C-115 DHC-5A Búfalo


História e Desenvolvimento.
A história da De Havilland Canada teve início em 1928, quando a British De Havilland Aircraft Company estabeleceu uma subsidiária em Toronto, na província de Ontário, Canadá. O objetivo inicial era produzir localmente o De Havilland DH-82 Tiger Moth, uma aeronave de treinamento básico projetada para preparar pilotos das forças armadas canadenses. O Tiger Moth, com sua simplicidade e confiabilidade, tornou-se um pilar na formação de aviadores durante os anos 1930, preparando o terreno para a expansão da empresa. Com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a De Havilland Canada foi transformada em uma corporação da coroa, sob controle do governo canadense, integrando-se ao esforço industrial aliado. Durante o conflito, a empresa desempenhou um papel crucial na produção de aeronaves e componentes aeronáuticos, com destaque para o bombardeiro leve De Havilland DH.98 Mosquito. Das mais de 7.000 unidades desse modelo produzidas globalmente, aproximadamente 17% (cerca de 1.190 aeronaves) foram fabricadas em solo canadense. Essas aeronaves, conhecidas por sua velocidade e versatilidade, foram enviadas ao teatro de operações europeu, contribuindo significativamente para missões de bombardeio, reconhecimento e combate. Após o término da Segunda Guerra Mundial, a De Havilland Canada direcionou seus esforços para o desenvolvimento de aeronaves projetadas especificamente para o severo ambiente operacional do Canadá, caracterizado por vastas áreas selvagens, temperaturas extremas e pistas rudimentares. Paralelamente, a empresa manteve uma divisão dedicada à produção licenciada de aeronaves britânicas, como o De Havilland Vampire, e, mais tarde, de modelos norte-americanos, como o Grumman S2-F Tracker, uma aeronave de guerra antissubmarino (ASW) produzida sob licença para atender às necessidades das forças armadas canadenses. O primeiro projeto militar pós-guerra da De Havilland Canada, o DHC-1 Chipmunk (conhecido como "Esquilo"), marcou um marco significativo na história da empresa. Realizando seu voo inaugural em 22 de maio de 1946, o Chipmunk foi desenvolvido como um treinador básico para substituir o obsoleto DH-82 Tiger Moth. Introduzido em serviço no final de 1946, o modelo destacou-se por sua manobrabilidade, simplicidade e robustez, tornando-se uma escolha popular para a formação de pilotos. Até 1956, foram produzidas 1.284 unidades, operadas por 25 forças aéreas em todo o mundo, incluindo a Royal Air Force (RAF), que manteve o modelo em serviço até 1995. O Chipmunk não apenas consolidou a reputação da De Havilland Canada como fabricante de aeronaves de treinamento, mas também demonstrou sua capacidade de projetar aeronaves duráveis e confiáveis. Lançado em 1947, o DHC-2 Beaver representou um marco na aviação utilitária, sendo a primeira aeronave da De Havilland Canada projetada com características STOL (Short Take-Off and Landing, ou decolagem e pouso em pistas curtas). Desenvolvido para atender às demandas de operadores civis e militares em regiões remotas do Canadá, o Beaver destacou-se por sua capacidade de operar em pistas improvisadas, como lagos congelados, rios e terrenos acidentados. Com uma produção de 1.657 unidades entre 1947 e 1967, o Beaver conquistou operadores em mais de 50 países, sendo amplamente utilizado em missões de transporte, evacuação médica e reconhecimento.

Por fim, o DHC-3 Otter, lançado em 1952, foi uma evolução direta do Beaver, oferecendo maior capacidade de carga e passageiros, além de melhorias em desempenho STOL. Com seu voo inaugural em dezembro de 1951, o Otter rapidamente ganhou destaque no mercado, com 466 unidades produzidas até 1965. Utilizado por forças armadas e operadores civis, o Otter foi empregado em missões de transporte, busca e salvamento, e apoio logístico em ambientes remotos. Sua capacidade de operar com flutuadores, esquis ou rodas reforçou sua adaptabilidade, tornando-o uma escolha ideal para operações em regiões como o Ártico e a Amazônia. Uma grande oportunidade se apresentaria em 1958, quando o comando do Exército dos Estados Unidos  (US Army),  lançou uma concorrência internacional para uma nova aeronave de transporte tático, exigindo capacidades  de decolagem e pouso STOL para operar em pistas curtas e não preparadas, além de versatilidade para missões próximas ao front de batalha. Com apoio financeiro do Departamento de Produção de Defesa do Canadá, a De Havilland Canada desenvolveu o DHC-4, projetado para atender a essas especificações rigorosas. O primeiro protótipo realizou seu voo inaugural em 30 de julho de 1958, demonstrando impressionantes capacidades STOL e robustez estrutural. Os militares norte-americanos, impressionados com o desempenho do DHC-4, assinaram um contrato para a produção de cinco células de avaliação, designadas como YAC-1. Os testes conduzidos confirmaram o potencial da aeronave, levando à assinatura de um contrato de produção para 159 unidades, que receberam a designação CV-2 Caribou. As primeiras entregas ao Exército dos Estados Unidos  (US Army) ocorreram em março de 1961, marcando a entrada oficial do modelo em serviço. O CV-2 Caribou rapidamente se destacou por sua capacidade de operar em pistas rudimentares, transportando cargas e tropas em condições adversas. Em 1966, um acordo operacional entre o Exército dos Estados Unidos  (US Army) e a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) resultou na transferência de todas as unidades do Caribou para força aérea, onde foram redesignadas como C-7 Caribou. Essa transição reflete a reorganização das responsabilidades de transporte aéreo tático nos Estados Unidos, com a força aérea assumindo o comando de operações aéreas fixas.  A aeronave foi amplamente empregada na Guerra do Vietnã a partir de 1966, após sua transferência para a força aérea, sendo operado por unidades como o 483º Grupo de Transporte Aéreo Tático e esquadrões subordinados, incluindo o 535º, 536º e 537º Esquadrões de Transporte Aéreo Tático, baseados em locais como Cam Ranh Bay, Phu Cat e Vung Tau. As principais missões do Caribou no conflito incluíam Ressuprimento de Tropas, Evacuação Aeromédica, Transporte de Tropas e Equipamentos e Missões de Apoio Logístico. Sua capacidade STOL permitiu operações em pistas improvisadas, frequentemente sob fogo inimigo, consolidando sua reputação como uma aeronave confiável e versátil. 
Durante o conflito, algumas unidades do C-7 Caribou foram capturadas pelas forças norte-vietnamitas, particularmente após a queda de bases no Vietnã do Sul. Essas aeronaves foram incorporadas à Força Aérea Popular do Vietnã e operadas até o final da década de 1970, principalmente em missões de transporte e logística. Em 1962, o Exército dos Estados Unidos  (US Army) lançou uma nova concorrência para uma aeronave de transporte médio, buscando capacidades ainda mais avançadas. Os requisitos incluíam: Capacidade STOL para operações em pistas curtas e não preparadas; Carga útil equivalente à de um helicóptero CH-47A Chinook; Versatilidade para transportar 30 soldados totalmente equipados, um míssil balístico de médio alcance MGM-31 Pershing, um obuseiro de 105 mm ou uma viatura média de três quartos de tonelada. Este processo tinha por objetivo substituir cerca de cento e ciquenta células do De Havilland DHC-4 Caribou que se encontravam em operação, e apresentavam como principal deficiência o emprego de motores radiais a pistão Pratt & Whitney Motores R-2000 que além de obsoletos apresentavam um alto consumo de combustível, impactando diretamente no desempenho operacional destas aeronaves. Em resposta à concorrência, a De Havilland Canada apresentou uma proposta ambiciosa: uma versão ampliada e modernizada do DHC-4 Caribou, designada como DHC-5 Buffalo. Equipada com dois turboélices General Electric CT64-820-1, cada um com 3.055 shp, a aeronave oferecia desempenho superior, incluindo a capacidade de decolar em apenas 369 metros de pista, superando obstáculos de 15 metros de altura com uma carga máxima de 18.597 kg. Essas características excediam os requisitos do US Army, que incluíam a capacidade de transportar até 40 soldados equipados ou diversas cargas, como viaturas pequenas e médias. Impressionado com o potencial do Buffalo, o Exército dos Estados Unidos  (US Army) firmou um contrato com a De Havilland Canada para a produção de quatro aeronaves destinadas a um programa de avaliação e ensaios em voo. O primeiro protótipo alçou voo em 9 de abril de 1964, demonstrando capacidades operacionais que superavam as expectativas, incluindo excepcional desempenho STOL e flexibilidade para missões táticas. As aeronaves de teste, designadas como C-8A, foram submetidas a rigorosos ensaios, confirmando sua adequação para operações em ambientes desafiadores. Apesar do sucesso técnico do DHC-5 Buffalo, mudanças na política de aquisição de material militar dos Estados Unidos na década de 1960 impactaram drasticamente o programa. Uma nova diretriz priorizou fornecedores nacionais, destinando recursos gerados por impostos americanos exclusivamente a empresas dos Estados Unidos. Essa mudança criou barreiras significativas para a De Havilland Canada, uma empresa estrangeira, mesmo com sua comprovada competência técnica. Como resultado, o Exército dos Estados Unidos  (US Army) limitou-se à aquisição das quatro aeronaves C-8A inicialmente contratadas, encerrando as perspectivas de um contrato de produção em larga escala.

As quatro unidades do C-8A foram operadas por um curto período durante a Guerra do Vietnã, sob o comando do 2º Pelotão de Voo da 92ª Companhia de Aviação, baseado na Base Aérea de Bien Hoa, no Vietnã do Sul. Durante esse tempo, o Buffalo demonstrou sua capacidade de realizar missões de ressuprimento, evacuação aeromédica e transporte tático em condições adversas, reforçando sua reputação como uma aeronave robusta e confiável. Contudo, a curta duração de sua operação pelos Estados Unidos limitou seu impacto no conflito.  O C-8A enfrentou desafios semelhantes aos do Caribou: exposição a fogo antiaéreo, manutenção em ambiente tropical úmido e pistas rudimentares. Sua construção robusta, com tanques de combustível auto-selantes, mitigou alguns riscos, mas a curta duração das operações limitou incidentes documentados. Após o revés comercial com o Exército dos Estados Unidos  (US Army), a De Havilland Canada identificou o potencial do DHC-5 para exportações e operações especializadas, redesignando o modelo como DHC-5A Buffalo. O governo canadense, principal investidor no projeto original, adquiriu 15 aeronaves, designadas localmente como CC-115, para a Força Aérea Real Canadense (RCAF). Essas unidades foram empregadas em missões de transporte tático, patrulha e lançamento de paraquedistas, aproveitando sua capacidade STOL para operar em pistas curtas e não preparadas, características essenciais para as vastas regiões remotas do Canadá. A partir de meados da década de 1960, o CC-115 Buffalo também desempenhou um papel significativo em missões internacionais sob a égide da Organização das Nações Unidas (ONU). Três aeronaves foram destacadas para operações de paz no Oriente Médio, participando de missões humanitárias e de assistência até 1979. Tragicamente, em 9 de agosto de 1974, o CC-115 de matrícula RCAF115461, operando como uma aeronave de assistência da ONU, foi abatido por um míssil superfície-ar lançado por forças sírias, resultando na perda de todos os passageiros e tripulantes. Esse incidente, ocorrido durante uma missão de paz, marcou um momento sombrio na história do Buffalo, mas também destacou o compromisso do Canadá com operações humanitárias globais. Em 1975, a RCAF decidiu retirar o CC-115 Buffalo de sua função primária como aeronave de transporte tático, redirecionando as unidades em melhor estado de conservação para missões de Busca e Salvamento (SAR – Search and Rescue). Essas aeronaves foram convertidas e receberam um padrão de pintura distintivo em amarelo e vermelho, facilitando sua identificação em operações de resgate. Durante 47 anos, de 1975 a 17 de janeiro de 2022, o CC-115 Buffalo foi o principal vetor de asas fixas para missões SAR no Canadá, desempenhando um papel vital no salvamento de vidas em ambientes hostis, como montanhas, florestas e regiões costeiras do Ártico.
A capacidade STOL do Buffalo, combinada com sua robustez e autonomia, permitiu operações em condições extremas, frequentemente em locais de difícil acesso. Essas missões reforçaram a reputação do Buffalo como uma aeronave confiável, capaz de operar onde outras não conseguiam, salvando incontáveis vidas ao longo de quase cinco décadas. Por causa de sua asa alta, trem de pouso reforçado e características de pouso e decolagem curtos (STOL-Short Take off and Landing), o De Havilland Canada DHC-5A Buffalo, aparentava ser a aeronave ideal para emprego em áreas inóspitas e desprovidas de infraestrutura aeroportuária, sendo extremamente indicada para operação em ambientes de densa floresta tropical a exemplo da Amazônia.  Este perfil operacional único, acabaria gerando o interesse em aquisições por parte das forças armadas do Peru, Equador e Brasil.   Uma versão melhorada a DHC-5D Buffalo produzida a partir de 1974, sendo exportada para o Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Camarões, Chile, Congo, Indonésia, Quênia, Mauritânia, México, Omã, Sudão, Tanzânia e Zâmbia. A produção do modelo seria descontinuada em 1986 com uma entrega de cento e vinte e seis células, com a aeronave permanecendo em uso ainda em alguns países até os dias atuais.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
A gênese da aviação de transporte militar no Brasil tem seu início em 1945, quando nos termos do Leand & Lease Act, foram recebidos os primeiros dez Douglas C-47 Skytrains, nesta época a frota brasileira era limitada, composta por poucas aeronaves como os Lockheed L-12A Electra Junior e o Lockheed Model 18 Lodestar, insuficientes para atender às demandas de um país de dimensões continentais. A aquisição do C-47 alocados no 1º Grupo de Aviação de Transporte (GAT), sediado no Rio de Janeiro, representou um salto significativo na capacidade de transporte da Força Aérea Brasileira (FAB).  Ao longo dos anos seguintes seriam recebidos mais 71 C-47 e 02 C-46 Commando, contudo as primeiras aeronaves de transporte pesado os Fairchild C-82A Packet seriam incorporados em 1955, passando a equipar o 1º Esquadrão do  2º Grupo de Transporte, sendo empregados inicialmente em proveito das missões do Correio Aéreo Nacional (CAN) e posteriormente em apoio as atividades do Núcleo da Divisão  Aeroterrestre do Exército Brasileiro. Esta frota de transporte tático seria reforçada em 1961 com a aquisição de 12 células Fairchild C-119G Flying Boxcar, representando uma significativa capacidade de transporte. No entanto suas operações ficaram praticamente concentradas nas regiões sul e sudestes, devido a falta de infraestrutura das demais regiões, representando em sua maioria operações em pistas não preparadas, muitas vezes lamacentas ou irregulares, demandavam habilidade excepcional dos pilotos e robustez da aeronave. Neste cenário empregado os veteranos Douglas C-47, porém estes apresentavam limitações em relação a carga e alcance (2.600 km com carga padrão), o que levou a Força Aérea Brasileira (FAB) a buscar aeronaves mais modernas nas nos anos seguintes, resultando na aquisição dos Douglas C-54G Skymaster e  C-118 Liftmaster . Porém no final da primeira metade da década de 1960 a disponibilidade dos C-82 havia caído drasticamente, atrapalhando desempenho do  1º/1º GTT (Grupo de Transporte de Tropas) na execução das missões de transporte logístico, transporte de tropas e lançamento de paraquedistas do Exército Brasileiro. Neste escopo operacional estas aeronaves eram complementadas pelos C-119G  do 2º/1º GTT (Grupo de Transporte de Tropas), porém se apresentavam se encontravam em números insuficientes para o atendimento das demandas vigentes. Logo em seguida mais problemas de ordem técnica passavam a afligir cada vez mais severamente a capacidade operacional desta força de transporte, principalmente devido a problemas crônicos causados pela obsolescência e constante falta de peças de reposição para seus velhos motores a pistão Pratt & Whitney R-2800-85 e Wrigth Cyclone R-3350-85.  

Este cenário causava preocupação junto ao Comando da Aeronáutica (COMaer), que em função da grande extensão territorial do país, necessitava apresentar a maior prontidão operacional possível de sua frota de aeronaves de transporte . Desta maneira o Ministério da Aeronáutica (MAer), ciente do fator de disponibilidade e obsolescência de sua frota de aeronaves de transporte, decidiu no início do ano de 1965, por substituir os  Fairchild C-82 Packet  e complementar temporariamente os Fairchild C-119G Flying Boxcar (que seriam depois substituídos pelo novos Lockheed C-130E Hercules) por aeronaves mais modernas. Assim a fim de atendimento a esta demanda, em fins do ano de 1964,  seria deflagrada uma concorrência internacional, envolvendo a  aquisição de até trinta aeronaves de transporte de porte médio. Neste momento seriam recebidas várias propostas de fornecedores internacionais, incluindo neste escopo "compras de oportunidades" de aeronaves usadas que poderiam ser adquiridas em vantajosos termos de programa de ajuda militar. Contudo o programa de aquisição de aeronaves de transporte seria considerado como de alta prioridade pelo governo federal, concedendo assim ao Ministério da Aeronáutica (MAer) uma grande dotação orçamentaria para este processo. Definida a opção pela aquisição de aeronaves "novas de fábrica", seriam procedidas análises sobre os modelos apresentados para a concorrência. Estes estudos baseados no teor comparativo logo derivaram para a escolha lógica da aeronave DHC-5A Buffalo produzida pela empresa canadense De Havilland Canada.  Pesando a seu favor, suas capacidades de operação em pousos e decolagens em pistas curtas (STOL-Short Take off and Landing), e sua robustez para o emprego em aeródromos não preparados ou desprovidos de qualquer infraestrutura básica. Características estas que muito interessavam, pois se adaptavam ao tipo de emprego almejado pela Força Aérea Brasileira (FAB), que seria basicamente definido por missões de lançamento de tropas paraquedistas ou mesmo o pouso de assalto em pistas rusticas ou campos sem infraestrutura adequada. Além desse tipo de emprego especificadamente militar, a nova aeronave serviria perfeitamente para o apoio as populações no interior da Amazônia e a suporte as operações da COMARA (Comissão de Aeroportos da Região Amazônica), organização militar responsável pela implantação da malha de aeroportos naquelas regiões longínquas do Brasil. E assim as características de pouso e decolagens curtas e a potência de seus motores, representavam os maiores trunfos da aeronave, neste processo de concorrência, levando assim o Ministério da Aeronáutica (MAer) a decidir pela aprovação da proposta apresentada pela empresa canadense. 
Em 1966, seriam adquiridas vinte e quatro células do modelo De Havilland Canada DHC-5A Buffalo, que começaram a ser recebidas no Campo dos Afonsos a partir de 1968, sendo então alocadas junto ao 1º/1º Grupo de Transporte de Tropas (1º/1º GTT) – Esquadrão Zeus , substituindo de imediato os já cansados Fairchild C-82 Packet.  Em virtude do número de aeronaves previstas  neste contrato, seria possível ativar em março do ano de 1970, o 1º/9º Grupo de Aviação (1º/9º  GAv) - Esquadrão Arara, com sede na Base Aérea de Manaus no estado do Amazonas, e o 1º/15º Grupo de Aviação (1º/15º  GAv) – Esquadrão Onça , sediado na Base Aérea de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. A partir deste momento caberia ao 1º/1º Grupo de Transporte de Tropas (1º/1º GTT), as tarefas de instrução e formação operacional das equipagens das novas unidades aéreas. Nestes dois novos grupos, as principais tarefas estavam relacionadas a missões de apoio aos pelotões de fronteira do Exército Brasileiro, e eventuais tarefas em proveito da Marinha Brasileira e entidades governamentais, em tarefa de assistência ás cidades e vilas isoladas na floresta, realizando evacuação aero médica, missões de misericórdia e complemento de atividades do Correio Aéreo Nacional. Já o 1º/1º Grupo de Transporte de Tropas (1º/1º GTT), baseado no Campos dos Afonsos os C-115 Bufalo estavam ligados diretamente a Brigada de Paraquedistas do Exército Brasileiro. Eventualmente ocorriam missões no interior da Amazônia, em atendimento às necessidades do Correio Aéreo Nacional (CAN).  A introdução do "Búfalo"  na Força Aérea Brasileira (FAB) representou um salto operacional significativo, especialmente no apoio às atividades do Exército Brasileiro em regiões de fronteira e na Amazônia. Equipadas com motores turboélices General Electric CT64-820-1 (cada um com 3.925 shp), as aeronaves podiam transportar até 41 soldados ou 35 paraquedistas, com uma capacidade de carga de cerca de 7.700 kg e um alcance máximo de 3.490 km. Sua envergadura de 29 metros e comprimento de 24 metros, combinados com trenó de pouso reforçado, permitiam decolagens em menos de 450 metros e pousos em pistas de terra ou grama, características essenciais para o teatro de operações brasileiro. Durante mais de trinta e cinco anos os C-115 Bufalo (como foram designados no Brasil), prestariam relevantes serviços ao país e ao seu programa de integração nacional, não só na região amazônica, mas em todo território nacional. O Buffalo foi peça-chave na estratégia de defesa e integração nacional, especialmente na região Norte. 

Durante os anos 1970 e 1980, o Brasil intensificou a presença militar na Amazônia para proteger fronteiras e afirmar soberania, em um contexto de tensões regionais e interesses internacionais sobre a floresta. O C-115 apoiou missões como a Operação Traíra, transportando tropas e suprimentos para áreas de fronteira, além de contribuir para a construção de pistas e bases aéreas, como as do Comando Militar da Amazônia. Sua operação fortaleceu a projeção de poder aéreo em regiões estratégicas. Além do papel militar, o C-115 foi fundamental em operações humanitárias. A aeronave entregava suprimentos médicos, alimentos e equipes de resgate a comunidades isoladas, especialmente durante enchentes, epidemias ou desastres naturais na Amazônia. Sua capacidade de evacuação médica (MEDEVAC) salvou inúmeras vidas em áreas sem acesso a hospitais. Essas missões reforçaram o papel da Força Aérea Brasileira (FAB) como agente de integração social, aproximando o Estado brasileiro de populações remotas.  O C-115 tornou-se o "rei da selva", conectando comunidades isoladas, bases militares e aeródromos improvisados, onde outras aeronaves não conseguiam operar. Durante todos os anos de seu emprego operacional , o Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMASP) seria responsável por todo o processo de suporte e manutenção destas aeronaves, mantendo inclusive uma célula orgânica em sua dotação, para a realização de missões de transporte logístico da própria unidade.  Apesar de serem constantemente submetidos a processos contínuos de manutenção esmerada, o peso dos anos, o desgaste estrutural das células, sua consequente obsolescência e problemas na obtenção de peças de reposição, começaram a gerar preocupantes índices de indisponibilidade, fato que este aliado a perda de nove aeronaves em acidentes ao logo dos anos, passava a comprometer seriamente a capacidade de transporte da força. Este cenário levaria a Força Aérea Brasileira (FAB) a repensar o emprego do modelo, decidindo assim em 1981, substituir os C-115 Bufalo do 1º/15º Grupo de Aviação (1º/15ºGAv), pelos novos Embraer C-95B Bandeirante. Desta maneira as células remanescentes passariam a ser concentradas junto ao 1º/1º Grupo de Transporte de Tropas (1º/1º GTT) e ao 1º/9º Grupo de Aviação (1º/9º GAv), reforçando ambas as dotações, permitindo assim a retomada de um nível operacional aceitável. Em novembro de 2002, o cenário de baixa disponibilidade se repetiria com a frota de C-115 da Força Aérea Brasileira (FAB), com as aeronaves do 1º/1º Grupo de Transporte de Tropas (1º/1º GTT), sendo substituídas pelos Lockheed C-130H Hercules, passando a concentrar as últimas células remanescentes junto ao 1º/9º GAv - Esquadrão Arara. 
Paralelamente a Força Aérea Brasileira (FAB) ciente da necessidade emergencial de substituição do modelo, deu início ao  Programa CL-X, também conhecido como Projeto CL-X,  que representaria um dos pilares do Programa de Fortalecimento do Controle do Espaço Aérea Brasileiro. Lançado no início dos anos 2000 pelo Ministério da Defesa e pelo Comando da Aeronáutica, visando modernizar a frota de aeronaves de transporte tático e de busca e salvamento (SAR) da Força Aérea Brasileira (FAB), com ênfase na substituição das obsoletas aeronaves C-115 Buffalo. O foco primordial do CL-X era o de incorporar de meios aéreos capazes de suportar projetos estratégicos como o Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) e o Projeto Calha Norte, promovendo a integração nacional, o apoio a regiões menos desenvolvidas . Subsidiariamente, o programa complementaria as operações das aeronaves C-130 Hércules, ampliando a capacidade de transporte em pistas não preparadas, lançamento aéreo, evacuação aeromédica e busca e salvamento (SAR). Em 2005 , seis empresas foram convidadas a participar da licitação para o fornecimento de 12 aeronaves leves de transporte, com elementos de suporte logístico. Três propostas foram apresentadas, e a vencedora foi a EADS CASA (atual Airbus Military), selecionada por oferecer a melhor relação custo-benefício e inclusão de compensações industriais, como transferência de tecnologia. Seriam encomendadas 12 células do CASA C-295M, com a primeira aeronave sendo recebida pelo  1º/9º GAv - Esquadrão Arara em 2007, neste momento restavam apenas quatro C-115 operacionais. Para deixar uma marca indelével como aeronave “insubstituível”, antes de sua retirada completa do serviço ativo, o último C-115 Búfalo em condições de voo em Manaus, realizou uma missão final digna de nota. Por causa da necessidade de ampliação de uma pequena pista de pouso existente na reserva indígena Raposa do Sol, em Roraima, seria foi montada uma verdadeira operação de guerra. Para realizar este trabalho, o único trator disponível da COMARA (Comissão de Aeroportos da Região Amazônica),  estava em uso na pista do Estirão no Equador na fronteira entre o Brasil e o Equador, aeródromo este não permitia o emprego dos Lockheed C-130H Hercules em razão de seu pequeno comprimento. Como a cabine de carga do recém-chegado CASA C-105 Amazonas não conseguia comportar o trator mesmo desmontado, não restava outra aeronave para cumprir aquela missão, assim o C-115 Búfalo tinha de voar. Desta maneira esta última célula foi submetida a uma ampla revisão e colocada em plenas condições de voo, realizando com primazia todos os trechos aéreos desta última missão, não apresentando uma pane sequer. Uma última aeronave, a pertencente ao Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMASP) seria mantida em operação até meados do ano de 2011.

Em Escala.
Para representarmos o De Haviland Canada C-115 Búffalo  “FAB 2367", fizemos uso do excelente kit em resina da Liberty Quality Kits, lançado em 2006, reconhecido pela sua alta qualidade e fidelidade ao design da aeronave. Este modelo foi selecionado para representar com precisão as características da aeronave.  Todo o compartimento de carga foi detalhado manualmente em scratch , utilizando materiais como plástico, resina e arames para replicar os elementos internos, como suportes, divisórias e acessórios. Fizemos uso de decais do confeccionados pela FCM Decals que compõe o set original do modelo.



O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o terceiro padrão de pintura empregado pelos De Haviland Canada C-115 Búfalo, com este sendo adotado em toda a frota a partir de meados da década de 1980. Originalmente as aeronaves foram recebidas com uma camuflagem verde e azul, similar as empregadas pelas aeronaves canadenses, com as células do  1º/1º Grupo de Transporte de Tropas (1º/1º GTT) e do 1º/15º Grupo de Aviação (1º/15ºGAv), adotando posteriormente um padrão de tático em verde e cinza, e por fim um outro padrão pintura de alta visibilidade na cor metálica e branco empregado temporariamente pelo 1º/9º Grupo de Aviação (1º/9º GAv).

Bibliografia :
- Revista ASAS nº 33 " DHC-5A Buffalo (C-115)  - Aparecido Camazano Alamino
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 por Jackson Flores Jr
- Revista Flap Internacional - " O incrível Buffalo" - http://www.revistaflap.com.br/web/noticias/noticias/4789-o-incrivel-buffalo

UC-40 Lockheed 12A Electra Junior

História e Desenvolvimento.
A Lockheed Aircraft Manufacturing Company, uma companhia norte-americana do setor aeronáutico, foi fundada em 1912 pelos irmãos Allan e Malcolm Lockheed, na cidade de San Diego, localizada no estado da Califórnia. Em seus primeiros anos, a empresa direcionou seus esforços para o desenvolvimento e a produção de aeronaves de pequeno porte, destinadas ao turismo e ao treinamento civil. Ao longo das décadas subsequentes, a organização experimentou um crescimento significativo em suas vendas, consolidando sua posição no mercado. No entanto, o encerramento da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, trouxe desafios consideráveis ao setor aeronáutico. A desmobilização de milhares de aeronaves militares, que passaram a ser subutilizadas e disponibilizadas no mercado global de aviação civil, saturou a demanda por novos equipamentos. Esse cenário desencadeou uma crise sem precedentes na comercialização de aeronaves, resultando no fechamento de diversas fabricantes, incluindo a Lockheed Aircraft Manufacturing Company. Diante desse contexto, os irmãos Lockheed decidiram suspender as operações da empresa e reorientar suas atividades empreendedoras para outros segmentos do mercado, buscando garantir sua sustentabilidade empresarial. Em 1926, Allan Lockheed uniu-se aos engenheiros John Northrop, Kenneth Kay e Fred Keeler para estabelecer um novo empreendimento. Com o apoio de investidores, o grupo conseguiu captar os recursos financeiros necessários para fundar a Lockheed Aircraft Company, com sede em Hollywood, Califórnia. A nova companhia aproveitou a tecnologia previamente desenvolvida para o Modelo S-1 como base para o projeto do Lockheed Vega, que se tornou seu primeiro modelo de destaque. O sucesso comercial foi alcançado em pouco tempo: em 1928, a empresa transferiu suas instalações para Burbank e, até o final daquele ano, alcançou um faturamento superior a um milhão de dólares. Nesse período, a produção atingiu a marca de centenas de aeronaves, com uma força de trabalho composta por mais de trezentos funcionários e uma linha de montagem capaz de concluir até cinco unidades por semana. Em julho de 1929, Fred Keeler, então acionista majoritário, negociou 87% das ações da empresa com a Detroit Aircraft Corporation, viabilizando a execução de um plano ambicioso de expansão. Contudo, a crise econômica conhecida como Grande Depressão, iniciada naquele mesmo ano, impactou severamente o setor aeronáutico, levando a Lockheed a uma situação de insolvência financeira. Em 1932, durante o processo de liquidação judicial, a companhia foi adquirida por um grupo de investidores liderado pelos irmãos Robert e Courtland Gross, em parceria com Walter Varney. Essa transação marcou o início de uma nova fase para a empresa, que conseguiu se recuperar ao longo daquela década, especialmente por meio do desenvolvimento de novas aeronaves, consolidando sua trajetória de resiliência e inovação no mercado aeronáutico.

Apesar dos desafios enfrentados, a Lockheed Aircraft Manufacturing Company conseguiu estabelecer rapidamente a confiança do mercado civil e comercial dos Estados Unidos, especialmente a partir de 1934, com o lançamento bem-sucedido do Modelo 10 Electra. Essa aeronave, caracterizada por uma estrutura totalmente metálica e capacidade para transportar até dez passageiros, foi desenvolvida inicialmente como uma resposta competitiva ao Boeing 247. Um marco notável nesse projeto foi a participação de Clarence Leonard "Kelly" Johnson, que sugeriu a incorporação de uma cauda dupla  uma inovação que se tornaria uma característica distintiva do fabricante. O Modelo 10 Electra destacou-se como um dos primeiros aviões comerciais de passageiros equipados com trem de pouso retrátil e guarda-lamas como itens padrão, embora esse acessório já fosse comum em aeronaves de trem de pouso fixo em períodos anteriores. A partir de outubro de 1943, uma regulamentação do governo norte-americano proibiu o uso de aeronaves monomotores para o transporte de passageiros em voos noturnos, o que posicionou estrategicamente a Lockheed no mercado com o Modelo 10 Electra, uma aeronave bimotora. Esse modelo alcançou expressivo sucesso comercial, sendo adotado por diversas companhias aéreas nacionais. Além disso, operadores europeus incorporaram o Electra às suas frotas, enquanto, na América Latina, a Cubana de Aviación tornou-se a primeira empresa da região a utilizá-lo em rotas domésticas. Em 1935, reconhecendo a necessidade de uma aeronave de menor porte voltada tanto para pilotos privados quanto para atuar como alimentadora das principais linhas de transporte aéreo (“feeder liner”), a Lockheed Aircraft Company iniciou o desenvolvimento de uma variante do Modelo 10 Electra, projetada para acomodar seis passageiros. Essa iniciativa foi motivada por uma solicitação do Escritório de Negócios do Ar (Bureau of Air Commerce), que convocou os fabricantes de aeronaves dos Estados Unidos a apresentarem projetos até 30 de junho de 1936. O resultado foi o Electra Junior 12A, uma aeronave de dimensões reduzidas em comparação ao seu antecessor, mas que preservava a configuração estrutural com asas baixas e derivas duplas  estas últimas ampliadas em tamanho. O Electra Junior 12A apresentava especificações técnicas notáveis: envergadura de 15,09 metros, comprimento de 11,07 metros, altura de 2,97 metros, superfície alar de 32,70 m² e pesos de 2.615 kg (vazio) e 3.924 kg (máximo). Equipada com dois motores radiais Pratt & Whitney Wasp Junior de nove cilindros e 450 HP cada, a aeronave alcançava uma velocidade máxima de 362 km/h a 1.525 metros de altitude, com uma razão de ascensão de 427 metros por minuto, teto de serviço de 6.980 metros e alcance de 1.290 km. Esses parâmetros de desempenho evidenciavam a capacidade da Lockheed em atender às demandas específicas do mercado, consolidando ainda mais sua reputação e influência no setor aeronáutico.
Assim como observado nos modelos Electra 10 e Boeing 247, a longarina da asa principal do Lockheed 12A Electra Junior atravessava a cabine de passageiros. Para facilitar a circulação interna, pequenos degraus foram instalados em ambos os lados da longarina. A cabine contava com um banheiro posicionado na parte traseira e apresentava inovações notáveis, como a inclusão de piloto automático. Dentre os diferenciais, destacavam-se as opções de acabamento interno, que incluíam divisórias, assentos estofados em pelúcia, sofá, banheiro, mesa e até mesmo uma máquina de escrever. A empresa oferecia diferentes níveis de acabamento, variando de configurações mais básicas a versões de alto luxo, com o objetivo de atender às diversas exigências de proprietários corporativos e privados. O protótipo inicial do Lockheed 12A Electra Junior, registrado sob a matrícula NX16052, realizou seu primeiro voo em 27 de junho de 1936, apenas três dias antes do prazo estipulado pelo governo norte-americano. Seus principais concorrentes, o Beechcraft Model 18 e o Barkley-Grow T8P-1, não conseguiram cumprir o cronograma estabelecido, o que levou o Escritório de Negócios do Ar (Bureau of Air Commerce) a declarar o modelo da Lockheed como vencedor da concorrência. A certificação oficial da aeronave foi emitida em 14 de outubro de 1936, e a primeira unidade foi entregue em 5 de setembro de 1937. Apesar do sucesso na competição governamental, o Lockheed 12A Electra Junior enfrentou resistência no mercado doméstico, sendo rejeitado pela maioria das companhias aéreas regionais, o que resultou em um número limitado de unidades comercializadas internamente. Seu principal operador nos Estados Unidos foi a Continental Air Lines, que utilizou uma frota de três aeronaves para operar a rota comercial entre Denver, no Colorado, e El Paso, no Texas, no final da década de 1930. Internacionalmente, a empresa inglesa British West Indian Airways Ltd. também adotou o modelo, operando-o em rotas nas Antilhas Menores, na região do Caribe, durante meados da década de 1940. Embora tenha enfrentado dificuldades para se estabelecer no setor de transporte comercial de passageiros, o Lockheed 12A Electra Junior encontrou seu nicho como aeronave executiva. Tornou-se particularmente popular entre empresas dos setores siderúrgico e petrolífero, bem como para o transporte de altos funcionários do governo norte-americano. Um dos exemplares mais célebres da história da aviação mundial foi adquirido pela Universidade Purdue, em West Lafayette, Indiana, para uso da aviadora Amelia Earhart. Esse avião, utilizado por Earhart em sua tentativa de circunavegação global, desapareceu sem deixar vestígios sobre o Oceano Pacífico em 3 de julho de 1937, marcando um capítulo enigmático na trajetória do modelo.

Conforme mencionado, o Lockheed 12A Electra Junior foi comercializado predominantemente para o governo norte-americano e para operadores privados. Contudo, sua versatilidade e desempenho também favoreceram sua adoção em contextos militares, sendo incorporado por diversas forças armadas ao redor do mundo. O primeiro contrato militar foi celebrado com o governo da Argentina, que adquiriu duas unidades para integrar sua aviação militar. Em seguida, a Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) encomendou dez aeronaves em 1937, enquanto o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) incorporou quatro exemplares sob a designação UC-40A, posteriormente ampliando sua frota com versões adicionais identificadas como UC-40B e UC-40D. Uma variante específica, designada Lockheed Model 212, foi desenvolvida para atender às necessidades do governo colonial das Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia). Projetada para funções de bombardeio leve e treinamento, essa versão apresentava oito suportes sob a fuselagem para bombas de até 100 libras, além de armamento defensivo composto por metralhadoras Browning calibre .30 instaladas no nariz e em uma torreta dorsal. O contrato previa a entrega de 16 aeronaves, com a primeira unidade sendo incorporada à Divisão Aérea do Exército das Índias Orientais Holandesas (Militaire Luchtvaart - MLu em 4 de fevereiro de 1939 e a última em 13 de maio de 1942. Durante a campanha do Pacífico, essas aeronaves participaram ativamente dos combates contra as forças japonesas, sendo, contudo, todas perdidas  seja em combate aéreo, seja destruídas em solo durante a invasão japonesa das Índias Orientais Holandesas. Na Europa, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o Electra Junior esteve envolvido em uma operação de natureza singular e estratégica. Três aeronaves de origem norte-americana  posteriormente registradas como G-AFTL, G-AFKR e G-AFPF foram adquiridas pelo governo do Reino Unido e formalmente vinculadas à British Airways Ltd. Apesar dessa designação civil, os aparelhos foram secretamente modificados em território britânico para desempenhar missões de reconhecimento aerofotogramétrico sobre a Alemanha Nazista. As adaptações realizadas incluíam a instalação de uma câmera vertical modelo F-24 no interior da cabine, tanques suplementares de combustível para ampliar a autonomia e uma cobertura em forma de bolha na janela lateral do piloto, destinada a melhorar a visibilidade durante as missões. Essas aeronaves foram empregadas na obtenção de imagens estratégicas de alvos sensíveis, como bases aéreas, instalações navais e complexos industriais, contribuindo de forma discreta, porém relevante, para o esforço de inteligência aliado nos momentos que antecederiam o conflito em larga escala  que se avizinhava no horizonte.
Para viabilizar a consolidação de um sistema eficaz de reconhecimento aéreo estratégico às vésperas da guerra, o serviço de inteligência britânico MI6 recrutou Frederick Sidney Cotton, figura singular que reunia as habilidades de inventor, fotógrafo e aviador. Cotton foi incumbido de organizar e liderar uma equipe altamente especializada, responsável pela operação de aeronaves Model 12A Electra Junior adaptadas para missões de reconhecimento fotográfico clandestino. Inserido no contexto de crescente tensão internacional que precedeu a Segunda Guerra Mundial, Cotton valeu-se de sua imagem pública como empresário abastado e aviador civil para encobrir suas atividades. Sob o pretexto de conduzir empreendimentos no setor cinematográfico, adotava identidades alternativas  como arqueólogo ou produtor em busca de locações , criando uma elaborada rede de dissimulação que lhe permitia operar com relativa liberdade em território europeu. Entre 1939 e os primeiros meses do conflito, foram realizados diversos voos de reconhecimento sobre a Alemanha, resultando na formação de um amplo e valioso acervo fotográfico. Essas imagens revelaram, com notável precisão, a infraestrutura industrial e militar do regime nazista, oferecendo subsídios fundamentais para o planejamento das primeiras operações aéreas aliadas contra alvos estratégicos alemães a partir do final de 1939. Mais do que o êxito imediato dessas missões, o legado de Cotton reside na consolidação do reconhecimento aéreo como instrumento indispensável da guerra moderna, evidenciando seu valor estratégico na coleta de informações e na condução de operações militares de larga escala. Com a intensificação das hostilidades, diversas aeronaves civis do modelo Model 12A Electra Junior foram requisitadas por forças armadas aliadas, incluindo o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), a Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), a Força Aérea Real Britânica (RAF) e a Força Aérea Real Canadense (RCAF) Embora o desempenho da aeronave em funções militares tenha sido considerado satisfatório, sua produção foi encerrada no início de 1941. Tal decisão refletiu a estratégia da Lockheed Corporation de concentrar seus recursos industriais no desenvolvimento e fabricação de aeronaves de combate mais avançadas, como o bombardeiro  A-28 Hudson e o P-38 Lightning. Em consequência, o segmento operacional anteriormente ocupado pelo Electra Junior passou a ser progressivamente dominado pelo Beechcraft Model 18, cuja produção atingiria milhares de unidades ao longo do conflito. Para além dos Estados Unidos, diversas nações  entre elas Argentina, Brasil, Canadá, Espanha, França Livre e Reino Unido  também empregaram variantes em funções militares. Em muitos casos, essas aeronaves permaneceram em serviço ativo até o início da década de 1960, atestando sua notável robustez, adaptabilidade e relevância em múltiplos contextos operacionais.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A partir de 1935, a Aviação Militar do Exército Brasileiro deu início a um abrangente programa de reequipamento, inserido em um contexto mais amplo de modernização das Forças Armadas nacionais no período prévio à Segunda Guerra Mundial. Tal iniciativa tinha como objetivo principal substituir uma frota já considerada obsoleta, ao mesmo tempo em que buscava suprir deficiências operacionais identificadas pelas autoridades militares da época. Entre as prioridades estabelecidas, destacava-se a urgente necessidade de modernização da aviação de transporte. Até então, essa vertente encontrava-se fortemente dependente de aeronaves monomotoras de pequeno porte, como os modelos Waco CJC, CPF-5 e CSO, introduzidos no país a partir de 1932. Embora esses aviões tivessem desempenhado papel relevante no apoio ao Correio Aéreo Militar (CAM), suas limitações tornavam-se cada vez mais evidentes, sobretudo no que se refere à capacidade de transporte de carga e de pessoal. Essa deficiência era particularmente sensível no deslocamento de autoridades militares e governamentais em missões pelo interior do país, onde a autonomia, a segurança e o conforto assumiam importância estratégica. Diante dessas restrições, tornou-se prática recorrente a utilização de aeronaves pertencentes a companhias brasileiras de transporte aéreo comercial para suprir demandas específicas de deslocamento oficial. Ainda que essa solução se mostrasse economicamente viável e operacionalmente conveniente no curto prazo, ela implicava perda de autonomia e gerava entraves logísticos que comprometiam a eficiência das operações militares. Nesse contexto, em 1937, as autoridades decidiram priorizar a aquisição de uma aeronave dedicada ao transporte de autoridades, tanto do Exército Brasileiro quanto do Governo Federal, que fosse capaz de atender de maneira mais adequada às exigências estratégicas dessa função. O processo de avaliação e seleção esteve a cargo da Diretoria de Aviação Militar (DIRMA), embora seus detalhes não tenham sido integralmente documentados. É plausível supor que, entre as alternativas analisadas, figurassem aeronaves já em operação no mercado nacional. Nesse cenário, o Lockheed Electra L-10  introduzido em 1937 na frota da Panair do Brasil  provavelmente despertou significativo interesse, em razão de seu desempenho e confiabilidade. Ainda assim, possivelmente por fatores de ordem econômica e operacional, a escolha final recaiu sobre o Lockheed Model 12A Electra Junior, uma variante de menor porte derivada do L-10, que oferecia um equilíbrio mais adequado entre custo, capacidade e versatilidade. Dessa forma, no segundo semestre de 1937, foi formalizado um contrato entre o governo brasileiro e a Lockheed Aircraft Company para a aquisição de duas unidades novas de fábrica do modelo. Essa decisão representou um marco significativo no processo de modernização da aviação de transporte militar brasileira, sinalizando uma transição gradual para meios aéreos mais eficientes, confiáveis e alinhados às demandas do período.

Após a conclusão dos ensaios técnicos e sua aceitação oficial por representantes da Aviação Militar do Exército Brasileiro nas instalações do fabricante, nos Estados Unidos, as duas aeronaves Model 12A Electra Junior foram desmontadas e embarcadas com destino ao Brasil por via marítima. Ao chegarem ao porto do Rio de Janeiro, na primeira semana de outubro de 1937, os caixotes contendo os aparelhos foram encaminhados à região da Ponta do Galeão, onde se localizavam as instalações da Escola de Aviação Naval (EAvN), responsáveis pela remontagem das aeronaves. Concluída essa etapa, as unidades foram transferidas para o Campo dos Afonsos, que viria a consolidar-se como o principal centro de operação do modelo nos anos subsequentes. A partir de então, os aparelhos passaram a ser empregados de forma intensiva em missões de transporte de autoridades, função para a qual haviam sido prioritariamente adquiridos. Posteriormente, as aeronaves foram subordinadas à Diretoria de Aviação Militar, órgão que, no contexto das reestruturações institucionais do período, seria futuramente redesignado como Diretoria de Aeronáutica do Exército. Inicialmente, a responsabilidade por sua guarda e manutenção coube à Escola de Aviação Militar; entretanto, já em 1938, essa atribuição foi transferida ao 1º Regimento de Aviação, refletindo a crescente operacionalização e demanda por esses meios aéreos. Uma vez plenamente operacionais, os  Model 12A Electra Junior passaram a atender, de forma regular, às necessidades de deslocamento de autoridades militares e de diversos setores do governo federal, incluindo o então Presidente da República, Getúlio Vargas. Entre os aviadores designados para operá-los, destacou-se o então Capitão Nero Moura, que anos mais tarde alcançaria notoriedade ao comandar o 1º Grupo de Aviação de Caça. Essas aeronaves estabeleceram um marco na aviação brasileira ao constituírem os primeiros meios aéreos especificamente destinados ao transporte de autoridades. Nesse papel, realizaram voos regulares conectando o Rio de Janeiro às principais capitais das regiões Sul e Sudeste, além de atenderem localidades estratégicas em outras partes do território nacional. Após aproximadamente dois anos de operação bem-sucedida, tornou-se evidente a necessidade de ampliação da frota, em virtude da crescente demanda por esse tipo de serviço. Assim, ao final de 1939, foi formalizada a encomenda de mais 02 células do modelo junto à Lockheed Aircraft Company, sendo estas recebidas nos Estados Unidos em fevereiro de 1940. Na sequência, às vésperas da criação do Ministério da Aeronáutica (MAer), em janeiro de 1941, celebrou-se um terceiro contrato para a aquisição de mais quatro aeronaves, as quais foram trasladadas em voo até o Brasil, chegando ao país em abril do mesmo ano. Esse processo contínuo de expansão da frota evidencia o reconhecimento, por parte das autoridades brasileiras, da importância estratégica do Lockheed Model 12A Electra Junior no contexto das operações de transporte oficial, consolidando seu papel como elemento fundamental na estrutura de mobilidade aérea do Estado brasileiro naquele período.
Embora Getúlio Vargas mantivesse preferência por deslocamentos ferroviários e marítimos no território nacional, durante este período em especifico, o presidente brasileiro e sua comitiva  manteve uma agenda relativamente ativa de deslocamentos dentro do território nacional, com os “Lockheedinhos” representando os principais meios aéreos disponíveis para transporte presidencial entre 1937 e 1940. Seriam assim utilizados com frequência em viagens oficiais, sobretudo entre o então Distrito Federal, o Rio de Janeiro, e capitais como São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. Também serviram para deslocamentos a regiões estratégicas, incluindo inspeções administrativas, eventos políticos e visitas a obras de infraestrutura. Embora não seja possível quantificar com precisão o número de voos, a literatura especializada indica que o uso foi regular e recorrente, e não episódico. Com a criação do Ministério da Aeronáutica (MAer), em janeiro de 1941, as quatro unidades do Lockheed Model 12A Electra Junior então em operação foram incorporadas ao acervo da recém-estabelecida Força Aérea Brasileira (FAB). Essa nova força armada resultou da fusão dos meios materiais e humanos da Aviação Militar do Exército e da Aviação Naval, representando um marco na reorganização da aviação militar brasileira. Posteriormente estas aeronaves receberiam as matriculas FAB 2656 á 2659. Em abril deste mesmo ano seriam recebidas mais 04 células (FAB 2660 a 2663), elevando a forta para oito aeronaves, que se manteriam dedicadas, em um primeiro momento, às missões de transporte de autoridades, incluindo o Presidente da República. Tal configuração permaneceu até 1942, quando a seria incorporada um célula do Lockheed Lodestar L-18-08, designado VC-66, especialmente configurado para o transporte presidencial. A partir de então, os Electra Junior  popularmente conhecidos como “Lockheedinhos” deixaram de ser empregados no deslocamento do chefe de Estado, embora continuassem a desempenhar funções regulares sob a subordinação direta da Seção de Aviões de Comando (SAC). A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1942, introduziu mudanças substanciais no emprego dessas aeronaves. Desde o final de 1939, já se observava um esforço gradual de reforço das unidades aéreas nas regiões Norte e Nordeste, com o duplo objetivo de expandir as operações do Correio Aéreo Militar e assegurar uma presença dissuasória ao longo do litoral brasileiro diante das tensões internacionais crescentes. Entretanto, no decorrer de 1942, tornou-se evidente que a costa brasileira havia se transformado em uma zona de interesse estratégico direto, especialmente em razão da intensificação das ações de submarinos do Eixo contra a navegação mercante. Diante desse cenário, a Força Aérea Brasileira (FAB) ampliou significativamente suas atividades de vigilância e patrulhamento, consolidando uma presença aérea mais robusta ao longo do litoral. 

Nesse contexto, emergiu a necessidade de estabelecer um sistema ágil e eficiente de ligações aéreas entre a capital federal, então o Rio de Janeiro, e os principais quartéis-generais das zonas aéreas distribuídas pelo território nacional. Com a progressiva incorporação de aeronaves mais modernas, como o Lockheed VC-60 Lodestar ao longo de 1942, tornou-se possível redistribuir parte dos Lockheed Model 12A Electra Junior para bases estratégicas em caráter semipermanente. Dessa forma, localidades como Florianópolis, Natal e Recife passaram a contar com a presença desses vetores aéreos, que desempenharam papel relevante no apoio logístico, no transporte de pessoal e na coordenação das operações militares durante o conflito. Essa redistribuição operacional evidencia a capacidade de adaptação da Força Aérea Brasileira (FAB) às exigências impostas pelo contexto de guerra, otimizando o emprego de seus recursos disponíveis e reforçando a importância estratégica dos meios de transporte aéreo na articulação e sustentação das operações militares em escala nacional.

As aeronaves Lockheed Model 12A Electra Junior foram distribuídas às diferentes Zonas Aéreas sob um regime de empréstimo, permanecendo à disposição dos respectivos quartéis-generais. Nesse contexto, sua utilização revelou-se particularmente versátil, extrapolando as funções originalmente previstas de transporte de autoridades e pessoal. À medida que as demandas operacionais se intensificavam, esses aparelhos passaram a desempenhar missões adicionais, adaptando-se às necessidades específicas de cada região. Um caso emblemático ocorreu na 2ª Zona Aérea, com sede em Recife, onde os Electra Junior foram frequentemente empregados em missões de patrulha visual ao longo do litoral. Tal emprego tornou-se especialmente relevante entre a segunda metade de 1942 e o início de 1943, período em que a Força Aérea Brasileira (FAB) ainda dispunha de meios limitados especificamente voltados para esse tipo de operação. Nesse cenário, a utilização desses aviões evidenciou não apenas sua flexibilidade operacional, mas também sua importância no esforço de vigilância costeira durante a Segunda Guerra Mundial. Com o término do conflito, em maio de 1945, as unidades que haviam sido destacadas para bases fora da capital federal retornaram ao Rio de Janeiro, sendo reintegradas à Seção de Aviões de Comando, então sediada no atual Aeroporto Santos Dumont. Todavia, a introdução de aeronaves mais modernas, como o Lockheed C-60 Lodestar  incorporado em maior número durante a guerra , bem como do Lockheed Lodestar 18-10-01 VC-66, contribuiu para a gradual redução da relevância dos “Lockheedinhos” nas missões de transporte executivo para militares e autoridades civis. A frota, originalmente composta por oito aeronaves, foi reduzida a sete em decorrência de um acidente ocorrido em 1944. Em 1946, esses aviões passaram por um processo de reclassificação administrativa conduzido pela Diretoria de Material de Aeronáutica (DIRMA), que instituiu um novo sistema de matrículas e lhes atribuiu a designação oficial UC-40. Ainda assim, permaneceram subordinados à Seção de Aviões de Comando (SAC), sendo eventualmente disponibilizados para atender às demandas de grandes comandos militares. Essa configuração operacional manteve-se, em linhas gerais, ao longo dos anos subsequentes. Mesmo após a transformação da Seção de Aviões de Comando (SAC) no Esquadrão de Transporte Especial (ETE), em maio de 1954, os Lockheed Model 12A Electra Junior continuaram em operação dentro dessa nova estrutura. Tal longevidade evidencia não apenas a robustez do projeto, mas também sua notável capacidade de adaptação às sucessivas demandas institucionais, consolidando sua trajetória ao longo de quase duas décadas de serviço na Força Aérea Brasileira (FAB).
A incorporação de um número expressivo de aeronaves de transporte Douglas C-47 Skytrain ao longo da década de 1950 marcou o declínio definitivo do Lockheed Model 12A Electra Junior como vetor destinado ao transporte de autoridades no âmbito da Força Aérea Brasileira (FAB). Dotados de maior capacidade, autonomia e robustez, os novos aviões passaram a atender de forma mais eficiente às crescentes demandas logísticas e operacionais da Aeronáutica. Nesse contexto, os “Lockheedinhos” foram progressivamente redirecionados para funções de caráter utilitário, sendo empregados em missões de apoio a diversas unidades da Força Aérea Brasileira (FAB). Àquela altura, a frota já havia sido reduzida a quatro aeronaves, número que, em 1960, decresceu para apenas três células em condições operacionais, em decorrência do desgaste natural e da crescente obsolescência do modelo. A limitação quantitativa somava-se a dificuldades logísticas cada vez mais significativas, sobretudo no que se refere à obtenção de peças de reposição  uma vez que a produção do Electra Junior havia sido encerrada havia quase duas décadas. Diante desse cenário, a Diretoria de Material da Aeronautica (DIRMA) deliberou pela desativação e posterior alienação das aeronaves remanescentes, então designadas sob a classificação UC-40. Esse processo foi formalizado no primeiro trimestre de 1963, quando as três unidades ainda em serviço foram definitivamente retiradas das operações ativas. Na sequência, as células foram disponibilizadas para alienação por meio de concorrência pública. Como desfecho, duas dessas aeronaves foram adquiridas por operadores civis no Rio de Janeiro e São Paulo, permanecendo em atividade até o final da década de 1960. Encerrava-se, assim, a trajetória do Lockheed Model 12A Electra Junior no contexto brasileiro, após mais de duas décadas de serviço, período no qual o modelo desempenhou papel relevante tanto na consolidação do transporte aéreo militar quanto na evolução da aviação de apoio às atividades governamentais no pais. 

Em Escala.
Para representarmos o Lockheed 12A Electra Junior “D.A.E01” da Aviação Militar do Exército Brasileiro, empregamos como base o antigo kit produzido pela Williams Bross na escala 1/53, salientando ser necessário um amplo processo de conversão, pois o modelo representa a versão Lockheed Electra 10. Apesar não termos atingindo um resultado satisfatório a conversão serviu a contento para podemos agregar uma tão rara aeronave ao nosso acervo nas cores nacionais. Empregamos uma combinação entre o set especial de decais produzidos pelo modelista Rafael Pinheiro Machado, em conjunto com itens confeccionados pela FCM decais.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura empregado pelos Lockheed 12A Electra Junior, quando em uso pela Aviação Militar do Exército Brasileiro. Após sua transferência ao Ministério da Aeronáutica (MAer) em 1941 estas aeronaves tiveram como alteração básica apenas a retirada das marcações “Exército”, posteriormente seriam aplicados mais dois tipos de esquemas de pintura, seguindo ao longo das décadas de 1950 e 1960 o mesmo padrão aplicado nas aeronaves de transporte da Força Aérea Brasileira (FAB).

Bibliografia :
- Lockheed 12A Electra Junior - Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_Model_12_Electra_Junior
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015  por Jackson Flores Junior
- História da Força Aérea Brasileira, Prof. Rudnei Dias Cunha  -http://rudnei.cunha.nom.br

TBM-3E Grumman Avenger


História e Desenvolvimento.
Leroy Randle Grumman, nascido em 12 de janeiro de 1895, em Huntington, Nova York, foi uma figura seminal na história da aviação norte-americana, cuja visão e determinação moldaram o desenvolvimento de aeronaves navais que marcaram época. Desde jovem, Grumman demonstrou um profundo interesse pela engenharia e pela aviação, um entusiasmo que o levou a ingressar na prestigiada Cornell University, onde se graduou em engenharia mecânica em 1916. Após a conclusão de seus estudos, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) já estava em curso, e Grumman, movido por um senso de dever, alistou-se na Reserva Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy). Seu talento natural e aptidão técnica foram rapidamente reconhecidos por seus superiores, que o encaminharam para um curso especializado em motores aeronáuticos na Universidade Columbia, em Nova York. Após completar essa formação, Grumman foi transferido para a Estação Naval de Miami (Naval Air Station Miami), na Flórida, onde recebeu treinamento intensivo como piloto. Sua dedicação e habilidade o levaram a se tornar instrutor de voo na mesma unidade, orientando jovens cadetes na arte e na ciência da aviação naval. Posteriormente, Grumman assumiu a função de piloto de bombardeio, destacando-se por sua competência e precisão em todas as missões a ele confiadas. O desempenho excepcional de Grumman rendeu-lhe uma indicação honrosa para ingressar no renomado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde concluiu um curso de engenharia aeronáutica com distinção. Após sua formação, ele passou a atuar como piloto de ensaios em voo, desempenhando um papel crítico na avaliação e recebimento de novas aeronaves para a Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy). Essa experiência aprofundou seu conhecimento técnico e reforçou sua paixão por projetar aeronaves inovadoras. Em março de 1927, Grumman deixou o serviço militar para ingressar na Loening Aeronautical Engineering Corporation, uma empresa especializada na fabricação de aeronaves anfíbias. Nessa nova fase, ele retomou as atividades de piloto de testes, ao mesmo tempo em que colaborava no desenvolvimento de projetos de aeronaves anfíbias, acumulando valiosa experiência em design, manutenção e operação. Sua passagem pela Loening foi um marco em sua carreira, fornecendo-lhe o conhecimento e a confiança necessários para dar um passo ousado: a fundação de sua própria empresa. Em 1929, Leroy Grumman, ao lado de um pequeno grupo de parceiros, estabeleceu a Grumman Aircraft Engineering Corporation, inicialmente focada na manutenção e revisão de aeronaves fabricadas pela Loening, que ainda estavam em serviço na Aviação Naval.  As receitas geradas por esses serviços permitiram que Grumman investisse em projetos próprios, marcando o início de uma nova era para a empresa. 

Em 1931, o primeiro protótipo do caça naval Grumman FF-1, conhecido como "Fifi", realizou seu voo inaugural. Equipado com um trem de pouso retrátil – uma inovação significativa para a época, o FF-1 chamou a atenção das autoridades navais norte-americanas, resultando na assinatura de um contrato de produção que consolidou a reputação da empresa. A invasão da Polônia pelas forças alemães em setembro de 1939, e as ameaças do expansionismo japonês no sudeste asiático, despertariam preocupações junto ao governo norte-americano, levando a aceleração dos processos de modernização e fortalecimento de suas forças armadas. Neste contexto a aviação naval seria priorizada, levando ao desenvolvimento de uma série de projetos, no entanto o  início das hostilidades entre os Estados Unidos e o Império do  Japão em 7 de dezembro de 1941 com o ataque surpresa as instalações norte-americanas em Pearl Harbour no Havaí, e as demais investidas japonesas no Pacífico Sul, traria ao comando de defesa norte-americano uma visão emergencial sobre a necessidade de se desenvolver novos vetores de combate. Esta decisão se daria pela análise de que as aeronaves em uso até então, se mostraram obsoletas ou inadequadas face as possíveis ameaças das forças do Império do Japão, apresentadas em cenários hipotéticos estudados antes de 1940, que seriam dolorosamente confirmados nos eventos que seguiram ao início das hostilidades. Neste momento, a Marinha dos Estados Unidos (US Navy) enfrentou desafios significativos no teatro de operações do Pacífico, particularmente com o desempenho insatisfatório de suas aeronaves torpedeiras. Um exemplo notável foi o Douglas TBD Devastator, que, apesar de ter sido uma aeronave inovadora em sua introdução na década de 1930, revelou-se obsoleta nos primeiros confrontos contra as forças japonesas A baixa velocidade, vulnerabilidade a ataques inimigos e armamento limitado do TBD tornaram clara a necessidade urgente de substituição por um modelo mais avançado e eficaz. Esse contexto acelerou o desenvolvimento de novos projetos aeronáuticos, com foco em aeronaves capazes de atender às exigências do combate naval moderno. Nesse cenário, a Grumman Aircraft Engineering Corporation, já reconhecida por sua excelência na produção de caças navais, como o F4F Wildcat, foi contratada em meados de 1940  para desenvolver um novo avião torpedeiro embarcado de grande porte. O projeto, que resultaria no icônico Grumman TBF Avenger, foi concebido para ser operado por uma tripulação de três membros – piloto, artilheiro e operador de rádio – e tinha como requisitos fundamentais baixo custo de aquisição e operação, facilidade de produção em larga escala e robustez estrutural para suportar as duras condições de operações embarcadas em porta-aviões. 
O contrato estipulava um prazo rigoroso para a entrega de dois protótipos, refletindo a urgência imposta pelo contexto bélico. Para cumprir esse desafio, os engenheiros da Grumman adotaram uma abordagem pragmática, utilizando como base o conceito aerodinâmico do recém-desenvolvido caça embarcado Grumman F4F-3 Wildcat, que já havia demonstrado confiabilidade e desempenho em combate. Essa decisão estratégica não apenas acelerou o processo de desenvolvimento, mas também promoveu a comunalidade de componentes entre o TBF Avenger e o F4F Wildcat, simplificando a logística de manutenção e o suprimento de peças de reposição. A padronização de elementos como sistemas de trem de pouso retrátil e certas partes estruturais reduziu custos e otimizou os processos de produção, permitindo que a Grumman respondesse rapidamente às demandas.  O primeiro voo do protótipo, designado XTBF-3, ocorreu em 7 de agosto de 1941, marcando o início de uma nova era na aviação naval. A aeronave estava equipada com o potente motor radial Wright R-2600-8 Cyclone, capaz de gerar 1.700 cavalos de potência, conferindo à aeronave uma combinação notável de velocidade e capacidade de carga. Projetado para uma tripulação de três membros – piloto, artilheiro e operador de rádio –, o Avenger possuía um longo canopy envidraçado que acomodava os tripulantes em configuração tandem, proporcionando excelente visibilidade. Seu armamento defensivo incluía uma metralhadora Browning calibre .50 montada no lado direito do capô do motor, uma Browning calibre .30 instalada em um corte ventral na fuselagem inferior e outra metralhadora calibre .50 alojada em uma torre dorsal elétrica giratória, garantindo uma robusta capacidade de autodefesa contra caças inimigos. Os dois protótipos subsequentes do XTBF-3 foram submetidos a um rigoroso programa de testes e avaliação conduzido pela Marinha dos Estados Unidos (US Navy), que buscava uma aeronave capaz de superar as limitações do obsoleto Douglas TBD Devastator. Os resultados foram extremamente promissores, demonstrando avanços significativos em desempenho, robustez e versatilidade em comparação com os modelos então em serviço. Esses testes culminaram na homologação do XTBF-3 pela comissão técnica da Aviação Naval, pavimentando o caminho para sua produção em larga escala. No segundo semestre de 1941, foi celebrado o primeiro contrato de produção, prevendo a entrega de 268 aeronaves, um marco que refletiu a confiança dos militares no potencial do novo modelo. As primeiras células seriam entregues as unidades operativas  baseadas em terra, entre os meses de janeiro e março de 1942, iniciando assim a formação da doutrina operacional da aeronave. 

A Batalha de Midway marcou a primeira oportunidade de emprego operacional do Avenger, com seis unidades do TBF-1 designadas ao Esquadrão de Torpedos 8 (VT-8), baseado em terra na ilha de Midway. Essas aeronaves, recém-chegadas, ainda não haviam sido totalmente integradas aos porta-aviões, e seus pilotos tinham experiência limitada com o modelo, o que aumentou os desafios de sua estreia. Na manhã de 4 de junho de 1942, os seis TBF Avengers do VT-8 decolaram de Midway para atacar a frota japonesa, composta por quatro porta-aviões, incluindo o Akagi e o Kaga. Cada Avenger carregava um torpedo Mark 13, projetado para atingir navios inimigos. Contudo, a missão enfrentou condições adversas: os TBFs operaram sem escolta de caças, enfrentando uma forte defesa antiaérea e caças japoneses Mitsubishi A6M Zero, conhecidos por sua agilidade e poder de fogo. O resultado foi trágico: cinco dos seis Avengers foram abatidos, e apenas um retornou à base, gravemente danificado. O único sobrevivente, pilotado pelo alferes Albert K. Earnest, conseguiu retornar apesar de múltiplos danos, com o artilheiro ferido e o operador de rádio morto, demonstrando a resistência do projeto do Avenger. Embora o desempenho inicial do TBF Avenger em Midway tenha sido marcado por perdas significativas, o resultado da batalha não refletiu o verdadeiro potencial da aeronave. A falta de coordenação tática, a ausência de escolta de caças e a inexperiência das tripulações com o novo modelo contribuíram para o desfecho desfavorável. Nos meses seguintes, melhorias táticas, treinamento aprimorado e a integração dos Avengers aos porta-aviões resultaram em desempenhos mais favoráveis.  Na campanha das Ilhas Salomão, iniciada com o desembarque aliado em Guadalcanal em 7 de agosto de 1942, os Avengers foram empregados em uma variedade de papéis, enfrentando condições operacionais adversas e a forte resistência japonesa. Durante a Batalha do Mar de Coral e, posteriormente, na campanha de Guadalcanal – parte integrante das operações nas Ilhas Salomão –, os TBF Avengers operaram a partir de porta-aviões como o USS Enterprise e o USS Hornet, além de bases terrestres, como o aeródromo de Henderson Field, em Guadalcanal, capturado pelos fuzileiros navais norte-americanos. Essas aeronaves foram fundamentais em missões de ataque a comboios navais japoneses, que buscavam reforçar suas posições nas ilhas. Um exemplo marcante ocorreu durante a Batalha Naval de Guadalcanal, entre 12 e 15 de novembro de 1942, quando Avengers do Esquadrão de Torpedos 10 (VT-10) e outras unidades lançaram ataques contra navios de transporte e belonaves japonesas, incluindo o encouraçado Hiei. Apesar de enfrentarem intensa defesa antiaérea e caças Mitsubishi A6M Zero, os Avengers conseguiram infligir danos significativos, contribuindo para a interrupção do reforço japonês em Guadalcanal. Além de ataques diretos, os TBF Avengers desempenharam papéis cruciais em missões de patrulha e guerra antissubmarino, protegendo comboios aliados e monitorando os movimentos da frota japonesa.
A primeira versão  TBF-1 Avenger atingiria a cifra de 1.500 células produzidas, sendo sucedido pelo novo TBF-1C, que apresentava melhor capacidade de combustível e inclusão de duas metralhadoras Browning calibre.50 nas asas para autodefesa. Esta variante receberia contratos de aquisição totalizando 775 unidades, entre elas algumas centenas destinadas a Marinha Real Britânica (Royal Navy) designadas como TBF-1B. Já as variantes produzidas pela Eastern Aircraft alcançariam o total de quinhentos e cinquenta células do TBM-1 e  duas mil trezentos e trinta seis da versão TBF-1C A estas variantes se seguiriam novas versões contemplando uma série de melhorias, culminando na variante final,  o  TBM-3 que em 1944 que passava a contar com um motor mais potente, cabides subalares para foguetes não guiados ou tanques suplementares, com este representando o modelo mais produzido da família, totalizando 4.600 células entregues. Ao todo seriam produzidas  9.839  unidades até fins de 1945, dispostas em 22 variantes, entre elas, torpedeiro, bombardeio, ataque noturno, transporte, antissubmarino, alerta aéreo antecipado e reboque de alvos. Seu piloto mais famoso, seria o futuro presidente norte-americano George H. W. Bush, que operava embarcado junto ao porta aviões de escolta USS San Jacinto (CVL-30). No teatro de operações europeu, estas aeronaves teriam grande participação na campanha contra os submarinos alemães no oceano Atlântico, principalmente a serviço da Marinha Real (Royal Navy), operando as versões Avenger Mk I, Mk II e Mk III.  Durante o período pós-guerra, inúmeras versões do Avenger seriam desenvolvidas com base na conversão de aeronaves já produzidas, das quais se destacam com maior relevância,  a TBM-3E e TBM-3E2 (equipadas com radar AN/APS-4 em um “pod” subalar), TBM-3S e TBM-3S2 (versões modificadas dos TBM-3E  e TBM-3E2 para guerra antissubmarino - ASW) e TBM-3W e TBM-3W2 (equipadas com radar de busca sob a fuselagem); os TBM-3W e TBM-3S.  Estas últimas eram utilizadas normalmente em pares “hunter-killer”, sendo o “W” empregado na busca de submarinos e o “S” na destruição dos mesmos, sendo empregadas pela Marinha dos Estados Unidos  (US Navy) e Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (US Marine Corps) até meados da década seguinte, quando começaram a ser substituídas por aeronaves mais modernas. Ainda dentro dos programas de “Mutual Defense Assistance Program” (Programas de Assistência de Defesa Mútua), centenas destas células seriam transferidas a nações alinhadas aos interesses geopolíticos dos Estado Unidos. Desta maneira aeronaves de diversas versões da família  TBM-TBF Avenger seriam cedidas as forças armadas da  Holanda, Cuba, Brasil, Canada, Nicarágua, França, Japão, Nova Zelândia e Uruguai.  Muitas aeronaves remanescentes também seriam largamente convertidas para o uso civil principalmente como aeronaves destinadas da pulverização de lavouras e combate a incêndios, com algumas células em operação até os dias atuais. 

Emprego na Marinha do Brasil.
A Aviação Naval Brasileira teve seu marco inicial em 23 de agosto de 1916, com a criação da Escola de Aviação Naval, estabelecida no contexto da Primeira Guerra Mundial, quando o Brasil buscava modernizar suas forças armadas e acompanhar os avanços tecnológicos da época. Este primeiro ciclo foi caracterizado pelo desenvolvimento inicial de capacidades aeronáuticas voltadas para operações marítimas, com foco em hidroaviões e treinamento de pilotos navais. Contudo, esse período foi interrompido em 20 de janeiro de 1941, pelo Decreto-Lei nº 2.961, promulgado durante o governo de Getúlio Vargas. O decreto unificou as aviações do Exército e da Marinha na recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), sob o comando do recém instituído Ministério da Aeronáutica. A medida refletia uma tendência internacional de centralização do poder aéreo, inspirada em modelos como a Força Aérea Real ( Royal Air Force britânica), e visava otimizar recursos e padronizar operações aéreas no Brasil. Como resultado, a Marinha perdeu sua capacidade operacional aérea, marcando o fim do primeiro ciclo de sua aviação. O segundo ciclo da Aviação Naval Brasileira teve início em 26 de agosto de 1952, com o Decreto nº 31.472, que criou a Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM). Este marco representou o esforço da Marinha para recuperar sua capacidade aeronáutica, em um contexto de crescente reconhecimento da importância estratégica de uma aviação naval autônoma. Inicialmente, a DAerM enfrentou desafios significativos, como a ausência de aeronaves, pilotos e infraestrutura adequada. Nesse período, a prioridade foi a formação de observadores aeronavais (OAN) e a preparação para a aquisição de equipamentos, com foco inicial em aeronaves de asas rotativas. Este processe seria acelerado quando em 12 de dezembro de 1956, o Governo Federal Brasileiro em conjunto com Ministério da Marinha, após uma série de negociações, procederia formalmente a aquisição de um porta-aviões leve britânico classe Colossus, o HMS R-71 Vengeance. Este navio aeródromo apresentava um deslocamento padrão de 19.900 toneladas era um veterano da Segunda Guerra Mundial, tendo atuado nos teatros de operações do Mediterrâneo e do Pacífico.  Após o término do conflito, este navio seria arrendado à Marinha Real Australiana (Royal Australian Navy), pelo período compreendido entre o dia 13 de novembro de 1952 a 13 de agosto de 1955, sendo assim devolvido ao governo britânico e colocado à disposição para venda. Após sua aquisição pelo governo brasileiro, este porta aviões seria encaminhado em meados do ano de 1957, aos estaleiros da empresa holandesa Verolme United Shipyard, na cidade de Rotterdam, a fim de ser submetido a um extenso programa de modernização e atualização. Seguindo o cronograma de reativação da Aviação Naval, seriam adquiridas as primeiras aeronaves de asas rotativas, do modelo  Westland Widegon WS-51, marcando o inicio das operações. Esses helicópteros representaram um avanço significativo, permitindo maior flexibilidade em missões de reconhecimento, busca e salvamento, e apoio logístico em ambientes marítimos. 

Contudo, a Marinha do Brasil reconhecia a necessidade de expandir suas capacidades para incluir aeronaves de asas fixas, essenciais para missões de treinamento, patrulha e combate. No início da década de 1960, o Ministério da Marinha lançou um ambicioso programa de reativação da Aviação Naval, abordando não apenas a aquisição de aeronaves, mas também a estruturação organizacional, a formação de pessoal, o desenvolvimento de infraestrutura. Paralelamente o navio aeródromo brasileiro emergiria do processo de modernização em dezembro de 1960,  ostentando a adição de convés de voo em ângulo a 8,5°, catapulta e sistema de parada otimizados, novos elevadores, nova ilha, sistemas de operação e eletrônica e atualização de sistema defensivo. Após a conclusão dos trabalhos de doca, o navio passaria a ser submetido a provas no mar, neste processo estava incluso a avaliação dos sistemas de catapultagem e recolha de aeronaves, sendo empregados para isto aeronaves turboélices Fairey Gannet e caças Hawker Sea Hawk da Marinha Real (Royal Navy). Recomissionado em 6 de dezembro de 1960 como Navio-Aeródromo Leve (NAeL) “Minas Gerais” (A-11), o navio passaria a ser a nau capitania da Marinha do Brasil. Neste contexto ainda não havia estudos reais sobre as opções de aeronaves de asas fixas e rotativas a serem adquiridas, assim as  comissões da Marinha do Brasil nos Estados Unidos e na Europa iniciaram negociações para a aquisição de aviões e helicópteros que se destinavam a equipar o grupo aéreo embarcado. Apesar do navio ser de origem britânica, todo o treinamento e sua consequente doutrina operacional seria baseada nos moldes da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), mediante um acordo firmado anteriormente entre os governos brasileiro e norte-americano. No entanto, o período que antecedeu as provas de mar do Minas Gerais mostrou que seria imprescindível contar com instrumentos que pudessem permitir treinar e depois manter adestradas as equipes responsáveis pelos muitos trabalhos realizados com aeronaves no convés de voo. Entre as alternativas existentes, a melhor seria a utilização de uma aeronave obsoleta mas com todos os seus sistemas funcionando, inclusive o motor. É neste momento que tem início a efêmera história dos Grummam TBM-3E/E2 Avenger na Marinha do Brasil, pois como citado o processo de treinamento da tripulação do Navio-Aeródromo Leve (NAeL) “Minas Gerais” (A-11) seria completo, envolvendo o processo de movimentação e hangaragem de aeronaves.  É neste momento que tem início a efêmera história dos Grummam TBM-3E/E2 Avenger na Marinha do Brasil, pois como citado o processo de treinamento da tripulação  navio-Aeródromo  seria completo, envolvendo o processo de movimentação e hangaragem de aeronaves. 
Nesta época várias aeronaves  TBM-3 do Serviço Aéreo da Real Marinha Holandesa (RNethN) estavam sendo desativadas e de acordo com os termos da aquisição previstos no programa “Mutual Defense Assistance Program” (Programas de Assistência de Defesa Mútua), estas deveriam ser assim devolvidas aos Estados Unidos ou destruídas no localmente com comprovação fotográfica. Um terceiro destino seria criado pelo Verolme United Shipyard, que  passou a intermediar uma negociação entre as partes envolvendo uma doação de um lote destas aeronaves, para fins de treinamento de manobra em convés de voo.  Não se sabe com exatidão como se processou a aquisição de cinco células do  TBM-3E Avenger, salvo o fato de que foram oficialmente entregues às autoridades da Marinha.No entanto curiosamente, apenas três destas aeronaves receberiam matrículas brasileiras; e destes dois restantes, uma célula apesar de ser oficialmente transferida,  não seria fisicamente entregue, sendo descartado e sucateado em uma base aeronaval daquele país. Quanto a quinta célula não existem registros sobre seu destino final, mas nunca seria realmente incorporadas. Existem ainda relatos de que uma das aeronaves recebidas pela Marinha do Brasil, pertenceria ao modelo TBM-3S Avenger, sendo oriundo da Aviação Naval Francesa (Aéronavale), mas não existem registros franceses (conforme contatos com a Association pour la Recherche de Documentation sur l’Histoire de l’Aéronautique Navale) que atestem sua transferência a Marinha do Brasil. Informações extra oficias informam que outras tres células (como os números de série BuAer 85930, 86174 e 85543) teriam sido recebidos no Brasil desmontadas em caixas, porém esta afirmação para ser  inverossímeis, já que pelo menos o BuAer 85930 foi aquela aeronave destruída como sucata, mencionada anteriormente. As aeronaves recebidas, o TBM-3E2 BuAer 53142 foi aceito pela US Navy em 3/05/45; transferido para  a Royal Navy  29/9/53, matrícula XB378; convertido AS.5 por SAL Prestwick Junho/54; descarregado em 28/3/58; transferido Marinha Real Holandesa em 19/02/58 para emprego como rebocador de alvo; descarregado em 08/2/61; transferido Marinha do Brasil: 25/7/60, matriculado 1 e depois N-501. Já o TBM-3E BuAer 53604 com data de aceitação na (US Navy em 8/06/45; transferido para a Royal Navy em 29/9/53, matrícula XB385; convertido AS.5 por SAL Prestwick Junho/54; descarregado em 28/3/58; transferido Marinha Holandesa  em 19/2/58, ; transferido Marinha do Brasil em 25/07/60, matriculado 3 e depois N-503; descarregado Marinha Holandesa 30/7/60. A última aeronave  TBM-3E BuAer 85549 com data de aceitação na  US Navy em  24/02/45; transferido  para a Royal Navy a bordo do HMS Perseus em 4/05/53, matrícula XB445; convertido AS.5 por SAL Prestwick Novembro/53; descarregado em 28/3/58; transferido Marinha Real Holandesa em 17/3/58; descarregado em 25/07/60; sendo transferido para a Marinha do Brasil:  25/7/60, matriculado 2 e depois N-502. 

Durante a entrega oficial da primeira célula, o TBM-3E2 Avenger BuAer 53142 em 25 de julho de 1960, um oficial do Serviço Aéreo da Real Marinha Holandesa (RNethN)., ministrou aos brasileiros todas as técnicas para o emprego da aeronave, tais como sistemas mecânicos, elétricos e hidráulicos, bem como taxiamento, recolhimento das asas e alinhamento na catapulta e hangaragem. Havia no entanto uma solicitação por parte do governo norte-americano que estas aeronaves não fossem empregadas em voo, embora tivessem condições de fazê-lo. Durante os treinamentos na Holanda, estas aeronaves eram “roladoas” pelo convés de vôo até a velocidade de decolagem, porém abortando o processo logo em seguida. Reza a lenda ainda, que ao final deste treinamento, este mesmo oficial holandês fazendo uso de ferramentas apropriadas retirou os parafusos do sistema das asas dobráveis, dizendo em seguida “de acordo com ordenado, três aeronaves sem condições de voo entregues perfeitamente”. E assim que ele se retirou do navio, os tripulantes brasileiros trataram logo de recolocar os parafusos em seu devido lugar.  Após a chegada do NAeL Minas Gerais (A-11) ao Brasil, foi possível dar atenção ao minucioso processo de formação do pessoal destinado a compor as equipes de manobra. Conquanto esse trabalho já havia sido realizado entre aqueles que acompanharam o Minas Gerais desde sua saída da Holanda, era necessário realizar o adestramento das equipes e reciclar aquelas já formadas, uma atribuição do Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN). A intenção original era que ao menos um dos Avengers  fosse entregue àquele Centro, mantendo outro exemplar a bordo do Minas Gerais. Para atender a esse planejamento e visto que os três TBM-3E se encontravam em condições de voo, ficou decidido que eles fariam uma decolagem livre (isto é, sem o uso da catapulta) do NAeL Minas Gerais e voariam para São Pedro da Aldeia, a nova sede do CIAAN. No entanto, em 1º de setembro de 1961, logo após livrar o convoo de voo daquele navio-aeródromo, o TBM-3E N-502 perdeu sustentação e caiu no mar ao largo do litoral do estado do Rio de Janeiro. Por sorte, seu piloto escapou ileso do acidente, mas ficou decidido que a ida até o Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN) dos demais  Grumman TBM Avenger se daria através de desembarque e posterior transporte por via terrestre. Em consequência, um desses aviões foi assim encaminhado para São Pedro da Aldeia e lá passou a fazer parte do inventário do Destacamento Especial de Aeronaves do CIAAN. Por sua vez, o outro TBM foi mantido a bordo do Minas Gerais, lá permanecendo até o primeiro trimestre de 1963. Durante esse período, os TBM-3E foram continuamente empregados como instrumentos de instrução, quer em terra quer embarcados. Porém, mesmo envidando esforços para manter todos os sistemas.
Na década de 1960, a Aviação Naval da Marinha do Brasil enfrentava desafios significativos para manter em operação suas últimas duas aeronaves Grumman TBM-3 Avenger, herança de um período em que a força desempenhava um papel ativo com aeronaves de asas fixas. Apesar dos esforços meticulosos da equipe de manutenção, que incluíam revisões gerais dos motores Wright R-2600-20 de 1.900 cavalos de potência, a conservação de ambas as células – identificadas como N-501 e N-503 – tornou-se uma tarefa árdua devido à escassez de peças e ao desgaste natural acumulado ao longo de anos de serviço. Em um esforço para prolongar a operacionalidade, o TBM-3 N-503 foi desmontado para servir como fonte de peças de reposição, garantindo que o TBM-3 N-501 permanecesse em condições de voo. Este último recebeu um esquema de pintura de alta visibilidade, em branco com detalhes em vermelho-alaranjado, destacando sua presença em terra. Embora os TBM Avengers fossem projetados para operações embarcadas, as tensões institucionais entre a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira (FAB) impediram seu uso a bordo do porta-aviões brasileiro, o NAeL Minas Gerais, adquirido em 1956. Em vez disso, os voos foram realizados a partir da Base Aeronaval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA), no Rio de Janeiro, onde os aviões desempenhavam funções limitadas, principalmente em treinamento e missões de ligação. Essa situação refletia um contexto mais amplo de disputas entre os Ministérios da Marinha e da Aeronáutica, que competiam pelo controle das operações com aeronaves de asas fixas no Brasil. A crise institucional alcançou seu ápice em 26 de janeiro de 1965, com a promulgação do Decreto Presidencial nº 55.627, assinado pelo presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. Este instrumento extinguiu oficialmente a aviação naval de asas fixas da Marinha do Brasil, transferindo a responsabilidade por tais operações exclusivamente para a FAB. Como parte do decreto, toda a estrutura de aeronaves, peças de reposição, materiais e pessoal da Aviação Naval deveria ser incorporada à FAB. Contudo, nem todas as aeronaves foram aceitas pelo Ministério da Aeronáutica. O TBM-3 N-501, a última unidade em condições de voo, foi mantido temporariamente sob os auspícios da Força Aeronaval, embora sua utilidade para o Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN) e para a Aviação Naval em geral fosse considerada nula. Nesse contexto, em 1965, a Marinha decidiu excluir ambas as células de seu inventário. O TBM-3 N-501 foi desmontado e vendido como sucata, encerrando sua trajetória operacional. Já o TBM-3 N-502 encontrou um destino diferente: foi preservado como monumento no centro recreativo da Casa do Marinheiro, localizado na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, onde outrora funcionara a primeira sede do CIAAN. Infelizmente, essa preservação foi temporária, e entre 1974 e 1975, a aeronave também foi desmantelada e transformada em sucata, encerrando a história dos TBM Avengers no Brasil.

Em Escala.
Para representarmos o Grumman TBM-3E Avenger "N-502" da Aviação Naval da Marinha do Brasil, fizemos uso do excelente kit da Hobby Boss na escala 1/48, que além de ser extremamente detalhado, possibilita a montagem da aeronave com as asas dobradas para a hangaragem. Para se adequar a versão operada pela Marinha do Brasil é necessário suprimir o posto do metralhador ventral da aeronave. Empregamos decais confeccionados pelo fabricante FCM Decals presentes no antigo set 48/07. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura original da Marinha Real Holandesa (RNethN), ou seja, midnight blue em toda superfície, incluindo cubos e caixas de rodas e spinner da hélice, substituindo-se somente os cocares holandeses pelos da nossa aviação naval nas quatro posições das asas. Posteriormente receberam o mesmo esquema aplicado nas aeronaves de treinamento da Aviação Naval (Pilatus, Taylorcraft e CAP-4), todo branco brilhante, leme de direção azul,amarelo e verde, cowling do motor, pontas das asas e cubo de rodas em vermelho alaranjado.

Bibliografia :
-  Grumman Avenger  - Wikipédia http://en.wikipedia.org/wiki/Grumman_TBF_Avenger
-  Grumman/General Motors Avenger TBM-3 - http://www.naval.com.br
-  Avenger , o Classico Naval Anonimo no Brasil – Rogério Terlizzi Revista Asas Nº 7
 Aeronaves Militares Brasileiras 1916 á 2015 - Jackson Flores Jr Action Editora.