DH-60T De Havilland Moth Trainer

Historia e Desenvolvimento.
A gênese de uma das mais tradicionais fabricantes aeronáuticas do Reino Unido remonta ao ano de 1912, com a fundação da The Aircraft Manufacturing Company Limited, amplamente conhecida como Airco. Idealizada pelo industrial e magnata da imprensa George Holt Thomas, a empresa estabeleceu suas primeiras instalações em The Hyde, na região de Hendon, ao norte de Londres. Desde seus primórdios, a Airco destacou-se como uma das pioneiras da nascente indústria aeronáutica britânica, inserindo-se em um contexto de rápidas transformações tecnológicas que antecederam a aviação como instrumento estratégico de guerra. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Airco vivenciou um período de crescimento exponencial. Impulsionada pela demanda bélica, a companhia produziu, em larga escala, uma ampla gama de aeronaves incluindo caças, treinadores e bombardeiros  destinadas não apenas às forças britânicas, mas também aos demais países aliados. Estima-se que seus modelos tenham representado mais de 30% da frota total empregada pelos Aliados, um desempenho expressivo que consolidou sua reputação industrial e tecnológica. Esse êxito esteve intimamente ligado à atuação de Geoffrey de Havilland, que assumiu o cargo de projetista-chefe da empresa em 1914, por indicação de William Taylor Birchenough. Antes de ingressar na Airco, de Havilland já havia acumulado experiência relevante junto ao Royal Aircraft Factory, onde se destacou no desenvolvimento de projetos inovadores. Sua capacidade técnica e visão de engenharia foram determinantes para a criação de aeronaves que se tornariam referências durante o conflito. Entretanto, o término da guerra trouxe consigo profundas mudanças estruturais. A brusca redução dos orçamentos militares, somada à abundância de aeronaves excedentes, resultou em uma contração severa da demanda por novos modelos. Esse cenário adverso afetou diretamente a Airco, que, assim como diversas outras empresas do setor, enfrentou uma grave crise financeira. Na tentativa de contornar a situação, a companhia foi adquirida, no início de 1920, pela Birmingham Small Arms Company (BSA). Contudo, auditorias subsequentes revelaram a real dimensão de suas dificuldades econômicas, levando a diretora da companhia a optar pela liquidação integral das operações e pela venda de seus ativos. Foi nesse contexto de incerteza que Geoffrey de Havilland vislumbrou uma oportunidade decisiva. Demonstrando notável espírito empreendedor, ele negociou a aquisição de parte dos ativos da antiga Airco, incluindo instalações modestas situadas nas proximidades do aeródromo de Stag Lane, ao norte de Londres. Esse movimento estratégico resultou, em 26 de setembro de 1920, na fundação da de Havilland Aircraft Company, marco que não apenas deu continuidade ao legado técnico da Airco, mas também inaugurou uma nova fase de inovação e protagonismo na aviação britânica. Seu comando seria dividido entre seus principais acionistas contando com um capital nominal de £ 50.000, com  a maior parte aportado por Geoffrey de Havilland (£ 3.000) e George Holt Thomas (£ 10.000), com vários outros adicionando mais £ 1.000. 

Operando sob severas restrições de capital e em um ambiente econômico ainda marcado pelas consequências do pós-guerra, a de Havilland Aircraft Company optou, em seus primeiros anos de գործունե, por direcionar seus esforços ao nascente mercado da aviação civil. Tal decisão refletia não apenas a escassez de encomendas militares no imediato pós-Primeira Guerra Mundial, mas também a percepção de novas oportunidades associadas ao treinamento de pilotos e ao transporte leve. Nesse contexto, a empresa concentrou-se no desenvolvimento de aeronaves biplanas de pequeno porte, simples e econômicas, geralmente configuradas para um ou dois ocupantes, destinadas sobretudo à instrução básica e ao turismo aéreo. Esses projetos contrastavam significativamente com as aeronaves militares mais complexas concebidas anteriormente por Geoffrey de Havilland durante o conflito mundial, evidenciando uma mudança pragmática de abordagem diante das novas condições de mercado. O primeiro modelo a emergir dessa fase foi o De Havilland DH-51, essencialmente uma evolução de conceitos desenvolvidos ainda no período da Airco. Seu protótipo realizou o voo inaugural em 14 de julho de 1924, a partir do aeródromo de Stag Lane, em Londres. Embora apresentasse desempenho considerado promissor, o projeto esbarrou em exigências regulatórias impostas pelas autoridades britânicas de aviação civil, particularmente a obrigatoriedade de um sistema de dupla ignição para certificação de aeronavegabilidade. A alternativa de homologar a aeronave com ignição simples implicaria um extenso e oneroso programa adicional de ensaios em voo. Diante disso, de Havilland decidiu promover uma modificação substancial, substituindo o grupo motopropulsor original por um motor V8 refrigerado a ar ADC Airdisco, solução que proporcionou ganhos de desempenho relevantes. Todavia, o aumento dos custos operacionais decorrente dessa alteração comprometeu sua viabilidade comercial, limitando a produção a apenas três exemplares. Apesar desse insucesso inicial, a direção da empresa manteve-se firme em sua estratégia de consolidação no segmento civil. O aprendizado obtido com o DH-51 serviu de base para o desenvolvimento de um novo projeto, mais alinhado às demandas do mercado. Dessa iniciativa resultou o De Havilland DH-60 Moth, um biplano de dois lugares concebido especificamente como treinador primário, que viria a se tornar um dos mais emblemáticos aviões da aviação civil britânica. Dotado de uma estrutura predominantemente em madeira, com revestimento em compensado na fuselagem e tecido nas superfícies de controle, o De Havilland DH-60 Moth incorporava soluções práticas e inovadoras, como asas dobráveis  recurso que facilitava significativamente seu armazenamento em hangares de dimensões reduzidas. Aliando simplicidade construtiva, eficiência operacional e custos relativamente acessíveis, o modelo estabeleceu um novo padrão para aeronaves de instrução, contribuindo de forma decisiva para a popularização da aviação civil nas décadas subsequentes.
O protótipo do de Havilland DH-60 Moth realizou seu voo inaugural em 22 de fevereiro de 1925, novamente a partir do aeródromo de Stag Lane, sendo pilotado pelo próprio Geoffrey de Havilland. Esse evento marcou o início de uma trajetória de notável êxito, que contribuiria decisivamente para consolidar a reputação da de Havilland Aircraft Company no competitivo cenário da aviação civil. Rapidamente, o DH-60 Moth afirmou-se como uma das aeronaves mais influentes de sua época, sendo amplamente adotado tanto por escolas de pilotagem quanto por entusiastas do voo recreativo em diversas partes do mundo. Após seu voo inaugural, o modelo foi submetido a um rigoroso programa de ensaios em voo, com vistas à obtenção do certificado de aeronavegabilidade exigido pelas autoridades britânicas. Os resultados evidenciaram não apenas a conformidade do projeto com os requisitos técnicos vigentes, mas também sua adequação às demandas de um mercado emergente, voltado à aviação leve e ao uso privado. Ademais, a versatilidade da aeronave revelou-se particularmente valiosa para aeroclubes e instituições de formação de pilotos. O reconhecimento institucional não tardou a se manifestar. O então Secretário de Estado do Ar, Samuel Hoare, destacou publicamente as qualidades do projeto, sinalizando o crescente interesse governamental pelas aeronaves da empresa fundada em 1920. Tal posicionamento materializou-se na celebração de um contrato para a aquisição de dez unidades do DH-60, destinadas a equipar cinco aeroclubes na Inglaterra. Essas aeronaves incorporavam melhorias técnicas relevantes, como a adoção de um leme balanceado, que contribuía para maior estabilidade e controle em voo. Entre elas, uma unidade foi equipada com flutuadores, ampliando o espectro operacional do modelo para ambientes aquáticos. Paralelamente, a empresa buscou reforçar a visibilidade e a credibilidade do DH-60 no cenário público ao inscrever um de seus protótipos na prestigiada Corrida da Copa do Rei de 1925. Pilotado pelo renomado aviador Alan Cobham, o desempenho expressivo da aeronave na competição contribuiu significativamente para consolidar sua imagem de confiabilidade e desempenho. Dois anos mais tarde, em 1927, três exemplares do DH-60  modificados com motores Cirrus II instalados em posição rebaixada  voltaram a competir na mesma prova. Inicialmente designada DH.60X, indicando seu caráter experimental, essa variante seria posteriormente renomeada como Cirrus II Moth. Os resultados novamente positivos estimularam a continuidade do processo evolutivo do projeto. Em 1928, a introdução do motor Cirrus III, dotado de eixo bipartido, deu prosseguimento a esse ciclo de aperfeiçoamento, mantendo-se ainda a designação DH.60X. Com o avanço tecnológico e a introdução dos motores da linha Gipsy, a produção das versões equipadas com motores Cirrus passou gradualmente a ser substituída. Ainda assim, a configuração original permaneceu disponível sob encomenda especial, atendendo a operadores que valorizavam sua comprovada robustez, simplicidade e confiabilidade operacional características que se tornariam marcas distintivas da linhagem Moth.

O êxito alcançado pelo de Havilland DH-60 Moth representou um verdadeiro ponto de inflexão na trajetória do fabricante, consolidando-a como uma referência na aviação leve e de treinamento durante o período entreguerras. Entretanto, à medida que a produção se expandia, novos desafios de ordem industrial e logística começaram a emergir. Após o sucesso inicial das versões equipadas com o motor Cirrus, a empresa passou a enfrentar dificuldades relacionadas ao fornecimento de componentes. Esse motor, derivado de um projeto Renault de oito cilindros, dependia significativamente de peças remanescentes da Primeira Guerra Mundial, muitas delas de origem francesa. Com o esgotamento progressivo desses estoques, tornava-se cada vez mais incerta a continuidade da produção em médio e longo prazo. Diante dessa limitação estrutural, a direção da empresa optou por investir no desenvolvimento de um motor próprio, iniciativa conduzida pelo engenheiro Frank Halford. O resultado desse esforço foi o motor De Havilland Gipsy I, concluído em 1927, capaz de gerar aproximadamente 98 hp e representando um avanço significativo em termos de independência tecnológica e confiabilidade. A introdução desse novo grupo motopropulsor deu origem à versão de Havilland DH-60G Gipsy Moth, que combinava maior potência com a vantagem estratégica de um motor integralmente produzido pela própria empresa. Essa mudança não apenas reduziu custos operacionais e de produção, mas também garantiu maior controle sobre a qualidade e a cadeia de suprimentos. Notavelmente, o novo modelo foi comercializado pelo mesmo valor da versão anterior  £650  o que ampliou ainda mais sua atratividade no competitivo mercado da aviação leve. A adoção de um motor próprio marcou um passo decisivo na consolidação da de Havilland como uma empresa inovadora e autossuficiente, apta a atender tanto proprietários privados quanto operadores de aeroclubes. Em consonância com a evolução tecnológica da época, a empresa introduziu, em 1930, o de Havilland DH-60M Moth, cuja principal distinção residia na fuselagem revestida em metal, substituindo o tradicional compensado. Desenvolvido inicialmente para atender a uma demanda das forças armadas canadenses, esse modelo foi direcionado tanto ao mercado militar quanto ao civil internacional, destacando-se por sua robustez estrutural e facilidade de manutenção. A versatilidade e o baixo custo de produção do DH-60M favoreceram sua fabricação sob licença em diversos países, incluindo Austrália, Canadá, Estados Unidos e Noruega, ampliando significativamente a presença global da empresa e reforçando sua inserção no cenário aeronáutico internacional. A contínua evolução dos motores da série Gipsy levou, em 1931, ao desenvolvimento das versões Gipsy II e, posteriormente, Gipsy III, esta última caracterizada por uma configuração invertida, solução que proporcionava melhor visibilidade ao piloto e aprimoramentos aerodinâmicos. Esses avanços culminaram no surgimento do DH-60G-III Moth Major, concebido especificamente para atender ao segmento de treinamento militar. As primeiras unidades seriam fornecidas à Força Aérea Sueca (Flygvapnet), evidenciando a crescente aceitação internacional do modelo em aplicações militares. 
O sucesso contínuo dessas variantes não apenas reforçou o prestígio da linhagem Moth, como também evidenciou a capacidade da de Havilland Aircraft Company de inovar de forma consistente, adaptando-se às exigências de um mercado aeronáutico em rápida transformação durante o período entreguerras. A combinação de elevada confiabilidade, baixos custos operacionais e um projeto versátil fez do de Havilland DH-60G Gipsy Moth a principal escolha dos aeroclubes britânicos, consolidando-o como a aeronave de turismo mais difundida no Reino Unido ao final da década de 1920. Por volta de 1929, estimativas indicavam que cerca de 85% das aeronaves em operação na Grã-Bretanha pertenciam à família DH-60, sendo a maioria correspondente à versão Gipsy Moth. Esse domínio foi mantido mesmo diante do surgimento de concorrentes relevantes, favorecidos pela disponibilidade de motores Cirrus no mercado após a transição tecnológica promovida pela de Havilland. Entre esses destacavam-se o Avro Avian, o Klemm Swallow e o Miles Hawk, que, embora tecnicamente competitivos, não lograram suplantar a ampla aceitação do Moth. Até o encerramento de sua produção, no final de 1933, mais de 2.000 unidades do DH-60 haviam sido entregues em diversas variantes. Entre estas, destacava-se o de Havilland DH-60T Moth Trainer, uma versão aprimorada equipada com o motor Gipsy III, da qual foram produzidos 64 exemplares. No âmbito militar, a Força Aérea Real (Royal Air Force) reconheceu o potencial do modelo e tornou-se seu principal operador. Embora as primeiras avaliações tenham apontado limitações do DH-60 em relação aos métodos específicos de instrução militar então adotados, a introdução, em 1931, de 124 unidades do de Havilland DH-60M Moth  dotadas de fuselagem metálica  representou um avanço significativo. Essas aeronaves passaram a ser amplamente empregadas pela Escola Central de Voo e por outras unidades de treinamento, permanecendo em serviço até 1939 e desempenhando papel relevante na formação de pilotos militares britânicos. A influência do DH-60 ultrapassou amplamente as fronteiras do Reino Unido, sendo adotado por forças aéreas e operadores civis em diversos países da Europa, Américas, África, Ásia e Oceania, o que atesta sua versatilidade e aceitação global. Durante a Segunda Guerra Mundial, algumas unidades britânicas capturadas chegaram a ser reutilizadas por forças alemãs e japonesas, evidenciando, uma vez mais, a robustez e adaptabilidade do projeto. Em síntese, o êxito internacional do de Havilland DH-60 Moth consolidou definitivamente a posição da de Havilland como uma das mais influentes fabricantes aeronáuticas do período entre guerras, deixando um legado duradouro no desenvolvimento da aviação civil e militar em escala global.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
Assim como o brasileiro Alberto Santos Dumont é amplamente reconhecido por seu voo histórico, em 1906, com o 14-bis  considerado um dos primeiros aparelhos mais pesados que o ar a realizar um voo público e documentado , a Marinha do Brasil desempenhou papel decisivo na introdução e consolidação da aviação militar no país. Apenas cinco anos após esse feito pioneiro, a Marinha já demonstrava notável visão estratégica ao reconhecer o potencial das aeronaves para fins militares, em um período em que a aviação ainda se encontrava em estágio embrionário. No ano de 1911, dois acontecimentos de grande relevância simbolizaram esse interesse inicial. Em 29 de abril, o tenente da Marinha Jorge Henrique Moller tornou-se o primeiro militar brasileiro a obter o brevê de piloto, conquistado na França  marco que representou o início da formação sistemática de aviadores militares no Brasil. Poucos meses depois, em 14 de outubro, foi fundado o Aeroclube Brasileiro, instituição que desempenharia papel fundamental na difusão da cultura aeronáutica no país, reunindo civis e militares interessados no desenvolvimento da aviação. Essas iniciativas evidenciam o comprometimento precoce da Marinha do Brasil em explorar as possibilidades oferecidas pelo novo meio aéreo, antecipando tendências que apenas mais tarde seriam plenamente assimiladas pelas grandes potências. O processo de formação estruturada de pilotos militares, contudo, teve início formal em fevereiro de 1914, com a criação da Escola Brasileira de Aviação, instalada no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Essa instituição resultou de uma parceria entre o Ministério da Guerra e a empresa italiana Gino, Buccelli & Cia, responsável pelo fornecimento de aeronaves, equipamentos e instrutores especializados. O marco oficial da criação da aviação naval brasileira, entretanto, ocorreu em 23 de agosto de 1916, quando o então presidente Wenceslau Braz sancionou o Decreto nº 12.155, instituindo a Escola de Aviação Naval (EAvN). Primeira escola militar de aviação do país, a instituição tornou-se o verdadeiro berço da aviação militar brasileira, simbolizando o pioneirismo da Marinha nesse domínio. Inicialmente instalada no antigo Arsenal de Marinha, no Rio de Janeiro, a Escola de Aviação Naval (EAvN) foi posteriormente transferida para a Ilha das Enxadas, onde passou por significativa expansão de suas atividades. Sua criação representou um passo audacioso para o Brasil, que buscava alinhar-se às nações mais avançadas no desenvolvimento de capacidades aéreas militares. A escola tinha como missão não apenas a formação de pilotos, mas também de técnicos especializados, além de estabelecer as bases doutrinárias para o emprego estratégico da aviação em operações navais e de defesa. Nesse contexto, a Escola de Aviação Naval realizou também voos pioneiros de longa distância, conhecidos como raids, conectando o Rio de Janeiro a localidades como Angra dos Reis e Campos. 

Essas operações demonstraram, de forma concreta, a viabilidade do emprego de aeronaves como meio de ligação e projeção de presença militar, antecipando o papel estratégico que a aviação viria a desempenhar nas décadas seguintes. Coube ainda à Escola de Aviação Naval (EAvN) protagonizar feitos pioneiros no campo das comunicações aéreas no Brasil, sendo responsável pelo transporte da primeira mala aérea civil e da primeira mala aérea militar do país. Tais iniciativas marcaram o início do emprego sistemático de aeronaves como meio logístico, antecipando um papel que se tornaria essencial nas décadas seguintes. Já no início da década de 1930, a Escola de Aviação Militar (EAvM), sediada no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, enfrentava sérias limitações operacionais em sua capacidade de formação de pilotos. A instituição dispunha de um número reduzido de aeronaves, como o Morane-Saulnier MS.147 e o Morane-Saulnier MS.130, modelos que, à época, já se encontravam tecnologicamente defasados para as exigências do treinamento militar moderno. Em paralelo, a aviação da Marinha do Brasil também carecia de uma urgente renovação de seus meios aéreos, compartilhando a mesma necessidade de modernização. Diante desse cenário, o governo brasileiro lançou, em 1931, uma concorrência internacional com o objetivo de adquirir até 40 aeronaves de treinamento, destinadas tanto ao Exército quanto à Marinha. O certame atraiu propostas de fabricantes franceses, britânicos e norte-americanos, totalizando sete modelos em avaliação. Após criteriosa análise técnica e operacional, destacou-se a proposta apresentada pela de Havilland Aircraft Company, fundada por Geoffrey de Havilland, com o modelo de Havilland DH-60T Moth Trainer, concebido especificamente para instrução militar. Ao final de 1931, foi formalizado o contrato para a aquisição de 39 aeronaves, sendo 15 destinadas à Aviação Militar do Exército e 24 à Aviação Naval. Essa encomenda posicionou o Brasil como o maior operador militar do DH-60T à época, representando um avanço significativo na modernização da aviação militar nacional e fortalecendo os vínculos com a indústria aeronáutica britânica. A escolha do modelo refletia não apenas sua reconhecida confiabilidade e simplicidade operacional, mas também uma visão estratégica voltada ao aprimoramento da formação de pilotos em um contexto de crescente relevância da aviação no cenário militar. As três primeiras aeronaves chegaram ao Rio de Janeiro em 5 de março de 1932, a bordo do navio mercante Andaluzia Star, acompanhadas pelo piloto-chefe de ensaios em voo da empresa, o Capitão Hubert S. Broad. Sua missão consistia em supervisionar a montagem das aeronaves e conduzir o treinamento inicial dos pilotos brasileiros. A primeira unidade montada foi oficialmente apresentada em 18 de março de 1932, durante cerimônia realizada no Campo dos Afonsos. Até maio daquele ano, as demais aeronaves foram progressivamente recebidas e montadas. 
Nesse intervalo, o Capitão Hubert S. Broad já conduzia a formação do núcleo inicial de instrutores tanto da Escola de Aviação Militar quanto da Escola de Aviação Naval (EAvN), estabelecendo as bases para a padronização e expansão do ensino da aviação militar no Brasil. Do total de aeronaves recebidas pelo Exército, duas unidades do de Havilland DH-60T Moth Trainer foram destinadas à Esquadrilha de Treinamento do Grupo Misto de Aviação (GMA), sediado no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Diferentemente das aeronaves operadas pelo Exército, configuradas essencialmente para instrução, os exemplares incorporados pela Marinha do Brasil apresentavam maior versatilidade operacional. Estes foram recebidos com kits que permitiam a instalação de flutuadores, suportes para bombas, rádios, visor de bombardeio Aldis e metralhadoras fotográficas, evidenciando uma clara orientação para missões de caráter tático. No início de 1932, o cenário político brasileiro deteriorou-se rapidamente, culminando na eclosão da Revolução Constitucionalista. O movimento, deflagrado em 9 de julho daquele ano, foi impulsionado por uma convergência de fatores políticos, sociais e econômicos, tendo como principal reivindicação a convocação de uma Assembleia Constituinte que restabelecesse a ordem constitucional no país. Lideradas por forças paulistas  compostas por militares, forças policiais e voluntários civis , as ações insurgentes contaram com amplo apoio da sociedade de São Paulo, incluindo industriais, estudantes, trabalhadores e mulheres, que participaram ativamente por meio de campanhas de mobilização e arrecadação, como a emblemática iniciativa “Ouro para o Bem de São Paulo”. Nesse contexto, todos os meios aéreos disponíveis, em ambos os lados do conflito, foram mobilizados. Ainda nas fases iniciais das hostilidades, vislumbrou-se o emprego operacional dos DH-60T em missões reais de combate. Seis aeronaves foram designadas à Defesa do Litoral (DAL), organizadas em duas seções. Dentre essas, duas estavam equipadas com rádio, duas com suportes para bombas e duas com metralhadoras fotográficas, sendo empregadas em missões de ligação, observação e reconhecimento ao longo do litoral paulista, em apoio às forças legalistas que atuavam entre Picinguaba e Santos. As demais aeronaves da Escola de Aviação Naval (EAvN) permaneceram em operação sob seu comando, enquanto o comando da aviação naval buscava acelerar o recebimento de doze células adicionais. Contudo, essas unidades chegaram tardiamente, não sendo incorporadas a tempo de participar do conflito, que se encerrou em 3 de outubro de 1932, com a assinatura do armistício. De maneira semelhante, as aeronaves da Escola de Aviação Militar (EAvM) também foram empregadas durante a campanha. Deslocadas para destacamentos aéreos estabelecidos nas cidades de Resende e Mogi Mirim, essas aeronaves desempenharam funções predominantemente logísticas, sendo utilizadas em missões de ligação e correio aéreo. Realizavam voos diários entre essas bases avançadas e o Campo dos Afonsos, assegurando a comunicação e o fluxo de informações no teatro de operações. 

Dessa forma, embora concebido originalmente como aeronave de treinamento, o DH-60T demonstrou, ainda que em caráter limitado, sua adaptabilidade a cenários operacionais reais, contribuindo para o esforço militar brasileiro em um dos episódios mais marcantes da história política e militar do país no século XX. Com o término da Revolução Constitucionalista, em outubro de 1932, a Aviação Naval pôde retomar seu processo de reorganização administrativa e operacional. Nesse contexto, definiu-se que o novo lote de aeronaves fosse inicialmente destinado à Base Aérea de Porto Alegre, onde passariam a integrar a Divisão de Instrução. Entretanto, apenas quatro unidades do de Havilland DH-60T Moth Trainer foram efetivamente alocadas nessa unidade, sendo as demais distribuídas entre o Centro Naval de Santa Catarina e o Centro de Aviação Naval do Galeão, no Rio de Janeiro. Paralelamente, as aeronaves da Escola de Aviação Militar (EAvM) retornaram às suas funções originais de instrução e formação de pilotos. Contudo, o intenso emprego operacional durante e após o conflito rapidamente se refletiu em um aumento significativo no número de incidentes e acidentes, o que reduziu sensivelmente a disponibilidade da frota. Diante dessa situação, a partir de 1934, foram incorporadas aeronaves do modelo Waco RNF, destinadas a recompor a capacidade de instrução. Como consequência, os DH-60T passaram gradualmente a desempenhar funções secundárias, sendo empregados em missões administrativas em proveito da Escola de Aviação Militar (EAvM). Ao final de 1935, essas aeronaves foram transferidas para a 4ª Divisão da Escola, passando a ser utilizadas exclusivamente em atividades de adestramento. No início de 1936, apenas seis exemplares permaneciam em condições operacionais, número que continuaria a decrescer nos anos subsequentes, atingindo três ou quatro aeronaves em serviço. Esse cenário levou o comando da Aviação Militar do Exército, no início de 1939, a deliberar pela desativação definitiva do modelo, com as células remanescentes e seus estoques de peças de reposição sendo doados a aeroclubes, encerrando assim seu ciclo operacional no âmbito militar terrestre. No mesmo período, a Marinha do Brasil promoveu um processo mais amplo de reequipamento e reorganização de sua aviação naval, buscando modernizar tanto suas capacidades operacionais quanto seus sistemas de treinamento. Nesse contexto, a partir de 1933, os DH-60T adquiridos em 1931 foram redistribuídos entre diversas unidades, incluindo os centros de aviação naval em Florianópolis, Ladário e Rio de Janeiro, além das bases de aviação naval de Porto Alegre e Santos. Essas aeronaves, originalmente concebidas para instrução, foram redesignadas como I1H — classificação que indicava sua função como aeronave de treinamento, sendo também o primeiro modelo da de Havilland a operar na Aviação Naval brasileira. Suas matrículas foram organizadas em dois grupos distintos: as doze primeiras aeronaves receberam os números de 21 a 32, enquanto o segundo lote foi registrado sob a sequência de 75 a 86. 
Apesar do desgaste natural das células e da redução progressiva de sua disponibilidade operacional, decorrente do uso intensivo, os DH-60T continuaram a ser amplamente elogiados por pilotos e oficiais da Aviação Naval, sobretudo por sua confiabilidade, simplicidade de operação e desempenho equilibrado. Esse reconhecimento contribuiu para despertar o interesse na ampliação da frota com outros modelos do fabricante, consolidando a presença da indústria aeronáutica britânica no processo de modernização da aviação militar brasileira. Nesse contexto, foram iniciadas negociações com a de Havilland Aircraft Company, culminando na assinatura de um contrato para a aquisição do moderno de DH-82 Tiger Moth, cujas entregas tiveram início em meados de 1933. Esse momento marcou o início do declínio do de Havilland DH-60T Moth Trainer como aeronave padrão de instrução básica na Escola de Aviação Naval (EAvN). A partir do final de 1933, os DH-60T Gipsy Moth remanescentes passaram a ser gradualmente deslocados para funções utilitárias, atendendo às demandas operacionais de diferentes bases e centros da Aviação Naval. Seis unidades permaneceram em operação na Escola de Aviação Naval (EAvN), atuando de forma complementar aos DH-82 Tiger Moth em missões de treinamento até o término de 1934. Encerrado esse período, as aeronaves ainda em condições de voo foram redistribuídas para outras organizações, marcando o fim de sua atuação como treinadores primários e encerrando uma etapa relevante na formação de pilotos navais brasileiros. Em maio de 1935, os poucos exemplares restantes foram reunidos na chamada 2ª Flotilha de Diversos, cujas aeronaves foram distribuídas entre os Centros de Aviação Naval de Santa Catarina, Porto Alegre, Ladário, Rio de Janeiro e Santos. Diferentemente das aeronaves oriundas da Aviação Militar do Exército, que encontraram relativa sobrevida no meio civil, os DH-60T da Aviação Naval tiveram sua carreira abreviada, em grande parte devido às elevadas taxas de desgaste estrutural, ao intenso uso operacional e à incidência de acidentes, fatores que reduziram progressivamente sua disponibilidade. Quando da criação do Ministério da Aeronáutica (MAer), em 20 de janeiro de 1941, restava apenas um exemplar do DH-60T em condições de voo. Essa aeronave foi então incorporada, juntamente com os demais meios e efetivos, à recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB). Após passar por revisão, o aparelho foi transferido para a Base Aérea de Santos, onde passou a desempenhar funções administrativas e de apoio, atuando como aeronave orgânica daquela organização. Nessa função, o último de Havilland DH-60 Moth manteve-se em operação até o final de 1942, quando foi definitivamente desativado, encerrando a trajetória do modelo em serviço ativo no Brasil. Posteriormente, antes de sua alienação como sucata, tanto esse exemplar quanto remanescentes do de Havilland DH-82 Tiger Moth foram redesignados como PT-MT em meados de 1945, já sob a estrutura organizacional consolidada da aviação militar brasileira.

Em Escala.
O De Havilland DH-60T Gipsy Moth, matrícula K-147, pertencente a Escola de Aviação Militar (EAvM) do Exército Brasileiro, foi representado fazendo uso  do kit na escala 1/48 injetado pela  Amodel, a única opção injetada disponível. Apesar das limitações no detalhamento e na qualidade de injeção, o kit foi adequado para o projeto. Para assegurar a autenticidade histórica, foram utilizados decais da FCM Decals, combinados de diversos conjuntos, juntamente com os decais originais do kit, garantindo uma representação precisa da aeronave.
O De Havilland DH-60T, utilizado pela Aviação Militar do Exército Brasileiro, adotou inicialmente  um esquema de cores (FS) originalmente projetado pela de Havilland Aircraft Company para o mercado civil. Sobre esse padrão, foram aplicados os cocares e matrículas da Aviação Militar, mantidos durante toda sua operação no Exército. As aeronaves da Aviação Naval da Marinha do Brasil receberam um esquema de pintura distinto, adaptado às suas necessidades operacionais, diferenciando-se do padrão utilizado pelo Exército e refletindo as particularidades de sua função. 

Bibliografia :
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 / 2015 – Jackson Flores Jr
- De Havilland DH-60 Moth Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/De_Havilland_DH.60_Moth
- O emprego do avião na Revolução Constitucionalista de 1932 - www.reservaer.com.br/

PBY-5 Consolidated Aerobote

História e Desenvolvimento. 
A Consolidated Aircraft Corporation foi fundada em 1923 por Reuben H. Fleet na cidade de Buffalo, no estado de Nova Iorque. A criação da empresa resultou da aquisição dos ativos da Gallaudet Aircraft Company, bem como da incorporação de projetos e recursos técnicos oriundos da Dayton-Wright Company, antiga subsidiária aeronáutica da General Motors Corporation, cuja divisão de aviação havia sido descontinuada em decorrência de um processo de reorganização empresarial no período pós-Primeira Guerra Mundial. O primeiro projeto militar de grande relevância desenvolvido pela nova companhia foi o treinador primário biplano Consolidated PT-1 Trusty. Essa aeronave tornou-se o primeiro modelo de instrução adquirido em quantidades significativas pelo  Serviço Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAS) nos anos imediatamente posteriores ao conflito mundial. O PT-1 também foi empregado pela Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) consolidando sua importância no processo de formação de pilotos militares norte-americanos durante o período entre guerras. Os recursos obtidos com essas primeiras encomendas governamentais permitiram à empresa ampliar de forma substancial seus investimentos em infraestrutura industrial, pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Como reflexo direto dessa expansão, em setembro de 1935 foi inaugurada uma moderna e ampla unidade fabril na cidade de San Diego, no estado da Califórnia, local que se tornaria um dos principais centros de produção aeronáutica da companhia. No início da década de 1940, o agravamento do cenário internacional  marcado pelo avanço das hostilidades na Europa e pela crescente deterioração das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Império do Japão no Leste Asiático levou o governo norte-americano a iniciar um amplo programa de modernização e rearmamento de suas forças armadas. Nesse contexto, tornou-se evidente a necessidade de desenvolver uma nova geração de hidroaviões de patrulha e bombardeio com grande autonomia operacional. A demanda por esse tipo de aeronave estava diretamente relacionada às particularidades estratégicas do teatro de operações do Pacífico, onde a infraestrutura de aeródromos nas ilhas sob controle dos Estados Unidos era ainda limitada. Assim, aeronaves capazes de operar a partir da superfície marítima representavam um recurso fundamental para garantir vigilância, mobilidade e capacidade ofensiva em vastas áreas oceânicas. As especificações técnicas estabelecidas para essa nova aeronave previam um modelo de porte médio, dotado de dois motores, com alcance operacional estimado em cerca de 4.800 quilômetros, velocidade de cruzeiro próxima de 260 km/h e peso máximo de decolagem aproximado de 11.340 kg. Além das missões de patrulhamento e reconhecimento marítimo, a nova plataforma deveria apresentar versatilidade suficiente para executar tarefas de Guerra Antissubmarino (ASW), ataques contra alvos navais de superfície e, adicionalmente, operações de busca e salvamento, conhecidas internacionalmente pela sigla Search and Rescue (SAR). 

O objetivo primordial do desenvolvimento e da futura integração desse novo vetor aéreo consistia em substituir, em curto prazo, o binômio operacional então representado pelos hidroaviões biplanos Consolidated P2Y e Martin P3M, modelos que já se encontravam progressivamente obsoletos diante das novas exigências estratégicas e tecnológicas que se delineavam no cenário internacional da década de 1930. Nesse contexto, no início de 1935, o Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) lançou uma concorrência nacional destinada ao desenvolvimento de uma nova aeronave de patrulha marítima de médio porte. Diversas empresas do setor aeronáutico norte-americano responderam à solicitação, apresentando propostas técnicas e comerciais para atender aos requisitos estabelecidos pela Marinha. Após uma análise criteriosa das propostas submetidas, dois projetos foram selecionados como finalistas: o Douglas XP3D, desenvolvido pela Douglas Aircraft Company, e o Consolidated XP3Y-1, apresentado pela Consolidated Aircraft Corporation. Ambos os projetos receberam financiamento para a construção de protótipos destinados a um amplo programa de avaliações técnicas e operacionais. Embora os ensaios tenham sido conduzidos com elevado rigor técnico, o fator custo-benefício assumiu papel decisivo na seleção final da aeronave, sobretudo em razão da necessidade estratégica de se adquirir um número elevado de unidades em um prazo relativamente curto. Nesse cenário, a proposta apresentada pela Consolidated foi declarada vencedora, destacando-se por oferecer a melhor relação entre custo de aquisição, operação e manutenção. Designada internamente pela fabricante como Consolidated Model 28, a aeronave tinha origem em um projeto inicialmente concebido em 1933 pela equipe liderada pelo engenheiro aeronáutico Isaac M. Laddon. Sua configuração estrutural previa uma aeronave bimotora equipada com motores radiais Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp  inicialmente avaliados em versões próximas da série R-1854  capazes de desenvolver cerca de 825 hp cada. A aeronave apresentava asas altas em configuração parasol, solução que proporcionava maior estabilidade em operações marítimas. Nas extremidades alares eram instalados flutuadores retráteis, sustentados por montantes estruturais, que contribuíam tanto para a estabilidade na água quanto para a redução do arrasto aerodinâmico durante o voo. O protótipo inicial, designado XP3Y-1  em que a letra “X” indicava a natureza experimental do projeto, “P” correspondia à missão de patrulha e “Y” representava o código do fabricante  realizou seu primeiro voo em 28 de março de 1935. A aeronave foi então submetida a um extenso programa de ensaios em voo, durante o qual foram identificadas oportunidades de aprimoramento, especialmente no que se referia ao desempenho durante as fases de decolagem. Como resultado dessas avaliações, diversas melhorias aerodinâmicas foram implementadas. Entre as modificações mais relevantes destacou-se a adoção de motores mais potentes, capazes de desenvolver cerca de 900 hp cada, além de refinamentos na hidrodinâmica do casco e na configuração geral da aeronave.
Concluído o programa de testes e validações, o novo hidroavião foi oficialmente homologado para uso operacional pela aviação naval.  Um primeiro contrato, firmado em outubro de 1935, previa a produção de dez aeronaves de pré-série do novo hidroavião, então designado  PBY-1 Catalina (Modelo 28-1). A primeira célula realizou seu voo inaugural em 19 de maio de 1936, ocasião em que demonstrou imediatamente o potencial do projeto ao estabelecer um notável recorde de distância percorrida sem escalas, totalizando 3.443 milhas (aproximadamente 5.541 km). Esse desempenho confirmou as qualidades da aeronave como plataforma de patrulha marítima de longo alcance. Ainda durante esse período inicial de avaliações, novos pedidos foram realizados pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), refletindo a confiança crescente da instituição no novo hidroavião. As primeiras aeronaves operacionais foram entregues em outubro de 1936 ao Patrol Squadron 11 (VP-11F), uma unidade de patrulha da aviação naval norte-americana. No ano seguinte, o Patrol Squadron 12 (VP-12) também passou a operar o novo modelo, com suas aeronaves integrando um terceiro contrato que previa a aquisição de sessenta unidades. Em maio de 1937 teve início o desenvolvimento de uma nova variante, incorporando diversas melhorias incrementais, designada  PBY-2 Catalina (Modelo 28-2). Essa versão recebeu um contrato subsequente para a produção de cinquenta aeronaves, ampliando a presença do modelo nas unidades de patrulha. Apesar dos avanços alcançados, as experiências operacionais indicaram a necessidade de maior potência motriz, sobretudo para melhorar o desempenho em decolagens a partir da água e ampliar a capacidade de carga. Como resposta a essa demanda, foi desenvolvida a versão PBY-3 Catalina (Modelo 28-3), equipada com dois motores radiais Pratt & Whitney R-1830-66 Twin Wasp, capazes de desenvolver cerca de 1.000 hp cada. Essa nova variante foi prontamente aceita pela Marinha norte-americana, que encomendou sessenta e seis aeronaves. Na sequência, foi introduzida a versão PBY-4 Catalina (Modelo 28-4), da qual foram produzidas trinta e três unidades. Essa variante incorporava motores ainda mais potentes, do tipo Pratt & Whitney R-1830-72 Twin Wasp, com potência aproximada de 1.050 hp, contribuindo para aprimorar o desempenho geral da aeronave. A experiência acumulada no desenvolvimento e na operação dessas primeiras versões levou a Consolidated Aircraft Corporation, ao final de 1939, a propor uma variante significativamente aperfeiçoada do projeto. Surgia assim o Consolidated PBY-5 Catalina (Modelo 28-5), que incorporava uma série de melhorias estruturais e operacionais. Entre as principais modificações destacavam-se a adoção de motores mais potentes, como os Pratt & Whitney R-1830-82 Twin Wasp ou Pratt & Whitney R-1830-92 Twin Wasp, ambos capazes de desenvolver cerca de 1.200 hp. Além da melhoria no conjunto motriz, o PBY-5 apresentava aperfeiçoamentos substanciais em seu armamento defensivo, hélices de passo controlado hidraulicamente, bolhas laterais de observação para ampliar o campo visual da tripulação e maior capacidade de combustível, armazenado em tanques parcialmente protegidos por revestimento auto-vedante. 

O primeiro contrato de produção do PBY-5 foi firmado no final de 1939, contemplando a fabricação de 167 aeronaves. As primeiras unidades foram declaradas operacionais no início de 1940, passando a equipar diversos esquadrões de patrulha norte-americanos Às vésperas da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, o PBY-5 já havia substituído grande parte das aeronaves de patrulha anfíbias mais antigas então em serviço, entre as quais se destacavam os modelos Consolidated P2Y e Martin P3M, consolidando-se como um dos principais hidroaviões de patrulha marítima da aviação naval norte-americana. Durante a Segunda Guerra Mundial, as aeronaves Consolidated PBY-5 Catalina e Consolidated PBY-5A Catalina desempenharam papel de grande relevância no esforço de guerra dos Estados Unidos e de seus aliados. Empregadas em uma ampla variedade de missões estratégicas, essas aeronaves destacaram-se em operações de patrulha marítima, Guerra Antissubmarino (ASW – Anti-Submarine Warfare), bombardeio de patrulha, escolta de comboios navais, missões de transporte e operações de Busca e Salvamento (SAR), particularmente em ambientes aeromarítimos. Um episódio marcante ocorreu em 27 de dezembro de 1941, quando seis aeronaves Consolidated PBY-5 Catalina e um Consolidated PBY-5A Catalina pertencentes ao Patrol Squadron 101 (VP-101)  realizaram um dos primeiros ataques aéreos contra forças japonesas após o início das hostilidades no Pacífico. Nessa ocasião, as aeronaves bombardearam um navio de transporte na Ilha de Jolo, enfrentando intensa oposição de caças inimigos. Apesar de sua velocidade relativamente baixa e de uma manobrabilidade considerada limitada quando comparada a aeronaves mais modernas, o PBY-5 Catalina destacou-se pela robustez estrutural, confiabilidade mecânica e extraordinária versatilidade operacional. Essas qualidades permitiram que a aeronave atuasse com distinção em praticamente todos os teatros de operações do conflito. Seu desempenho revelou-se particularmente relevante nas campanhas conduzidas contra o Império do Japão no teatro do Oceano Pacífico, onde se consolidou como um recurso aéreo essencial para patrulha de longo alcance e vigilância marítima. Outro aspecto notável de sua atuação foi o papel desempenhado em missões de busca e salvamento. Os PBY-5 Catalinas tornaram-se célebres por resgatar milhares de aviadores e tripulantes abatidos ou náufragos nas vastas áreas oceânicas do Pacífico. Nessas operações, as tripulações adotavam diferentes códigos de chamada conforme o tipo de missão executada: “Gato” para missões de combate e “Dumbo” para operações de resgate aéreo. No cenário internacional, a Força Aérea Real (RAF), por meio de seu Comando de Costa (RAF Coastal Command), tornou-se o primeiro grande operador estrangeiro da aeronave. Foi essa força que atribuiu ao modelo a designação “Catalina”, em referência à Ilha de Santa Catalina, situada na costa da Califórnia. O nome seria posteriormente adotado universalmente para identificar a aeronave. Durante a Batalha do Atlântico, os Catalinas  desempenharam papel crucial na proteção aérea dos comboios que cruzavam o Oceano Atlântico. Essas missões eram fundamentais para garantir o fluxo contínuo de suprimentos estratégicos indispensáveis ao esforço de guerra aliado.
Nesse contexto, as aeronaves contribuíram significativamente para a localização e o ataque a submarinos do Alemanha e da Itália, embora sua eficácia inicial tenha sido parcialmente limitada pelas grandes distâncias envolvidas nas operações oceânicas, o que impunha desafios à autonomia operacional disponível. Ao longo do conflito, o PBY-5 Catalina foi amplamente empregado por diversas forças aéreas e navais aliadas. Entre os países operadores destacaram-se Austrália, Brasil, Canadá e a União Soviética, muitos dos quais receberam a aeronave no âmbito do Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), programa de assistência militar promovido pelos Estados Unidos para apoiar as nações aliadas. A ampla presença do PBY-5 Catalina em diferentes teatros de operações, bem como sua versatilidade no cumprimento de múltiplas missões, consolidaram sua reputação como uma das aeronaves de patrulha marítima mais importantes da Segunda Guerra Mundial, desempenhando papel estratégico fundamental para o sucesso das forças aliadas. Ao longo de sua produção, a Consolidated PBY Catalina foi fabricada em diversas variantes pela Consolidated Aircraft Company, que produziu um total de 684 unidades da versão PBY-5 em suas instalações. A necessidade de operar a partir de pistas terrestres, além de superfícies aquáticas, levou ao desenvolvimento do PBY-5A (Modelo 28-5A), uma variante anfíbia equipada com trem de pouso retrátil acionado hidraulicamente. Nesse modelo, as rodas principais eram recolhidas nas laterais da fuselagem por meio de um sistema de engrenagens. O PBY-5A também foi a primeira versão a possibilitar a instalação de um radar de busca marítima, alojado em um radome posicionado acima da cabine. Ao todo, foram produzidas 803 unidades dessa variante. Posteriormente, foi introduzida a última versão da série, o PBY-6A Catalina, que apresentava uma cauda redesenhada, proporcionando melhorias aerodinâmicas e maior estabilidade em voo. Um contrato foi firmado para a produção de 900 aeronaves dessa variante; no entanto, o término da Segunda Guerra Mundial alterou significativamente as prioridades de investimento militar, resultando no cancelamento de diversos programas, incluindo o do PBY-6A. Como consequência, apenas 175 aeronaves dessa versão foram efetivamente concluídas. Além das linhas de montagem da Consolidated Aircraft Company, localizadas em San Diego (Califórnia), New Orleans (Louisiana) e Buffalo (Nova York), a família PBY também foi fabricada sob licença no Canadá pelas empresas Boeing Aircraft of Canada e Canadian Vickers. Na União Soviética, algumas unidades foram produzidas a partir de kits e componentes importados, sendo os hidroaviões designados localmente como GST-MP-7, enquanto as versões anfíbias receberam as classificações KM-1 e KM-2. Até meados de 1945, haviam sido entregues 4.051 unidades do PBY Catalina, consolidando-o como o hidroavião mais produzido na história da aviação mundial. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com crescente preocupação a possibilidade de uma ofensiva estratégica das potências do Eixo - Alemanha Nazista, Itália e Império do Japão  contra o continente americano. Essa apreensão intensificou-se após a Queda da França, em junho de 1940, evento que alterou significativamente o equilíbrio estratégico no Atlântico. A partir daquele momento, surgia a possibilidade de que o regime alemão pudesse utilizar posições estratégicas na costa africana e em territórios sob influência da França de Vichy, como Dacar, além de áreas próximas às Ilhas Canárias, criando potenciais pontos de apoio para operações militares no Atlântico Sul. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ser identificado como uma região de importância estratégica singular. A proximidade entre o Nordeste brasileiro e o litoral ocidental da África  particularmente na faixa entre Natal e Recife  tornava o território brasileiro um ponto-chave para a defesa do hemisfério ocidental e para a manutenção das linhas de comunicação marítimas entre as Américas, a África e a Europa. Além disso, os avanços territoriais japoneses no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul interromperam o acesso dos Aliados às tradicionais áreas produtoras de borracha natural, elevando ainda mais a importância estratégica da Amazônia brasileira como fornecedora de látex, matéria-prima essencial para a produção de borracha utilizada em pneus, vedantes e diversos equipamentos militares. A posição geográfica do litoral nordestino brasileiro revelou-se particularmente favorável para o estabelecimento de bases aéreas e portos militares destinados ao apoio logístico das operações aliadas. Cidades como Recife e Natal tornaram-se pontos de grande relevância estratégica, pois representavam os locais mais próximos entre os continentes americano e africano. Dessa forma, essas localidades poderiam funcionar como uma verdadeira ponte logística para o deslocamento de tropas, aeronaves e suprimentos destinados aos teatros de operações europeu e norte-africano. Diante desse cenário, observou-se em curto espaço de tempo um processo de intensa aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa cooperação resultou em investimentos significativos em infraestrutura militar e na assinatura de diversos acordos estratégicos de defesa. Entre essas iniciativas destacou-se a adesão brasileira ao Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), programa criado pelo governo norte-americano com o objetivo de fornecer apoio material aos países aliados. No caso brasileiro, os termos iniciais desse acordo garantiram uma linha de crédito de aproximadamente 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material militar moderno. Esse financiamento permitiu ao país obter armamentos, aeronaves, veículos militares, equipamentos de comunicação e veículos blindados, contribuindo para um significativo processo de modernização das forças armadas nacionais. Esses recursos revelaram-se particularmente importantes diante do aumento das ameaças representadas pelas operações de guerra submarina conduzidas pela  Marinha Alemã (Kriegsmarine) no Atlântico Sul. Os ataques de submarinos do Eixo contra navios mercantes brasileiros passaram a representar um sério risco à navegação civil e ao comércio exterior do país, especialmente às rotas marítimas que transportavam matérias-primas estratégicas destinadas à indústria de guerra norte-americana.

Nesse contexto, o programa de assistência militar também desempenhou papel fundamental na consolidação da recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), estabelecida em 1941. A nova força aérea herdara da antiga Aviação Militar do Exército Brasileiro e da Aviação Naval da Marinha do Brasil um conjunto heterogêneo de aeronaves, em grande parte obsoletas e inadequadas para enfrentar os desafios operacionais impostos pela guerra moderna. Na primeira fase das operações, as aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) limitaram-se à execução de voos de presença ao longo do litoral brasileiro, utilizando frequentemente aeronaves monomotoras como o North American AT-6B e o Vought V-65B Corsair, tendo pouca efetividade operacional. Esse cenário começou a se transformar no início de 1942, quando, sob incentivos econômicos e pressões diplomáticas, foi autorizado o uso de bases aéreas brasileiras por unidades de patrulha da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy). Nesse momento ocorreriam os primeiros embates contra submarinos alemães e italianos. Essas missões passaram a ser acompanhadas de perto por oficiais da Força Aérea Brasileira, que gradualmente absorveram os conhecimentos inerentes à guerra aeronaval, conquistando aos poucos a qualificação necessária para a multiplicação dessa doutrina no país. O batismo de fogo da Força Aérea Brasileira (FAB) ocorreu em 22 de maio de 1942, quando uma aeronave North American B-25B Mitchell atacou o submarino italiano Barbarigo (da classe Marcello), nas proximidades do arquipélago de Fernando de Noronha e do Atol das Rocas. Esse episódio esteve relacionado ao naufrágio do navio mercante brasileiro Comandante Lyra, atingido quatro dias antes, em 18 de maio, pelo mesmo submarino italiano. No final desse mesmo ano, determinou-se que a Força Aérea Brasileira (FAB) deveria começar a assumir uma parcela significativa das atividades de patrulhamento marítimo e de guerra antissubmarino em seu mar territorial. Como reforço, foram recebidas dez modernas aeronaves Lockheed A-28A-LO Hudson, o primeiro modelo especializado nesse tipo de missão a operar, passando a equipar o Grupo de Aviões Bimotores (GAB), sediado em Natal, no Rio Grande do Norte. Logo em seguida, foram transferidas sete aeronaves PBY-5 Catalina que estavam em operação junto ao Esquadrão VP-94 da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), o qual operava a partir da Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Nesse momento, os grupos de patrulha das duas nações passaram a concentrar suas atividades na Base Aérea do Galeão. No início de 1943 foi criada nessa instalação a USBATU (United States Brazilian Training Unit), uma unidade dedicada ao treinamento das tripulações brasileiras nas doutrinas e técnicas de guerra antissubmarino, ataque antissuperfície e patrulha marítima. Após a conclusão desse programa de formação, três aeronaves PBY-5 Catalina foram destinadas ao 7º Regimento de Aviação, sediado na Base Aérea de Belém; outras três permaneceram no Rio de Janeiro, integrando a Unidade Volante do Galeão;A sétima aeronave foi transferida para o 14º Corpo, sediado na Base Aérea de Florianópolis, ampliando a cobertura de vigilância aérea sobre o litoral sul brasileiro. Essa distribuição permitiu que a recém-estruturada aviação de patrulha da Força Aérea Brasileira passasse a operar de forma mais abrangente ao longo da extensa costa do país, fortalecendo o sistema de defesa marítima nacional em um momento crítico do conflito.
A partir de então, essas unidades passaram a iniciar missões regulares de patrulha, inicialmente com tripulações mistas formadas por oficiais brasileiros e norte-americanos, com o objetivo de facilitar o processo de adaptação operacional, e posteriormente apenas com tripulações brasileiras.O primeiro registro de um confronto direto com forças inimigas envolvendo um hidroavião Consolidated PBY-5 Catalina operado pela Força Aérea Brasileira (FAB) ocorreu em 31 de julho de 1943, em um episódio que marcaria de forma significativa a participação brasileira na campanha antissubmarino no Atlântico Sul durante a Segunda Guerra Mundial. Naquela ocasião, a aeronave PBY-5 “PA-02”, sob o comando do oficial Alberto Martins Torres, encontrava-se em missão de patrulha marítima nas proximidades de Cabo Frio, no litoral do estado do Rio de Janeiro. A missão consistia em acompanhar e proteger a saída do comboio JT-3, que se dirigia aos Estados Unidos transportando cargas estratégicas essenciais ao esforço de guerra aliado.mAlém do comandante Alberto Martins Torres, integravam a tripulação o comandante José Maria Mendes Coutinho Marques, o piloto Luiz Gomes Ribeiro e o copiloto José Carlos de Miranda Corrêa. Durante o cumprimento da missão, a aeronave brasileira passou a monitorar os movimentos do submarino alemão U-199, pertencente à classe Type IXD2. O submarino já havia sido previamente localizado e atacado por uma aeronave PBM-3 Mariner do esquadrão VP-74 da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), que operava na região em cooperação com as forças brasileiras. Embora tenha sofrido danos no ataque inicial, o submarino permaneceu na superfície e reagiu intensamente, utilizando sua artilharia antiaérea contra as aeronaves que o assediavam. Alertado sobre a presença do inimigo, o sistema de defesa brasileiro rapidamente mobilizou seus meios disponíveis. Em resposta, um Lockheed A-28A Hudson da Força Aérea Brasileira decolou do Rio de Janeiro, pilotado pelo Aspirante-a-Aviador Sérgio Cândido Schnoor. Ao alcançar a área de contato, a aeronave realizou um ataque inicial contra o U-199, lançando duas cargas de profundidade Mk.17 que explodiram nas proximidades do submarino. Em seguida, Schnoor conduziu uma segunda investida, abrindo fogo com as metralhadoras frontais da aeronave, atingindo alguns dos marinheiros alemães que operavam as peças de artilharia antiaérea no convés. Após concluir o ataque e consumir parte significativa de sua capacidade ofensiva, o A-28A Hudson deixou a área de operações. A continuidade da ação foi então assumida pelo PBY-5 Catalina “PA-02”, que já patrulhava a região e recebeu do comando a ordem de prosseguir com o ataque ao submarino inimigo. Ao aproximar-se do U-199, o hidroavião brasileiro lançou três cargas de profundidade diretamente sobre o alvo. As explosões ocorreram em pontos críticos do submarino  uma próxima à proa, outra a meia-nau e a terceira nas proximidades da popa. Após o lançamento, o Catalina manteve voo rasante sobre a superfície do mar, reduzindo a exposição ao fogo antiaéreo ainda disparado pela embarcação inimiga. Em seguida, a aeronave iniciou uma curva para um novo ataque e lançou a última carga de profundidade nas proximidades da popa do submarino, que naquele momento já se encontrava imobilizado e iniciava lentamente seu processo de afundamento. Com a neutralização da ameaça, a tripulação brasileira realizou um novo sobrevoo na área e identificou diversos sobreviventes alemães no mar. Demonstrando respeito às tradições humanitárias do mar, a aeronave lançou botes infláveis e suprimentos de emergência aos náufragos, que posteriormente seriam resgatados por um navio norte-americano.

O PBY-5 Catalina responsável por esse ataque bem-sucedido receberia posteriormente uma homenagem simbólica. Em cerimônia realizada no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em 28 de agosto de 1943, a aeronave foi oficialmente batizada com o nome “Arará”. A solenidade refletia o clima patriótico que marcava o país naquele momento da guerra, sendo acompanhada por apresentações musicais e discursos que exaltavam a participação brasileira no conflito. Entre os presentes encontrava-se o comandante do navio mercante Arará, José Coelho Gomes, além de integrantes da tripulação do hidroavião. O batismo da aeronave foi realizado de forma simbólica com água do mar por uma menina chamada Miriam Santos, filha de Durval Batista dos Santos, segundo-comissário do navio mercante Arará. Durval havia perdido a vida em 17 de agosto de 1942, quando o navio foi torpedeado por um submarino alemão enquanto prestava socorro às vítimas do mercante Itagiba, ataque que resultou na morte de vinte tripulantes. Outra cerimônia de natureza semelhante seria realizada cerca de um mês depois, desta vez no estado do Rio Grande do Sul, quando um segundo hidroavião Consolidated PBY-5 Catalina recebeu o nome “Itagiba”, em homenagem ao navio mercante brasileiro afundado em 17 de agosto de 1942 por um submarino alemão. O ataque resultou na morte de 38 pessoas, entre tripulantes e passageiros. Entre os sobreviventes encontravam-se militares do Sétimo Grupo de Artilharia de Dorso, alguns dos quais, dois anos mais tarde, integrariam o contingente brasileiro enviado para combater na Campanha da Itália, em 1944, no âmbito da participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no teatro de operações europeu. Ainda no contexto das operações de patrulha e guerra antissubmarino conduzidas pela Força Aérea Brasileira no Atlântico Sul, um novo episódio de combate ocorreu em 30 de outubro de 1943. Naquela data, o hidroavião PBY-5 Catalina “PA-01”, pertencente ao 1º Grupo de Patrulha e baseado no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, encontrava-se em missão de vigilância marítima ao largo da região de Cabo Frio. A aeronave era pilotada pelo Capitão-Aviador Dionísio Cerqueira de Tanuy quando identificou o submarino alemão U-170, pertencente à classe Type IXC/40. Esse submarino havia sido responsável, dias antes, pelo torpedeamento do navio mercante brasileiro Campos, ocorrido em 23 de outubro de 1943 no litoral do estado de São Paulo. Ao localizar o alvo, o Catalina brasileiro realizou um ataque imediato, lançando duas cargas de profundidade contra o submarino. Contudo, a investida não alcançou o resultado esperado. O submarino reagiu intensamente, utilizando todo o seu armamento de convés contra a aeronave atacante. Durante o confronto, diversos disparos atingiram o hidroavião brasileiro, provocando danos na quilha vertical, na carenagem do motor direito e na parte inferior da fuselagem, que foi perfurada por dezenas de projéteis de metralhadora. Dois integrantes da tripulação, os sargentos Halley Passos e Humberto Mirabelli, foram feridos por estilhaços provenientes dos disparos da artilharia inimiga. Apesar dos danos sofridos e dos ferimentos a bordo, a aeronave conseguiu regressar em segurança à sua base no Rio de Janeiro. Ao chegar, os tripulantes feridos foram atendidos e posteriormente fotografados por jornalistas, imagens que ganharam repercussão na imprensa da época e contribuíram para evidenciar os riscos enfrentados pelas tripulações brasileiras nas operações de patrulha marítima. Relatos da tripulação descrevem que a intensidade do fogo antiaéreo era tão elevada que as explosões das granadas caracterizadas por nuvens de fumaça em tons cinza-claro e cinza-escuro  liberavam um odor acre de cordite, composto químico utilizado em munições e explosivos, cujo cheiro penetrava na cabine da aeronave durante o ataque.
Ao longo do conflito, os hidroaviões PBY-5 Catalina da Força Aérea Brasileira (FAB) realizaram inúmeras missões de patrulha marítima, vigilância costeira e guerra antissubmarino, registrando diversos encontros e combates com submarinos alemães e italianos que operavam no Atlântico Sul. Essas operações desempenharam papel fundamental na proteção das rotas marítimas utilizadas para o transporte de matérias-primas estratégicas e suprimentos destinados ao esforço de guerra aliado. Esse esforço operacional seria ampliado em dezembro de 1944, quando foram recebidos mais 15 aeronaves da versão anfíbia PBY-5A Catalina (Modelo 28-5A). Esses aviões haviam pertencido anteriormente ao esquadrão VP-94 da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) e foram transferidos ao Brasil no contexto da cooperação militar estabelecida entre os dois países durante a guerra. A incorporação dessas aeronaves possibilitou a criação do 2º Grupo de Patrulha, instituído por meio do Decreto-Lei Ministerial nº 6.796, de 17 de agosto de 1944. Com o término do conflito e a subsequente reorganização administrativa e operacional da Força Aérea Brasileira (FAB), foi adotada, a partir de março de 1947, uma nova sistemática de designação das unidades aéreas. Nesse processo, o 2º Grupo de Patrulha foi desativado e suas aeronaves transferidas para a Base Aérea de Belém, no estado do Pará. Por sua vez, o 1º Grupo de Patrulha foi reorganizado e transformado no 1º Esquadrão do 2º Grupo de Aviação (1º/2º GAv), conforme estabelecido pelo Aviso nº 5, de 1º de abril de 1947. A nova unidade recebeu também a importante missão de conduzir a formação e o treinamento em Aviação de Patrulha no âmbito da Força Aérea Brasileira (FAB), tornando-se responsável por preparar, anualmente, novas gerações de pilotos especializados em operações de patrulha marítima e vigilância costeira. Dentre as 07 células do PBY-5 Catalina aerobotes recebidos  em 1943, observaram-se diferenças significativas não apenas nos esquemas de camuflagem e marcações, que seguem padrões norte-americanos da aviação naval, mas também na configuração dos sistemas e equipamentos destinados à detecção e acompanhamento de submarinos e navios de superfície. Por exemplo, as aeronaves PBY-5  de matrícula FAB PA-01 e PA-02 não estavam equipadas com suítes eletrônicas de detecção e combate, enquanto as demais  5 aeronaves contavam com radares de superfície e outros sistemas variados. Com o término do conflito, os PBY-5 Catalina foram gradativamente retirados das missões de patrulha e guerra antissubmarino, sendo redirecionados para operações de busca e salvamento e transporte, com ênfase nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. No final de 1948, o Ministério da Aeronáutica (MAer) adquiriu, junto ao Canadá, seis aeronaves usadas do modelo PBV-1A "Canso"  uma variante canadense do Catalina , que foi empregada anteriormente juto a Força Aérea Real do Canadá (Royal Canadian Air Force). Essa aquisição teve como objetivo substituir as aeronaves perdidas em acidentes e permitir a desativação das células remanescentes dos primeiros PBY-5 Catalina, que, além de apresentar fadiga estrutural, exigiam uma operação mais complexa em comparação com a variante anfíbia mais moderna. Dessa forma, encerramos a trajetória operacional dessas primeiras aeronaves de patrulha e guerra antissubmarino  na Força Aérea Brasileira (FAB). 

Em Escala.
Para a representação do Consolidated PBY-5 Catalina, registrado sob a matrícula FAB PA-02 “Árara”, foi utilizado o kit do Monograma na escala 1/48, reconhecido por sua qualidade e fidelidade. A fim de retratar com precisão a versão operada pela Força Aérea Brasileira (FAB) durante a Segunda Guerra Mundial, optou-se por não incluir as antenas dos sistemas de guerra antissubmarino e os exaustores do motor, adaptando o modelo às características específicas da aeronave em questão. Para a aplicação das marcações, foram utilizados decais produzidos pela FCM Decais, provenientes do conjunto 48/08.
O esquema de cores conforme especificado pelo padrão Federal Standard (FS), descrito a seguir, reflete o padrão de pintura adotado pelas aeronaves de patrulha da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) durante a Segunda Guerra Mundial. Esse esquema foi aplicado com a incorporação das marcações da Força Aérea Brasileira (FAB) nas laterais e nas asas das aeronaves. Cabe ressaltar que, inicialmente, os aviões preservaram os cocares norte-americanos na parte inferior das asas. Com o término do conflito, as aeronaves passaram a adotar um novo padrão de pintura, caracterizado pelo uso de cores brancas e metálicas.

Bibliografia :
- O Consolidate PBY5/A Catalina na FAB, por Aparecido Camazano Alamino- Revista Asass Nº45
- História da Força Aérea Brasileira por :  Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Catalinas do Brasil - http://www.catalinasnobrasil.com.br/site/historico/18-os-pby-5a-da-forca-aerea-brasileira.html
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 - 2015  por Jackson Flores Junior

L-4H-PI Piper Grasshoper


História e Desenvolvimento.
A Taylor Brothers Aircraft Manufacturing Company figura entre as pioneiras da indústria aeronáutica norte-americana voltada à aviação leve. A empresa foi fundada em setembro de 1927, na cidade de Rochester, pelos irmãos Clarence Gilbert Taylor e Gordon A. Taylor. Em um período marcado pela rápida expansão do interesse público pela aviação, os fundadores adotaram o slogan “Buy Your Airplane Taylor Made”, refletindo a ambição de oferecer aeronaves leves, simples e economicamente acessíveis para um mercado civil ainda em formação. A iniciativa dos irmãos Taylor inseria-se em um contexto histórico particularmente dinâmico para a aviação. Nas décadas que se seguiram ao histórico Wright brothers' first powered flight, protagonizado por Wilbur Wright e Orville Wright em 1903, os Estados Unidos testemunharam um acelerado desenvolvimento tecnológico e industrial no setor aeronáutico. Esse ambiente estimulou o surgimento de diversas pequenas empresas dedicadas à produção de aeronaves destinadas ao nascente mercado da aviação geral, que buscava tornar o voo uma atividade acessível a proprietários privados, pilotos esportivos e pequenas operações comerciais. Clarence Taylor, engenheiro aeronáutico autodidata e responsável pelo desenvolvimento técnico dos projetos, uniu esforços com seu irmão Gordon, que atuava principalmente na condução administrativa e comercial da empresa. Ambos compartilhavam a convicção de que o futuro da aviação passaria pela popularização do avião pessoal  uma visão que influenciaria profundamente o desenvolvimento posterior da aviação leve nos Estados Unidos. O primeiro projeto da empresa foi o Taylor Chummy, um monoplano de asa alta com dois assentos, concebido para ser simples de operar e relativamente econômico. Apesar de suas qualidades técnicas, o modelo foi lançado no mercado com preço aproximado de US$ 4.000, valor considerado elevado para o público da época. Essa dificuldade comercial tornou-se ainda mais significativa com o advento da crise econômica que culminaria na Great Depression, evento que reduziu drasticamente a capacidade de investimento de potenciais compradores. A jovem empresa também seria marcada por uma tragédia precoce. Em 24 de abril de 1928, Gordon A. Taylor perdeu a vida em um acidente aéreo durante um voo de demonstração do Chummy no Ford Airport, em Dearborn, quando a aeronave caiu enquanto transportava um agente de vendas. O episódio representou um duro golpe para a pequena companhia, que ainda se encontrava em seus estágios iniciais de desenvolvimento. Apesar da perda pessoal e das dificuldades financeiras, Clarence Taylor decidiu prosseguir com o empreendimento, impulsionado por sua profunda dedicação à aviação. Em busca de melhores condições de financiamento e infraestrutura industrial, ele transferiu a empresa, ainda em 1928, para a cidade de Bradford. A mudança foi motivada por uma proposta de investidores locais interessados em diversificar a economia regional, então fortemente dependente da indústria petrolífera. O município ofereceu instalações industriais e capital inicial, permitindo a continuidade das atividades de desenvolvimento aeronáutico.

Nesse novo contexto surgiu o Taylor E-2 Cub, um monoplano biplace que representava uma evolução conceitual em relação ao Chummy. A aeronave foi  equipada com um motor Brownback Tiger Kitten de 20 hp, posteriormente substituído peloContinental A-40. Embora o projeto apresentasse avanços importantes em termos de simplicidade construtiva e economia operacional, as vendas permaneceram limitadas, sobretudo em virtude da profunda crise econômica naquele período. Como resultado, a empresa acabou entrando em processo de falência em 1930. A continuidade do projeto aeronáutico dos irmãos Taylor somente se tornaria possível graças à intervenção do empresário petrolífero William T. Piper, um dos investidores da companhia. Em 1930, Piper adquiriu os ativos da empresa pela modesta quantia de US$ 761 e promoveu sua reorganização sob a denominação Taylor Aircraft Company, mantendo Clarence Taylor no cargo de presidente e responsável técnico pelos projetos. Sob a nova administração, a empresa deu continuidade ao desenvolvimento do conceito original do Cub, culminando na criação do Taylor J-2 Cub. Derivado diretamente do E-2, o modelo destacou-se pela notável simplicidade de construção, baixo custo de aquisição e elevada confiabilidade operacional  características que o tornariam um verdadeiro sucesso comercial no mercado da aviação leve. O principal produto desse período foi o chamado Taylor Cub, um pequeno avião biplace de asa alta cuja produção teve início em 1931. Graças à sua proposta de aeronave econômica e de fácil pilotagem, o modelo alcançou ampla aceitação, atingindo a expressiva marca de mais de quatro mil unidades produzidas ao longo dos anos seguintes. A trajetória da empresa, sob a liderança de Taylor, foi marcada por desafios e inovações que culminaram na criação de um dos ícones da aviação geral.  No entanto, divergências entre os sócios, especialmente em relação ao redesenho do modelo Cub, levaram à saída de Clarence em 1935. Assim Willian Piper assumiu o controle total da empresa, que foi reorganizada e renomeada como Piper Aircraft Corporation em 1937.. Esse evento marcou o início de uma nova fase para a empresa, que rapidamente se consolidou como uma referência na produção de aeronaves leves para treinamento e transporte. Sob sua lideraça a empresa lançou seu primeiro grande sucesso comercial: o Piper J-2 Cub. Introduzido em 1935, o J-2 era uma evolução do Taylor E-2 Cub, projetado para ser simples, confiável e acessível. Suas variantes J-2E, J-2F, J-2G e J-2H  conquistaram o mercado, totalizando, até 1938, a impressionante marca de 1.200 aeronaves entregues. O sucesso do J-2 foi impulsionado por sua robustez e baixo custo, características que o tornaram ideal para escolas de aviação e proprietários privados em um período de recuperação econômica após a Grande Depressão. Em 1937, a Piper Aircraft Corporation apresentou o Piper J-3 Cub, uma versão aprimorada que se tornaria um ícone da aviação. Equipado com um motor de 50 cavalos de potência, mais potente que o do J-2, o J-3 mantinha a mesma filosofia de design: simplicidade, durabilidade e acessibilidade. Com um preço de venda de apenas US$ 1.000, o J-3 oferecia uma relação custo-benefício imbatível, permitindo sua operação em aeródromos com infraestrutura mínima e custos operacionais reduzidos. Essas qualidades fizeram do J-3 um sucesso imediato, atraindo tanto o mercado doméstico quanto internacional. O J-3 Cub encontrou um mercado particularmente receptivo em países em desenvolvimento.
Inicialmente, a Piper exportava suas aeronaves em kits para montagem nos países de destino, uma estratégia que reduzia custos logísticos e atendia às necessidades locais. Com o tempo, a empresa começou a negociar acordos de licença para produção local, permitindo a incorporação de componentes fabricados nos países compradores. À medida que a década de 1930 chegava ao fim, as tensões geopolíticas globais intensificavam-se, prenunciando um novo conflito de proporções mundiais. Na Europa, os anseios expansionistas da Alemanha nazista, culminando na invasão da Polônia em setembro de 1939, e no Pacífico Central, as ambições imperialistas do Japão, sinalizavam a iminência da Segunda Guerra Mundial. Esse cenário de crescente instabilidade levou o governo dos Estados Unidos a iniciar um amplo programa de rearmamento, mobilizando setores estratégicos da indústria para atender às demandas de defesa nacional. Entre as empresas envolvidas, a Piper Aircraft Corporation, já consolidada como líder na produção de aeronaves leves, desempenhou um papel crucial, fornecendo componentes para diversos equipamentos e sistemas de defesa, além de adaptar sua produção para atender às necessidades militares. Nesse contexto, a urgência de formar pilotos qualificados para operar as armas aéreas do Exército e da Marinha dos Estados Unidos tornou-se uma prioridade estratégica. Para suprir essa demanda, foi instituído o Programa Civil de Treinamento de Pilotos (Civilian Pilot Training Program – CPTP), em 1939, com o objetivo de preparar rapidamente um grande número de aviadores para as forças armadas. Na fase de instrução primária, o governo optou por utilizar o Piper J-3 Cub, equipado com o motor Lycoming O-145-B1 de 65 cavalos de potência, devido à sua simplicidade, robustez e baixo custo operacional. Essas características, aliadas a um preço de aquisição acessível, tornaram o J-3 ideal para o treinamento inicial de pilotos, permitindo sua operação em aeródromos com infraestrutura limitada. Até o encerramento do programa, em 1944, o CPTP formou mais de 400.000 pilotos militares, muitos dos quais desempenharam papéis cruciais em operações aéreas durante a guerra. Paralelamente, o Piper J-3 Cub atraiu a atenção do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), que buscava uma aeronave leve e versátil para missões de ligação, observação no campo de batalha e vigilância de fronteiras. Designado como L-4  nas versões militares, o J-3 foi amplamente utilizado em diversas funções, incluindo reconhecimento aéreo, evacuação médica, transporte de suprimentos e até ajustes de artilharia. Sua capacidade de operar em pistas curtas e improvisadas, combinada com sua confiabilidade, tornou-o indispensável em teatros de operações variados, desde os campos da Europa até as selvas do Pacífico. À medida que as tensões globais escalavam no final da década de 1930, com a iminência da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos intensificou seus esforços para fortalecer sua capacidade militar. Nesse contexto, o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) lançou uma concorrência para adquirir uma aeronave leve destinada a missões de observação, ligação e vigilância.

No início da década de 1940, em meio ao acelerado processo de mobilização industrial que antecedeu a participação dos Estados Unidos no conflito,  passou a adaptar alguns de seus modelos para atender às necessidades emergentes das forças armadas norte-americanas. Nesse contexto, foi apresentado o modelo J-3-O59, uma variante militarizada do consagrado Piper J-3 Cub, especialmente configurada para cumprir funções de observação e ligação. Do ponto de vista estrutural e mecânico, a aeronave mantinha praticamente as mesmas características da versão civil, preservando a simplicidade construtiva e a confiabilidade que haviam consagrado o Cub no mercado. Entretanto, a versão militar incorporava algumas modificações importantes destinadas a ampliar sua utilidade operacional. Entre essas adaptações destacavam-se a instalação de uma claraboia de plexiglas em formato de estufa e a ampliação das janelas traseiras da cabine, soluções projetadas para melhorar significativamente o campo de visão do piloto e do observador durante missões de reconhecimento e coordenação tática. Após a avaliação comparativa de diferentes propostas apresentadas ao Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), o projeto da Piper revelou-se particularmente adequado às exigências militares, sobretudo em razão de sua simplicidade, baixo custo e capacidade de operar a partir de pistas curtas ou improvisadas. Como resultado, foi firmado um contrato inicial para o fornecimento de quatro aeronaves da versão  J-3C-65 Cub, designadas militarmente como YO-59. A boa avaliação operacional dessas levou à formalização de um novo pedido em novembro de 1941, desta vez contemplando quarenta aeronaves adicionais. Esse lote já incorporava modificações específicas voltadas ao emprego militar e recebeu a designação L-4-PI. Entre as alterações introduzidas destacavam-se a instalação de painéis transparentes na seção central da asa ampliando ainda mais a visibilidade para observação vertical  e a adoção de equipamentos de rádio que permitiam comunicação direta com unidades terrestres. As primeiras aeronaves operacionais receberam inicialmente a designação O-59, sendo a letra “O” uma referência direta à função de observação.  Nessas missões, era comum a presença de um observador a bordo, equipado com rádio, cuja função consistia em coordenar o ajuste de tiro da artilharia, transmitindo em tempo real informações sobre a posição e os efeitos dos disparos às unidades posicionadas em solo. Esse tipo de operação revelou-se fundamental para aumentar a precisão do apoio de fogo indireto no campo de batalha. Antes mesmo da entrada oficial dos Estados Unidos na guerra, em dezembro de 1941, o pequeno Cub já havia adquirido também um valor simbólico em iniciativas de apoio internacional. Naquele mesmo ano, a Piper participou de um programa de arrecadação de fundos destinado a auxiliar o Royal Air Force Benevolent Fund, entidade beneficente vinculada à Força Aérea Real (RAF) Como parte da campanha, um exemplar especial do J-3 foi batizado de Flitfire, recebendo pintura e insígnias semelhantes às utilizadas pelos caças britânicos da época. A aeronave foi doada por William T. Piper, em parceria com a Franklin Motor Company, para ser sorteada em benefício do fundo. A iniciativa inspirou distribuidores da Piper em todo o país, que passaram a doar aeronaves adicionais, totalizando 48 unidades destinadas à campanha. No plano internacional, o primeiro cliente estrangeiro da versão militar do Cub foi o governo do México, que incorporou a aeronave em sua força aérea.
A partir de abril de 1942, em consonância com a nova padronização de designações, o modelo passou a ser oficialmente redesignado como L-4, sendo a letra “L” indicativa de sua função principal como aeronave de liaison. Nesse período, o avião recebeu também o apelido oficial de Grasshopper (“Gafanhoto”), uma referência direta à sua notável capacidade de decolar e pousar em espaços extremamente curtos. A utilidade do pequeno avião não passou despercebida à Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), que, em 1942, firmou um contrato para a aquisição de 250 unidades destinadas principalmente a missões de treinamento e ligação naval, recebendo as designações de NE-1 e NE-2. Durante a invasão aliada da França, em junho de 1944, os L-4 Grasshopper consolidaram sua reputação como plataformas ideais para observação no campo de batalha. Sua baixa velocidade de cruzeiro e alta manobrabilidade permitiam orbitar extensas áreas, detectando veículos blindados alemães ocultos em florestas ou terrenos acidentados. Equipados com sistemas de rádio operados por um segundo tripulante, que também atuava como observador, os L-4 transmitiam informações táticas em tempo real. Em uma adaptação notável, algumas unidades foram equipadas com prateleiras para transportar bazucas, operando em duplas ou quartetos para abastecer tropas de infantaria na linha de frente, permitindo ataques diretos contra tanques alemães. O mais célebre desses L-4 adaptados foi o Rosie The Rocketeer, pilotado pelo Major Charles “Bazooka Charlie” Carpenter. Durante a Batalha de Arracourt, entre 18 e 29 de setembro de 1944, no interior da França, Carpenter e seu Grasshopper foram creditados pela destruição de seis tanques inimigos e vários carros blindados, demonstrando a ousadia e a eficácia dessa improvável aeronave de combate.  Encerrada apenas em 1947, a linha de produção entregou um total de 19.888 unidades, um feito impressionante que demonstra a escala e a eficiência da indústria aeronáutica americana durante o conflito. Nos momentos mais críticos da guerra, a Piper alcançou uma cadência extraordinária, produzindo uma aeronave a cada 20 minutos, um testemunho da mobilização industrial e da engenhosidade que caracterizaram o esforço de guerra dos Aliados. No período pós-guerra, os L-4 Grasshopper continuaram a desempenhar papéis vitais em diversas forças aéreas. A Força Aérea dos Estados Unidos (United States Air Force – USAF), criada em 1947, utilizou extensivamente essas aeronaves em missões de regulação de tiro de artilharia, evacuação aeromédica, reconhecimento de campo de batalha e controle aéreo avançado. Durante a Guerra da Coreia (1950–1953), a Força Aérea da Coreia do Sul (Daehanminguk Gong-gun) operou os L-4, aproveitando sua versatilidade para apoiar operações táticas. Centenas de L-4 foram classificados como excedentes de guerra e transferidos para nações aliadas. A França empregou essas aeronaves durante a Guerra da Argélia (1954–1962), em missões de observação e ligação, enquanto a Tailândia integrou os L-4 para vigilância e transporte leve. Até o final da década de 1960, milhares de J-3 Cub permaneciam em serviço, utilizados para treinamento, voos recreativos e tarefas utilitárias. Até hoje, em 2025, centenas de Piper Cubs continuam em condições de voo, preservados por entusiastas e colecionadores.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a considerar com grande preocupação a possibilidade de uma eventual invasão do continente americano pelas forças do Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. Essa apreensão tornou-se ainda mais evidente após a capitulação da França, em junho de 1940, quando a Alemanha Nazista passou a ter potencial acesso a bases operacionais em territórios estratégicos, como as Ilhas Canárias, Dacar e outras colônias francesas no continente africano. Essa possibilidade criava condições favoráveis para o estabelecimento de pontos de apoio que poderiam servir de base para uma eventual incursão militar no continente americano. Nesse contexto, o Brasil foi identificado como uma das regiões mais sensíveis do ponto de vista estratégico, principalmente em razão de sua proximidade geográfica com o continente africano, área que também figurava nos planos de expansão territorial alemães durante o conflito. Além disso, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul transformaram o Brasil no principal fornecedor de látex natural para os Aliados, matéria-prima essencial para a produção de borracha natural, insumo indispensável para a indústria bélica, especialmente na fabricação de pneus, vedações e diversos componentes utilizados em veículos e aeronaves militares. Paralelamente a essas questões, a posição geográfica do litoral brasileiro mostrava-se extremamente vantajosa para o estabelecimento de bases aéreas e portos militares na região Nordeste, particularmente na cidade de Recife, considerada o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano. Dessa forma, essa localidade poderia ser utilizada como uma importante ponte logística para o deslocamento de tropas, suprimentos e aeronaves destinadas aos teatros de operações europeu e norte-africano. Diante desse cenário, observou-se, em um curto espaço de tempo, um movimento de aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos, resultando em investimentos estratégicos e na assinatura de diversos acordos de cooperação bilateral. Entre essas iniciativas destacou-se a adesão brasileira ao programa de ajuda militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), cujo principal objetivo era promover a modernização das Forças Armadas Brasileiras. Os termos desse acordo garantiram ao Brasil uma linha inicial de crédito de aproximadamente US$ 100 milhões, destinada à aquisição de material bélico. Isso possibilitou ao país acesso a equipamentos militares modernos, incluindo aeronaves, veículos blindados, armamentos e diversos sistemas de apoio logístico. Esses recursos revelaram-se fundamentais para que o Brasil pudesse enfrentar as crescentes ameaças representadas pelos ataques de submarinos alemães, que intensificavam os riscos à navegação mercante no Atlântico Sul. Esses ataques impactavam diretamente o comércio exterior brasileiro com os Estados Unidos, responsável pelo transporte contínuo de matérias-primas estratégicas destinadas à indústria de guerra norte-americana. Com o agravamento da situação internacional, a participação brasileira no esforço de guerra aliado passaria a se ampliar gradualmente,  e logo o país não se limitaria apenas ao fornecimento de recursos estratégicos, , sinalizando a possibilidade de uma participação mais ativa no conflito. O Brasil recebeu, por meio desse programa de cooperação militar, uma expressiva quantidade de equipamentos bélicos, incluindo caminhões, veículos utilitários leves, aeronaves, navios e diversos tipos de armamentos. 

Posteriormente, conforme previsto nos acordos firmados com os Aliados, o Brasil ampliaria gradualmente sua participação no esforço de guerra. Esse compromisso seria formalizado em 9 de agosto de 1943, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, publicada no boletim reservado de 13 de agosto do mesmo ano, que estabeleceu oficialmente a estrutura da Força Expedicionária Brasileira (FEB). A missão atribuída ao Exército Brasileiro consistia em participar diretamente das operações de combate no teatro europeu. Para o comando foi designado o General-de-Divisão João Baptista Mascarenhas de Moraes, que lideraria uma força composta por três regimentos de infantaria  o 6º Regimento de Infantaria (Caçapava), o 1º Regimento de Infantaria e o 11º Regimento de Infantaria  além de quatro grupos de artilharia, sendo três equipados com peças de 105 mm e um com peças de 155 mm. A estrutura da divisão incluía ainda um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento e uma companhia de transmissões responsável pelas comunicações. Além dessas unidades terrestres, ficou também definido o envio de duas unidades de aviação para apoiar as operações da  Força Expedicionária Brasileira (FEB). Uma dessas unidades seria dedicada a missões de ligação e observação aérea em apoio às unidades do Exército Brasileiro. Para atender a essa necessidade operacional, seria criada em 20 de julho de 1944 a 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1º ELO). Essa unidade teria como principal missão apoiar a Artilharia Divisionária da Força Expedicionária Brasileira (FEB), atuando em missões de ligação, observação aérea e regulagem de tiro de artilharia. Para equipar essa nova unidade foi definido, nos termos do programa Lend-Lease Act, o fornecimento de dez aeronaves do modelo Piper L-4H Grasshopper, versão militar do popular avião leve de observação utilizado pelas forças norte-americanas. Curiosamente, o primeiro exemplar do tipo a ser recebido no Brasil foi o segundo protótipo da aeronave originalmente designada Piper YO-59, que posteriormente receberia a designação Piper L-4. Essa aeronave foi entregue em 1943 à Força Aérea Brasileira (FAB) para ser empregada em atividades de instrução na Escola Técnica de Aviação (ETAv). A 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação seria inicialmente formada por onze pilotos, todos oficiais oriundos da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB). O treinamento específico para as missões de observação e regulagem de tiro foi realizado em cooperação com oficiais do Exército Brasileiro, no estande de tiro de Gericinó, no Rio de Janeiro, onde foram conduzidos exercícios de observação aérea durante a execução de tiros de artilharia. Vale destacar um fato curioso: as aeronaves utilizadas nessa fase inicial de treinamento eram os treinadores Fairchild PT-19, que não possuíam cabine fechada nem rádio de bordo. Este último equipamento, no entanto, seria absolutamente essencial para a execução das missões reais no teatro de operações europeu, uma vez que a comunicação por rádio era fundamental para a correção e coordenação do fogo de artilharia em combate.
A participação da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO) da Força Aérea Brasileira (FAB) na Segunda Guerra Mundial constitui um dos episódios mais notáveis e simbólicos da presença militar brasileira no conflito. Integrada ao esforço aliado no Teatro de Operações do Mediterrâneo, a unidade desempenhou papel fundamental no apoio às operações terrestres da Força Expedicionária Brasileira (FEB), evidenciando a capacidade de adaptação, coragem e profissionalismo dos aviadores brasileiros em um ambiente de guerra complexo e adverso. A esquadrilha era composta por 35 militares  entre pilotos, mecânicos e pessoal de apoio  que embarcaram rumo à Itália em 22 de setembro de 1944, juntamente com o 2º e o 3º escalões da FEB. A travessia do Atlântico foi realizada a bordo de navios de transporte de tropas da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), refletindo a estreita cooperação logística entre o Brasil e os Estados Unidos no contexto da aliança estabelecida durante o conflito. Após a viagem transatlântica, o contingente brasileiro desembarcou no porto de Nápoles, em 6 de outubro de 1944, seguindo posteriormente por via terrestre até a região de Livorno, onde iniciou os preparativos operacionais para sua entrada em combate. As aeronaves destinadas à unidade  dez exemplares do modelo Piper L-4H Grasshopper  chegaram desmontadas ao campo aéreo de San Rossore, próximo à cidade de Pisa. Fornecidas pelos Estados Unidos no âmbito da cooperação militar aliada, essas aeronaves de observação eram conhecidas por sua robustez, simplicidade mecânica e grande versatilidade, características que as tornavam particularmente adequadas para missões de ligação, reconhecimento e correção de tiro de artilharia. Coube aos mecânicos brasileiros a montagem das aeronaves, que posteriormente receberam as matrículas FAB 01 a 10. Inicialmente, os aparelhos mantiveram as insígnias da Força Aérea dos Estados Unidos (USAAF), mas passaram a ostentar também os cocares da  Força Aérea Brasileira (FAB) aplicados nas laterais da fuselagem. As marcações americanas nas asas foram preservadas por razões de identificação visual pelas forças aliadas que operavam no teatro europeu, evitando possíveis incidentes de fogo amigo. Posteriormente transferida para o campo aéreo de San Giorgio, nas proximidades de Pistoia, a 1ª ELO realizou sua primeira missão operacional em 13 de novembro de 1944. A partir desse momento, a esquadrilha passou a executar voos praticamente diários em apoio direto às unidades de artilharia brasileiras, atuando ao longo da chamada Linha Gótica, um dos principais sistemas defensivos alemães no norte da Itália. Entre as principais tarefas desempenhadas pelos aviadores brasileiros destacavam-se a  regulação de tiro de artilharia, com as aeronaves sendo empregadas para localizar posições inimigas e orientar, por rádio, o ajuste do fogo das baterias de artilharia brasileiras.  Reconhecimento e observação aérea, neste emprego à baixa velocidade e à excelente manobrabilidade do L-4, os pilotos podiam voar a pequenas altitudes e identificar posições inimigas ocultas em terrenos montanhosos ou cobertos por vegetação. As informações obtidas eram rapidamente transmitidas às unidades terrestres, contribuindo para a elaboração de relatórios táticos essenciais ao planejamento das operações. E por fim missões de ligação e transporte leve, transportando  mensagens urgentes, pequenas cargas de suprimentos e, em situações emergenciais, realizavam evacuações aeromédicas a partir de campos improvisados próximos à linha de frente.

As condições operacionais enfrentadas pela esquadrilha estavam longe de ser favoráveis. O inverno europeu de 1944–1945 foi um dos mais rigorosos do século XX, com temperaturas extremamente baixas, gelo acumulado nas pistas e motores frequentemente afetados pelo frio intenso. Ainda assim, a 1ª ELO manteve um elevado nível de eficiência operacional. Durante a Campanha da Itália, a atuação da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO) da Força Aérea Brasileira (FAB) constituiu um importante elemento de apoio aéreo às operações terrestres conduzidas pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) e pelas demais forças aliadas. Inserida em um contexto operacional caracterizado por intensos combates e difíceis condições geográficas e climáticas, a esquadrilha operou a partir de diversos campos de aviação estrategicamente localizados no norte da Itália, entre eles Livorno, Pisa, Pistoia, Suviana e Porretta Terme. Essas localidades situavam-se nas proximidades da Linha Gótica, poderoso sistema defensivo alemão que atravessava os Apeninos e constituía um dos últimos grandes obstáculos à progressão aliada rumo ao norte da península italiana. A esquadrilha realizou, entre novembro de 1944 e maio de 1945, um total de 684 missões operacionais. Essas atividades foram conduzidas por onze pilotos brasileiros, frequentemente acompanhados por onze oficiais observadores do Exército Brasileiro, responsáveis por auxiliar na identificação de alvos e na coordenação das ações de artilharia. Em determinadas ocasiões, quatro oficiais do Exército Britânico (Royal Army) também participaram das missões, colaborando em tarefas de coordenação tática entre unidades aliadas. As operações realizadas pela 1ª ELO abrangiam um amplo espectro de tarefas essenciais para o apoio às forças terrestres. Entre elas destacavam-se a regulação de tiro de artilharia, na qual os observadores a bordo identificavam alvos inimigos e transmitiam, por rádio, as correções necessárias para o ajuste do fogo das baterias brasileiras; as missões de reconhecimento aéreo, destinadas à observação de posições alemãs e ao levantamento de informações sobre movimentações inimigas; e as missões de ligação, fundamentais para a rápida transmissão de mensagens, transporte de pequenos suprimentos e manutenção do fluxo de comunicações entre os diversos comandos aliados. O ambiente operacional no norte da Itália apresentava inúmeros desafios. As áreas de atuação da esquadrilha eram frequentemente protegidas por intensa defesa antiaérea alemã, o que representava constante ameaça às aeronaves de observação, normalmente obrigadas a voar a baixas altitudes. Apesar desses riscos, nenhum dos aviões da unidade foi abatido durante o conflito um resultado notável que refletia tanto a habilidade e a prudência dos pilotos brasileiros quanto as qualidades operacionais do Grasshopper, cuja simplicidade estrutural, reduzida velocidade e elevada manobrabilidade permitiam voos rasantes e aproximações discretas às linhas inimigas. Com o término das hostilidades no teatro europeu, em maio de 1945, após a capitulação das forças alemãs na Itália, as aeronaves da  1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO) continuaram sendo amplamente empregadas em missões de ligação, transporte leve e correio aéreo, assegurando o funcionamento das comunicações e da logística entre as unidades da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em processo de reorganização e desmobilização. 
A partir de 4 de maio, a esquadrilha passou a operar a partir de Piacenza, transferindo-se na semana seguinte para Portalbera, nas proximidades de Milão, e posteriormente, em 12 de junho, para Bérgamo. Essas atividades foram essenciais para garantir a continuidade das comunicações militares durante a fase final da presença brasileira na Itália. Em 14 de junho de 1945, a 1ª ELO foi oficialmente desativada por meio de boletim emitido pela Artilharia Divisionária do Exército Brasileiro, encerrando sua missão no teatro de operações italiano. Seus integrantes  pilotos, mecânicos e pessoal de apoio — foram então incorporados ao efetivo do 1º Grupo de Aviação de Caça, conhecido como Esquadrão Senta a Pua, com o qual regressariam ao Brasil. O retorno ocorreu em 6 de julho de 1945, quando os militares brasileiros embarcaram no navio de transporte de tropas USS General M. C. Meigs (AP-116), que partiu do porto de Nápoles com destino ao Rio de Janeiro. Com isso, encerrava-se a trajetória operacional da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação na Itália, cuja contribuição foi decisiva para a eficácia da artilharia e das operações terrestres da FEB, consolidando um legado de competência e profissionalismo na história da aviação militar brasileira. Após o término da Segunda Guerra Mundial, os dez Piper L-4H Grasshopper da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação (1ª ELO) foram desmontados e transportados ao Brasil por um navio da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy). Chegando ao Rio de Janeiro, foram estocados no Depósito Central de Armamentos do Exército Brasileiro. Por sua vez o Piper L-4-PI, que já se encontrava no Brasil foi transferido para a Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAer), quando da extinção do Escola Técnica e Aviação (ETAv). Apesar de ser destinado a instrução em solo, existem evidências de que aquela aeronave foi mantida constantemente em condições de voo.  Entre 1954 e 1955, as dez aeronaves “italianas” foram redescobertas e remontadas, recebendo cocares e matrículas do Exército Brasileiro. Operadas brevemente, foram transferidas para a Força Aérea Brasileira (FAB). A reativação da 1ª ELO, em 12 de dezembro de 1955, marcou a alocação de três L-4H à unidade, com mais entregas nos dois anos seguintes. Em abril de 1957, o L-4-PI da Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAer)completou a frota da esquadrilha. Na segunda metade da década de 1950, a aquisição de aeronaves mais modernas, como o Cessna L-19 Bird Dog, tornou os L-4H obsoletos para missões de ligação e observação. Em 1958, as células remanescentes foram recolhidas ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF) e, em 1959, excluídas da carga do Ministério da Aeronáutica (MAer). Pelo menos nove aeronaves foram transferidas ao Departamento de Aviação Civil (DAC), passando ao mercado civil, onde seguiriam operando por décadas. Uma das células seria reservada para preservação, desta maneira o L-4H FAB 05 foi   Recolhido ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF), após ser excluído da carga do Ministério da Aeronáutica (MAer) em 1959. Destinado à preservação, o FAB 05 foi restaurado e incorporado ao acervo do Museu Aeroespacial, fundado em 1976. Exibido com cocares da FAB e marcações da Campanha da Itália, representa a bravura da 1ª ELO e a contribuição brasileira à vitória aliada. 

Em Escala.
Para representarmos o Piper L-4H "FAB 09", fizemos uso kit do fabricante Hobbycraft (o modelo mais próximo seria o Smer) na escala 1/48, sendo necessário alterar a disposição das janelas laterais traseiras e também o teto, processo este facilmente executável pois as duas metades da fuselagem são injetadas em plástico transparente, bastando conformar as mesmas com fita adesiva. Os decais foram obtidos do set, presente no livro " Força Aérea Brasileira, na Segunda Guerra Mundial " de Luciano B. Monteiro & Sandro Dinarte, Editora Adler.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado e todas as aeronaves Piper L-4H Grasshoper em serviço na Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) a durante a Segunda Guerra Mundial, durante este período as aeronaves operaram com marcações brasileiras e americanas, no pós-guerra este padrão foi acrescido das cores nacionais na cauda tanto na Força Aérea Brasileira (FAB) quanto no Exército Brasileiro sendo este mantido até o final de sua carreira operacional no final da década de 1950.

Bibliografia :
- Piper J-3 Cub   Wikipédia - http://en.wikipedia.org/wiki/Piper_J-3_Cub
- História da Força Aérea Brasileira por :  Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Os Olhos dos Pracinhas, por Ricardo Bonalume Neto - Revista Força Aérea nº 03
- Olho Nele - 2º Ten QOCon His Daniel Evangelista Gonçalves
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 - 2015  por Jackson Flores Junior