Krupp Modelos 1872 a 1938 (75 mm)

História e Desenvolvimento.
A história da Krupp remonta ao início do século XIX, período marcado pela intensificação da Revolução Industrial na Europa. Em 20 de novembro de 1811, Friedrich Krupp, em parceria com os irmãos Georg Karl Gottfried e Wilhelm Georg Ludwig von Kechel, fundou na cidade de Essen a empresa Friedrich Krupp, inicialmente dedicada à produção de aço fundido segundo padrões britânicos  então considerados os mais avançados do mundo. Nas forjas de Essen, operários trabalhavam sob o calor extremo das fundições para produzir materiais de elevada qualidade, estabelecendo as bases de uma corporação que, mais tarde, se tornaria sinônimo de poderio industrial e bélico. Com a morte de Friedrich Krupp em 1826, a direção da empresa passou, poucos anos depois, a seu filho Alfred Krupp, que assumiu efetivamente o controle por volta de 1830, aos 18 anos de idade. Sob sua liderança, a Krupp transformou-se em um conglomerado industrial de alcance global. Alfred promoveu inovações pioneiras, como o aro de roda ferroviária inteiriço, que revolucionou o transporte sobre trilhos ao oferecer maior robustez e segurança, contribuindo para a expansão das ferrovias europeias e para a mobilidade logística de tropas e suprimentos militares. Entretanto, a verdadeira projeção internacional da empresa ocorreu com o desenvolvimento de canhões de aço fundido, que superavam amplamente os modelos de bronze então predominantes. Esses canhões apresentavam maior resistência, precisão e durabilidade, características demonstradas nas vitórias prussianas durante a Guerra Austro-Prussiana (1866) e, posteriormente, na Guerra Franco-Prussiana (1870–1871). Enquanto engenheiros da Krupp se dedicavam a cálculos, experimentos metalúrgicos e testes exaustivos, os artilheiros prussianos reconheciam nessas peças um instrumento decisivo no campo de batalha. A expansão da empresa foi consolidada ao longo do século XIX, quando a família Krupp assumiu definitivamente o comando e transformou a fábrica de Essen no principal fornecedor de armamentos do recém-unificado Império Alemão. A reputação da Krupp ultrapassou fronteiras, levando à exportação de seus canhões para diversos países, como Rússia, Áustria-Hungria e, de modo especial, o Império Otomano, com o qual estabeleceu contratos estratégicos ao longo da década de 1860. Nesse contexto de crescente sofisticação tecnológica, em 1897 foi lançado o canhão de campanha Krupp de 75 mm, um projeto inovador que daria origem a uma importante família de armas de artilharia no início do século XX. Dotado de elevado alcance  até 8.500 metros  e cadência de tiro superior, o modelo combinava mobilidade, precisão e potência, características alinhadas às táticas de guerra modernas que começavam a se delinear. Seu sucesso técnico conduziu ao desenvolvimento do Modelo Krupp 1903, que incorporava melhorias estruturais, especialmente em estabilidade e precisão. O Exército Alemão (Reichswehr), já restrito pelas limitações impostas pelo pós-guerra, adotou o canhão em larga escala para exercícios de treinamento. Nessas atividades, artilheiros submetiam o equipamento a condições extenuantes, calibrando peças sob clima adverso e terrenos irregulares, validando sua confiabilidade. 

O desempenho superior do Krupp 1903 garantiu à empresa um contrato governamental de grande relevância, reforçando sua posição como um dos principais fornecedores do mercado internacional de armamentos. Produzido como um “stock gun”, o canhão de campanha Krupp de 75 mm Modelo 1903 foi concebido para exportação em larga escala, permitindo apenas modificações mínimas a fim de atender às necessidades específicas de cada cliente. Essa padronização, aliada à flexibilidade de adaptação, consolidou a estratégia comercial da Krupp e ampliou sua influência no cenário bélico na virada do século XIX para o XX. O primeiro grande cliente desse modelo foi o Império Otomano, que adquiriu 558 unidades do Krupp 1903, projetadas segundo requisitos próprios, incluindo escudo de proteção e culatra de bloco deslizante horizontal. Essas peças tiveram papel significativo em diversos conflitos regionais, destacando-se durante a Primeira Guerra dos Balcãs (1912–1913). Nesse período, 126 canhões otomanos, anteriormente comprados, foram capturados pelo Exército Real Sérvio, que posteriormente os empregou na Primeira Guerra Mundial um testemunho da robustez e longevidade do projeto. Outros países europeus também incorporaram o Krupp 1903. Dinamarca e Holanda adquiriram o modelo, sendo que os holandeses compraram 120 unidades, além dos direitos de produção. Em ambos os casos, os canhões passaram por processos de modernização, incorporando rodas de aço e pneus pneumáticos, o que permitia tração por veículos automotores  uma atualização essencial numa era de mecanização militar crescente. As unidades fornecidas à Dinamarca receberam a designação “03 L/30” e foram inclusive utilizadas nas fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, integrando os esforços de resistência dinamarquesa à invasão alemã em 1940. O caso mais expressivo, contudo, foi o da Romênia, que adquiriu 636 unidades, representando a maior compra de um único tipo de canhão na história militar romena. Denominado localmente como “Tunul de câmp Krupp, cal. 75 mm, md. 1904”, o modelo se destacava pela adoção da mira Ghenea-Korodi, projetada e fabricada na Romênia, considerada mais precisa que a versão alemã. Durante a Primeira Guerra Mundial, esses canhões formaram a espinha dorsal da artilharia romena, equipando todos os regimentos de artilharia das divisões de infantaria. Nos campos de batalha dos Cárpatos, artilheiros romenos enfrentavam condições severas  lama, frio intenso e fogo inimigo  carregando projéteis de 6,5 kg e ajustando continuamente as miras para atingir alvos a grandes distâncias. Apesar do desgaste decorrente do uso prolongado e das perdas em combate, restavam 321 peças em 1926, e mesmo consideradas tecnologicamente ultrapassadas, permaneceram em serviço ativo até 1942, evidenciando sua durabilidade e confiança operacional. A Bélgica também participou do conjunto de usuários do Krupp 1903, adquirindo uma licença para produzi-lo na Fonderie Royale des Canons, sob a designação Canon de 7c5 M 1905 TR et TRA. Utilizados tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra Mundial, os exemplares capturados pelas forças alemãs receberam a denominação 7.5 cm Feldkanone 235(b). Embora o número exato de unidades produzidas na Bélgica não seja detalhado, a existência da licença indica uma produção significativa.
No Japão, o governo imperial adquiriu os direitos de produção do Krupp 1903, resultando no desenvolvimento local do canhão Tipo 38 de 75 mm, que se tornou um dos principais armamentos do Exército Imperial Japonês. Esse modelo foi amplamente empregado nas campanhas contra a China Nacionalista durante a década de 1930, especialmente nas fases iniciais da Segunda Guerra Sino-Japonesa. A adoção do Tipo 38 ilustra a influência tecnológica alemã sobre o processo de modernização militar japonês no período pré-Segunda Guerra Mundial. No contexto europeu, a primeira década do século XX foi marcada por uma crescente corrida armamentista, impulsionada pelo acirramento das tensões geopolíticas que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Nesse ambiente, o governo belga firmou um contrato de grande vulto para a produção sob licença de uma versão aprimorada do Krupp 7,5 cm Field Gun Modelo 1903, diretamente com o fabricante alemão Friedrich Krupp AG. Essa variante modernizada recebeu a designação Canon de 7c5 M 1905 TR et TRA e foi fabricada localmente pela Fonderie Royale des Canons (FRC). As duas versões do canhão atendiam a diferentes requisitos operacionais: TR (Traction Roulante): versão originalmente tracionada por cavalos e TRA (Traction Automobile): versão modernizada, adaptada na década de 1920 para tração motorizada, acompanhando a mecanização crescente dos exércitos europeus. O canhão utilizava uma culatra de cunha horizontal deslizante e possuía um escudo de proteção, aumentando a segurança das guarnições. Os primeiros lotes produzidos na Bélgica apresentavam baixo índice de nacionalização, mas, conforme a FRC consolidava sua capacidade industrial, esse índice alcançou cerca de 90%, permanecendo importado apenas o tubo do canhão, ainda fabricado pela Krupp. Em termos técnicos, tratava-se de um projeto convencional para sua época, empregando sistema de recuo hidropneumático e uma culatra do tipo bloco deslizante horizontal. Pesando cerca de 1.070 kg, possuía elevação entre –8° e +16° e podia disparar projéteis de estilhaços de 6,5 kg, atingindo um alcance máximo aproximado de 8.000 metros, desempenho considerado expressivo para o período. Em 1914, às vésperas da invasão alemã, o Exército Belga (Armée belge) contava com dezoito brigadas de artilharia de campanha, cada uma composta por três baterias armadas com canhões de 75 mm do Modelo Krupp 1905. Embora o número exato de unidades produzidas na Bélgica não seja precisamente documentado, estimativas baseadas na capacidade industrial da FRC sugerem que entre 100 e 200 peças tenham sido fabricadas dentro do escopo de produção licenciada. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), o Canon de 7c5 M 1905 desempenhou papel central nas operações de defesa belgas, apoiando unidades de infantaria em batalhas como a defesa de Antuérpia e nas ações da Frente Ocidental. Com cadência de disparo entre 15 e 20 tiros por minuto, a arma era eficaz contra posições entrincheiradas e concentrações de tropas inimigas. A maior parte dessas peças foi perdida ou capturada durante o rápido avanço das forças alemãs em 1914. Após essas perdas, a artilharia belga passou a depender majoritariamente dos canhões de 75 mm fornecidos pela França, que se tornaram o principal armamento de campanha do país ao longo da guerra.

Neste momento a  equipe de projetos da Friedrich Krupp AG, sempre se dispunha livremente a customizar o desing de seus produtos destinados ao mercado de exportação, visando assim atender a necessidades especificadas de cada novo cliente. A exemplo podemos citar o Modelo 1908, que teve seu projeto fundamentalmente alterado para atender aos requisitos apresentados pelo Exército Imperial do Japão.  O Krupp 75 mm Modelo 1908 foi projetado como uma evolução do bem-sucedido Field Gun de 75 mm Modelo 1903, que alcançou exportações significativas para países como Romênia, Império Otomano e Holanda. A pedido do Exército Imperial do Japão, a equipe de projetos da Krupp realizou alterações substanciais para atender às especificações japonesas, demonstrando a flexibilidade que caracterizava a empresa. O Modelo 1908, designado como Type 38 no Japão após aquisição dos direitos de produção, apresentava um cano mais longo, com comprimento de 30 calibres (L/30, cerca de 2,25 metros), em comparação com os modelos anteriores, como o Krupp 1903. Essa modificação aumentava o alcance máximo para aproximadamente 9.000 metros, superando os 8.500 metros do Modelo 1903, embora tornasse o canhão ligeiramente mais pesado, com cerca de 1.100 kg. A carruagem de transporte foi completamente redesenhada, rompendo com o padrão da Krupp. Em vez da típica caixa aberta usada no Krupp 7.5 cm Gebirgskanone M.1904 (canhão de montanha), o Modelo 1908 adotou elementos tubulares, assemelhando-se a um grande diapasão no plano horizontal. A seção traseira da trilha, que suportava a pá de ancoragem, podia ser dobrada sobre os tubos dianteiros, facilitando o transporte em terrenos acidentados. Esse design inovador, inspirado em projetos da concorrente Ehrhardt Rheinmetall AG, conferia maior mobilidade e robustez, ideais para as operações do Exército Imperial Japonês em terrenos variados da Manchúria e da China. Na fábrica da Krupp em Essen, engenheiros e operários trabalhavam com precisão artesanal, moldando o aço em forjas escaldantes e testando cada componente para garantir durabilidade e desempenho.  Adquiridos as centenas pelo governo do Império do Japão, logo se tornaria  a espinha dorsal de sua artilharia de campanha. Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), o canhão foi amplamente utilizado, oferecendo suporte às divisões de infantaria com sua cadência de 15 a 20 disparos por minuto e projéteis de 6,5 kg. Sua mobilidade, garantida pela carruagem tubular, permitia deslocamentos rápidos em terrenos difíceis, enquanto o alcance ampliado era crucial para atingir posições fortificadas. Este modelo seria considerado para exportação há outros países mantendo o calibre 75mm L/30, se tornando um grande sucesso comercial na primeira década do século vinte. 
O Tratado de Versalhes impôs duras sanções à Alemanha, incluindo indenizações financeiras e limites rigorosos à produção industrial. Para a Friedrich Krupp AG, que havia se tornado sinônimo de armamentos desde as guerras prussianas de 1866 e 1870, as restrições foram particularmente severas: a empresa foi proibida de fabricar armas e munições, e a produção de aço foi limitada por cotas máximas. Essas medidas afetaram profundamente os trabalhadores de Essen, que, após anos moldando canhões em forjas escaldantes, enfrentaram a incerteza de um futuro sem a principal atividade da empresa. Para muitos, a transição foi um teste de adaptação, com famílias inteiras dependentes da Krupp para sua subsistência. Sob a liderança de Gustav Krupp, a empresa se reinventou, voltando-se para a produção de ferramentas, máquinas agrícolas e materiais para a indústria de base, como locomotivas e componentes ferroviários. Nas oficinas de Essen, operários que outrora forjavam canhões agora fabricavam arados e peças industriais, mantendo viva a tradição de precisão da Krupp. Esse período de paz forçada foi marcado por um espírito de resiliência, com engenheiros e técnicos buscando soluções inovadoras para sustentar a empresa em um cenário de restrições. A ascensão de Adolf Hitler ao poder em 1933, consolidada em 1934, marcou o início de um ambicioso programa de rearmamento alemão, desafiando as restrições do Tratado de Versalhes. A Friedrich Krupp AG foi convocada a retomar sua produção bélica, reacendendo as forjas de Essen com um novo propósito. Para os trabalhadores, o retorno à fabricação de armas era tanto uma oportunidade de recuperação econômica quanto um lembrete do papel central da Krupp na história militar alemã. Engenheiros, muitos dos quais haviam preservado seus conhecimentos durante o período de restrições, voltaram a projetar canhões e munições, adaptando-se às demandas do regime nazista. Entre os projetos de destaque estava o Schwerer Gustav, um colossal canhão ferroviário de 800 mm, projetado para destruir fortificações massivas. No entanto, o volume de negócios da Krupp concentrou-se em peças de artilharia de médio e leve calibre, mais práticas para produção em massa e uso em campo. Os canhões de campanha de 75 mm, como os modelos Krupp 75 C-26 M e C-28 M, foram desenvolvidos para atender a essas necessidades, com designs simplificados que priorizavam eficiência e baixo custo. Equipados com rodas de madeira para tração animal, esses canhões combinavam mobilidade e robustez, pesando cerca de 1.000 kg e alcançando até 9.000 metros com projéteis de 6,5 kg.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A Arma de Artilharia do Exército Brasileiro possui origem profundamente enraizada nos conflitos do período colonial e consolidou-se como um dos pilares da história militar nacional ao longo do século XIX. Seu desenvolvimento foi marcado por episódios de bravura, inovação técnica e resiliência institucional, que moldaram a identidade do artilheiro brasileiro. As primeiras manifestações da artilharia em território brasileiro datam do período colonial, especialmente durante as Batalhas dos Guararapes (1648–1649), quando forças luso-brasileiras enfrentaram tropas holandesas em Pernambuco. Embora empregassem meios rudimentares, aqueles combatentes demonstraram notável engenhosidade e coragem, lançando as bases para a tradição artilheira que se formaria nos séculos seguintes. Com a Independência do Brasil, em 1822, a artilharia de campanha passou a se estruturar como uma arma organizada e tecnicamente orientada. Diferentemente da infantaria e da cavalaria, cujas formações exigiam períodos relativamente mais curtos, a artilharia demandava sólida formação matemática e científica. Por essa razão, seus oficiais eram obrigatoriamente formados pela Academia Militar do Império, instituição responsável por consolidar a doutrina técnico científica que caracterizaria o prestígio da arma. O ápice dessa fase inicial ocorreria durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), o maior conflito armado da história da América do Sul. Nesse teatro de operações, a artilharia brasileira teve papel decisivo, especialmente na Batalha de Tuiuti (24 de maio de 1866). Sob o comando do então coronel Emílio Luís Mallet, a artilharia brasileira ficou conhecida como “Artilharia Revólver”, devido à sua notável rapidez, precisão e capacidade de manobra. Operando atrás de um fosso tático engenhosamente preparado, os artilheiros repeliram ataques maciços das forças paraguaias, episódio eternizado na célebre frase de Mallet: “Eles que venham! Por aqui não passam!” Nascido na França em 1801 e naturalizado brasileiro, Mallet ascendeu por mérito, sendo promovido a brigadeiro, agraciado com o título de Barão de Itapevi em 1878 e posteriormente elevado ao posto de marechal em 1885. Sua liderança e competência técnica marcaram profundamente a doutrina artilheira e consolidaram seu nome como símbolo de coragem e profissionalismo. Paralelamente, o final do século XIX foi marcado por um importante salto tecnológico. A influência da empresa alemã Friedrich Krupp AG no processo de modernização do Exército Brasileiro começou em 1872, com a aquisição dos primeiros canhões de campanha de 75 mm, destinados aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Produzidas em Essen, essas peças representavam o que havia de mais avançado na engenharia bélica de sua época, superando amplamente os canhões franceses La Hitte, então prevalentes no arsenal nacional. Na década de 1880, o Exército Imperial adquiriu mais três dezenas de canhões Krupp 75 mm Modelo 1895, recomendados pelo Conde d’Eu, genro do Imperador Dom Pedro II e então Comandante-Geral da Artilharia. À frente da Comissão de Melhoramento de Material do Exército, o Conde d’Eu desempenhou papel fundamental na modernização das forças terrestres, defendendo energicamente a superioridade dos armamentos alemães, cujos alcances superiores que podiam ultrapassar 12.000 metros  representavam uma drástica ampliação das capacidades da  artilharia.

A introdução dos canhões Krupp marcou uma virada na modernização do Exército Brasileiro, após anos de estagnação tecnológica. Para os artilheiros da época, operar essas peças representava um desafio técnico significativo. Nos campos de instrução do Rio de Janeiro, guarnições compostas por cinco a sete homens realizavam rotinas extenuantes: carregavam projéteis de 6,5 kg, ajustavam miras, regulavam mecanismos e disparavam sob intenso calor, fortalecendo a camaradagem e a disciplina coletiva. Em uma ironia histórica, os mesmos canhões defendidos pelo Conde d’Eu durante o Império foram empregados contra uma rebelião de inspiração monarquista já no período republicano: a Guerra de Canudos (1896–1897). Nessa campanha, os Krupp demonstraram sua letalidade em operações reais, apesar das condições adversas do sertão baiano, reforçando sua reputação como peças robustas e confiáveis. Ao longo desse processo, a Arma de Artilharia consolidou-se como um dos ramos mais técnicos e prestigiados do Exército Brasileiro, mantendo até hoje os valores de precisão, disciplina e rigor científico que caracterizaram sua formação histórica. No início do século XX, o Exército Brasileiro enfrentava uma conjuntura marcada pela obsolescência de seus armamentos, estruturas administrativas e doutrinas operacionais. Esse cenário era resultado de limitações já evidenciadas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870) e posteriormente confirmadas na Campanha de Canudos (1896–1897), quando ficou evidente que grande parte do material bélico disponível não acompanhava a evolução tecnológica observada nas principais potências militares. Os canhões Krupp de 75 mm, adquiridos em 1872 e novamente em 1895, haviam representado, em seu tempo, um salto qualitativo. Contudo, a virada do século trouxe novidades determinantes  como o sistema de recuo hidropneumático, a maior mobilidade tática da artilharia e o emprego de munições mais avançadas  que tornaram aqueles armamentos insuficientes para a guerra moderna. Diante dessa realidade, lideranças militares brasileiras passaram a defender uma profunda reestruturação das forças terrestres. Entre os principais articuladores desse movimento destacaram-se os Marechais João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Francisco de Paula Argolo e, especialmente, Hermes da Fonseca, cuja atuação contou com o apoio político do então Ministro das Relações Exteriores, o Barão do Rio Branco. Essa convergência de esforços resultou no processo reformista conhecido como Reforma Hermes (1900–1908), um dos mais abrangentes projetos de modernização militar da Primeira República. A Reforma Hermes promoveu transformações estruturais profundas. No campo administrativo, redefiniu-se a organização territorial do Exército, com a criação de 21 regiões de alistamento militar e 13 regiões de inspeção, possibilitando melhor distribuição e controle do efetivo. Paralelamente, criou-se e regulamentou-se o Estado-Maior do Exército, elemento essencial para o planejamento estratégico e logístico, inspirado diretamente no modelo prussiano desenvolvido por Helmuth von Moltke, então referência mundial em eficiência militar.
No âmbito educacional, a reforma promoveu a atualização do ensino militar, direcionando a formação de oficiais para parâmetros técnico-científicos mais avançados. Essa medida era considerada indispensável, já que o Brasil ainda não possuía uma indústria bélica capaz de atender às demandas modernas, o que reforçava a necessidade de importar armamentos sofisticados e formar quadros aptos a operá-los. Em agosto de 1908, Hermes da Fonseca realizou uma viagem oficial à Alemanha, motivado por sua admiração declarada pelo Exército Prussiano e pela intenção de aprimorar as capacidades técnico-profissionais das forças terrestres brasileiras. A visita resultou em importantes contratos com empresas alemãs, entre elas a Friedrich Krupp AG, consolidando a opção estratégica pela modernização com base na tecnologia germânica. Esses acordos incluíram a aquisição de 400.000 fuzis Mauser de 7 mm para a infantaria, 10.000 lanças Ehrhardt, 20.000 espadas e 10.000 mosquetões para a cavalaria, refletindo a escala da renovação armamentista. Para a artilharia, a Krupp forneceu 27 baterias de canhões de campanha de 75 mm Modelo 1908, seis baterias de canhões de montanha de 75 mm e cinco baterias de obuses de 105 mm. Essas peças, dotadas de sistema de recuo hidropneumático, ofereciam alcance entre 6.500 e 9.000 metros, dependendo do calibre, representando o ápice da tecnologia da época. O Modelo 1908  uma adaptação do Type 38 japonês  destacava-se pela carruagem tubular que conferia maior mobilidade, além de possuir uma estrutura simplificada que favorecia a produção em série. Complementando a modernização, o Brasil também encomendou canhões Krupp de 305 mm, destinados às torres do Forte de Copacabana, então em construção no Rio de Janeiro, a fim de reforçar a defesa costeira da Capital Federal. Ao final de 1909, chegaram ao porto do Rio de Janeiro 170 canhões Krupp de 75 mm, versões C-26 e C-28, correspondentes aos modelos 1908 e 1909, assim que desembarcados, esses sistemas de artilharia foram imediatamente incorporados às unidades de campanha. Essas peças, classificadas como canhões 75 mm/L28, possuíam alcance de aproximadamente 6.000 metros e empregavam munições de 5,5 kg. Entre essas, destacava-se o projétil de estilhaços, contendo 245 balas de 11 gramas, lançado a uma velocidade inicial de 490 m/s. Seu emprego atendia aos padrões mais avançados da época, sendo particularmente eficaz em missões de apoio direto e contra concentrações de infantaria inimiga. A operação completa da peça demandava uma guarnição de nove militares, cujo treinamento envolvia cálculos de tiro, operação do mecanismo de recuo e ajustes de mira. Para garantir mobilidade adequada no terreno, cada canhão era habitualmente tracionado por nove cavalos ou mulas, prática comum nas artilharias europeias do período pré-motorizado. A munição  composta por 36 granadas por peça  era transportada em um carro de munição especialmente fabricado pela Friedrich Krupp AG, concebido para acompanhar o canhão em manobra

A introdução operacional desses novos sistemas de artilharia exigiu grande esforço de capacitação. Em campos de instrução como os de Valença (RJ) e Rio Pardo (RS), guarnições brasileiras — compostas por cinco a sete artilheiros enfrentavam jornadas intensas de treinamento. Sob condições climáticas adversas, ajustavam sistemas de mira, operavam mecanismos de recuo e manipulavam projéteis de 6,5 kg (75 mm) e 15 kg (105 mm), consolidando o processo de transição tecnológica. A robustez estrutural, associada à simplicidade mecânica e à facilidade de operação e manutenção, fez com que os canhões Krupp rapidamente conquistassem a confiança e a aprovação dos comandantes das unidades de artilharia de campanha. O primeiro emprego operacional dos recém-adquiridos canhões Krupp de 75 mm ocorreu durante a Guerra do Contestado (1912–1916), conflito regional deflagrado na fronteira entre os estados do Paraná e Santa Catarina. A área em disputa, caracterizada por extensas florestas de madeira de lei e vastas plantações de erva-mate  recursos de grande valor econômico  tornou-se palco de tensões fundiárias que envolveram posseiros, pequenos proprietários rurais e o poder público estadual e federal. O conflito ganhou contornos de guerra civil quando comunidades sertanejas, influenciadas por líderes messiânicos e descontentes com políticas de desapropriação e concessões de terras a empresas estrangeiras, organizaram resistência armada. Preocupados com a escalada do movimento e temendo a formação de um foco insurrecional duradouro, os governos estaduais e o Governo Federal decidiram empregar força militar a partir de 1912. Nesse contexto, unidades de artilharia de campanha desempenharam papel decisivo nas operações contra os redutos do Contestado. Os canhões Krupp 75 mm, recém-incorporados ao Exército Brasileiro, foram amplamente utilizados em ataques a posições entrincheiradas, destacando-se pela precisão e pela robustez mecânica. Sua atuação foi determinante para o desmantelamento de diversos núcleos de resistência, contribuindo para o encerramento gradual das hostilidades, que se estenderam até agosto de 1916. Satisfeito com o desempenho dessa família de canhões em operações reais, o Comando do Exército Brasileiro decidiu ampliar seu parque de artilharia. Dessa forma, iniciaram-se negociações bilaterais entre os governos do Brasil e da Alemanha, culminando, em agosto de 1913, na assinatura de um contrato com a Friedrich Krupp AG. O acordo previa a aquisição de duzentos canhões de campanha de 75 mm, com entrega estipulada para ocorrer em até dez meses após sua formalização. A primeira remessa foi enviada dentro do prazo previsto, composta pelo modelo Krupp C-28 1911. Em comparação ao modelo 1909, essas peças possuíam culatra de maior espessura e mecanismo inspirado no sistema alemão FK 96, assegurando maior resistência e confiabilidade. A remessa incluía, ainda, canhões de montanha Krupp Modelo 24 C14 de 75 mm, concebidos para operar em terrenos acidentados e de difícil acesso  característica particularmente relevante para o teatro geográfico brasileiro.
No entanto em julho de 1914 ao eclodir da Primeira Guerra Mundial, pelo menos 108 peças destinadas ao contrato brasileiro se encontravam prontas nas instalações do fabricante na cidade de Essen. Porém estas seriam confiscadas arbitrariamente pelo governo alemão, e possivelmente seriam destinadas a equipar as divisões de artilharia no front oriental. Os registros do fabricante classificavam estas peças como pertencentes a versão  Feldkanonen C-30 de 75 mm. Os canhões Krupp de 75 mm estiveram em ação em quase todos os grandes conflitos regionais ocorridos no país no início do século vinte incluindo as revoluções de 1930, a Constitucionalista de 1932, curiosamente os canhões de 75 mm Krupp (e também Schneider) foram empregados como arma orgânica dos seis trens blindados (TB) denominados TB-1 a TB-6, construídos na Oficinas Ferroviárias.  Durante a segunda metade desta década, o Exército Brasileiro se encontrava em uma situação complicada, com muitos países vizinhos  dispondo de equipamentos bélicos superiores, chegando a preocupante definição que nosso país estava completamente despreparado para enfrentar possíveis ameaças externas.  Para resolver esta deficiência em 1936 o general Eurico Gaspar Dutra, então Ministro da Guerra, determinou que uma comissão de compras, visitasse na Europa principalmente, vários fabricantes de armamentos, visando assim iniciar um processo de reaparelhamento das Forças Armadas Brasileiras.  Em atendimento a estas demandas, em 25 de março de 1938, seriam assinados diversos contratos com a empresas alemães como a Daimler Benz, Kraus Maffei, Fried Krupp AG. AG Matra Werke, Bussing-NAG, Henschel & Sohn, e outras, resultando na compra de uma quantidade substancial de material militar. O fornecedor principal nesta fase, novamente, seria a Fried Krupp AG, se destacando pelo volume de negócios celebrados com esta, assim por este motivo este acordo passaria a ser conhecido como “O Grande Contrato Krupp. Em setembro de 1939 o início da Segunda Guerra Mundial implicaria em bloqueios nas rotas comerciais entre a Alemanha e os demais países, atrasando a entrega dos materiais pertencentes ao contrato. O intensificar do conflito na Europa iria interromper de vez o fornecimento de materiais militares previstos neste contrato, com o restante do material estocado sendo absorvido pelas forças armadas alemães. Somente 64 canhões Krupp dos modelos C-26 e C-28 seriam recebidos, incluindo equipamentos de apoio e reboque de munição.  Com a ampliação da motorização do exército, a partir de 1954 uma parte destes canhões mais novos, seriam modernizados nos arsenais de guerra no Rio de Janeiro (RJ) e General Câmara (RS) recebendo novas rodas com pneus no lugar das rodas de madeira passando a dotar vários Grupos de Artilharia de Campanha (GAC) permanecendo em operação até a primeira metade da década de 1980.   

Em Escala:
Diversos modelos e versões dos canhões Krupp 75 mm seriam empregados no Exército Brasileiro  e na Força Publica de São Paulo ao longo dos anos, desta maneira optamos por representar o modelo Krupp 1895 calibre 75 mm do tipo retrocarga. O kit produzido pela empresa Artesania Latina é composto por peças produzidas em madeira, latão e metal, e apresenta nível de detalhamento e acabamento aceitável.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura que pode ter sido empregado nos canhões Krupp 75 mm e demais peças de artilharia de origem alemã, se baseando no esquema adotado no Exército Alemão (Reichswehr) durante a década de 1910. Presume-se desta maneira  que as peças de artilharia pertencentes ao Exército Brasileiro neste período foram repintados neste esquema. Esta tonalidade de pintura representa também as peças preservadas atualmente em museus militares.
Bibliografia: 
- História Militar - http://darozhistoriamilitar.blogspot.com/
- Canhões antiaéreos Krupp 88 mm no EB – Helio Higuchi e Paulo R. Bastos Jr – Tecnologia & Defesa
- Arquivos do Museu Militar de Conde de Linhares – Rio de Janeiro
- Krupp Gun – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Krupp_gun
- Arquivos do Museu Militar do Comando Sul – Porto Alegre

M-4 Sherman Engenharia (VBE)

História e Desenvolvimento
Durante a segunda metade da década de 1930, o cenário político e militar europeu foi profundamente transformado pelo processo de rearmamento conduzido pelo governo nacional-socialista da Alemanha. Diferentemente de iniciativas anteriores, esse ambicioso plano não se limitava à produção de novos armamentos, mas fundamentava-se na formulação de conceitos e doutrinas militares inovadoras, que seriam aplicadas de forma integrada no campo de batalha. Essa nova concepção estratégica buscava harmonizar os avanços tecnológicos em equipamentos terrestres especialmente nos carros de combate com o suporte tático e operacional da aviação, resultando no surgimento do conceito de “Guerra Relâmpago” (Blitzkrieg). Os carros de combate passaram a ocupar papel central nessa estratégia, concebidos não apenas como instrumentos de apoio à infantaria, mas como o eixo principal da ofensiva. O desenvolvimento desses veículos priorizava a combinação de blindagem eficiente, poder de fogo elevado, sistemas de controle de tiro precisos e alta mobilidade, elementos que conferiam superioridade tática em relação aos blindados disponíveis nas demais potências militares da época. Apesar das restrições impostas pelo Tratado de Versalhes, o regime nazista conduziu um vigoroso e clandestino programa de rearmamento. A partir de meados da década de 1930, as forças armadas alemãs (Wehrmacht) apresentavam notável avanço tecnológico e operacional, despertando crescente preocupação entre as potências ocidentais. Do outro lado do Atlântico, o serviço de inteligência do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) acompanhava atentamente essa evolução. Os relatórios produzidos nesse período apontavam que os novos carros de combate alemães já superavam em desempenho os modelos norte-americanos então em uso, como os M-1 e M-2. Diante desse cenário, em abril de 1939, foi instituído um programa nacional de desenvolvimento de novos carros de combate, com o objetivo de modernizar a força blindada norte-americana. O plano previa a criação de um veículo que combinasse mobilidade, proteção e poder de fogo compatíveis com as exigências dos combates modernos. A responsabilidade pelo projeto foi atribuída ao Departamento de Artilharia do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army Ordnance Department), sediado em Fort Lee, Virgínia, que imediatamente iniciou os trabalhos conceituais baseados no chassi do M-2 Light Tank. Entre as diretrizes técnicas definidas para o novo modelo que resultaria no M-3 Light Tank — destacava-se a instalação do canhão M-22 de 37 mm, considerado adequado para confrontar os blindados leves da época, e a aplicação de um sistema de blindagem projetado para resistir ao impacto de projéteis antitanque do mesmo calibre. Contudo, desde as fases iniciais, pairavam dúvidas quanto à real capacidade de proteção do veículo e à efetividade de seu armamento diante dos modernos carros de combate alemães e japoneses, que já demonstravam clara superioridade no campo de batalha. Os temores expressos por uma significativa parcela dos oficiais foram confirmados em junho de 1940, com o início da campanha na França, onde os  blindados alemães Panzer III e Panzer IV, obtiveram vitórias esmagadoras contra os melhores carros de combate franceses e britânicos disponíveis na época. 

Tornou-se evidente que o canhão M-22 de 37 mm se mostrava completamente ineficaz, tornando necessário equipar os novos carros de combate com um canhão de calibre 75 mm. Entretanto, nem os antigos M-2, nem os novos M-3 poderiam ser adaptados para acomodar essa arma, uma vez que seu peso maior exigiria o desenvolvimento de uma nova torre giratória. Embora essa abordagem estivesse sendo considerada, buscou-se simultaneamente uma solução provisória, que envolveu uma modificação experimental de um M-2, resultando na criação de um obuseiro autopropulsado de 75 mm, com o canhão sendo projetado pelo Watervliet Arsenal. Os testes de campo desse protótipo levaram à conclusão de que o chassi do M-2 existente poderia ser utilizado em combinação com uma superestrutura redesenhada, mantendo ainda a arma de 37 mm instalada em uma torre giratória. O novo carro de combate M-3 apresentava, assim, um design incomum, já que a arma principal, o canhão M-2 de 75 mm, não estava instalado em uma torre giratória, mas sim fixada ao chassi. Essa configuração resultou da falta de experiência da indústria norte-americana na concepção de uma torre que pudesse abrigar uma arma desse calibre. Ressalta-se que a solução de empregar dois canhões foi inspirada em modelos europeus, como o Char B1 e o Churchill Mark I. No caso do francês, o veículo foi projetado como um canhão autopropulsado e o inglês incorporava  uma arma montada no casco dianteiro, utilizada principalmente para disparar projéteis de fumaça. O M-3 diferia ligeiramente dos padrões europeus, apresentando um canhão principal de dupla finalidade, capaz de disparar um projétil perfurante a uma velocidade suficiente para penetrar efetivamente a armadura, além de lançar um projétil altamente explosivo que era considerável o suficiente para ser eficaz em combate.  Apesar dessas preocupações, o M-3 poderia ser produzido em larga escala e com maior rapidez em comparação aos carros de combate convencionais, atendendo, assim, às demandas emergenciais não apenas dos Estados Unidos, mas também da Grã-Bretanha. No final de janeiro de 1942, os primeiros tanques M-3 Grant, fornecidos pelos Estados Unidos, chegaram ao Norte da África para reforçar as forças britânicas. As tripulações foram submetidas a um rigoroso programa de treinamento, com o objetivo de prepará-las para confrontos contra as forças do Eixo. O canhão principal M-2 de 75 mm, baseado em um modelo de artilharia de campanha francês, permitiu ao Exército Real Britânico (Royal Army) utilizar amplos estoques de munição remanescentes da Primeira Guerra Mundial. Dentre os projéteis disponíveis, destacava-se o perfurante de tiro sólido, capaz de penetrar aproximadamente 50 mm de blindagem a uma distância de 1.000 metros. Embora superior aos canhões de 2 libras equipados nos tanques britânicos da época, o desempenho do M-3 ainda não atendia plenamente aos padrões exigidos para operações de combate.  O batismo de fogo  ocorreu em 27 de maio de 1942, durante a Batalha de Gazala, no Norte da África. Sua introdução representou uma surpresa tática para as forças alemãs, que não estavam preparadas para enfrentar o canhão de 75 mm. 
Nesta batalha os M-3s foram severamente impactados pelos canhões antiaéreos alemães Flak 18/36/37/41 de 88 mm, que exploraram vulnerabilidades críticas do tanque, incluindo seu perfil elevado, baixa relação peso-potência e armadura rebitada. Esta última apresentava a desvantagem de gerar ricochetes internos dos rebites sob impacto, causando ferimentos às tripulações.  Embora concebidos como uma solução temporária para o Exército Real Britânico (Royal Army), enquanto aguardava a entrega dos tanques Crusader Mark III, atrasos na produção deste último tornaram o M-3 Grant o principal veículo blindado das forças aliadas no Oriente Médio. Contudo, suas limitações táticas e técnicas evidenciaram a necessidade urgente de substituição nas forças aliadas. O projeto que culminaria no desenvolvimento do Medium Tank M-4, futuramente consagrado pelo nome “Sherman”, teve início ainda antes da entrada em serviço do modelo M-3 Lee/Grant. A iniciativa foi conduzida pelo U.S. Army Ordnance Department, refletindo a necessidade premente de dotar as forças norte-americanas de um carro de combate médio moderno, confiável e de fácil produção em larga escala, capaz de aliar mobilidade, poder de fogo e simplicidade de manutenção — atributos considerados essenciais diante da iminência de um conflito global de proporções industriais. Naquele contexto, os Estados Unidos preparavam-se para uma guerra que exigiria o máximo de eficiência de sua base industrial. Assim, decidiu-se que o novo modelo deveria aproveitar parte da estrutura e da experiência adquirida com o M-3, mas incorporando melhorias fundamentais, entre elas a instalação de uma torre totalmente rotativa de 360 graus equipada com o canhão M-3 de 75 mm, o que representava um avanço considerável em relação ao armamento lateral fixo do modelo anterior. O protótipo do M-4 foi finalizado em outubro de 1941, nas instalações da Baldwin Locomotive Company, na Filadélfia — um dos tradicionais complexos industriais mobilizados para o esforço de guerra. O veículo apresentava peso bruto de aproximadamente 30 toneladas e utilizava o sistema de suspensão vertical por molas volutas (VVSS), já comprovado pela robustez e facilidade de manutenção. Seu sistema de propulsão era garantido por um motor radial aeronáutico Curtiss-Wright Continental R-975E, movido a gasolina, que desenvolvia 330 cavalos de potência, assegurando ao tanque um bom equilíbrio entre desempenho e confiabilidade. A meta inicial estabelecida pelo Departamento de Artilharia previa uma produção de cerca de 2.000 unidades mensais, demonstrando a magnitude do planejamento industrial que começava a se consolidar. Antes, porém, o protótipo passou por extensos programas de testes e avaliações de campo, durante os quais foram identificadas e corrigidas falhas de projeto e incorporadas melhorias ergonômicas e mecânicas. Esses ajustes deram origem à primeira versão de produção em série, o M-4, cuja fabricação iniciou-se em fevereiro de 1942. Para atender às especificações do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), foi desenvolvido o modelo M-4A2, que substituiu o motor original a gasolina pelo motor diesel General Motors Twin 6-71. Essa alteração visava unificar o tipo de combustível utilizado pelas forças blindadas com o empregado pela frota naval, otimizando a logística.  O M-4 Sherman teve seu batismo de fogo em 23 de outubro de 1942, durante a Segunda Batalha de El Alamein, travada no deserto do Norte da África. O confronto, conduzido pelo 8º Exército Britânico sob o comando do general Bernard Montgomery, marcou um ponto de inflexão na guerra do deserto e, ao mesmo tempo, revelou o potencial do novo carro de combate médio norte-americano. 

Operado por tripulações britânicas experientes, que já haviam adquirido ampla vivência em operações mecanizadas contra as forças do Afrika Korps de Erwin Rommel, o M-4 demonstrou superioridade técnica e operacional em relação ao seu antecessor, o M-3 Lee/Grant. Seu canhão de 75 mm, montado em torre totalmente giratória, proporcionava melhor capacidade ofensiva e flexibilidade tática, enquanto a confiabilidade mecânica e o bom desempenho em terrenos arenosos o tornaram um recurso valioso para as forças aliadas. Nas areias de El Alamein, o M-4 Sherman provou-se um elemento decisivo na retomada da iniciativa estratégica pelos Aliados no Norte da África. Contudo, quando o modelo foi empregado pela primeira vez em larga escala pelo Exército dos Estados Unidos, durante a Batalha de Kasserine, em fevereiro de 1943, os resultados foram menos animadores. Enfrentando forças alemãs veteranas e bem equipadas, as unidades da 1ª Divisão Blindada norte-americana sofreram pesadas perdas, reflexo direto da inexperiência das tripulações e da falta de coordenação tática entre as armas de infantaria, artilharia e blindados. A derrota em Kasserine representou, contudo, um aprendizado doloroso, que levaria à rápida reformulação das doutrinas de emprego das forças blindadas dos Estados Unidos.  Posteriormente, a pedido do Exército dos Estados Unidos (US Army), foi criada a variante M-4A3, equipada com o motor a gasolina Ford GAA V-8 de 500 hp, proporcionando maior potência. A versão final de produção, o M-4A4, tornou-se disponível em julho de 1942. Embora visualmente semelhante ao M-4A1, o M-4A4 distinguia-se por seu chassi construído com chapas retas soldadas, em vez de uma peça única fundida. As primeiras unidades apresentavam uma blindagem frontal tripartida, unida por parafusos, característica herdada diretamente do tanque M-3 Lee.  No teatro de operações europeu, o M-4 Sherman foi introduzido durante a Operação Husky, a invasão aliada da Sicília, em julho de 1943. Nesse estágio da guerra, os M-4A1 frequentemente operando ao lado dos tanques leves M-3 Stuart  enfrentaram forte resistência por parte das tropas alemãs e italianas, que faziam uso extensivo de canhões antitanque e armas automáticas de 37 e 50 mm. Em 11 de julho de 1943, os M-4 prestaram apoio crucial à infantaria aliada em Piano Luco. Durante os combates na Itália, as forças aliadas sofreram a perda de centenas de veículos, mas a 3ª Brigada da 1ª Divisão Blindada alcançou êxito ao entrar em Roma.  Durante a Operação Overlord o M-4 desempenhou um papel crucial, apesar  de enfrentar desafios significativos contra os tanques alemães Tiger e Panther, que possuíam armamento e blindagem superiores. Contudo a quantidade e a confiabilidade dos Shermans permitiram que as forças aliadas mantivessem a superioridade numérica e logística. Ao longo da campanha europeia, os M-4 foram essenciais no confronto com os tanques Panzer, contribuindo para a progressão aliada até a derrota da Alemanha em 1945. No teatro de operações do Pacífico, o M-4 Sherman foi a principal arma blindada do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), seu primeiro grande teste ocorreria durante a Campanha das Ilhas Gilbert e Marshall (1943–1944).  Na Batalha de Tarawa, em novembro de 1943, tanques do tipo M-4A2 do 2º Batalhão de Tanques dos Fuzileiros Navais desembarcaram sob intenso fogo inimigo. 
Nos combates subsequentes, como nas Campanhas das Ilhas Marianas e Palau (1944)  especialmente em Saipan, Tinian e Peleliu , os M-4 Sherman consolidaram seu papel como instrumento fundamental no apoio às forças de infantaria. Durante a Campanha das Filipinas (1944–1945) e a Batalha de Okinawa (1945), os Shermans atuaram em conjunto com engenheiros de combate e unidades lança-chamas, desempenhando papel essencial na destruição de posições entrincheiradas e túneis subterrâneos. A experiência de combate levou ao desenvolvimento de variantes adaptadas, como o M-4A3R3 "Zippo", equipado com lança-chamas, amplamente utilizado pelos Fuzileiros Navais em Okinawa e Iwo Jima.  A simplicidade de projeto e a robustez mecânica do tanque M-4 Sherman consolidaram-no como o principal carro de combate médio das forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial, substituindo integralmente os modelos M-3 Stuart e M-3 Lee nas linhas de frente. Com o objetivo de padronizar a logística de suprimentos, incluindo peças de reposição e processos de manutenção, foi decidido o desenvolvimento de uma família de veículos especializados e utilitários baseados na plataforma do M-4 Sherman. O primeiro modelo derivado a entrar em serviço foi o M-32 Recovery Vehicle, projetado para realizar operações de recuperação de veículos pesados no campo de batalha. As primeiras unidades do M-32 foram introduzidas no início de 1943. Subsequentemente, outras variantes foram desenvolvidas, incluindo o obuseiro autopropulsado M-7 Priest, ampliando a versatilidade da plataforma para atender às diversas demandas operacionais. A produção do M-4 Sherman foi realizada em diversas fábricas nos Estados Unidos, incluindo Baldwin Locomotive Works, Pressed Steel Car Company, American Locomotive Co., Pullman-Standard Car Company e Detroit Tank Arsenal. Entre 1942 e julho de 1945, foram fabricadas 49.234 unidades, excluindo protótipos. A grande maioria foi destinada às forças armadas norte-americanas, com uma parcela significativa fornecida a aliados por meio do programa Lend-Lease Act. Após o termino do conflito milhares de M-4 foram abandonados na Europa pois seu processo de retorno aos Estados Unidos se mostraria economicamente inviável. Quando, em junho de 1950, as tropas da Coreia do Norte invadiram o território sul-coreano, equipadas majoritariamente com tanques soviéticos T-34/85, os norte-americanos se viram diante de um conflito repentino. Nos primeiros meses da guerra, o contingente norte-americano destacado para a península coreana dispunha apenas de tanques leves M24 Chaffee, claramente inferiores aos T-34/85 em poder de fogo e blindagem. Essa disparidade evidenciou a urgência de reforçar as unidades com blindados mais robustos, elencando-se o Sherman.  Após o termino da Guerra da Coreia, uma grande parte da frota residual seria cedida nos termos do  Programa de Assistência Militar (MAP) a  pelo menos 47 nações amigas dos Estados Unidos. Entre os conflitos em que o M-4 teve participação destacada, merecem menção especial as Guerras Árabe-Israelenses.  O último registro oficial de Shermans em uso militar efetivo remonta ao início do século XXI, com unidades isoladas ainda ativas no Chile e em países do Oriente Médio e do Caribe, encerrando, assim, a trajetória operacional de um dos tanques mais emblemáticos e longevos da história militar moderna.

Emprego no Exército Brasileiro.
No início da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), o governo dos Estados Unidos da América passou a observar com crescente apreensão a possibilidade de uma invasão do continente americano pelas forças do Eixo — coalizão formada por Alemanha, Itália e Japão. Dentro desse contexto geopolítico, o Brasil destacou-se como um ponto estratégico e, simultaneamente, vulnerável a uma possível ofensiva, em virtude de sua proximidade geográfica com o continente africano, região que figurava entre os alvos das ambições expansionistas alemãs. A essa vulnerabilidade somava-se a crescente importância econômica do país: com as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, o Brasil consolidou-se como o principal fornecedor de látex natural aos Aliados, tornando-se essencial ao suprimento da borracha, matéria-prima vital para a produção de pneus, equipamentos e outros componentes estratégicos da indústria bélica. Do ponto de vista geográfico e logístico, o litoral nordestino brasileiro assumiu papel de destaque, pois representava o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano, constituindo-se em rota preferencial para o translado aéreo e naval de tropas, suprimentos e aeronaves com destino aos teatros de operações na Europa e no Norte da África. Tal conjuntura reforçou o valor do território brasileiro para os planos estratégicos dos Aliados, especialmente dos Estados Unidos, que passaram a ver o país como peça-chave na defesa hemisférica e na projeção de poder atlântico. Como resposta a essa nova realidade, foi implementada uma política de estreitamento diplomático e militar entre Brasil e Estados Unidos, que culminou em uma série de acordos de cooperação econômica e de defesa. O mais significativo desses instrumentos foi a adesão do Brasil ao Lend-Lease Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos) — programa norte-americano que visava apoiar militarmente as nações aliadas e, no caso brasileiro, modernizar as Forças Armadas. À época, o Exército Brasileiro enfrentava sérias deficiências estruturais e doutrinárias: seu parque de armamentos era obsoleto, a frota de veículos escassa e as táticas militares ainda baseadas nos preceitos da Primeira Guerra Mundial. O acordo firmado com Washington representou, portanto, um marco no processo de modernização militar do país, assegurando uma linha de crédito inicial de 100 milhões de dólares destinada à aquisição de material bélico e equipamentos modernos. Apesar dos esforços empreendidos, a entrega dos primeiros carros de combate M-4 Sherman — símbolo da modernização do Exército Brasileiro — ocorreu apenas em julho de 1945, com a chegada de 17 unidades. Entre o início e meados da década de 1950, o Brasil receberia um lote suplementar de 30 tanques M-4 Sherman, fornecidos no âmbito do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP), também promovido pelos Estados Unidos.

Mesmo em quantidade inferior aos tanques leves M-3 Stuart e M-3 Lee, os M-4 Sherman tornaram-se a espinha dorsal da força blindada nacional, representando um salto qualitativo significativo na capacidade operacional terrestre. No entanto, ao final da década de 1950, sua obsolescência tecnológica era evidente, tornando indispensável a substituição por um modelo mais moderno e compatível com as novas doutrinas de guerra mecanizada. A resposta a essa necessidade concretizou-se em 14 de agosto de 1960, com a chegada ao porto do Rio de Janeiro dos primeiros 50 carros de combate M-41 Walker Bulldog, marcando o início de uma nova era na história da força blindada brasileira e simbolizando a transição definitiva para um Exército mais moderno, motorizado e alinhado aos padrões estratégicos ocidentais do pós-guerra. Nos anos subsequentes à introdução dos primeiros carros de combate M-41 Walker Bulldog, o Exército Brasileiro ampliou significativamente sua frota blindada, incorporando 275 unidades da versão modernizada M-41A1 e 55 unidades da versão mais avançada M-41A3. A chegada desses veículos consolidou a substituição progressiva dos M-4 Sherman, que foram gradualmente transferidos para a reserva estratégica, reduzindo-se sua participação em operações de campo. A partir de meados da década de 1960, em consonância com o cenário político de fortalecimento da indústria nacional de defesa, o governo brasileiro passou a priorizar a redução da dependência externa na aquisição e manutenção de equipamentos militares. Inserido nesse novo paradigma de autossuficiência estratégica, o Exército Brasileiro iniciou estudos conceituais destinados ao projeto e desenvolvimento de veículos blindados de fabricação nacional, capazes de atender às demandas específicas da realidade operacional do país. Nesse contexto, em 1967, foi instituído no Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2), em São Paulo, um grupo de trabalho técnico com a missão de coordenar as iniciativas de pesquisa e inovação voltadas à modernização de viaturas blindadas. Este grupo evoluiu posteriormente, consolidando-se como o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Blindados (CPDB) — marco fundamental na trajetória da engenharia militar brasileira e ponto de inflexão no desenvolvimento tecnológico autóctone voltado ao campo de defesa. Os trabalhos iniciais do CPDB concentraram-se em projetos de remotorização, com foco na substituição de motores a gasolina por motores a diesel nacionais em diversos modelos de veículos, incluindo os M-3 Stuart, M-3 Lee e M-5 White Half-Track. O sucesso dessas experiências pioneiras não apenas comprovou a viabilidade técnica das adaptações, mas também incentivou a continuidade dos esforços de nacionalização de sistemas mais complexos — um passo decisivo rumo à futura produção seriada de blindados sobre rodas e lagartas em território brasileiro.
O primeiro estágio desse processo envolveu estudos de modernização voltados à frota de tanques então considerada obsoleta, como os M-3, M-3A1 Stuart e M-4 Sherman, com o propósito de adequá-los às novas ameaças e exigências táticas que emergiam durante a Guerra Fria e o avanço das doutrinas mecanizadas contemporâneas. Em meados de 1969, foram dados os primeiros passos práticos na implementação desses programas de modernização. Dois tanques M-3A1 Stuart e um M-4 Sherman Composite Hull foram transferidos ao PqRMM/2, em São Paulo, para dar início ao programa experimental de remotorização. Esses veículos serviram como base para o desenvolvimento de soluções técnicas voltadas ao prolongamento da vida útil operacional da frota blindada nacional, marcando o início de um esforço institucional de caráter estratégico. Embora existisse a viabilidade técnica de substituição do motor a gasolina original do M-4 Sherman por um motor MWM Diesel de quatro tempos, o programa foi temporariamente suspenso, a fim de concentrar recursos e pessoal no projeto de modernização dos carros leves M-3 Stuart, cuja expressiva quantidade em serviço justificava a prioridade. O programa de modernização do M-4 Sherman seria retomado em 1974, motivado pelos resultados expressivos obtidos pelos M-4 modernizados das Forças de Defesa de Israel (IDF) durante os conflitos árabe-israelenses, que demonstraram a eficácia do conceito de repotenciamento e atualização estrutural de plataformas antigas. Sob a liderança do Tenente-Coronel Walter Catharino Finato, no âmbito do PqRMM/2, o veículo EB11-721 foi selecionado como protótipo do projeto, sendo remotorizado com o motor MWM Diesel TD232 V12 de quatro tempos. Essa experiência simbolizou um marco na busca pela independência tecnológica e operacional do Exército Brasileiro, lançando as bases para futuros programas de modernização sistemática de blindados nacionais. O motor empregado no projeto de modernização do carro de combate M-4 Sherman, em sua configuração original, apresentava potência nominal de 406 cavalos-hp. Contudo, atendendo à solicitação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Blindados (CPDB), o fabricante procedeu a uma série de modificações técnicas, elevando sua potência para 500 hp, de modo a aprimorar o desempenho e garantir maior confiabilidade operacional. Para acomodar o novo propulsor — que media 1,69 metro de comprimento, incluindo o turbocompressor e o sistema de refrigeração — foi necessário realizar significativas adaptações internas no compartimento do motor, exigindo modificações estruturais no casco do veículo. Em maio de 1975, o protótipo atualizado foi submetido a extensos testes de desempenho e resistência, cujos resultados demonstraram plena adequação técnica e operacional, confirmando o êxito da nacionalização do conjunto motriz e consolidando um marco na busca pela independência tecnológica da indústria de defesa terrestre brasileira.

Uma das limitações históricas mais notórias do M-4 Sherman residia na estreiteza de suas lagartas, fator que frequentemente resultava em atolamentos em terrenos acidentados ou de baixa coesão, comuns no território brasileiro. Para mitigar essa deficiência, optou-se pela substituição do sistema de lagartas por um modelo de maior largura, associado à suspensão HVSS (Horizontal Volute Spring Suspension) — sistema mais moderno e eficiente, adotado nas últimas versões do M-4 produzidas nos Estados Unidos. Visando otimizar recursos, o Exército Brasileiro escolheu empregar conjuntos de suspensão provenientes dos veículos blindados de engenharia e socorro M-74, recentemente desativados, o que permitiu compatibilizar peças e manter a padronização logística. Paralelamente a essas iniciativas, tiveram início estudos voltados à modernização da frota de carros de combate médios M-41 e M-41A3 Walker Bulldog. Considerando-se que o M-41A3 representava uma versão mais moderna e tecnicamente superior, seus resultados operacionais mais consistentes tornaram-no candidato preferencial para futuras atualizações. Assim, o comando do Exército deliberou que, caso o programa de modernização dos M-4 Sherman fosse mantido, tais veículos deveriam ser reconvertidos para funções de apoio, uma vez que o conceito do M-4 como carro de combate principal já se encontrava tecnicamente superado. Essa proposta seria reavaliada no início da década de 1980, quando surgiu a possibilidade de conversão dos M-4 Sherman em viaturas especializadas, aptas a desempenhar funções de caça-minas, engenharia de combate ou apoio logístico, de forma a suprir lacunas existentes no inventário da força blindada. À época, o Exército Brasileiro dispunha de quantidade limitada de viaturas M-74 e M-578, o que reforçava a necessidade de desenvolver soluções nacionais de engenharia de campo. Nesse contexto, em maio de 1982, foi formalizada uma parceria entre o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a empresa Moto Peças S/A, sediada em São Paulo, com o propósito de desenvolver uma viatura blindada de engenharia baseada no chassi do M-4A1 Sherman. O projeto experimental resultou na criação da Viatura Blindada Especial de Engenharia M-4 de 30 toneladas (VBE-Eng M4-30t-Lag). Com o intuito de padronizar o conjunto motriz em relação a outros programas em curso, foi selecionado o motor a diesel Scania DI-11 Ex1, de seis cilindros e 500 cavalos de potência, o mesmo empregado na modernização dos M-41C Caxias, conduzida pela empresa Bernardini S/A Indústria e Comércio. Do ponto de vista estrutural, a nova viatura demandou profundas modificações no projeto original, especialmente devido ao reposicionamento do motor para o lado direito do casco, solução que viabilizou a inclusão de uma porta traseira — inovação significativa que facilitava o acesso e desembarque da tripulação. Em virtude das dimensões ampliadas do novo motor, tornou-se inviável a reutilização integral do chassi original do M-4 Sherman, o que levou ao desenvolvimento de uma carroceria completamente nova, construída em aço soldado e inspirada no veículo blindado de transporte de pessoal M-113 VBTP, porém em escala maior.
A nova viatura manteve a possibilidade de empregar as mesmas placas de blindagem soldadas da versão de origem, preservando as características de proteção balística do projeto base, ao mesmo tempo em que incorporava melhorias substanciais em mobilidade, ergonomia e versatilidade de emprego. Essa experiência consolidou-se como um divisor de águas na engenharia militar nacional, simbolizando o amadurecimento tecnológico do complexo industrial de defesa brasileiro e estabelecendo as bases conceituais para o desenvolvimento autônomo de veículos de apoio e engenharia blindados nas décadas seguintes. Na parte superior, foi instalado um guincho hidráulico com capacidade de 20 toneladas, além de uma grua hidráulica dotada de lança rebatível, capaz de içar até 10 toneladas. O veículo também foi equipado com uma lâmina frontal, a qual é intercambiável com um dispositivo de caça-minas. Esta configuração permitia o transporte de, além do condutor e do chefe do carro, uma guarnição composta por até cinco homens, todos totalmente equipados para a realização de missões de engenharia de combate. Para autodefesa, a viatura estava equipada com uma metralhadora Browning M2HB, calibre .50, e quatro lançadores de granadas fumígenas, de produção nacional. Conforme mencionado anteriormente, estava previsto o desenvolvimento de um novo sistema antiminas para ser acoplado na parte frontal do veículo, substituindo a lâmina de terraplanagem. Esse sistema consistia em duas pás dotadas de várias garras, destinadas a revolver o solo à frente do veículo, com a intenção de extrair minas do terreno. Contudo, durante os testes realizados, esse sistema mostrou-se ineficaz, uma vez que não era capaz de varrer minas enterradas em terrenos compactados, o que resultou em sua eventual descontinuidade. O projeto inicial e o contrato firmado com a Moto Peças S/A previam a construção de quinze unidades desse veículo; no entanto, obstáculos no andamento do projeto e limitações orçamentárias resultaram na produção de apenas um protótipo, que recebeu a matrícula EB3460224584, além de cinco unidades de produção. Após a entrega dos VBE-ENG-M4-30t-Lag, estes foram submetidos a um rigoroso programa de testes finais em campo, realizado nas instalações do Centro de Avaliações do Exército (CAEx) e do Centro de Tecnologia do Exército. Posteriormente, essas viaturas foram incorporadas a diversas unidades, como a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), o 5º Batalhão de Engenharia de Combate Leve, a 11ª Companhia de Engenharia de Combate Leve, o 7º Batalhão de Engenharia de Combate Leve e o 12º Batalhão de Engenharia de Combate Blindado, onde permaneceram em operação durante vários anos. No final da primeira década dos anos 2000, os quatro veículos blindados de engenharia VBE-ENG-M4-30t-Lag ainda registrados no inventário do Exército Brasileiro, embora não operacionais, estavam armazenados no 5º Batalhão de Engenharia de Combate Leve, na 11ª Companhia de Engenharia de Combate Leve e no 12º Batalhão de Engenharia de Combate Blindado. Além destas, existe ainda uma unidade que oficialmente pertence ao acervo do Museu Militar de Conde de Linhares, localizado no Rio de Janeiro, atualmente armazenada no Parque Regional de Manutenção (Pq R Mnt/5), aguardando uma futura restauração para ser exposta no museu. Embora não tenham sido produzidos em larga escala, o projeto do VBE-ENG-M4-30t-Lag representou um importante avanço no processo de conversão e modernização de veículos blindados no Brasil.

Em Escala.
Para a representação do VBE-ENG-M-4 30 toneladas LAG , sob a matricula "EB 3460224898", decidimos utilizar como base o kit da Tamiya na escala 1/35. Aproveitamos, para tal, os componentes fundamentais, como suspensão, esteiras, bogies e casco, sendo que o restante da construção foi realizado em plasticard, no método conhecido como scratch build. Para a conversão, utilizamos desenhos e fotografias da época, o que pode resultar em um modelo em escala que  talvez não reproduza fielmente a estrutura do casco ou os detalhes complementares. Utilizamos também decalques elaborados pela Decal e presentes no conjunto "Forças Armadas do Brasil".
O esquema de cores (FS) delineado abaixo representa o segundo padrão de pintura camuflada em dois tons, utilizado em todos os veículos blindados de combate do Exército Brasileiro a partir de meados da década de 1980. Contudo, existe uma unidade desse modelo, localizada no 12º Batalhão de Engenharia de Combate Blindado, em Alegrete (RS), que foi preservada no padrão anterior de pintura, caracterizado por um acabamento em verde oliva total.
Bibliografia :
- Viatura Blindada Especial de Engenharia - Expedito Carlos S. Bastos - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/VBE.pdf
- M-4 Sherman no Brasil – Helio Higuchi e Paulo Roberto Bastos Jr
- Blindados No Brasil Volume I, por Expedito Carlos Stephani Bastos

VC-96 Boeing 737-2N3 Advanced

História e Desenvolvimento. 
A Boeing Airplane Company, fundada em 9 de maio de 1917 por William Edward Boeing, marcou o início de uma era de inovação na aviação americana. Sob a liderança de um visionário que já se destacava no setor aeronáutico desde o início da década de 1910, a empresa rapidamente se posicionou como um pilar da indústria, contribuindo tanto para o esforço militar quanto para o avanço da aviação civil.  Em 1916, William E. Boeing fundou a Pacific Aero Products Co. em Seattle, Washington, renomeada Boeing Airplane Company em julho do mesmo ano. Inicialmente, produzia hidroaviões como o B&W, utilizando madeira de aberto local. Com os Estados Unidos entrando na Primeira Guerra Mundial em abril de 1917, a jovem empresa identificou uma oportunidade estratégica ao reconhecer a necessidade da Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) de expandir sua frota de hidroaviões para treinamento de pilotos navais. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, um grande excedente de aviões militares usados, a preços acessíveis, inundou o mercado de aviação comercial, dificultando as vendas de novos modelos e acabaria por levar muitas empresas, incluindo a Boeing, a diversificar suas operações em buscas de faturamento. Neste momento a Boeing Airplane Company passou, então, a fabricar móveis e embarcações de fundo plano, denominadas Sea Sleds.  Nos anos 1920, lançou o Boeing B-1 (barco voador para correio) e o Model 40 para rotas aéreas. Em 1927, criou a Boeing Air Transport, que se fundiu em 1929 para formar a United Aircraft and Transport Corporation, incorporando empresas como Pratt & Whitney e Chance Vought. O Boeing 80, primeiro transporte de passageiros, voou em 1929. Em 1933 seria introduzido o Boeing 247 o primeiro avião comercial moderno, e o Boeing 314 Clipper em 1938 para rotas transoceânicas. A Lei de Correio Aéreo de 1934 forçou a separação em Boeing Airplane Company, United Airlines e United Aircraft Corporation, levando William Boeing a vender suas ações. Desenvolveu o Model 307 Stratoliner, o primeiro com cabine pressurizada. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Boeing desempenhou um papel crucial como uma das principais fornecedoras de aeronaves militares para os Estados Unidos, destacando-se na produção de bombardeiros pesados como os  B-17 Fortaleza Voadora e B-29 Super Fortaleza que foram fundamentais para o esforço de guerra dos Aliados. Após o término do conflito, o mercado de aviação civil de transporte entrou em efervescência devido ao grande excedente de aeronaves militares disponíveis no pós-guerra que seriam vendidas a preço simbólico a diversos empreendedores tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Este processo iria popularizar o transporte de passageiros em todo mundo. O avançar da tecnologia com o emprego levaria a criação do primeiro avião comercial em 1949, quando o protótipo do Havilland DH 106 Comet alçou voo no Hatfield Aerodrome na cidade de Hertfordshire, na Inglaterra. Este novo conceito de propulsão trazia melhor conforto aos passageiros tornando ainda as viagens mais curtas e prazerosas elevando assim a De Havilland a conquistar um amplo sucesso em vendas em um curto espaço de tempo.

A exemplo deste fabricante inglês, logo os renomados fabricantes norte-americanos Douglas Aircraft Company  e Convair Aircraft Company  iniciariam estudos para o desenvolvimento de aeronaves semelhantes ao jato britânico. Esta movimentação não passaria desapercebida aos olhos da diretoria da Boeing Aircraft Corporation, empresa está que neste período  nos Estados Unidos, era considerada de pouca expressão no mercado de aeronaves comerciais de passageiros, tendo imenso foco e sucesso no mercado militar, sendo neste momento responsável pelos famosos bombardeiros  a jato Boeing B-47 e B-52 (em operação até hoje). O despertar para este novo nicho de mercado levaria a empresa de Seattle, a canalizar seus recursos financeiros e esforços de sua equipe de projetos no segmento da aviação comercial, iniciando assim o desenvolvimento de uma nova aeronave que marcaria para sempre a história da aviação mundial. Como a empresa possuía o viés natural construído segmento militar, a ideia natural se baseava em desenvolver uma plataforma de uma aeronave a jato comum para ser empregado nos dois segmentos. Este projeto seria totalmente bancado com recursos da própria companhia, tendo como ponto de partida as linhas originais do Boeing 367 (KC-97), com as definições acertadas o próximo passo seria a produção dos primeiros protótipos que receberiam as designações de Boeing 367-80 ou Dash80. O primeiro voo da aeronave de testes com a matrícula N70700 alçaria voo propulsado por seus quatro motores a jato Pratt & Whitney JT3C (com 10.000 libras de empuxo cada), em 15 de julho de 1954, em Seattle no estado de Washington. As análises dos primeiros resultados do programa de ensaios em voo, se mostrariam muito promissores, concedendo a empresa a motivação para prosseguir com o desenvolvimento derivando para duas vertentes uma para o transporte civil com a designação de B707 e uma militar (como reabastecedor em voo e transporte de cargas) denominada como B717, que posteriormente receberia na Força Aérea dos Estados (USAF) a designação de KC-135E Stratotanker. No final de 1955, a Boeing concluiu a definição da versão civil do Boeing 707, obtendo a homologação da Administração Federal de Aviação (Federal Aviation Administration – FAA). Com a certificação assegurada, a empresa deu início ao planejamento comercial e de marketing para o lançamento internacional do modelo, marcando o início de uma nova era na aviação comercial. Em 13 de outubro de 1955, a Boeing celebrou seu primeiro grande contrato com a Pan American World Airways (Pan Am), envolvendo a aquisição de 20 aeronaves, com entregas previstas para o final do ano fiscal de 1958. Após o sucesso do Boeing 707, a empresa identificou a necessidade de um avião menor e mais versátil para voos regionais, que resultaria no programa B727, que futuramente se tornaria  o jato comercial mais vendido de sua época. Desta maneira a empresa se estabeleceria como a principal fabricante de aeronaves a jato do mundo, com seus modelos B707 e B727  atendendo as rotas de longa e média distância.
A empresa, entretanto, ficaria atrás na corrida por atender um mercado que parecia bastante promissor: a utilização de aeronaves a jato para rotas de curta distância. Assim em  1965, quando a empresa tomou a decisão de avançar com o projeto do Boeing 737, suas principais concorrentes a Douglas Aircraft Company, com o DC-9, e a British Aircraft Corporation, com o BAC 1-11 já haviam consolidado posições significativas. O DC-9 acumulava mais de 200 encomendas, enquanto o BAC 1-11, com cerca de 100 pedidos, já havia realizado o voo inaugural de seu protótipo em 1963. Além disso, aviões como o francês Sud Aviation SE-210 Caravelle, em operação desde 1959, e o britânico de Havilland Trident, introduzido em 1964, já atendiam rotas de baixa densidade, consolidando a presença de jatos regionais na Europa. A decisão de desenvolver o Boeing 737 não foi trivial. Internamente, a Boeing enfrentava intensos debates sobre a viabilidade de investir em um novo projeto, especialmente em um mercado já competitivo e que exigiria substanciais recursos financeiros e humanos. Naquela época, a empresa estava profundamente envolvida em outros programas ambiciosos, que incluíam o desenvolvimento do supersônico B2707 (cancelado em 1971 devido a questões econômicas e ambientais), a concorrência pelo contrato militar CX-HLS (que culminou na vitória da Lockheed com o C-5 Galaxy), o revolucionário Boeing B747, destinado a transformar voos de longo alcance, e a versão alongada do Boeing 727, conhecida como 727-200, lançada em 1967. Esses projetos, cada um com seu próprio peso estratégico, dividiam a atenção e os recursos da Boeing, tornando a decisão sobre o B737 um momento crítico. Dois membros do conselho de administração da Boeing emergiram como defensores fervorosos do projeto: Jack Steiner, engenheiro-chefe renomado por seu papel central no desenvolvimento do Boeing 727, e Crawford Greenewalt, ex-CEO da DuPont, cuja visão estratégica trouxe uma perspectiva externa valiosa. Steiner, conhecido como o "pai do B727", acreditava que o B737 poderia capturar o mercado de jatos regionais, servindo como um produto de entrada para atrair novos clientes, que futuramente poderiam adquirir modelos maiores, como o B707 ou o B747. Greenewalt, com sua experiência em liderar uma das maiores empresas químicas do mundo, reforçava essa visão, argumentando que a Boeing não podia se dar ao luxo de ceder espaço às concorrentes em um segmento tão promissor. Ambos viam no B737 uma oportunidade de consolidar a liderança da Boeing no mercado de aviação comercial, uma visão que se provaria acertada, dado o sucesso posterior do modelo. No entanto, a proposta enfrentou resistência significativa, liderada por ninguém menos que William M. Allen, o lendário presidente da Boeing. Desde 1945, Allen havia guiado a empresa por uma era de inovações, autorizando projetos icônicos como o Boeing 377 Stratocruiser, o bombardeiro B-52 Stratofortress, a família B707 - KC-135 e o próprio B727. Conhecido como "Bill Allen", ele era uma figura respeitada, cuja liderança moldou a Boeing como uma potência aeroespacial. Contudo, Allen expressava preocupações legítimas sobre o 737. 

Ele acreditava que a empresa já estava sobrecarregada com sua carteira de projetos e que entrar tardiamente no mercado de jatos regionais representava um risco elevado. A seu ver, o B737 enfrentaria dificuldades para competir com modelos já estabelecidos, como o DC-9 e o BAC 1-11, em um momento em que os recursos da Boeing estavam dispersos. Apesar das divergências, a visão estratégica de Steiner e Greenewalt prevaleceu. Em 1965, o conselho da Boeing aprovou o desenvolvimento do 737, com a Lufthansa como cliente lançadora, comprometendo-se com 21 encomendas. A decisão marcou o início de um dos programas mais bem-sucedidos da história da aviação, com o Boeing 737 tornando-se o jato comercial mais vendido de todos os tempos, superando 16.000 pedidos até 2025. O projeto, inicialmente concebido como um complemento ao 727, evoluiu para se tornar a espinha dorsal de companhias aéreas em todo o mundo, redefinindo a aviação regional e consolidando a Boeing como líder indiscutível no mercado de jatos narrow-body. Era o conceito de “família” de aeronaves. Neste sentido, Steiner advogava utilizar a mesma largura de fuselagem no B737, que teria então a capacidade de transportar passageiros em filas de 3+3 (ao invés da usual 2+3 dos DC-9/Caravelle/BAC 1-11). O problema de definir a localização dos motores no 737 foi resolvido por Joe Sutter, que depois ficou famosos como o engenheiro chefe responsável pelo programa 747. Embora os desenhos iniciais do B737 tivessem adotado a usual configuração de motores traseiros com cauda em T, quando Steiner definiu-se por utilizar a mesma largura de fuselagem do B707 e B727, a questão tomou nova dimensão. É que neste caso, como o avião tivesse a forma de “bola de futebol americano” – muito curto e largo – o bordo de fuga da asa ficaria muito próximo da entrada de ar dos motores, recebendo o fluxo turbulento da asa. Além disso, a fim de evitar o fluxo do arrasto parasita criado pela própria da fuselagem, os motores teriam de ficar bastante afastados da mesma de forma a não comprometer a ingestão do ar – o que exigira pylons maiores e mais pesados, trazendo indesejado aumento do peso do avião. Sutter achava que deveria haver outra solução mais “elegante”. Um dia em seu escritório ele pegou os desenhos do B737 com cauda em T, recortou os motores e começou a estudar a melhor posição para os mesmos. Intuitivamente ele pensou: “porque não colocar os motores novamente na asa, pendurados em pylons” (como no 707)? Essa solução, entretanto, trazia dois problemas: primeiramente os motores ficariam muito próximos da entrada de passageiros – considerando-se o cumprimento da fuselagem inicialmente estudada (menor ainda que a da primeira versão construída B737-100). Por outro lado, o trem de pouso teria de ser dotado de pernas bastante altas, a fim de possibilitar a instalação do conjunto motor/pylons e dar a necessária altura em relação ao chão. Num avião destinado a operar rotas de curta distância, que poderia efetuar de 6 a 8 voos por dia, sua altura elevada acarretaria um maior tempo de solo, com a retirada de escadas mais altas, carregadores de bagagem e caminhões de catering. 
Uma terceira e revolucionária configuração pareceu a melhor para Sutter: Instalar os motores bem abaixo das asas em uma carenagem “colada” ao seu introrso, sem o tradicional uso do pylon. Isso faria com que o B737 ficasse próximo ao chão, facilitando a manutenção dos motores e o carregamento de malas nos porões e deixando um fluxo corrente de ar nos motores. Antes, entretanto, de aprovar essa configuração Jack Steiner estabeleceu um “time vermelho” e um “time azul”, composto cada um por dois engenheiros, sendo o primeiro chefiado por ele mesmo e o segundo por Sutter. O primeiro time ficaria responsável por estudar as vantagens pela opção original de cauda em T e o segundo pela configuração desenvolvida por Sutter.  Ao final ficou claro que a segunda opção era a melhor, propiciando a utilização da parte traseira da fuselagem onde normalmente ficariam instalados os motores para levar mais passageiros. Assim, ao final de 1964 a configuração básica do B737 estava definida – faltava somente uma encomenda firme para lançar o projeto. Umas das primeiras empresas a despertar interesse no modelo foi a alemã Lufthansa, que almejava seu emprego em linhas regionais, e sugeriu ao fabricante que a capacidade ideal de transporte deveria ser da ordem de 100 passageiros. Desta maneira o projeto foi modificado para o atendimento desta demanda. O voo inaugural do protótipo do Boeing 737-100 ocorreu em 9 de abril de 1967 e veio a superar todas as expectativas, liberando assim sua produção em série imediatamente, sendo destinados a Lufthansa onde entrariam em operação já em 10 de abril de 1968. Com base nas necessidades de se ampliar o número de passageiros transportados, levaram ao desenvolvimento da variante 200, que teve sua fuselagem aumentada para o transporte de até 130 passageiros. O primeiro B737-200 efetuou seu voo inaugural em 8 de agosto de 1967, e esta nova versão obteve grande êxito no mercado civil, tendo sido comercializadas 1.114 unidades até o encerramento de sua produção em 1988. As séries 100 e 200 eram identificáveis pelas naceles tubulares de motor (turbofans Pratt and Whitney JT8D)  que eram integradas às asas, com projeções à frente do bordo de ataque e atrás do bordo de fuga, a partir da versão B737-300 , que teve seu primeiro voo em 28 de fevereiro de 1984 o design básico do modelo passou a incorporar as inovações tecnológicas aerodinâmicas, novas versões como 400 e 500 foram lançadas respectivamente em 1988 e 1989. O B737 continua em produção atualmente em sua nova variante agora denominada Next Generation 600, -700, -800 e 900, e sua produção total já ultrapassou a casa das 9.000 unidades entregues, que se encontram em emprego em 500 companhias áreas ao redor do mundo. o Boeing 737 é o jato de passageiros de maior sucesso no mundo.  O 737 consolidou a Boeing como líder em jatos narrow-body, apesar de altos e baixos, e segue como um pilar da aviação global, com atualizações planejadas para maior eficiência e sustentabilidade.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Na década de 1950, o Brasil vivenciava um período de profundas transformações estruturais e institucionais, impulsionadas por um projeto nacional de desenvolvimento que buscava modernizar a infraestrutura e redefinir a organização do Estado. Nesse contexto, durante o governo do Juscelino Kubitschek, a Presidência da República determinou ao Ministério da Aeronáutica (MAer) a realização de estudos voltados à incorporação de uma nova aeronave destinada ao transporte presidencial, tanto em missões domésticas quanto internacionais. À época, o Grupo de Transporte Especial (GTE), sediado no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, operava os tradicionais Douglas VC-47. Derivados do consagrado Douglas DC-3, esses aviões haviam sido adaptados para o transporte de autoridades e cumpriam com eficiência a missão institucional de mobilidade governamental. Contudo, já apresentavam limitações tecnológicas frente às crescentes exigências operacionais. A iminente transferência da capital federal para Brasília, inaugurada em 1960, introduziu novos desafios logísticos. A localização da nova capital no Planalto Central demandava aeronaves mais rápidas, com maior autonomia e melhor desempenho, capazes de integrar eficientemente o centro político-administrativo às principais cidades do país. Após criteriosa análise das alternativas disponíveis no mercado internacional, o Ministério da Aeronáutica (Maer) optou pela aquisição do Vickers Viscount, um turboélice britânico amplamente reconhecido por sua confiabilidade, desempenho e nível de conforto. À época, o modelo representava um dos mais avançados em operação no transporte regional e já era empregado por diversas companhias aéreas ao redor do mundo. Em 1956, o governo brasileiro formalizou a aquisição de duas unidades, posteriormente designadas VC-91 na Força Aérea Brasileira (FAB). Essas aeronaves foram especialmente configuradas para o transporte executivo, incorporando aviônicos modernos e interiores adaptados às necessidades de autoridades governamentais. Durante mais de uma década, os VC-91 desempenharam com eficiência e distinção o transporte presidencial e de altas autoridades. Entretanto, a rápida evolução da aviação comercial ao longo da década de 1960  marcada pela introdução de aeronaves a jato  evidenciou a necessidade de uma nova modernização. Em 1967, o foram iniciados estudos para a aquisição de uma aeronave que atendesse a padrões mais elevados de velocidade, autonomia e conforto. Como resultado desse processo, foi selecionado o BAC One-Eleven (BAC 1-11), um jato britânico de curto e médio alcance amplamente utilizado por operadores comerciais, como a British European Airways. Duas aeronaves da série 400 foram adquiridas e adaptadas para missões de transporte VIP, recebendo a designação VC-92. Incorporados  no final da década de 1960, os VC-92 substituíram prontamente os VC-91, inaugurando uma nova fase no transporte de autoridades no Brasil. Com maior velocidade, alcance ampliado e níveis superiores de conforto, esses jatos passaram a desempenhar papel central na mobilidade do Presidente da República e de altos dignitários, refletindo a modernização do Estado brasileiro e sua crescente inserção no cenário internacional.

Durante a década de 1970, sob a administração do Ernesto Geisel (1974–1979), o Grupo de Transporte Especial (GTE) estabeleceu uma diretriz estratégica que redefiniu a política de aquisição de aeronaves destinadas ao transporte presidencial. Essa orientação determinava que os futuros vetores deveriam pertencer a famílias já amplamente empregadas por companhias aéreas comerciais brasileiras, como VARIG, VASP e Cruzeiro do Sul. Tal medida visava racionalizar custos operacionais e de manutenção, aproveitando a infraestrutura logística, técnica e de suprimentos já consolidada no país. Paralelamente, buscava-se uma aeronave com desempenho superior ao dos BAC One-Eleven VC-92, cujas limitações de alcance se tornavam evidentes em missões de maior distância, especialmente diante da crescente inserção internacional do Brasil. Nesse cenário, a Boeing Commercial Airplanes consolidava sua posição de liderança no mercado brasileiro, com modelos como o Boeing 727 e o Boeing 737 amplamente operados nas principais rotas domésticas e internacionais. Essa predominância exerceu influência decisiva no processo de escolha conduzido pelo Ministério da Aeronáutica (MAer). Como resultado, em meados de 1975, foi firmado contrato com a Boeing Aircraft Company para a aquisição de duas aeronaves do modelo Boeing 737-200 Advanced, designadas na Força Aérea Brasileira (FAB) como VC-96. A designação “2N3” indicava uma configuração específica desenvolvida para o governo brasileiro, refletindo adaptações voltadas ao transporte executivo de alta autoridade. O projeto interno dessas aeronaves foi concebido com elevado grau de sofisticação e funcionalidade, estruturando-se em diferentes ambientes integrados: Seção frontal: destinada à tripulação e ao corpo de apoio direto, incluindo ajudantes de ordens e assessores, além de uma galley completamente equipada, garantindo autonomia em voos de longa duração. Área central (sala de reuniões): concebida como um espaço de trabalho, permitia ao Presidente da República conduzir reuniões, despachar documentos e manter a continuidade das atividades governamentais durante o voo. Suíte presidencial: contígua à área de trabalho, oferecia acomodações privativas, incluindo leito e instalações sanitárias exclusivas, assegurando conforto e discrição. Seção traseira: equipada com 36 assentos destinados à comitiva presidencial, incluindo ministros, assessores e demais integrantes da administração federal. Além da configuração interna, as aeronaves incorporavam soluções operacionais relevantes, como escadas embutidas, permitindo operações independentes em aeródromos com infraestrutura limitada  uma característica particularmente importante em um país de dimensões continentais como o Brasil. Dessa forma, a introdução dos VC-96 representou não apenas um avanço tecnológico, mas também a consolidação de uma doutrina moderna de transporte presidencial, alinhada às necessidades logísticas, políticas e estratégicas do Estado brasileiro na segunda metade do século XX. A produção das duas células VC-96 foi concluída nas instalações da Boeing em Seattle, Washington. 
A primeira aeronave do novo padrão presidencial, o Boeing 737-200 Advanced VC-96, registrada como FAB 2115, realizou seu voo inaugural em 5 de março de 1976, sob a supervisão de engenheiros do fabricante e representantes da Força Aérea Brasileira (FAB). A segunda unidade, FAB 2116, efetuou seu primeiro voo em 19 de agosto do mesmo ano. Ambas foram submetidas a um rigoroso processo de inspeções técnicas e aceitação, assegurando total conformidade com os requisitos operacionais e de segurança estabelecidos pela instituição. Concluídas essas etapas, as aeronaves foram preparadas para o traslado ao Brasil. Em 8 de setembro de 1976, a FAB 2115 pousou na Base Aérea de Brasília, sendo imediatamente incorporada ao 1º Esquadrão do Grupo de Transporte Especial (GTE). A chegada da FAB 2116 consolidou o processo de modernização da frota presidencial, ampliando significativamente a capacidade do grupo em cumprir sua missão institucional de assegurar a mobilidade das mais altas autoridades do país. Essas aeronaves representaram um avanço expressivo em relação aos BAC One-Eleven VC-92 que substituíram, oferecendo maior velocidade, autonomia e níveis superiores de conforto. Inicialmente, foram empregadas em missões no território nacional e em rotas regionais na América Latina, atendendo às demandas de deslocamento do Presidente da República e de sua comitiva. Com uma autonomia aproximada de 4.000 km, mostravam-se plenamente adequadas para conectar Brasília às principais capitais brasileiras e a destinos no entorno regional. A partir da década de 1980, contudo, com a ampliação da agenda diplomática e a crescente projeção internacional do Brasil, os VC-96 passaram a desempenhar missões intercontinentais. Nessas operações, tornava-se necessária a realização de escalas técnicas para reabastecimento, dadas as limitações naturais de alcance da aeronave. Para mitigar riscos e assegurar a continuidade das agendas presidenciais, o Grupo de Transporte Especial (GTE) adotou como procedimento padrão o emprego simultâneo das duas aeronaves em missões internacionais. Essa estratégia garantia redundância operacional, permitindo que uma aeronave atuasse como suporte em caso de eventual indisponibilidade da principal, reforçando os níveis de segurança e confiabilidade das missões. Um exemplo emblemático dessa capacidade ocorreu em 2003, durante o governo do Luiz Inácio Lula da Silva, quando um dos VC-96 foi empregado em uma extensa missão ao Oriente Médio e ao Norte da África. Entre 5 e 15 de dezembro, a aeronave realizou escalas nas Ilhas Canárias, Marrocos, Líbia, Egito, Emirados Árabes Unidos, Síria, Líbano e Tunísia. Essa operação evidenciou não apenas a versatilidade do VC-96, mas também a capacidade do Grupo de Transporte Especial (GTE) em planejar e executar missões complexas em múltiplos teatros geográficos, consolidando o papel da aviação presidencial como instrumento de projeção diplomática do Estado brasileiro.

O ápice das operações de longo alcance foi registrado entre 22 e 29 de maio de 2005, quando os VC-96 realizaram uma viagem ao Japão, totalizando 54 horas de voo. Essa missão, que incluiu escalas técnicas para reabastecimento, demonstrou a robustez das aeronaves e a competência da Força Aérea Brasileira (FAB) em planejar e executar deslocamentos globais de alto nível. A escolha do Boeing 737 para essas operações refletia não apenas a confiança na plataforma, mas também sua compatibilidade com a infraestrutura de manutenção disponível em diversos aeroportos ao redor do mundo, resultado da ampla adoção do modelo por companhias aéreas comerciais. Para atender às crescentes exigências de segurança e eficiência em voos internacionais, as duas células VC-96 passaram por uma significativa modernização em 1997. Esse processo, conduzido pela empresa norte-americana Associated Air Center, em Dallas, Texas, visava atualizar os sistemas de navegação e segurança das aeronaves, garantindo conformidade com os padrões internacionais de aviação da época. Entre as melhorias implementadas, destacam-se: Sistema de Gerenciamento de Voo (FMS, Flight Management System): Um conjunto avançado de computadores de bordo que otimizava a navegação, permitindo maior precisão no planejamento de rotas e economia de combustível. Sistema de Prevenção de Colisão em Voo (TCAS, Traffic Collision Avoidance System): Equipamento essencial para detectar e evitar conflitos com outras aeronaves, elevando os padrões de segurança em espaço aéreo congestionado. Além das atualizações em aviônica, o processo incluiu um retrofit estrutural completo, reforçando a integridade da fuselagem para prolongar a vida útil das aeronaves, e uma renovação total do interior, garantindo maior conforto e funcionalidade para o Presidente e sua comitiva. A suíte presidencial, a sala de reuniões e a área de passageiros foram modernizadas, mantendo o padrão VIP exigido para missões oficiais. Essa modernização reflete o compromisso da Força Aérea Brasileira (FAB) em manter o Grupo de Transporte Especial (GTE)equipado com tecnologia de ponta, assegurando que as aeronaves VC-96 continuassem a desempenhar sua missão de “conduzir os que conduzem o Brasil” com segurança, eficiência e representatividade. A capacidade das aeronaves de operar em qualquer ponto do planeta, aliada à sua configuração customizada e ao suporte logístico do Grupo de Transporte Especial (GTE), consolidou o Boeing 737 VC-96 como um pilar fundamental do transporte presidencial brasileiro, projetando a imagem do Brasil no cenário internacional durante um período de crescente protagonismo diplomático.
Ao longo de trinta e quatro anos, as aeronaves Boeing VC-96, popularmente apelidadas de “Sucatinhas” devido à associação com o Boeing KC-137E presidencial, que por vezes apresentava problemas técnicos, prestaram serviço exemplar ao transporte oficial de sete presidentes da República do Brasil: Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Essas aeronaves, operadas pela Força Aérea Brasileira (FAB), tornaram-se símbolo de confiabilidade e versatilidade, apesar do apelido pejorativo, que não refletia sua real condição operacional. Durante sua trajetória, os Boeing VC-96 desempenharam um papel significativo em missões diplomáticas, transportando não apenas autoridades brasileiras, mas também visitantes ilustres em ocasiões especiais. Um dos momentos mais marcantes de sua história ocorreu em 1980, quando o Boeing VC-96 foi utilizado para transportar o Papa João Paulo II durante sua histórica visita ao Brasil. Naquela ocasião, o pontífice percorreu onze cidades em diferentes regiões do país, em uma viagem que marcou a memória nacional. Quando chefes de Estado ou comitivas estrangeiras visitavam o Brasil sem dispor de aeronaves próprias, era prática comum o governo brasileiro disponibilizar os VC-96, reforçando o compromisso do país com a hospitalidade e a cooperação internacional. Contrariando o estigma do apelido “Sucatinhas”, os Boeing VC-96 jamais registraram incidentes significativos durante o transporte de autoridades, acumulando juntos mais de cinquenta mil horas de voo ao longo de suas carreiras. O Boeing VC-96 FAB 2115 completou 26.356 horas de voo e 20.120 pousos, enquanto o Boeing VC-96 FAB 2116 alcançou 27.105 horas e 20.586 pousos. A decisão de desativá-los não se deveu ao desgaste das aeronaves, que se mantinham em bom estado de conservação, mas à sua idade avançada, que tornava desaconselhável sua continuidade em missões de transporte de autoridades (VIP – Very Important Person) sob os padrões modernos de segurança e eficiência. A aposentadoria oficial dos Boeing VC-96 ocorreu em abril de 2010, em uma solenidade realizada nos hangares do Grupo de Transporte Especial (GTE), na Base Aérea de Brasília. Na ocasião, as aeronaves foram substituídas pelos modernos Embraer E-190 VC-2, que passaram a assumir as funções de transporte presidencial e oficial. Após a desativação, as duas unidades tiveram destinos distintos. O Boeing VC-96 FAB 2116 realizou seu último voo em 4 de novembro de 2011, sendo transferido para o Museu Aeroespacial (MUSAL), localizado no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, onde foi preservado como parte do acervo histórico da aviação brasileira. Já o Boeing VC-96 FAB 2115 foi inicialmente armazenado na Base Aérea de Cumbica, em Guarulhos, São Paulo. Em 2016, a aeronave foi adquirida por uma empresa privada, desmontada e transportada para Foz do Iguaçu, no Paraná, onde foi restaurada e remontada para exposição no portão do Parque Nacional do Iguaçu, transformando-se em um marco histórico e turístico da região.

Em Escala.
Para representarmos o Boeing VC-96 "FAB 2116 “fizemos uso do antigo e raríssimo kit da Aurora na escala 1/72 , modelo este que era a única opção injetada no momento da montagem. Atualmente existem kits injetados nesta escala como os produzidos pela Big Plane Kits.  Para se  configurar a versão nacional B737-2N3 Advanced, (Model 200)  é necessário proceder uma série de alterações em scratch (principalmente nas turbinas). Empregamos decais confeccionados pela FCM Decals, produzido para o kit em resina produzido pela Charlenger Modelismo.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura empregado em todas as aeronaves do Grupo de Transporte Especial (GTE), adotado no final da década de 1990, que veio a substituir o esquema original em que as aeronaves Boeing VC-96  foram recebidas no ano de  1976.
Bibliografia :
- O Boeing 737 e a História de seu Nascimento – Marcelo Magalhães
- Aeronaves Presidenciais a Jato – A. Camazano Alamino – Revista Asas Edição 94
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aviação Militar Brasileira 1916 / 1984 - Francisco C. Pereira Netto