História e Desenvolvimento.
O empresário Walter H. Beech é amplamente reconhecido como uma das figuras mais influentes nos primórdios da aviação nos Estados Unidos, tendo desempenhado papel decisivo no avanço tecnológico e na consolidação comercial do setor. Sua trajetória, marcada por notável visão estratégica e determinação, insere-se no contexto de expansão e transformação da indústria aeronáutica nas primeiras décadas do século XX. No início da década de 1920, Beech fundou a Travel Air Manufacturing Company em Wichita, cidade que viria a se consolidar como um dos principais polos da aviação norte-americana. A empresa destacou-se não apenas pela qualidade de seus produtos, mas também por reunir profissionais de grande talento, como Lloyd Stearman e Clyde Vernon Cessna, que posteriormente fundariam suas próprias companhias. Sob a liderança de Beech, foram desenvolvidos modelos de expressivo sucesso comercial, como os Travel Air 2000, 5000 e 6000, aeronaves que se notabilizaram por seu desempenho e confiabilidade, contribuindo para atender à crescente demanda por transporte aéreo civil nos Estados Unidos. Entretanto, o impacto da Quebra da Bolsa de Nova York de 1929 e a subsequente Grande Depressão provocaram uma retração significativa no mercado aeronáutico. Nesse cenário adverso, a Travel Air enfrentou severas dificuldades financeiras, culminando em sua aquisição pela Curtiss-Wright Corporation em 1930. Após a incorporação, assumiu funções executivas de alto nível, atuando como presidente da divisão de aeronaves e vice-presidente de vendas. Todavia, tais atribuições o afastaram das atividades de concepção e desenvolvimento de aeronaves, áreas nas quais residia seu maior interesse e vocação. Diante dessa insatisfação, Beech optou por deixar a Curtiss-Wright, decidido a retomar o controle criativo e estratégico de um novo empreendimento aeronáutico. Assim, em 1932, ainda no auge da Grande Depressão, fundou a Beech Aircraft Corporation, também sediada em Wichita. A nova empresa foi estruturada com uma equipe de liderança sólida, composta pelo próprio Beech como presidente, sua esposa Olive Ann Beech como secretária posteriormente uma figura central na administração da companhia , além de Ted A. Wells como vice-presidente de engenharia, K. K. Shaul como tesoureiro e C. G. Yankey como vice-presidente e investidor. Apesar do contexto econômico extremamente desfavorável, Beech demonstrou notável capacidade de adaptação ao identificar uma oportunidade estratégica em nichos específicos do mercado, notadamente o transporte executivo e o turismo de luxo. Embora restritos, esses segmentos apresentavam uma demanda relativamente estável, mesmo em tempos de crise, permitindo à empresa estabelecer uma base operacional sustentável. A empresas iniciou suas atividades em uma instalação anteriormente pertencente à Cessna Aircraft, aproveitando uma fábrica ociosa para reduzir custos iniciais decisão que evidencia o pragmatismo e a eficiência administrativa de Beech. Nesse contexto, a estratégia adotada pela empresa permitiu não apenas sua sobrevivência durante a Grande Depressão, mas também o estabelecimento de bases sólidas para sua posterior consolidação como uma das mais respeitadas fabricantes de aeronaves do mundo.
Em um contexto marcado por severas restrições econômicas caracterizado por desemprego em massa e retração da produção industrial em decorrência da Grande Depressão, a empresa demonstrou notável capacidade de adaptação ao identificar um nicho de mercado relativamente resiliente. Assim direcionou seus esforços a uma clientela restrita, composta por altos executivos, proprietários de grandes corporações e operadores de transporte regional, segmentos menos impactados pela crise e ainda capazes de investir em aeronaves de uso pessoal e corporativo. A estratégia consistia em oferecer um produto de elevado valor agregado, que combinasse desempenho superior, inovação técnica e um elevado grau de exclusividade. Nesse contexto, concentrou-se no desenvolvimento de uma aeronave executiva capaz de atender com eficiência a deslocamentos de curta e média distância, sem abrir mão de um apelo estético marcante. O resultado desse esforço foi o Model 17, lançado oficialmente em 1932, que rapidamente se consolidou como um marco na aviação e como símbolo da inserção da empresa no segmento executivo. O desenvolvimento foi conduzido sob a liderança do engenheiro Ted A. Wells, profissional de reconhecida competência. Com base em sua experiência, Wells imprimiu ao projeto uma abordagem inovadora, buscando não apenas atender às exigências funcionais, mas também criar uma aeronave que se destacasse tanto do ponto de vista técnico quanto estético. O modelo apresentava uma configuração estrutural singular para sua época: tratava-se de um monomotor biplano com disposição de asas em "staggerwing", na qual a asa superior era posicionada mais recuada em relação à inferior inversão do arranjo convencional dos biplanos. Essa configuração, frequentemente descrita como de “cambagem negativa”, visava reduzir o arrasto aerodinâmico decorrente da interferência entre as superfícies alares, resultando em melhor desempenho geral. Adicionalmente, essa disposição proporcionava excelente visibilidade ao piloto, fator particularmente relevante para operações em rotas regionais e em aeródromos com infraestrutura limitada. Do ponto de vista estético, distinguia-se por suas linhas elegantes e harmoniosas, com uma silhueta inconfundível que rapidamente conquistou o mercado e reforçou seu apelo junto a uma clientela sofisticada. Tal característica não era meramente superficial, mas parte integrante da estratégia da empresa de associar desempenho técnico a um conceito de luxo e exclusividade. No que se refere à construção, a aeronave combinava soluções tradicionais com avanços técnicos relevantes. A fuselagem era estruturada a partir de tubos de aço soldados, associados a elementos em madeira, sendo posteriormente recoberta por entelagem de tecido. Por outro lado, componentes críticos, como o bordo de ataque das asas, a carenagem do motor e a seção frontal do para-brisa, eram confeccionados em alumínio, material que proporcionava maior resistência estrutural e durabilidade. Dessa forma, o Model 17 Staggerwing não apenas atendeu às demandas de um nicho específico durante um período de crise, mas também estabeleceu novos parâmetros de desempenho, conforto e sofisticação na aviação executiva.

Apesar de sua sofisticação, o Model 17 Staggerwing apresentava um processo construtivo complexo, que demandava elevado número de horas de trabalho manual. Esse caráter artesanal refletia o cuidado e a precisão empregados em cada unidade, atributos que contribuíam diretamente para a qualidade final e o prestígio do modelo no mercado. Em contrapartida, componentes sujeitos a maiores esforços e desgaste, como o bordo de ataque das asas, a carenagem do motor e a seção frontal do suporte do para-brisa, eram confeccionados em alumínio, proporcionando maior resistência estrutural e durabilidade. O trem de pouso, do tipo convencional, embora aparentemente simples, foi projetado com ênfase na leveza e robustez, contribuindo para a eficiência operacional da aeronave. Em versões posteriores, a introdução do trem de pouso retrátil uma inovação significativa para o período representou um importante avanço, reduzindo o arrasto aerodinâmico e melhorando o desempenho em voo. No que se refere à motorização, o Modelo 17 era equipado com motores radiais de elevado desempenho, destacando-se o Pratt & Whitney R-985 Wasp Junior, capaz de gerar aproximadamente 450 hp nas versões mais avançadas. Essa motorização permitia à aeronave atingir velocidades de cruzeiro na ordem de 300 km/h um valor notável para a época , além de apresentar excelente desempenho em operações de decolagem e pouso em pistas curtas. Tais características tornavam o modelo particularmente adequado para o transporte executivo e operações regionais, atendendo a um público que valorizava rapidez, confiabilidade e flexibilidade operacional. O primeiro protótipo realizou seu voo inaugural em 4 de novembro de 1932, nas instalações da Beech Aircraft Corporation em Wichita. Nos meses subsequentes, a aeronave foi submetida a um extenso programa de ensaios em voo, que resultou na implementação de diversas melhorias técnicas, culminando no desenvolvimento da primeira versão de produção em série. As primeiras unidades foram disponibilizadas no mercado norte-americano a partir de maio de 1933, com preços variando entre US$ 14.000 e US$ 17.000, dependendo da configuração escolhida. Todavia, essa faixa de preço mostrou-se inicialmente elevada para o contexto econômico da Grande Depressão, resultando na comercialização de apenas dezoito aeronaves ao longo daquele ano. Diante desse desempenho comercial limitado, a empresa promoveu uma série de aprimoramentos no projeto, com destaque para a adoção do trem de pouso retrátil e refinamentos aerodinâmicos e estruturais. Paralelamente, manteve-se o foco na diferenciação por meio do acabamento interno de alto padrão, caracterizado pelo uso de materiais nobres, como couro e mohair, aplicados de forma artesanal. Esses fatores, combinados à contínua evolução técnica do modelo, contribuíram para uma gradual ampliação de sua aceitação no mercado. Ao longo dos anos seguintes, o Staggerwing consolidou-se como uma referência no segmento de aviação executiva, conquistando uma parcela significativa do mercado nos Estados Unidos e no Canadá, e estabelecendo novos padrões de desempenho e sofisticação para aeronaves de sua classe.
A elevada velocidade e o desempenho do Model 17 Staggerwing contribuíram decisivamente para sua popularidade entre pilotos civis ao longo da década de 1930. Tal reputação foi rapidamente consolidada no ambiente competitivo, quando uma de suas versões iniciais conquistou o primeiro lugar na edição de 1933 da Texaco Trophy Race, uma das mais prestigiadas provas aeronáuticas da época. Em 1935, o modelo alcançou projeção internacional adicional quando o diplomata britânico H. L. Farquhar realizou com sucesso um voo ao redor do mundo a bordo de um Beech Model B-17R. A jornada, com aproximadamente 34.331 quilômetros, teve início em Nova York e incluiu rotas pela Sibéria, Sudeste Asiático, Oriente Médio e Norte da África, antes do retorno à Londres, demonstrando a confiabilidade e o alcance da aeronave em operações de longa distância. No campo das competições, o Staggerwing destacou-se de forma notável. Em 1936, as aviadoras Louise Thaden e Blanche Noyes, pilotando um Beech Model C-17R, venceram o cobiçado Bendix Trophy Race, uma das mais importantes corridas de velocidade dos Estados Unidos. No ano seguinte, a renomada piloto Jacqueline Cochran, ao comando de um modelo D-17W, estabeleceu recordes femininos de velocidade alcançando cerca de 328 km/h e de altitude, superando os 9.144 metros, além de conquistar o terceiro lugar na edição de 1937 da mesma competição. Curiosamente, o primeiro emprego militar do modelo ocorreu de forma não convencional durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), quando aeronaves civis adaptadas da versão C-17 foram utilizadas em missões de bombardeio pela aviação republicana. Paralelamente, unidades do Staggerwing também foram empregadas como ambulâncias aéreas pelas forças da China Nacionalista no contexto do conflito contra o Japão. O sucesso crescente no mercado civil norte-americano, aliado ao seu desempenho superior, despertou o interesse do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), que buscava uma aeronave leve de ligação. Nesse contexto, ao final de 1938, três aeronaves do modelo Beech D-17S foram adquiridas para um programa de avaliação operacional. Essa variante incorporava importantes aprimoramentos, como trem de pouso retrátil, ailerons instalados nas asas superiores, um motor Pratt & Whitney R-985 Wasp Junior na versão R-985-17 com 450 hp, além de um sistema de sincronização dos freios com os pedais do leme. As aeronaves receberam a designação experimental YC-43 na qual “Y” indicava um tipo em avaliação e “C” referia-se à função de carga e foram destinadas a ensaios operacionais. Os resultados positivos desses testes levaram à homologação do modelo para uso militar, culminando na celebração de um contrato com o Exército dos Estados Unidos (U.S Army) para a aquisição de 75 aeronaves da versão Beech UC-43 Traveler, cujas entregas tiveram início em maio de 1939. Posteriormente, as três unidades iniciais YC-43 foram destacadas para a Europa, onde passaram a operar como aeronaves de ligação a serviço de adidos militares norte-americanos em cidades como Londres, Paris e Roma, desempenhando funções diplomáticas e de apoio em um contexto internacional cada vez mais tenso às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início do século XX, a comunicação por correspondência no Brasil enfrentava limitações estruturais significativas, decorrentes da dependência quase exclusiva dos modais rodoviário e marítimo. A precariedade das vias de transporte e as grandes distâncias entre os centros urbanos tornavam o envio de cartas um processo lento e, muitas vezes, imprevisível, podendo levar semanas ou até meses para a entrega. Diante desse quadro, o governo brasileiro passou a considerar a aviação então uma tecnologia emergente como alternativa estratégica para modernizar os serviços postais e reduzir o isolamento entre diferentes regiões do país. Nesse contexto, a então incipiente estrutura aeronáutica nacional, ainda vinculada à Marinha e ao Exército, apresentou-se como um vetor promissor para a implementação de um sistema de correio aéreo. O marco inaugural dessa modalidade no país ocorreu em 15 de agosto de 1919, quando um Curtiss HS-2L, de matrícula nº 11, operado pela Aviação Naval da Marinha do Brasil, realizou o primeiro voo postal documentado. A aeronave decolou do Rio de Janeiro com destino à Ilha Grande, transportando correspondência oficial do Ministério da Marinha para uma unidade naval em exercício. Esse evento deu origem ao chamado “Correio da Esquadra”, serviço voltado ao intercâmbio de correspondências entre navios e bases da Marinha. Embora não dispusesse de aeronaves dedicadas exclusivamente a essa função, o Correio da Esquadra demonstrou, ao longo de sua operação, a viabilidade e a relevância do transporte aéreo de correspondências. Estima-se que tenham sido realizadas cerca de 300 ligações com unidades da esquadra durante exercícios e manobras navais, evidenciando o potencial transformador da aviação no campo das comunicações. A ampliação desse conceito para o âmbito civil, contudo, só se concretizaria na década seguinte. Com a criação do Correio Aéreo Militar em 1931, surgiram as primeiras rotas regulares com maior alcance territorial. A linha inaugural conectava o Rio de Janeiro à cidade de São Paulo, estabelecendo um eixo fundamental entre os dois principais centros políticos e econômicos do país à época. A partir dessa rota inicial, o sistema foi progressivamente expandido, dando origem a novos ramais: Eixo Sudeste–Centro-Oeste: partindo do Rio de Janeiro em direção a Belo Horizonte e avançando posteriormente para regiões do interior, ampliando a conexão com áreas estratégicas do território Eixo Sudeste–Sul: extensão da linha Rio–São Paulo em direção a Curitiba, consolidando a integração com a região Sul. Eixo interiorano: ligações experimentais e progressivas com cidades do interior paulista e mineiro, com o objetivo de reduzir o isolamento de regiões afastadas dos grandes centros. Essas rotas, ainda que operadas com limitações técnicas como aeronaves de baixa autonomia e infraestrutura aeroportuária precária , desempenharam papel crucial na consolidação do conceito de correio aéreo regular no Brasil.
Paralelamente, a Marinha instituiu, em 1934, o Correio Aéreo Naval, estabelecendo a primeira linha sistemática ao longo do litoral. Essa rota possuía caráter mais estruturado e previsível, conectando importantes portos e centros urbanos: Linha do litoral sudeste-sul: partindo do Rio de Janeiro, com escalas em Santos, Paranaguá e destino final em Florianópolis. Essa rota era estratégica não apenas para o transporte de correspondências, mas também para o apoio logístico às unidades navais e para a integração dos principais portos do país. Em síntese, até 1934, o sistema de correio aéreo brasileiro estruturava-se em três grandes eixos: Litoral (Naval): Rio de Janeiro → Santos → Paranaguá → Florianópoli Sudeste (Militar): Rio de Janeiro → São Paulo → expansões para Belo Horizonte e Curitiba Operações navais móveis: ligações entre o Rio de Janeiro e áreas de exercícios, como a Ilha Grande. Essas rotas pioneiras, ainda limitadas em alcance e frequência, estabeleceram as bases para a futura expansão do sistema aéreo nacional, contribuindo decisivamente para a integração territorial e para a consolidação da aviação como instrumento estratégico de comunicação no Brasil. Em 1935, o Correio Aéreo Naval (CAN) passou por uma importante expansão operacional, com a extensão de suas rotas até a cidade de Rio Grande, no extremo sul do país. Essa ampliação consolidou o serviço como um instrumento essencial para a integração das regiões costeiras do Brasil, reforçando seu papel estratégico tanto no âmbito civil quanto militar. Inicialmente, as operações eram realizadas com aeronaves do tipo Waco CSO, adquiridas em 1933 e equipadas com flutuadores, o que permitia pousos e decolagens em superfícies aquáticas uma solução particularmente adequada diante da limitada infraestrutura aeroportuária disponível à época. Apesar de robustas e confiáveis, essas aeronaves apresentavam restrições significativas em termos de desempenho, autonomia e capacidade de carga, fatores que limitavam a expansão e a eficiência do serviço. A partir de 1935, iniciou-se um processo de modernização com a incorporação de modelos mais avançados, como o Waco CJC e CPF-5. Essas aeronaves introduziram melhorias relevantes, como maior autonomia e confiabilidade, além da capacidade de operar em pistas terrestres, ampliando significativamente a flexibilidade operacional do sistema. Essa evolução permitiu maior regularidade nas rotas e melhor aproveitamento das condições logísticas disponíveis. Ainda assim, mesmo com esses avanços, as limitações inerentes aos modelos WACO permaneceram evidentes. A reduzida capacidade de carga e o alcance limitado restringiam a expansão do serviço para rotas mais longas e exigentes, incompatíveis com as crescentes demandas de um sistema de correio aéreo em processo de consolidação. Esse cenário evidenciou a necessidade de uma modernização mais profunda da frota, com a introdução de aeronaves de maior porte, desempenho superior e maior autonomia. Diante dessa realidade, deu-se início, na segunda metade da década de 1930, a um abrangente programa de modernização de seus meios aéreos.

Nesse contexto, a renovação da frota de transporte foi estabelecida como prioridade, visando não apenas aprimorar as missões de ligação, mas também fortalecer a operação das linhas do Correio Aéreo Naval (CAN). Como parte desse esforço, a Diretoria de Aeronáutica da Marinha lançou, em 1939, uma concorrência internacional, convidando fabricantes norte-americanos e europeus a apresentar propostas para o fornecimento de aeronaves de alto desempenho. Após criteriosa análise das opções disponíveis, a escolha recaiu sobre o norte-americano Beechcraft D-17A Staggerwing. O modelo destacava-se por sua avançada concepção aerodinâmica, notadamente a configuração biplana com asas em cambagem negativa, que reduzia o arrasto e proporcionava maior eficiência em voo. Aliado a isso, seu desempenho superior, maior autonomia e melhor capacidade de carga o tornavam particularmente adequado às necessidades operacionais naquele momento, representando um salto qualitativo na capacidade do serviço e marcando uma nova fase na evolução do correio aéreo naval brasileiro. Equipado com o motor radial Pratt & Whitney R-985 Wasp Junior, com potência aproximada de 450 hp, a aeronave apresentava desempenho notável para sua época. Com velocidade de cruzeiro em torno de 300 km/h e autonomia compatível com as rotas então planejadas, o modelo revelou-se particularmente adequado às exigências operacionais do Correio Aéreo Naval (CAN), contribuindo para elevar o padrão de eficiência e regularidade do serviço. A decisão pela aquisição foi formalizada no final de 1939, quando a Marinha do Brasil firmou contrato para a compra de quatro aeronaves novas, ao custo unitário de US$ 16.350,00. As unidades foram desmontadas nos Estados Unidos e transportadas por via marítima, chegando ao porto do Rio de Janeiro no primeiro trimestre de 1940. De acordo com registros da Beech Aircraft Corporation, apenas oito exemplares da versão D-17A foram produzidos, sendo as aeronaves subsequentes já pertencentes à variante D-17R. Nesse contexto, as quatro unidades adquiridas pela Marinha brasileira representariam, possivelmente, metade da produção total do modelo, o que evidencia o caráter relativamente exclusivo dessa incorporação. Após o desembarque, as aeronaves foram transportadas por via terrestre, acondicionadas em caixotes, até o Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro, situado na área da atual Base Aérea do Galeão. Nesse local, procedeu-se à montagem das células sob a supervisão de técnicos da fabricante, que também foram responsáveis por ministrar treinamento aos pilotos e às equipes de manutenção da Aviação Naval. Concluída a fase de montagem e ensaios em voo realizados em cooperação entre militares brasileiros e especialistas norte-americanos , as aeronaves, identificadas pelos números de construção 358 a 361, receberam a designação militar D1Be e as matrículas “MB 205” a “MB 208”. Posteriormente, foram oficialmente aceitas para serviço operacional e integradas ao Centro de Aviação Naval, sendo então disponibilizadas para o atendimento das linhas do Correio Aéreo Naval.
Entretanto, a introdução do modelo em serviço foi marcada por um episódio trágico. Em 21 de junho de 1940, ocorreu o primeiro acidente envolvendo uma dessas aeronaves. Durante a realização de um voo noturno de retorno na rota semanal do correio aéreo no sul do país, após decolar da Base de Aviação Naval de Rio Grande, a tripulação enfrentou condições meteorológicas adversas. Diante da deterioração do tempo, optou-se pelo regresso ao aeródromo de origem. Contudo, em razão da baixa visibilidade, a aeronave acabou colidindo com as águas do canal nas proximidades da cidade, resultando na perda total do aparelho e no falecimento de seus quatro tripulantes. Esse acidente evidenciou os riscos inerentes às operações aéreas da época, especialmente em um contexto ainda marcado por limitações tecnológicas em navegação e previsão meteorológica, reforçando a complexidade dos desafios enfrentados na consolidação do correio aéreo no Brasil. Apesar da perda de uma das aeronaves, as restantes continuaram a desempenhar com galhardia um papel de grande relevância nas operações do Correio Aéreo Naval (CAN). Dotadas de elevada velocidade de cruzeiro em torno de 300 km/h e de uma concepção aerodinâmica avançada, essas aeronaves foram amplamente empregadas não apenas nas rotas postais, mas também em missões de ligação, assegurando o transporte ágil de oficiais, autoridades e correspondências entre diferentes unidades navais. Sua versatilidade operacional revelou-se particularmente valiosa em rotas de maior extensão, como a chamada Linha Tronco Norte, que estabelecia a ligação entre o Rio de Janeiro, Belém e Manaus, contribuindo para a integração de regiões distantes e de difícil acesso. Esse cenário sofreria profunda transformação em 1941. Em 20 de janeiro daquele ano, com a criação do Ministério da Aeronáutica, foi determinada a transferência de todo o pessoal, material e aeronaves da Aviação Naval e da Aviação Militar para a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB). Nesse processo, as três aeronaves remanescentes do modelo designadas D1Be foram incorporadas à nova força. Pouco depois, por meio da Portaria Ministerial nº 47, promulgada em 20 de fevereiro de 1941, ocorreu a fusão do Correio Aéreo Militar com o Correio Aéreo Naval, dando origem ao Correio Aéreo Nacional. Essa unificação representou um marco na história da aviação brasileira, ao racionalizar recursos, aumentar a eficiência operacional e ampliar significativamente a cobertura das rotas aéreas em um país de dimensões continentais. O novo sistema tornou-se um dos principais instrumentos de integração nacional, conectando áreas remotas e suprindo lacunas logísticas onde os transportes terrestre e fluvial se mostravam insuficientes. Nesse contexto, aeronaves como o Staggerwing desempenharam papel importante na consolidação das primeiras rotas de maior alcance. Reconhecendo as qualidades operacionais do modelo, o Comando da Aeronáutica decidiu, ainda em 1941, expandir a frota para atender à crescente demanda do Correio Aéreo Nacional (CAN).

Tal iniciativa foi viabilizada pelo Lend-Lease Act (Lei de Emprétimos e Arrendamentos), programa instituído pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, que permitia o fornecimento de equipamentos militares a nações aliadas. Por intermédio da Comissão de Compras de Material Aeronáutico, sediada em Washington, D.C., o Brasil negociou a aquisição de 51 aeronaves novas das versões militarizadas do Beech Staggerwing, destacavam-se o UC-43 Traveller, e o GB-2. Essa ampliação da frota representou um salto significativo na capacidade operacional do Correio Aéreo Nacional (CAN), permitindo não apenas a expansão das rotas existentes, mas também o fortalecimento do papel da aviação como elemento estruturante da integração territorial brasileira. Operando em conjunto com os três remanescentes D-17A , estas novas células passariam a compor as mais diversas linhas do Correio Aéreo Nacional (CAN), ampliando não só alcance, mas também a efetividade, transportando malas postais ou cargas leves. Neste momento seriam também empregadas esporadicamente como como aeronaves de ligação orgânica, transportando pessoal e malas postais entre as principais bases aéreas existentes naquele período. Em operação estas aeronaves passariam a ser muito apreciadas por seus tripulantes e eventuais passageiros, principalmente por causa de sua alta velocidade e conforto interno. Estas aeronaves seriam então mantidas com um dos principais vetores no Correio Aéreo Nacional (CAN) até meados do ano de 1955. Porém os Beechcraft D-17A Staggerwing, UC-43 Traveller e Beech GB-2, começariam a ser parcialmente substituídos nestas tarefas pelos bimotores Beechcraft AT-7, C-18 e D-18, que apresentam maior alcance, capacidade de carga e segurança. Inicialmente estes novos vetores operariam em um regime compartilhado nas linhas postais, com estas aeronaves recebendo o apelido de “Beech Bi” e seus antecessores o apelido de “Beech Mono”. Por serem empregadas intensivamente nas mais diversas linhas do Correio Aéreo Nacional (CAN) em todo o território nacional, as células dos modelos Beechcraft D-17A Staggerwing, UC-43 Traveller e Beech GB-2, sofreriam um grande desgaste estrutural. Com muitas destas aeronaves sendo inutilizadas em acidentes de grande e pequena monta reduzindo drasticamente a frota. Em meados da década de 1950, as aeronaves que anteriormente pertenceram a Aviação Naval da Marinha do Brasil já haviam sido descarregadas e sucateadas há alguns anos. As aeronaves remanescentes, ainda em boas condições de voo, seriam mantidas em operação, sendo empregadas como aeronaves orgânicas a serviço de diversas bases aéreas e Parques de Material da Aeronáutica, até o ano de 1963, quando o último avião seria retirado do serviço ativo da Força Aérea Brasileira (FAB). Das aeronaves originalmente recebidas, somente uma célula da versão Beechcraft UC-43 Traveller, seria preservada, e após restaurada passaria a pertencer ao acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL), no Rio de Janeiro – RJ.
Em Escala.
Para representarmos o D1Be Beechcraft D-17A Staggerwing de matricula "MB 205", empregamos o antigo kit da AMT, pois não existe no mercado um modelo para compor esta versão inicial da aeronave, levando assim a necessidade de pequenas modificações para se aproximar do modelo empregado pela Aviação Naval da Marinha do Brasil. Como não há no mercado um set de decais específicos para a versão naval brasileira na escala 1/48, empregamos decais oriundos de diversos sets da FCM Decais.
O esquema de cores descrito abaixo representa o padrão com o qual as aeronaves foram recebidas em 1940, este esquema foi mantido após a transferência para a Força Aérea Brasileira (FAB). Após o termino da Segunda Guerra Mundial estas aeronaves e os demais Beech UC-43 Traveller e Beech GB-2, passariam a ostentar um novo padrão de pintura e metal natural, com as marcações nacionais, mantendo este esquema até sua desativação no ano de 1963.
Bibliografia :
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 á 2015 - Jackson Flores Jr
- Beechcraft Model 17 / D17A - Aviação Naval Brasileira - http://www.naval.com.br
- História da Força Aérea Brasileira – Rudnei Cunha Dias da Cunha http://www.rudnei.cunha.nom.br
- Beechcraft Model 17 Staggerwing - Wikipédia - http://en.wikipedia.org/wiki/Beechcraft_Model_17_Staggerwing










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