T-24 Fouga CM170-2 Super Magister


História e Desenvolvimento.
No início da década de 1920, o visionário empreendedor francês Gaston Fouga fundou, na região de Béziers, no sul da França, uma empresa inicialmente voltada para a fabricação de implementos rodoviários. Contudo, foi somente em 1936 que a Fouga et Cie, mais tarde conhecida como Fouga Aviation, deu um passo decisivo ao ingressar no setor aeronáutico, marcando o início de uma trajetória que a consolidaria como um nome relevante na aviação francesa. Esse marco foi impulsionado pela contratação do engenheiro aeronáutico Pierre Mauboussin, cuja expertise foi adquirida durante anos de trabalho na Société des Ateliers d'Aviation Louis Bréguet, uma das principais empresas aeronáuticas francesas da época. Junto a Mauboussin, a Fouga recrutou uma equipe de técnicos altamente qualificados provenientes da mesma empresa, fortalecendo sua capacidade de inovação. Outro nome de destaque que se uniu à Fouga foi o renomado engenheiro Robert Castello, cuja experiência foi forjada na Construções Aéronautiques Émile Dewoitine, uma concorrente de peso no mercado aeronáutico. A liderança conjunta de Mauboussin e Castello foi fundamental para o sucesso da empresa, e muitos dos projetos mais emblemáticos da Fouga receberam a designação “CM” (Castello-Mauboussin), em reconhecimento à colaboração entre esses dois pilares técnicos. Sob sua direção, a empresa desenvolveu uma série de aeronaves inovadoras, combinando criatividade técnica com soluções práticas para atender às demandas da aviação militar e civil. Durante a Segunda Guerra Mundial, com a ocupação alemã da França (1940-1944), as instalações da Fouga em Béziers foram requisitadas pelas forças ocupantes para a produção de componentes aeronáuticos, interrompendo temporariamente suas atividades no desenvolvimento de aeronaves próprias. A retomada plena de suas operações no setor aeronáutico ocorreu apenas após o fim do conflito, a partir de 1948, quando a empresa lançou modelos que marcaram sua reentrada no mercado. Entre esses projetos, destacam-se os planadores Fouga CM.8 e Fouga CM.10, que demonstraram a capacidade da empresa em desenvolver aeronaves leves e eficientes. Além disso, a Fouga introduziu a aeronave experimental Fouga CM.88 Gemeaux, um birreator inovador que combinava duas fuselagens do CM.8 unidas por uma seção de asa, com lemes dispostos em uma configuração em “V” que formava um “W”. Outro marco foi o Fouga CM.100, que consolidou a expertise da empresa em projetos avançados. Nesse período, a Fouga Aviation imergiu na tecnologia de motores a reação, uma área de vanguarda na aviação pós-guerra. A empresa passou a utilizar planadores motorizados como plataformas de teste para turbinas a jato, com o objetivo de desenvolver aeronaves de treinamento avançado para as Forças Armadas Francesas. Um dos resultados mais notáveis desse esforço foi o Fouga CM.8R.13 Sylphe, que realizou seus primeiros voos em 1949. Esse planador, equipado com uma turbina “Piméné” de 85 kgf de potência instalada acima da asa, apresentava uma cauda em “V” e uma configuração que remetia ao jato alemão Heinkel He 162 Salamander, utilizado nos estertores da Segunda Guerra Mundial. 

O Sylphe representou um passo significativo na transição da Fouga para o desenvolvimento de aeronaves a jato, pavimentando o caminho para projetos ainda mais ambiciosos, como o icônico Fouga CM.170 Magister, que se tornaria um dos treinadores a jato mais bem-sucedidos da história. Na década de 1950, a Força Aérea Francesa (Armée de l’Air, AdA) enfrentava a necessidade premente de modernizar seu programa de formação de pilotos, buscando substituir os obsoletos treinadores básicos a pistão Morane-Saulnier MS.475, que já não atendiam às exigências de uma aviação militar em rápida evolução. Nesse contexto, a AdA lançou um edital para o desenvolvimento de uma aeronave que combinasse as funções de treinamento básico e intermediário, oferecendo maior eficiência e adequação às tecnologias emergentes da aviação a jato. Em resposta a essa demanda, a Fouga Aviation, uma empresa francesa com sólida reputação no setor aeronáutico, sob a liderança dos renomados engenheiros Robert Castello e Pierre Mauboussin, apresentou o projeto do treinador a jato CM.130R. O CM.130R, inspirado no design do planador Fouga CM.8, incorporava uma característica distintiva: a cauda em “V”, que conferia estabilidade e eficiência aerodinâmica. Equipada com dois motores a reação Turbomeca Palas, a aeronave prometia atender às necessidades da AdA. No entanto, os testes iniciais revelaram que a potência limitada das turbinas Palas comprometia o desempenho, levando à reprovação do modelo. Esse revés, longe de desanimar a equipe da Fouga, impulsionou um retorno à prancheta, com o objetivo de desenvolver uma aeronave mais robusta e capaz. Do empenho técnico de Castello e Mauboussin surgiu o Fouga CM.170 Magister, uma evolução significativa do conceito original. Embora mantivesse a icônica cauda em “V”, o novo modelo era de maior porte e incorporava os avançados motores turbojato Turbomeca Marboré, cada um com 880 libras de empuxo, proporcionando o desempenho necessário para as missões de treinamento. Aprovado o conceito, a Força Aérea Francesa celebrou, em 1951, um contrato com a Fouga Aviation para a construção de três protótipos do CM.170 Magister. O primeiro voo do protótipo ocorreu em 23 de maio de 1952, marcando um momento pivotal na história da empresa e da aviação militar francesa. Para avaliar diferentes configurações, o segundo protótipo foi equipado com uma empenagem convencional, permitindo uma comparação direta com a cauda em “V”. Os ensaios em voo confirmaram a superioridade da configuração original, que oferecia melhor estabilidade e manobrabilidade, levando à decisão de manter a cauda em “V” no terceiro protótipo e nos modelos subsequentes. Após um rigoroso programa de testes, pequenas melhorias foram implementadas, culminando na versão final do MMC.170 Magister. Em novembro de 1953, a confiança no projeto resultou em um contrato para a produção de um lote inicial de dez aeronaves de pré-produção, destinadas à Força Aérea Francesa (Armée de l’Air, AdA).
Com a entrega de todas as unidades do lote de pré-produção do Fouga CM.170 Magister até outubro de 1955, a Força Aérea Francesa (Armée de l’Air, AdA) deu início à consolidação de uma nova doutrina operacional para o treinamento de seus pilotos. O Magister, projetado pela Fouga Aviation sob a liderança dos engenheiros Robert Castello e Pierre Mauboussin, destacou-se rapidamente como uma ferramenta indispensável na formação de aviadores, combinando simplicidade, confiabilidade e desempenho em um treinador a jato de concepção inovadora. Sua versatilidade e características técnicas avançadas fizeram dele um marco na modernização da aviação militar francesa no período pós-Segunda Guerra Mundial. Antes mesmo da conclusão da entrega do lote inicial, a confiança no projeto levou a Força Aérea Francesa a celebrar, em 13 de janeiro de 1954, um novo contrato com a Fouga Aviation para a aquisição de 95 aeronaves adicionais. Esse pedido visava substituir os obsoletos treinadores a jato norte-americanos Lockheed T-33A Thunderbird, que, embora eficazes em seu tempo, já não atendiam plenamente às necessidades de instrução intermediária da AdA. Para atender a essa demanda significativa, a Fouga Aviation inaugurou uma nova linha de montagem em Toulouse-Blagnac, integrada a um moderno complexo industrial recém-construído, consolidando sua capacidade de produção em larga escala. As aeronaves foram distribuídas principalmente para duas instituições-chave da formação de pilotos franceses: a École de l’Air (Escola do Ar), em Salon-de-Provence, voltada para a formação de oficiais, e a École de Chasse (Escola de Caça), em Versalhes, focada no treinamento de pilotos de combate. Além de seu papel como treinador, o Fouga CM.170 Magister alcançou notoriedade ao ser adotado pela prestigiosa esquadrilha acrobática Patrouille de France, que utilizou a aeronave em suas demonstrações aéreas, destacando sua agilidade e confiabilidade em voos acrobáticos. O sucesso operacional do Magister deveu-se, em grande parte, às suas características técnicas cuidadosamente projetadas. Equipado com dois motores turbojato Turbomeca Marboré, cada um gerando 880 libras de empuxo, a aeronave oferecia o que os pilotos descreviam como “a segurança de um jato bimotor com características de voo de um monomotor”. A proximidade dos motores à linha central da fuselagem minimizava o impulso assimétrico em caso de falha de uma das turbinas, proporcionando um importante recurso de segurança para uma aeronave de treinamento. A simplicidade operacional também era um diferencial: o Magister exigia um número mínimo de procedimentos antes da decolagem, facilitando o aprendizado e a operação pelos cadetes.

O projeto do Magister priorizava a funcionalidade e o conforto. A cabine, climatizada e espaçosa, era equipada com aviônicos avançados para a época, incluindo sistemas de rádio de alta frequência (VHF), bússola de rádio e outros equipamentos compatíveis com os padrões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Comandos, alavancas, interruptores e mostradores foram dispostos de forma ergonômica, garantindo fácil visualização e acesso. Os pedais ajustáveis e com amplos limites de tolerância, aliados a uma cabine de fácil acesso, tornavam a aeronave prática para instrutores e alunos. Para compensar a visibilidade limitada no assento traseiro, geralmente ocupado pelo instrutor, um periscópio foi integrado ao projeto. Já o assento dianteiro, reservado ao aluno, oferecia excelente visibilidade externa, aprimorando a consciência situacional durante o treinamento. A introdução do Fouga CM.170 Magister representou um avanço significativo na formação de pilotos da Força Aérea Francesa, consolidando a transição para a era dos jatos no treinamento militar. Sua combinação de segurança, simplicidade e desempenho não apenas atendeu às necessidades da Força Aérea Francesa (Armée de l’Air, AdA) , mas também garantiu seu sucesso em mercados internacionais, com exportações para diversas forças aéreas ao redor do mundo.  O desempenho excepcional do Fouga CM.170 Magister em serviço com a Força Aérea Francesa (Armée de l’Air) consolidou sua reputação como um treinador a jato de referência, atraindo a atenção de outras forças militares, incluindo a Força Aeronaval Francesa (Aéronavale). Reconhecendo o potencial da aeronave para operações embarcadas, a Aéronavale encomendou o desenvolvimento de uma versão navalizada, designada Fouga CM.175 Zéphyr. Essa variante incorporava modificações específicas, como um gancho de parada para operações em porta-aviões e um trem de pouso reforçado, adequado às exigências de pousos e decolagens em ambientes navais. Ao todo, 32 unidades do Zéphyr foram produzidas, com o primeiro protótipo apresentado ao público durante o Paris Air Show, em maio de 1957. A Aéronavale confirmou a aquisição de 30 células, consolidando o modelo como um ativo essencial para o treinamento de pilotos navais. Paralelamente, a Fouga Aviation continuou a aprimorar o projeto original, resultando no desenvolvimento do Fouga CM.170-2 Super Magister. Essa versão introduziu melhorias significativas, com destaque para a adoção dos motores turbojato Turbomeca Marboré VI, que ofereciam 1.058 libras de empuxo cada, conferindo maior potência e versatilidade operacional. O Super Magister foi projetado para operar em pistas não preparadas, graças ao trem de pouso reforçado, e expandiu seu papel além do treinamento básico e intermediário. Equipado com duas metralhadoras de 7,5 mm instaladas no nariz, cada uma com caixas de munição contendo 200 balas, e quatro pontos duros subalares capazes de carregar lançadores de foguetes não guiados ou até duas bombas de 110 libras, o Super Magister também podia atuar em missões de apoio aéreo aproximado e treinamento armado. Essa capacidade multifuncional destacou a aeronave como uma plataforma versátil, adaptável a diferentes cenários operacionais.
O Fouga CM.170 Magister foi pioneiro ao ser a primeira aeronave do mundo projetada especificamente como um treinador a jato, um marco que garantiu seu sucesso global. Sua combinação de simplicidade, confiabilidade e desempenho atraiu o interesse de diversas forças aéreas, resultando em contratos de fornecimento com países como Áustria, Bélgica, Líbano e Líbia. O sucesso internacional do Magister também levou à sua produção sob licença em nações como Alemanha, Finlândia e Israel, onde a aeronave foi fabricada localmente para atender às necessidades específicas de suas forças armadas. Essas versões licenciadas reforçaram a influência do projeto no cenário aeronáutico global, adaptando-se às particularidades de cada operador. A produção do Fouga CM.170 Magister e suas variantes, inicialmente conduzida pela Etablissements Fouga et Cie., foi posteriormente assumida por empresas como Potez Aéronautique e Sud Aviation, em meio às reorganizações da indústria aeronáutica francesa na década de 1960. Até o encerramento da produção, em 1969, aproximadamente 916 unidades haviam sido fabricadas, um testemunho do impacto duradouro do projeto. O Magister não apenas modernizou o treinamento de pilotos em diversas nações, mas também deixou um legado como uma das aeronaves mais emblemáticas de sua era, simbolizando a inovação técnica e a excelência da indústria aeronáutica francesa. Além de desempenhar o seu papel como aeronave de treinamento, o CM-170 Magister equipou diversas equipes militares de demonstração aérea, notoriamente a Patrouille de France, o esquadrão francês de demonstração aérea.  Além de tarefas de treinamento armado, o Fouga CM-170 Magister, se mostrou um eficiente vetor de ataque leve, como foi comprovado pela Força Aérea Israelense (Zroa HaAvir VeHahalal) durante a Guerra dos Seis Dias (1967). Armados com metralhadoras leves, foguetes de pequeno calibre e bombas, esses minúsculos jatos lograram destruir mais de cinquenta tanques em território egípcio, um feito que seus projetistas Pierre Mauboussin e Robert Castello jamais poderiam imaginar que seria alcançado por um produto saído de suas pranchetas de desenho. Estas aeronaves ainda veriam açao real também durante a Guerra Civil Salvadorenho, a Guerra do Saara Ocidental e a Crise do Congo. Muitas células desativadas pertencentes a Força Aérea Francesa (Armée de l'Air, AdA), seriam adquiridos por vários pilotos proprietários privados norte-americanos, sendo empregados na categoria experimental. Ao todo estas aeronaves operariam junto as forças armadas da Argélia, Áustria, Alemanha, Bangladesh, Bélgica, Brasil, Camarões, El Salvador, Finlândia, França, Gabão, Guatemala, Irlanda, Líbano, Líbia, Marrocos, Senegal e Israel, com as aeronaves desta última nação sendo retirados de serviço somente em 2020.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
O Esquadrão de Demonstração Aérea (EDA), popularmente conhecido como “Esquadrilha da Fumaça”, constitui uma das mais tradicionais e respeitadas unidades de demonstração acrobática do mundo, desempenhando, ao longo de décadas, um papel fundamental na projeção institucional da Força Aérea Brasileira e na aproximação desta com a sociedade. As origens da Esquadrilha remontam à década de 1940, em um contexto de consolidação da aviação militar brasileira no pós-Segunda Guerra Mundial. Na então Escola de Aeronáutica (EAer), localizada na Base Aérea dos Afonsos, instrutores de voo passaram a realizar, de maneira espontânea e durante seus períodos de folga, exercícios de acrobacia em formação. Essas práticas tinham como objetivo não apenas o aprimoramento técnico, mas também o estímulo moral e motivacional dos cadetes, configurando o embrião do que viria a ser a futura esquadrilha. Gradualmente, essas iniciativas informais evoluíram para apresentações estruturadas. Utilizando inicialmente aeronaves de treinamento North American T-6 Texan, os pilotos executavam manobras clássicas de precisão, como loopings e tonneaux, inicialmente com duas aeronaves. Com o aperfeiçoamento das técnicas e a análise criteriosa das apresentações em solo, o número de aviões em formação foi ampliado para três e, posteriormente, quatro, evidenciando o crescente nível de coordenação e disciplina operacional do grupo. O marco inaugural das atividades oficiais ocorreu em 14 de maio de 1952, quando foi realizada a primeira demonstração para uma comitiva estrangeira. A partir desse momento, consolidou-se a vocação da unidade como instrumento de representação institucional. No ano seguinte, em 1953, buscando aprimorar a visibilidade das manobras, as aeronaves foram adaptadas com tanques de óleo para a geração de fumaça, recurso que não apenas ampliou o impacto visual das apresentações, mas também deu origem ao emblemático apelido “Esquadrilha da Fumaça”. Nesse período, destacou-se ainda a histórica inscrição da sigla “FAB” nos céus de Copacabana, episódio que reforçou o vínculo simbólico entre a Força Aérea Brasileira  e a população. Em 1955, diante da crescente demanda por exibições aéreas, a Esquadrilha adquiriu estrutura própria, passando a operar com um grupo dedicado de aeronaves T-6, dotadas de pinturas e distintivos exclusivos. Nesse contexto, consolidou-se sua função como vetor de comunicação social da Força Aérea Brasileira, ampliando significativamente sua presença em diferentes regiões do país e no exterior. O contínuo aperfeiçoamento técnico e a ampliação do repertório acrobático levaram, em 1963, ao reconhecimento formal da unidade como a “Unidade Oficial de Demonstrações Acrobáticas da Força Aérea Brasileira”. À época, destacava-se como a única no mundo a realizar exibições com aeronaves de configuração convencional, característica que manteve até 1969. Nesse mesmo ano, em consonância com as transformações estruturais do ensino aeronáutico no Brasil, a antiga Escola de Aeronáutica foi elevada à condição de Academia da Força Aérea (AFA) e transferida para o município de Pirassununga, no estado de São Paulo, onde passou a sediar definitivamente a Esquadrilha da Fumaça.

Desde meados da década de 1960, o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) já identificava a iminente obsolescência dos treinadores North American T-6 Texan e AT-6, aeronaves que, apesar de sua comprovada robustez e confiabilidade, aproximavam-se do limite de sua vida útil operacional. Inserido em um contexto mais amplo de modernização das forças armadas, impulsionado pelos avanços tecnológicos da aviação no período pós-guerra, esse cenário tornou imperativa a busca por uma nova plataforma capaz de atender, com maior eficiência, às crescentes demandas do treinamento aéreo militar. Com esse propósito, a Força Aérea Brasileira (FAB) promoveu uma concorrência internacional, avaliando diferentes propostas de aeronaves de treinamento avançado. Dentre as opções analisadas, destacou-se o Cessna T-37C, que demonstrou superioridade ao atender à maior parte dos requisitos técnicos estabelecidos pelo Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer). Além de suas qualidades operacionais, a proposta apresentada pela Cessna Aircraft Company incluía condições comerciais particularmente favoráveis, fator que contribuiu decisivamente para sua escolha como o novo treinador avançado. A incorporação dessas aeronaves teve início em 1967, representando um marco significativo no processo de modernização do ensino aeronáutico no Brasil. Paralelamente, a renovação dos meios aéreos da Esquadrão de Demonstração Aérea também passou a ser considerada, uma vez que a unidade ainda operava os veteranos T-6D Texan. Inicialmente, cogitou-se a adoção do próprio T-37C, sobretudo pelo fato de que, nos Estados Unidos, esse modelo já era empregado em apresentações acrobáticas. Contudo, análises operacionais mais aprofundadas evidenciaram que o T-37C não atendia plenamente às exigências específicas de desempenho e manobrabilidade requeridas pela Esquadrilha da Fumaça, o que inviabilizou sua utilização nesse contexto. Ainda assim, manteve-se o objetivo de dotar a unidade com aeronaves a jato, alinhando-a às tendências internacionais das equipes de demonstração aérea. Essa oportunidade concretizou-se com a desativação dos jatos executivos Morane-Saulnier MS-760 Paris, que foram posteriormente negociados com o governo da França. Parte dos recursos obtidos nessa transação foi destinada à aquisição de um lote de Aérospatiale CM-170-2 Super Magister. O Super Magister, já consagrado no cenário internacional e amplamente empregado por diversas equipes acrobáticas, destacava-se por suas excelentes qualidades de voo, notadamente sua pilotagem dócil e elevada manobrabilidade  características essenciais para demonstrações de precisão. Ademais, apresentava relativa simplicidade de manutenção, favorecida pela semelhança de diversos sistemas com os do MS-760 Paris, recentemente retirado de serviço. Essa compatibilidade técnica contribuiu significativamente para uma transição mais eficiente, consolidando o Super Magister como uma escolha estratégica tanto para a Força Aérea Brasileira (FAB) quanto para a evolução operacional da Esquadrilha da Fumaça.
Em setembro de 1968, o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer)  formalizou a aquisição do Aérospatiale CM-170-2 Super Magister, ao assinar o contrato que representaria um passo decisivo no processo de modernização dos meios de demonstração aérea da Força Aérea Brasileira (FAB). Tal iniciativa inseria-se em um contexto mais amplo de atualização tecnológica e doutrinária, alinhando o Brasil às práticas adotadas por outras forças aéreas que já empregavam aeronaves a jato em exibições acrobáticas. Ainda em 1968, com o objetivo de assegurar uma transição eficiente para o novo vetor, três oficiais aviadores brasileiros foram enviados à cidade de Salon-de-Provence, tradicional centro de formação da aviação militar francesa. Sob a supervisão do 312 Groupement d’Instruction, esses pilotos realizaram um curso de adaptação operacional em conjunto com integrantes da Patrouille de France, que à época também operava o CM-170-2 Magister. A conclusão bem-sucedida desse treinamento assegurou o domínio inicial da nova aeronave e estabeleceu bases sólidas para sua futura operação no Brasil. As sete aeronaves encomendadas foram entregues em duas etapas ao longo de 1969: cinco unidades chegaram por via marítima no primeiro trimestre, enquanto as duas restantes foram recebidas ao final daquele ano. As aeronaves iniciais, destacadas por um vistoso esquema de pintura nas cores verde, amarelo, azul e branco  concebido pelo publicitário uruguaio Eddie Moyna , foram montadas no Campo dos Afonsos, com o apoio técnico do fabricante e do Parque de Aeronáutica dos Afonsos. Esse processo marcou a efetiva incorporação das aeronaves ao ambiente operacional brasileiro. O primeiro voo do Super Magister em território nacional ocorreu em 21 de março de 1969, constituindo um marco relevante na história da aviação militar brasileira. Pouco tempo depois, em 18 de abril, a Esquadrão de Demonstração Aérea realizou sua primeira apresentação pública com os novos jatos, evidenciando suas qualidades de desempenho e contribuindo para reforçar o prestígio institucional da Força Aérea Brasileira (FAB) perante a sociedade. Em 23 de abril do mesmo ano, as aeronaves foram oficialmente incorporadas como bens do Ministério da Aeronáutica, sendo administrativamente vinculadas ao Quartel-General da 3ª Zona Aérea, embora disponibilizadas para emprego exclusivo da Esquadrilha da Fumaça em suas atividades. Designado pela Força Aérea Brasileira (FAB) como T-24 e amplamente conhecido pelo apelido “Fouga”, o CM-170-2 Super Magister destacou-se por suas excelentes características de voo, especialmente no que se refere à manobrabilidade e à facilidade de pilotagem  atributos particularmente valorizados em demonstrações acrobáticas de precisão. Contudo, sua operação também evidenciou limitações relevantes, notadamente sua autonomia restrita, estimada em cerca de oitenta minutos em perfil típico de demonstração aérea, o que impunha condicionantes significativas ao planejamento e à execução das missões.

A incorporação do Aérospatiale CM-170-2 Super Magister, designado T-24 pela Força Aérea Brasileira (FAB), representou um avanço significativo na evolução operacional da Esquadrão de Demonstração Aérea (EDA), ao introduzir o emprego de aeronaves a jato em suas apresentações. Todavia, essa modernização também evidenciou limitações estruturais e operacionais que impactaram diretamente o alcance e a flexibilidade de suas atividades. Por se tratar de uma aeronave a jato, o T-24 demandava a utilização de pistas pavimentadas, requisito que, no contexto brasileiro da década de 1960, restringia consideravelmente sua operação fora dos grandes centros urbanos, onde tal infraestrutura ainda era limitada. Essa condição, associada à sua autonomia de voo relativamente reduzida  cerca de 80 minutos em perfil típico de demonstração , impôs severas restrições ao planejamento logístico e à frequência das apresentações. Como consequência, regiões tradicionalmente atendidas desde o início das atividades da esquadrilha, em 1952, quando operava o North American T-6 Texan, tornaram-se progressivamente menos acessíveis, especialmente no interior das regiões Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil. Outro aspecto crítico residia na ausência de assentos ejetáveis nas aeronaves adquiridas  um recurso disponibilizado pelo fabricante, mas que não foi incorporado à configuração adotada pela Força Aérea Brasileira (FAB). Tal limitação assumia maior gravidade diante das características do próprio projeto do Super Magister, notadamente sua empenagem em “V”, que dificultava o abandono seguro da aeronave por meios convencionais, elevando substancialmente os riscos em situações de emergência. Ainda assim, a elevada confiabilidade do equipamento, aliada ao elevado nível de preparo técnico e à disciplina operacional dos pilotos, contribuiu para mitigar tais vulnerabilidades, permitindo a continuidade das operações sem registros de incidentes relevantes. Apesar dessas restrições, o T-24 destacou-se por suas qualidades em voo, sobretudo no que se refere à manobrabilidade e ao desempenho, características que proporcionaram à Esquadrilha da Fumaça a execução de apresentações mais dinâmicas e visualmente impactantes. Ao todo, o CM-170-2 participou de 46 demonstrações aéreas, concentradas majoritariamente na região Sudeste. Essas exibições, com duração média entre 30 e 45 minutos, evidenciavam um repertório acrobático refinado, que incluía manobras como loopings, parafusos, o “break” (separação rápida da formação), o “desfolhado”, tonneau reverso, além de formações simbólicas como o “coração” e a “bomba”. Ademais, essas apresentações ficaram marcadas por elementos sensoriais distintivos, como o característico som sibilante dos motores a jato e, sobretudo, pela introdução do uso de fumaça colorida  nas cores verde, amarelo, azul e branco , recurso empregado pela primeira vez pela Esquadrilha da Fumaça. Tal inovação contribuiu significativamente para ampliar o impacto visual das demonstrações, conferindo-lhes maior apelo junto ao público e consolidando uma identidade estética que se tornaria, posteriormente, uma das marcas registradas da unidade.
A introdução do Aérospatiale CM-170-2 Super Magister, representou um momento de inflexão na trajetória da Esquadrão de Demonstração Aérea (EDA). Ao incorporar uma aeronave a jato em suas apresentações, a unidade passou a refletir, de forma mais evidente, os avanços tecnológicos da aviação militar no contexto da segunda metade do século XX. Em comparação com seus antecessores, como o North American T-6 Texan e o AT-6, o T-24 destacava-se por sua maior velocidade, desempenho e capacidade de executar manobras com maior fluidez e dinamismo, atributos que conferiam às demonstrações um caráter mais moderno e visualmente impactante. Durante as exibições aéreas, o Super Magister impressionava o público não apenas por sua agilidade, mas também pelo refinamento estético de suas apresentações, consolidando-se como um símbolo de modernidade e sofisticação tecnológica nos céus brasileiros. Contudo, a despeito dessas qualidades, sua operação revelou desafios significativos que comprometeram sua viabilidade a longo prazo. Os elevados custos de manutenção e operação, aliados a limitações técnicas e logísticas já evidenciadas, contrastavam com a reconhecida robustez, versatilidade e economia dos veteranos T-6 e AT-6 Texan, que, mesmo após anos de serviço, continuaram a desempenhar papel central nas atividades da esquadrilha entre 1969 e 1973. Nesse contexto, tornou-se progressivamente evidente que a permanência do T-24 não se sustentaria sob os parâmetros operacionais e orçamentários da época. A decisão de sua desativação refletiu uma avaliação criteriosa por parte da Força Aérea Brasileira (FAB) , orientada pela busca de maior eficiência e melhor adequação às condições de infraestrutura disponíveis no Brasil da década de 1970. Assim, em 1974, a optou-se  pela retirada definitiva do modelo do serviço ativo, encerrando um capítulo relevante, embora marcado por limitações, na história da Esquadrilha da Fumaça. Como parte desse processo, cinco das sete células originais foram negociadas junto à Société Nationale Industrielle Aérospatiale, fabricante da aeronave, sendo posteriormente destinadas à Força Aérea do Senegal (Armée de l’Air du Sénégal). A desativação e preparação para transporte foram conduzidas pelo Parque de Material Aeronáutico dos Afonsos, no Rio de Janeiro, cujas equipes técnicas realizaram a desmontagem das aeronaves com elevado rigor operacional. As células foram então transportadas a bordo de um Canadair CL-44 da  Força Aérea Franesa (Armée de l’Air), que as conduziu ao seu novo destino no continente africano. Não obstante, uma das aeronaves  o T-24 FAB 1720 foi preservada como testemunho material desse período de transição. Em 1975, a célula foi incorporada ao acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL), onde permanece exposta como símbolo tanto da evolução tecnológica quanto dos desafios enfrentados pela aviação militar brasileira ao longo de seu processo de modernização. A desativação do T-24, portanto, não deve ser compreendida apenas como o encerramento de um ciclo operacional, mas como expressão de uma diretriz institucional mais ampla, pautada no equilíbrio entre inovação tecnológica e viabilidade prática. 

Em Escala.
Para recriar com precisão o Aérospatiale CM-170-2 Super Magister T-24, registrado como “FAB 1724”, foi utilizado o kit em resina na escala 1/48 produzido pela GIIC Models, que, por muitos anos, representou a única opção disponível nessa escala para entusiastas e modelistas. Apesar de sua importância histórica, esse kit foi superado em qualidade e detalhes pelo lançamento do notável modelo fabricado pela Kinetic em 2013, que trouxe novos padrões de fidelidade e acabamento. Para garantir a autenticidade da representação do T-24, optou-se pela aplicação de decais do conjunto 48/10, produzido pela renomada FCM Decais, cuja qualidade assegurou um resultado visual fiel à aeronave original da Força Aérea Brasileira (FAB).
O esquema de cores (FS) do T-24 foi concebido pelo publicitário uruguaio Eddie Moyona, incorporando as tonalidades da bandeira nacional brasileira. Essa escolha estética reforçava o simbolismo patriótico durante as apresentações da Esquadrilha da Fumaça, destacando a aeronave como um ícone visual até sua desativação em 1974. Para a reprodução fiel do padrão de pintura, foram empregadas tintas e vernizes produzidos pela Tom Colors, reconhecida por sua qualidade e precisão cromática.
Bibliografia:
- Esquadrilha da Fumaça – Força Aérea Brasileira https://www2.fab.mil.br/eda/index.php/historico
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores 
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html

Mercedes-Benz Sprinter (VTNE- VTE)

História e Desenvolvimento.
Há mais de um século, no alvorecer da era do automóvel, os engenheiros alemães Gottlieb Daimler e Carl Benz desenvolveram, de forma praticamente simultânea, os primeiros veículos motorizados funcionais da história. Embora atuassem de maneira independente, ambos contribuíram decisivamente para a consolidação do automóvel como meio de transporte viável. O pioneirismo desses inventores não se limitou aos carros de passeio: suas iniciativas resultaram também na construção dos primeiros ônibus motorizados, dos primeiros caminhões com motor a gasolina e, posteriormente, dos primeiros caminhões movidos a diesel, estabelecendo as bases da moderna indústria automotiva e de transporte. Em abril de 1900, surgia um novo motor que receberia a designação “Daimler-Mercedes”. Simples, eficiente e relativamente acessível, esse grupo propulsor permitiu a produção em série dos primeiros automóveis comerciais, ampliando o alcance da mobilidade motorizada para além dos círculos experimentais e aristocráticos. O nome “Mercedes”, inicialmente associado a um modelo específico da Daimler-Motoren-Gesellschaft (DMG), rapidamente se tornaria sinônimo de inovação técnica e desempenho. Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha enfrentou severas dificuldades econômicas. Nesse contexto adverso, a necessidade de racionalização industrial levou, em 1926, à fusão entre a Benz & Cie. e a Daimler-Motoren-Gesellschaft, dando origem à Daimler-Benz AG. A partir de então, os veículos passaram a ostentar oficialmente a marca “Mercedes-Benz”, combinando a reputação comercial da Mercedes com o prestígio técnico do nome Benz. O emblema da estrela de três pontas  simbolizando a mobilidade em terra, mar e ar  consolidou-se como um dos logotipos mais reconhecidos da indústria mundial. Durante a década de 1930, a Mercedes-Benz destacou-se de forma expressiva no automobilismo internacional. Seus carros de competição, conhecidos como Silberpfeile (Flechas de Prata), tornaram-se ícones de desempenho e engenharia avançada. Modelos como o W25 e o W125 dominaram os Grandes Prêmios europeus, projetando a imagem da marca como referência em tecnologia e velocidade. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), a produção de automóveis civis foi gradualmente interrompida, e a empresa direcionou seus esforços à fabricação de veículos militares, caminhões logísticos e motores aeronáuticos. As instalações industriais sofreram danos significativos em decorrência dos bombardeios aliados, mas, no período pós-guerra, a empresa empreendeu um vigoroso processo de reconstrução e retomada produtiva, reafirmando sua tradição industrial. Foi nesse contexto de recuperação que surgiram novos utilitários leves e caminhões, entre eles o Mercedes-Benz L-319, lançado na década de 1950 e amplamente bem-sucedido no mercado europeu. O modelo apresentava cabine avançada (conceito “cab-over-engine”), solução técnica que maximizava o espaço de carga sem aumentar o comprimento total do veículo ou a distância entre eixos característica particularmente vantajosa para operações urbanas e comerciais.

Paralelamente, a Mercedes-Benz retomou a produção de automóveis de passeio, mantendo o foco em qualidade construtiva, durabilidade e inovação. O Mercedes-Benz 300 SL “Gullwing”, lançado em 1954, tornou-se um marco desse período. Suas portas em formato de “asa de gaivota” e seu desempenho excepcional consolidaram-no como um dos maiores ícones da engenharia automotiva do século XX. Ao mesmo tempo, a empresa passou a vislumbrar uma estratégia de expansão internacional. A reconstrução europeia e o crescimento econômico em outras regiões estimularam a busca por novos mercados. A América do Sul, e em especial o Brasil, foi identificada como área prioritária dentro desse planejamento. O país vivia um período de industrialização acelerada, com políticas governamentais voltadas à substituição de importações e ao fortalecimento do parque fabril nacional. Em 1951, a matriz alemã firmou um acordo com o governo brasileiro para a fabricação local de caminhões e ônibus equipados com motores diesel. Dois anos depois, em outubro de 1953, foi oficialmente fundada a Mercedes-Benz do Brasil S.A., com 25% de capital alemão, iniciando-se imediatamente a construção da fábrica em São Bernardo do Campo (SP), às margens da Via Anchieta. Essa iniciativa marcou não apenas a consolidação da presença da marca no país, mas também um passo decisivo no desenvolvimento da indústria automobilística brasileira, integrando o Brasil à estratégia global da Mercedes-Benz e inaugurando uma nova fase na história do transporte rodoviário nacional. Na década de 1960 e no início dos anos 1970, a Mercedes-Benz já desfrutava de sólida reputação no segmento de veículos comerciais pesados, notadamente caminhões e ônibus, cuja robustez e durabilidade consolidaram a marca como referência internacional. Contudo, sua participação no mercado de utilitários leves  especialmente no segmento de vans  ainda se mostrava relativamente discreta. Modelos como a L319 (1955–1968), de porte médio e concepção avançada para sua época, bem como a chamada Harburger Transporter (derivada das séries L206/L306, lançadas em 1967), atendiam a determinadas demandas comerciais, mas começavam a revelar limitações técnicas frente a concorrentes cada vez mais modernos e competitivos, como a Volkswagen Transporter e utilitários desenvolvidos por fabricantes como Fiat e Ford. O contexto econômico europeu do pós-guerra exerceu influência decisiva nesse cenário. O acelerado crescimento industrial, a expansão dos centros urbanos e o fortalecimento do setor de serviços impulsionaram significativamente a demanda por veículos comerciais leves. Empresas de logística, pequenos comerciantes e prestadores de serviços passaram a necessitar de utilitários ágeis, econômicos e adaptáveis, capazes de operar com eficiência em áreas urbanas densas e, ao mesmo tempo, oferecer versatilidade para múltiplas aplicações  do transporte de carga às conversões para passageiros ou usos especializados. Diante dessa realidade, a Mercedes-Benz identificou a oportunidade estratégica de desenvolver um novo modelo que combinasse a tradicional robustez estrutural de seus caminhões com dimensões mais compactas e adequadas ao tráfego urbano. O objetivo era claro: criar uma van moderna, competitiva e tecnicamente superior, capaz de disputar mercado diretamente com a Volkswagen Transporter e de atender a um amplo espectro de aplicações comerciais.
No início da década de 1970, teve início o desenvolvimento de um novo projeto, internamente designado T1. A fábrica de Bremen, na Alemanha, assumiu papel central no programa, tornando-se o principal polo produtivo do modelo, com apoio de outras unidades industriais, como Düsseldorf. O projeto foi concebido sob a premissa de oferecer um transporte comercial leve que preservasse os atributos essenciais da marca  durabilidade, confiabilidade mecânica e qualidade construtiva  aliados a eficiência operacional e versatilidade. Em abril de 1977, a Mercedes-Benz apresentou oficialmente ao mercado a TN (Transportador Novo), marcando sua entrada definitiva no segmento das vans modernas. Comercialmente identificada como T1 e popularmente conhecida como Bremer Transporter  em alusão à sua produção em Bremen , a nova linha destacou-se por sua concepção racional e funcional. O desenho da TN privilegiava linhas retas e carroceria de formato praticamente quadrangular, solução que maximizava o aproveitamento do espaço interno. As amplas portas traseiras de abertura integral e as portas laterais deslizantes facilitavam as operações de carga e descarga, característica essencial para o uso comercial intenso. A gama contemplava múltiplas configurações, incluindo furgão fechado, van de passageiros, chassi-cabina para implementações específicas e versões destinadas a micro-ônibus. A versatilidade era ampliada pela oferta de diferentes distâncias entre eixos (3.050 mm, 3.350 mm e 3.700 mm), opções de teto baixo, médio e alto, além de variadas capacidades de Peso Bruto Total (PBT), inicialmente entre 2,55 e 3,5 toneladas com evoluções posteriores alcançando até 4,6 toneladas. Com a TN/T1, a Mercedes-Benz não apenas atualizou sua presença no segmento de utilitários leves, mas reafirmou sua capacidade de adaptação às transformações do mercado europeu, combinando tradição industrial com inovação técnica em um período de intensas mudanças econômicas e logísticas. No que se refere ao conjunto mecânico, a Mercedes-Benz TN refletia o compromisso da marca com robustez e confiabilidade, atributos já consagrados em sua linha de veículos comerciais. Inicialmente, o modelo era equipado com motores considerados sólidos e adequados às exigências do período. Entre as opções a diesel destacava-se o consagrado OM616, de 2,4 litros e quatro cilindros, com potência variando entre 65 e 72 cv, amplamente reconhecido por sua durabilidade e baixo custo operacional. Para mercados específicos, oferecia-se também o motor a gasolina M115, de 2,3 litros, com 85 cv. A transmissão manual podia ser de quatro ou cinco marchas, sempre associada à tração traseira — configuração tradicional que favorecia a distribuição de carga e a resistência estrutural. Em fases posteriores de sua evolução, versões com tração integral (4x4) passaram a ser disponibilizadas, ampliando o leque de aplicações em terrenos adversos. Sob o aspecto dinâmico, a TN apresentava soluções técnicas compatíveis com os padrões de segurança e dirigibilidade da década de 1970. Contava com freios a disco na dianteira, suspensão independente no eixo frontal e eixo traseiro rígido com molas parabólicas, combinação que proporcionava estabilidade, resistência e adequada capacidade de carga. Embora recursos como airbags e sistemas antibloqueio de freios (ABS) ainda não integrassem a realidade do segmento naquele período, a estrutura reforçada da carroceria oferecia nível de segurança passiva considerado avançado para a época.

A TN foi concebida para atender a múltiplas demandas operacionais: Furgão, voltado ao transporte urbano de mercadorias e serviços de entrega; Van de passageiros, com configurações entre 8 e 12 assentos, amplamente empregada em transporte escolar, executivo e de trabalhadores; Chassi-cabina, destinado a conversões especializadas, como ambulâncias, veículos de bombeiros e motorhomes; Micro-ônibus, utilizado em serviços de transporte público local e turismo regional. A produção concentrou-se principalmente nas plantas de Bremen e Düsseldorf, na Alemanha. Contudo, visando atender mercados regionais e contornar barreiras tarifárias, a TN também foi montada no sistema CKD (Completely Knocked Down) em outros países, como Espanha e Argentina, ampliando sua presença internacional. No mercado europeu, enfrentou concorrentes consolidados, como a Volkswagen Transporter (T2 e T3), a Ford Transit e, mais adiante, a Fiat Ducato. Embora apresentasse preço superior ao de alguns rivais, sua qualidade construtiva, confiabilidade mecânica e elevada durabilidade tornaram-na particularmente valorizada por operadores de frota e aplicações especiais  notadamente ambulâncias, veículos policiais e conversões técnicas de maior exigência. Apesar de ter introduzido avanços importantes no segmento, a rápida evolução tecnológica da concorrência, especialmente no início da década de 1980, evidenciou a necessidade de atualizações. Fabricantes como Renault e Volkswagen lançaram modelos mais modernos, com soluções técnicas e conceituais que elevaram o padrão do mercado. O segmento de utilitários leves urbanos encontrava-se em franca expansão na Europa, liderado em grande medida por veículos de origem francesa, representando uma oportunidade estratégica que a Mercedes-Benz não poderia ignorar. Em resposta a esse cenário, a engenharia da empresa promoveu sucessivas melhorias na família TN. Em 1981, foi introduzido o motor diesel de cinco cilindros OM617, com 88 cv, acompanhado de aperfeiçoamentos na suspensão. Posteriormente, em 1988, adotou-se o novo motor diesel OM602, de 2,9 litros e 98 cv, mais eficiente e moderno, além da ampliação das versões com tração integral para mercados específicos. Em 1990, a linha passou por atualização estética, recebendo novos faróis, grade frontal redesenhada e interior com ergonomia aprimorada. Também foram introduzidas versões com maior capacidade de carga, alcançando Peso Bruto Total (PBT) de até 4,6 ton. Ainda que essas melhorias tenham prolongado sua competitividade, tornava-se evidente que a TN se aproximava do limite de sua evolução estrutural. O avanço tecnológico do segmento indicava a necessidade de um projeto completamente novo. Assim, no início da década de 1990, a Mercedes-Benz deu início aos estudos que culminariam no desenvolvimento de uma sucessora capaz de reposicionar a marca de forma mais assertiva no dinâmico mercado europeu de utilitários leves. Em 1995 a montadora apresentaria ao mercado sua nova linha a Sprinter MB 180 D e 310 D, uma “Van Full-size”, monovolume para transporte de carga e passageiros, criando o segmento de Large Vans (PBT de 3,5 a 5 toneladas). Foi a primeira van da marca com um nome próprio, destacando-se por segurança (freios a disco com ABS), versatilidade e motores diesel eficientes.  Apresentava  um motor a diesel de quatro cilindros em linha MB OM 601 de 2.148 cc com potência de 74 cv á 4.400 rpm, câmbio manual MB 313 02/11 de cinco marchas sincronizadas a frente e uma a ré. Seu peso líquido era na ordem de 1954 kg e bruto de 3.500 kg, e ainda dimensões de 4,97 metros de comprimento na versão SWB a 6,68 metros na versão LWB, com uma largura de 1,88 metros, em termos de altura, as dimensões variavam por versão, sendo de 2,36 metros na versão 2500 High Ceiling SWB á 2,59 metros na versão 2500 Super High Ceiling SWB. A distância entre eixos, apresentava-se na versão SWB 2,99 metros, na MWB 3,55 mm e por fim 4,01 metros no LWB. 
Posteriormente a montadora lançaria na mesma plataforma, uma versão de camionete, com o cliente podendo optar por qualquer tipo de carroceira para instalação posterior, seja aberta, fechada ou frigorificada. Neste mesmo momento o mercado brasileiro de utilitário leves, até então dominado pelas já obsoletas Volkswagen Kombi, passava ser invadido por novos competidores de origem asiática, representado pelos modelos Kia Besta e Asia Topic, com seu desempenho e capacidade de transporte se mostrando muito superiores ao líder de mercado. Rapidamente estes novos veículos passariam a compor a paisagem das grandes cidades brasileiras, sendo empregas em tarefas de transporte de passageiros (lotação), carga e ambulância. Atentos a esta tendência de mercado, a diretoria comercial decidiu-se oferecer ao mercado uma nova alternativa. A escolha em 1993 recairia sobre o modelo Sprinter MB-180D com peso bruto total de 3.500 kg, sendo este veículo importado da Espanha. Assim como as concorrentes asiáticas, esta van tinha a vantagem, perante a VW Kombi, de ser a diesel e, perante as demais, de ser de uma montadora gabaritada no cenário internacional.   Embora o custo de aquisição do modelo fosse superior, a linha MB Sprinter conquistou notável prestígio no mercado brasileiro, permanecendo em produção até 1997. Este modelo, que continua sendo comercializado até os dias atuais, alcançou a marca de mais de 130.000 unidades vendidas no Brasil. No âmbito militar, a família Sprinter destacou-se em diversas aplicações, como ambulância e transporte de passageiros, incluindo pilotos em bases aéreas. Inicialmente, foi adotada pelas forças armadas de países como Alemanha, Espanha, Portugal e Suécia. Além do modelo básico, novas funções militares foram incorporadas, incluindo configurações como Oficina, Viatura de Comando e Controle, Guerra Eletrônica, Comunicações e Medidas de Apoio de Guerra Eletrônica, com a adição de tração integral 4x4. Atualmente, a Sprinter é utilizada por mais de trinta forças militares em todo o mundo. Com mais de duas décadas de produção, a família de utilitários leves urbanos MB Sprinter acumula impressionantes 2,8 milhões de unidades vendidas em mais de 130 países, consolidando-se como um dos líderes em seu segmento. No Brasil, onde o mercado é altamente disputado, a Sprinter mantém sua relevância e deve continuar em produção pelas próximas décadas. Em 2012, a montadora renovou seu portfólio no Brasil, trazendo a segunda geração da Sprinter, lançada na Europa em 2006. Esta familia, produzida no Centro Industrial J. Manuel Fangio, incorporou o motor OM651, mais eficiente e potente, também fabricado localmente. A nova Sprinter trouxe avanços significativos em segurança, como o ESP adaptativo, freios ABS, airbag para o motorista e, em algumas versões, controle de tração (ASR). Em 2016, a Mercedes-Benz lançou uma nova linha Sprinter no Brasil, introduzindo inovações como o sistema multimídia MBUX com tela sensível ao toque, assistente ativo de frenagem (ABA), assistente de fadiga e assistente de partida em rampa. Em 2019, a Sprinter alcançou 48% de participação no mercado brasileiro, com 5.860 unidades emplacadas, um crescimento de 37% em relação a 2018. Até 2022, mais de 180.000 unidades haviam sido vendidas no Brasil, e, em 2025, a Mercedes-Benz celebrou a produção global de 5 milhões de Sprinters, com uma unidade elétrica (eSprinter). No Brasil, mais de 200.000 unidades foram comercializadas até 2025, reforçando sua relevância

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A história da motomecanização militar no Brasil insere-se no amplo processo de modernização institucional vivenciado pelas Forças Armadas nas primeiras décadas do século XX. Até então, a estrutura logística do Exército era fundamentalmente hipomóvel, baseada na tração animal, o que limitava a rapidez dos deslocamentos e a eficiência do apoio às tropas. Nesse contexto de transformação tecnológica e doutrinária, o ano de 1919 constitui um marco inaugural: o Exército Brasileiro enviou à França uma Comissão Militar com a finalidade de visitar a fábrica da Renault, em Paris, visando à aquisição de ambulâncias destinadas ao serviço de saúde militar. Os desdobramentos dessa iniciativa concretizaram-se em 1921, com a incorporação dos primeiros veículos de socorro e remoção médica. Esses automóveis não apenas aprimoraram o atendimento aos feridos, mas também simbolizaram o início da substituição gradual da força terrestre hipomóvel por uma estrutura motomecanizada. Tratava-se de uma mudança que transcendia o aspecto técnico, pois implicava a introdução de novos conceitos de mobilidade, logística e organização operacional. A Revolução de 1924 representou a primeira utilização expressiva de veículos automotores em operações militares no território nacional. Na frente de combate no Paraná, sob o comando do General Cândido Mariano da Silva Rondon, veículos civis e militares foram empregados em funções variadas, incluindo o transporte de feridos em ambulâncias e o deslocamento de tropas em caminhões leves. Apesar dessa inovação, a infraestrutura logística ainda permanecia fortemente dependente de carroças tracionadas por cavalos, responsáveis pelo transporte de suprimentos e combustíveis. A convivência entre meios tradicionais e mecanizados caracterizou essa fase de transição. A experiência adquirida nesse conflito reforçou, no âmbito governamental, a percepção da importância estratégica da motorização. Nos anos seguintes, ampliou-se a aquisição de viaturas, com destaque para as ambulâncias baseadas no modelo Ford TT, reconhecido por sua robustez e adaptabilidade às condições adversas do território brasileiro. Esse movimento consolidou a presença do automóvel como elemento permanente na estrutura militar. Nas décadas subsequentes, o processo de modernização prosseguiu de forma contínua. O Exército Brasileiro, a Marinha do Brasil e, posteriormente, a recém-criada Força Aérea Brasileira incorporaram ambulâncias e utilitários leves cada vez mais sofisticados. Um salto tecnológico decisivo ocorreu em 1942, com a adesão do Brasil ao programa norte-americano Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), no contexto da Segunda Guerra Mundial. Por meio desse acordo, o país recebeu expressivo volume de equipamentos militares, entre os quais 149 ambulâncias Dodge WC-54, notáveis por sua durabilidade, capacidade de carga e desempenho em operações de campanha.

Ao término do conflito, as Forças Armadas Brasileiras encontravam-se majoritariamente equipadas com veículos de origem norte-americana, especialmente os modelos Dodge das séries WC-51, WC-52, WC-53 e WC-54, que constituíram a espinha dorsal das operações logísticas e de saúde militar no período imediato do pós-guerra. Essa predominância começaria a se alterar apenas a partir da década de 1960, com a instalação de filiais de montadoras internacionais no Brasil, inaugurando uma nova fase marcada pela nacionalização progressiva da produção automotiva e pelo fortalecimento da indústria bélica e de defesa no país. No contexto do processo de nacionalização da indústria automobilística brasileira, consolidado a partir da segunda metade do século XX, a incorporação da Volkswagen Kombi 1300, em sua versão ambulância, representou um marco significativo para a motomecanização das Forças Armadas. A partir de 1961, as primeiras unidades passaram a ser entregues ao Exército Brasileiro, tornando-se o primeiro utilitário de fabricação nacional a integrar oficialmente sua frota. A adoção da Kombi refletia não apenas a expansão da indústria automotiva instalada no país, mas também uma política de racionalização de custos e de fortalecimento da autonomia logística nacional. Sua concepção simples, aliada ao baixo custo de aquisição e manutenção, à mecânica descomplicada e à facilidade de operação, garantiu ampla aceitação no meio militar. Distribuída por hospitais militares e organizações administrativas de saúde em diversas regiões do território brasileiro, a Kombi 1300 consolidou-se como um veículo funcional, acessível e adaptado às rotinas urbanas e administrativas das instituições castrenses. Todavia, suas limitações estruturais tornavam-se evidentes em operações realizadas em terrenos acidentados ou afastados dos grandes centros urbanos. A ausência de tração integral e a menor capacidade de transposição de obstáculos restringiam seu emprego em ambientes tipicamente operacionais. Em razão dessas necessidades, as Forças Armadas passaram a incorporar ambulâncias derivadas de veículos mais robustos e adequados a condições fora de estrada, com ou sem tração 4x4. Durante as décadas de 1970 e 1980, modelos como a Ford Willys-Overland Rural F-75 e F-85, a Chevrolet Veraneio C-1416 e C-1410 e a Toyota Bandeirante foram progressivamente integrados às frotas do Exército Brasileiro, da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira. Adquiridos em larga escala, esses veículos destacaram-se não apenas nas funções de socorro e remoção médica, mas também como utilitários de transporte de pessoal e apoio logístico. Sua robustez mecânica e capacidade de adaptação aos mais variados teatros operacionais  da Amazônia às regiões de fronteira e áreas litorâneas  ampliaram significativamente a mobilidade e a eficiência do apoio sanitário militar. Paralelamente, versões desses mesmos modelos foram amplamente empregadas por polícias militares estaduais e corpos de bombeiros, reforçando sua presença no âmbito da segurança pública e das operações de emergência. Assim, esses utilitários transcenderam o uso estritamente militar, tornando-se parte integrante da paisagem institucional brasileira ao longo de várias décadas.
A trajetória da motomecanização no Brasil, iniciada com as primeiras ambulâncias Renault no início do século XX e consolidada com a incorporação progressiva de veículos nacionais e importados, evidencia o esforço contínuo das Forças Armadas em adaptar-se às transformações tecnológicas e às exigências operacionais impostas pelo território e pelo cenário internacional. Cada etapa desse processo representou não apenas a aquisição de novos meios, mas a assimilação de novas doutrinas de mobilidade, logística e apoio à tropa. No início da década de 1990, durante o governo do presidente Fernando Collor de Mello, a abertura do mercado brasileiro às importações de veículos automotores inaugurou uma nova fase para o setor automotivo nacional. A liberalização comercial ampliou o acesso a tecnologias estrangeiras e estimulou montadoras internacionais a diversificarem seus portfólios no país. Nesse ambiente de reconfiguração econômica, a Mercedes-Benz do Brasil S/A decidiu introduzir no mercado nacional a linha de utilitários leves urbanos MB-180 Sprinter, mediante a importação de unidades produzidas por sua subsidiária na Espanha. Equipada com o motor diesel Mercedes-Benz OM-600, de quatro cilindros em linha, com 2.399 cm³ e potência de 75 cv a 4.400 rpm, a MB-180 Sprinter apresentava capacidade de carga de até 1.560 kg, destacando-se pela robustez estrutural, eficiência mecânica e versatilidade de aplicação. Sua chegada simbolizou não apenas a modernização do segmento de utilitários leves no Brasil, mas também a continuidade de um processo histórico no qual mobilidade, tecnologia e logística caminham lado a lado na construção de uma força militar cada vez mais ágil e adaptada às demandas contemporâneas. Entre as diversas configurações disponibilizadas no mercado brasileiro, a versão ambulância da MB-180 Sprinter destacou-se de maneira particular, inserindo-se em um momento de profunda transformação dos serviços públicos de saúde e emergência no país. Oferecida desde a configuração destinada à “simples remoção” de pacientes até variantes mais complexas, equipadas com desfibriladores, sistemas de oxigenoterapia e estrutura compatível com unidades de terapia intensiva (UTI), a Sprinter rapidamente conquistou espaço entre órgãos governamentais civis. Suas dimensões externas relativamente compactas, combinadas à boa capacidade de carga e à facilidade de manobra no ambiente urbano, mostraram-se especialmente adequadas às demandas das grandes cidades brasileiras. A agilidade no trânsito, aliada à confiabilidade mecânica do conjunto motriz diesel, constituía atributo essencial para o transporte sanitário, no qual tempo de resposta e segurança operacional são fatores determinantes. Não por acaso, ao longo dos anos, a Sprinter consolidou-se como o principal veículo empregado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), vinculado ao Ministério da Saúde, tornando-se presença constante no cotidiano urbano.

Para além do setor da saúde, o modelo também encontrou ampla aplicação em atividades de segurança pública. Em 1993, o Governo do Estado de São Paulo adquiriu pelo menos vinte unidades configuradas como bases comunitárias móveis para uso policial, além de trinta veículos destinados ao Corpo de Bombeiros da Polícia Militar, voltados a missões de resgate. Essa versatilidade evidenciava a adaptabilidade da plataforma, capaz de atender a diferentes perfis operacionais com relativa facilidade. No âmbito do socorro médico, o amplo espaço interno do furgão mono volume constituía um diferencial expressivo. A configuração permitia maior liberdade de movimentação para as equipes de saúde, melhor disposição de equipamentos e condições mais seguras e confortáveis para os pacientes, sobretudo em atendimentos de maior complexidade. Tais características reforçaram a percepção da Sprinter como um avanço significativo em relação aos utilitários anteriormente empregados. A introdução da MB-180 Sprinter no Brasil representou, assim, um marco na modernização do transporte especializado, especialmente nas áreas de saúde e segurança pública. A conjugação de tecnologia embarcada, racionalidade construtiva e adaptabilidade às condições nacionais consolidou sua reputação como veículo confiável e funcional, estabelecendo um legado duradouro em múltiplas aplicações institucionais. Aproveitando a sólida relação já estabelecida com o Exército Brasileiro  particularmente no fornecimento de caminhões militarizados , a Mercedes-Benz do Brasil S/A, em parceria com a empresa Marimar Veículos Ltda., passou a oferecer, a partir de 1994, uma versão ambulância da recém-lançada MB-180D Sprinter voltada às necessidades militares. O projeto foi concebido para atender às categorias de “simples remoção” e “atendimento básico”, em consonância com as diretrizes do serviço de saúde do Exército. Até então, o veículo predominantemente empregado nessas funções era o Chevrolet Veraneio. Embora robusto e funcional, o modelo apresentava limitações quanto ao espaço interno e à organização do compartimento médico, especialmente quando comparado à arquitetura mono volume da Sprinter. A superior capacidade de acomodação de equipamentos, a melhor ergonomia para a equipe de saúde e a possibilidade de padronização de adaptações técnicas revelaram-se fatores decisivos para a aquisição de um primeiro lote, cuja entrega ocorreu ainda no final de 1994. Em serviço, a Mercedes-Benz MB-180D Sprinter recebeu a designação oficial de Viatura de Transporte Especializado Ambulância (VTE Amb 4x2), passando a integrar as frotas dos Hospitais do Exército Brasileiro. Gradualmente, essas viaturas substituíram modelos mais antigos em operação, assumindo papel relevante no atendimento médico militar e reafirmando o contínuo processo de modernização da motomecanização sanitária. O êxito alcançado com a incorporação inicial da MB-180D Sprinter no Exército Brasileiro rapidamente despertou o interesse dos demais ramos das Forças Armadas. 
A Marinha do Brasil passou a adquirir unidades destinadas a seus Ambulatórios e Hospitais Navais, enquanto a Força Aérea Brasileira (FAB) igualmente incorporou o modelo à sua frota, substituindo viaturas menores e já defasadas, que não mais atendiam de forma satisfatória às crescentes exigências operacionais do atendimento médico militar. Na esteira dessa modernização, o Exército Brasileiro promoveu novas aquisições, agora contemplando ambulâncias configuradas como “UTI móvel”, dotadas de equipamentos mais avançados para suporte à vida em situações críticas. Esse movimento também foi acompanhado pela Força Aérea Brasileira, evidenciando um esforço conjunto de atualização tecnológica e padronização de meios no âmbito do atendimento pré-hospitalar militar. A ampliação dessas capacidades refletia a evolução doutrinária do serviço de saúde nas Forças Armadas, cada vez mais alinhado às melhores práticas do atendimento emergencial. Paralelamente às versões destinadas ao transporte médico, a família Sprinter demonstrou versatilidade suficiente para atender a outras demandas institucionais. Configurações voltadas ao transporte de passageiros passaram a ser incorporadas, com destaque para o modelo Mercedes-Benz 312D Sprinter 2000, empregado pelo Batalhão de Infantaria de Aeronáutica Especial de Brasília no apoio ao Pelotão de Cães de Guerra. A iniciativa foi posteriormente seguida pelo Exército Brasileiro, que adotou o mesmo modelo em seus Batalhões de Polícia do Exército, particularmente nas Seções de Cães de Guerra – Canil, reforçando a mobilidade e a logística dessas unidades especializadas. A partir de 2012, inspirando-se na experiência, o Exército Brasileiro passou a incorporar, ainda que em número reduzido, veículos Mercedes-Benz 415 CDI Sprinter, modelos 2012/2013, adaptados como viaturas canil pela empresa Tako Capotaria Ltda. Essas viaturas foram destinadas às Seções de Cães de Guerra vinculadas às unidades da Polícia do Exército, ampliando a capacidade operacional no emprego de cães farejadores e de proteção, atividades cada vez mais relevantes no contexto da segurança institucional e do apoio a operações diversas. Os primeiros exemplares da linha Sprinter, adquiridos ao longo da década de 1990, foram gradualmente desativados até meados da primeira década do século XXI. Em seu lugar, passaram a ser incorporados novos veículos, com destaque para versões ambulância baseadas não apenas na plataforma Mercedes-Benz, mas também em modelos de outras montadoras, como Renault e Iveco. Essa diversificação marcou o fim da predominância exclusiva da Mercedes-Benz no fornecimento de ambulâncias às, refletindo um ambiente de maior competitividade e pluralidade tecnológica. Os novos meios foram distribuídos aos hospitais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, fortalecendo a estrutura de apoio médico. Destaca-se, ainda, a destinação de ambulâncias ao Batalhão da Guarda Presidencial do Exército Brasileiro, sediado em Brasília, Distrito Federal, unidade de elevada relevância estratégica e simbólica, cuja prontidão operacional exige suporte logístico e sanitário compatível com suas atribuições. No tocante às versões da família Sprinter destinadas ao transporte de passageiros, com capacidade para até 16 ocupantes, as aquisições mais recentes foram realizadas pela Marinha do Brasil.

Em Escala.
Para representarmos o Mercedes-Benz MB-180D Sprinter VTE Ambulancia 4X2, do Exército Brasileiro, fizemos uso do modelo em die cast produzido pela Axio na escala 1/43 para a "Coleção Veículos de Serviço do Brasil" da Editora Altayia.  Como não há diferenças entre a versão civil e militar não há a necessidade proceder nenhuma customização. Empregamos decais confeccionados pela Decals e Books pertencentes ao set "Forças Armadas do Brasil 1983 á  2002 1/35”.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura, empregado em todas as ambulâncias do Exército Brasileiro (mesmo padrão civil) utilizadas junto as unidades de saúde administrativas da organização. Já os veículos a serviço em outras tarefas fazem uso dos esquemas de pintura pertinentes a cada ramo das Forças Armadas Brasileiras.

Bibliografia :
- Primórdios da Motorização no Exército Brasileiro 1919-1940 - Expedito Carlos Stephani Bastos;
- Veículos de Serviço do Brasil – Mercedes-Benz MB-180D Sprinter  – Editora Altaya;
- Mercedes- Wikipedia – https://pt.wikipedia.org/wiki/Mercedes-Benz;
- Mercedes-Benz do Brasil - https://www2.mercedes-benz.com.br/
- Marinha do Brasil - https://www.marinha.mil.br/
- Exército Brasileiro - https://eb.mil.br/

X-10 e X-12 Gurgel (VTrAdm-VTrOp)


História e Desenvolvimento.
A trajetória da Gurgel Veículos está intrinsecamente ligada à vida e ao espírito inovador de seu fundador, João Augusto Conrado do Amaral Gurgel. Nascido em 1926, em Franca, São Paulo, e formado em Engenharia pela Universidade de São Paulo (USP) aos 23 anos, João Augusto demonstrou, desde a infância, uma paixão pela mecânica e um talento para propor soluções criativas diante de desafios técnicos. Seu interesse pelos automóveis se consolidou ainda na juventude, alimentando o sonho de projetar e fabricar veículos no Brasil. Determinado a transformar essa visão em realidade, ele se dedicou desde cedo a desenvolver as competências necessárias para inovar no setor automotivo. Ainda estudante, em 1947, João Augusto construiu um protótipo funcional de um veículo anfíbio de três rodas, equipado com motor de avião e hélice, demonstrando sua capacidade de pensar além das convenções. Em 1958, fundou em São Paulo a Moplast Moldagem de Plástico Ltda., sua primeira empresa, que se destacou pela produção dos primeiros painéis luminosos de acrílico do Brasil, uma alternativa inovadora ao neon. Contudo, sua paixão pelos automóveis logo o levou a novos empreendimentos. Em 1960, em parceria com Silvano Pozzi, João Augusto iniciou a fabricação do Mo-Kart, o primeiro kart de competição produzido em série no país, marcando sua entrada no mercado automotivo. No II Salão do Automóvel, em 1961, a Moplast apresentou o Gurgel II, um veículo de dois lugares com carroceria de plástico reforçado com fibra de vidro, montado sobre um chassi tubular. O modelo contava com uma suspensão independente nas quatro rodas e um motor traseiro de 130 cm³ (10 cv, refrigerado a ar), acoplado a uma transmissão de variação contínua composta por polias tronco-cônicas e correias em V. Esse projeto pioneiro estabeleceu a fibra de vidro como uma característica distintiva dos veículos Gurgel, utilizada em todos os modelos subsequentes. No III Salão do Automóvel, a Moplast lançou o Mocar, um transportador industrial de 180 kg, capaz de carregar até 400 kg, projetado para movimentação de cargas em fábricas e aeroportos. Equipado com um motor a gasolina de dois tempos (125 cm³, 7,5 cv) e transmissão com uma marcha à frente e uma à ré, o Mocar foi anunciado como um produto de criação e fabricação integralmente nacionais, reforçando o compromisso de João Augusto com a inovação local. Em 1964, João Augusto deixou a Moplast e fundou a Macan Indústria e Comércio Ltda., uma concessionária Volkswagen que continuou a produzir karts, mini-carros infantis e o Mocar. No IV Salão do Automóvel, foi apresentado o Gurgel Jr II, um carrinho motorizado para crianças inspirado no Ford Mustang, com 3 cv e freios nas rodas traseiras. O ano de 1966 representou um divisor de águas na trajetória de João Augusto. Em parceria com a Volkswagen, ele lançou no V Salão do Automóvel o Gurgel 1200, um veículo de fibra de vidro construído sobre a plataforma VW. Disponível em quatro versões — Ipanema, Enseada e Augusta (modelos esportivos) e Xavante (voltado para transporte de cargas) —, o Gurgel 1200 utilizava a mecânica do Karmann-Ghia, com motor de 1.200 cm³ e 36 cv, posteriormente ampliado para 1.300 e 1.500 cm³. O sucesso do modelo foi tão expressivo que João Augusto passou a produzi-lo na Macan. Contudo, divergências com os sócios sobre o envolvimento da concessionária na fabricação de veículos levaram à sua saída da empresa.

Em 1º de setembro de 1969, João Augusto fundou a Gurgel Indústria e Comércio de Veículos Ltda., em São Paulo, marcando o início de uma nova fase. A empresa consolidou seu legado de inovação, produzindo veículos que combinavam criatividade, funcionalidade e identidade brasileira. A trajetória da Gurgel reflete o compromisso de seu fundador com o desenvolvimento de uma indústria automotiva nacional, capaz de superar desafios técnicos e econômicos por meio de soluções originais e visionárias. A produção do Ipanema, escolhido como o primeiro modelo da Gurgel Veículos, teve início em 1969, em um ritmo modesto de aproximadamente quatro unidades por mês. Sob a nova marca, o veículo, rebatizado simplesmente como Gurgel, passou por refinamentos estéticos e funcionais para aprimorar sua segurança e desempenho. Entre as modificações implementadas, destacam-se a instalação de uma barra de proteção (santo antônio) para maior segurança dos ocupantes, a reformulação das entradas de ar traseiras para o motor, a adição de aberturas nas extremidades dos para-lamas e a substituição das lanternas redondas pelas retangulares da Volkswagen Kombi — embora as lanternas redondas tenham sido reincorporadas pouco tempo depois. Essas mudanças refletiram o compromisso da Gurgel em combinar funcionalidade com um design distintivo. Em 1970, a Gurgel Veículos reafirmou sua vocação para veículos utilitários ao lançar as versões picape e QT (Qualquer Terreno). Ambas foram equipadas com o sistema selectraction, um freio traseiro seletivo que funcionava como um diferencial autoblocante manual. Em situações de baixa tração, o dispositivo imobilizava a roda sem aderência, direcionando toda a potência do motor para a roda oposta. Essa solução, embora simples, compensava eficazmente a ausência de tração integral, oferecendo maior versatilidade em terrenos desafiadores e destacando a capacidade da Gurgel de inovar com recursos acessíveis. No VII Salão do Automóvel, realizado em 1972, a Gurgel apresentou o buggy Bugato, comercializado em kits. Com um design marcante — caracterizado por uma frente quadrada com falsa grade, tampa de acrílico transparente sobre o motor e filetes decorativos nas laterais —, o Bugato se destacou pela originalidade. No entanto, sua produção foi limitada, com apenas cerca de 20 unidades fabricadas, refletindo os desafios de posicionar um veículo de nicho em um mercado competitivo. Um marco tecnológico da Gurgel foi a introdução, em 1972, da estrutura plasteel, uma inovação desenvolvida por João Augusto Gurgel. Substituindo as plataformas com motor traseiro fornecidas pela Volkswagen, o plasteel consistia em uma estrutura tubular em treliça revestida com resina e fibra de vidro. Essa tecnologia conferia aos veículos flexibilidade à torção, redução de peso e resistência à corrosão, características que posicionaram a Gurgel em um nicho até então pouco explorado no Brasil: o de utilitários voltados para condições adversas de terreno. Na época, esse segmento era atendido apenas pelo Jeep Willys e pelo Toyota Bandeirante, ambos com projetos considerados obsoletos. O Xavante XT-72, lançado em 1972 como o primeiro utilitário Gurgel equipado com o chassi plasteel, incorporou a carroceria do modelo QT com adaptações para uso off-road. Entre os aprimoramentos, destacam-se para-choques reforçados, guincho, grade protetora nos faróis, engate para reboque, pás acopladas às laterais e o estepe reposicionado sobre o capô dianteiro. 










Diferentemente de seus concorrentes, o Xavante apresentava uma carroceria monobloco de fibra de vidro com estrutura tubular integrada, motor traseiro, suspensão traseira independente com molas helicoidais, bancos anatômicos e peso reduzido. Essas características contrastavam com o chassi em escada, a carroceria de aço, a suspensão por feixe de molas e o elevado centro de gravidade dos Jeep e Toyota. O Xavante XT-72 oferecia vantagens significativas, como menor consumo de combustível e custos de manutenção reduzidos, graças à utilização da confiável mecânica Volkswagen. Apesar da ausência de tração nas quatro rodas, um diferencial técnico dos concorrentes, a leveza do veículo, a agilidade da suspensão e o sistema selectraction garantiam desempenho competitivo em condições menos exigentes. Com um preço cerca de 15% superior ao do Jeep Willys, seu principal concorrente, o Xavante se destacou como uma alternativa acessível e inovadora, consolidando a Gurgel como uma marca visionária no mercado automotivo brasileiro. Em 1973, a Gurgel Veículos lançou o modelo XT-73, projetado para reforçar a vocação off-road da marca. Equipado com suspensão reforçada, maior distância do solo e a opção de motor Volkswagen 1600, o XT-73 foi oferecido nas versões XTR, com portas ampliadas (sem as pás laterais características de modelos anteriores), e picape, que contava com teto rígido e caçamba removíveis, ambos fabricados em fibra de vidro. Essas características reforçavam a versatilidade e a durabilidade dos veículos Gurgel, alinhando-se à visão de João Augusto Gurgel de criar soluções práticas para os desafios do mercado brasileiro. No ano de 1974, os modelos XT-74 receberam aprimoramentos sutis, focados principalmente no conforto, com melhorias nos bancos e no acabamento interno. Nesse mesmo ano, a Gurgel celebrou a produção de seu 500º veículo, um marco que evidenciou o crescimento constante da empresa. Em fevereiro, foi introduzida a nova geração do Xavante, iniciada com o modelo XTC. Este apresentava uma carroceria redesenhada e mais espaçosa, capaz de acomodar confortavelmente quatro passageiros. Entre as inovações, destacavam-se um porta-malas mais amplo, quatro faróis, entradas de ar nas laterais traseiras, canos de escape elevados para melhor desempenho em estradas poeirentas ou alagadas, e pneus "cidade e campo" montados em um chassi plasteel reformulado. A suspensão dianteira foi ajustada para aumentar o vão livre, enquanto a traseira mantinha semelhanças com o modelo XT, e o motor Volkswagen 1600 com ventoinha vertical e carburador único garantia confiabilidade. O aumento das vendas e a crescente demanda por exportações impulsionaram a Gurgel a expandir suas operações. Em 1974, a empresa inaugurou uma nova fábrica em Rio Claro, São Paulo, projetada especificamente para abrigar as linhas de moldagem de carrocerias em fibra de vidro e a montagem mecânica. Essa instalação marcou um momento histórico, sendo a primeira unidade fabril construída sob medida para atender às necessidades da Gurgel, consolidando sua capacidade de produção em escala.

Em maio de 1975, a Gurgel lançou o modelo X-10, uma evolução do XTC que incorporava cerca de 120 modificações estéticas e mecânicas. A carroceria, reduzida em aproximadamente 15 cm, apresentava mudanças significativas, como o reposicionamento do estepe sob a tampa do capô, a integração do guincho na dianteira, um para-choque de fibra redesenhado para melhorar o ângulo de entrada, a realocação das entradas de ar para uma posição mais frontal, a criação de um túnel central estrutural e a introdução de um novo painel. No aspecto mecânico, a nova suspensão traseira foi projetada para minimizar a cambagem das rodas, aprimorando a estabilidade. O X-10 podia ser equipado com capota rígida, janelas corrediças e porta com chave, oferecendo maior conforto e segurança aos usuários. Em novembro de 1975, a Gurgel apresentou o X-12, uma versão civil derivada do X-12 M, desenvolvido para as Forças Armadas. Com 20 cm a menos que o X-10, o X-12 possuía balanços dianteiro e traseiro reduzidos, maior altura do solo, apenas dois faróis, e acessórios como pá e um galão sobressalente de 20 litros montado externamente, reforçando sua vocação utilitária. Paralelamente, a variante X-11, equipada com teto rígido, foi lançada, mas teve uma trajetória breve, sendo descontinuada em menos de um ano. Em agosto de 1976, a Gurgel Veículos apresentou o X-12 TR, uma evolução significativa do modelo X-12, projetada para combinar funcionalidade com maior conforto. O veículo trouxe de série um teto rígido, janelas de vidro deslizantes e uma porta de fibra de vidro, além de uma frente mais elevada com faróis embutidos e um porta-malas de maior capacidade. Essas modificações reforçaram o compromisso da Gurgel em atender às necessidades práticas de seus clientes, mantendo a identidade robusta e inovadora da marca. No X Salão do Automóvel, realizado no final de 1976, a Gurgel revelou duas novas versões baseadas no X-12, ampliando sua oferta para diferentes públicos. A primeira foi a versão a álcool, que adaptou o motor Volkswagen 1300 com uma taxa de compressão elevada de 6,8:1 para 10:1, além de ajustes no carburador e no coletor de admissão, alinhando-se à crescente demanda por combustíveis alternativos no Brasil. A segunda novidade foi o Gurgel Blue Jeans, uma versão voltada para o público jovem, com capota, bancos e portas revestidos em tecido jeans, além de rodas traseiras com talas largas, conferindo um visual moderno e descontraído. Nesse mesmo evento, a Gurgel anunciou uma garantia estendida de 100.000 km para sua carroceria monobloco em fibra de vidro e plasteel, reforçando a confiança na durabilidade de seus veículos. Outra estreia marcante no Salão foi o X-20, o primeiro utilitário com cabine avançada da marca, projetado para transportar até meia tonelada de carga, com possibilidade de adaptação para passageiros ou uso misto. Desenvolvido a partir de uma versão anterior criada para as Forças Armadas, o X-20 seguia a concepção básica do X-12, mas incorporava um motor Volkswagen 1600, um vão livre de 360 mm e ângulos de ataque e saída de 65° e 45°, respectivamente. Esses atributos, aliados ao reduzido balanço dianteiro e à elevada distância do solo, tornavam o X-20 excepcionalmente versátil para terrenos desafiadores.
Em 1978, a Gurgel lançou o X-12 E, uma variante totalmente equipada do X-12, projetada para oferecer maior economia por meio de uma nova regulagem do motor Volkswagen 1600. A carroceria passou por pequenas alterações, incluindo lanternas traseiras inspiradas no Chevrolet Chevette, um novo mecanismo de abertura da capota com tecido diferenciado, uma tampa de motor redesenhada e a introdução de cintos de segurança de três pontos, um marco em segurança para os veículos da marca. Em 1979, o X-12 passou por uma reformulação significativa, mantendo sua essência técnica, mas com foco renovado no conforto, espaço interno e acabamento. A carroceria ficou levemente mais larga e mais baixa, com portas ampliadas e a opção de rodas em cores claras e design moderno. As linhas do veículo ganharam proporções mais equilibradas, destacando-se a nova frente com faróis encaixados em uma base quadrada, sem a grade de proteção, conferindo um visual mais refinado. O painel foi redesenhado, e o galão sobressalente foi reposicionado do lado esquerdo para o direito, otimizando o espaço e a estética. O ano de 1980 marcou um momento de grande conquista para a Gurgel, com a produção de seu 8.000º veículo e um recorde anual de 1.872 unidades fabricadas. Nesse período, foi lançado o X-12 “Modelo 81”, que trouxe avanços significativos, como uma nova suspensão dianteira, freios a disco nas rodas dianteiras, tela de proteção nas entradas de ar, bancos dianteiros com novo formato e fixação aprimorada, além de melhorias na iluminação e no acabamento interno. Essas atualizações reforçaram a posição da Gurgel como uma marca comprometida com a inovação contínua e a satisfação de seus clientes. Em 1988 o Gurgel X-12 seria rebatizado como Tocantins, tendo como destaque a adoção da ignição eletrônica, novos faróis retangulares e grade com três elementos horizontais. A capota foi alongada em 200 mm para aumentar o espaço traseiro e pôr fim a suspensão ganhou barra estabilizadora dianteira e nova molas traseiras. Rápido moderno e arrojado, o Gurgel X-12 foi o principal produto da Gurgel durante a maior parte de sua existência, tendo atingido a cifra de mais de 16.000 unidades entregues. No entanto no início da década de 1990 com a abertura do mercado o modelo encontrou obstáculos com a crescente pressão dos jipes importados, aliado a este cenário, os planos excessivamente ambiciosos para a limitada capacidade administrativa e financeira da Gurgel acelerariam o processo de degradação da empresa. Para a conclusão da fábrica do Nordeste e instalação das máquinas importadas da França, João Augusto contava com participação financeira de US$ 185 milhões, oriunda dos governos dos Estados de São Paulo e Ceará, da Sudene e de um empréstimo do BNDES. Porém a participação dos dois governos, de fato, não aconteceu, o que também levou ao cancelamento da operação de apoio financeiro do BNDES. A partir daí foi rápido o processo de aniquilamento: impossibilitada de iniciar a produção do Delta por falta de recursos para a conclusão das linhas de fabricação e sem condições de cumprir seus compromissos frente aos fornecedores, no ano seguinte a Gurgel requereu concordata. Não tendo obtido resposta favorável às solicitações de apoio subsequentes, enviadas à Presidência da República, e após a manifestação final do MICT, em fevereiro de 1994, expressamente contrária ao aporte de recursos públicos na empresa, “quer sob a forma de empréstimo, quer sob a forma de participação societária”, sua falência foi finalmente solicitada. 

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A história da utilização de veículos utilitários leves com tração integral 4x4, conhecidos como jipes, nas Forças Armadas Brasileiras teve início em 1942, no contexto da adesão do Brasil ao programa norte-americano Lend-Lease Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos). Esse acordo, firmado durante a Segunda Guerra Mundial, previa a cessão de aproximadamente dois mil jipes ao Brasil, sem padronização por fabricante ou modelo. Não há registros oficiais que detalhem a proporção de veículos fornecidos pela Ford Motor Company ou pela Willys-Overland Company, mas os primeiros lotes, compostos por veículos novos e usados provenientes da frota e da reserva estratégica do Exército dos Estados Unidos, começaram a chegar ao país a partir de março de 1942. Dentre esses veículos, 655 foram enviados diretamente à Itália para equipar a Força Expedicionária Brasileira (FEB). A experiência operacional adquirida pelo Exército Brasileiro em um cenário de conflagração com os jipes foi inestimável, moldando a doutrina motomecanizada do Exército Brasileiro nas décadas seguintes. A frota de jipes, complementada por outros veículos de transporte, proporcionou às Forças Armadas Brasileiras, especialmente ao Exército Brasileiro, uma capacidade de mobilidade sem precedentes entre as décadas de 1940 e 1950. Essa mobilidade fortaleceu as operações de infantaria, permitindo maior agilidade e eficiência em diversos cenários. Com o passar dos anos, o desgaste operacional e a obsolescência dos jipes começaram a impactar sua disponibilidade. A falta de manutenção adequada e a dificuldade de obtenção de peças de reposição, tendo em vista que muitos destes modelo tiveram sua produção descontinuada, agravaram o cenário, resultando em índices preocupantes de veículos inoperantes. Para enfrentar essa crise, o governo brasileiro negociou com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos a aquisição de novos lotes de jipes usados, classificados como material excedente de guerra (war surplus). Desta maneira dentro dos termos dos programas de ajuda militar seriam cedidos um grande numero de veículos deste tipo  provenientes dos estoques estratégicos norte-americanos. Ao serem recebidos estes passariam a substituir os substituíram as viaturas mais antigas e desgastadas, ajudando a restaurar parte da capacidade operacional do Exército Brasileiro. No final da década de 1950, o Exército Brasileiro intensificou a modernização de sua frota com a incorporação de jipes produzidos no período pós-guerra, como os modelos Willys M-38A1 e M-38A1-C, este último equipado com canhões sem recuo M-40 de 106 mm. Essas aquisições apesar de em reduzida escala representaram um avanço significativo, trazendo maior confiabilidade e adaptabilidade às operações militares.

Apesar deste movimento de renovação com  a incorporação dos "novos"  Willys M-38A1 e M-38A1-C, a rota de jipes das Forças Armadas Brasileiras ainda enfrentava desafios significativos. As quantidades recebidas eram insuficientes para atender às reais necessidades de reequipamento, evidenciando a urgência de renovar esses veículos utilitários leves com tração 4x4. Estudos preliminares indicavam a necessidade de adquirir entre 300 e 600 novos jipes, com preferência por modelos modernos, como as versões atualizadas do Willys M-38 e do Ford M-151 Mutt. Contudo, os altos custos associados a essa aquisição tornavam a iniciativa economicamente inviável à época, face as limitadas dotações orçamentárias. Diante desse cenário, a partir de 1959, o governo brasileiro voltou seus olhares para a indústria automotiva nacional, buscando uma alternativa mais acessível que atendesse às demandas das Forças Armadas e, ao mesmo tempo, impulsionasse a economia do país. A Willys-Overland do Brasil S/A emergiu como uma candidata promissora, oferecendo em seu portfólio modelos como os Jeeps CJ-3, CJ-4 e CJ-5. Dentre eles, o CJ-5 destacou-se como a melhor opção, combinando robustez, versatilidade e uma relação custo-benefício vantajosa. O Jeep militarizado desenvolvido pela Willys-Overland do Brasil rapidamente conquistou a confiança do Exército Brasileiro, sendo homologado para uso militar em 1961. Em outubro daquele ano, um contrato para o fornecimento de duzentas viaturas foi assinado, marcando um passo significativo na modernização da frota militar brasileira. Esse veículo, projetado com atenção aos detalhes e às demandas operacionais, combinava robustez, versatilidade e acessibilidade, refletindo o compromisso da indústria nacional em fortalecer as Forças Armadas enquanto impulsionava a economia do país. A nova versão, designada como Viatura de Transporte Não Especializado 4x4 (VTNE), incorporou modificações que a tornaram ideal para o uso militar. Os jipes ¼ tonelada com tração integral 4x4, produzidos pela Willys-Overland do Brasil nos modelos CJ-5 e CJ-6, tornaram-se peças fundamentais nas operações das três Forças Armadas Brasileiras — Exército, Marinha e Força Aérea. Esses veículos, adaptados para uso militar, destacaram-se pela versatilidade, desempenhando papéis em uma ampla gama de atividades, desde operações administrativas até missões especializadas. Variantes como as versões bombeiro e viatura policial, esta última equipada com sirenes ROTAM no para-lama direito para uso pela Polícia do Exército (PE), e a versão “canhoneiro” ¼ tonelada CSR (canhão sem recuo), utilizada pelo Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), demonstraram a capacidade de adaptação do Jeep às demandas específicas de cada instituição militar. A Willys-Overland do Brasil consolidou-se como a principal fornecedora de viaturas não blindadas para as Forças Armadas, especialmente para o Exército Brasileiro, por meio de sucessivos contratos de aquisição. 
Na década de 1970, as Forças Armadas Brasileiras passaram a priorizar a aquisição de veículos militares de fabricação nacional, impulsionando o desenvolvimento de montadoras estabelecidas no país, como a Ford do Brasil S/A, a Willys Overland S/A e a Dodge Chrysler do Brasil, entre outras multinacionais. Esse movimento refletia um esforço para fortalecer a indústria automotiva local, promovendo a independência tecnológica e econômica. Nesse cenário, a Gurgel Indústria e Comércio de Veículos S/A, uma empresa paulista em seus primeiros anos de atuação, começou a ganhar destaque no mercado automotivo brasileiro com o lançamento do utilitário off-road X-10 Xavante. O Xavante, lançado no início da década, destacou-se por sua robustez, facilidade de manutenção e operação eficiente, características que o tornaram uma alternativa atraente para o público rural. Comparado aos jipes importados ou produzidos localmente, como o Toyota Bandeirante e o Jeep Willys, que eram mais caros e complexos devido à tração 4x4, o Xavante oferecia uma solução prática e econômica. Sua concepção, que mesclava elementos de buggy e jipe, conquistou uma fatia significativa do mercado rural, consolidando a Gurgel como uma marca inovadora e alinhada às necessidades do Brasil. O sucesso do X-10 Xavante no mercado civil inspirou a diretoria da Gurgel, liderada por João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, a explorar novas oportunidades, incluindo o segmento de defesa. Reconhecendo o potencial de seus veículos para operações militares, a empresa passou a oferecer seu portfólio às Forças Armadas Brasileiras. O X-10 Xavante destacou-se como o modelo mais adequado para esse propósito, graças à sua capacidade de operar em terrenos fora de estrada, baixo custo de aquisição e manutenção, e design versátil. Para atender às exigências militares, João Augusto Gurgel customizou duas unidades do X-10 Xavante para testes, adaptando-as com características que remetiam aos jipes tradicionais. As modificações incluíram um para-brisa rebatível, capota de lona, chassi com boa distância do solo e a adição de acessórios específicos, como guincho mecânico, pás e um galão suplementar de combustível. Essas alterações, embora simples, tornaram o veículo ainda mais funcional para operações em condições adversas. Apesar de não contar com tração nas quatro rodas, uma característica presente em concorrentes como o Toyota Bandeirante (equipado com motor diesel Mercedes) e o Jeep Willys (posteriormente produzido pela Ford), o X-10 Xavante compensava essa limitação com o inovador sistema Selectraction. Esse mecanismo, patenteado pela Gurgel, funcionava como um diferencial autoblocante manual, permitindo que a potência do motor fosse direcionada à roda com maior aderência em situações de baixa tração. Combinado com a leveza do veículo e sua construção em fibra de vidro com chassi plasteel, o Selectraction garantia um desempenho off-road satisfatório, especialmente em condições menos exigentes.

O X-10 Xavante oferecia uma relação custo-benefício altamente competitiva, com um preço significativamente inferior ao de seus concorrentes, que exigiam maior investimento inicial e custos de manutenção mais elevados devido à sua complexidade mecânica. Além disso, o apelo nacionalista da Gurgel, uma marca genuinamente brasileira, ressoava com os valores de soberania e desenvolvimento industrial defendidos pelas Forças Armadas.  Assim sendo no início do ano de 1974, estes dois protótipos do Gurgel X-10 “militarizados” foram disponibilizados ao Exército Brasileiro para serem submetidos a testes de campo em Marambaia, no Rio de Janeiro. Apesar de receber elogios quanto ao desempenho no campo de batalha simulada, sua aquisição não seria recomendada, com esta negativa sendo baseada na composição em fibra de vidro da carroceira. Os militares envolvidos neste programa afirmavam que, caso uma explosão estilhaçasse a carroceria do veículo, os fragmentos alojados no corpo dos ocupantes não seriam identificados por equipamentos de raio x, dificultando assim o tratamento de feridos em combate. Porém como sempre João Amaral Gurgel resolveria o problema brilhantemente, sua ideia surgiria em uma conversa com um médico especialista, com a solução sendo baseada na introdução de sulfato de bário na composição da carroceria, substância esta, originalmente empregada como contraste nas radiografias do estômago. Desta maneira, uma nova reunião seria solicitada junto ao comando do Exército Brasileiro, nesta oportunidade João Amaral Gurgel, apresentaria como prova da solução do problema, uma radiografia de uma almofada permeada com estilhaços de fibra de fibra, com estes pequenos pedaços aparecendo em destaque. Convencidos da desta solução, seriam iniciadas as primeiras tratativas visando a aquisição de um primeiro lote destes veículos.  Um contrato seria celebrado em meados do mesmo, com os primeiros Gurgel X-10 Xavante “militarizados” passando a ser entregues as unidades operativas do Exército Brasileiro a partir de abril do ano de 1975. Já em uso, o modelo da montadora nacional, conquistaria rapidamente a confiança de seus usuários, com este status sendo motivado pelo seu excelente ângulo de saída e ataque, com a carro dificilmente raspando em alguma superfície, graças ao grande ângulo de entrada de 63º e de saída com 41º. E apesar de possuir tração 4X2 , o emprego do sistema Selectration, se mostrava muito eficiente em atoleiros, com este conjunto deixando o Gurgel X-10 Xavante mais leve e econômico, permitindo relativa agilidade, proporcionada pelo motor Volkswagen Boxter 1600, que lhe rendia 60 cv de potência a 4.600rpm e torque de 12kgfm, que levava o carro de  de 0 à 100km/h em longos 38 segundos. Em 1975 a Gurgel, lançaria no mercado civil seu novo modelo o Gurgel X-12 que manteve o desing básico do X-10 Xavante, porém com partes da estrutura em plástico reforçado com fibra de vidro, curiosamente a evolução deste modelo fora originada de um estudo solicitado pelo próprio Exército Brasileiro para uma versão melhorada do modelo anterior.
O modelo militar original receberia a designação de X-12M, sendo adquirido inicialmente em larga escala pela Força Terrestre e posteriormente pela Marinha do Brasil, para o emprego junto as unidades de infantaria anfíbia do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha (CFN).  Esta nova versão militar, apresentava as dimensões de 3,28 m de comprimento, 1,60 m de largura com peso de 770 kg, possuindo novo modelo de para-brisas rebatível, gancho traseiro para reboque e guincho mecânico dianteiro. Estavam ainda equipados com rodas especiais e pneus lameiros para operação em terrenos moles ou fofos para poder operar com facilidade em qualquer tipo de terreno. Seu pequeno porte possibilitava transporte em aeronaves de carga da Força Aérea Brasileira, podendo ainda ser lançado em voo por aeronaves Lockheed C-130E/H Hercules.  A próxima versão a ser desenvolvida, o Gurgel X-12TR , passaria a contar com teto rígido em fibra de vidro, com sua derivação militar o Gurgel X-12TRM, sendo inicialmente adotado pela Força Aérea Brasileira, com emprego destinado a tarefas de transporte administrativo e tracionamento de pequenas carretas lançadoras de foguete para calibração de estação de radar e medições meteorológicas. Curiosamente algumas unidades pertencentes aos Batalhões de Infantaria da Aeronáutica Especial (BINFAE, seriam armadas com metralhadoras fixas de calibre de 12,7 mm, sendo estes carros destinados a missões de patrulha orgânicas em suas bases áreas espalhadas por todo o território nacional. Durante mais de 20 anos os jipes Gurgel X-10 Xavante  e X-12  Tocantins, serviram não só as Forças Armadas Brasileiras e policias militares, mas também a exércitos de outros oito países inclusive no Oriente Médio, África e América do Sul. Neste contexto, o Exército Brasileiro se tornaria o maior operador militar dos carros produzidos pela  Gurgel S/A Industria e Comércio de Veículos, chegando também a empregas os utilitários Gurgel X-15 e X-20. O encerramento das atividades da montadora no ano de 1994, não afetariam a disponibilidade da frota de veículos X-12 Tocantins em uso militar no Brasil  (tendo em vista que o X-10 havia sido retirado de serviço no início da década de 1990),  com este fato se dando muito em função do emprego da mecânica Volkswagen, que proporcionava normalidade no fluxo de obtenção de peças de reposição. Sua gradual substituição no Exército Brasileiro e Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) teve início em fins da década de 1980, com o recebimento nos novos jipes e utilitários produzidos pela Toyota & Bernardini e Engesa S/A. Os últimos Gurgel X-12 militares em serviço na Força Terrestre e na Força Aérea Brasileira, foram retirados no início dos anos 2000, com muitos exemplares adquiridos em leiloes por entusiastas e colecionadores. 

Em Escala.
Para representarmos o VTrAdm TNE  Gurgel Tocantins X-12TRM  "EB 34-13168“, do Exército Brasileiro, fizemos uso do modelo em die cast produzido pela Axio na escala 1/43 para a "Coleção Veículos de Serviço do Brasil" da Editora Altayia. Procedemos a customização para a versão militar. Empregamos decais confeccionados pela decais Eletric Products pertencentes ao set  "Exército Brasileiro "Veículos Militares Brasileiros 1944 - 1982".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático do Exército Brasileiro aplicado em todos seus veículos militares desde a Segunda Guerra Mundial até a o final do ano de 1982, quando este esquema foi substituído por uma camuflagem em dois tons. No entanto não  existem registros fotográficos dos veículos da Gurgel com este novo padrão. Salientamos que os carros em uso pelo Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) e pela Força Aérea Brasileira (FAB), fizeram uso de outros padrões de pintura.

Bibliografia:
- Gurgel, o engenheiro que ousou sonhar - http://revistaautoesporte.globo.com
- Gurgel: o engenheiro que virou carro - https://quatrorodas.abril.com.br
- Veículos Militares Brasileiros – Roberto Pereira de Andrade e José S Fernandes
- Exército Brasileiro - http://www.exercito.gov.br