Toyota Bandeirante (VTrOp-VTE-VLSR)

História e Desenvolvimento.
A história da Toyota começa com Sakichi Toyoda, nascido em 1867 em Yamaguchi, na província de Shizuoka, em um Japão em transição para a modernidade sob o governo Meiji. Filho de um carpinteiro, Sakichi cresceu em uma vila rural assolada pela pobreza, mas desde jovem demonstrou um desejo ardente de contribuir para a sociedade. Inspirado pela Revolução Industrial e pela necessidade de melhorar a eficiência da indústria têxtil, ele dedicou-se ao desenvolvimento de teares automáticos. Em 1896, Sakichi criou o Toyoda Power Loom, o primeiro tear motorizado do Japão, feito de aço e madeira, que aumentava significativamente a produtividade e a qualidade dos tecidos. Em 1924, ele aperfeiçoou sua invenção com o Toyoda Model G Automatic Loom, equipado com o princípio de jidoka – a capacidade de uma máquina parar automaticamente ao detectar um problema, um conceito que mais tarde se tornaria um pilar do Sistema de Produção Toyota. Em 1926, Sakichi fundou a Toyoda Automatic Loom Works, que se tornou um sucesso internacional, atraindo a atenção da britânica Platt Brothers, que adquiriu os direitos de produção do Model G em 1929 por £100.000, um marco raro para a tecnologia japonesa da época. Esse capital foi crucial para financiar o sonho de seu filho, Kiichiro Toyoda, de ingressar na indústria automotiva, diversificando os negócios da família. Sakichi faleceu em 1930, aos 63 anos, deixando um legado de inovação e um espírito empreendedor que guiaria as futuras gerações. Kiichiro Toyoda, fascinado por automóveis desde a infância, herdou a paixão do pai pela engenhosidade e a visão de contribuir para a sociedade. Após estudar engenharia e viajar para a Europa e os Estados Unidos em 1929, onde observou a ascensão da indústria automotiva, Kiichiro decidiu que o Japão precisava de uma produção nacional de veículos. Com o apoio do governo japonês, que buscava reduzir a dependência de importações devido à guerra com a China, ele estabeleceu a Divisão de Produção Automotiva da Toyoda Automatic Loom Works em 1933. Em 1934, a divisão desenvolveu seu primeiro motor, o Type A, seguido pelo protótipo do carro de passeio Model A1 em 1935 e pelo caminhão G1 no mesmo ano. Em 1936, a produção do Model AA, um sedan inspirado em designs americanos, mas adaptado às necessidades japonesas, marcou o início da fabricação de automóveis. Para formalizar essa nova empreitada, a Toyota Motor Company foi fundada em 28 de agosto de 1937, com Kiichiro como presidente. A nova empresa enfrentou desafios iniciais, pois o mercado japonês era dominado pelas americanas Ford e General Motors, que montavam veículos localmente com peças importadas. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Toyota concentrou-se na produção de caminhões e ônibus para o Exército Imperial Japonês, enfrentando escassez de materiais que a forçaram a fabricar veículos simplificados, como caminhões com apenas um farol. 

Esta montadora seria responsável pelo desenvolvimento de uma respeitável linha de utilitários  para qualquer terreno, com sua gênese curiosamente ocorrendo durante a invasão das Filipinas pelas forças japonesas em dezembro de 1941. Entre abril e maio de 1942, a queda de Bataan e Corregidor selou a derrota das forças aliadas na região, forçando o general Douglas MacArthur a evacuar para a Austrália. Nesse processo, os norte-americanos abandonaram uma quantidade significativa de equipamentos, incluindo vários Jeeps Bantam Mark II e Willys MB, veículos utilitários leves que impressionaram os militares japoneses por sua agilidade e capacidade de operar em terrenos difíceis. Reconhecendo o valor estratégico de tais viaturas, o Exército Imperial Japonês enviou os Jeeps capturados ao seu centro de desenvolvimento militar no Japão para análise detalhada. A robustez e a versatilidade dos Jeeps inspiraram o comando japonês a encomendar um veículo semelhante, capaz de atender às necessidades das operações militares. A tarefa foi confiada à Toyota Motor Company, a  exigência era clara: o novo veículo deveria replicar as capacidades off-road do Jeep americano, mas sem imitar diretamente seu design externo. A Toyota abraçou o desafio  iniciando o desenvolvimento do protótipo Model AK ainda em 1941. Sob a pressão das demandas militares e das limitações impostas pela escassez de recursos  a empresa concluiu o projeto em 1942, dando origem ao AK10, formalmente designado pelo Exército Imperial Japonês como Yon-Shiki Kogata Kamotsu-Sha (Caminhão de Carga Compacto Tipo 4). Se tratava de um caminhão leve de ½ tonelada, com uma carroceria aberta montada sobre um chassi de caminhão, priorizando simplicidade e funcionalidade. Suas características incluíam uma grade frontal vertical, para-lamas dianteiros retos que se inclinavam para trás, faróis posicionados acima dos para-lamas e um para-brisa rebatível. Equipado com o motor Type C de quatro cilindros e 2.259 cm³, derivado do sedan Toyota Model AE, o AK10 contava com uma transmissão manual de três velocidades e uma caixa de transferência de duas velocidades, garantindo tração 4x4 essencial para operações em terrenos variados. A produção do AK10 foi extremamente restrita, com apenas algumas unidades fabricadas entre 1942 e 1944. Em abril de 1944, a Toyota completou seis protótipos, e a produção em série estava prestes a começar quando a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, interrompeu todos os planos. Embora o AK10 não tenha alcançado notoriedade durante a guerra, suas lições foram fundamentais para o desenvolvimento do Toyota "Jeep" BJ, lançado em 1951, que deu origem à icônica linha Land Cruiser. Em 1950, a Guerra da Coreia criou uma nova demanda por veículos utilitários leves, levando o governo dos Estados Unidos a encomendar à Toyota a produção de 100 unidades baseadas nas especificações do Willys Jeep. Esse pedido resultou no Jeep BJ, um veículo maior e mais potente, equipado com um motor de seis cilindros de 3,4 litros, que superava o Jeep americano em desempenho e durabilidade.
O sucesso do Toyota "Jeep" BJ, precursor do icônico Land Cruiser, marcou o início de uma trajetória de excelência da Toyota no segmento de veículos off-road. Em 1951, o BJ conquistou a atenção do Japão ao escalar o Monte Fuji, um feito inédito que demonstrou sua robustez e capacidade de superar terrenos desafiadores. Esse marco levou o governo japonês a encomendar cerca de 300 unidades para a Polícia Nacional Japonesa, consolidando a reputação da Toyota como uma força inovadora no mercado de utilitários 4x4. O legado desse veículo, que teve suas raízes no humilde Toyota AK10 da Segunda Guerra Mundial, ecoaria por décadas, alcançando mercados globais, incluindo o Brasil, onde o Toyota Bandeirante se tornaria um símbolo de durabilidade e versatilidade. Em 1954, a Toyota enfrentou um desafio legal imposto pela Willys, que detinha os direitos sobre a marca "Jeep" nos Estados Unidos. Para evitar conflitos e manter sua competitividade, a Toyota rebatizou o BJ como Land Cruiser, um nome estratégico que evocava robustez e capacidade off-road, posicionando-o como concorrente direto do Land Rover britânico. A escolha do nome também foi oportuna, já que a Studebaker havia descontinuado seu modelo Land Cruiser naquele ano, permitindo à Toyota apropriar-se da marca. No mesmo ano, o Land Cruiser foi aprimorado com a introdução de um novo motor de 3,9 litros, entregando 126 cavalos de potência, que reforçou seu desempenho em condições adversas. Paralelamente, a Toyota intensificava sua expansão global, identificando o Brasil como um mercado promissor. Em 1953, a empresa começou a comercializar seus veículos no país por meio da Alpagral Ltda, em São Paulo, importando e montando localmente os primeiros Land Cruisers. O sucesso inicial dessas operações levou à fundação, em 23 de janeiro de 1958, da Toyota do Brasil Indústria e Comércio Ltda, com um escritório no centro de São Paulo. Essa iniciativa marcou o compromisso da Toyota em estabelecer raízes no Brasil, preparando o terreno para atender diretamente às demandas do mercado nacional. Em novembro de 1958, a Toyota do Brasil deu um passo decisivo ao iniciar a montagem de veículos no regime CKD (Completely Knocked Down), começando pela linha Land Cruiser. O crescimento das vendas e a aceitação do público brasileiro incentivaram a empresa a investir em uma planta industrial mais robusta, inaugurada em novembro de 1962, em São Bernardo do Campo, São Paulo. Nessa nova fase, a Toyota substituiu o Land Cruiser pelo Toyota Bandeirante, um utilitário projetado para atender às necessidades específicas do mercado brasileiro. Disponível nas versões jipe, camioneta de carga e uso misto, o Bandeirante era equipado com um motor próprio de seis cilindros a gasolina, tração nas quatro rodas e uma construção robusta que prometia enfrentar os desafios das estradas e terrenos do país.

Em maio de 1962, o Bandeirante passou a ser fabricado no Brasil, abandonando o sistema CKD e adotando o motor Mercedes-Benz OM-314 de 3.784 cm³ e 85 cavalos, emprestado do caminhão MB L-608D. Essa escolha foi um diferencial mercadológico, garantindo economia de combustível e confiabilidade, características que conquistaram fazendeiros, empresas e órgãos públicos. A produção da carroceria foi inicialmente terceirizada para a Brasinca, com opções de teto de lona ou aço (disponível a partir de 1963) e a introdução da versão picape no mesmo ano. O slogan da marca, “O Toyota Bandeirante foi construído para durar longos anos produzindo lucros para seu proprietário”, refletia a promessa de durabilidade, reforçada por relatos de proprietários que afirmavam que o veículo podia rodar até um milhão de quilômetros sem necessidade de abrir o motor. O Bandeirante era equipado com uma transmissão mecânica de quatro marchas, uma caixa de transferência de duas velocidades e eixos flutuantes, todos produzidos na fábrica de São Bernardo do Campo. Essa política de verticalização, em que a Toyota fabricava localmente a maioria dos componentes, exceto o motor, demonstrava seu compromisso com a autossuficiência industrial. Ao longo das décadas, o Bandeirante recebeu melhorias graduais em acabamento e mecânica, mantendo-se fiel ao projeto original, cuja simplicidade e robustez garantiam sua popularidade. A demanda era tão alta que compradores enfrentavam meses de espera para adquirir o veículo. Na década de 1980, mudanças significativas foram introduzidas. A sincronização de todas as marchas melhorou a dirigibilidade, com uma segunda marcha mais longa e a primeira adaptada para uso urbano. A caixa de transferência foi reformulada, alinhando-se a padrões de concorrentes como a Willys. Em 1983, a Toyota lançou a versão cabine dupla (OJ55LP2BL), apelidada de Toyota Cabine Dupla, uma resposta às demandas de usuários que buscavam combinar a capacidade de transportar 1.100 kg de carga com espaço para até seis passageiros, sem sacrificar a tração 4x4. Com 5,30 metros de comprimento, entre-eixos de 3,36 metros e uma caçamba de 1,80 metro, o modelo oferecia ângulos de entrada e saída de 42 e 22 graus, ideais para o off-road. Seu interior funcional, com bancos revestidos em vinil e um painel simétrico, era complementado por alavancas para câmbio, tração 4x4 e freio de estacionamento, garantindo uma experiência de condução prática e memorável. O único concorrente direto na época era a Chevrolet 10 Cabine Dupla 4x4 Engesa, que, no entanto, não oferecia reduzida e era produzida apenas sob encomenda. O sucesso da cabine dupla ampliou a participação da Toyota no mercado, reforçando a versatilidade do Bandeirante, que já incluía cinco outras configurações: jipe curto com teto de lona ou aço, perua com teto de aço, e picapes curta e longa.
Em 1990, acompanhando a modernização da linha de caminhões Mercedes-Benz, o motor OM-314 foi substituído pelo OM-364 de 3.972 cm³, com 90 cavalos, maior torque em baixa rotação e menor consumo. O sistema de fixação do motor, captação de ar e escapamento foram redesenhados, e a linha Bandeirante adotou uma nova grade dianteira em plástico com faróis retangulares, atualizando sua estética. Em 1994, a Toyota voltou às suas origens, equipando o Bandeirante com um motor próprio importado, mais potente que o OM-364, entregando 96 cavalos a 3.400 rpm, contra 90 cavalos a 2.800 rpm do modelo anterior. Essa evolução reforçou o desempenho do veículo, mantendo sua reputação de confiabilidade.  O Toyota Bandeirante, um ícone da indústria automotiva brasileira, enfrentou, na década de 1990, os desafios de um mercado em transformação. Em 1996, para atender às normas mais rigorosas de emissão de gases poluentes, a Toyota introduziu ajustes significativos no modelo. O motor Toyota 14B, que equipava o Bandeirante, teve sua potência reduzida para 96 cavalos e torque de 24,4 mkgf, garantindo conformidade com as regulamentações ambientais. Além disso, os freios a tambor, considerados obsoletos, foram substituídos por discos ventilados, melhorando a segurança e o desempenho. Essas mudanças refletiam o compromisso da Toyota em manter o Bandeirante competitivo, mesmo diante de um cenário automotivo cada vez mais exigente. No entanto, o mercado brasileiro estava em plena abertura às importações, trazendo novos concorrentes que desafiavam a liderança da Toyota no segmento de utilitários off-road. A linha Defender da Land Rover, com seu design moderno e tecnologias avançadas, emergiu como uma ameaça significativa, atraindo consumidores que buscavam veículos mais contemporâneos. A Toyota, ciente dessas pressões, enfrentava também um obstáculo interno: o peso de quatro décadas de produção do Bandeirante sem alterações estruturais profundas. Apesar de sua reputação de robustez e durabilidade, o veículo começava a mostrar sinais de envelhecimento em um mercado que valorizava inovação e conforto. A introdução de uma nova legislação de emissão de poluentes, prevista para entrar em vigor em 2002, trouxe um desafio definitivo. O motor aspirado do Bandeirante, mesmo com os ajustes realizados, não atendia aos limites estabelecidos pelas novas normas. Adaptar o veículo às exigências ambientais demandaria investimentos significativos, incompatíveis com um modelo cuja arquitetura remontava aos anos 1950. Assim, em uma decisão que marcou o fim de uma era, a Toyota anunciou a descontinuação da linha Bandeirante para novembro de 2001, encerrando 43 anos de uma trajetória marcada por conquistas e lealdade. Ao longo de sua história no Brasil, a Toyota produziu 103.750 unidades do Bandeirante, sem contar os exemplares montados no regime CKD (Completely Knocked Down), que totalizaram menos de 1.000 veículos. Estima-se que, na época do encerramento da produção, cerca de 60% das unidades fabricadas ainda estavam em operação no país, um testemunho impressionante da resistência e durabilidade do Bandeirante.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No final da década de 1950, o Exército Brasileiro enfrentava um desafio crítico para manter sua capacidade de mobilidade operacional. Sua frota de veículos militares com tração 4x4, composta por mais de 1.500 unidades dos modelos Dodge WC-51, WC-53, WC-54, WC-56 e WC-57, desempenhava funções essenciais, como transporte de tropas, atendimento médico em ambulâncias, comando e tração de artilharia leve. Esses veículos, adquiridos entre 1942 e 1945 por meio do programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), foram fundamentais durante e após a Segunda Guerra Mundial. Contudo, após mais de uma década de uso intensivo, a frota apresentava sinais de desgaste severo, agravados por dificuldades na manutenção e na obtenção de peças de reposição, que se tornavam cada vez mais escassas no mercado internacional. A produção desses modelos havia sido descontinuada nos Estados Unidos havia mais de 15 anos, comprometendo a operacionalidade de grande parte das viaturas e ameaçando a prontidão da Força Terrestre. A substituição dos Dodge WC por seus sucessores naturais, os modelos Dodge M37 e M43, revelou-se financeiramente inviável. O custo unitário elevado, multiplicado pela necessidade mínima de 1.000 unidades para renovar a frota, esbarrava nas limitações orçamentárias não apenas do Exército, mas de todas as Forças Armadas Brasileiras. Diante desse cenário, tornou-se evidente que a solução deveria ser adaptada à realidade financeira do país, levando o comando militar a voltar seus olhares para a indústria nacional, que começava a despontar como uma alternativa viável e estratégica. Na década de 1950, a Willys-Overland do Brasil (WOB) consolidava-se como a principal montadora de automóveis do país, conquistando a confiança do mercado e das instituições públicas. Sua reputação junto ao Exército Brasileiro era particularmente sólida, graças ao fornecimento de centenas de Jeeps CJ-5 ¼ ton, que substituíram com sucesso os jipes leves recebidos durante a Segunda Guerra Mundial. A experiência da Willys em produzir veículos robustos, confiáveis e adaptados às condições brasileiras fez da empresa uma candidata natural para atender à demanda do Exército por novos utilitários 4x4. Nesse contexto, o lançamento da Rural Willys reestilizada e, posteriormente, da Picape Willys despertou o interesse militar. Esses modelos, derivados do Jeep Willys, ofereciam uma combinação atraente de robustez, versatilidade e custo acessível, características ideais para complementar e substituir a frota envelhecida de Dodge WC. A Rural, com sua carroceria espaçosa e capacidade de operar em terrenos variados, e a Picape, projetada para transporte de carga, apresentavam-se como soluções práticas e econômicas, alinhadas às restrições orçamentárias do Exército. Essa percepção culminou na assinatura dos primeiros contratos de aquisição do Rural Willys-Overland F-85 Militar, uma versão adaptada às necessidades militares, marcando o início de uma parceria estratégica entre a Willys e as Forças Armadas Brasileiras.

No final da década de 1950, o Exército Brasileiro encontrou na Rural Willys-Overland F-85 Militar uma solução prática e acessível para renovar sua frota de utilitários 4x4, que enfrentava desafios de obsolescência e manutenção. Projetado para atender às demandas operacionais da Força Terrestre, o F-85 Militar preservava a essência do Jeep Willys: simplicidade, durabilidade e capacidade de operar em terrenos desafiadores. Equipado com tração 4x4, o veículo desempenhava funções vitais, como transporte de tropas, ligação entre unidades e suporte logístico, oferecendo uma alternativa confiável aos envelhecidos modelos Dodge WC. Sua construção robusta, com chassi reforçado e suspensão adaptada a condições adversas, garantia desempenho em selvas, campos e estradas precárias, enquanto o motor, derivado das versões civis da Willys, assegurava economia de combustível e facilidade de manutenção. Embora o F-85 atendesse às necessidades emergenciais do Exército com competência, apresentava uma limitação significativa: a ausência de um sistema de tração 4x4 otimizado, com reduzida, essencial para operações off-road em terrenos extremos. Essa lacuna expunha uma vulnerabilidade em cenários que exigiam maior mobilidade tática, levando o comando militar a buscar alternativas que complementassem a frota com maior eficiência. Nesse contexto, a indústria automotiva nacional voltou a oferecer uma solução promissora. Em 1962, a Toyota do Brasil Indústria e Comércio Ltda, consolidada em São Bernardo do Campo, São Paulo, lançou no mercado brasileiro a linha de utilitários leves Toyota Bandeirante, equipada com tração 4x4 e projetada para atender às demandas de robustez e versatilidade do país. Com versões que incluíam jipe curto, perua, picape curta e longa, o Bandeirante rapidamente conquistou a confiança de fazendeiros, empreiteiros e órgãos públicos, graças à sua durabilidade e capacidade de enfrentar os terrenos mais inóspitos do Brasil. O desempenho do Toyota Bandeirante chamou a atenção dos oficiais do comando do Exército Brasileiro, que enxergaram no utilitário um potencial aliado para modernizar a frota militar. Em resposta a uma consulta do Exército, a Toyota demonstrou agilidade e comprometimento, desenvolvendo uma versão militarizada do Bandeirante adaptada às necessidades específicas das Forças Armadas. As negociações avançaram rapidamente, culminando, em 1964, nos primeiros contratos de aquisição de unidades do jipe curto, disponível com teto de lona ou aço, seguidas por modelos perua com teto de aço e picapes de chassi curto e longo. Essas viaturas foram destinadas a missões de transporte de pessoal, com configurações de cabine simples e dupla, além de unidades adaptadas como ambulâncias, ampliando a versatilidade da frota militar.
O Toyota Bandeirante, com sua robustez e versatilidade, consolidou-se como um pilar essencial na modernização da frota de utilitários 4x4 das Forças Armadas Brasileiras a partir da década de 1960. Equipado com tração 4x4, caixa de transferência de duas velocidades e o confiável motor Mercedes-Benz OM-314 de 3.784 cm³ e 85 cavalos, o Bandeirante demonstrou eficiência em operações de campo, desempenhando funções como transporte de tropas, ligação entre unidades e suporte logístico. Apesar de seu desempenho exemplar, as versões militarizadas iniciais eram, em essência, veículos civis com adaptações limitadas, como pintura camuflada e suportes para equipamentos táticos. Essa característica gerava incertezas sobre sua adequação em cenários de conflagração real, onde maior blindagem, armamento integrado ou reforços estruturais poderiam ser necessários. Ainda assim, o Bandeirante representava um avanço significativo, unindo a experiência da Toyota em utilitários off-road com a necessidade do Exército Brasileiro por soluções acessíveis e confiáveis. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, a Toyota expandiu seu alcance, fornecendo o Bandeirante não apenas ao Exército, mas também à Força Aérea Brasileira e à Marinha do Brasil. Na Aeronáutica, o modelo tornou-se o utilitário padrão, presente em grande número nas bases aéreas e sedes administrativas, destacando-se por sua durabilidade e facilidade de manutenção. Essa confiança nas capacidades do Bandeirante abriu caminho para o desenvolvimento de versões verdadeiramente militarizadas, atendendo às demandas cada vez mais específicas das Forças Armadas. Em 1985, o Exército Brasileiro e o Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha abriram uma concorrência para a aquisição de uma nova geração de jipes militares, exigindo que a proposta vencedora incluísse fabricação ou montagem no Brasil, reforçando a prioridade dada à indústria nacional. Entre as empresas participantes, destacou-se a proposta da Bernardini S.A. Indústria e Comércio, que apresentou o Jipe Xingu (inicialmente chamado de Projeto Vitória). Esse projeto consistia em uma versão militarizada do Toyota Bandeirante, adaptada para atender às especificações militares, com bitola alargada, três comprimentos de chassi e carroceria reforçada com chapas de aço mais espessas, atendendo a uma solicitação específica do Exército. As modificações do Jipe Xingu incluíam características típicas de veículos militares: guincho mecânico fabricado pela Biselli, acoplamento para reboque, para-brisa rebatível, barra de proteção (santo antônio), faróis militares e suspensão reforçada, garantindo maior resistência em operações off-road. Dois protótipos foram entregues em meados de 1985 e submetidos a um rigoroso programa de testes de campo, supervisionado por uma junta militar avaliadora. 

O desempenho promissor do Xingu resultou em contratos significativos: o Ministério da Marinha adquiriu 270 unidades, entregues a partir de 1988, que permaneceram em serviço no Corpo de Fuzileiros Navais até a primeira década do século XXI, sendo gradualmente substituídas pelos Agrale AM Marruá.  O Exército Brasileiro, por sua vez, contratou 300 unidades, das quais 60 foram configuradas com para-brisa basculante e recortado, além de suportes para peças de artilharia na traseira, destinadas a substituir os jipes Ford Kaiser M-151A1 e M-151C, equipados com canhões sem recuo M-40A1 Recoilless Rifle de 106 mm. O desempenho em campo do Jipe Xingu foi exemplar, conquistando a confiança das Forças Armadas e gerando novos contratos. A produção em escala proporcionou uma sobrevida à Bernardini, mas, infelizmente, não foi suficiente para sustentar sua operação industrial. Após a entrega final, a empresa enfrentou dificuldades financeiras e encerrou suas atividades em 2001, deixando um legado de inovação no setor de defesa brasileiro. Na década de 1990, o Exército Brasileiro ampliou o uso do Toyota Bandeirante, adotando a versão militar da OJ55LP2BL cabine dupla, fornecida nas configurações com cabine de aço ou para-brisa rebatível e cabine de lona. Essas viaturas foram destinadas principalmente aos Grupos de Exploradores dos Pelotões de Cavalaria Mecanizada e Pelotões de Exploradores, reforçando a mobilidade tática em operações de reconhecimento. A versatilidade da plataforma Bandeirante também permitiu o desenvolvimento de uma nova variante ambulância, baseada na picape de cabine longa, projetada para substituir as antigas Willys Ford F-81, em serviço desde a década de 1970. Essa versão, disponível em configurações básica VE Ambulância  e VE Ambulância  UTI móvel, começou a ser entregue em 1996, estendendo-se até 2000, e foi distribuída para quase todas as unidades operativas do Exército Brasileiro dispostas no território nacional, garantindo suporte médico em qualquer terreno. O Toyota Bandeirante cabine dupla teve sua prova de fogo em cenários reais durante a participação brasileira nas forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Na Primeira Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola (UNAVEM I, 1989-1991) e na UNAVEM II (1991-1995), o veículo demonstrou sua confiabilidade em operações de patrulhamento e transporte. Durante a UNAVEM II, uma picape Toyota Bandeirante foi alvejada por disparos inimigos, um incidente que destacou sua resistência, mas também reforçou a necessidade de maior proteção em cenários de combate, um desafio que futuras viaturas militares, como o Agrale Marruá modificadas, buscariam endereçar.
O envelhecimento progressivo da frota de utilitários Toyota Bandeirante, somado à natural obsolescência e redução na oferta de peças de reposição  (devido  ao encerramento da produção pela Toyota em 2001), levou o Ministério do Exército  a iniciar um planejamento estratégico para a substituição gradual dessas viaturas. A prioridade foi a desativação das versões de cabine dupla com capota de lona, que apresentavam maior desgaste operacional. Nesse contexto, em 2002, foi firmado um contrato com a empresa inglesa Land Rover Group para a aquisição de 750 unidades do modelo Defender 93, destinadas à distribuição entre o Exército, a Marinha e a Força Aérea Brasileira. Esse acordo marcou o início do processo de substituição da icônica família Toyota Bandeirante, que por décadas foi um pilar da mobilidade tática das Forças Armadas. Apesar da introdução dos Land Rover Defender 93 , as versões utilitárias do Toyota Bandeirante continuaram desempenhando funções administrativas em diversas unidades militares. Além disso, muitas das ambulâncias Bandeirante, entregues ao Exército Brasileiro  na década de 1990, passaram por um rigoroso processo de revitalização no 4º Escalão de Manutenção. Esse programa envolveu reparos abrangentes, incluindo a revisão dos sistemas de motorização, embreagem, caixa de transmissão, freios, direção, suspensão e elétrica, além da manutenção do baú, funilaria e pintura. Essas intervenções permitiram estender significativamente a vida útil dessas viaturas, garantindo sua operação em missões de suporte médico com a confiabilidade característica da plataforma. Curiosamente, o ciclo de substituição das Forças Armadas brasileiras revela uma coincidência notável: tanto os Toyota Bandeirante quanto os Land Rover Defender, adquiridos para sucedê-los, estão programados para serem retirados de serviço em um mesmo horizonte temporal. Ambos serão substituídos, no curto prazo, pela família de veículos 4x4 Agrale AM Marruá, que representa a nova geração de viaturas táticas nacionais. Desenvolvido com foco na robustez e na adaptação às necessidades operacionais brasileiras, o Marruá consolida-se como a escolha estratégica para modernizar a frota militar, encerrando o legado de dois ícones que marcaram a história da defesa nacional.

Em escala.
Para representarmos a Viatura Operações -  Vtr Op Toyota Bandeirante Cabine Dupla, pertencente ao Exército Brasileiro, fizemos uso do modelo em die cast produzido pela Axio na escala 1/43 da coleção “Veículos de Serviço do Brasil Tempos” da Editora Altaya, procedendo a customização para a versão militar.  Empregamos decais confeccionados pela decais Eletric Products pertencentes ao set “Exército Brasileiro 1983 – 2003”.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático do Exército Brasileiro aplicado em a maioria de veículos militares a partir de 1983, porém ainda coexistia com este padrão o esquema de pintura em verde oliva principalmente na versão ambulância. Já carros participantes das operações internacionais UNAVEM I e II foram pintados no esquema das forças de paz das Nações Unidas (ONU). Já os veículos pertencentes ao Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira adotaram esquemas de pintura diferentes.


Bibliografia : 
Grandes Brasileiros: Toyota Bandeirante – Sergio Berezovsky Quatro Rodas
A origem do Toyota Bandeirante - https://www.noticiasautomotivas.com.br/toyota-bandeirante/
Veículos de Serviço do Brasil – Toyota Bandeirante – Editora Altaya
Lexicar Brasil – Toyota  www.lexicar.com.br

M-101 L/22 (M-2A1) 105 mm

História e Desenvolvimento.
O calibre 105 mm consolidou-se como referência na artilharia de campanha ao longo das primeiras décadas do século XX, processo fortemente influenciado pelas lições extraídas da Primeira Guerra Mundial (1914–1918). Nesse conflito, caracterizado por combates de posição e extensas linhas de trincheiras, a artilharia assumiu papel central na condução das operações, evidenciando a necessidade de sistemas capazes de combinar alcance, poder destrutivo e mobilidade tática. O Exército Alemão destacou-se pelo emprego eficiente de obuseiros de 105 mm, como o leichte Feldhaubitze 16 (leFH 16), que se mostrou particularmente eficaz no apoio às tropas terrestres. Em comparação com os canhões de 75 mm  como o francês Canon de 75 modèle 1897, amplamente utilizado pelas forças aliadas os obuseiros de 105 mm apresentavam maior capacidade de engajamento em tiro curvo, projéteis mais pesados e melhor desempenho contra posições entrincheiradas e fortificações de campanha. Essa superioridade operacional evidenciou as limitações dos sistemas concebidos ainda no final do século XIX, cuja concepção privilegiava conflitos de manobra mais dinâmicos. Após o armistício de novembro de 1918, a Força Expedicionária Americana (American Expeditionary Forces – AEF), que atuara no teatro europeu, capturou um número restrito de obuseiros alemães leFH 16. Essas peças foram remetidas aos Estados Unidos para análise técnica pelo Departamento de Artilharia do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army Ordnance Department). Os estudos conduzidos demonstraram que o desempenho do calibre 105 mm, especialmente em termos de alcance e poder explosivo, superava significativamente os canhões de 75 mm então em serviço nas forças norte-americanas. O exame dessas armas capturadas marcou o início de um esforço sistemático de modernização da artilharia de campanha dos Estados Unidos. Tornava-se evidente que o futuro da artilharia residia em sistemas mais potentes, capazes de oferecer maior flexibilidade tática e melhor adaptação às exigências da guerra moderna. Nesse contexto, durante a década de 1920, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) iniciou o desenvolvimento do obuseiro M-1920 de 105 mm, concebido como substituto gradual das peças de 75 mm. O projeto incorporava soluções inovadoras para a época, incluindo o emprego de flecha retangular  testada na variante M-1925E  e versões experimentais com duas flechas (designadas T1 e T2), destinadas a ampliar o arco de tiro e melhorar a estabilidade da peça. Tais características refletiam a transição de uma artilharia predominantemente hipomóvel, dependente de tração animal, para uma concepção progressivamente adaptada à motorização e à mobilidade mecanizada. O comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army)  estabeleceu como meta a substituição progressiva de todas as peças de 75 mm pelo novo calibre 105 mm, inicialmente designado como M-1. Contudo, o advento da Grande Depressão, desencadeada pela crise econômica de 1929, impôs severas restrições orçamentárias às Forças Armadas. A escassez de recursos comprometeu significativamente os programas de pesquisa, desenvolvimento e produção, resultando no abandono do projeto M-1920 ainda no mesmo período. Apesar desse revés, o esforço empreendido não foi em vão. As experiências acumuladas no desenvolvimento do M-1920 estabeleceram fundamentos técnicos e doutrinários que seriam retomados em projetos posteriores. Assim, mesmo interrompido pelas contingências econômicas, o programa consolidou o calibre 105 mm como padrão promissor para a artilharia de campanha norte-americana, preparando o terreno para sua adoção definitiva nos anos que antecederiam a Segunda Guerra Mundial.

Os esforços para a modernização da artilharia de campanha norte-americana foram retomados em 1932, em um cenário internacional progressivamente instável. O fortalecimento de regimes autoritários na Europa, notadamente na Alemanha e na Itália, bem como a crescente militarização do Japão na Ásia Oriental, despertaram nos Estados Unidos a percepção de que um novo conflito de grandes proporções poderia tornar-se iminente. Nesse contexto, a atualização dos sistemas de artilharia passou a ser considerada prioridade estratégica. Uma versão aperfeiçoada do obuseiro M-1 de 105 mm foi então desenvolvida e submetida a extensivos ensaios técnicos e operacionais. Entre as inovações introduzidas, destacou-se a adoção de munição semifixa, que eliminava o sistema de carregamento separado entre projétil e carga propelente. Essa modificação aumentava a cadência de tiro, simplificava os procedimentos de operação em campo e reduzia o tempo de preparação entre disparos — vantagens consideráveis para a artilharia de apoio direto. A adaptação exigiu alterações no mecanismo de culatra, resultando na redesignação do sistema como obuseiro M-2 de 105 mm. A produção inicial, prevista em 48 unidades, foi contratada junto à indústria, mas as persistentes restrições orçamentária ainda reflexo da crise econômica iniciada em 1929 retardaram significativamente as entregas, que somente se concretizariam em 1939. Nesse mesmo ano, o agravamento das tensões na Europa, marcado pela política expansionista do regime nazista  incluindo a anexação da Áustria em 1938  e culminando com a eclosão da Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939, impulsionou um programa mais amplo e urgente de reequipamento do Exército dos Estados Unidos. As primeiras versões do novo obuseiro ainda refletiam a herança de uma artilharia de campanha predominantemente hipomóvel. O carro de transporte M-1 fora concebido para tração animal, sendo inclusive dotado de rodas de madeira, característica que remetia a concepções logísticas anteriores à motorização plena das forças terrestres. Entretanto, a rápida evolução doutrinária e tecnológica impôs adaptações. Em 1940, a plataforma M-1 foi substituída pelo carro M-2T5, projetado especificamente para tração mecanizada por caminhões e veículos utilitários 4x4, equipado com pneus pneumáticos e adequado às exigências de mobilidade da guerra moderna. Outras melhorias técnicas foram incorporadas ao longo do processo de aperfeiçoamento, incluindo modificações no anel da culatra em março de 1940, pouco antes do início da produção em larga escala da versão definitiva, redesignada como M-2A1 de 105 mm. Embora considerado relativamente pesado para seu calibre, o obuseiro foi deliberadamente projetado com ênfase em robustez estrutural e durabilidade. O tubo e a carreta apresentavam elevada resistência ao desgaste, reduzindo a necessidade de manutenção intensiva em condições de campanha prolongada característica que se revelaria crucial nos diversos teatros de operações da guerra. A produção do conjunto final o obuseiro M-2A1 de 105 mm montado sobre o carro M-2T5  foi atribuída a importantes arsenais norte-americanos, como o Rock Island Arsenal e o Springfield Armory. As primeiras unidades começaram a ser incorporadas em janeiro de 1941, inicialmente destinadas a regimentos de artilharia baseados no território continental dos Estados Unidos. Com a entrada formal do país na guerra, em dezembro daquele ano, o sistema passou a equipar amplamente unidades destacadas nos mais diversos teatros de operações, consolidando-se como o principal obuseiro leve de campanha do Exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Dessa forma, o M-2A1 de 105 mm representou não apenas a superação das limitações técnicas herdadas do período entre guerras, mas também a materialização de um processo gradual de modernização que preparou a artilharia norte-americana para os desafios de um conflito global de alta intensidade.
Nesse período, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) promoveu a padronização estrutural de seus regimentos de artilharia de campanha, com o propósito de otimizar o apoio de fogo às divisões de infantaria e blindadas. Tal reorganização refletia as lições assimiladas nos conflitos do início do século XX, especialmente quanto à necessidade de integrar mobilidade, potência de fogo e coordenação tática em um sistema coeso e eficiente. A composição dos regimentos passou a combinar obuseiros de 155 mm e de 105 mm, estabelecendo um equilíbrio entre alcance, impacto e capacidade de manobra. O obuseiro M-1 de 155 mm  posteriormente redesignado como M-114  destinava-se ao engajamento de alvos a maiores distâncias, incluindo fortificações, concentrações de tropas e posições de artilharia inimigas. Já o obuseiro M-2A1 de 105 mm mais tarde denominado M-101 apresentava menor peso e maior mobilidade, sendo particularmente adequado ao apoio direto às unidades de infantaria em avanço. Dentro dessa estrutura, cada regimento de artilharia passou a ser organizado com um batalhão equipado com doze obuseiros de 155 mm e três batalhões dotados, cada um, de doze obuseiros de 105 mm. A proporção de três batalhões de 105 mm para um de 155 mm evidencia a ênfase no volume de fogo tático e na capacidade de resposta imediata às demandas do campo de batalha. Ao mesmo tempo, a presença do calibre 155 mm assegurava poder de destruição ampliado e maior profundidade de engajamento. Os regimentos de artilharia eram, em regra, subordinados às divisões de infantaria ou blindadas, operando sob rigoroso sistema de coordenação por meio de centros de direção de tiro (Fire Direction Centers – FDC). Esses centros permitiam calcular dados balísticos com precisão, coordenar missões de apoio e integrar diferentes baterias em ações concentradas, ampliando significativamente a eficácia do apoio de fogo. A padronização organizacional favorecia ainda a simplificação logística, a uniformização do treinamento e a interoperabilidade entre unidades, fatores essenciais em operações de grande escala. A combinação dos obuseiros M-1 de 155 mm e M-2A1 de 105 mm permaneceu como base da artilharia de campanha norte-americana até a década de 1950, quando versões modernizadas como o M-114 (evolução direta do M-1) e, posteriormente, sistemas mais avançados, como o M-198 de 155 mm, passaram a substituir gradualmente os equipamentos da Segunda Guerra Mundial. O primeiro emprego significativo do M-2A1 em combate ocorreu durante a Campanha de Guadalcanal (agosto de 1942 – fevereiro de 1943), no teatro do Pacífico. Essa operação marcou uma das primeiras ofensivas terrestres de grande escala dos Aliados contra o Japão e envolveu combates intensos em ambiente tropical, caracterizado por terreno acidentado, densa vegetação e severas dificuldades logísticas. Operado por unidades do Exército dos Estados Unidos e do Corpo de Fuzileiros Navais, o M-2A1 desempenhou papel fundamental no apoio às tropas em solo, engajando posições japonesas entrincheiradas com elevada cadência e precisão. Sua robustez mecânica e confiabilidade operacional mostraram-se particularmente valiosas nas condições adversas da campanha, marcando seu batismo de fogo com resultados considerados altamente satisfatórios. Após Guadalcanal, o M-2A1 foi amplamente empregado em múltiplos teatros de operações,  destacou-se também durante a Operação Tocha, a invasão aliada do Marrocos e da Argélia em novembro de 1942, onde apoiou as forças terrestres nos combates contra tropas do Eixo no Norte da África. Em batalhas como a de Kasserine Pass, o obuseiro de 105 mm integrou o esforço de reorganização e resposta das forças norte-americanas, demonstrando novamente sua versatilidade e consolidando-se como elemento essencial da artilharia de campanha durante o conflito. 

Dessa forma, a estrutura padronizada e a combinação equilibrada de calibres constituíram um dos pilares da eficácia do apoio de fogo norte-americano na Segunda Guerra Mundial, refletindo uma doutrina amadurecida e adaptada às exigências de um conflito global de elevada intensidade. Após a consolidação das vitórias aliadas no Norte da África, em maio de 1943, os líderes das principais potências da coalizão  notadamente Estados Unidos e Reino Unido  definiram os próximos passos da campanha europeia. Optou-se por explorar o chamado “ventre mole” do Eixo, expressão utilizada por Winston Churchill para designar a vulnerabilidade estratégica da Itália e do sul da Europa. Nesse contexto, foi concebida a invasão da Sicília, denominada Operação Husky. O planejamento geral esteve sob a responsabilidade do General Dwight D. Eisenhower, comandante supremo das forças aliadas no teatro do Mediterrâneo. As operações terrestres foram conduzidas pelo 15º Grupo de Exércitos Aliados, sob comando do General britânico Harold Alexander, integrando o 8º Exército Britânico e o 7º Exército dos Estados Unidos. Este último participaria ativamente com suas divisões de infantaria e respectivos regimentos de artilharia de campanha. Os desembarques tiveram início em 10 de julho de 1943, concentrando-se nas praias de Gela, Licata e Scoglitti, na porção meridional da ilha. As 1ª, 3ª e 45ª Divisões de Infantaria norte-americanas, apoiadas por elementos da 2ª Divisão Blindada, enfrentaram resistência imediata, particularmente em Gela, onde forças alemãs  incluindo a Divisão Hermann Göring  lançaram vigorosos contra-ataques com blindados. Nesse cenário, a artilharia revelou-se elemento decisivo. Os obuseiros M-2A1 de 105 mm desempenharam papel fundamental na neutralização de posições italianas e alemãs, oferecendo apoio direto às tropas de infantaria. Simultaneamente, os obuseiros M-1 de 155 mm foram empregados para engajar alvos mais robustos e conter o avanço dos tanques inimigos. A Operação Husky evidenciou, de forma inequívoca, a importância da coordenação integrada entre artilharia, infantaria, forças blindadas e apoio aéreo e naval. A mobilidade do M-2A1, aliada ao poder de fogo do M-1 de 155 mm, mostrou-se particularmente eficaz no terreno montanhoso e compartimentado da Sicília. Embora o M-2A1 já tivesse sido empregado anteriormente em campanhas como Guadalcanal (1942–1943) e na Operação Tocha (1942), seu uso em larga escala no continente europeu ganharia especial relevância a partir de junho de 1944, durante os desembarques na Normandia. No Dia D, os batalhões de artilharia equipados com o M-2A1 forneceram fogo de supressão contra posições fortificadas alemãs  incluindo bunkers, ninhos de metralhadoras e baterias costeiras  contribuindo decisivamente para a consolidação das cabeças de praia. Em setores como Omaha Beach, onde a resistência alemã foi particularmente intensa, o apoio de fogo dos M-2A1, coordenado com as barragens da artilharia naval, foi crucial para enfraquecer as defesas inimigas e permitir o avanço progressivo das forças de assalto. Os obuseiros foram desembarcados gradualmente, com algumas baterias entrando em ação poucas horas após a estabilização inicial das posições. Com alcance aproximado de 11,5 quilômetros para munição de alto explosivo, precisão adequada e elevada cadência de tiro, o M-2A1 tornou-se instrumento indispensável no apoio às operações de expansão das cabeças de praia e nos combates subsequentes em localidades como Carentan e Saint-Lô. Paralelamente, o obuseiro de 105 mm foi amplamente distribuído às nações aliadas por meio do Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). Até o final do conflito foram produzidos aproximadamente 8.536 obuseiros M-2A1 em diversas variantes. O sistema também deu origem a versões autopropulsadas, como o Howitzer Motor Carriage T19 e o T32, além de modelos como o T76 e o T88, montados respectivamente em chassis de veículos meia-lagarta M2 e M3 Half-track e em carros de combate como o M24 Chaffee e o M18 Hellcat.
Embora o M-2A1 já tivesse sido exaustivamente emprego durante a Segunda Guerra Mundial,  a Guerra da Coreia (1950-1953) representou um novo capítulo em sua história, com desafios únicos devido ao terreno acidentado e ao clima rigoroso da península coreana. O obuseiro entrou em ação logo após a mobilização das forças da ONU (Organização das Nações Unidas), em julho de 1950, quando as tropas norte-americanas e sul-coreanas enfrentaram a ofensiva inicial norte-coreana. No início do conflito, o M-2A1 foi usado para conter o avanço das forças norte-coreanas, particularmente durante a defesa do Perímetro de Pusan (agosto–setembro de 1950). Nessa fase crítica, as baterias de M-2A1 forneceram fogo de supressão contra ataques de infantaria e blindados, ajudando a estabilizar a linha de defesa até a contraofensiva aliada, liderada pelo desembarque de Incheon em setembro de 1950. A mobilidade do M-2A1, tracionado por veículos como o caminhão GMC CCKW, permitiu reposicionamentos rápidos, essenciais em um conflito caracterizado por rápidas mudanças de frente. A entrada da China no conflito, em novembro de 1950, intensificou os combates, especialmente na Batalha do Reservatório de Chosin (novembro–dezembro de 1950). Nesse cenário, unidades do Corpo de Fuzileiros Navais (U.S. Marine Corps), equipadas com o M2A1, enfrentaram condições extremas de inverno e ataques massivos das forças chinesas. O obuseiro foi crucial para fornecer fogo de cobertura durante a retirada estratégica das tropas aliadas, neutralizando posições inimigas em terrenos montanhosos e permitindo a evacuação de milhares de soldados. A precisão e a cadência de tiro do M-2A1 foram fundamentais para conter as ofensivas chinesas, salvando vidas em um dos momentos mais dramáticos do conflito. Durante a Primeira Guerra da Indochina, a França, buscando reestabelecer o controle sobre suas colônias após a Segunda Guerra Mundial, utilizou o M-2A1 como peça padrão de artilharia de campanha. Equipado com o M-2A1, o Exército Francês e as forças do Estado do Vietnã, um governo fantoche estabelecido pela França em 1949, empregaram o obuseiro em operações defensivas e ofensivas contra o Viet Minh. Sua produção foi oficialmente encerrada em setembro de 1953 com 10.202 unidades entregues, logo após o termino da Segunda Guerra Mundial, um grande número de obuseiros M2A1 105 mm foram classificados como “excedente de guerra”, passando a ser cedidos a nações alinhadas aos interesses norte-americanos como Argentina, África do Sul, Austrália, Áustria, Arábia Saudita, Bahrein, Brasil, Bangladesh, Bélgica, Benin, Bolívia, Bósnia, Burkina Faso, Camarões, Canada, Chile, Chade, Colômbia, Croácia, Dinamarca, República Dominicana, Equador, Espanha, Etiópia, El Salvador, Filipinas, Gabão, Grécia, Guatemala, Honduras, Holanda, Indonésia, Ira, Iraque, Japão, Coréia do Sul, República Khmer, Vietnã do Sul, Laos, Líbano, Libéria, Lituânia, Macedônia, Malásia, Mauritânia, Madagascar, México, Marrocos, Moçambique, Myanmar, Nova Zelândia, Nicarágua, Noruega, Paquistão, Peru, Portugal, Rodésia, Ruanda, Senegal, Sudão, Tailândia, Togo, Tunísia, Turquia, Uruguai e Venezuela. Em 1962 sistema de designação de artilharia militar do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) seria alterado com a designação do obuseiro M-2A1 105 mm, sendo modificada para M-101A1 105 mm.  Atualmente muitos exércitos ainda mantem os obuseiros M2A1 – M101A1 em uso em suas unidades de linha de frente, com nações mais desenvolvidos os empregando apenas com armas cerimonias

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente apreensão a possibilidade de expansão das operações do Eixo para o hemisfério ocidental. A rápida sucessão de vitórias alemãs na Europa e, particularmente, a capitulação da França em junho de 1940 alteraram significativamente o equilíbrio estratégico no Atlântico. A eventual utilização de possessões francesas  como Dacar, na África Ocidental, e outros pontos de apoio no Atlântico por forças alinhadas à Alemanha Nazista levantou a hipótese de que bases avançadas pudessem servir de plataforma para ações hostis contra o continente americano. Nesse cenário, o Brasil assumiu posição de destaque nas análises estratégicas norte-americanas. Sua localização geográfica, especialmente o chamado “saliente nordestino”, representava o ponto de menor distância entre a América do Sul e o continente africano. Tal característica conferia ao território brasileiro relevância singular, tanto sob a perspectiva defensiva quanto logística. A cidade de Recife, por exemplo, figurava como elo natural entre os dois continentes, podendo funcionar como ponte aérea e marítima para o envio de tropas, suprimentos e aeronaves destinados aos teatros europeu e norte-africano. Paralelamente, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeram o acesso aliado às tradicionais fontes de látex natural. O Brasil passou, então, a desempenhar papel fundamental como fornecedor dessa matéria-prima estratégica, indispensável à produção de borracha para pneus, vedantes, equipamentos militares e uma ampla gama de insumos essenciais à indústria bélica. Assim, além de sua importância geopolítica, o país tornou-se peça-chave na sustentação econômica do esforço de guerra aliado. Diante desse quadro, intensificou-se, em curto espaço de tempo, um movimento de aproximação política, econômica e militar entre Brasil e Estados Unidos. Essa convergência de interesses resultou em acordos de cooperação estratégica, investimentos em infraestrutura e na consolidação de uma aliança hemisférica voltada à defesa do Atlântico Sul. Entre as iniciativas mais relevantes destacou-se a inclusão do Brasil no programa norte-americano de ajuda militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). Por meio desse acordo, o governo brasileiro obteve uma linha inicial de crédito de aproximadamente US$ 100 milhões de dólares, destinada à modernização de suas Forças Armadas. Tal instrumento possibilitou a aquisição de armamentos modernos, aeronaves, veículos motorizados, carros de combate e sistemas de artilharia, contribuindo para a atualização de um aparato militar que, até então, enfrentava limitações estruturais e tecnológicas. Esses recursos revelaram-se particularmente importantes diante da intensificação dos ataques de submarinos alemães às rotas marítimas no Atlântico Sul, que ameaçavam tanto a navegação mercante brasileira quanto o fluxo de matérias-primas estratégicas destinadas à indústria de guerra norte-americana. A cooperação bilateral rapidamente extrapolou o âmbito material. O presidente Getúlio Vargas sinalizou que o Brasil não se limitaria ao fornecimento de insumos estratégicos, admitindo a possibilidade de participação mais ativa no conflito. Essa disposição culminaria, posteriormente, no envio de forças expedicionárias brasileiras para o teatro de operações europeu, marcando a inserção direta do país no esforço militar aliado. Dessa forma, a conjuntura da guerra transformou o Brasil de observador atento em parceiro estratégico fundamental dos Estados Unidos no Atlântico Sul, consolidando uma aliança que redefiniria as relações políticas e militares entre as duas nações nas décadas subsequentes.

Na década de 1940, a artilharia de campanha do Exército Brasileiro encontrava-se ainda fortemente baseada em sistemas concebidos no início do século XX. Entre os principais equipamentos em serviço destacavam-se os canhões alemães Krupp 75 mm Modelo 1908 e os franceses Schneider-Canet 75 mm, ambos projetados para tração hipomóvel e compatíveis com uma doutrina militar anterior à mecanização plena dos campos de batalha. Embora robustas e confiáveis em seu contexto original, tais peças já não correspondiam às exigências técnicas e operacionais impostas pela guerra moderna, marcada por maior mobilidade, integração de armas combinadas e crescente poder destrutivo. A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados representou um divisor de águas para as Forças Armadas nacionais. A partir de meados de 1942, no âmbito do programa ajuda militar norte-americano, começaram a chegar ao país expressivos lotes de material bélico moderno. Navios de transporte aportaram no Rio de Janeiro trazendo armamentos de infantaria, canhões antitanque de 37 mm, além de obuseiros de 105 mm e 155 mm. Essa renovação material constituiu um salto qualitativo para a artilharia brasileira, proporcionando maior alcance, poder de fogo, mobilidade e precisão, além de promover a adaptação à doutrina de guerra mecanizada adotada pelas forças aliadas. O comprometimento brasileiro com o esforço de guerra foi formalizado em 9 de agosto de 1943, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, publicada em boletim reservado no dia 13 do mesmo mês, que instituiu a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Estruturada como a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), sob o comando do General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, a força foi concebida para integrar-se operacionalmente ao V Exército dos Estados Unidos no teatro italiano. Sua composição previa um efetivo aproximado de 25.000 homens. No tocante à artilharia, a FEB organizou-se em quatro grupos: três equipados com obuseiros de 105 mm e um com obuseiros de 155 mm, refletindo a estrutura padrão das divisões de infantaria norte-americanas. A força incluía ainda uma esquadrilha de aviação da Força Aérea Brasileira (FAB) para missões de ligação e observação, um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento, uma companhia de comunicações e diversos órgãos de apoio logístico e administrativo. Entre estes figuravam comando próprio, quartel-general, destacamento de saúde, companhia de manutenção, companhia de intendência, pelotões de sepultamento e de polícia, além de uma banda de música  elemento tradicional e simbólico da vida militar. Após o desembarque em Nápoles e período de treinamento e adaptação sob orientação de instrutores norte-americanos, a artilharia da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi integrada às operações do V Exército dos Estados Unidos, participando das ofensivas contra as complexas linhas defensivas alemãs estabelecidas na península Itálica, como a Linha Gustav e, posteriormente, a Linha Gótica. O batismo de fogo da artilharia brasileira ocorreu em 16 de setembro de 1944, no sopé do Monte Bastione, ao norte da cidade de Lucca, na região da Toscana. Em meio ao clima já marcado pelos ventos frios que prenunciavam o inverno europeu, às 14 horas e 22 minutos foi disparado o primeiro tiro de artilharia brasileiro em solo europeu, tendo como alvo a localidade de Massarosa. O projétil atingiu com precisão o objetivo designado, simbolizando não apenas a entrada efetiva do Brasil no combate terrestre na Europa, mas também a consolidação da modernização técnica empreendida nos anos anteriores.
Ao longo da campanha na Itália, os obuseiros M-2A1 desempenharam papel fundamental no apoio às tropas. Empregados no bombardeio de posições alemãs, na neutralização de contra-ataques e na proteção de flancos aliados. Ainda durante o transcurso da Segunda Guerra Mundial, novos lotes de obuseiros desse modelo foram recebidos no Brasil, ampliando significativamente a capacidade da artilharia de campanha nacional. Esse reforço permitiu estruturar, no território brasileiro, ao menos mais um conjunto de Artilharia Divisionária organizado segundo o padrão norte-americano, composto por três grupos equipados com obuseiros M-2A1 de 105 mm e um grupo dotado de obuseiros M-1 de 155 mm, todos sediados no Rio de Janeiro. Tal organização refletia a consolidação da doutrina de emprego integrada adotada a partir da cooperação militar.  Com o término do conflito, os obuseiros M-2A1 e demais equipamentos empregados  passaram por um processo de triagem sob responsabilidade do Comando de Material do Exército dos Estados Unidos, sediado em Roma. As peças em melhores condições operacionais foram selecionadas, revisadas, acondicionadas e remetidas ao Brasil por via marítima. Uma vez recebidos no país, esses materiais foram distribuídos aos Grupos de Artilharia de Campanha, contribuindo para a consolidação da modernização iniciada durante o conflito. Nas décadas subsequentes, o Brasil manteve o esforço de atualização de suas Forças Armadas, aprofundando a cooperação estratégica estabelecida durante a guerra. O Acordo de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos, tornou-se instrumento fundamental para a transferência de equipamentos militares ao Exército Brasileiro e ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) da Marinha do Brasil. Nesse contexto, a partir do início da década de 1970, o Brasil recebeu pelo menos 160 obuseiros M-101A1 designação adotada para versões modernizadas do antigo M-2A1. Dentre essas peças, pelo menos 12 foram destinadas ao Batalhão de Artilharia do Corpo de Fuzileiros Navais, ampliando a capacidade de apoio de fogo às operações anfíbias e terrestres da Marinha. Organizados em baterias, geralmente compostas por quatro peças, esses obuseiros eram tracionados por viaturas como os caminhões Mercedes-Benz LAK 1418 VTNE, compatíveis com as exigências logísticas de deslocamento rápido e emprego em ambientes costeiros ou de difícil acesso. A relativa leveza do M-101A1, quando comparada a obuseiros de maior calibre, permitia seu transporte em embarcações de desembarque e sua rápida entrada em ação em praias ou terrenos acidentados  características particularmente valiosas para o Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). Ao todo, estima-se que o Brasil tenha operado aproximadamente 320 peças nas versões M-2A1 e M-101A1, oficialmente designadas no país como M-101AR. Ainda hoje, o sistema permanece como um dos principais armamentos da Artilharia de Campanha Leve do Exército Brasileiro e do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), sobretudo em razão de sua mobilidade, robustez e comprovada eficácia operacional. O obuseiro M-101AR é amplamente empregado em tiro indireto contra pessoal e material leve, sendo capaz de executar trajetórias de tiro mergulhante e vertical. Sua versatilidade balística decorre da possibilidade de utilização de diferentes cargas propulsoras  sete ao todo (cargas 1 a 7)  que permitem variar o alcance mesmo mantendo a mesma elevação do tubo, ajustando-se assim às exigências táticas da missão. Grande parte das munições utilizadas é produzida nacionalmente pela Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), incluindo, entre outras, o tiro 105 mm Alto Explosivo (AE), destinado ao engajamento de pessoal e alvos leves com elevado efeito de fragmentação, e o tiro 105 mm Salva (SLV), empregado para efeitos psicológicos ou em cerimônias militares.

Na década de 1980, a Artilharia de Campanha Leve do Exército Brasileiro (EB) e o Batalhão de Artilharia do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) deram início a um processo de modernização destinado a recompor e ampliar suas capacidades operacionais. Tal iniciativa tornou-se necessária diante do progressivo desgaste dos obuseiros M101AR que, após décadas de serviço contínuo, apresentavam limitações estruturais e tecnológicas incompatíveis com as exigências contemporâneas do campo de batalha. Com vistas à atualização do parque de artilharia leve, foram selecionados dois sistemas de fabricação estrangeira. O primeiro foi o L118 Light Gun, de origem britânica, incorporado a partir de 1980, destacando-se por sua leveza, elevada mobilidade e precisão. Essas características tornavam-no particularmente adequado a operações em terrenos variados, incluindo ambientes de selva, áreas montanhosas e regiões de difícil acesso. O segundo sistema foi o obuseiro M-56 Oto Melara, de fabricação italiana, incorporado a partir de 1985. Este modelo apresentava maior robustez estrutural e permitia melhor integração com sistemas modernos de pontaria, complementando as necessidades operacionais das forças brasileiras. A introdução desses obuseiros representou importante reforço às unidades de artilharia, especialmente porque parte significativa dos M-101AR encontrava-se fora de serviço devido ao desgaste natural e à falha de componentes críticos. Em diversas organizações militares, tal situação comprometia a plena capacidade de combate, impondo restrições ao treinamento e à prontidão operacional. Por volta de 2015, os M-101AR que somavam 211 peças no inventário do Exército Brasileiro  acumulavam mais de sete décadas de emprego. Embora reconhecidos por sua confiabilidade e versatilidade, esses sistemas já evidenciavam limitações em alcance, precisão e integração com tecnologias modernas de comando e controle, quando comparados a obuseiros contemporâneos. Mostravam-se adequados sobretudo a cenários de baixa intensidade, mas progressivamente distantes das demandas de um ambiente operacional cada vez mais digitalizado e interconectado. Esse quadro conduziu, em 2018, à formulação do Programa de Artilharia de Campo, inserido no âmbito do Programa Estratégico do Exército voltado à “Obtenção de Capacidade Operacional Plena”. O objetivo central era reestruturar o portfólio de artilharia de campanha e assegurar às tropas terrestres poder de fogo adequado, preciso e compatível com os desafios previstos até 2031. À época, o acervo do Exército compreendia 211 obuseiros M-101AR, 60 M-56 Oto Melara e 40 L118 Light Gun. O planejamento previa, idealmente, a adoção de um único sistema padronizado, medida que simplificaria a logística, o treinamento, a manutenção e a doutrina de emprego, além de ampliar a mobilidade e a eficácia operacional. Entretanto, restrições orçamentárias impediram a materialização plena desse programa nos anos subsequentes. Diante dessa realidade, o Exército direcionou seus esforços para uma solução intermediária: a revitalização dos obuseiros M-101AR ainda em serviço. Tal iniciativa foi incorporada ao Plano Interno de Trabalho (PIT) 2020, ficando sob responsabilidade do Arsenal de Guerra General Câmara (AGGC) a execução do processo de modernização. A implementação do programa enfrentou desafios adicionais decorrentes da pandemia de Covid-19, que provocou aumento nos custos de insumos e matérias-primas, além de atrasos no fornecimento de componentes por parte de empresas contratadas. Apesar dessas dificuldades, em abril de 2021 foram entregues aos Grupos de Artilharia de Campanha os seis primeiros obuseiros revitalizados, submetidos a manutenção de 3º e 4º escalões na oficina de armamento pesado da unidade responsável. 
Assim, ainda que não tenha sido possível a substituição integral do sistema, o programa de revitalização representou uma medida pragmática para preservar a capacidade operacional da Artilharia de Campanha Leve, prolongando sua vida útil. Os obuseiros M-101AR de 105 mm, com aproximadamente 75 anos de emprego contínuo, constituíram por décadas um dos pilares da Artilharia de Campanha Leve do Exército Brasileiro. Desde sua incorporação no contexto da Segunda Guerra Mundial e da modernização promovida pelo acordo de cooperação militar com os Estados Unidos, essas peças desempenharam papel central na consolidação doutrinária e operacional da artilharia nacional. Entretanto, apesar dos esforços de revitalização conduzidos pelo Arsenal de Guerra General Câmara (AGGC), especialmente a partir de 2020, a obsolescência tecnológica e o desgaste estrutural inerentes a sistemas com mais de sete décadas de uso tornaram evidente a necessidade de uma substituição definitiva. Programas de manutenção de 3º e 4º escalões e iniciativas incluídas no Plano Interno de Trabalho (PIT) 2020 contribuíram para prolongar sua vida útil, mas não eliminam os desafios associados à manutenção de um material concebido segundo parâmetros técnicos da primeira metade do século XX. Nesse contexto, o ano de 2021 marcou um avanço concreto no processo de modernização da artilharia rebocada brasileira. No âmbito do Programa Estratégico do Exército para Obtenção de Capacidade Operacional Plena (Prg EE OCOP), o Subprograma Sistema de Artilharia de Campanha (SPrg SAC) instituiu um grupo de estudo com a finalidade de avaliar alternativas para a substituição dos M-101AR. O objetivo central consistia em identificar um sistema capaz de elevar o nível de mobilidade, precisão, alcance e integração com tecnologias contemporâneas de comando e controle, ao mesmo tempo em que racionalizasse treinamento, logística e manutenção. Em 30 de abril de 2021, a publicação da Portaria EME/C Ex nº 379 no Boletim do Exército nº 17/2021 aprovou a diretriz de início do projeto de modernização da artilharia rebocada. Entre as alternativas estudadas, destacou-se a possibilidade de aquisição e revitalização de 86 obuseiros M-119A2 de 105 mm, provenientes dos estoques do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, por meio do programa Foreign Military Sales (FMS), incluindo o fornecimento de materiais e equipamentos necessários à sua operação. De acordo com a diretriz estabelecida pelo SPrg SAC, caso a contratação seja efetivada, o recebimento das peças poderá ocorrer ao longo de até sete anos após a assinatura do contrato, permitindo uma transição gradual e planejada. Nesse intervalo, conforme salientado pelo tenente-coronel Nei Altieri Pereira dos Santos, diretor do Arsenal de Guerra General Câmara, o AGGC manterá a capacidade operacional dos M-101AR, assegurando que as unidades de artilharia preservem sua prontidão até a plena incorporação do novo sistema. Assim, os veteranos obuseiros de 105 mm  que tiveram seu batismo de fogo nos campos da Itália em 1944 aproximam-se do encerramento de um ciclo histórico singular. Sua trajetória, que atravessou o conflito mundial, a Guerra Fria e as transformações doutrinárias do século XXI, simboliza não apenas a evolução técnica da artilharia brasileira, mas também a permanência de um legado operacional construído ao longo de gerações de artilheiros.

Em Escala.
A representação do obuseiro M-101A1 L/22 de 105 mm foi realizada com o excepcional kit da Testors-Italeri na escala 1/35, reconhecido por sua qualidade superior e alto nível de detalhamento. Este kit destaca-se pela precisão na reprodução das características do M-101A1, incluindo todas as partes móveis do obuseiro, como o tubo, a culatra e a carruagem M-2 T5. O modelo também inclui acessórios realistas, como caixas de munição e uma equipe de operação, composta por figuras. Para retratar a versão do M101A1 utilizada pelo Exército Brasileiro, o kit não exige modificações, sendo possível montá-lo direto da caixa.
Quando as primeiras unidades do M-2A1 (M-101A1) AR foram recebidas pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, elas seguiam o padrão de pintura norte-americano, caracterizado por um esquema monocromático em verde oliva (FS 34087).  Esse padrão foi mantido no pós-guerra, mas, a partir de 1983, o Exército Brasileiro adotou um esquema tático de camuflagem tático em dois tons,  já os M-101 empregados pelo Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN) empregam outro padrão de pintura.  Empregamos tintas e vernizes  fabricados pela Tom Colors.

Bibliografia: 
- M101A1 – M2A1 105 mm Howitzer Wilipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/M101_howitzer
- Artilharia de Campanha no Exército Brasileiro – Cezar Carriel Benetti - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/ACEB.pdf
- Exército mantém os M101A operacionais – Paulo Roberto Bastos Jr - https://tecnodefesa.com.br/
- Exército busca substitutos para os M101 AR  – Luiz Padilha - http:// www.defesaaereanaval.com.br

Schneider - Cannet M897 (75 mm)

História e Desenvolvimento.
Em 1836, os irmãos Adolphe Schneider e Joseph‑Eugène Schneider , oriundos da região da Lorena, fundaram a empresa Schneider, Frères & Cie. na cidade de Le Creusot, localizada na região da Borgonha, na França. A nova sociedade industrial foi estruturada como uma comandita por ações e nasceu a partir da aquisição das forjas e fundições locais, que se encontravam em situação de falência. Essa operação contou com o apoio financeiro do banqueiro François‑Alexandre Seillière e de Louis Boigues, proprietário das Forges de Fourchambault. A escolha de Le Creusot para sediar o empreendimento revelou-se estratégica. A região dispunha de abundantes reservas de carvão mineral e minério de ferro em suas proximidades, recursos fundamentais para a atividade metalúrgica. Além disso, a presença do Canal du Centre proporcionava uma importante via de transporte para matérias-primas e produtos manufaturados, facilitando a integração da empresa com os principais centros econômicos franceses. Esse cenário favorável coincidiu com o avanço da Revolução Industrial na França e com a expansão das ferrovias, fatores que ampliaram significativamente as oportunidades para o desenvolvimento industrial. Embora não possuíssem formação técnica formal, os irmãos Schneider demonstraram notável visão empresarial e sólida capacidade de gestão financeira. Parte desse conhecimento foi adquirida por meio de estudos realizados no Conservatoire des Arts et Métiers, em Paris. Na condução da empresa, estabeleceu-se uma divisão clara de responsabilidades: Adolphe assumiu a direção administrativa e comercial, enquanto Eugène concentrou-se nos aspectos técnicos e operacionais da produção. Essa complementaridade de funções foi decisiva para o rápido crescimento da companhia em seus primeiros anos. A Schneider, Frères & Cie. surgiu com a ambição de modernizar a indústria metalúrgica francesa, incorporando avanços tecnológicos inspirados nas experiências britânicas, então líderes no setor. A partir de 1837, a empresa iniciou um  processo de modernização de suas instalações industriais, introduzindo altos-fornos alimentados a coque, fornos de pudlagem mecanizados e equipamentos de grande porte para forjamento pesado, como o marteau-pilon (martelo-pilão), desenvolvido pelo engenheiro François Bourdon. Um marco significativo dessa fase ocorreu em 1838, quando a empresa produziu a primeira locomotiva a vapor fabricada na França, denominada La Gironde. A máquina foi construída para a Compagnie du Chemin de Fer Paris–Versailles e representou um avanço importante para a indústria ferroviária francesa, até então fortemente dependente da tecnologia britânica. Esse feito consolidou a reputação da empresa e a colocou em competição direta com fabricantes do Reino Unido. Paralelamente à produção de locomotivas, a companhia expandiu suas atividades para a fabricação de trilhos ferroviários, pontes metálicas e estruturas destinadas a estações ferroviárias, atendendo à crescente demanda por infraestrutura ferroviária na França e em diversos países europeus. Entre seus clientes figuravam empresas e governos da Itália, Espanha e do Império Russo. Outro elemento fundamental para o sucesso da empresa foi a adoção de uma estratégia de integração vertical. A companhia passou a controlar diversas etapas do processo produtivo, desde a extração de matérias-primas até a fabricação de produtos finais. Para garantir o fornecimento contínuo de carvão e minério de ferro, foram adquiridas minas no bassin de Blanzy e jazidas na região da Nièvre e no vale da Dheune.

Ao mesmo tempo, a criação de oficinas mecânicas e de montagem em Le Creusot, apoiadas por escritórios internos de engenharia e projetos, permitiu à empresa desenvolver suas próprias máquinas-ferramentas e tecnologias industriais. Essa capacidade de inovação consolidou a Schneider como uma das empresas pioneiras da indústria pesada francesa, desempenhando papel central no processo de industrialização do país ao longo do século XIX. Em 1845, a trajetória da empresa sofreu um revés significativo com a morte acidental de Adolphe Schneider, vítima de um acidente a cavalo. A partir desse momento, seu irmão Joseph-Eugène Schneider assumiu integralmente a direção do empreendimento, promovendo também uma alteração na razão social da companhia, que passou a se chamar Schneider & Cie.. Apesar da perda de um de seus fundadores, Eugène demonstrou notável capacidade de liderança ao preservar a continuidade do crescimento industrial da empresa, ampliando suas atividades e consolidando sua crescente influência tanto no campo econômico quanto no político. Sob sua administração, a Schneider & Cie. transformou-se em um dos mais importantes conglomerados industriais da França ao longo do século XIX. A companhia diversificou progressivamente suas atividades, expandindo-se para setores estratégicos como a produção de armamentos, a construção naval e a engenharia pesada. Esse processo de diversificação ganhou impulso especialmente após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana (1870–1871). O conflito evidenciou a superioridade técnica da artilharia prussiana, cujos canhões de aço demonstraram desempenho superior no campo de batalha. Diante dessa constatação, o governo francês incentivou o fortalecimento da indústria nacional de armamentos, tarefa na qual a Schneider & Cie. desempenhou papel central. Atendendo a essa demanda estratégica, a empresa passou a investir intensamente na produção de canhões, placas de blindagem e novos tipos de ligas metálicas, entre elas o aço ao níquel, material que se revelou particularmente adequado para aplicações militares e navais. Paralelamente, a companhia expandiu sua atuação na construção naval, fabricando navios de guerra e componentes estruturais destinados a grandes estaleiros. Entre esses empreendimentos destacava-se o controle do estaleiro Forges et Chantiers de la Gironde, que permaneceu sob a esfera do grupo entre 1882 e 1927. No setor ferroviário, a Schneider & Cie. consolidou sua reputação como fabricante de locomotivas e equipamentos ferroviários, exportando seus produtos para diversos mercados internacionais. Entre esses destacava-se o Império Russo, onde a empresa participou do fornecimento de equipamentos e estruturas relacionados à construção da Ferrovia Transiberiana, uma das maiores obras de infraestrutura ferroviária do século XIX. O fortalecimento da capacidade industrial da companhia também se refletiu na modernização de seu parque fabril. Em 1876, a aquisição de um gigantesco marteau-pilon de 100 toneladas ampliou significativamente a capacidade da empresa para produzir peças metálicas de grande porte, como eixos de navios, componentes estruturais e tubos de canhões de artilharia pesada. No plano social, Eugène Schneider adotou em Le Creusot uma política de caráter paternalista voltada à organização da comunidade operária vinculada à empresa. Foram construídas moradias, escolas, hospitais e igrejas destinadas aos trabalhadores e suas famílias. No auge da expansão industrial do século XIX, a força de trabalho local chegou a cerca de dez mil operários. 
A influência da família Schneider não se limitou ao campo industrial. Joseph-Eugène Schneider exerceu destacada atuação política, tendo ocupado cargos como ministro da Agricultura e Comércio em 1851, deputado, prefeito de Le Creusot e presidente do Corps Législatif durante o Segundo Império Francês. Essa combinação de poder econômico e influência política transformou Le Creusot em um verdadeiro centro industrial dominado. Após a morte de Eugène Schneider, em 1875, a liderança da empresa passou para seu filho, Henri Schneider (1840–1898). Sob sua direção, a Schneider & Cie. deu continuidade ao processo de modernização tecnológica, adotando métodos avançados de produção siderúrgica, como os convertidores do Processo Bessemer e os fornos do Processo Siemens-Martin, que permitiam produzir aço em maior escala e com qualidade superior. Durante sua gestão, a empresa também intensificou a exportação de armamentos, beneficiando-se da legislação francesa de 1884, que autorizava a venda de material militar para o exterior. Entre os produtos de maior destaque estavam os canhões conhecidos como “Long Tom”, derivados do projeto brevet Canet Schneider, que foram adquiridos por diversos países e utilizados em conflitos internacionais. Um dos casos mais conhecidos foi o fornecimento dessas peças ao Transvaal, onde demonstraram elevada eficácia em combates contra forças britânicas, consolidando a reputação internacional da indústria armamentista francesa. Após a derrota francesa na Guerra Franco‑Prussiana, que evidenciou a superioridade tecnológica dos canhões de aço prussianos, a França iniciou um amplo esforço de modernização de seu aparato militar. Nesse contexto, a Schneider, Frères & Cie., sob a liderança de Henri Schneider  filho de Eugène identificou uma oportunidade estratégica ao direcionar parte significativa de seus investimentos para o setor de armamentos. A partir da década de 1870, a empresa, estabelecida em Le Creusot, passou a reorientar parte de suas atividades para o desenvolvimento e a fabricação de uma ampla variedade de canhões e morteiros. Esse processo marcou o início de sua consolidação como uma das principais fabricantes de artilharia da Europa. A iniciativa foi impulsionada tanto pela necessidade de fortalecer a defesa nacional quanto pelos avanços técnicos proporcionados pela metalurgia moderna e pela engenharia industrial em plena expansão durante a Revolução Industrial. A empresa, já amplamente reconhecida por sua experiência nos setores de siderurgia, ferrovias e construção naval, soube aproveitar sua robusta infraestrutura industrial para atender às demandas do Armée de Terre. A estratégia adotada por Henri refletia uma visão empresarial que buscava posicionar a companhia como um dos pilares da indústria de defesa francesa, em um período marcado pela intensificação das rivalidades internacionais e pela crescente industrialização da produção militar. Um passo decisivo nessa trajetória ocorreu em 1897, quando a Schneider & Cie. adquiriu as Forges et Chantiers de la Méditerranée, localizadas em Le Havre. Essa aquisição proporcionou à empresa acesso a uma equipe altamente qualificada de engenheiros e projetistas, bem como a tecnologias avançadas, especialmente no campo do desenvolvimento de sistemas de artilharia modernos. A integração do conhecimento técnico proveniente dessas instalações permitiu à Schneider & Cie. absorver rapidamente um valioso know-how especializado, reforçando sua posição entre os principais fabricantes de armamentos  no final do século XIX.

Entre os protagonistas desse período destacou-se o engenheiro Gustave Canet, anteriormente vinculado às Forges et Chantiers de la Méditerranée. Reconhecido internacionalmente por sua capacidade técnica e inventividade, Canet assumiu um papel central dentro da Schneider & Cie., atuando inicialmente como diretor de artilharia em Le Creusot e, posteriormente, como diretor honorário da divisão de artilharia. Sob sua orientação, a empresa desenvolveu a notável família de canhões Canet-Schneider, produzida em diversos calibres e destinada tanto a aplicações terrestres quanto navais. Esses sistemas de artilharia combinavam avanços metalúrgicos como o emprego de aços de alta resistência com soluções técnicas inovadoras no projeto dos tubos e mecanismos de disparo, resultando em peças caracterizadas por elevada precisão, robustez estrutural e confiabilidade operacional. Dessa forma, a Schneider & Cie. consolidou-se como um dos centros mais importantes de desenvolvimento de artilharia pesada na Europa.  A maior contribuição da Schneider & Cie. para a evolução da artilharia moderna ocorreu na transição do século XIX para o século XX, com o desenvolvimento do canhão Schneider-Canet de 75 mm. Apresentado oficialmente em 1906, esse sistema representou um marco tecnológico na artilharia de campanha ao incorporar soluções inovadoras que ampliaram significativamente a cadência de tiro, a precisão e a eficiência operacional das peças de artilharia de tiro rápido. Projetado pelo engenheiro francês Gustave Canet, o canhão foi inteiramente construído em aço de alta resistência e dotado de tubo estriado com carregamento pela culatra, características que asseguravam maior robustez estrutural e rapidez nas operações de tiro. Contudo, o elemento mais revolucionário do projeto residia em seu sofisticado sistema de absorção de recuo, composto por um freio hidráulico associado a um recuperador hidropneumático. Esse mecanismo permitia que a peça retornasse automaticamente à posição de disparo após cada tiro, eliminando a necessidade de reposicionamento manual do armamento. Graças a essa inovação, tornou-se possível operar a peça em regime de tiro rápido, alcançando uma cadência média de 10 a 20 disparos por minuto, podendo atingir até 30 disparos quando servida por uma guarnição altamente treinada. Em comparação, sistemas anteriores de reparo fixo  como o Canet M-890 de 100 mm  exigiam reposicionamento completo após cada disparo, limitando severamente sua cadência de tiro e reduzindo sua eficiência em combate. O sistema de recuo do Schneider-Canet de 75 mm utilizava mecanismos hidropneumáticos capazes de absorver a energia liberada pelo disparo. Durante o recuo, o tubo e o seu trenó deslizavam sobre um berço construído em aço cromo-níquel, enquanto o sistema hidráulico dissipava parte da energia gerada. Em seguida, o recuperador hidropneumático restaurava automaticamente o conjunto à posição original de tiro. Essa solução técnica mantinha a peça alinhada com o alvo, permitindo disparos sucessivos sem necessidade de reajustes na direção do tiro. Outro aspecto relevante era a disposição dos dispositivos de pontaria, montados diretamente no berço da peça. Dessa forma, os sistemas de mira permaneciam alinhados mesmo durante o movimento de recuo, facilitando correções rápidas de direção e elevação e contribuindo para maior precisão e eficiência no campo de batalha. Do ponto de vista construtivo, o canhão possuía um tubo de aço-níquel forjado e temperado, composto por um tubo interno reforçado por duas mangas e uma abraçadeira externa. A alma do cano apresentava 30 estrias progressivas, projetadas para estabilizar o projétil durante o disparo e aumentar sua velocidade inicial. 
O sistema de fechamento da culatra empregava um mecanismo de parafuso interrompido, formado por dois setores lisos e dois roscados, que permitia abertura e fechamento rápidos, além da ejeção automática da cápsula após o disparo. No que se refere ao armamento, o Schneider-Canet de 75 mm podia empregar três tipos principais de munição, todos com aproximadamente 6,5 kg: granadas comuns de fragmentação, granadas de estilhaços destinadas ao combate contra tropas em campo aberto e granadas de alto explosivo, particularmente eficazes contra fortificações e posições defensivas. Essas características tornaram o sistema significativamente mais leve, preciso e eficiente em comparação com peças contemporâneas produzidas por outros fabricantes europeus, incluindo modelos desenvolvidos pela Saint-Chamond e pela Krupp. Reconhecendo suas vantagens operacionais, o Exército Francês adotou rapidamente o novo sistema e firmou, em 1906, um contrato de aquisição em grande escala destinado a substituir e complementar peças consideradas obsoletas, como o Canet M-890 de 100 mm. As primeiras unidades começaram a ser entregues no mesmo ano, marcando o início de um processo de modernização da artilharia francesa. O sucesso do canhão não se limitou à França: sua reputação atraiu contratos de exportação para diversos países, com destaque para a Espanha, que se tornou um dos maiores usuários do modelo na primeira década do século XX. A partir de 1909, a Espanha passou a produzir o canhão e suas munições sob licença, consolidando a influência da Schneider & Cie. no mercado internacional. O Schneider-Canet de 75 mm foi amplamente reconhecido como o ápice da tecnologia de artilharia de campanha de tiro rápido em sua época. Sua superioridade técnica, aliada à capacidade de produção em escala da Schneider & Cie., garantiu sua adoção em diversos exércitos e sua utilização em conflitos do início do século XX, incluindo a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), onde demonstrou eficácia em operações de campo. Seu baixo peso total, acabaria o tornando ideal para o emprego como canhão de montanha, até então a movimentação e operação de peças de artilharia em regiões montanhosas representava desde sempre grandes dificuldades aos homens da arma de artilharia. As peças de grande calibre, habitualmente mais eficazes, eram pesadas demais para poderem tracionadas por animais, limitando assim o poder ofensivo neste tipo de campo de batalha. Assim os primeiros exercícios com os canhões Schneider Canner 75 mm, teriam início em regiões de relevo irregular a partir de meados do ano de 1909, e seus promissores resultados levariam a imediata aprovação e consequente celebração de grandes contratos e produção. Sua incorporação pelo Exército Frances (Armée de Terre), levaria a gradual substituição dos canhões Schneider 65 mm modelo 1906.  O modelo logo conquistaria diversos contratos de exportação, com seu batismo de fogo ocorrendo em 1909, sendo empregados pelo Exército Espanhol (Ejército de Tierra) durante a Guerra Melilla deflagrada entre os meses de julho e dezembro. Este seria o primeiro registro de uma longa carreira de empregos em conflitos militares no século XX, com destaque na Primeira Guerra Mundial, Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial e outros conflitos regionais de importância relevante. Os canhões Schneider Cannet 75 mm além da Espanha, seriam exportados para o Brasil, Polônia, Grécia, Brasil, Paraguai, Iugoslávia e Estados Unidos, com muitos destes se mantendo em emprego até meados da década de 1960. 

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A artilharia brasileira, profundamente enraizada nas experiências militares do período colonial e consolidada após a independência do país, proclamada em Independência do Brasil, constitui um dos pilares mais tradicionais da história militar nacional. Ao longo de sua trajetória, essa arma destacou-se não apenas pelo papel desempenhado em diversos conflitos, mas também pela constante busca por aperfeiçoamento técnico, disciplina e inovação, características que contribuíram para moldar a identidade profissional dos artilheiros brasileiros. As origens da artilharia no território brasileiro remontam ao período colonial, quando forças luso-brasileiras se mobilizaram em enfrentamentos decisivos contra invasores estrangeiros. Entre esses episódios, destacam-se as Batalhas dos Guararapes, travadas em Pernambuco contra as tropas da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. Embora o emprego da artilharia naquele momento ainda fosse limitado e baseado em meios relativamente rudimentares, os combates revelaram a capacidade de organização e resistência das forças locais, consolidando uma tradição militar que se desenvolveria ao longo dos séculos seguintes. Após a independência, a artilharia de campanha passou gradualmente por um processo de institucionalização no âmbito do Exército Brasileiro. Durante o período do Império do Brasil, essa arma adquiriu prestígio particular devido à sua complexidade técnica. Diferentemente da infantaria e da cavalaria, cujos oficiais podiam ingressar na carreira com formação mais curta, a artilharia exigia preparação completa na Academia Militar do Império. Essa formação abrangia estudos aprofundados de matemática, balística, engenharia e tática, refletindo o elevado grau de especialização necessário para o manejo eficiente das peças de artilharia. Nesse ambiente acadêmico e militar, formou-se uma geração de oficiais altamente qualificados, capazes de conduzir operações complexas e de adaptar-se às rápidas transformações tecnológicas que caracterizaram o século XIX. O domínio de cálculos balísticos, a precisão na pontaria e a coordenação das manobras de fogo tornaram-se elementos centrais da cultura profissional dos artilheiros, contribuindo para o desenvolvimento de uma tradição de excelência que se perpetuaria nas décadas seguinte. O momento de maior projeção da artilharia brasileira nesse período ocorreu durante a Guerra da Tríplice Aliança, conflito de grandes proporções travado contra o Paraguai. Nesse contexto, a artilharia  destacou-se particularmente na Batalha de Tuiuti, considerada a maior batalha campal da história da América do Sul. Sob o comando do oficial de origem francesa Emílio Luís Mallet, naturalizado brasileiro, as baterias de artilharia desempenharam papel decisivo na contenção dos ataques paraguaios. A organização das posições defensivas, aliada ao emprego eficiente das peças de artilharia, permitiu às forças brasileiras estabelecer um sistema defensivo eficaz, reforçado por um fosso tático que dificultava o avanço das tropas inimigas. A rapidez e a precisão dos disparos renderam à artilharia brasileira o apelido de “Artilharia Revólver”, uma metáfora que evocava a elevada cadência de tiro e a eficácia de seu emprego em combate. Nesse episódio, tornou-se célebre a frase atribuída a Mallet  “Eles que venham! Por aqui não passam!”  expressão que simbolizou a determinação das forças brasileiras naquele momento crítico da campanha. A liderança de Mallet consolidou sua reputação como um dos mais notáveis comandantes da história militar brasileira. Nascido na França em 1801, ele construiu uma carreira de destaque no Brasil Sua atuação contribuiu decisivamente para consolidar o prestígio da artilharia dentro das Forças Armadas brasileiras. 

No período posterior ao conflito, a modernização do material de artilharia tornou-se uma prioridade estratégica para o Exército. Nesse processo, destacou-se a influência da indústria alemã, especialmente da empresa Friedrich Krupp AG, sediada em Essen. A partir de 1872, o Brasil iniciou a aquisição de modernos canhões de campanha de 75 mm fabricados pela companhia, destinados principalmente aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Essas peças representavam um significativo avanço tecnológico em relação aos sistemas anteriormente utilizados, como os canhões franceses do sistema La Hitte. A superioridade dos equipamentos alemães era evidente em diversos aspectos, incluindo alcance, robustez estrutural e confiabilidade mecânica. Na década de 1880, o processo de modernização prosseguiu com a aquisição de novas peças de artilharia, entre elas o modelo Krupp 75 mm Modelo 1895. A introdução desses sistemas foi fortemente apoiada por Gastão de Orléans, Conde d’Eu, comandante-geral da artilharia do Exército Imperial e presidente da Comissão de Melhoramento do Material do Exército. Genro do imperador Dom Pedro II, o Conde d’Eu desempenhou papel relevante como conselheiro militar, defendendo a adoção de equipamentos mais modernos para fortalecer a capacidade operacional. Os canhões Krupp destacavam-se por seu alcance superior, podendo atingir alvos a distâncias de até aproximadamente 12.000 metros, uma melhoria significativa em relação aos modelos anteriores. Sua introdução marcou um importante passo no processo de modernização das forças terrestres brasileiras, contribuindo para recuperar parte do potencial militar após o desgaste provocado pela longa campanha no Paraguai. De forma irônica, parte do material de artilharia cuja aquisição havia sido recomendada pelo Conde d’Eu viria a ser empregada, alguns anos depois, contra forças monarquistas durante a Guerra de Canudos. Nesse conflito travado no sertão da Bahia, os canhões Krupp demonstraram sua eficácia em condições operacionais difíceis, marcadas pelo terreno adverso e pelas limitações logísticas da campanha. No período posterior ao conflito, a modernização do material de artilharia tornou-se uma prioridade estratégica para o Exército. Nesse processo, destacou-se a influência da indústria alemã, especialmente da empresa Friedrich Krupp AG, sediada em Essen. A partir de 1872, o Brasil iniciou a aquisição de modernos canhões de campanha de 75 mm fabricados pela companhia, destinados principalmente aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Essas peças representavam um significativo avanço tecnológico em relação aos sistemas anteriormente utilizados, como os canhões franceses do sistema La Hitte. A superioridade dos equipamentos alemães era evidente em diversos aspectos, incluindo alcance, robustez estrutural e confiabilidade mecânica. Na década de 1880, o processo de modernização prosseguiu com a aquisição de novas peças de artilharia da Krupp, entre elas o modelo Krupp 75 mm Modelo 1895.  A introdução desses sistemas foi fortemente apoiada por Gastão de Orléans, Conde d’Eu, comandante-geral da artilharia do Exército Imperial e presidente da Comissão de Melhoramento do Material do Exército.  Ele desempenhou papel relevante como conselheiro militar, defendendo a adoção de equipamentos mais modernos para fortalecer a capacidade operacional do Exército.  
De forma irônica, parte do material de artilharia cuja aquisição havia sido recomendada pelo Conde d’Eu viria a ser empregada, alguns anos depois, contra forças monarquistas durante a Guerra de Canudos. Nesse conflito travado no sertão da Bahia, os canhões Krupp demonstraram sua eficácia em condições operacionais difíceis, marcadas pelo terreno adverso e pelas limitações logísticas da campanha.No início do século XX, o Exército Brasileiro enfrentava desafios significativos decorrentes da obsolescência de seus armamentos e doutrinas militares. As limitações técnicas haviam sido expostas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), e confirmadas na Campanha de Canudos (1896-1897), que revelou a inadequação do arsenal brasileiro frente às demandas de combates modernos.  Este cenário refletia não apenas a ausência de uma indústria bélica nacional, mas também a dependência de importações e a necessidade urgente de modernização para alinhar o Brasil às potências militares da época. A transformação do Exército Brasileiro ganhou impulso com a liderança de figuras visionárias, como os Marechais João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Francisco de Paula Argolo e, sobretudo, Hermes da Fonseca, que, com o apoio do Barão do Rio Branco, então Ministro das Relações Exteriores, impulsionaram a chamada Reforma Hermes (1900-1908). Este processo de reestruturação, conduzido durante o governo de Rodrigues Alves e intensificado sob a presidência de Afonso Pena, buscava reposicionar o Exército como uma força moderna, capaz de responder aos desafios estratégicos do novo século.  Inspirado pelo modelo do Exército Prussiano, particularmente pelo sistema de Estado-Maior,  Hermes da Fonseca defendia a necessidade de equipar o Brasil com armamentos de ponta e adotar uma organização militar baseada na disciplina, na eficiência e na inovação tecnológica.  Reconhecendo a inexistência de uma indústria bélica nacional capaz de suprir as necessidades do Exército, Hermes da Fonseca organizou, em agosto de 1908, uma missão militar à Europa, com destino à Alemanha e à França, dois dos principais centros de tecnologia militar da época. A missão, composta por oficiais de alto escalão, tinha como objetivo identificar fornecedores de armamentos modernos e estabelecer parcerias para a transferência de conhecimentos técnicos e profissionais, essenciais para a capacitação do Exército Brasileiro. Os resultados dessa missão foram expressivos, culminando na aquisição de um vasto arsenal de equipamentos destinados a renovar as capacidades da infantaria, cavalaria e artilharia. Para a infantaria, foram adquiridos 400.000 fuzis Mauser de calibre 7 mm, fabricados na Alemanha, reconhecidos por sua precisão e confiabilidade. A cavalaria foi equipada com 10.000 lanças Ehrhardt, 20.000 espadas e 10.000 mosquetões, adaptados às táticas de combate montado. A Marinha do Brasil também foi beneficiada com a aquisição de peças de artilharia de costa Schneider-Canet C-50 1902 de 150 mm, conhecidas pelo sistema de tiro rápido, que combinava carregamento pela culatra e mecanismos de recuo hidropneumático. Essas peças foram instaladas em fortificações estratégicas, como a Fortaleza de Copacabana, no Rio de Janeiro, e em seis conjuntos destinados às defesas costeiras de Santos, no litoral de São Paulo.  Em Santos, os canhões Schneider-Canet operavam em conjunto com quatro obuses Krupp 280 mm C-16 Modelo 1912. 

Embora as aquisições de 1908 representassem um marco na modernização militar, os canhões Schneider-Canet já integravam o arsenal brasileiro desde o final do século XIX. Durante a década de 1890, o Exército Brasileiro havia incorporado baterias equipadas com os canhões Canet M-890 de 100 mm e Canet M-897 de 75 mm, fabricados pela Schneider & Cie. em Le Creusot, França. Esses modelos, embora menos avançados que o Schneider-Canet de 75 mm introduzido em 1906, já demonstravam a qualidade técnica da empresa francesa, conhecida por sua liderança em artilharia de tiro rápido. A presença desses canhões no Brasil evidenciava a confiança do Exército nas tecnologias da Schneider & Cie., reforçada pelas novas aquisições no início do século XX. Durante os anos vindouros a adoção destas novas peças de artilharia de origem alemã e francesa em muito iram modificar o patamar operacional brasileiro, sendo postos a prova em uma série de eventos de revoltas ou insurreições regionais, como a “Guerra do Contestado” ocorrida nos estados do Paraná e Santa Catarina durante o ano de 1912.  Apesar destes significativos avanços, o eclodir da Primeira Guerra Mundial em 1914, traria grandes avanços não só em tecnologia de armas, mas também na doutrina militar, elevando os patamares da guerra moderna. Esta nova realidade rapidamente relegaria o Exército Brasileiro a patamar operacional inferior ao vigente a partir do ano de 1918, suscitando assim a necessidade de um novo ciclo de atualização.  As preocupações em torno da obsolescência doutrinariam e de material das Forças Armadas Brasileiras, eram fundamentadas principalmente pelo rápido desenvolvimento econômico e militar da Argentina, que passava a representar a principal hipotética ameaça ao pais. Assim com o objetivo de reverter este cenário crítico a partir do segundo semestre de 1918, o governo brasileiro passaria a buscar alternativas para a implementação deste novo ciclo de desenvolvimento militar. Neste intuito seriam conduzidos diálogos junto ao governo francês a fim de estudar a contratação de uma assessoria militar que pudesse conduzir este processo. Estas negociações já em um estágio avançado ocorreriam em Paris, entre o adido militar brasileiro na França, coronel Malan d’Angrogne, e o ministro da Guerra francês, Georges Clemenceau. Paralelamente seria enviado ao Brasil o general Maurice Gamelin, em uma missão de levantamento de perspectivas sobre o real cenário das Forças Armadas Brasileiras, visando assim melhor embasar a proposta francesa.  O contrato seria assinado poucos meses depois na capital francesa, sendo ratificado logo em seguida no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, criando assim oficialmente a “Missão Militar Francesa”. Os termos do contrato estipulavam que oficiais franceses comandariam durante quatro anos as escolas de Estado-Maior (EEM), de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), de Intendência e Veterinária. Em contrapartida o Brasil se comprometeria a privilegiar a indústria francesa em seus processos de aquisição de armas e equipamentos militares, desde que as condições comerciais e prazos de entrega fossem no mínimo equivalentes as propostas apresentadas por empresa de outros países. Para o Brasil, este contrato representaria um grande passo na direção da profissionalização e modernização de suas forças armadas, novamente equalizando a balança militar na América do Sul. Este processo começaria a ser consolidado a partir de meados de 1921, com a adoção de novos regulamentos destinados à Direção e Emprego das Grandes Unidades, ao Exercício e Emprego da Artilharia e ao Serviço de Estado-Maior em Campanha. 
As primeiras percepções levantadas pela “Missão Militar Francesa” apontavam a necessidade modernização de uma série equipamento e armas. Uma concorrência internacional seria aberta e atendendo ao preceito estabelecido anteriormente, as propostas apresentadas pela indústria militar francesa seriam preferenciadas. Em termos da arma de artilharia de campanha seriam adquiridos um grande número de canhões, incluindo vários modelos fabricados pela empresa Schneider - Creusot Fréres & Cie, entre estes os modelos C-50 1902 de 150 mm (emprego terrestre e ferroviário), Schneider 75/28 modelo 1906 de 75 mm e C-18 - 6 Modelo 1919 de 75 mm (canhão de montanha), com dois estes últimos modelos, encomendados e recebidos durante o ano de 1923. Para o atendimento as necessidades do Exército Brasileiro que na época era em sua maioria hipomóvel, os canhões de campanha Schneider-Canet seriam recebidos com rodas de madeira, sendo destinados então a equipar as a equipar as unidades de cavalaria de fronteira. Seguindo os padrões franceses as unidades de cavalaria seriam compostas por baterias com quatro canhões de 75 mm, quatro carros de munição (cada arma podia carregar 38 munições na carroça de tração, sendo complementadas com mais 60 unidades no carro de munição), um carro de apoio e por fim um carro forja, com a função de assegurar a manutenção das peças em campanha e os reparos nos carros de tração e de serviço. Estas baterias seriam operadas por um efetivo de 3 oficiais, 10 sargentos e 121 praças, demandando trinta e nove cavalos e noventa e seis muares para a tração das peças e do pessoal. Os canhões Schneider-Canet de 75 mm foram amplamente utilizados em quase todos os grandes conflitos internos do Brasil no início do século XX, desempenhando papéis cruciais em momentos de instabilidade política e social.  Durante a Revolução de 1930, essas peças de artilharia foram empregadas por forças governistas e oposicionistas, demonstrando sua confiabilidade em operações de campanha. Na Revolução Constitucionalista de 1932, estes canhoes foram utilizados por ambos os lados  A presença dessas armas em combates urbanos e rurais, especialmente nas frentes de batalha no interior de São Paulo, evidenciou sua importância estratégica, com sua mobilidade e precisão. Um dos usos mais peculiares dos canhões Schneider-Canet de 75 mm (e também dos Krupp) ocorreu neste periodo, quando foram integrados como armamento orgânico em seis trens blindados, denominados TB-1 a TB-6. Estes foram construídos nas Oficinas Ferroviárias de São Paulo, sob a supervisão técnica Escola Politécnica Paulista.  Cada trem blindado era composto por uma locomotiva posicionada entre dois vagões, com uma prancha à frente para inspecionar a integridade dos trilhos, uma precaução contra sabotagens. No vagão frontal, uma abertura central abrigava um canhão de 75 mm, operado internamente e ocupando toda a parte dianteira do carro. Essa configuração permitia  disparar diretamente contra alvos à frente, oferecendo proteção às tropas e apoio de fogo em operações ao longo das ferrovias, que eram cruciais para a logística e mobilidade. Com o início da Segunda Guerra Mundial , os canhões Schneider-Canet de 75 mm continuaram a desempenhar um papel relevante.  A partir de 1954, com a crescente motorização, estes canhões  passaram por um processo de modernização nos Arsenais de Guerra do Rio de Janeiro (AGRJ) e de General Câmara (AGRS).  As rodas de madeira, inadequadas para o transporte em veículos motorizados, foram substituídas por rodas com pneus. Essa atualização permitiu que os canhões permanecessem em serviço operacional até meados da década de 1960, quando foram gradualmente substituídos por armamentos mais modernos, como os obuses M-101 de 105 mm.

Em Escala.
Para recriar o canhão Schneider-Canet 75 mm M-897 em escala, a única opção disponível no mercado na escala 1/35 é o kit produzido pela empresa alemã Tom Modellbau. Apesar de ser um kit mais antigo, ele oferece um nível de detalhamento e acabamento aceitável para os padrões da escala 1/35. Na montagem do modelo, optou-se por não utilizar decais, uma escolha que reflete a intenção de manter a representação focada na autenticidade estrutural e estética do canhão, sem a necessidade de marcações adicionais. 
O esquema de pintura aplicado aos canhões Schneider-Canet de 75 mm foi inspirado no padrão francês da década de 1920,  durante a Revolução Constitucionalista de 1932, as forças paulistas adaptaram o padrão de pintura dos canhões Schneider-Canet e Krupp de 75 mm para atender às demandas táticas do conflito. As peças  preservadas no Museu Histórico do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, refletem o esquema de cores adotado pelo Exército Brasileiro na década de 1920.

Bibliografia: 
- Schneider Frères et Compagnie - https://www.lesechos.fr
- Schneider-Canet - https://pt.wikipedia.org/wiki/Schneider-Canet
- Missão Militar Francesa por Rodrigo N. Araujo -  https://cpdoc.fgv.br/
- Arquivos do Museu Militar de Conde de Linhares – Rio de Janeiro
- Canhão de Montanha Schneider 75mm - http://www.cporpa.eb.mil.br/