A-28A Lockheed Hudson

História e Desenvolvimento.
A Lockheed Aircraft Manufacturing Company, tradicional empresa norte-americana do setor aeronáutico, foi fundada em 1912 pelos irmãos Allan e Malcolm Lockheed, na cidade de San Diego, no estado da Califórnia. Em sua fase inicial, a companhia concentrou seus esforços no projeto e na fabricação de aeronaves de pequeno porte, destinadas sobretudo ao turismo aéreo e ao treinamento civil, segmentos que então despontavam como promissores no nascente mercado da aviação. Ao longo das décadas seguintes, a empresa experimentou um crescimento gradual em suas vendas e em sua reputação técnica. Entretanto, o encerramento da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, trouxe profundas transformações para a indústria aeronáutica mundial. A súbita desmobilização de grandes frotas militares resultou na disponibilidade de milhares de aeronaves excedentes, vendidas a preços reduzidos e amplamente absorvidas pelo mercado civil. Esse cenário provocou uma retração severa na demanda por novos projetos, gerando uma crise generalizada que levou ao fechamento de diversas fabricantes, entre elas a própria Lockheed Aircraft Manufacturing Company. Com a suspensão das atividades da empresa, Allan e Malcolm Lockheed passaram a direcionar seus esforços empresariais para outros setores, em busca de novas oportunidades que lhes garantissem estabilidade financeira. Essa fase, contudo, não representou o abandono definitivo da aviação. Em 1926, Allan Lockheed associou-se aos engenheiros John Northrop, Kenneth Kay e Fred Keeler para fundar um novo empreendimento, agora denominado Lockheed Aircraft Company, estabelecido em Hollywood, Califórnia. Amparados por investidores privados, o grupo conseguiu reunir os recursos necessários para retomar a produção aeronáutica, utilizando como base tecnológica os avanços obtidos anteriormente com o Modelo S-1. A partir dessa experiência, foi desenvolvido o Lockheed Vega, aeronave que rapidamente se tornaria o primeiro grande sucesso comercial da nova companhia. O êxito foi tal que, em 1928, a empresa transferiu sua sede para Burbank, consolidando sua expansão industrial. Ao final daquele ano, as vendas já ultrapassavam a marca de um milhão de dólares, com uma produção que alcançava centenas de aeronaves e uma força de trabalho superior a trezentos funcionários, operando em uma linha de montagem capaz de concluir até cinco unidades por semana. Em julho de 1929, Fred Keeler, então acionista majoritário, negociou a venda de 87% das ações da Lockheed para a Detroit Aircraft Corporation, abrindo caminho para um ambicioso plano de expansão. Contudo, a eclosão da Grande Depressão, no mesmo ano, afetou de forma devastadora a economia norte-americana e, em particular, o setor aeronáutico. Como resultado, a Lockheed enfrentou sérias dificuldades financeiras, culminando em sua insolvência. Em 1932, durante o processo de liquidação judicial, a companhia foi adquirida por um grupo de investidores liderado pelos irmãos Robert e Courtland Gross, em associação com Walter Varney. Essa aquisição marcou o início de uma nova fase na história da empresa, caracterizada por uma bem-sucedida recuperação ao longo da década de 1930, impulsionada pelo desenvolvimento de projetos inovadores e tecnicamente avançados. 

Apesar das severas adversidades enfrentadas ao longo da década de 1920 e no início dos anos 1930, a Lockheed conseguiu restabelecer, em curto espaço de tempo, a confiança do mercado civil e comercial dos Estados Unidos. Esse processo de recuperação foi simbolizado pelo lançamento do Lockheed Model 10 Electra, uma aeronave moderna, inteiramente construída em metal e com capacidade para transportar até dez passageiros. O sucesso do Electra não apenas consolidou a reputação técnica da empresa, como também representou um marco de maturidade industrial, evidenciando a capacidade da Lockheed de competir em um mercado cada vez mais exigente e tecnologicamente sofisticado. A partir de meados de 1934, um novo e significativo horizonte comercial passou a se delinear para a Lockheed Aircraft Corporation. Em diversos países europeus, crescia a percepção de que a eclosão de um novo conflito armado no continente era apenas uma questão de tempo, diante da escalada de tensões políticas e militares. Os amplos programas de rearmamento conduzidos pela Alemanha, mesmo sob as restrições impostas pelo Tratado de Versalhes, e pela Itália fascista, despertaram preocupação em nações como França e Reino Unido, além de, em menor escala, Bélgica e Países Baixos. Como resposta, esses países iniciaram processos de modernização e expansão de suas forças armadas, ainda que de forma tardia. Entretanto, as indústrias de defesa europeias mostraram-se incapazes de atender, em prazo reduzido, às crescentes e urgentes demandas militares, especialmente no campo do poder aéreo, considerado cada vez mais decisivo em um eventual conflito futuro. Diante dessa limitação, os governos europeus voltaram-se para o mercado internacional, buscando equipamentos produzidos principalmente nos Estados Unidos, cuja indústria aeronáutica já demonstrava elevada capacidade produtiva e tecnológica. Nesse contexto, o governo britânico destacou-se como o mais ativo e determinado nesse esforço de reequipamento, empenhando-se na renovação de sua frota aérea, com ênfase em aeronaves destinadas a missões de bombardeio, transporte, patrulha marítima e guerra antissubmarino. Entre os modelos considerados obsoletos pela Força Aérea Real (Royal Air Force – RAF) encontravam-se os bimotores leves Avro Anson Model 18, então empregados em tarefas de reconhecimento e patrulhamento marítimo, mas já inadequados frente às exigências operacionais emergentes. Essa demanda foi rapidamente identificada pela alta administração da Lockheed Aircraft Corporation, que vislumbrou um mercado potencial de grandes proporções nesse segmento específico. Demonstrando visão estratégica e disposição para assumir riscos calculados, a empresa decidiu, em fevereiro de 1938, iniciar com recursos próprios o desenvolvimento de uma nova aeronave militar, concebida para missões de reconhecimento, patrulha marítima e bombardeio leve. Com o objetivo de acelerar o cronograma de desenvolvimento e racionalizar os investimentos, a nova aeronave foi projetada com base na plataforma do bimotor civil Lockheed Model 14 Super Electra, já comprovado em termos de desempenho e confiabilidade. 
O programa recebeu a designação interna Lockheed Model B-14, e seus trabalhos avançaram com notável celeridade, culminando na construção de um modelo em madeira (mock-up), empregado na avaliação preliminar da configuração geral e das soluções técnicas propostas. Esses esforços coincidiram com a presença, nos Estados Unidos, de uma comissão britânica de compras militares, incumbida de analisar potenciais aquisições destinadas à Força Aérea Real (Royal Air Force – RAF). Aproveitando essa conjuntura favorável, a Lockheed convidou os oficiais britânicos para uma apresentação formal em suas instalações, na qual expôs de maneira detalhada a proposta de uma nova aeronave voltada às missões de patrulha marítima e guerra antissubmarino. A apresentação causou impressão bastante positiva entre os representantes britânicos, que reconheceram no projeto uma resposta promissora às necessidades emergentes da RAF. Como desdobramento imediato, foi formalizado um convite para que a diretoria da Lockheed visitasse o Reino Unido, a fim de aprofundar as discussões técnicas e avaliar a viabilidade do projeto à luz dos requisitos operacionais britânicos. Para atender ao novo perfil operacional exigido, a plataforma do Lockheed Model 14 Super Electra passou por profundas modificações estruturais e funcionais. Entre as alterações mais relevantes destacou-se a incorporação de um compartimento ventral destinado ao transporte de bombas, bem como a adaptação da aeronave para receber duas torres elétricas equipadas com metralhadoras Browning calibre .50, destinadas à autodefesa. Assim configurado, o projeto — ainda sob a designação Lockheed Model B-14  foi apresentado ao comando da RAF como uma solução adequada para substituir os então obsoletos Avro Anson empregados em missões de patrulha e reconhecimento marítimo. Após a análise inicial pelo corpo técnico britânico, o projeto recebeu uma série de solicitações de aprimoramento. Entre as modificações mais significativas destacou-se a reconfiguração da estação do navegador, originalmente localizada na seção traseira da fuselagem, que foi transferida para a parte frontal da aeronave. Essa mudança exigiu o redesenho do nariz, adaptado para acomodar o tripulante em sua nova posição e, adicionalmente, permitir a instalação de armamentos de tiro frontal, ampliando o potencial da aeronave em missões de ataque a alvos de superfície. Curiosamente, em função da necessidade de cumprir um cronograma bastante apertado, o modelo manteve as janelas laterais características da versão civil, um traço distintivo que acompanharia as primeiras séries de produção. Em 10 de outubro de 1938, o primeiro protótipo da aeronave, já incorporando as modificações solicitadas, foi oficialmente apresentado às autoridades britânicas, recebendo a designação formal de Lockheed Model B-14. Submetido a um programa acelerado de ensaios em voo, o protótipo obteve rapidamente a homologação para produção em série. Em serviço, a aeronave passou a ser conhecida como Hudson Mk.I. Em dezembro do mesmo ano, foi firmado um contrato inicial para a aquisição de 200 unidades, com as primeiras entregas ocorrendo no início de fevereiro de 1939 ao 224º Esquadrão de Bombardeio, sediado na Escócia. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea Real (RAF) ampliou substancialmente suas encomendas, totalizando mais de 800 aeronaves distribuídas entre as versões Hudson Mk.II, Mk.III, Mk.IV, Mk.V e Mk.VI.

Além do serviço britânico, a família Lockheed Hudson foi incorporada ao programa da Lei de Empréstimos e Arrendamentos (Lend-Lease Act), sendo fornecida a numerosas forças aéreas aliadas, incluindo as da Austrália, África do Sul, Canadá, Birmânia, França Livre e Nova Zelândia. Nessas nações, as aeronaves desempenharam uma ampla gama de missões  patrulha marítima, ataque, transporte e guerra antissubmarino (ASW)  assumindo um papel de grande relevância ao longo de todo o conflito e consolidando-se como um dos mais importantes bimotores de patrulha do início da Segunda Guerra Mundial. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, em 7 de dezembro de 1941, representou um ponto de inflexão decisivo que alçou a Lockheed Aircraft Corporation à condição de um dos principais fornecedores estratégicos das forças armadas norte-americanas. A partir desse momento, a empresa consolidou-se como um ator central no esforço de guerra aliado, destacando-se pela produção em larga escala de aeronaves e sistemas considerados vitais para a condução do conflito. Nesse contexto, o bombardeiro e avião de patrulha bimotor Lockheed A-28 Hudson afirmou-se como um de seus produtos mais relevantes. Produzido em diversas variantes, o modelo passou a ser amplamente empregado tanto pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Corps – USAAC) quanto pela Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy). Nos momentos imediatamente posteriores ao ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, no Havaí, uma decisão de caráter emergencial determinou o redirecionamento de grande parte das aeronaves inicialmente destinadas à exportação, sobretudo à Força Aérea Real britânica (RAF), para o atendimento das necessidades defensivas dos Estados Unidos. Esse remanejamento visava reforçar, com rapidez, os efetivos aéreos estacionados na costa oeste norte-americana e nas ilhas estratégicas do Oceano Pacífico, consideradas particularmente vulneráveis naquele estágio inicial do conflito. Dessa forma, os Lockheed A-28 Hudson passaram a desempenhar um papel essencial nas primeiras fases da participação americana na guerra, especialmente em missões de patrulha marítima e guerra antissubmarino (ASW). Atuando tanto no teatro europeu quanto no Pacífico, essas aeronaves operaram de maneira complementar aos hidroaviões Consolidated PBY-5 Catalina, demonstrando elevada versatilidade, confiabilidade e eficiência operacional em ambientes marítimos extensos e hostis. O Hudson também se notabilizou por uma série de feitos históricos que reforçaram sua importância simbólica e operacional. Em 8 de outubro de 1939, um exemplar da RAF tornou-se a primeira aeronave projetada e construída nos Estados Unidos a abater um avião inimigo durante a Segunda Guerra Mundial, ao derrubar um hidroavião Dornier Do 18 da Luftwaffe durante uma missão de patrulha no Mar do Norte. Posteriormente, em 27 de agosto de 1941, o modelo alcançou outro marco significativo ao se tornar a primeira aeronave britânica a afundar um submarino alemão, o U-656, do Tipo VIIC, mediante o emprego de cargas de profundidade. No serviço naval norte-americano, a versão designada Lockheed PBO-1 Hudson também se destacou de maneira pioneira. Essas aeronaves foram responsáveis pela destruição dos dois primeiros submarinos alemães afundados por ação aérea dos Estados Unidos, além de figurarem entre as primeiras a empregar foguetes não guiados em operações antissubmarino, introduzindo uma inovação tática relevante no combate naval aéreo.
Do ponto de vista técnico, os exemplares da série B-414 equipados com motores Pratt & Whitney Twin Wasp receberam as designações A-28 e A-28A no âmbito do USAAC, enquanto aqueles motorizados com Wright Cyclone foram classificados como A-29 e A-29A. Essa diversidade de configurações refletiu tanto as exigências operacionais distintas quanto a necessidade de racionalizar a produção em um período de mobilização industrial sem precedentes. Pouco antes do envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) transferiu à Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) a responsabilidade pela execução das missões de guerra antissubmarino ao longo do litoral norte-americano. Em decorrência dessa decisão, a Marinha buscou aprimorar seus recursos aéreos de patrulha, o que resultou na transferência de todos os contratos de produção existentes. Para atender de forma mais eficaz aos requisitos técnicos das missões de patrulha, as aeronaves a serem fabricadas passaram por uma série de modificações estruturais e funcionais. A partir do final de 1942, entraram em serviço os novos Lockheed-Vega PV-1 Ventura B-34, seguidos, em 1943, pelos Lockheed-Vega PV-2 Harpoon B-34A. Esses modelos apresentavam desempenho superior e maior capacidade para missões especializadas, substituindo gradualmente os Lockheed A-28 Hudson na linha de frente. Até maio de 1943, cerca de três mil unidades haviam sido produzidas, e muitas aeronaves em bom estado ainda estavam operacionais. Esse cenário levou o comando da Força Aérea Real (Royal Air Force) a optar pelo uso dessas aeronaves em missões de transporte de pessoal e carga. Para tanto, as aeronaves foram adaptadas localmente, com a remoção de sistemas defensivos e ofensivos de armamento, blindagem e equipamentos eletrônicos voltados para patrulha e guerra antissubmarino (ASW). Assim, no final de 1943, as primeiras unidades convertidas começaram a ser utilizadas. Esse modelo de conversão foi posteriormente adotado pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) e pela Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), que passaram a operar os Lockheed Model 18 C-60 e C-66 Lodestar, aeronaves já projetadas especificamente para transporte de carga e pessoal. O uso dessas aeronaves foi otimizado pelo compartilhamento de peças de reposição comuns. Após o término do conflito, em setembro de 1945, a frota remanescente dessas aeronaves, tanto norte-americanas quanto britânicas, foi retirada do serviço ativo e transferida para o mercado civil. Lá, elas foram empregadas em atividades como transporte de passageiros e aerofotogrametria, permanecendo em operação pelo menos até o final da década de 1960. O Lockheed A-28 Hudson, em suas versões adaptadas para transporte militar, continuou a ser utilizado no pós-guerra por forças armadas de diversos países, incluindo Brasil, Austrália, Holanda, Israel, Trindade e Tobago e Portugal. As últimas unidades dessas aeronaves foram desativadas em meados da década de 1950.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente apreensão a possibilidade de uma projeção militar das potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão  em direção ao continente americano. Essa preocupação intensificou-se de forma significativa após a capitulação da França, em junho de 1940, evento que alterou profundamente o equilíbrio estratégico no Atlântico. Com a derrota francesa, abriu-se a perspectiva de que a Alemanha nazista pudesse estabelecer bases operacionais em territórios até então sob controle francês, como as Ilhas Canárias, Dacar e outras possessões coloniais na África, criando condições favoráveis para uma eventual ofensiva transatlântica. Nesse cenário, o Brasil passou a ser percebido como um dos pontos mais sensíveis e estratégicos do continente. Sua proximidade geográfica com a costa africana região que figurava nos planos de expansão alemães  colocava o país em posição particularmente vulnerável a incursões aéreas e navais. Paralelamente, o avanço japonês no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul elevou ainda mais a importância estratégica do Brasil, que se tornou o principal fornecedor de látex para os países Aliados, insumo indispensável à produção de borracha e, consequentemente, à indústria de guerra. A relevância do território brasileiro não se limitava aos recursos naturais. A extensa costa atlântica, em especial a região Nordeste, apresentava-se como local privilegiado para a instalação de bases aéreas e portuárias de caráter militar. A cidade do Recife, em particular, destacou-se por sua posição geográfica singular, constituindo o ponto mais curto entre os continentes americano e africano e consolidando-se como elo fundamental para o trânsito de aeronaves, tropas e suprimentos destinados aos teatros de operações da Europa e do Norte da África. Diante dessas circunstâncias, consolidou-se uma rápida e progressiva aproximação política, econômica e militar entre Brasil e Estados Unidos, materializada por meio de acordos de cooperação estratégica e investimentos em infraestrutura. A crescente ameaça representada pelos submarinos alemães e italianos ao longo da costa brasileira passou a ser enfrentada de forma mais sistemática após a declaração de guerra do Brasil às potências do Eixo, em agosto de 1942. A partir desse marco, a Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy) iniciou a operação regular de esquadrões dedicados à guerra antissubmarino, utilizando bases estabelecidas majoritariamente no litoral nordestino brasileiro. Nesse mesmo período, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB) ainda enfrentava limitações consideráveis. Carente de treinamento especializado e de meios adequados para missões de patrulha marítima, a força aérea herdara das antigas Aviações Militar e Naval uma frota predominantemente obsoleta. Mesmo os modelos mais modernos então disponíveis, como o Vultee V-11 e o Focke-Wulf FW-58 Weihe, mostravam-se insuficientes para atender às exigências operacionais impostas pela guerra antissubmarino. Ainda assim, cabia à aviação brasileira a árdua tarefa de vigiar extensas áreas marítimas e proteger as rotas de navegação militar e mercante, constantemente ameaçadas pela ação dos submarinos do Eixo. Diante dessa realidade, tornou-se imperativo um esforço emergencial de modernização dos meios aéreos de patrulha da Força Aérea Brasileira. Esse processo ganhou impulso decisivo com a criação da Comissão de Compras de Material Aeronáutico, sediada nos Estados Unidos, órgão responsável por identificar, selecionar e adquirir aeronaves e equipamentos capazes de atender às novas exigências operacionais. A atuação dessa comissão representou um passo fundamental no fortalecimento da capacidade defensiva do Brasil e na integração efetiva do país ao esforço aliado durante a Segunda Guerra Mundial.

A adesão do governo brasileiro ao Lend-Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos) constituiu um marco decisivo na consolidação do alinhamento estratégico do Brasil com os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Por meio desse programa, o país obteve uma linha de crédito inicial da ordem de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material bélico moderno. Esse aporte financeiro viabilizou o acesso a aeronaves, veículos blindados, carros de combate e outros meios militares indispensáveis para enfrentar a crescente ameaça representada pelos submarinos alemães e italianos que operavam no Atlântico Sul. Tais ações hostis colocavam em risco a navegação civil e militar, afetando diretamente o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos, fortemente dependente do fluxo contínuo de matérias-primas estratégicas fundamentais para a indústria de guerra norte-americana. Nesse contexto, a participação brasileira no esforço aliado gradualmente assumiu maior relevância política e militar. O presidente Getúlio Vargas deixou claro que o Brasil não se restringiria ao papel de mero fornecedor de recursos estratégicos, sinalizando a disposição do governo em ampliar sua contribuição ao conflito, inclusive com a possibilidade de emprego direto de forças militares em teatros de operações no exterior. Entretanto, antes que tal projeção pudesse ser concretizada, o agravamento das operações de submarinos do Eixo ao longo da costa brasileira impôs à Força Aérea Brasileira (FAB) a necessidade imediata de executar missões de patrulha marítima e combate antissubmarino, mesmo sem dispor, naquele momento, de meios plenamente adequados para esse tipo de operação. Assim, aeronaves concebidas para missões de caça, como os monomotores Curtiss P-36A e P-40E, passaram a ser empregadas de forma improvisada em tarefas de vigilância marítima, enquanto se aguardava a chegada de plataformas especializadas. De modo semelhante, os primeiros esforços sistemáticos de combate antissubmarino foram realizados com os bombardeiros North American B-25B Mitchell, utilizados de maneira emergencial. O primeiro contato hostil ocorreu em 22 de maio de 1942, ainda antes da declaração formal de guerra do Brasil, quando uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) atacou o submarino italiano Barbarigo, da classe Marcello, que reagiu ao avistamento com disparos de sua artilharia antiaérea. A capacidade operacional da Força Aérea Brasileira (FAB) começou a ser significativamente ampliada a partir de dezembro de 1942, com a entrega das primeiras dez aeronaves Lockheed A-28A-LO Hudson, seguidas por mais dezesseis unidades no mês subsequente. Originalmente destinadas à Royal Air Force (RAF), essas aeronaves foram redirecionadas ao Brasil em função da urgência em dotar o novo aliado sul-americano dos meios mínimos necessários para sua inserção efetiva no esforço de guerra. A primeira unidade brasileira a operar o modelo foi o Grupo de Aviões Bimotores (GAB) da Unidade Volante, sediado em Natal, no Rio Grande do Norte, que iniciou suas operações ainda em dezembro de 1942, realizando missões de patrulhamento marítimo e escolta de comboios. Posteriormente, a Base Aérea de Salvador, na Bahia, recebeu sete unidades adicionais do A-28 Hudson, ampliando a cobertura aérea ao longo do litoral nordestino. Esse processo culminou, em 17 de agosto de 1944, com a ativação do 2º Grupo de Bombardeio Médio (2º GBM), também em Salvador, equipado inicialmente com cinco aeronaves Hudson. 
Ao longo da Segunda Guerra Mundial, os Lockheed A-28A Hudson desempenharam papel de grande relevância no esforço da Força Aérea Brasileira (FAB) contra a ameaça representada pelos submarinos alemães e italianos que operavam ao longo da extensa costa do país. Essas aeronaves foram empregadas por diversas organizações aéreas, entre as quais se destacaram o 4º Grupo de Bombardeio Médio (4º GBM), a Unidade Volante do Galeão, o 3º Grupo de Bombardeio Médio (3º GBM), o Grupo de Aviões Bimotores do 6º Regimento de Aviação (GAB-6º RAv) e o 1º Grupo de Bombardeio Médio (1º GBM), sediados principalmente nas Bases Aéreas de Canoas e Santa Cruz. Em conjunto, essas unidades constituíram o núcleo do esforço aéreo brasileiro de vigilância, escolta e ataque no Atlântico Sul. Os A-28A Hudson foram empregados de forma sistemática na proteção de grandes comboios marítimos, frequentemente compostos por dezenas de navios mercantes responsáveis por manter a ligação regular entre o Brasil e os Estados Unidos. Nessas missões, as tripulações executavam padrões rigorosos de varredura, patrulha e acompanhamento, assegurando a integridade dos navios sob sua responsabilidade até o limite das áreas de cobertura previamente estabelecidas. Esse trabalho contínuo revelou-se essencial para a manutenção do fluxo logístico aliado, vital ao esforço de guerra. Durante as operações de escolta e patrulha, registraram-se ataques confirmados contra submarinos inimigos, alguns dos quais se tornaram episódios emblemáticos da participação brasileira no conflito. Em 5 de abril de 1943, um A-28A Hudson baseado em Salvador, pilotado pelo 1º Tenente-Aviador Ivo Gastaldoni, atacou um submarino localizado a cerca de sessenta quilômetros de Aracaju, empregando cargas de profundidade. Após o ataque, foram observados destroços e uma extensa mancha de óleo na superfície do mar, indícios consistentes de danos severos à embarcação adversária. Outro episódio significativo ocorreu em 3 de julho de 1943, quando um A-28A Hudson operando a partir da Base Aérea de Santa Cruz, sob o comando do Tenente-Aviador Clóvis Labre de Lemos, atacou o submarino alemão U-199. Embora não tenha sido possível confirmar danos imediatos ao alvo, a ação evidenciou o elevado grau de prontidão e vigilância mantido pelas forças aéreas brasileiras. O desfecho mais notável envolvendo o U-199 ocorreu em 31 de julho de 1943. Nas primeiras horas da manhã, um Martin PBM-3C Mariner do esquadrão VP-74 da Marinha dos Estados Unidos, baseado no Rio de Janeiro, localizou e atacou o submarino alemão do tipo IXD-2, causando-lhe avarias, embora este ainda permanecesse operacional e reagisse com sua artilharia antiaérea. Alertadas pelo confronto, as defesas brasileiras acionaram um A-28A Hudson a partir do Rio de Janeiro, pilotado pelo Aspirante-Aviador Sérgio Cândido Schnoor. Na primeira passagem, o Hudson lançou duas cargas de profundidade Mk.17, que explodiram nas proximidades do submarino. Em seguida, numa segunda investida, Schnoor empregou as metralhadoras frontais da aeronave contra os postos de tiro inimigos, neutralizando parte da defesa antiaérea do U-199. Posteriormente, o submarino foi definitivamente afundado por um PBY-5 Catalina da Força Aérea Brasileira (FAB), pilotado pelo Aspirante-Aviador Alberto Martins Torres, que se encontrava em patrulha na área. A partir do segundo semestre de 1943, a atividade de submarinos alemães e italianos no Atlântico Sul passou a declinar de forma progressiva, ainda que continuasse a representar uma ameaça potencial à navegação mercante e militar ao longo do litoral brasileiro. 

Nesse cenário, os A-28A Hudson mantiveram-se em operação contínua, executando missões de escolta, cobertura e reconhecimento marítimo, muitas vezes acionados a partir de indícios captados por estações terrestres de escuta e vigilância. Essas operações evidenciaram a importância estratégica da aeronave e de suas tripulações na defesa das rotas marítimas brasileiras e na consolidação da contribuição do Brasil para o esforço aliado durante a Segunda Guerra Mundial. É relevante destacar que, sob o ponto de vista da configuração operacional, as células dos Lockheed A-28A Hudson destinadas ao Brasil haviam sido originalmente projetadas para atender às especificações da Força Aérea Real britânica (Royal Air Force – RAF), o que lhes conferiu características técnicas distintas daquelas observadas nas aeronaves produzidas diretamente para as forças armadas dos Estados Unidos. Essa origem refletiu-se em diversos aspectos operacionais, exigindo um período adicional de adaptação por parte das tripulações e das equipes de manutenção brasileiras. Um exemplo particularmente significativo dizia respeito ao sistema de frenagem do trem de pouso principal. Enquanto nos modelos de configuração norte-americana o controle da intensidade e do diferencial de frenagem era realizado exclusivamente por meio dos pedais, o padrão britânico exigia a atuação simultânea dos pedais e de uma alavanca manual de freio. Essa diferença, embora tecnicamente simples, teve impacto prático considerável, resultando em incidentes de pequena gravidade, sobretudo durante manobras em solo, que ocasionaram danos leves às aeronaves e evidenciaram a necessidade de treinamento específico para o correto emprego do sistema. Embora integrassem um mesmo lote de aproximadamente 350 aeronaves, os primeiros A-28A Hudson entregues à Força Aérea Brasileira (FAB) apresentavam variações estruturais relevantes. As unidades iniciais eram dotadas da torre dorsal Boulton Paul, enquanto as aeronaves recebidas posteriormente passaram a contar com um defletor aerodinâmico mais simples, porém volumoso, instalado à frente da metralhadora dorsal. Essa alteração, embora concebida como solução prática, influenciava negativamente a aerodinâmica da aeronave, reduzindo a autoridade dos lemes de direção em regimes de baixa velocidade, especialmente durante as fases críticas de pouso e decolagem. Tal característica, possivelmente associada a outras particularidades do modelo, contribuiu para a ocorrência de acidentes mais graves. Entre junho e novembro de 1943, foram registrados dois incidentes fatais envolvendo aeronaves do 2º Grupo de Bombardeio Médio (2º GBM). Posteriormente, uma aeronave da Unidade Volante do Galeão sofreu um acidente com danos estruturais severos, e um quarto A-28A Hudson foi perdido em Canavieiras, no litoral da Bahia, reforçando as preocupações quanto às limitações operacionais do tipo em determinadas condições. Entre o final de 1943 e o início de 1944, a Força Aérea Brasileira (FAB) passou por um significativo processo de fortalecimento de suas capacidades de patrulha marítima e guerra antissubmarino, com a incorporação de aeronaves mais modernas e especializadas, como o Consolidated PBY-5A Catalina, o North American B-25J Mitchell, o Lockheed PV-1 Ventura e o PV-2 Harpoon. Entretanto, essa modernização trouxe consigo desafios logísticos e de manutenção, uma vez que diferentes unidades aéreas passaram a operar múltiplos tipos de aeronaves, cada qual com requisitos técnicos específicos.
Com o objetivo de racionalizar recursos, padronizar procedimentos e simplificar a cadeia logística, foi implementada uma reestruturação organizacional em 20 de dezembro de 1944, conforme estabelecido em boletim reservado da Diretoria de Material Aeronáutico (DIRMA). Essa medida determinou a concentração de todas as células remanescentes do Lockheed A-28A Hudson no 4º Grupo de Bombardeio Médio (4º GBM), sediado na Base Aérea de Fortaleza, permitindo maior eficiência na manutenção e no emprego operacional do modelo. De forma singular, a última célula do A-28A Hudson destinada ao Brasil, embora formalmente entregue às autoridades brasileiras nos Estados Unidos, permaneceu naquele país. Essa aeronave foi empregada em apoio às atividades dos oficiais brasileiros destacados no San Antonio Air Depot, então o principal centro de manutenção e logística da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). O local desempenhava papel estratégico no esforço de guerra conjunto, funcionando também como ponto habitual de preparação e partida das aeronaves destinadas ao traslado para o Brasil, simbolizando a profundidade da cooperação aeronáutica entre as duas nações durante o conflito. Curiosamente, a última célula do Lockheed A-28A Hudson entregue às autoridades brasileiras nos Estados Unidos permaneceu naquele país, sendo empregada em apoio às atividades dos oficiais brasileiros destacados no San Antonio Air Depot. Essa instalação, reconhecida como o maior centro de manutenção e logística da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), também funcionava como ponto de partida habitual para o traslado das aeronaves destinadas ao Brasil, desempenhando um papel estratégico durante o conflito. Com o término da Segunda Guerra Mundial em maio de 1945, os Lockheed A-28A Hudson ingressaram em uma nova fase operacional. O 4º Grupo de Bombardeio Médio (4º GBM), sediado na Base Aérea de Fortaleza, concentrou esforços para manter o nível de operacionalidade alcançado ao longo dos anos de guerra. No início de 1947, a Força Aérea Brasileira deu início a um amplo plano de reorganização, que incluiu a extinção de todos os grupos de bombardeio leve, médio e de picada, bem como os grupos de caça, patrulha e regimentos de aviação. Em substituição, foram criados diversos grupos de aviação, e nesse contexto, o 4º GBM foi redesignado como 1º/4º Grupo de Aviação (1º/4º GAv). A partir de maio de 1948, essa unidade passou a operar também os recém-incorporados North American B-25J Mitchell, que rapidamente se tornaram o principal vetor da frota, assumindo protagonismo nas operações. Nesse período, a frota de Lockheed A-28A Hudson já se encontrava significativamente reduzida devido a perdas operacionais decorrentes de acidentes. A situação foi agravada por dificuldades no suprimento de peças de reposição, especialmente para os motores radiais Pratt & Whitney R-1830-67, o que comprometeu ainda mais a disponibilidade das aeronaves. As poucas unidades remanescentes foram mantidas em condições de voo graças à dedicação do pessoal técnico do Núcleo do Parque de Aeronáutica de Recife (NPqAerRF), que realizou esforços notáveis para preservar a operacionalidade do modelo. Todavia, em 1950, inspeções em ambito de parque revelaram problemas estruturais graves nas células ainda existentes, levando à decisão de condenar a maioria delas ao sucateamento. Durante esse processo, três aeronaves (FAB 2900 Ex-FK653 RAF - MNU, FAB 2901 Ex-FK700 RAF - MNU e FAB 2902 Ex-FK702 RAF - MNU) foram identificadas em melhor estado de conservação e selecionadas para conversão pelo Núcleo de Parque de Aeronáutica de Recife (NPqAerRF) em modelos destinados ao transporte de carga e pessoal, prolongando parcialmente sua vida útil em uma nova função operacional.

Em Escala.
Para representarmos o Lockheed A-28A Hudson “FAB 72” (número de série4 14-7172 aeronave que foi doada ao Ministério da Aeronáutica pela Fraternidade do Fole), empregamos o kit da Classic Airframes na escala 1/48. Para compormos a versão brasileira tivemos de construir em scratch o posto do metralhadora dorsal (estrutura, assento do operador e armamento), pois o kit vem originalmente equipado com a torre elétrica Bounton Paul. Fizemos uso de decais impressos artesanalmente sob encomenda em conjunto com  decais pertencentes a diversos sets da FCM Decals.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático empregado pela Força Aérea Real (Royal Air Force) durante a Segunda Guerra Mundial. Vale citar que mesmo após receberem as marcações nacionais, estas aeronaves mantiveram durante algum tempo a identificação da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) nas partes inferiores das asas. Após o término do conflito os Lockheeds A-28 Hudsons receberiam um novo esquema de pintura em verde oliva e cinza, com este perdurando até o ano de 1947, quando as aeronaves remanescentes passaram a ostentar uma pintura em metal natural, com este esquema se mantendo até sua desativação.

Bibliografia :
- Bombardeiros Bimotores da FAB, Aparecido Camazano Alamino - C&R Editorial
- Lockheed Hudson – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_Hudson
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015  - Jackson Flores Jr

S.E.5.A Royal Factory British


História e Desenvolvimento.
O Estabelecimento Real de Pesquisa Aeronáutica - RAE (Royal Aircraft Establishment) uma  de referência no campo da pesquisa aeronáutica no Reino Unido, teve suas origens no início do século XX, em um período em que a aviação ainda se consolidava como ciência e tecnologia emergente. Sua trajetória institucional reflete não apenas a evolução da engenharia aeronáutica britânica, mas também a crescente importância do poder aéreo no contexto militar e civil. As raízes da instituição remontam a 1904, com a criação da Fábrica de Balões do Exército (Army Balloon Factory), vinculado à Escola de Balonismo do Exército Britânico (Royal Army). Nesse ano, a unidade foi transferida de Aldershot para Farnborough Common, no condado de Hampshire, sob o comando do coronel James Templer. A mudança visava proporcionar melhores condições para experimentos com balões e dirigíveis, além de permitir o desenvolvimento inicial de aeronaves mais pesadas que o ar. Um marco significativo ocorreu em 1908, quando o pioneiro Samuel Franklin Cody realizou, em Farnborough, o primeiro voo documentado de um aeroplano no Reino Unido  evento que simbolizou o ingresso definitivo do país na era da aviação. Em 1909, a direção da instituição foi assumida por Mervyn O'Gorman, período em que o estabelecimento passou a ser administrado sob controle civil, refletindo a ampliação do interesse pela aviação para além do estrito âmbito militar. Nos anos seguintes, o foco das atividades deslocou-se progressivamente para o desenvolvimento de aeronaves, culminando, em 1912, na adoção da denominação Royal Aircraft Factory. Nesse período, a instituição reuniu alguns dos mais influentes engenheiros da nascente indústria aeronáutica. Entre eles destacava-se Geoffrey de Havilland, seu primeiro engenheiro-chefe e projetista, que mais tarde fundaria a de Havilland Aircraft Company. Outros nomes de relevo incluíram Henry Folland, A.A. Griffith e Samuel Dalziel Heron, entre diversos especialistas que contribuíram para o avanço da engenharia aeronáutica britânica. Em 1918, no contexto da criação da Força Aérea Real (Royal Air Force)  estabelecida em 1º de abril daquele ano, a Royal Aircraft Factory foi novamente renomeada, passando a se chamar Royal Aircraft Establishment (RAE). A mudança teve como objetivo evitar confusões institucionais e refletir a nova orientação estratégica da organização, que abandonou a produção direta de aeronaves para concentrar-se exclusivamente em pesquisa, desenvolvimento e testes. Nos seus primeiros anos, muitos projetos foram oficialmente classificados como “reconstruções” de aeronaves existentes, uma vez que a instituição inicialmente não possuía autorização formal para desenvolver modelos próprios. Ainda assim, destacou-se com o desenvolvimento do Royal Aircraft Factory B.E.2, um biplano monomotor de dois lugares introduzido a partir de 1912, do qual foram produzidas cerca de 3.000 unidades, tornando-se um dos modelos mais difundidos da época. Até 1915,  ampliou-se significativamente o portfólio, desenvolvendo diversos modelos experimentais e operacionais, como o Royal Aircraft Factory B.E.3,  F.E.2 e o  R.E.7, entre outros, contribuindo para a rápida evolução da aviação militar britânica durante os primeiros anos da Primeira Guerra Mundial.  Paralelamente ao desenvolvimento de aeronaves, a instituição também atuou na concepção de dirigíveis de patrulha, notadamente a Classe SS (Submarine Scout). Esses aeróstatos foram desenvolvidos com caráter de urgência para enfrentar a crescente ameaça dos submarinos alemães. 

Equipados com motores leves, podiam transportar armamento básico  como bombas e metralhadoras  além de dispositivos de observação destinados à detecção de submarinos, tanto em superfície quanto submersos. Operando em estreita cooperação com a Marinha Real (RN), esses dirigíveis desempenharam papel relevante na vigilância de áreas estratégicas, como o Canal da Mancha, contribuindo para a proteção das rotas marítimas vitais ao esforço de guerra britânico. Nos dois primeiros anos da Primeira Guerra Mundial, os caças britânicos enfrentaram crescentes dificuldades para competir com os avançados modelos alemães, que demonstravam superioridade em combates aéreos. A necessidade de equalizar essa desvantagem tecnológica tornou-se premente, especialmente devido às limitações dos caças aliados, como a velocidade máxima inferior e a menor capacidade de manobra em relação aos adversários. Nesse contexto, a Royal Aircraft Factory,  iniciou um projeto ambicioso para conceber um novo caça capaz de enfrentar os desafios impostos pelos caças alemães, como o Albatros D.III. O primeiro passo no desenvolvimento do novo caça foi a seleção do grupo propulsor. A escolha recaiu sobre o motor Hispano-Suiza 150 V8, capaz de gerar 112 hp (8 kW). Contudo, essa decisão foi considerada uma aposta arriscada, uma vez que o motor ainda se encontrava em fase inicial de desenvolvimento e apresentava problemas de confiabilidade. Apesar disso, a Royal Aircraft Factory, sob a liderança de Henry Folland, John Kenworthy e o Major Frank Goodden, prosseguiu com o projeto, que recebeu a designação S.E.5 (Scout Experimental 5). O desenvolvimento do S.E.5 foi marcado por intensos testes e contratempos. O primeiro dos três protótipos iniciais realizou seu voo inaugural em 22 de novembro de 1916, demonstrando potencial promissor. Contudo, os dois primeiros protótipos foram perdidos em acidentes, um deles resultando na trágica morte do Major Frank Goodden, piloto de testes chefe da empresa,  em 28 de janeiro de 1917. Análises  indicaram que as falhas estruturais nas asas eram a principal causa desses incidentes, o que levou a revisões significativas no projeto. O terceiro protótipo incorporou correções estruturais, especialmente no design das asas, que passaram a adotar uma configuração mais robusta e confiável. Após os ajustes, o S.E.5 revelou-se uma aeronave de características notáveis. Sua estrutura era excepcionalmente forte, permitindo mergulhos em alta velocidade sem comprometer a integridade do avião. As asas, com formato mais quadrado, proporcionavam excelente controle lateral, especialmente em baixas velocidades, o que tornava o S.E.5 uma plataforma estável e versátil. Comparado a outros modelos, como o B.E.2, F.E.2 e R.E.8, o S.E.5 destacava-se por sua estabilidade inerente, que o tornava ideal como plataforma de artilharia aérea, equipado com metralhadoras Vickers e Lewis sincronizadas. Em termos de desempenho, o S.E.5 alcançava uma velocidade máxima de aproximadamente 222 km/h, equiparável ao SPAD S.XIII e superior aos alemães, como o Albatros D.V. Embora menos ágil em duelos de combate próximos em comparação com o Sopwith Camel, o S.E.5 era significativamente mais fácil e seguro de pilotar, especialmente para aviadores novatos, o que o tornava uma escolha valiosa para as esquadrilhas aliadas.
Apesar destas características positivas, apenas setenta e sete células do Royal Aircraft Factory S.E.5 seriam produzidas, pois durante este tempo, o corpo de projetos da empresa já estudava a implementação de melhorias na aeronave, nascendo assim o S.E.5.A. Estas novas aeronaves diferiam dos últimos lotes produzidos da versão original por disporem do motor Hispano-Suiza 200 8Ab V8 de 200hp, operando na maioria das aeronaves em conjunto com uma grande hélice de quatro pás de rotação no sentido horário. Os testes preliminares se mostrariam positivos levando assim a decisão por sua produção em grande escala. Esta definição seria reforçada quando da entrada dos Estados Unidos na guerra europeia em abril de 1917, seriam discutidos planos para vários fabricantes de aeronaves americanas iniciarem a produção em massa de aeronaves já em serviço com as potências aliadas, sendo um desses caças o S.E.5.A. Para atender as demandas iniciais da à Força Expedicionária Americana - AEF (American Expeditionary Force), seria firmado um contrato para a aquisição de trinta e oito células produzidas pela Austin Motors na Grã-Bretanha, com estas aeronaves sendo entregues na Europa para equipar os esquadrões de caça do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Um segundo contrato agora na ordem de mil aeronaves deste modelo seria celebrado prevendo sua fabricação sob licença nos Estados Unidos pela Curtiss Aeroplane and Motor Company. No entanto, apenas uma aeronave construída neste processo seria concluída antes do fim do conflito, fato este que eliminaria a necessidade de incorporação destas aeronaves, ao todo somente cinquenta e seis células seriam efetivamente montadas, fazendo uso de componentes já entregues. Estava equipado inicialmente com uma única metralhadora Vickers sincronizada de .303 polegadas, em contraste com as duas armas do Sopwith Camel, mas também podia portar uma arma leve Lewis montada na asa, o que permitia ao piloto disparar contra uma aeronave inimiga de baixo. Esta configuração seria muito apreciada pelos pilotos dos primeiros esquadrões, porém no início a engrenagem de sincronização para a metralhadora Vickers não era confiável. Normalmente, os carregadores sobressalentes para a arma Lewis teriam sido colocados na maior parte do espaço livre no cockpit, incluindo as áreas dianteiras, como o painel de instrumentação. Já na Europa, o cronograma de produção seria profundamente afetado pelo suprimento muito limitado de motores Hispano-Suiza construídos na França, e assim os esquadrões destinados a receber o novo caça tiveram que empregar os limitados modelos Airco DH 5s e o Nieuport 24s até o início de 1918. Neste contexto diversas alternativas passariam a ser estudadas visando a possível troca do grupo propulsor, pois além de atender a alta demanda por motores, os modelos Hispano-Suiza apesar de revolucionários quando comparados aos motores radiais rotativos, ainda eram considerados problemáticos, com registros de várias ocorrências onde falhas no sistema de redução de marchas causavam quebras conjunto levando a separação do motor e do restante da fuselagem em pleno voo. 

Neste mesmo período a Wolseley Motors Limited, detentora de um contrato de fabricação sob licença deste modelo de motor passaria a estudar melhorias em seu projeto original, o que resultaria na criação do Wolseley Viper de 200 hp (149 kW), uma versão de alta compressão e acionamento direto do Hispano-Suiza 8Ab.  Este novo motor praticamente eliminaria todos os problemas do motor francês, passando assim a ser adotado como padrão para todas as versões desta aeronave, o que possibilitaria atender as demandas contratuais de produção.  O início da operação dos Royal Aircraft Factory S.E.5 junto ao 56º Esquadrão do Corpo Aéreo Real  (Royal Flying Corps), em março de 1917, não seria muito virtuoso, com seus pilotos desconfiando do real potencial da aeronave. Os pilotos do No. 56 Squadron, incluindo ases como Albert Ball, James McCudden e Cecil Lewis, passaram semanas se adaptando ao S.E.5. Ball, transferido do No. 60 Squadron, inicialmente resistiu à aeronave, chamando-a de "dud" (fracasso) em cartas para casa, preferindo seu Nieuport 17 mais ágil. O batismo de fogo oficial do S.E.5 ocorreu em 22 de abril de 1917, quando o No. 56 Squadron realizou sua primeira patrulha ofensiva sobre a Frente Ocidental, partindo da base em Vert Galand, na França. Onze aeronaves, lideradas por Ball, cruzaram as linhas inimigas em busca de alvos alemães. Embora esse voo inicial tenha sido relativamente calmo, sem combates intensos, ele serviu como teste para a aeronave em condições reais de guerra, incluindo o estresse de altitudes elevadas e o risco de fogo antiaéreo. O verdadeiro teste veio no dia seguinte, 23 de abril. Ball, demonstrando sua audácia característica, engajou-se em múltiplos combates. Em um deles, pilotando seu S.E.5 (A'4850), ele atacou um Albatros solitário usando sua tática preferida de "belly shot" (tiro por baixo), forçando-o a girar e cair. Mais tarde, após danos em seu Nieuport reserva, ele trocou para o S.E.5 e abateu outro Albatros em chamas. No total, Ball relatou cinco engajamentos naquele dia, reivindicando vitórias que ajudaram a estabelecer a reputação do S.E.5. Esses combates ocorreram em meio à Batalha de Arras, onde o S.E.5 protegia aeronaves de reconhecimento aliadas e atacava formações alemãs, como a Jagdstaffel 11 (Jasta 11), liderada por Manfred von Richthofen, o "Barão Vermelho". Os desafios mecânicos persistiram: muitos S.E.5 iniciais sofreram falhas no motor, forçando pousos de emergência. Por exemplo, durante uma patrulha em 25 de abril, vários pilotos relataram problemas de superaquecimento, limitando o tempo de voo. O uso operacional no dia a dia viria a mudar esta percepção, pois enquanto os pilotos, alguns dos quais estavam inicialmente desapontados com o S.E.5, rapidamente passariam a apreciar sua força e excelentes qualidades de voo, com as impressões negativas se resumindo apenas na pouca potência de seu motor. No entanto esta falha seria sanada a partir de junho do mesmo ano quando entraria em serviço o novo S.E.5.A., nesta época o Esquadrão 56 ainda era a única unidade que voava o novo caça; na verdade, seria a única unidade operacional a ser totalmente equipada com esta aeronave, com os demais empregando uma grande gama de modelos de aviões de combate. 
O reequipamento dos demais esquadrões de caça seria postergado devido a escassez iniciais dos motores franceses, uma vez que os motores Wolseley Viper de 200 hp passaram a equipar o modelo, mais aeronaves começaram a ficar disponíveis possibilitando equipar novas unidades na linha de frente. Os S.E.5.A individuais em serviço recebiam frequentemente personalizações e ajustes especificados pelo usuário a pedido de seus pilotos. As mudanças populares incluíram a redução do diedro das asas, a fim de aumentar a sua manobrabilidade e a remoção da carenagem da cabeça para aumentar a visibilidade do piloto para a parte traseira. Próximo ao final do conflito os S.E.5.A dotavam nada menos que 21 esquadrões do Corpo Aéreo Real  (Royal Flying Corps), bem como duas unidades de caça do Serviço Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAS).  Muitos dos principais ases aliados da Grande Guerra voaram neste caça, incluindo Billy Bishop, Andrew Beauchamp-Proctor, Edward Mannock e James McCudden. O lendário ás britânico Albert Ball inicialmente teceria grandes críticas a aeronave, porém ao termino do conflito amealharia 11 de suas 44 vitorias a bordo de um S.E.5.A. Logo após o Armistício, os Royal Aircraft Factory S.E.5.A começariam a ser gradativamente retirados do serviço ativo junto a Corpo Aéreo Real  (Royal Flying Corps), com este movimento sendo acompanhado pelo Serviço Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAS). A única arma aérea a empregar por mais tempo a aeronave seria a Força Aérea Real Canadense (RCAF ), mantendo o modelo em operação em dois esquadrões da linha de frente até meados do ano de 1921. O termino do conflito e a consequente desmobilização das forças armadas aliadas iria gera um grande excedente de aeronaves, que passariam a ser comercializadas a preços módico para diversos países, com os  S.E.5.A sendo posteriormente empregados pela Argentina, África do Sul, Brasil, Chile, Irlanda, Polônia e por ultimo a Austrália que receberia 35 aeronaves nos termos do programa “Imperial Gift” (doação de aeronaves de estoques excedentes na Grã-Bretanha após a Primeira Guerra Mundial para os domínios do Império Britânico), com a aeronave passando a ser o principal caça da recém criada Real Força Aérea Australiana (RAAF) até o final da década de 1920. Porém grande parte das aeronaves excedentes de guerra, encontrariam emprego no mercado civil, seja em tarefas de treinamento, transporte, modalidade esportiva ou atividades publicitárias. Uma dessas aeronaves de propriedade privada venceria a corrida Morris Cup em 1927. Ao todo até dezembro de 1918 seriam produzidas quase 6.000 aeronaves desta família, construídos por seis fabricantes: Austin Motors, Air Navigation and Engineering Company, Curtiss Aeroplane and Motor Company, Martinsyde Motors, Royal Aircraft Factory, Vickers Armstrong Limited e Wolseley Motors Limited .

Emprego no Exército Brasileiro. 
A Aviação do Exército Brasileiro tem suas origens ainda no século XIX, em um contexto marcado por conflitos regionais de grande escala na América do Sul. Durante a Guerra da Tríplice Aliança, especialmente nas operações em Humaitá e Curupaiti, em 1867, o então comandante das forças brasileiras, Luiz Alves de Lima e Silva, demonstrou notável espírito inovador ao empregar balões cativos em apoio às operações militares. Esses balões foram utilizados com a finalidade de observação das posições inimigas, permitindo a coleta de informações estratégicas sobre fortificações e movimentações das forças paraguaias. Tal iniciativa representou o reconhecimento precoce da importância da chamada “terceira dimensão”  o espaço aéreo  no campo de batalha, conferindo ao Exército Brasileiro a distinção de ser a primeira força militar do continente a empregar meios aerostáticos para fins de reconhecimento. Os dados obtidos por meio dessas observações contribuíram de maneira relevante para o planejamento de operações ofensivas de grande envergadura, particularmente nas ações contra as fortificações paraguaias. Após o término do conflito, o Exército Brasileiro buscou institucionalizar essa capacidade, criando o Serviço de Aerostação Militar, que permaneceu plenamente ativo por cerca de 47 anos. Ao longo desse período, o emprego de balões foi progressivamente aperfeiçoado, consolidando-se como ferramenta essencial de apoio ao reconhecimento e ao planejamento tático. Um novo marco na evolução da aviação militar terrestre ocorreu em 1913, com a criação da Escola Brasileira de Aviação (EsBAv), instalada no Campo dos Afonsos, na cidade do Rio de Janeiro. Nesse momento, o Exército Brasileiro adquiriu suas primeiras aeronaves motorizadas, de fabricação italiana, simbolizando a transição definitiva dos meios aerostáticos para a aviação de asa fixa. Essa mudança refletia a necessidade de adaptação às rápidas transformações tecnológicas que caracterizavam o início do século XX. A eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914  trouxe consigo um salto qualitativo no desenvolvimento de armamentos, equipamentos e doutrinas militares, evidenciando a defasagem das forças armadas brasileiras frente aos padrões internacionais. Inicialmente, sob a presidência de Hermes da Fonseca e, posteriormente, de Wenceslau Braz, o Brasil adotou uma postura de neutralidade, em consonância com os princípios estabelecidos na Convenções de Haia. Essa posição refletia, em grande medida, a dependência econômica do país de suas exportações  especialmente o café  e a necessidade de preservar relações comerciais com potências como Alemanha, Reino Unido e França. Entretanto, a neutralidade brasileira logo seria progressivamente fragilizada ao longo de 1917, em razão da intensificação da guerra submarina irrestrita conduzida pela Alemanha. O afundamento de navios mercantes brasileiros, como o vapor Paraná, em abril de 1917, e o Macau, em outubro do mesmo ano  este último atribuído ao submarino alemão U-93  provocou forte comoção nacional e crescente pressão da opinião pública pela entrada do país no conflito. 

Diante desse cenário, em 26 de outubro de 1917, o presidente Wenceslau Braz declarou guerra à Alemanha, alinhando o Brasil às potências da Tríplice Entente, composta por França, Reino Unido e Rússia. Essa decisão marcou não apenas a participação brasileira na guerra, mas também impulsionou a necessidade de modernização de suas forças armadas, incluindo o desenvolvimento mais estruturado de sua aviação militar. A participação do Exército Brasileiro na Primeira Guerra Mundial foi, em termos práticos, limitada por uma série de fatores estruturais e conjunturais. Em 1917, o efetivo disponível era relativamente reduzido cerca de 18 mil homens  e o serviço militar obrigatório, instituído apenas em 1916, ainda não havia produzido os efeitos esperados em termos de mobilização. Além disso, o país carecia de infraestrutura logística e de recursos financeiros que viabilizassem o envio de uma força expedicionária de grande porte ao teatro europeu. Nesse contexto, o plano idealizado pelo então ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras, que previa a mobilização de até 150 mil homens, revelou-se inviável para a realidade brasileira da época. Outros fatores também contribuíram para essa limitação, como a forte dependência econômica das exportações de café e a necessidade de lidar com conflitos internos, a exemplo da Guerra do Contestado. Tais circunstâncias restringiram a capacidade tanto do Exército quanto da Marinha do Brasil de se engajarem de forma mais ampla no conflito. Dessa forma, a participação brasileira concentrou-se em ações pontuais, incluindo apoio às operações navais no Atlântico, colaboração indireta no esforço aéreo aliado e assistência médica aos feridos nos campos de batalha europeus. Nesse cenário, destacou-se a criação da chamada Missão Aché, oficialmente denominada Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material. Liderada pelo general Napoleão Felipe Aché, essa missão constituiu a principal iniciativa do Exército Brasileiro no âmbito do conflito. Enviada à França em janeiro de 1918, tinha como objetivos contribuir com os Aliados, adquirir armamentos e, sobretudo, absorver as modernas doutrinas e tecnologias de combate empregadas na Frente Ocidental. Uma vez no teatro de operações, os oficiais brasileiros foram integrados ao Exército Francês, sob o comando do marechal Ferdinand Foch, então comandante supremo das forças aliadas. Distribuídos entre diferentes unidades, participaram ativamente da Ofensiva dos Cem Dias, conjunto de operações realizadas entre agosto e novembro de 1918 que levaram ao colapso das forças alemãs. A experiência no front revelou-se desafiadora. Os militares brasileiros tiveram de se adaptar rapidamente às duras condições da guerra de trincheiras, ao emprego intensivo de novas tecnologias  como tanques e artilharia pesada  e às dificuldades de integração cultural e linguística com as tropas francesas. Apesar dessas adversidades, a vivência proporcionou um aprendizado significativo, cujos reflexos seriam sentidos posteriormente no processo de modernização do Exército Brasileiro.
Embora limitada em escala, a participação brasileira teve impactos relevantes. No plano internacional, o Brasil consolidou sua posição ao lado das potências aliadas, aproximando-se especialmente dos Estados Unidos e dos membros da Tríplice Entente. O país participou da Conferência de Paz de Versalhes, em 1919, e integrou-se à recém-criada Liga das Nações. Como parte das compensações de guerra, o Brasil confiscou 45 navios mercantes alemães, incorporando-os à sua frota. No âmbito militar, aproximadamente um terço dos oficiais da Missão Aché foi condecorado ou promovido por atos de bravura. Entre eles, destacou-se o major Tertuliano Potyguara, ferido durante a Ofensiva Meuse-Argonne, uma das mais importantes operações conduzidas pelos Aliados no final do conflito. Em síntese, embora o envolvimento direto do Exército Brasileiro na guerra tenha sido restrito, a experiência adquirida no exterior e o contato com as mais avançadas práticas militares da época desempenharam papel fundamental na transformação doutrinária e estrutural das forças armadas brasileiras no período pós-guerra. A experiência brasileira na Primeira Guerra Mundial evidenciou, de maneira inequívoca, o atraso militar e econômico do país em relação às grandes potências. Tal constatação reforçou, entre os altos comandos, a necessidade urgente de modernização estrutural e doutrinária das forças armadas, de modo a adequá-las às transformações tecnológicas e estratégicas do cenário internacional. Nesse contexto, o governo brasileiro iniciou, ainda no segundo semestre de 1918, negociações com o governo da França visando estabelecer uma cooperação técnico-militar. Essas tratativas culminaram na assinatura, em Paris, do acordo que instituiu a Missão Militar Francesa. O contrato previa a atuação de oficiais franceses no comando de importantes estabelecimentos de ensino militar no Brasil, por um período de quatro anos, incluindo a Escola de Estado-Maior (EEM), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO) e instituições voltadas às áreas de intendência e veterinária. Além da reestruturação do ensino militar, o acordo estabelecia que o Brasil passaria a priorizar a aquisição de armamentos e equipamentos provenientes da indústria francesa, desde que estes apresentassem condições equivalentes  em termos de qualidade, custo e prazo  às ofertas de outros fornecedores internacionais. Tal medida visava não apenas modernizar o material bélico, mas também alinhar a doutrina e a organização militar brasileira aos padrões franceses, então considerados entre os mais avançados. Inserido nesse amplo processo de transformação, o Exército Brasileiro decidiu retomar e reorganizar suas atividades aeronáuticas. Assim, em maio de 1919, foi criada a Escola de Formação de Aviadores Militares, considerada o embrião da aviação militar terrestre no país e precursora do atual Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx).

Suas atividades foram oficialmente iniciadas em 10 de julho daquele ano, contando com o apoio direto de instrutores e mecânicos franceses. Nos primeiros momentos, a instrução foi realizada com aeronaves de fabricação nacional, como os modelos Villela Aribu e Villela Alagoas, considerados os primeiros aviões militarizados produzidos em série no Brasil. Contudo, rapidamente se evidenciou a necessidade de incorporar aeronaves de emprego militar mais avançado, capazes de proporcionar treinamento em missões de caça, reconhecimento e bombardeio, bem como de estruturar um núcleo inicial de aviação de combate. Para atender a essa demanda, foi realizada a aquisição de uma variada gama de aeronaves muitas delas usadas, majoritariamente de origem europeia. Entre os primeiros modelos incorporados destacavam-se o Morane-Saulnier Type P, seis Nieuport 24bis, quatorze Nieuport 83E2, sete Nieuport 82E2 e três Sopwith 1A2, estes últimos passíveis de emprego em missões de reconhecimento e interceptação. Entre o final de 1919 e meados de 1920, novas aeronaves foram incorporadas, ampliando significativamente a capacidade de instrução e experimentação operacional. Dentre elas, destacavam-se os modelos Nieuport Ni21E1, Breguet 14A2 e Breguet 14B2, além do consagrado SPAD S.XIII. Também foram incorporados os treinadores Nieuport 80E2 e Nieuport 81D2, o já citado Sopwith 1A2, o Caudron G.4 e o Caproni Ca.45, este último representando o primeiro bimotor a integrar a aviação do Exército. Apesar da diversidade e do potencial desses meios, o foco principal nesse período permaneceu voltado à instrução, à formação de pilotos e à consolidação de uma doutrina aeronáutica coerente, fortemente influenciada pelos ensinamentos da Missão Militar Francesa. Toda a estrutura, pessoal e recursos encontravam-se concentrados na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal e principal centro militar do país. Esse período foi marcado por intensa efervescência no campo da aviação militar brasileira, caracterizado pela experimentação, aprendizado acelerado e adaptação de conceitos estrangeiros à realidade nacional. Processo semelhante ocorria, de forma paralela, no âmbito da Marinha do Brasil, cuja aviação naval iniciava suas operações com diversos modelos de hidroaviões e aerobotes, consolidando, assim, as bases do poder aéreo brasileiro em suas vertentes terrestre e naval. O intenso ritmo de atividades operacionais, sobretudo no âmbito da instrução, passou a impor elevados custos à nascente aviação militar do Exército Brasileiro. A elevada incidência de acidentes  em sua maioria de pequena e média gravidade  decorria, em grande parte, da inexperiência dos cadetes, contribuindo, em curto espaço de tempo, para a redução significativa da disponibilidade da frota da Escola de Aviação Militar (EAvM). Esse quadro era agravado pela diversidade de modelos em operação. 
A heterogeneidade da frota dificultava a padronização logística e comprometia a alocação eficiente dos já escassos recursos destinados à aquisição de peças de reposição.  Como consequência, tornava-se inviável a manutenção de estoques reguladores adequados, especialmente de componentes críticos, impactando diretamente a prontidão operacional das aeronaves. Paralelamente, o mercado aeronáutico europeu do pós-guerra encontrava-se saturado por uma vasta quantidade de aeronaves excedentes, muitas delas redirecionadas ao emergente setor civil, com aplicações em transporte, treinamento e atividades esportivas. Nesse contexto, um grande número de exemplares do  S.E.5a foi disponibilizado para exportação pelo governo britânico, sendo adquirido tanto por forças armadas estrangeiras quanto por operadores civis. Esse cenário estimulou o surgimento de iniciativas empresariais voltadas ao transporte aéreo. Nesse contexto, um investidor britânico estabeleceu-se no Brasil com o objetivo de estruturar uma empresa aérea voltada à ligação entre os centros urbanos do país, dando origem à Handley Page Ltda.. A empresa obteve autorização para operar por meio de decreto em 26 de abril de 1919 e iniciou suas atividades com uma frota composta por dois hidroaviões Norman Thompson N.T.2B, um Avro 504 e um Royal Aircraft Factory S.E.5a. Posteriormente, sua autorização foi ampliada para incluir rotas internacionais, em julho de 1920. Entretanto, apesar das expectativas iniciais, o empreendimento não prosperou. Com o encerramento de suas atividades, suas aeronaves foram transferidas às autoridades aeronáuticas militares brasileiras. Entre elas, destacava-se um exemplar do S.E.5a, que, diferentemente dos demais aviões destinados ao uso civil, foi incorporado ao Exército Brasileiro em agosto de 1920. Imediatamente, a aeronave foi integrada à frota da Escola de Aviação Militar (EAvM), passando a ser empregada, ainda que de forma limitada, no treinamento. Contudo, a documentação oficial sobre sua utilização é escassa. Relatos da época indicam que o avião recebeu as insígnias da Aviação Militar do Exército, incluindo cocares nacionais e pintura em verde e amarelo na cauda, sendo utilizado em poucos voos de curta duração no campo de aviação. Embora tenha sido entregue sem armamento, há indícios de que, por um breve período, possa ter sido equipado com metralhadoras Vickers .303 disponíveis em estoque. Ainda assim, sua operação foi efêmera: ao final de 1920, o S.E.5a foi retirado do serviço ativo, permanecendo armazenado nas instalações da escola e sendo, posteriormente, alienado como sucata. Esse episódio ilustra não apenas as dificuldades enfrentadas pela aviação militar brasileira em seus primórdios, mas também a complexidade de absorver e operar aeronaves oriundas de contextos tecnológicos e logísticos distintos, em um ambiente  carente de infraestrutura adequada.

Em Escala.
Para representarmos o Royal Aircraft Factory S.E.5.A, fizemos uso do antigo modelo da Lindberg na escala 1/48, modelo extremamente básico e sem detalhamento, porém de fácil montagem. Como não existem fotos desta aeronave em uso pela Aviação Militar do Exército Brasileiro, optamos por montar o kit direto da caixa, fazendo uso inclusive do seu sistema de armamento. Empregamos decais oriundos de diversos sets, confeccionados pela FCM Decais.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa um dos padrões empregados pelos Royal Aircraft Factory S.E.5.A junto ao Corpo Aéreo Real  (Royal Flying Corps), salientando que se trata de uma mero exercício de representação tendo em vista que não há registros fotográficos de sua breve operação na Aviação Militar do Exército Brasileiro. Empregamos tintas, washes e vernizes produzidos pela Tom Colors.

Bibliografia :
-  Royal Aircraft Factory S.E.5 - Wikipédia https://en.wikipedia.org/wiki/Royal_Aircraft_Factory_S.E.5
-  Royal Aircraft Establishment – Wikipédia https://en.wikipedia.org/wiki/Royal_Aircraft_Establishment
-  Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores Action Editora
-  Aviação Militar Brasileira 1916 - 1984 - Francisco C. Pereira Netto

Ford M-8 Greyhound (CBR - VBR)










Bibliografia : 
- M-8 Greyhound - Wikipedia http://en.wikipedia.org/wiki/M8_Greyhound
- Blindados no Brasil  - Volume I – Expedito Carlos Stephani Bastos
- O 1º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado da FEB - AMAM por Danilo Tenório Quintino
- Origem do Conceito 6X6 do Veículo Blindado no Exército Brasileiro - http://www.funceb.org.br/images/revista/20_1n8q.pdf

P-36A Curtiss Wright Hawk

Historia e Desenvolvimento.
A trajetória da Glenn Hammond Curtiss e da Curtiss Airplane and Motor Company está intimamente associada ao período de intensas transformações tecnológicas que marcou os primórdios da aviação no início do século XX. Nesse contexto de experimentação e descoberta, diversos inventores e engenheiros procuravam transformar o antigo ideal humano de voar em uma realidade técnica e operacional. Curtiss, nascido em 1878 na pequena localidade de Hammondsport, no estado de Nova York, destacou-se inicialmente como um talentoso mecânico e projetista de motores de alta performance para motocicletas.  Em 1907, Curtiss passou a integrar a Aerial Experiment Association (AEA), organização criada sob a liderança de Alexander Graham Bell, que reunia jovens inventores interessados em explorar os limites da nova tecnologia do voo motorizado. No âmbito dessa associação, Curtiss participou do desenvolvimento de diversas aeronaves experimentais, destacando-se o AEA June Bug, que em 1908 realizou um voo público controlado de aproximadamente 1,6 quilômetro. A demonstração valeu à equipe o prestigiado troféu concedido pela Scientific American, reconhecimento que consolidou a reputação de Curtiss como um dos mais promissores engenheiros da nascente indústria aeronáutica. O sucesso dessas experiências estimulou Curtiss a estabelecer sua própria empresa dedicada ao desenvolvimento de aeronaves. Assim, em 1909 foi fundada a Curtiss Aeroplane Company, que alguns anos mais tarde, em 1916, passaria a denominar-se Curtiss Airplane and Motor Company. Instalada na cidade de Buffalo, no estado de Nova York, a companhia rapidamente se destacou pela produção de aeronaves completas e motores aeronáuticos, dedicando atenção especial ao desenvolvimento de hidroaviões e aeronaves de treinamento. Graças ao pioneirismo de seus projetos voltados para operações sobre a água, Curtiss passou a ser frequentemente reconhecido como o “pai dos hidroaviões”. Um dos marcos mais notáveis dessa vertente tecnológica foi o desenvolvimento do Curtiss NC-4, aeronave integrante da série NC (“Navy-Curtiss”), que em 1919 realizou a primeira travessia aérea transatlântica bem-sucedida da história. O voo ocorreu em etapas, partindo de Newfoundland, no Canadá, passando pelos Açores e chegando finalmente a Lisboa, em Portugal, demonstrando a viabilidade estratégica da aviação de longo alcance e projetando internacionalmente a capacidade tecnológica da indústria aeronáutica norte-americana. A Primeira Guerra Mundial (1914–1918) representou um momento decisivo para a expansão industrial da Curtiss. Durante o conflito, a empresa tornou-se uma das principais fornecedoras de aeronaves de treinamento para os Estados Unidos e para diversas nações aliadas. O modelo mais emblemático desse período foi o Curtiss JN-4 Jenny, um biplano de dois lugares introduzido em 1915 que se tornaria o principal treinador das forças aéreas norte-americanas e canadenses. Equipado com o motor Curtiss OX-5, de aproximadamente 90 hp, o JN-4 destacava-se por sua robustez estrutural, simplicidade de manutenção e facilidade de pilotagem.  Ao final da guerra, mais de seis mil exemplares do “Jenny” haviam sido produzidos, e muitos deles foram posteriormente incorporados à aviação civil. 

Paralelamente às aeronaves de treinamento, a Curtiss também desenvolveu importantes hidroaviões de patrulha marítima, como o Curtiss H-12 e o H-16, empregados pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) e pelo  Serviço Naval Real (RNAS) em missões de patrulhamento marítimo e guerra antissubmarino. Durante a década de 1920, em um cenário de rápida evolução tecnológica, a empresa ampliou significativamente sua atuação industrial, passando a investir em pesquisa e desenvolvimento, produzindo novas gerações de aeronaves militares e civis, bem como motores aeronáuticos de alto. Entre os projetos mais relevantes desse período destacou-se o P-1 Hawk, introduzido em 1925. Projetado com a participação de engenheiros como Don R. Berlin, o P-1 incorporava avanços estruturais significativos, incluindo maior emprego de construção metálica e a adoção de motores mais potentes, características que antecipavam a evolução dos caças militares modernos. Outro campo no qual a empresa alcançou destaque foi o desenvolvimento de motores aeronáuticos, sobressaiu o D-12 um motor V-12 refrigerado a líquido que oferecia desempenho superior a muitos motores radiais contemporâneos. Esse propulsor equipou aeronaves de alto desempenho, como o Curtiss R3C, pilotado pelo célebre aviador Jimmy Doolittle na vitória da Schneider Trophy 1925. Em 1929, a empresa fundiu-se com a Wright Aeronautical, formando a Curtiss-Wright Corporation, este processo integrou a expertise da Curtiss em aeronaves e hidroaviões com a liderança da Wright em motores, criando uma potência industrial capaz de atender às demandas da aviação militar e civil.  Um destes exemplos pode ser representado na criação da aeronave de combate  Model 75, um modelo de caça monomotor monoplano concebido totalmente com investimento privado da companhia. Este projeto seria originado dentro de um ousado programa de planejamento estratégico da empresa, que visava antever possíveis demandas do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Este avião seria projetado pelo engenheiro aeronáutico Don R. Berlin, que trazia grande experiência obtida junto sua passagem anterior pela Northrop Aircraft Company. O primeiro protótipo seria concluído em maio de 1934, e apresentava uma moderna construção, toda em metal com superfícies de controle cobertas de tecido, um motor radial Wright XR-1670-5 desenvolvendo 900 hp (670 kW). Esta nova aeronave  estava armada com duas metralhadoras de calibre 7,62 mm instaladas nas asas e uma metralhadora de calibre 12,7 mm sincronizada disparando através do arco da hélice.  Nesta fase inicial, a aeronave não dispunha de blindagem de cabine ou tanques de combustível auto-vedantes. Seu trem de pouso retrátil apresentava um giro 90 ° para assim dobrar as rodas principais na parte traseira da asa, ficando então apoiado sobre as extremidades inferiores das hastes laterais quando retraído, sendo este um revolucionário projeto patenteado anteriormente pela Boeing Aircraft, Company razão pela qual Curtiss-Wright Corporation teria de que pagar royalties por esta propriedade intelectual durante toda a década de 1930. O primeiro protótipo alçaria voou no dia 6 de maio de 1935, atingindo uma velocidade de 452 km/h a 10.000 pés (3.000 metros) durante os primeiros voos de teste. 
Paralelamente neste mesmo período o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) iniciava os primeiros esforços e estudos, visando o lançamento de um programa para o desenvolvimento e seleção de uma nova aeronave de caça, visando assim substituir os já obsoletos monoplanos Boeing P-26 "Peashooter”. Diversos construtores aeronáuticos manifestariam interesse nesta concorrência, encaminhando assim diversas propostas que passariam a ser analisadas. Destas seriam pré-selecionados dois projetos finalistas, o P-35 pertencente a Seversky Aircraft Corporation, e o P-36 da Curtiss-Wright Corporation, neste contexto as duas empresas receberiam sinal verde para a preparação dos protótipos para o programa de ensaios em voo.  Em 27 de maio de 1935, o protótipo do Model 75 estava programado para ser trasladado à Base Aérea de Wright Field, Ohio, para testes do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). No entanto, um acidente com o protótipo do P-35  adiou o processo, proporcionando à equipe da Curtiss-Wright uma oportunidade valiosa para implementar melhorias. Liderada por Don R. Berlin, a equipe substituiu o motor original pelo Wright R-1820-39 Cyclone de 950 hp, mais potente e confiável, exigindo modificações na fuselagem, incluindo a adição de janelas traseiras recortadas para melhorar a visibilidade do piloto. O novo protótipo, designado Curtiss Model 75B, realizou seu primeiro voo em 4 de abril de 1936, a tempo de participar do rigoroso programa de ensaios de voo em Wright Field. Os testes compararam o Model 75B ao Seversky P-35, avaliando desempenho, manobrabilidade e confiabilidade. Apesar do excelente desempenho de giro e da alta relação potência-peso do Model 75B, a ausência de um turbocompressor limitava sua performance em altas altitudes. Ao final, o P-35 da Seversky foi declarado vencedor, beneficiado por sua capacidade de cumprir cronogramas de produção. As crescentes tensões na Europa, com a ascensão do nazismo na Alemanha, e na Ásia, com a expansão japonesa, levantaram preocupações no USAAC sobre a capacidade da Seversky de entregar aeronaves em prazos apertados. Essa incerteza levou o comando a buscar uma margem de segurança, resultando, em 16 de junho de 1936, na assinatura de um contrato com a Curtiss-Wright para a aquisição de três aeronaves do Model 75D, designadas Y1P-36. Essas aeronaves receberam o motor Pratt & Whitney R-1830-13 Twin Wasp de 900 hp, mais adequado para operações em altitudes moderadas. Os testes do Y1P-36 revelaram um desempenho excepcional em condições normais, com excelente manobrabilidade e capacidade de ascensão. Apesar da limitação em altas altitudes devido à ausência de um turbocompressor, o Y1P-36 impressionou o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) , culminando em 1937 com um contrato para a produção de 210 aeronaves, agora oficialmente designadas P-36A Hawk. As primeiras unidades foram entregues em abril de 1938 ao 20º Grupo de Caça (Pursuit Group), sediado em Barksdale Field, Louisiana, onde iniciaram a conversão de pilotos e a formação de multiplicadores para o emprego operacional. 

O Curtiss P-36A Hawk foi distribuído a grupos de caça em bases nos Estados Unidos e no Pacífico, como Pearl Harbor, onde esteve presente durante o ataque japonês de 1941. Embora superado por caças mais avançados, como o Mitsubishi A6M Zero, o P-36A provou ser robusto e versátil, especialmente em combates a baixa altitude. Sua construção simples e confiável o tornou uma escolha atraente para aliados. Antes mesmo da produção em massa para o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), a Força Aérea Francesa (Armée de l’Air) iniciou negociações com a Curtiss-Wright em 1938, visando a aquisição de  pelo menos 300 unidades do P-36, designado Hawk 75 na exportação. Este processo se estenderia demasiadamente, muito em virtude de a aeronave norte-americana apresentar o dobro do custo de aquisição de referência dos caças similares nacionais, como o Morane-Saulnier M.S.406 e Bloch MB.150, esbarrando assim em batalhas burocráticas no parlamento francês.  Outro fato a ser observado seria o possível impacto que este contrato de exportação poderia causar na cadência de produção e entrega, fato que gerava insatisfação por parte do comando do Exército Americano (U.S. Army), que acreditava que este acordo com a França poderia retardar ainda mais o já apertado cronograma de entrega. Desta maneira seria criada uma grande oposição por parte dos militares e políticos norte-americanos contra esta venda, este impasse só seria resolvido mediante intervenção direta do presidente Franklin Roosevelt, com este esforço culminando em contrato emergencial (face a pressão proporcionada pelo programa de rearmamento alemão) para o fornecimento de cem aeronaves e cento e setenta e três motores. O primeiro Curtiss Hawk 75A-1 seria entregue a Força Aérea Francesa (Armée de l'Air) em dezembro de 1938, começando a entrar em serviço operacional a partir de março do ano seguinte, com as demais aeronaves sendo fornecidas em kits e montadas localmente Société Nationale de Constructions Aéronutiques du Centre. Neste processo melhorias solicitadas pelos franceses seriam implementadas, resultando na variante Curtiss H75-C1, totalizando trezentos e dezesseis aeronaves entregues à França antes da declaração de guerra.  Essas aeronaves foram usadas na Batalha da França em 1940, enfrentando a  Força Aérea Alemã (Luftwaffe). Apesar de seu desempenho limitado em altas altitudes, os Curtiss Hawk 75 franceses obtiveram sucessos notáveis, pilotados por aviadores que demonstraram coragem em um conflito desigual. Apesar de todas as dificuldades, os pilotos franceses de cinco grupos de caça – GC I/4, GC II/4, GC I/5, GC II/5 e GC III/2 – foram responsáveis por derrubar 311 aeronaves da “Luftwaffe”. Os nomes do Cap. Jean Accart (12 vitórias), Lt. Marin la Meslée (16 vitórias) e Sgt.-Chef Morel (10 vitórias) são testemunho da luta encarniçada travada com os Curtiss Hawk 75A. Muitas das células sobreviventes seriam empregadas pela Força Aérea Alemã (Luftwaffe) na defesa dos territórios ocupados, inclusive servindo a Força Aérea Francesa de Vichy (Armée de l'Air de l'Armistice), sendo também repassadas para a Força Aérea Finlandesa (Flygvapnet).
O início das hostilidades na Europa, evidenciou rapidamente as limitações operacionais de diversos caças então em serviço nas forças aéreas ocidentais, entres estes encontrava-se o P-36A.  Relatórios de inteligência aliados destacavam, por exemplo, o desempenho superior do Messerschmitt Bf 109E, principal caça alemão empregado Paralelamente, no cenário do Pacífico, a introdução do ágil Mitsubishi A6M Zero,  reforçou a percepção de que o P-36A encontrava-se gradualmente ultrapassado diante de adversários tecnologicamente mais avançados. Esta constatação levou o comando militar a revisar seus programas de aquisição e reequipamento, embora inicialmente houvesse previsão para uma produção mais ampla, o número final de aeronaves entregues do P-36A foi limitado a cerca de 245 unidades, destinadas principalmente a equipar grupos de caça baseados no território continental dos Estados Unidos e em posições estratégicas no Pacífico. Com o ataque a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, e a consequente expansão da guerra no Pacífico, algumas dessas aeronaves foram empregadas em combate contra as forças japonesas. Nas primeiras fases da campanha, o P-36A enfrentou diretamente  A6M Zero em confrontos aéreos sobre o Havaí e nas Filipinas. Embora apresentasse boas qualidades de manobrabilidade e estabilidade em voo, o caça norte-americano sofreu perdas consideráveis em razão de sua inferioridade em velocidade e poder de fogo, agravada ainda pela ausência de blindagem adequada e de tanques de combustível auto-vedante. Mesmo diante dessas limitações, os pilotos norte-americanos, especialmente aqueles pertencentes ao 15º e ao 18º Grupos de Caça, demonstraram notável coragem e determinação em combates frequentemente desiguais. Contudo, a obsolescência do P-36A tornou-se rapidamente evidente. A partir de 1942, o modelo começou a ser substituído nas unidades de primeira linha pelo mais moderno  P-40 Warhawk. As células remanescentes do P-36A foram progressivamente transferidas para funções secundárias, sobretudo em unidades de treinamento, nesse papel, o Hawk demonstrou qualidades importantes, como facilidade de pilotagem, robustez estrutural e confiabilidade mecânica, características que o tornavam particularmente adequado para a instrução inicial de aviadores.Além de seu emprego nos Estados Unidos, o Curtiss Hawk 75  teve presença significativa em diversas forças aéreas ao redor do mundo, após a queda da França em junho de 1940, cerca de 200 aeronaves originalmente encomendadas, foram desviadas para o Reino Unido, recebendo a designação de  Mohawk IV.  Entre 1942 e 1944,  equiparam três esquadrões da Força Aérea Real (RAF) destacados para operações no teatro do Sudeste Asiático, particularmente na Índia e na Birmânia, onde participaram de missões de patrulha, escolta e apoio tático contra forças japonesas.  O modelo também foi operado, ainda que por período relativamente curto, por um esquadrão da Força Aérea Sul-Africana no Norte da África em 1942, evidenciando a versatilidade da aeronave em diferentes cenários operacionais. No total, a produção da família Curtiss Hawk 75 / P-36 alcançou aproximadamente 1.115 unidades. Essas aeronaves foram empregadas por diversas nações, entre elas Brasil, Finlândia, Peru, Nova Zelândia, Austrália, Portugal, Tailândia e as forças aéreas da Força Aérea Norueguesa Livre. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, a rápida deterioração da situação estratégica na Europa levou o governo dos Estados Unidos a considerar com crescente apreensão a possibilidade de que o conflito ultrapassasse os limites do Velho Continente e alcançasse o hemisfério ocidental. A sucessão de vitórias militares do Eixo — formado por Alemanha Nazista, Itália e Japão  alimentava o receio de que, em algum momento, essas potências pudessem buscar estabelecer posições estratégicas no Atlântico ou mesmo apoiar operações que ameaçassem diretamente o continente americano. Essas preocupações tornaram-se ainda mais intensas após a Queda da França em 1940, que alterou profundamente o equilíbrio geopolítico no Atlântico. Em Washington, cresceu o temor de que territórios coloniais franceses ou áreas sob influência europeia no Atlântico pudessem servir como bases de apoio para operações do Eixo. Entre os pontos considerados sensíveis estavam arquipélagos e portos estratégicos situados na África Ocidental, como Dacar, no atual Senegal, cuja posição geográfica oferecia condições favoráveis para o controle de rotas marítimas transatlânticas. Nesse contexto geoestratégico, o Brasil passou a ocupar posição central nas análises estratégicas aliadas. A extensa costa nordeste brasileira, particularmente na região que se projeta em direção ao Atlântico, encontra-se relativamente próxima do continente africano, o que conferia ao país importância singular para a logística e a defesa hemisférica. A preocupação aumentou à medida que se desenvolvia a Campanha do Norte da África, iniciada em 1940, quando forças alemãs e italianas buscaram consolidar posições estratégicas no norte do continente africano, ampliando o alcance operacional do Eixo naquela região. Paralelamente, o avanço japonês no Sudeste Asiático e no Pacífico  com a ocupação da Indochina em 1940 e, posteriormente, das Filipinas em 1942  provocou severas disrupções nas cadeias globais de fornecimento de matérias-primas estratégicas. Entre os recursos mais críticos encontrava-se o látex natural, indispensável para a produção de borracha utilizada em pneus, vedantes, mangueiras e inúmeros componentes industriais essenciais à maquinaria militar. Nesse cenário, o Brasil assumiu importância crescente como principal fornecedor de látex para os Aliados, reforçando sua relevância econômica e estratégica. A posição geográfica do Nordeste brasileiro tornou-se, assim, um elemento-chave da logística militar aliada. Cidades como Recife e Natal passaram a desempenhar papel fundamental como pontos de ligação entre os continentes americano e africano. A partir dessas localidades, estabeleceu-se uma ponte aérea e marítima destinada ao deslocamento de tropas, aeronaves, veículos e suprimentos rumo aos teatros de operações.  Diante desse cenário internacional cada vez mais complexo, o governo brasileiro, intensificou sua aproximação diplomática, política e econômica com os Estados Unidos. Essa processo resultou na assinatura de uma série de acordos estratégicos destinados a fortalecer a defesa do Atlântico Sul e a modernizar as estruturas militares brasileiras. Um dos instrumentos mais relevantes nesse processo foi a inclusão do Brasil no programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos).

Por meio desse programa, o Brasil recebeu inicialmente uma linha de crédito estimada em cerca de US$ 100 milhões de dólares valor extremamente significativo para a época, destinada à aquisição de equipamentos militares modernos. Esses recursos permitiram a compra de aeronaves, veículos blindados, carros de combate, navios e diversos sistemas de armamento, com o objetivo de atualizar as capacidades operacionais das Forças Armadas brasileiras, que naquele momento ainda enfrentavam sérias limitações decorrentes da obsolescência de grande parte de seu material. A assistência fornecida pelo programa revelou-se particularmente importante diante da intensificação das operações submarinas do Eixo no Atlântico Sul. Submarinos alemães e italianos  passaram a atuar com maior frequência nas proximidades do litoral brasileiro, atacando navios mercantes responsáveis pelo transporte de matérias-primas estratégicas. Entre 1942 e 1943, cerca de vinte embarcações mercantes brasileiras foram afundadas, causando perdas humanas significativas e comprometendo temporariamente o fluxo de recursos destinados ao esforço de guerra aliado. Nesse contexto, o fortalecimento das capacidades navais e aéreas do Brasil tornou-se imperativo. A modernização promovida pelo programa de assistência militar permitiria ao país assumir papel ativo na defesa do Atlântico Sul, contribuindo para a proteção das rotas marítimas utilizadas no transporte de suprimentos estratégicos entre as Américas, a África e a Europa. Foi também nesse período que se consolidou a estrutura institucional da Força Aérea Brasileira (FAB), criada oficialmente em 20 de janeiro de 1941 com a fundação do Ministério da Aeronáutica (MAEr). Apesar da importância estratégica dessa nova força armada, sua frota inicial era composta majoritariamente por aeronaves já ultrapassadas para os padrões da guerra moderna. Assim enfrentava-se  sérias dificuldades, especialmente no que se referia à disponibilidade de aeronaves adequadas para o treinamento básico e avançado de pilotos militares. Dessa forma, a modernização promovida por meio dos acordos com os Estados Unidos não apenas reforçou a capacidade defensiva do Brasil, mas também lançou as bases para a formação de uma aviação militar mais estruturada e tecnicamente preparada. A aquisição de aeronaves modernas de treinamento e combate tornou-se essencial para formar um contingente de pilotos aptos a atuar em um conflito de escala global, preparando o país para desempenhar papel mais ativo nas operações aliadas nos anos seguintes. O Brasil, alinhado aos Aliados após os ataques a navios mercantes brasileiros por submarinos alemães, assumiu um papel estratégico na defesa do Atlântico Sul, protegendo comboios marítimos e a estratégica passagem do Canal do Panamá.  No entanto, a aviação de caça nacional era limitada, contando com aeronaves obsoletas como os F-4B e P-12, disponíveis em pequenas quantidades, que permitiam apenas  voos de presença ao longo do litoral, realizados com monomotores como o AT-6B Texan e o V-65B Corsair, usados para treinamento e patrulha. 
A necessidade de modernização das forças aéreas brasileiras, em meio às crescentes exigências impostas pela Segunda Guerra Mundial, levou o governo do Brasil e o recém-criado Ministério da Aeronáutica (MAer) a estruturar um programa de reequipamento progressivo. Esse processo foi concebido em etapas, priorizando inicialmente a aquisição de aeronaves de treinamento destinadas à formação de pilotos militares, seguidas por aviões de patrulha marítima voltados à proteção do tráfego mercante e, em um estágio posterior, pela introdução de aeronaves de caça mais modernas. Nesse contexto, a incorporação de caças de alto desempenho, como o Republic P-47D Thunderbolt, acabou sendo temporariamente adiada. Tal decisão refletia as prioridades estratégicas dos Estados Unidos, que concentravam seus recursos industriais no reequipamento das próprias unidades engajadas nos principais teatros de operações da guerra, tanto na Europa quanto no Pacífico. Assim, as necessidades imediatas da Força Aérea Brasileira (FAB) precisaram ser atendidas, em um primeiro momento, por meio da transferência de aeronaves já em uso nas forças norte-americanas. Foi nesse cenário que, em 8 de março de 1943, a  Força Aérea Brasileira (FAB) recebeu dez células do caça Curtiss P-36A Hawk, provenientes da frota da Corpo Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAC) especificamente da 6th Air Force, então baseada na Albrook Air Force Station, situada na Zona do Canal do Panamá. Essas aeronaves haviam sido anteriormente operadas por unidades de caça norte-americanas responsáveis pela defesa aérea dessa importante via de comunicação interoceânica, considerada vital para o transporte de tropas, suprimentos e material bélico entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Produzidos pela Curtiss-Wright Corporation, os exemplares transferidos estavam equipados com motores Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp, capazes de desenvolver cerca de 900 hp de potência. O armamento consistia em metralhadoras de 7,62 mm e 12,7 mm, padrão para caças norte-americanos do período inicial da guerra. Entre as características técnicas mais curiosas dessas aeronaves encontrava-se o sistema Coffman de partida do motor, que utilizava a deflagração de um cartucho para acionar o mecanismo de ignição  solução também empregada em aeronaves britânicas contemporâneas, como o Supermarine Spitfire e o Hawker Typhoon. Embora cuidadosamente selecionadas com base em seu estado geral de conservação, essas aeronaves já apresentavam desgaste estrutural significativo, encontrando-se próximas ao limite de sua vida útil operacional. Por essa razão, foram classificadas como RP-36A, sendo o prefixo “R” indicativo de uso restrito. Após sua preparação para transferência, os aviões foram translados por pilotos norte-americanos até a Base Aérea de Fortaleza, no estado do Ceará, instalação que possuía elevada importância estratégica no sistema de defesa do Atlântico Sul. 

O comando da Aeronáutica reconhecia plenamente que os RP-36A não eram adequados para missões de combate intensivo. Dessa forma, decidiu-se empregá-los exclusivamente em atividades de instrução e adaptação operacional.  Apesar dessas limitações, sua introdução representou um avanço relevante para, pois permitiu familiarizar pilotos brasileiros com aeronaves de caça monoplanas de maior desempenho, além de introduzir conceitos modernos de operação e combate aéreo. Nesse contexto, ganhou destaque o Agrupamento de Aviões de Adaptação (AAA), organização criada em 1942 como parte do esforço de modernização da aviação militar brasileira. Estabelecido na Base Aérea de Fortaleza e inicialmente comandado por oficiais como o Major Aviador Oswaldo Pamplona, o agrupamento tinha como missão principal adaptar pilotos e tripulações brasileiras às aeronaves de origem norte-americana. Ao longo de suas atividades,  operarua uma variedade de aeronaves utilizadas em programas de treinamento e adaptação, entre elas o bombardeiro  B-18 Bolo, o médio B-25 Mitchell e o próprio  P-36A Hawk. Essas aeronaves desempenharam papel fundamental na formação de pilotos e instrutores que posteriormente disseminariam novas doutrinas operacionais dentro. Sob supervisão de instrutores norte-americanos vinculados ao Corpo Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAC) , o agrupamento tornou-se responsável pela etapa final da formação de pilotos brasileiros. Esses aviadores haviam iniciado sua instrução em aeronaves básicas como o PT-19, passando posteriormente para um programa avançado que incluía treinamento tático e familiarização com técnicas modernas de combate aéreo. As atividades de instrução enfatizavam particularmente os aspectos da guerra aeronaval, refletindo a realidade estratégica enfrentada pelo Brasil naquele momento. A principal ameaça ao país era representada pelas operações de submarinos alemães e italianos que realizavam ataques contra navios mercantes nas rotas marítimas do Atlântico Sul. Diante da intensificação dessas ameaças e dos atrasos na entrega de aeronaves especializadas para patrulha marítima e guerra antissubmarino, o Agrupamento de Aviões de Adaptação (AAA) foi obrigado a adaptar temporariamente suas funções. Assim, aeronaves originalmente destinadas ao treinamento avançado, como o  P-36A Hawk e o AT-6 Texan, passaram a realizar missões de patrulha e apoio operacional ao longo do litoral brasileiro. Embora esses aviões possuíssem capacidade limitada para infligir danos diretos a submarinos inimigos, sua presença constante no ar exerceu um importante efeito dissuasório.  A presença dos P-36A na Base Aérea de Fortaleza, contudo, seria relativamente breve. Em novembro de 1942, com a desativação do Agrupamento de Aviões de Adaptação, as aeronaves remanescentes da unidade foram transferidas para o 6º Regimento de Aviação, subordinado ao Base Aérea de Recife, no estado de Pernambuco. 
No entanto, a chegada dos P-36A dar-se-ia muitas semanas antes, visto que todos foram arrolados e preparados pelo 10º Corpo da Base Aérea de Recife, no dia 26 de setembro de 1942. Naquele momento 04 dessas aeronaves já haviam sido vítimas de acidentes, envolvendo perda total de material, vitimando infelizmente três pilotos. Apesar de não existirem indicações claras sobre as causas destes acidentes, é lícito presumir que as dificuldades materiais encontradas na operação destas aeronaves no nos Estados Unidos tenham se repetido aqui no Brasil, ainda mais em um ambiente como menos infraestrutura técnica. Este cenário começaria a ser modificado a partir de abril de 1942, com o recebimento de seis células novas de fábrica da versão P-40E-1-CU, que originalmente estavam destinadas a atender uma encomenda Força Aérea Real (RAF), sendo desviadas para atender a urgência no processo de reequipamento brasileiro.  Em novembro deste mesmo ano, um segundo lote de aeronaves de caça seria recebido sendo composto por 10  P-40K-10CU, e logo em seguida um terceiro lote com 17   P-40K-15CU e por fim dez aeronaves do modelo P-40M-5-CU. Assim a introdução de aeronaves mais modernas e capazes, logo provocaria uma pronunciada queda no emprego dos P-36A  no dia a dia das operações. Em abril do ano seguinte, a reduzida frota agora composta por apenas seis células seria novamente transferida, agora com destino a Base Aérea de Natal no estado do Rio Grande do Norte, onde passariam a equipar o Grupo Monoposto Monomotor (GMM). Nesta unidade continuariam a realizar a tarefa de treinamento, além de esporadicamente realizar missões de patrulha ao longo do litoral nordestino. No dia 30 de setembro de 1943, um novo acidente com perda total de material e pessoal nas proximidades do bairro da Lagoa Seca na cidade Natal reduziria ainda mais a frota,  reforçando a falta credibilidade no ceio da aviação de combate. Seja como for, em dezembro do mesmo ano seria determinado pela Diretoria de Material da Aeronáutica  (DIRMA) que as células remanescentes fossem retiradas das operações de voo. Logo em seguida seria definido que as aeronaves remanescentes fossem transladas em voo para São Paulo – SP, a fim de serem transferidas para a Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR), para serem utilizados na instrução em solo. O Boletim da Diretoria de Material da Aeronáutica – DIRMA, de 05 de setembro de 1944, publicaria oficialmente a transferência dessas aeronaves para a referida organização de ensino militar. Não se sabe ao certo por quanto tempo os Curtiss P-36A Hawk seriam empregados como aeronaves de instrução em solo, estima-se que gradualmente estas aeronaves começariam a ser descarregadas do acervo da  Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR). No final da década de 1940, os poucos aviões restantes, já transformados em sucata, seriam vendidos para aproveitamento da matéria-prima, encerrando, assim, uma curta fase de operação.

Em Escala.
Para representarmos o Curtiss P-36A Hawk "FAB 04" , fizemos uso do modelo da Hobbycraft na escala 1/48, modelo de fácil montagem que contempla ainda decais para a versão brasileira, porém uma análise mais próxima aponta erros na fidelização dos decais, nos levando a empegar uma mescla dos numerais do modelo com decais confeccionados pela FCM oriundos de diversos sets, com observação para os cocares da  Força Aérea Brasileira que foram feitas com a aplicação da estrela verde amarela sobre a identificação do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC).
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura original do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) com a adoção de matricula e marcações da Força Aérea Brasileira (FAB), este padrão teve pequenas variações que contemplaram a pintura da carenagem do motor em vermelho ou amarelo, a exceção do "FAB 06" do Grupo Monoposto Monomotor (GMM) que recebeu o esquema padrão das aeronaves de treinamento (prata e laranja), todas as demais células mantiveram o esquema original até sua desativação.

Bibliografia :
-  Curtiss P-36A Hawk  - Wikipédia http://en.wikipedia.org/wiki/Curtiss_P-36_Hawk
-  O Curtiss P-36 na FAB por Aparecido Camazano Alamino - Revista Asas Nº 47
-  História da Força Aérea Brasileira por :  Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
-  Aviação Militar Brasileira 1916 / 1984 - Francisco C. Pereira Netto