembarque anfíbio, empregando os GMC Duwk realizando o reabastecimento rápido de suprimentos e munição para as tropas nas cabeças de ponte.  Sua excelente capacidade de transporte de carga (incluindo até um jipe leve) ou de até cinquenta e nove soldados totalmente equipados, seriam de extrema importância na consolidação da doutrina de operações de transporte e desembarque de tropas das forças anfíbias.
Ao longo dos anos seguintes os GMC Duwk participariam ativamente de exercícios operacionais de grande escala, como as operações Dragão.  Apesar desta boa performance operacional, estes veículos haviam sido produzidos há mais de trinta anos e já apresentavam o peso da idade, com este fator agravado por problemas no fluxo de peças de reposição do motor a gasolina GMC 270. Esta combinação de fatores passaria a gerar altos índices de indisponibilidade da pequena frota existente. Inicialmente no ano de 1975, pensou-se em aplicar um processo de revitalização e remotorização da frota existente (a exemplo do que foi realizado pelo Exército Brasileiros com com os caminhões GMC CCKW e Studebaker).  Porém posteriormente aferiu-se que o estado de conservação da grande maioria dos GMC Duwk era precário, levantando-se assim dúvidas sobre a viabilidade econômica de um tal programa.  Nesse contexto, surgiu a iniciativa de desenvolver um veículo anfíbio nacional, inspirado em esforços semelhantes realizados na União Soviética durante a década de 1950. Para atender a essa demanda estratégica, o Ministério da Marinha passou a consultar empresas nacionais. A companhia paulista Biselli Viaturas e Equipamentos Ltda. respondeu a esse programa, celebrando um contrato para o desenvolvimento de uma nova viatura anfíbia. O acordo previa a produção de 25 caminhões anfíbios e a reforma de quatro GMC DUKWs em melhores condições de conservação. O chassi selecionado foi o do caminhão nacional Ford F-7000 6x6, que passou por modificações e reforços estruturais. A carroceria, inspirada no design do GMC DUKW, era composta inteiramente de aço laminado a frio, com uma proa reforçada, tração nas seis rodas e pneus PPB à prova de balas, modelo 900x20 de rodagem simples. O veículo incorporava um sistema de inflação e desinflação dos pneus, adaptável a diferentes terrenos, que armazenava ar em um reservatório de alta pressão e o distribuía por tubos de cobre às laterais do veículo, onde mangueiras com conectores para enchimento dos pneus eram fixadas em suportes próximos à tomada de ar. O modelo era equipado com um motor nacional Detroit Diesel 4-53N de 145 cv, acoplado a uma transmissão manual Clark Equipment. Um eixo de transmissão adicional conectava a transmissão à caixa de transferência da hélice, atravessando o veículo até a hélice posicionada na traseira, em configuração semelhante à do DUKW original. Esse conjunto mecânico e o casco foram projetados para atingir uma velocidade máxima de 72 km/h em terra e 14 km/h na água, com autonomia de 480 km em terra ou 18 horas em água. O veículo possuía um peso de 13.500 kg e capacidade de carga de 5 toneladas em terra ou águas calmas, reduzida a 2,5 toneladas em águas agitadas. Para autodefesa, podia ser equipado com uma metralhadora Browning M-2HB calibre .50 (12,7 mm). Embora os protótipos tenham apresentado resultados promissores durante os testes, o modelo, conhecido como Biselli CAMANF (Caminhão Anfíbio), não foi produzido em larga escala. Apenas cinco unidades foram concluídas, que, ainda assim, prestaram serviços relevantes ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) da Marinha do Brasil. A decisão de não prosseguir com a produção em massa foi motivada pela priorização de recursos para a aquisição de veículos anfíbios mais modernos e com maior proteção blindada, como o Engesa EE-11 Urutu e os M-113A1 ACAV, cujo recebimento teve início em 1976. Os últimos Biselli CAMANFs foram retirados do serviço ativo no final de 1988, com uma unidade preservada no Quartel do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio de Janeiro, como parte do acervo histórico.

Em Escala.
Para representarmos o GMC Duwk 353 - CAMANF  "CFN 2343319",  pertencente ao Batalhão de Blindados do Corpo de Fuzileiros Navais, utilizamos a nova edição do kit da Italeri na escala 1/35, sendo este modelo de ótima qualidade e nível de detalhamento. Para completarmos o conjunto fizemos uso de itens de carga em resina produzidos pela Eletric Products. Empregamos decais confeccionados pela Decals e Books, pertencentes ao set "Forças Armadas do Brasil".


O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão empregando em todos as unidades dos modelos GMC Duwk 353 e Bisseli  - CAMANF operadas pelo Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, desde o seu recebimento até sua desativação em fins da década de 1980. Como principal diferença visual entre os modelos, o modelo nacional apresentava a logomarca da Biselli em alto relevo aplicada na parte frontal do casco.  
Bibliografia :
- CAMANF – Um americano naturalizado brasileiro - http://nivelandoaengenharia.com.br/
- DUWK Caminhão Anfíbio do CFN - Expedito Carlos S. Bastos - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/DUKW.pdf

Jeep Ford G.P.A Anfibio (VTrOp)

História e Desenvolvimento.
No final da década de 1920, o comando do Exército dos Estados Unidos (US Army) intensificou esforços para transformar sua estrutura operacional, buscando acelerar a transição de uma força terrestre predominantemente hipomóvel, dependente de tração animal, para uma força mecanizada, capaz de atender às demandas de um cenário bélico moderno. Esse processo foi impulsionado pelos avanços tecnológicos da pujante indústria automotiva norte-americana, que oferecia soluções inovadoras para mobilidade e logística militar. O programa de mecanização abrangia o desenvolvimento de uma ampla gama de veículos, incluindo caminhões de carga, transportes de pessoal e, de forma prioritária, um veículo utilitário leve com tração integral 4x4. Este veículo deveria operar em ambientes fora de estrada, superar obstáculos com facilidade e transportar até quatro soldados totalmente equipados, garantindo agilidade e versatilidade em operações táticas. As iniciativas para conceber esse novo utilitário envolveram colaboração estreita entre militares e a indústria automotiva, mas enfrentaram desafios técnicos e orçamentários. O conceito definitivo começou a tomar forma no início de 1932, sob a liderança do Coronel Robert G. Howie, comandante da 7ª Companhia de Tanques, sediada em Fort Snelling, Minnesota. Como defensor fervoroso da motomecanização total da Força Terrestre, Howie possuía uma visão clara das necessidades operacionais em um novo espectro de combate. Sua experiência prática e compreensão estratégica foram fundamentais para o avanço do projeto. Sob sua supervisão, o primeiro protótipo funcional foi construído nas oficinas do Fort Sam Houston, no Texas. Submetido a rigorosos testes de campo, o veículo demonstrou resultados promissores, comprovando sua capacidade de operar em terrenos difíceis e atender às exigências táticas. Esses testes reforçaram a confiança do comando do Exército na viabilidade do conceito, levando à decisão de alocar recursos para a produção de um lote pré-série de setenta veículos. Contudo, restrições orçamentárias impostas pela Grande Depressão adiaram essa fase, interrompendo temporariamente o progresso do programa. O projeto foi retomado no final de 1936, quando o cenário econômico começou a se estabilizar e o Exército priorizou novamente a modernização. Após uma concorrência aberta, a Bantam Car Company, sediada na Pensilvânia, foi selecionada para desenvolver e produzir o lote pré-série. Conhecida por sua agilidade na fabricação de veículos leves, a Bantam entregou os primeiros utilitários a partir de meados de 1938, destinando-os ao Quartel-General do Departamento do Exército, localizado no Fort Holabird, em Baltimore, Maryland. Com uma frota inicial à disposição, o Exército ampliou a abrangência de seu programa de testes, avaliando o desempenho dos veículos em diversos terrenos e condições operacionais. Esse processo foi crucial não apenas para validar o projeto, mas também para iniciar a formatação de uma doutrina de emprego operacional para utilitários leves 4x4. Esses testes estabeleceram as bases para o desenvolvimento do que viria a ser o Jeep, um ícone militar que revolucionaria a mobilidade tática na Segunda Guerra Mundial.

No âmbito de um abrangente programa de testes de campo conduzido no final da década de 1930, o Exército dos Estados Unidos (US Army) verificou que o novo veículo utilitário leve com tração integral 4x4 apresentava um potencial excepcional para ampliar a mobilidade da Força Terrestre. Capaz de operar com eficácia em uma ampla gama de ambientes fora de estrada (off-road), o veículo demonstrou versatilidade em diversas tarefas, superando obstáculos naturais e garantindo o transporte eficiente de até quatro soldados totalmente equipados. Esses resultados consolidaram a convicção do comando do Exército de que o utilitário representava um avanço estratégico crucial para a mecanização das forças armadas, levando à decisão de adotá-lo em larga escala. Com base nos testes bem-sucedidos,  lançou-se, em 1940, uma concorrência formal para a produção em série do veículo utilitário leve 4x4. O processo foi estruturado com rigor, envolvendo a emissão de convites a mais de cem empresas da indústria automotiva norte-americana. As participantes deveriam apresentar propostas técnicas e comerciais detalhadas, acompanhadas de protótipos funcionais que atendessem às especificações. A concorrência visava assegurar que o veículo final combinasse robustez, confiabilidade e capacidade de manufatura em larga escala, alinhando-se às necessidades operacionais . O aumento das tensões geopolíticas na Europa e no Pacífico Sul, impulsionado pela ascensão da Alemanha Nazista e do Império do Japão, alterou drasticamente o contexto da concorrência. A iminência de um conflito global tornou evidente a necessidade urgente de reequipar as forças armadas norte-americanas para enfrentar potenciais ameaças. Em resposta o comando do Exército revisou o cronograma original, estabelecendo um prazo excepcionalmente curto de 49 dias para a apresentação de protótipos funcionais. Essa exigência refletia a pressão para acelerar o processo, mas também impôs desafios significativos às empresas concorrentes. Das mais de cem empresas convidadas, apenas três aceitaram o desafio de desenvolver um protótipo dentro do prazo estipulado: a Ford Motor Company, a American Bantam Car Company e a Willys-Overland Company. A American Bantam, uma pequena montadora da Pensilvânia com experiência em veículos leves, foi a única a cumprir o prazo, entregando um protótipo funcional em setembro de 1940. Denominado Bantam Reconnaissance Car (BRC), o veículo foi submetido a testes comparativos rigorosos, demonstrando desempenho excepcional em mobilidade, resistência e adequação às especificações militares. Embora o protótipo da Bantam tivesse obtido êxito nos testes, o comando do Exército, ciente da necessidade emergencial de produção em grande escala, optou por aprovar também as propostas da Ford e da Willys-Overland. Essa decisão foi motivada pela capacidade industrial limitada da Bantam, que não poderia atender sozinha à demanda militar em tempo hábil. Os testes comparativos entre os protótipos resultaram em melhorias significativas no projeto original, incorporando sugestões das três montadoras. O modelo pré-série, designado como Bantam BRC, apresentou um design traseiro que remetia estilisticamente aos padrões automotivos da década de 1930, mas com características técnicas otimizadas para operações militares, incluindo tração 4x4, suspensão robusta e capacidade de carga de ¼ de tonelada.
Apesar da aprovação inicial dos protótipos apresentados pela American Bantam Car Company, Ford Motor Company e Willys-Overland Company, persistiam incertezas quanto aos projetos da Ford e da Willys. Para esclarecer essas questões, o Exército dos Estados Unidos (US Army) organizou uma nova fase de testes de campo, realizada entre 27 de setembro e 16 de outubro de 1940, nos campos de prova do Quartel-General do Departamento do Exército. Durante esses testes, o modelo Bantam BRC destacou-se novamente, impressionando engenheiros e militares, este desempenho levou o Exército a reconsiderar a ideia inicial de produzir três modelos distintos, favorecendo, em princípio, o projeto da Bantam. Em 31 de março de 1941, seria firmado um contrato com a American Bantam Car Company para a produção de 1.500 veículos BRC 40. Contudo, era evidente que a Bantam não possuía a capacidade industrial nem a estabilidade financeira necessárias para atender, em larga escala, aos contratos subsequentes exigidos pelo cronograma. Para superar as limitações da Bantam e garantir a produção em massa do veículo utilitário, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos (The War Department) tomou uma decisão controversa: ceder o projeto e as plantas originais do BRC 40 às montadoras Ford Motor Company e Willys-Overland Company. Essa medida permitiu que ambas as empresas desenvolvessem suas próprias versões do veículo, incorporando melhorias baseadas no protótipo da Bantam. Em agosto de 1941, o Exército assinou um novo contrato com a Willys-Overland Company para a produção de 16.000 veículos, designados pela montadora como MA Quad (posteriormente evoluindo para o modelo MB). A Willys foi escolhida por sua capacidade de produção e pelo aprimoramento do projeto, que incluía o motor Willys Go-Devil, mais potente e confiável. Nos meses seguintes, novos contratos foram firmados, mas a Ford Motor Company emergiu como a principal fornecedora, recebendo, até o final de 1945, as maiores encomendas de produção. O modelo fabricado pela Ford foi oficialmente designado como Ford GPW (General Purpose Willys, ou veículo de uso geral), compartilhando componentes e design com o Willys MB, mas produzido em escala massiva nas fábricas da Ford. No Exército dos Estados Unidos, os primeiros condutores do veículo começaram a referi-lo popularmente pelo acrônimo "GP", derivado de General Purpose (propósito geral), que, na pronúncia em inglês, soava como "Jeep". Essa denominação ganhou força entre os soldados, tornando-se sinônimo de agilidade e versatilidade. Curiosamente, a palavra "jeep" também era associada a Eugene the Jeep, um personagem fictício das tiras de quadrinhos do marinheiro Popeye, criado na década de 1930. Eugene, o animal de estimação de Olivia Palito, era conhecido por sua força extraordinária e habilidades mágicas, como caminhar por paredes e tetos. Conforme as montadoras aceleravam o processo de fabricação, mais e mais unidades militares norte-americanas passavam a integrar o modelo em suas frotas. Neste mesmo período, a “Comissão de Defesa Nacional de Defesa e Pesquisa” do Exército dos Estados Unidos (US Army), começaria a analisar as possibilidades de múltiplo emprego da plataforma original que se encontrava em produção em massa. 

O sucesso do Jeep Willys MB e Ford GPW, utilitários leves 4x4 que revolucionaram a mobilidade terrestre, inspirou o desenvolvimento de uma versão anfíbia que combinasse a agilidade do Jeep com a capacidade de navegar em águas abertas. O objetivo era criar um veículo leve, designado como QMC-4 1/4 Ton Truck Light Amphibian, para transportar soldados e suprimentos de navios em alto-mar até a costa, atravessar praias e operar em terra firme, apoiando operações como as planejadas para a invasão da Europa e do Pacífico. O projeto foi influenciado pelo êxito do DUKW, um caminhão anfíbio de 2½ toneladas projetado por Roderick Stephens Jr., da Sparkman & Stephens, que demonstrou eficácia em desembarques. O Jeep GPA buscava replicar essa funcionalidade em uma escala menor, com peso alvo de 1.200 kg, mantendo a versatilidade e a compatibilidade com componentes do Jeep padrão.  Em março de 1941, o U.S. Motor Transport Board, em colaboração com o National Defense Research Committee (NDRC), lançou o programa para desenvolver o veículo anfíbio leve. Roderick Stephens Jr. foi contratado para projetar o casco, que se assemelhava a uma versão miniaturizada do DUKW, incorporando uma hélice traseira acionada por tomada de força, um leme para direção na água e um casco estanque em forma de "banheira". O desenvolvimento foi conduzido em uma competição entre duas empresas: a Ford Motor Company e a Marmon-Herrington, especializada em veículos com tração nas quatro rodas. Marmon-Herrington: Apresentou um protótipo com casco monobloco, construído por soldagem de chapas de aço, semelhante a um veículo blindado, o que resultava em maior peso. Ford Motor Company: Optou por um chassi robusto com estrutura interna, ao qual foram soldadas chapas de aço automotivo padrão, reduzindo o peso em cerca de 180 kg em comparação com o concorrente. A Ford priorizou a reutilização de componentes do Jeep Ford GPW, incluindo motor, transmissão, eixos e suspensão, para minimizar custos e facilitar a produção em massa. Os protótipos foram submetidos a testes iniciais em 1942, focando em desempenho anfíbio, mobilidade terrestre e compatibilidade logística. O design da Ford, mais leve e alinhado com a infraestrutura de produção existente, foi selecionado para avançar, recebendo a designação Ford GPA (Government, 80-inch wheelbase, Amphibious). O Ford GPA, identificado pelo número de catálogo G504, foi projetado para integrar a mobilidade do Jeep com funcionalidades anfíbias. Suas especificações incluíam Chassi e Casco: Baseado no chassi do Jeep GPW, com um casco estanque de aço soldado, em formato de "banheira", para flutuação. O peso final foi de aproximadamente 1.600 kg, excedendo os 1.200 kg especificados, devido aos sistemas anfíbios. Motor: Willys L-head, 4 cilindros, 134 polegadas cúbicas, produzindo cerca de 60 hp, com carburador adaptado para operação em ambientes úmidos. Transmissão: Manual de 3 velocidades, com caixa de transferência de 2 velocidades, permitindo tração 4x4 em terra. Sistemas Anfíbios: Hélice traseira acionada por tomada de força, leme para direção na água, bomba de porão para remoção de água infiltrada e guincho de cabo.
O painel de controle do Jeep Ford GPA diferia do modelo original, por contar com os comandos para as operações de tração alternada (4X2 ou 4X4), tipo de condução Oi-range - Lo-range, controle de leme e hélice de impulso.  O carro ainda dispunha de um sistema de guincho elétrico para tração e ancora para operação fluvial. As primeiras unidades de série começariam a ser entregues as forças armadas norte-americanas a partir de meados de 1942.  Porém ao contrário dos caminhões anfíbios, o Ford GPA não apresentaria uma boa performance quando em uso real, sendo alvo de severas críticas de seus usuários. O principal fator deste perfil operacional inadequado estava baseado em seu peso total de 1.600 kg, que havia extrapolado em 400 kg o peso do projeto original, não havendo nenhuma compensação no aumento do tamanho do carro. Como consequência sua capacidade de transporte de carga ficava muito prejudicada quando no modo de condução anfíbio, mais notadamente em águas agitadas, levando ao risco de afundamento. Estas características comprometeriam uma das suas principais missões, que era a de apoiar o desembarque anfíbio de soldados entre os navios de transporte de tropas e as praias. Estas observações seriam comprovadas durante os desembarques na Sicília em setembro de 1943, onde sua função era transportar suprimentos e pessoal de navios de desembarque até a costa, mas a instabilidade em ondas de praia e a dificuldade de transição água-terra levaram a incidentes, incluindo alagamentos e perdas de veículos. Ficaria claro também que o veículo apresentava deficiências de condução em terra, ficando frequentemente atolado devido ao seu peso de deslocamento.  Durante a Operação Overlord (Dia D, junho de 1944), o uso do GPA foi mínimo, restrito a tarefas logísticas em rios e canais após os desembarques iniciais.  No Pacífico, o GPA foi empregado em operações insulares, como nas Ilhas Aleutas e em campanhas nas Ilhas Salomão e Nova Guiné (1943). Sua capacidade de atravessar rios e lagoas foi valorizada em terrenos pantanosos, mas a vulnerabilidade a ondas oceânicas limitou seu uso em desembarques em alto-mar. Em algumas missões, o GPA serviu para reconhecimento costeiro e transporte de suprimentos em águas interiores, mas sua performaO Ford GPA foi impopular entre os soldados, que o apelidaram de "Seep" (uma contração de Sea+Jeep, mas também aludindo à sua tendência a "vazar" água) e "Jeep in a bathtub" (Jeep na banheira). Essas falhas levaram a um uso operacional restrito, com muitas unidades relegadas a funções secundárias ou armazenadas em depósitos. Sua produçao seria descontinuada e março de 1943, contabilizando apenas 12.778 unidades entregues. Grande parte deste total  seria direcionado as nações aliadas dentro dos termos do programa Leand & Lease Act Bill (Lei de Arrendamentos e Empréstimos), com a União Soviética recebendo o maior volume destes veículos. Logo após o término do conflito, os soviéticos produziriam versão local denominada GAZ 46 MAV, que acabaria sendo exportada a vários países alinhados ao bloco socialista durante as décadas de 1940 e 1950. 

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano passou a considerar com extrema preocupação a possibilidade de uma invasão do continente americano pelas forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Essa ameaça tornou-se ainda mais evidente após a capitulação da França, em junho de 1940, pois, a partir desse momento, a Alemanha Nazista poderia estabelecer bases operacionais nas Ilhas Canárias, em Dacar e em outras colônias francesas, criando um ponto estratégico para uma eventual incursão militar no continente. Nesse contexto, o Brasil foi identificado como o local mais provável para o lançamento de uma ofensiva, devido à sua proximidade com o continente africano, que à época também figurava nos planos de expansão territorial alemã. Além disso, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul transformaram o Brasil no principal fornecedor de látex para os Aliados, matéria-prima essencial para a produção de borracha, um insumo de extrema importância para a indústria bélica. Além dessas possíveis ameaças, a posição geográfica do litoral brasileiro mostrava-se estrategicamente vantajosa para o estabelecimento de bases aéreas e portos militares na região Nordeste, sobretudo na cidade de Recife, que se destacava como o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano. Dessa forma, essa localidade poderia ser utilizada como uma ponte logística para o envio de tropas, suprimentos e aeronaves destinadas aos teatros de operações europeu e norte-africano. Diante desse cenário, observou-se, em um curto espaço de tempo, um movimento de aproximação política e econômica entre o Brasil e os Estados Unidos, resultando em investimentos estratégicos e acordos de cooperação militar. Entre essas iniciativas, destacou-se a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar denominado Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), cujo principal objetivo era promover a modernização das Forças Armadas Brasileiras. Os termos desse acordo garantiram ao Brasil uma linha inicial de crédito de US$ 100 milhões, destinada à aquisição de material bélico, possibilitando ao país o acesso a armamentos modernos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Esses recursos revelaram-se essenciais para que o país pudesse enfrentar as ameaças impostas pelos ataques de submarinos alemães, que intensificavam os riscos à navegação civil, impactando o comércio exterior brasileiro com os Estados Unidos, responsável pelo transporte diário de matérias-primas destinadas à indústria de guerra norte-americana. A participação brasileira no esforço de guerra aliado logo se ampliaria. O então presidente Getúlio Vargas declarou que o Brasil não se limitaria ao fornecimento de materiais estratégicos aos Aliados e sinalizou a possibilidade de uma participação mais ativa no conflito, envolvendo o possível envio de tropas brasileiras para algum teatro de operações de relevância.

No âmbito do programa de assistência militar Lend-Lease Act, o Brasil, a partir do final de 1941, começou a receber um expressivo volume de equipamentos bélicos provenientes dos Estados Unidos, abrangendo caminhões, veículos utilitários leves, aeronaves, embarcações e armamentos. O Exército Brasileiro foi o principal beneficiário desse aporte, que representou um marco significativo na modernização de suas capacidades operacionais. Os contratos inicialmente celebrados entre os governos brasileiro e norte-americano, previam o fornecimento quase dois mil veículos utilitários leves com tração 4X4 do tipo "Jeep", com estes não atendendo a nenhum critério de padronização por fabricante ou modelo, não existindo registros oficiais por parte das forças armadas brasileiras sobre a quantidade de modelos recebidos que foram produzidos pela Ford Motors Company ou pela Willys Overland Company. Os primeiros veículos utilitários desta família começariam a ser recebidos no Brasil em lotes a partir de março 1942, e mesclavam veículos novos e usados, estes oriundos da frota pertencente ao Exército dos Estados Unidos (US Army). Existindo ainda relatos de alguns modelos raríssimos, como alguns Willys MA (sem registro) poucos "Slatt Grill" (grade de grelha), e até uma unidade do modelo primordial Bantam BRC-40. Salientamos que a partir de registros fotográficos, nos permitem atestar que grande parte destes carros foram fabricados durante o ano de 1941, representado assim modelos da fase inicial de produção. Com este processo atendendo ao procedimento formal de cessão de equipamento militar a aliados, priorizando assim a entrega de versões mais novas e aprimoradas para as forças armadas norte-americanas, com estas repassando veículos usados para exportação. O advento do recebimento desta grande frota de veículos utilitários leves com tração integral 4X4, contribuiria em muito no  no processo de implantação da motomecanização em larga escala no Exército Brasileiro, não só por sua versatilidade, mas também pela quantidade disponível. Pois neste momento a frota de veículos com tração integral de viaturas com estas características  se resumia a poucos e antigos veículos do modelo Vidal & Sohn Tempo G1200 de procedência alemã que foram recebidos em 1938, porém disponíveis em um número insuficiente para se dotar sequer uma unidade operacional completa. No inicio do ano de 1943 entre os recebimentos normais de veiculos que estavam ocorrendo no porto do Rio de Janeiro, seriam disponibilizados treze viaturas anfíbias do modelo Jeep Ford G.P.A, representado o primeiro veiculo deste tipo a entrar em serviço no Exército Brasileiro.
Os Jeeps Ford G.P.A., veículos anfíbios de tração 4x4, foram inicialmente destinados às unidades operacionais sediadas na capital federal do Brasil. Essa concentração visava à experimentação e ao desenvolvimento de uma doutrina operacional, considerando que se tratava de uma inovação tecnológica para o Exército Brasileiro. Registros indicam que, nos anos subsequentes, esses veículos utilitários foram redistribuídos para o interior do país, com ênfase em regiões caracterizadas por grande presença de rios ou propensas a alagamentos sazonais, como o Pantanal, onde sua capacidade anfíbia era particularmente vantajosa. Em 13 de agosto de 1943, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB), uma unidade composta por aproximadamente 25.000 militares, estruturada para operar em alinhamento com os padrões do Exército dos Estados Unidos, que priorizavam alta mobilidade. A FEB incluía quatro grupos de artilharia (três equipados com obuses de 105 mm e um com 155 mm), uma esquadrilha de aviação da Força Aérea Brasileira para missões de ligação e observação, um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento, uma companhia de comunicações, um destacamento de saúde, uma companhia de manutenção, uma companhia de intendência, um pelotão de sepultamento, um pelotão de polícia militar e, simbolicamente, uma banda de música. Para atender às exigências de mobilidade, a FEB foi equipada com uma frota significativa de veículos, incluindo 660 utilitários leves com tração integral 4x4. Dentre esses, destacavam-se cinco Jeeps anfíbios Ford G.P.A., entregues nas instalações do 5º Exército dos Estados Unidos, em Tarquinia, na Itália. Muitos desses veículos, tanto leves quanto médios, já haviam sido intensamente utilizados em campanhas militares na Sicília e no Norte da África, sendo considerados “veteranos de guerra”. A cessão de veículos usados, frequentemente em precário estado de conservação, ao Brasil refletia a priorização de recursos pelos Estados Unidos, que destinavam equipamentos novos e de primeira linha para a invasão da França, durante a Operação Overlord, em junho de 1944, no conhecido “Dia D”. Nesse cenário, oficiais norte-americanos ministraram treinamentos especializados aos motoristas e mecânicos brasileiros. Além das instruções básicas, o programa abrangia técnicas específicas de condução em terra e na água, bem como os princípios de manutenção preventiva e corretiva, garantindo que os militares brasileiros dominassem o uso e a conservação dos Jeeps Ford G.P.A. em condições operacionais diversas.

Após o batismo de fogo das tropas brasileiras em 14 de setembro de 1944, os Jeeps Ford G.P.A. demonstraram sua relevância nos combates iniciais nas proximidades da cidade de Pisa, na Itália. Esses veículos anfíbios foram amplamente utilizados pelas unidades de infantaria motorizada e de reconhecimento, desempenhando papéis cruciais em patrulhas de exploração e reconhecimento. Sua capacidade de operar tanto em terra quanto na água revelou-se essencial para a transposição de rios e lagos, especialmente em um contexto no qual a infraestrutura rodoviária italiana havia sido severamente comprometida por intensas campanhas de bombardeios aliados, resultando na destruição de inúmeras pontes e vias. Depois do término da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945, os Jeeps Ford G.P.A., juntamente com outros veículos, armamentos e equipamentos fornecidos ao Exército Brasileiro pelos norte-americanos no âmbito do programa Lend-Lease Act, foram entregues ao Comando de Material do Exército dos Estados Unidos (US Army), na cidade de Roma. Nesse local, os veículos em melhores condições de conservação foram selecionados, armazenados e posteriormente transportados por via naval ao Brasil. Ao chegarem, essas unidades se integraram à frota de veículos da mesma classe já em operação no país desde 1942, sendo distribuídas às unidades operativas do Exército Brasileiro. Ainda em 1945, o Brasil recebeu um lote adicional de 68 Jeeps Ford G.P.A novos de fábrica (provalmente armazenados após o fim de sua produção), também provenientes do programa Lend-Lease. Esses “novos” veículos, apesar de muitas vezes serem unidades recondicionadas, foram incorporados ao serviço ativo e alocados principalmente aos Regimentos de Cavalaria Mecanizados. Nessas unidades, os G.P.A.s foram empregados em missões de reconhecimento e transporte, desempenhando papéis essenciais nos anos subsequentes. O Jeep Ford GPA seria também empregado pela Marinha do Brasil, com esta demanda sendo proporcionada pelo evoluir da doutrina operacional de guerra anfíbia, que fora estabelecida com a criação da  Força de Fuzileiros de Esquadra (FEE). A partir de meados da década de 1950 , a Marinha do Brasil recebeu os primeiros navios especializados em transporte de tropas e materiais, incluindo o G-20 Custódio de Mello, G-16 Barroso Pereira, G-21 Ary Parreiras e G-22 Soares Dutra, além de embarcações de desembarque de pessoal, material e viaturas (EDVP e EDVM). Esses meios navais estabeleceram as bases para a realização de operações anfíbias em larga escala. Assim a  fim de se buscar a plena capacidade operativa, com base na sistemática empregada pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), seria decidido a incorporação de veículos anfíbios que ampliassem a capacidade de movimentação de cargas após os primeiros desembarques.  
Com um orçamento militar restrito, o Brasil negociou, no início da década de 1960, a aquisição de um lote de caminhões anfíbios GMC DUKW provenientes dos estoques das Forças de Fuzileiros Navais Franceses (Troupes de Marine). Esses veículos foram recebidos no início de 1960, marcando um esforço para fortalecer as capacidades anfíbias das Forças Armadas brasileiras. Paralelamente, o adido naval brasileiro em Washington, D.C., conduziu tratativas com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD) para a obtenção de novos veículos e equipamentos. Essas negociações culminaram na cessão de 18 Jeeps Ford G.P.A., no âmbito do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP). Após sua chegada, os veículos foram revisados e distribuídos ao Batalhão de Viaturas Anfíbias (BtlVtrAnf), onde receberam a designação oficial de “Jipanf” (Jipe Anfíbio). Nos anos subsequentes, os Jeeps Ford G.P.A. desempenharam um papel central tanto no Exército Brasileiro quanto no Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha, contribuindo significativamente para a formulação e consolidação das doutrinas de operações anfíbias. Esse desenvolvimento foi fundamentado na experiência prática adquirida com o uso desses veículos pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Segunda Guerra Mundial, na Itália, onde demonstraram sua versatilidade em operações reais. Entretanto, como ocorreu com a maioria dos veículos militares recebidos entre as décadas de 1940 e 1950, o uso contínuo, a obsolescência natural e os desafios no fornecimento de peças de reposição impactaram severamente a operacionalidade dos Jeeps Ford G.P.A. Em meados de 1967, o Exército Brasileiro determinou a desativação desse modelo, transferindo um número significativo de unidades à Marinha do Brasil para desmanche e aproveitamento de componentes essenciais. O Corpo de Fuzileiros Navais, por sua vez, manteve os G.P.A. em serviço até 1982, preservando uma unidade que permanece em uso até os dias atuais como viatura cerimonial do Batalhão de Viaturas Anfíbias (BtlVtrAnf). Alguns exemplares anteriormente pertencentes ao Exército Brasileiro foram preservados para a posteridade. Um exemplo notável é o Jeep Ford G.P.A. mantido no acervo do Museu de Armas, Veículos e Máquinas Eduardo André Matarazzo, localizado em Bebedouro, no interior de São Paulo. Outras unidades encontram-se em museus militares ou em coleções particulares, testemunhando a importância histórica desses veículos para as Forças Armadas brasileiras.

Em Escala.
Para representarmos o jipe anfíbio Ford G.P.A "EB23-164“ pertencente ao 2° Regimento de Cavalaria Mecanizado (2º RC Mec) , empregamos o excelente kit da Tamiya na escala 1/35. Modelo este de fácil montagem e excelente nível de detalhamento. Complementamos o conjunto com decais confeccionados pelo fabricante Eletric Products, presentes no Set "Veículos Militares Brasileiros 1944 - 1982 ".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático empregado pelo Exército dos Estados Unidos (US Army) em todos os veículos utilizados no teatro europeu durante a Segunda Guerra Mundial, com os quais estes modelos foram recebidos a partir de 1943. Já em uso no país receberiam apenas as marcações e matrículas nacionais, mantendo este padrão até sua desativação. Os Jipes Anfíbios “Jipanf” pertencentes ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil empregariam o mesmo padrão durante seu tempo de serviço, a exceção do veículo cerimonial preservado que recebeu uma pintura no padrão cinza naval. 

Bibliografia: - Jeep Willis MB - http://www.willysmb.com.br/ - FEB na Segunda Guerra Mundial - Luciano Barbosa Monteiro - Ford GPA - Wikipedia http://en.wikipedia.org/wiki/Ford_GPA - Exército Brasileiro - http://www.exercito.gov.br

LCVP - Emb. de Desembarque de Pessoal


História e Desenvolvimento.
As embarcações de desembarque do tipo Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP), amplamente conhecidas como “Higgins Boats”, desempenharam um papel indispensável nas operações anfíbias aliadas durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945). Projetadas para transportar tropas e equipamentos diretamente às praias sem a necessidade de infraestrutura portuária, essas embarcações tornaram-se elementos fundamentais em grandes operações anfíbias, como o Dia D, parte da Operação Overlord (6 de junho de 1944), bem como nas campanhas do Pacífico, incluindo as batalhas de Batalha de Guadalcanal, Batalha de Tarawa e Batalha de Iwo Jima. O desenvolvimento do LCVP, liderado pelo engenheiro naval norte-americano Andrew Jackson Higgins, representou um avanço significativo na doutrina de guerra anfíbia. Sua criação consolidou a capacidade dos Aliados de projetar poder militar diretamente sobre territórios hostis, permitindo o desembarque rápido de tropas, veículos e suprimentos em praias desprovidas de instalações portuárias. O conceito que daria origem ao LCVP remonta à década de 1920, quando Higgins desenvolveu o barco Eureka, uma embarcação concebida inicialmente para uso civil. Empreendedor estabelecido em Nova Orleans, no estado da Luisiana, Higgins fundaria posteriormente a Higgins Industries, na década de 1930. A empresa dedicava-se inicialmente à construção de embarcações de calado raso destinadas a pescadores, caçadores e operadores da indústria petrolífera que atuavam na região do Golfo do México e ao longo do Rio Mississippi. Lançado em 1926, o Eureka apresentava soluções técnicas inovadoras para navegação em águas rasas. Seu projeto incorporava uma hélice protegida por um semi túnel no casco, permitindo que a embarcação operasse em áreas repletas de obstáculos submersos como troncos, raízes e bancos de areia sem comprometer o sistema de propulsão. Além disso, o casco possuía um arco característico em formato de “spoonbill bow”, ou “proa em colhereiro”, que facilitava o acesso às margens de rios e permitia que a embarcação se aproximasse de áreas rasas e recuasse sem risco de encalhe. Essas características técnicas, inicialmente pensadas para uso civil, revelaram-se posteriormente ideais para operações militares de desembarque. Alguns historiadores sugerem que Higgins também vislumbrava comercializar o Eureka para contrabandistas que atuavam durante a Lei Seca nos Estados Unidos (1920–1933). A capacidade da embarcação de operar em águas rasas e de difícil acesso tornava-a particularmente adequada para escapar da fiscalização das autoridades federais. Contudo, a revogação da Lei Seca em 1933 inviabilizou essa possibilidade comercial. Diante desse cenário, a Higgins Industries redirecionou suas atividades para o mercado civil, passando a produzir lanchas, rebocadores e barcaças destinadas a clientes privados e também à Guarda Costeira dos Estados Unidos. Apesar desse revés inicial, a experiência acumulada por Higgins no desenvolvimento de embarcações leves, robustas e altamente versáteis acabaria abrindo novas oportunidades no setor militar. Ao longo da década de 1930, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) intensificou seus esforços para desenvolver uma doutrina anfíbia eficaz, motivado pela necessidade de realizar desembarques em praias hostis em futuros conflitos no Pacífico. Paralelamente, o Departamento de Construção e Reparação da Marinha — o Bureau of Construction and Repair  conduziu uma série de experimentos com diferentes protótipos de embarcações de desembarque. Entretanto, os modelos inicialmente avaliados não conseguiram atender plenamente às exigências operacionais estabelecidas pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy).

Foi nesse contexto que, em maio de 1938, o projeto Eureka de Andrew Higgins chamou a atenção dos oficiais da marinha , graças às suas características técnicas incomuns e à sua comprovada capacidade de operar em ambientes fluviais e costeiros extremamente restritos. Impressionada com o desempenho da embarcação, a marinha norte-americana convidou Higgins a apresentar oficialmente seu projeto, iniciando assim uma colaboração que levaria ao desenvolvimento da embarcação de desembarque que se tornaria uma das mais importantes da história das operações anfíbias modernas. Em janeiro de 1939, testes operacionais conduzidos pelos militares norte-americanos demonstraram claramente a superioridade do projeto Eureka em relação aos modelos experimentais desenvolvidos pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy). Em decorrência desses resultados, a embarcação foi oficialmente redesignada como Landing Craft, Personnel (LCP) e aprovada para produção em série, com as primeiras unidades sendo entregues ao Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) no início de 1940. Apesar da aprovação do modelo  agora denominado Landing Craft Personnel (LCP)  persistia uma importante limitação operacional relacionada ao processo de desembarque. As tropas e equipamentos precisavam sair da embarcação pelos lados do casco, o que, em uma situação de combate, expunha os soldados ao fogo inimigo durante a aproximação da praia. Além disso, esse método tornava o desembarque mais lento e operacionalmente complexo. Ainda assim, naquele momento, o LCP representava o melhor projeto de embarcação de desembarque disponível, razão pela qual foi decidido colocá-lo imediatamente em produção, com as primeiras unidades sendo entregues à marinha norte-americana no início de 1940. Com o início da Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido enfrentou sérias dificuldades para conduzir operações anfíbias contra as forças do Eixo. A situação tornou-se ainda mais evidente após a Evacuação de Dunquerque, em maio de 1940, episódio que expôs a carência britânica de embarcações especializadas capazes de realizar desembarques rápidos e táticos em praias hostis. Nesse contexto, foram criados os Comandos Britânicos, unidades de elite formadas em 1940 por iniciativa do primeiro-ministro Winston Churchill. Essas forças foram concebidas para executar incursões rápidas, sabotagens e ataques costeiros contra alvos alemães na Europa ocupada. Para cumprir tais missões, tornava-se essencial dispor de embarcações leves, rápidas e capazes de operar diretamente em praias fortificadas sob fogo inimigo  características que os LCP possuíam em grande medida. A partir de 1941, no âmbito do Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), os Estados Unidos passaram a fornecer centenas dessas embarcações ao Reino Unido. No serviço britânico, os LCP foram redesignados como R-Boats (Raiding Craft) e incorporados às forças da Royal Navy e às unidades de comandos, sendo empregados em diversas operações especiais de alto risco ao longo do litoral europeu ocupado. O aperfeiçoamento definitivo do projeto surgiria a partir da observação de um conceito já utilizado por forças japonesas. Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937–1945), o Exército Imperial Japonês empregava embarcações de desembarque dotadas de rampas frontais, permitindo que tropas e equipamentos desembarcassem diretamente na praia com maior rapidez e segurança.
Essas embarcações foram cuidadosamente estudadas por observadores militares norte-americanos estacionados em Xangai, entre eles o então tenente-coronel Victor H. Krulak, que produziu relatórios detalhados acompanhados de documentação fotográfica sobre o conceito empregado pelos japoneses. Esses relatórios foram posteriormente apresentados a Andrew Jackson Higgins, que imediatamente determinou à sua equipe de engenharia que adaptasse o conceito ao casco do Eureka. O resultado desse trabalho foi a criação de um novo protótipo dotado de uma rampa frontal metálica basculante. Essa solução permitia que a embarcação encalhasse diretamente na praia, abrindo a rampa para o desembarque imediato das tropas. A inovação transformaria o antigo LCP no Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP), modelo que se tornaria uma das mais importantes embarcações de desembarque da guerra. A introdução da rampa frontal reduziu significativamente o tempo de desembarque e diminuiu a exposição das tropas ao fogo inimigo, revolucionando as operações anfíbias modernas. Fazendo uso de recursos próprios, Andrew Jackson Higgins determinou a construção de três embarcações experimentais, que seriam posteriormente cedidas aos fuzileiros navais em maio de 1941. Esses protótipos foram submetidos a intensivos testes operacionais no Lago Pontchartrain, no estado da Louisiana, com o programa sendo acompanhado de perto por oficiais do Bureau of Ships, órgão responsável pela construção naval. Durante os ensaios, foram realizadas simulações completas de operações anfíbias, envolvendo o embarque e desembarque de trinta e seis funcionários da empresa  representando tropas  além de cargas e veículos leves. Os resultados obtidos foram considerados extremamente satisfatórios, demonstrando a eficiência do novo conceito. Como consequência direta, foi celebrado o primeiro de muitos contratos de produção em série. A embarcação recebeu então a designação oficial de Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP) ou Embarcação de Desembarque de Veículo e Pessoal  passando posteriormente a ser popularmente conhecida como “Higgins Boat”. A produção em série teve início em fevereiro de 1942 nas instalações da Higgins Industries, localizadas na cidade de Nova Orleans. Com pouco mais de onze metros de comprimento e menos de três metros e meio de largura, o LCVP – Higgins Boat não era uma embarcação de grande porte. Seu projeto, contudo, apresentava soluções engenhosas. As estruturas laterais e traseiras eram compostas por uma combinação de metal e placas de madeira compensada, solução que proporcionava certo nível de proteção contra o fogo inimigo ao mesmo tempo em que reduzia o consumo de aço  um recurso estratégico durante a Segunda Guerra Mundial  contribuindo também para diminuir os custos de produção. A embarcação era propulsionada por um motor a diesel Gray Marine 671, com cerca de 71 cavalos de potência, uma versão navalizada do Detroit Diesel 6-71, produzido pela General Motors. Esse conjunto permitia ao LCVP atingir velocidades de aproximadamente 12 nós. Entretanto, quando operava em mar agitado, a embarcação apresentava forte balanço lateral, o que frequentemente causava enjoo entre os tripulantes e soldados transportados, mesmo em deslocamentos relativamente curtos. Seu calado extremamente reduzido  cerca de três pés na popa e dois pés e duas polegadas na proa  permitia que a embarcação avançasse diretamente sobre a praia. Um semi-túnel integrado ao casco, localizado na parte traseira, protegia a hélice contra o contato com areia, detritos e obstáculos submersos. Na parte frontal, uma rampa metálica basculante podia ser rapidamente baixada, permitindo o desembarque imediato das tropas e equipamentos.

Esse sistema tornava possível uma operação extremamente eficiente: o LCVP podia desembarcar rapidamente homens e suprimentos, recuar da praia e retornar ao navio-mãe para novo carregamento em um intervalo de apenas três a quatro minutos. Em termos de capacidade, a embarcação podia operar em três configurações principais de transporte: um pelotão completo de trinta e seis soldados totalmente equipados; aproximadamente três toneladas e meia de carga; ou uma combinação de doze soldados e um jipe Willys MB ou Ford GPW. Apesar de sua eficiência operacional, a experiência em combate revelou limitações importantes. A proteção oferecida pela estrutura do barco era relativamente limitada, o que resultou em numerosas baixas entre os fuzileiros durante operações de desembarque sob fogo inimigo. Além disso, outras falhas conceituais de projeto foram identificadas, como a dificuldade da embarcação em operar com eficiência em áreas de águas extremamente rasas ou sobre recifes de coral. Seu batismo de fogo se daria em fevereiro de 1942, durante a realização da  Operação Biting, também conhecida como Raide de Bruneval, os comandos britânicos, apoiados pela Royal Navy, realizaram uma incursão na costa norte da França para capturar componentes de um radar alemão Würzburg em Bruneval. Os LCVP foram empregados para transportar o 2º Batalhão de Paraquedistas e elementos do Comando nº 1 até a praia, permitindo um desembarque rápido e discreto. Após a captura do equipamento e a coleta de informações de inteligência, os comandos foram evacuados pelos mesmos LCVP, demonstrando a capacidade das embarcações de operar em missões de infiltração e extração sob pressão. O primeiro grande teste dos “Higgins Boats” em combate ocorreu durante a Operação Watchtower, a invasão de Guadalcanal, nas Ilhas Salomão, em 7 de agosto de 1942. Essa foi a primeira ofensiva anfíbia em larga escala liderada pelos Estados Unidos contra o Império do Japão, marcando o início da campanha do Pacífico. Aproximadamente 19.000 fuzileiros navais da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais (USMC) foram transportados para as praias de Guadalcanal e da vizinha Tulagi, utilizando cerca de 100 LCVP, além de outras embarcações anfíbias, como os Landing Craft, Mechanized (LCM). Os “Higgins Boats” enfrentaram condições desafiadoras, incluindo recifes de coral, correntes fortes e fogo de metralhadoras e artilharia japonesa. Apesar disso, sua capacidade de desembarcar tropas rapidamente diretamente na praia foi crucial para estabelecer cabeças de praia. Em Guadalcanal, os LCVP transportaram fuzileiros e equipamentos leves, como morteiros e suprimentos, permitindo que as forças americanas superassem as defesas iniciais japonesas. A operação, que durou até fevereiro de 1943, resultou na captura do estratégico aeródromo de Henderson Field, com os LCVP desempenhando um papel vital na logística de desembarque e reabastecimento.  Vale ainda destaque para seu emprego em  19 de agosto de 1942  pelo comandos britânicos no  "Raide de Dieppe", uma operação anfíbia de maior escala, envolvendo principalmente forças canadenses, mas com participação significativa dos comandos britânicos. Os LCVP foram utilizados para desembarcar tropas dos Comandos nº 3 e nº 4 em praias laterais, com o objetivo de neutralizar baterias costeiras alemãs. Embora a operação tenha sido um fracasso estratégico, com cerca de 60% das 6.000 tropas aliadas mortas, feridas ou capturadas, os “Higgins Boats” provaram sua capacidade de transportar tropas rapidamente sob fogo intenso. As lições aprendidas em Dieppe, incluindo a necessidade de melhor coordenação e suporte aéreo, foram cruciais para o planejamento do Dia D.
No Teatro do Mediterrâneo, os Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP) foram empregados por forças norte-americanas e britânicas durante a Operação Torch, realizada em novembro de 1942. Essa operação marcou a invasão aliada do Marrocos e da Argélia, territórios então controlados pelo regime da França de Vichy. Cerca de duzentos LCVP participaram dos desembarques iniciais, transportando tropas aliadas para praias próximas às cidades de Casablanca, Orã e Argel, frequentemente enfrentando condições marítimas adversas e a resistência das defesas costeiras locais. Nessas circunstâncias, a capacidade dos chamados “Higgins Boats” de operar em águas rasas e aproximar-se diretamente da praia revelou-se fundamental para o sucesso das primeiras fases da operação. Os LCVP, amplamente conhecidos como Higgins Boats, desempenhariam também um papel decisivo na Operação Overlord, a grande invasão aliada da Normandia, realizada em 6 de junho de 1944, data que ficaria conhecida como Dia D. Aproximadamente 1.500 embarcações desse tipo foram empregadas ao longo das cinco praias de desembarque  Utah Beach, Omaha Beach, Gold Beach, Juno Beach e Sword Beach  executando diversas funções operacionais, desde o transporte das primeiras ondas de tropas de assalto até o desembarque contínuo de equipamentos, munições e suprimentos. Estima-se que cada LCVP tenha realizado entre duas e quatro viagens durante as primeiras doze horas da operação, dependendo das condições marítimas  com ondas que chegavam a aproximadamente 1,5 metro de altura e ventos próximos de 20 nós  além da intensidade do fogo inimigo. Com base nesses fatores, historiadores calculam que os LCVP foram responsáveis por desembarcar entre 50.000 e 70.000 soldados durante o Dia D, representando cerca de 30% a 45% dos aproximadamente 156.000 militares aliados que chegaram às praias da Normandia nas primeiras 24 horas da operação. No Teatro do Pacífico, os LCVPs também desempenharam papel fundamental nas campanhas anfíbias conduzidas pelos Aliados contra o Império do Japão. Seu primeiro grande emprego operacional ocorreu durante a Campanha de Guadalcanal, iniciada em agosto de 1942. Posteriormente, essas embarcações participaram de diversas outras operações anfíbias de grande escala, incluindo as batalhas de Batalha de Tarawa, Campanha das Filipinas, Batalha de Iwo Jima e Batalha de Okinawa. O comandante supremo das forças aliadas na Europa, Dwight D. Eisenhower, chegou a declarar que o Higgins Boat foi um dos equipamentos mais decisivos para a vitória aliada nos diversos teatros de operações da guerra  desde o Norte da África e a Itália até a Europa Ocidental e o Pacífico. Até o início de 1945, mais de 23.500 embarcações do tipo LCVP haviam sido produzidas, sendo empregadas com grande êxito pelas forças aliadas em praticamente todos os teatros de operações da Segunda Guerra Mundial. Após o término do conflito, milhares dessas embarcações foram retiradas de serviço ativo e transferidas para a reserva do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Um número significativo desses barcos também foi cedido a diversos países aliados por meio de programas de assistência militar norte-americanos. A França, por exemplo, recebeu uma quantidade considerável dessas embarcações, que seriam empregadas principalmente pela Marinha Nacional Francesa durante a Primeira Guerra da Indochina, especialmente em operações de patrulha e transporte militar no delta do Rio Mekong. Nos Estados Unidos, os LCVP – Higgins Boats começaram a ser gradualmente substituídos por modelos mais modernos de embarcações de desembarque a partir do final da década de 1950, encerrando lentamente o ciclo operacional de um dos meios anfíbios mais emblemáticos da história militar do século XX.

Emprego na Marinha do Brasil.
No início da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de que o conflito europeu pudesse se expandir para o continente americano. A rápida sucessão de vitórias militares do Eixo composto por Alemanha Nazista, Itália Fascista e Império do Japão levou os estrategistas norte-americanos a avaliar cenários em que potências hostis pudessem estabelecer posições avançadas no Atlântico e, a partir delas, ameaçar diretamente o hemisfério ocidental. A situação tornou-se ainda mais preocupante após a derrota e subsequente armistício da França em junho de 1940, episódio associado à chamada Batalha da França. A queda do país levantou temores de que territórios coloniais franceses na África pudessem ser utilizados pela Alemanha como bases estratégicas no Atlântico. Entre os pontos considerados de maior importância figuravam a cidade portuária de Dacar, no Senegal, e arquipélagos atlânticos próximos às rotas marítimas intercontinentais. A partir dessas posições, analistas militares norte-americanos temiam que forças do Eixo pudessem projetar poder em direção ao continente americano. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ocupar lugar central nas preocupações estratégicas dos Aliados. Sua extensa faixa litorânea voltada para o Atlântico Sul e, sobretudo, a posição do Nordeste brasileiro  especialmente a região de Recife  tornavam o país um ponto de ligação natural entre a América do Sul e a África Ocidental. A distância relativamente curta entre Recife e Dakar, de aproximadamente 2.000 quilômetros, conferia a essa área grande relevância estratégica, tanto para possíveis operações militares quanto para a proteção das rotas marítimas transatlânticas. Paralelamente, os acontecimentos no teatro de operações do Pacífico e do Sudeste Asiático ampliaram ainda mais a importância econômica do Brasil para o esforço de guerra aliado. A expansão japonesa sobre regiões produtoras de borracha, como a Malásia Britânica e as Índias Orientais Holandesas, comprometeu gravemente o acesso aliado a essa matéria-prima essencial. Como consequência, o Brasil passou a assumir papel central no fornecimento de látex natural, insumo indispensável para a produção de pneus, juntas de vedação, cabos elétricos e diversos componentes empregados na indústria militar. Em 1942, estima-se que o país tenha sido responsável por cerca de 90% da borracha natural utilizada pela indústria bélica norte-americana, evidenciando sua relevância econômica e estratégica no contexto global da guerra. Diante desse cenário, o governo brasileiro, liderado pelo presidente Getúlio Vargas, intensificou a aproximação diplomática, econômica e militar com os Estados Unidos. Essa aproximação resultou em uma série de acordos bilaterais voltados à cooperação estratégica e à modernização das forças armadas brasileiras. Um dos marcos mais importantes desse processo foi a inclusão do Brasil no programa estabelecido pelo Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), promulgado pelo governo norte-americano em março de 1941 com o objetivo de fornecer assistência militar a países aliados. Por meio desse programa, o Brasil tornou-se um dos primeiros países da América Latina a receber apoio material significativo. Em 1942, foi concedida ao país uma linha inicial de crédito de aproximadamente 100 milhões de dólares. Esses recursos foram destinados à aquisição de equipamentos militares modernos, incluindo aeronaves, veículos motorizados, blindados, sistemas de artilharia e outros materiais. 

Entre os ramos militares, a Marinha do Brasil enfrentava desafios particularmente complexos. A extensa costa brasileira e a importância das rotas marítimas para o comércio exterior tornavam o país vulnerável à ação de submarinos do Eixo. Entre 1941 e 1943, submarinos alemães e italianos  conduziram uma intensa campanha de guerra submarina no Atlântico Sul. Durante esse período, mais de trinta navios mercantes brasileiros foram afundados, resultando na perda de cerca de mil vidas. No âmbito do Lend-Lease Act, a Marinha do Brasil recebeu uma quantidade significativa de meios navais, com ênfase quase exclusiva na guerra antissubmarino (ASW), o fato deste modal ser priorizado com concentração de recursos, acabaria por limitar o desenvolvimento de outras capacidades navais, como operações anfíbias. A estrutura de combate anfíbio, essencial para desembarques em praias e projeção de poder em ambientes costeiros, permaneceu subdesenvolvida durante o conflito. O Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, criado em 1808, ainda não dispunha de embarcações especializadas, como os Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP), ou “Higgins Boats”, amplamente utilizados pelos Aliados em importantes operações de invasão durante todo o conflito. O sucesso das operações anfíbias aliadas, particularmente na Normandia, onde cerca de 1.500 LCVP transportaram entre 50.000 e 70.000 soldados no primeiro dia, despertou grande interesse na Marinha do Brasil. A capacidade de realizar desembarques rápidos em praias, superando fortificações e obstáculos naturais, era vista como um componente essencial do poder naval moderno. Neste momento o comando da Marinha do Brasil daria os primeiros passos para o estabelecimento de uma doutrina operacional que deveria resultar na constituição de uma força de combate anfíbia nos moldes do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC). Seu grande êxito durante o conflito passaria a servir de farol para a criação de uma força anfíbia inspirada nos moldes norte-americano.  A criação de uma força anfíbia inspirada exigiria grandes mudanças nos paradigmas do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), haja vista a tendência que os preceitos da força de infantaria eram oriundos do aprendizado obtido nos cursos de aperfeiçoamento de oficiais, realizados, naquela época, no Exército Brasileiro. A partir de 1946, a Marinha do Brasil intensificou programas de intercâmbio, enviando grupos de oficiais aos Estados Unidos para participar de cursos e estágios no  Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) Esses programas, realizados em bases como Quantico, na Virgínia, e Camp Pendleton, na Califórnia, proporcionaram aos militares brasileiros acesso à doutrina operacional anfíbia americana, que enfatizava a coordenação entre forças navais, aéreas e terrestres, o uso de embarcações especializadas e a execução de desembarques sob fogo inimigo. Os oficiais retornavam ao Brasil como multiplicadores, disseminando os conhecimentos adquiridos nas escolas de formação da Marinha, como a Escola Naval e o Centro de Instrução e Adestramento, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Além disso, ainda faltava ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) meios para executar os desembarques, não apenas meios para ser empregados em terra que possuíssem características anfíbias, mas principalmente os meios navais para que se pudesse cumprir uma ação essencial dessa natureza, quais sejam os navios e embarcações de desembarque. 
Contudo ainda havia alguns obstáculos a serem vencidos, sendo impositivo colocar em pratica os ensinamentos aprendidos, mesmo fazendo uso improvisado dos meios de desembarque que estavam à disposição naquela época.  Em agosto de 1948, a Marinha do Brasil realizou seu primeiro exercício de desembarque anfíbio, marcando um marco inicial na formação de sua doutrina anfíbia. O exercício teve como alvo as praias da Ilha de Pombeba, na Baía de Sepetiba, litoral do Rio de Janeiro. Uma Companhia de Desembarque reforçada, composta por fuzileiros navais da Guarnição Central e elementos do Exército Brasileiro, foi mobilizada. Notavelmente, a companhia incluiu militares do Exército operando lança-chamas, um equipamento não pertencente ao arsenal do CFN à época, evidenciando a necessidade de improvisação devido à escassez de recursos especializados. As tropas foram transportadas pelos contratorpedeiros de escolta Beberibe (Be-2) e Bocaina (Be-8), enquanto o desembarque foi realizado por lanchas conhecidas como “Bois”, pertencentes aos encouraçados Minas Geraes e São Paulo. Essas lanchas, originalmente destinadas a tarefas de apoio, foram adaptadas para simular embarcações de desembarque, destacando as limitações materiais do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) A preparação das praias foi conduzida com tiro real pelo contratorpedeiro Greenhalgh (M-3), da classe Marcílio Dias, com apoio aéreo da Força Aérea Brasileira (FAB), que forneceu cobertura e reconhecimento. Apesar de sua natureza improvisada, o exercício demonstrou o compromisso da Marinha em aplicar os ensinamentos adquiridos em intercâmbios com o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), realizados a partir de 1946, e marcou o início da transição para uma doutrina anfíbia.  Em meados de 1950, a Marinha do Brasil aprovou uma nova regulamentação para o Corpo de Fuzileiros Navais, que representou uma mudança significativa de orientação. Essa regulamentação redefiniu a missão, enfatizando a preparação para operações anfíbias e estabelecendo as bases para uma força com plena capacidade operativa. Como resultado, foi criada a Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), uma estrutura organizacional dedicada ao planejamento e execução de missões anfíbias. Embora o regulamento não determinasse o início imediato das operações, ele formalizou a necessidade de desenvolver uma frota de navios e embarcações especializadas, além de treinar pessoal para atuar em ambientes costeiros e ribeirinhos.  No entanto, a ausência de embarcações de desembarque, como os Landing Craft, Vehicle, Personnel (LCVP), continuou a limitar a capacidade do CFN de realizar exercícios realistas. Um avanço significativo ocorreu em março de 1952, com a celebração do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos, no âmbito do Mutual Defense Assistance Program (MDAP). Esse acordo garantiu ao Brasil acesso a uma ampla gama de equipamentos militares, incluindo aeronaves, embarcações, veículos blindados, carros de combate e equipamentos individuais, em condições econômicas vantajosas. Para a Marinha do Brasil, o MDAP abriu caminho para a aquisição de meios navais especializados, essenciais para consolidar a capacidade anfíbia.  A década de 1950 marcou um período de transformação para a Marinha do Brasil, com a consolidação de uma doutrina anfíbia inspirada no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (United States Marine Corps – USMC). 

Em 1954, a Marinha do Brasil deu um passo significativo na modernização de sua capacidade anfíbia com a incorporação dos navios de transporte de tropas Custódio de Mello (G-20) e Barroso Pereira (G-16), seguidos, em 1957, pelos Ary Parreiras (G-21) e Soares Dutra (G-22). Construídos pelo estaleiro japonês Ishikawajima Heavy Industries Company Ltd., esses navios foram projetados especificamente para missões de transporte de tropas e operações anfíbias. Com um deslocamento de aproximadamente 4.800 toneladas, cada navio podia transportar até 600 fuzileiros navais, além de veículos, peças de artilharia e suprimentos, funcionando como bases flutuantes para lançamentos anfíbios em larga escala. A aquisição desses navios marcou um avanço em relação aos meios improvisados utilizados anteriormente, como as lanchas “Bois” dos encouraçados, empregadas no primeiro exercício anfíbio brasileiro em 1948, na Ilha de Pombeba, Baía de Sepetiba. Os novos navios proporcionaram ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) a capacidade de realizar operações mais complexas, coordenando desembarques com apoio naval e aéreo, e estabeleceram as bases para uma doutrina anfíbia robusta. A plena operacionalização da capacidade anfíbia exigia, além de navios de transporte, embarcações de desembarque capazes de levar tropas e equipamentos diretamente às praias. Em 1955, no âmbito do Mutual Defense Assistance Program (MDAP), a Marinha do Brasil negociou com o Departamento de Estado dos Estados Unidos a aquisição de um lote de 34 LCVP “Higgins Boats”, provenientes da reserva estratégica do USMC. Apesar de serem embarcações usadas, estavam em bom estado de conservação, tendo sido amplamente empregadas durante a Segunda Guerra Mundial em operações como Guadalcanal (1942) e Normandia (1944). Os LCVP foram transportados ao Brasil em navios de transporte de tropas da Marinha, chegando ao porto do Rio de Janeiro no final de 1956. Redesignados como Embarcações de Desembarque de Viaturas e Pessoal (EDVP), esses barcos, com capacidade para transportar 36 soldados equipados, um jipe com 12 homens ou 3,6 toneladas de carga, foram integrados à Força de Transporte da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), criada no mesmo ano. Operando em conjunto com as Embarcações de Desembarque de Viaturas e Material (EDVM), os EDVP fortaleceram a capacidade do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) de realizar desembarques anfíbios, superando as limitações dos meios improvisados utilizados anteriormente. A incorporação dos navios de transporte e dos LCVP permitiu ao CFN intensificar seu ciclo de adestramento, focado em operações anfíbias de baixa a média complexidade. Em 1959, dois exercícios marcaram o avanço da doutrina anfíbia brasileira: Operação Brisa (outubro de 1959): Realizada no litoral do Rio de Janeiro, essa operação envolveu o desembarque de tropas, veículos leves e peças de artilharia, utilizando os LCVP e os navios de transporte Custódio de Mello e Barroso Pereira. O exercício testou a coordenação entre unidades navais e terrestres, com apoio aéreo da Força Aérea Brasileira (FAB). Operação Corvina (novembro de 1959): Também conduzida no litoral fluminense, a Operação Corvina foi notável pela ativação do primeiro Destacamento de Praia, uma unidade especializada responsável por coordenar desembarques e preparar praias para a chegada de tropas e equipamentos. Os LCVP desempenharam um papel central, transportando fuzileiros e suprimentos diretamente às praias.
Em setembro de 1960, a Operação Arfagem representou um marco no adestramento do CFN, testando a integração de unidades anfíbias em cenários de maior complexidade. Realizada no litoral do Rio de Janeiro, a operação envolveu a Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), criada em 1950, e utilizou os navios de transporte Custódio de Mello (G-20) e Barroso Pereira (G-16), além de 34 LCVP “Higgins Boats”, redesignados como Embarcações de Desembarque de Viaturas e Pessoal (EDVP). Esses barcos, capazes de transportar até 36 soldados equipados ou 3,6 toneladas de carga, operaram em conjunto com Embarcações de Desembarque de Viaturas e Material (EDVM), demonstrando a capacidade do CFN de coordenar desembarques com apoio naval e aéreo. Simultaneamente, a FFE participou de manobras interaliadas com forças dos Estados Unidos e outros aliados, sob acordos de cooperação militar estabelecidos pelo MDAP. Esses exercícios proporcionaram aos oficiais e praças brasileiros a oportunidade de aprimorar técnicas de guerra anfíbia, aprendendo com a experiência do USMC, que desembarcou cerca de 50.000 a 70.000 soldados no Dia D (1944) utilizando LCVP. As manobras interaliadas fortaleceram a interoperabilidade e permitiram ao CFN acumular experiência prática, essencial para operar em ambientes costeiros e fluviais, alinhando-se às necessidades estratégicas do Brasil. O esforço contínuo em exercícios de pequena escala, como a Operação Brisa (outubro de 1959) e a Operação Corvina (novembro de 1959), criou as condições operacionais para a realização de manobras de maior porte. Em 1964, a Operação Dragão, conduzida no litoral do Espírito Santo, marcou a primogênita de uma série de exercícios anfíbios de grande escala. A operação envolveu o desembarque de 800 militares, 20 viaturas leves e quatro obuseiros M-2A3 de 105 mm em uma cabeça de praia, em um período de 10 horas, incluindo a movimentação navio-terra por superfície. Pela primeira vez, a operação contou com uma tropa percussora helitransportada, lançada a partir do porta-aviões ligeiro Minas Gerais (A-11), adquirido em 1956 do Reino Unido. O desembarque principal foi realizado por 14 LCVP “Higgins Boats”, apoiados por pelo menos 20 embarcações adicionais do tipo EDVP e EDVM, transportadas pelos navios Custódio de Mello e Barroso Pereira. Os LCVP “Higgins Boats” continuaram a desempenhar um papel relevante nos anos seguintes, destacando-se na Operação FAIBRAS (Força Armada Interamericana Brasileira), conduzida entre 1965 e 1966 na República Dominicana. Sob o comando da Organização dos Estados Americanos (OEA), cerca de 4.000 militares brasileiros, incluindo fuzileiros do CFN, foram enviados para “assegurar a paz” em meio a uma crise política e conflitos internos no país caribenho.  Apesar de seu papel crucial, os LCVP “Higgins Boats” começaram a apresentar sinais de obsolescência na década de 1960, devido à idade da frota – fabricada durante a Segunda Guerra Mundial – e aos avanços tecnológicos em embarcações anfíbias. A partir de meados da década de 1970, a Marinha do Brasil iniciou um processo de substituição gradual, incorporando embarcações mais modernas, algumas produzidas nacionalmente. Esse processo foi acelerado com a aquisição de veículos anfíbios sobre esteiras, como os FMC LVTP-7A1 (Clanf), na década de 1980, que ofereceram maior mobilidade e proteção em desembarques.

Em Escala.
Para representarmos o LCVP “Higgins Boat” ou Embarcação de Desembarque de Viaturas e Pessoal (EDVP), pertencente ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN), empregamos o kit básico da Airfix na escala 1/72. Para se compor a versão operada pelo Marinha do Brasil não é necessário proceder qualquer alteração, com o modelo podendo ser montado diretamente da caixa. Empregamos decais originais do modelo em conjunto com uma bandeira nacional impressa em papel normal. 


O esquema de cores (FS) descrito abaixo, representa o primeiro padrão de pintura empregado nas embarcações de desembarque de pessoal e veículos – LCVP “Higgins Boat”, quando de sua incorporação na Marinha do Brasil quando do seu recebimento. Posteriormente seriam alteradas as marcações de identificação, ocorrendo também a inclusão de uma singela faixa em verde e amarelo, a exemplo a aplicada nas demais embarcações de desembarque de pessoal (EDVP). 


 Bibliografia : 
- LCVP Higgins Boats Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/LCVP_(United_States)
- Revista da FFE – Edição Comemorativa de aniversário da Força de Fuzileiros da Esquadra 
- Poder Naval por Alexandre Galante - www.naval.com.br
- Marinha do Brasil - https://www.marinha.mil.br/