M-20 Ford Comando (VBR)

História e Desenvolvimento.
Na primeira metade da década de 1930, o plano de reequipamento do governo nacional-socialista alemão encontrava-se em plena implementação, abrangendo não apenas a modernização de armamentos, mas também o desenvolvimento de novos conceitos e doutrinas militares. No campo de batalha, essas inovações seriam empregadas de forma sincronizada, integrando veículos, armamentos e carros de combate de última geração. Essa iniciativa culminaria na formulação do conceito da "Guerra Relâmpago" (Blitzkrieg), uma tática militar que enfatizava o emprego de forças altamente concentradas e de rápida mobilidade. A estratégia envolvia formações blindadas e unidades de infantaria motorizada ou mecanizada, operando em conjunto com artilharia, assalto aéreo e apoio aéreo aproximado. O objetivo principal era romper as linhas defensivas inimigas, desestabilizar suas forças e comprometer sua capacidade de resposta diante de uma frente de batalha em constante mutação, conduzindo-as, assim, a uma derrota rápida e decisiva. Um dos pilares fundamentais dessa tática baseava-se no desenvolvimento de novos carros de combate que, ao entrarem em ação a partir de setembro de 1939, demonstraram superioridade em diversos aspectos em relação a seus equivalentes britânicos, soviéticos, norte-americanos e franceses. Apesar das restrições impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes (assinado ao término da Primeira Guerra Mundial, em 1918), era evidente que o regime nazista avançava rapidamente em seu programa de rearmamento — um fato que não passou despercebido pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos. Relatórios elaborados por esses serviços detalhavam o crescente potencial das forças armadas alemãs, incluindo projeções de aumento do efetivo militar e da produção de equipamentos. Particular atenção foi dada aos novos modelos de carros de combate Panzer I e II, que, em muitos aspectos, superavam os modelos leves M-1 e M-2, então em serviço nas unidades de cavalaria blindada do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Diante desse cenário, em abril de 1939 foi iniciado um programa de estudos com o objetivo de conceber uma nova geração de carros de combate e veículos blindados capazes de rivalizar com os modelos alemães em um eventual conflito. Essa iniciativa foi conduzida pelo Departamento de Artilharia do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army Ordnance Department), sediado em Fort Lee, Virgínia, e resultou no desenvolvimento de blindados sobre esteiras e sobre rodas. Os primeiros frutos desse esforço materializaram-se nos projetos dos carros de combate médios M-3 Lee e M-4 Sherman. No campo de batalha, essas viaturas deveriam ser complementadas por um novo modelo de veículo blindado antitanque leve, destinado a substituir o já obsoleto GMC M-6 Gun Motor Carriage — um blindado sobre rodas derivado do utilitário General Motors WC-5, com tração 4x4. Os parâmetros estabelecidos para o desenvolvimento desse veículo especificavam um blindado leve e ágil, dotado de tração integral do tipo 6x6, equipado com um canhão M6 de 37 mm (o mesmo utilizado nos carros de combate leves M-3 Stuart), montado em uma torre giratória, além de duas metralhadoras Browning,  de calibres .50 e .30, para autodefesa.

Com essas definições, foi deflagrada uma concorrência visando à aquisição de um lote substancial desses blindados. Para tal, constituiu-se uma comissão técnica no Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD – Department of Defense), responsável por receber e avaliar as propostas técnicas e comerciais de possíveis fornecedores. As análises iniciais resultaram em uma lista final (shortlist) com três empresas concorrentes: a Studebaker Automotive Company, com seu modelo T-21; a Ford Motor Company, com o T-22; e, por fim, a Chrysler Automotive Company, com o T-23. Para viabilizar o desenvolvimento dos projetos, foram disponibilizadas linhas de financiamento governamental para a construção dos protótipos, concluídos entre os meses de outubro e novembro de 1941. Em seguida, iniciou-se um rigoroso programa de testes no campo de provas de Aberdeen Proving Ground, em Maryland, prolongando-se até março do ano seguinte. Durante esse processo, o modelo T-22, da Ford, destacou-se nas avaliações comparativas em relação aos demais concorrentes. Embora tenha sido declarado vencedor da concorrência, o T-22 apresentou algumas deficiências que exigiam correções e melhorias no projeto. Essas modificações foram implementadas pela equipe de engenharia da montadora, resultando na versão inicial de produção, denominada T-22E2. No entanto, nesse momento, já era evidente que o canhão de 37 mm não se mostrava mais eficaz contra as blindagens frontais e laterais dos novos carros de combate alemães e italianos, que estavam equipados com armamentos de maior calibre. Assim, em um hipotético confronto contra forças do Eixo, o T-22 tornar-se-ia um alvo vulnerável, especialmente porque sua blindagem fora projetada para resistir apenas ao impacto de armamentos leves, limitando severamente sua capacidade de sobrevivência no campo de batalha. Apesar dessa limitação crítica, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) optou por seguir com a produção em larga escala do veículo, decisão fortemente influenciada pela intensificação das tensões políticas na Europa e no Pacífico. A necessidade urgente de implementação de um amplo programa de reequipamento militar levou à redefinição do papel do T-22E2, que passou a ser destinado especificamente a missões de reconhecimento no campo de batalha. Para atender a essa nova função, o veículo recebeu uma série de modificações estruturais e operacionais. Com os ajustes técnicos definidos, iniciou-se a fase de negociação comercial para sua produção em série. No entanto, esse processo enfrentou graves entraves burocráticos, relacionados à formalização do contrato de fabricação, o que atrasou sua entrada em serviço. Esses entraves negociais resultaram em um significativo atraso no cronograma original de produção, com as primeiras unidades sendo concluídas apenas em meados de março de 1943. Assim que foram finalizadas, passaram a ser distribuídas às unidades operacionais, recebendo, nesse momento, a designação militar de M-8.
O casco do veículo era composto predominantemente por chapas soldadas, embora alguns painéis externos fossem rebitados à estrutura. Suas seis rodas eram protegidas por escudos laterais removíveis, enquanto a seção traseira possuía uma estrutura alada, permitindo que fossem dobradas e equipadas com correntes para pneus em condições de neve. O M-8 era propulsionado por um motor Hercules Model JXD, um seis cilindros em linha a gasolina, capaz de gerar 110 hp de potência. Esse conjunto mecânico proporcionava ao blindado uma velocidade média de 48 km/h (30 mph) em terrenos irregulares e 90 km/h (56 mph) em estradas pavimentadas. O consumo médio de combustível era de aproximadamente 7,5 milhas por galão (mpg), e seus tanques tinham capacidade para 59 galões, conferindo-lhe um alcance operacional de 640 km (400 milhas). A posição do motorista estava localizada à esquerda, enquanto o operador de rádio se sentava à direita. Ambos eram acomodados em um compartimento saliente, protegido por painéis blindados dobráveis de duas peças e visores estreitos. A torre do veículo, aberta na parte superior, abrigava o comandante e o artilheiro. Apesar da ausência de um teto fechado, era possível utilizar persianas e tampas de escotilhas para proteção adicional, além de pequenos periscópios para garantir visão periférica. O armamento principal do M-8 era composto por um canhão M6 de 37 mm, apontado por meio de uma mira telescópica M70D. O veículo transportava 80 cartuchos para o canhão, porém, o espaço interno permitia armazenar apenas 16 projéteis prontos para uso imediato. Para autodefesa, era equipado com duas metralhadoras, abastecidas com 1.500 cartuchos, além de quatro lançadores de fumaça M1 e M2. Opcionalmente, podia transportar até seis minas terrestres (antitanque ou explosivas de alto poder destrutivo - HE), montadas externamente, além de carabinas M1 para uso da tripulação. Devido ao espaço interno reduzido, diversos ganchos e suportes foram instalados tanto na torre quanto no casco, permitindo o armazenamento de equipamentos essenciais. Como resultado, a maioria dos itens pessoais da tripulação foi montada externamente sobre os para-lamas dianteiros e traseiros. Entre os acessórios transportados externamente estavam mochilas, ferramentas, cabos e, posteriormente, sacos de areia, adicionados como medida extra de proteção. O M-8 também foi equipado com um avançado sistema de comunicação, essencial para o cumprimento de suas missões de reconhecimento. Inicialmente, utilizava o rádio SCR-506, posteriormente substituído pelos modelos SCR-510, SCR-608 e SCR-610, todos de longo alcance. O sistema de rádio era operado internamente pelo comandante do veículo, permitindo contato direto com o Quartel-General, com unidades avançadas de comando na linha de frente ou até mesmo com forças atuando em teatros de operações mais distantes. Em operação, o M-8 foi incumbido de proporcionar às divisões de infantaria e blindadas a capacidade de reconhecimento avançado no campo de batalha, atuando como os "olhos e ouvidos" do Exército dos Estados Unidos (US Army).  Nessa função, a velocidade e a agilidade na linha de frente foram priorizadas em detrimento do poder de fogo e da blindagem. A missão da cavalaria blindada consistia em estabelecer contato no momento mais propício, visando atacar, conquistar e manter as posições estratégicas. 

Nesse contexto, as unidades de reconhecimento equipadas com o M-8 tinham a responsabilidade de identificar e estabelecer contato antecipado com contingentes hostis, relatando sua força, composição, disposição e movimentos. Essas informações permitiam que o corpo principal aliado dispusesse de tempo hábil para a elaboração de estratégias e táticas para o enfrentamento futuro. Durante operações de retirada, as unidades de cavalaria blindada equipadas com o Ford M-8 foram encarregadas de estabelecer uma força de triagem junto às unidades principais, auxiliando na organização e execução do processo. Com o aumento da produção, um grande número desses blindados foi distribuído às unidades operacionais nos teatros de operações do Pacífico e na Inglaterra, onde foram armazenados em centros logísticos para seu futuro emprego nas operações de reconquista da Europa. O batismo de fogo do M-8 ocorreu no início de julho de 1943, durante a invasão da Sicília pelos Aliados, na operação denominada "Operação Husky". Após os desembarques iniciais e a subsequente consolidação da cabeça de ponte, dezenas de unidades do M-8 foram empregadas em missões de reconhecimento. Nessa campanha, o veículo demonstrou grande eficácia, não apenas devido à sua agilidade e velocidade, mas também por estar equipado com um dos mais avançados sistemas de rádio de longo alcance da época. Essa superioridade tecnológica permitia que as unidades de reconhecimento mantivessem um alto grau de surpresa e reduzissem significativamente a possibilidade de detecção pelas forças inimigas. Outro fator determinante para seu sucesso estava na concepção do seu conjunto motriz, cujos sistemas e componentes mecânicos foram projetados para operar de maneira silenciosa. Como resultado, as unidades de reconhecimento do Terceiro Exército dos Estados Unidos receberam dos alemães o apelido de "Fantasmas de Patton", em referência ao General George S. Patton. O M-8 esteve presente nas principais batalhas do conflito, embora sua blindagem relativamente leve o tornasse vulnerável a disparos de veículos blindados inimigos, como o Sd.Kfz. 234 Puma, além de carros de combate e armas antitanque alemãs. No teatro de operações do Pacífico, o veículo assumiu uma função distinta: a de destruidor de tanques. Isso se deve ao fato de que a maioria dos carros de combate japoneses possuía blindagem leve, tornando-os vulneráveis ao canhão M6 de 37 mm. Milhares de unidades desses blindados foram fornecidas a nações aliadas por meio do programa Lend & Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), beneficiando principalmente as Forças Francesas Livres, bem como o Reino Unido, Austrália, Canadá e Brasil. O apelido "Greyhound" foi atribuído por seus operadores no Exército Real Britânico (Royal Army), embora raramente, ou nunca, tenha sido utilizado pelas tropas norte-americanas. Durante sua utilização na Europa, tornou-se necessária a adoção de kits de blindagem adicional no assoalho do veículo, a fim de minimizar as perdas causadas por minas terrestres alemãs e italianas. No entanto, mesmo com essa modificação, a operação do M-8 em estradas tornou-se menos recomendada, restringindo seu uso a terrenos montanhosos, áreas de lama profunda e regiões cobertas de neve.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a utilização operacional do veículo blindado evoluiu para incluir suas funções como unidade de reconhecimento no campo de batalha e transporte de cargas especiais. Nesse contexto, centenas dessas viaturas foram adaptadas para atuar como transportadores táticos, sendo empregadas principalmente no transporte de munições e equipamentos especiais até a linha de frente. Como resultado, esses veículos blindados adquiriram significativa relevância entre as forças aliadas, uma vez que sua notável mobilidade, velocidade e proteção blindada ofereciam vantagens claras em comparação aos caminhões militares convencionais, como os GMC CCKW e Studebaker US6G. O processo de conversão envolvia a remoção da torre e do canhão originais, além da adição de um compartimento extra que contemplava dois assentos laterais, uma mesa, suportes para armamento leve e equipamento de rádio. Para reforçar a proteção, foi incorporado um trilho circular sobre essa estrutura, destinado a suportar uma metralhadora Browning M2 de calibre .50. Assim surgia o M-10 Armored Utility Car, que, para evitar confusão com o M-10 Wolverine tank destroyer, recebeu a nova denominação de M-20. Além das conversões, unidades novas foram produzidas diretamente das linhas de montagem da Ford Motors Corporation, em sua planta automotiva localizada na cidade de Saint Paul, estado do Maine. Entre os meses de junho de 1943 e julho de 1945, foram fabricados três mil setecentos e noventa e um veículos desse modelo. Após o término da Segunda Guerra Mundial, os Ford M-20 Armored Utility Cars foram novamente utilizados em missões de apoio e comando durante a participação dos Estados Unidos na Guerra da Coreia (1950-1953). Na segunda metade dessa mesma década, restou em serviço nas Forças Armadas dos Estados Unidos apenas uma pequena fração da frota original, com os veículos de comando sendo concentrados em apenas cinco regimentos de cavalaria blindada. O restante dos veículos em condições operacionais foi classificado como "excedente militar" e armazenado para eventual disponibilização a nações amigas pelo Programa de Assistência Militar (MAP - Military Assistance Program). A França tornou-se o principal operador pós-guerra do Ford M-20, recebendo dezenas de unidades entre 1945 e 1954, sendo amplamente utilizados na Primeira Guerra Indochinesa até o término do conflito, quando foram doados ao Exército da República do Vietnã (ARVN). A Legião Estrangeira Francesa (FFL) também utilizou este veículo durante a Guerra de Independência da Argélia (1954-1962). Na mesma época, o Ford M-20 foi empregado pelas Forças Armadas Belgas, atuando em conjunto com as forças de defesa da Force Publique no Congo Belga.

Emprego no Exército Brasileiro.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano passou a considerar com extrema preocupação a possibilidade de uma invasão do continente americano pelas forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Essa ameaça tornou-se ainda mais evidente após a capitulação da França, em junho de 1940, pois, a partir desse momento, a Alemanha Nazista poderia estabelecer bases operacionais nas Ilhas Canárias, em Dacar e em outras colônias francesas, criando um ponto estratégico para uma eventual incursão militar no continente. Nesse contexto, o Brasil foi identificado como o local mais provável para o lançamento de uma ofensiva, devido à sua proximidade com o continente africano, que à época também figurava nos planos de expansão territorial alemã. Além disso, as conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul transformaram o Brasil no principal fornecedor de látex para os Aliados, matéria-prima essencial para a produção de borracha, um insumo de extrema importância para a indústria bélica. Além dessas possíveis ameaças, a posição geográfica do litoral brasileiro mostrava-se estrategicamente vantajosa para o estabelecimento de bases aéreas e portos militares na região Nordeste, sobretudo na cidade de Recife, que se destacava como o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano. Dessa forma, essa localidade poderia ser utilizada como uma ponte logística para o envio de tropas, suprimentos e aeronaves destinadas aos teatros de operações europeu e norte-africano. Diante desse cenário, observou-se, em um curto espaço de tempo, um movimento de aproximação política e econômica entre o Brasil e os Estados Unidos, resultando em investimentos estratégicos e acordos de cooperação militar. Entre essas iniciativas, destacou-se a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar denominado Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), cujo principal objetivo era promover a modernização das Forças Armadas Brasileiras. Os termos desse acordo garantiram ao Brasil uma linha inicial de crédito de US$ 100 milhões, destinada à aquisição de material bélico, possibilitando ao país o acesso a armamentos modernos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Esses recursos revelaram-se essenciais para que o país pudesse enfrentar as ameaças impostas pelos ataques de submarinos alemães, que intensificavam os riscos à navegação civil, impactando o comércio exterior brasileiro com os Estados Unidos, responsável pelo transporte diário de matérias-primas destinadas à indústria de guerra norte-americana. A participação brasileira no esforço de guerra aliado logo se ampliaria. O então presidente Getúlio Vargas declarou que o Brasil não se limitaria ao fornecimento de materiais estratégicos aos Aliados e sinalizou a possibilidade de uma participação mais ativa no conflito, envolvendo o possível envio de tropas brasileiras para algum teatro de operações de relevância.

Nos termos do referido acordo de assistência militar, o Brasil deu início à recepção de uma quantidade significativa de material bélico, que incluía caminhões, veículos utilitários leves, aeronaves, navios e armamentos, sendo o Exército Brasileiro o principal beneficiário desse aporte. No que se refere aos veículos blindados, a incorporação de novos modelos começou no final de 1941, com a chegada dos carros de combate leves M-3 Stuart e médios M-3 Lee, além dos veículos de transporte de tropas M-3A1 White Scout Car e os primeiros carros de combate e reconhecimento sobre rodas 6x6, o Ford T-17 Deerhound, recebidos em meados de 1943. Subsequentemente, conforme o previsto, o Brasil ampliou sua participação no esforço de guerra ao lado dos Aliados, formalizando esse compromisso em 9 de agosto de 1943, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, publicada no boletim reservado de 13 de agosto do mesmo ano. Esta portaria estabeleceu a estrutura da Força Expedicionária Brasileira (FEB), cuja missão consistia em engajar-se nas operações de combate no teatro europeu. Para o comando da FEB, foi designado o General-de-Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, que liderou uma força composta por três Regimentos de Infantaria (o 6º Regimento de Infantaria de Caçapava, o 1º Regimento de Infantaria e o 11º Regimento de Infantaria), quatro grupos de artilharia (três equipados com peças de 105 mm e um com peças de 155 mm), uma esquadrilha de aviação destinada a missões de ligação e observação (pertencente à Força Aérea Brasileira), um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento e uma companhia de transmissões. A estruturação desse contingente seguiu os padrões das unidades operacionais do Exército dos Estados Unidos (US Army), demandando a formação de uma unidade de reconhecimento mecanizado. Dessa forma, as unidades deveriam ser equipadas com diversos veículos blindados dedicados a tarefas especializadas, como os modelos Ford M-8 Greyhound, White Motors M2 Half Track e Ford M-20 Armored Utility Car. Embora esses modelos fossem esperados em grandes quantidades para o Exército Brasileiro, ocorreu uma discrepância, pois foram cedidos em números inferiores às necessidades reais de um contingente da magnitude do brasileiro. Curiosamente, nenhum veículo de comando blindado Ford M-20 Armored Utility Car foi entregue ao teatro de operações da Itália, às tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), resultando no fato de que o 1º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária ficou equipado apenas com quinze veículos do modelo Ford M-8 Greyhound. Essa definição deixou o comando do Exército Brasileiro no front italiano sem a opção de contar com um carro de comando blindado, forçando o uso de modelos especializados não blindados, como os Dodge WC-56 e Dodge WC-57 Command Car, nas linhas de retaguarda.
Paralelamente, durante a Segunda Guerra Mundial, em meados de 1944, o Exército Brasileiro recebeu, sob os termos do programa Lend-Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos), vinte carros blindados Ford M-8 Greyhound e dois veículos de comando do modelo Ford M-20 Armored Utility Car. Estas novas incorporações de veículos blindados sobre rodas ampliaram significativamente a capacidade de mobilidade da Força Terrestre Brasileira, sendo inicialmente distribuídos entre as unidades blindadas de infantaria situadas no Rio de Janeiro. Tal movimentação possibilitou ao Exército Brasileiro concentrar os primeiros carros blindados sobre rodas com tração integral 6x6 em operação, do modelo Ford T-17 Deerhound, na região Sul do país. Após a rendição das forças armadas alemãs em 8 de maio de 1945, todo o contingente da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi desmobilizado, dando início ao processo de repatriamento das tropas, veículos e equipamentos pertencentes ao Exército Brasileiro. Os blindados remanescentes do modelo Ford M-8 Greyhound, designados como "Italianos", foram despachados para o Brasil por via naval, a bordo de navios da Marinha dos Estados Unidos(US Navy). Após a chegada ao porto do Rio de Janeiro, esses blindados de reconhecimento foram reunidos em um único esquadrão, passando a operar em conjunto com os dois veículos de comando Ford M-20  A esse grupo se acrescentaram mais vinte Ford M-8 Greyhound e pelo menos quatro M-20 que seriam recebidos ainda no final do mesmo ano. Essa ampliação permitiu ao Exército Brasileiro expandir seu leque operacional, com os veículos sendo integrados às unidades de reconhecimento mecanizado, e o esquadrão passando a ser considerado o embrião da cavalaria mecanizada no Brasil, preparando a transição da doutrina hipomóvel para a mecanizada. Neste período, o 1º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado (Esqd Rec Mec) possuía uma significativa experiência operacional adquirida em combates durante a Segunda Guerra Mundial, o que foi determinante para o desenvolvimento da cavalaria mecanizada no Brasil. Esse processo teve grande relevância na modernização da Força Terrestre, promovendo a transição da doutrina operacional hipomóvel para a mecanizada. Toda essa evolução permitiu que o Brasil se mantivesse como uma potência militar na América do Sul e a principal força de cavalaria da região, adaptando rapidamente suas tecnologias de combate ligeiro, de reconhecimento, segurança e ataque. Registros não confirmados indicam que, no início da década de 1950, o Exército Brasileiro teria recebido pelo menos mais quatorze veículos do modelo Ford M-20 Armored Car, oriundos dos estoques do Exército dos Estados Unidos (US Army), agora disponibilizados no âmbito do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program - MAP). Pela primeira vez em sua história, o Exército Brasileiro dispunha de uma frota completa e moderna de veículos destinados a múltiplas aplicações. Os carros de comando Ford M-20 Armored Utility Car passaram a operar em conjunto com os Ford M-8 Greyhound e outros modelos de carros blindados, implementando assim, pela primeira vez, um conceito integral de comando e controle.

A partir de 1947, o Exército Brasileiro implementou uma profunda reorganização operacional, marcando um avanço significativo em suas capacidades táticas. Pela primeira vez, durante os treinamentos operacionais, oficiais de comando puderam operar na linha de frente em profundidade até então considerada inviável para veículos de comando não blindados, como o Dodge WC-57 Command Car. Um diferencial qualitativo foi a introdução de sistemas de rádio de longo alcance de última geração, que proporcionaram conectividade essencial para a coordenação das forças mecanizadas. No âmbito dessa reestruturação, o 4º/2º Regimento de Cavalaria Divisionária (R.C.D), sediado em São Borja, Rio Grande do Sul, foi redesignado como 2º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado (Esqd Rec Mec). Como parte da modernização, a unidade substituiu os carros de combate leves M-3A1 Stuart por um novo conjunto de viaturas blindadas, composto por: Oito viaturas blindadas sobre rodas Ford M-8 Greyhound, cinco carros blindados meia-lagarta White Motors M-2A1 e por fim um Ford M-20 Armored Utility Car, utilizado como veículo de comando. Esse esquadrão tornou-se o segundo grupamento do Exército Brasileiro a operar o Ford M-20, alcançando elevado nível de proficiência nos anos subsequentes. Em 15 de janeiro de 1954, por meio do Decreto Federal nº 34.946, sancionado pelo presidente Getúlio Vargas, a unidade foi renomeada como 13º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada (RCMec) – Regimento Anhanguera. Simultaneamente, o esquadrão foi transferido, com seu efetivo e equipamentos, para a cidade de São Paulo. Nos anos seguintes, o binômio formado pelos blindados M-8 Greyhound e M-20 Armored Utility Car destacou-se em manobras militares realizadas no estado de São Paulo. Adicionalmente, o Ford M-20 ganhou notoriedade pública ao liderar os desfiles de 7 de setembro na capital paulista, consolidando-se como um símbolo reconhecido pela população. O Ford M-20 Armored Utility Car também foi empregado em operações internacionais. Durante a Crise do Canal de Suez (1957-1967), contingentes do Exército Brasileiro integraram a Força Multinacional de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Nesse contexto, cinco unidades do M-20, pertencentes ao Exército dos Estados Unidos, foram cedidas em regime de comodato para uso por militares brasileiros, reforçando a participação do Brasil nessa missão de paz. A modernização promovida a partir de 1947, aliada à introdução de novas viaturas blindadas e sistemas de comunicação, consolidou a capacidade operacional do Exército Brasileiro. A atuação do 13º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada, tanto em manobras nacionais quanto em missões internacionais, evidenciou a relevância estratégica dessas transformações, projetando a eficiência do Exército Brasileiro em cenários diversos. Entretanto, a partir do início da década de 1960, a frota de blindados M-8, já envelhecida, começou a apresentar preocupantes índices de disponibilidade, especialmente em razão das dificuldades crescentes para a obtenção de peças de reposição para os antigos motores a gasolina Hercules JXD de seis cilindros e 100 hp.  Esse cenário gerou uma crescente preocupação quanto à viabilidade da continuidade operacional da frota. Neste contexto, as projeções indicavam um iminente colapso dessa frota, uma vez que, naquela época, restavam poucas unidades do Ford T-17 Deerhound em operação, sendo estas predominantemente utilizadas pela Polícia do Exército (PE), o que reduzia consideravelmente o número de viaturas disponíveis para os Esquadrões de Reconhecimento Mecanizado. 
A solução primordial para essa situação residia na aquisição de modelos modernos, conforme os termos estabelecidos pelo Programa de Assistência Militar (MAP - Military Assistance Program). Durante esse período, foram recebidos novos carros de combate, como os M-41 Walker Bulldog, blindados de transporte de tropa M-59 e outras viaturas. Curiosamente, não foram recebidos veículos de categoria similar aos M-8 e M-20. Como resultado, a solução voltou-se para estudos destinados ao repotenciamento dessas viaturas blindadas sobre rodas, com o objetivo de restabelecer uma mínima capacidade operacional para os Esquadrões de Reconhecimento Mecanizado. Este processo seria baseado em um programa semelhante aplicado pelo Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2) em uma parcela da frota de blindados meia lagarta M-2, M-3, M-3 A1 e M-5. Este programa de repotenciamento seria iniciado no final de 1967, envolvendo a troca do motor original a gasolina Hercules JXD  gasolina de 110 hp por nacional a diesel Mercedes-Benz OM 321 de 6 cilindros de 120 hp de potência. Seriam trocados também a caixa de câmbio manual, diferencial e seu sistema de freio dianteiro, sendo fabricados também pela própria montadora e por fim toda sua parte elétrica. Este protótipo após concluído seria empregado em um programa de testes campo entre os anos de 1968 e 1969, apresentando resultados extremamente satisfatórios, levando a Diretoria de Motomecanização (DMM) a decidir pela aplicação deste programa em um lote piloto de 33 viaturas Ford M-8 VBR e dois Ford M-20 Carro Comando. Estes trabalhos agora seriam conduzidos junto as oficinas do Parque Regional de Motomecanização da 2º Região Militar (PqRMM/2), com os primeiros carros sendo devolvidos aos Esquadrões de Reconhecimento Mecanizado a partir do início do ano de 1970. A seguir seria contratada o repotenciamento de mais viaturas destes dois modelos, com seu cronograma de entrega se estendendo até meados do ano do 1972. Por fim a grande contribuição do processo de repotenciamento dos Ford M-8 e M-20 se daria pela obtenção de grande experiencia e qualificação teórica e prática que permitiria ao corpo técnico de engenharia do Exército Brasileiro. Os frutos deste conhecimento adquirido seriam materializados no desenvolvimento do conceito de um veículo leve sobre rodas de combate 4X4  o "VBB-1" (Viatura Blindada Brasileira 1), que logo em seguida evoluiria para o "VBB-2" (Viatura Blindada Brasileira 2) com tração 6X6. Nos anos seguintes os M-8B e M-20B seguiram atuando, passando a ser gradualmente retirados das unidades operativas após o recebimento dos primeiros Engesa EE-9 Cascavel "Magro". A partir deste momento seriam alocados junto as unidades de Polícia do Exército (PE), com os últimos sendo retirados do serviço ativo somente em meados do ano de 1987, completando uma carreira de mais de quarenta anos. 

Em Escala.
Para representar o Ford M-20 Armored Utility Car, identificado como "EB10-301" e utilizado como veículo de comando pelo 13º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada (RCMec) – Regimento Anhanguera, foi selecionado o modelo em escala 1/32 produzido pela Monogram, uma peça antiga e de rara disponibilidade. O modelo kit apresenta um interior desprovido de detalhes, sendo necessário aplicar  aprimoramentos como a adição de  equipamentos de rádio e os assentos da tripulação, reproduzindo com precisão os elementos característicos do veículo de comando. Utilizaram-se decais da Eletric Products, pertencentes ao conjunto temático "Exército Brasileiro 1944-1982", garantindo a correta identificação e representação visual do veículo conforme sua utilização pelo Exército Brasileiro.

O esquema de cores descrito refere-se ao padrão tático de pintura utilizado pelo Exército dos Estados Unidos (US Army) durante a Segunda Guerra Mundial, aplicado aos veículos blindados Ford M-20 Armored Utility Car recebidos pelo Exército Brasileiro. Após sua incorporação, esses veículos mantiveram o esquema original, com a adição exclusiva das marcações nacionais do Brasil. Esse padrão de pintura foi preservado até a desativação das viaturas em 1986. Duas viatura foram preservadas após a desativação. Uma delas foi mantida com o esquema original, enquanto a segunda recebeu um novo padrão de pintura camuflada em dois tons, adotado pelo Exército Brasileiro a partir de 1983, refletindo a modernização estética e funcional implementada na época.



Bibliografia : 
- M-8 Greyhound - Wikipedia http://en.wikipedia.org/wiki/M8_Greyhound
- Blindados no Brasil  - Volume I – Expedito Carlos Stephani Bastos
- Origem do Conceito 6X6 do Veículo Blindado no Exército Brasileiro - http://www.funceb.org.br/images/revista/20_1n8q.pdf


P-47D 25RE Republic Thunderbolt

História e Desenvolvimento.
A Seversky Aircraft Company foi fundada em 1931, em Farmingdale, por Alexander de Seversky, um expatriado russo e veterano piloto da Primeira Guerra Mundial. Naquele momento, Seversky também atuava como assessor técnico do Departamento de Guerra (United States War Department), posição que lhe permitiu acompanhar de perto os rumos da modernização da aviação militar norte-americana e apresentar ideias inovadoras para o desenvolvimento de novas aeronaves. Nos primeiros anos de operação, a empresa reuniu uma equipe de engenheiros aeronáuticos altamente qualificados, em grande parte originários da Rússia e da Geórgia. Entre os principais nomes estavam Michael Gregor e Alexander Kartveli, profissionais que desempenhariam papéis decisivos no desenvolvimento de diversos projetos que marcariam a trajetória da companhia. O caminho até o sucesso, contudo, revelou-se complexo. Após vários projetos experimentais e tentativas iniciais sem grande repercussão comercial, a empresa alcançou um marco importante em 1936 ao vencer uma concorrência promovida pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) para o desenvolvimento de um novo caça. O projeto vencedor, designado Seversky SEV-1XP, resultou no primeiro contrato militar relevante da empresa. A versão operacional desse projeto receberia a designação P-35, tornando-se um marco na evolução da aviação militar norte-americana. O P-35 foi o primeiro caça moderno adotado pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army), incorporando diversas características que definiriam a nova geração de aeronaves militares: fuselagem inteiramente metálica, configuração monoplano de asa baixa e trem de pouso retrátil  embora ainda parcialmente exposto. A aeronave era equipada com um motor radial Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp com aproximadamente 850 cavalos de potência. No final da década de 1930, o governo norte-americano iniciou um ambicioso programa de reequipamento de suas forças aéreas, estimulando o desenvolvimento de novas aeronaves de combate, neste momento seria deflagrada  uma nova concorrência destinada à criação de um caça-bombardeiro mais moderno e capaz. Em resposta a essa iniciativa, a empresa apresentou, em 1939, o projeto  XP-41. Essa aeronave incorporava melhorias significativas em relação ao P-35, incluindo uma fuselagem mais aerodinâmica, cuja seção traseira se elevava gradualmente até a deriva configuração que ficaria conhecida posteriormente como perfil “razorback”. O XP-41 também apresentava um trem de pouso totalmente retrátil, duas metralhadoras calibre .30 instaladas sobre o capô do motor e uma versão mais potente do motor Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp, equipada com turbocompressor e capaz de gerar cerca de 1.150 cavalos de potência, permitindo à aeronave atingir aproximadamente 515 km/h a 15.000 pés de altitude. Apesar dessas melhorias, o projeto não atendeu plenamente às expectativas do , sendo considerado insuficiente em termos de desempenho. Como recomendação, os avaliadores sugeriram a adoção de um sistema de turbocompressão semelhante ao utilizado no bombardeiro pesado  B-17 , cuja eficiência em grandes altitudes já havia sido comprovada. Atendendo a essa pleito, este sistema seria instalado na parte traseira da fuselagem, com complexas tubulações conduzindo os gases de escape sob a cabine do piloto. 

Além disso, o armamento foi reforçado com a adição de duas metralhadoras calibre .50 instaladas nas asas. Esta modificações resultariam no modelo YP-43,  sendo capaz de atingir aproximadamente 563 km/h a uma altitude de 38.000 pés, agradando os militares que aprovariam a contratação de um de um lote de 54 células do agora designado P-43A Lancer. Atenta a rápida  evolução da tecnologia aeronáutica naquele período, a empresa lançaria esforço no desenvolvimento do projeto XP-44, um caça projetado com características avançadas para a época. O modelo apresentava uma cabine mais aerodinâmica e um cubo de hélice que encobria o motor, reduzindo o arrasto aerodinâmico causado pela ampla área frontal dos motores radiais de alta potência. Inicialmente planejado para ser equipado com o motor Pratt & Whitney R-2180 de 1.400 hp. Infelizmente o projeto enfrentou um revés quando o desenvolvimento desse motor foi cancelado, obrigando o fabricante a adotar o mais potente Pratt & Whitney XR-2800 “Double Wasp” de 2.000 hp.  As qualidades promissoras do XP-44 impressionaram o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), que, em um gesto de confiança, encomendou 80 células antes mesmo da construção de um protótipo. Contudo, o cenário global mudou drasticamente com a queda da França em junho de 1940, onde clarificou-se a  superioridade dos caças Messerschmitt Bf-109, face aos parâmetros apresentados pelo XP-44. Essa constatação levou ao cancelamento da encomenda, um golpe significativo para a agora renomeada Republic Aircraft Corporation, que que viu seus planos de produção em larga escala frustrados. Determinado a apoiar a continuidade da empresa, o  Departamento de Guerra (United States War Department), optou por exercer a opção por uma segundo lote do P-43A Lancer, envolvendo 80 aeronaves.  Embora menos avançado que o XP-44, o P-43A oferecia uma solução prática para atender às necessidades imediatas. Em julho de 1941, a Força Aérea da República da China (ROCAF), assinaria um contrato para a compra de 125 aeronaves, das quais 108 seria efetivamente entregues. Com o cancelamento do XP-44, a empresa redirecionou seus esforços para um projeto ainda mais ambicioso: o “Advanced Pursuit Design No. 10” (AP-10), designado pelos militares como XP-47. Inicialmente concebido para ser propulsionado pelo motor em linha Allison V-1710 refrigerado a água, o XP-47 enfrentou exigências crescentes para a inclusão de armamento mais pesado, tanques de combustível auto-selantes, blindagem para o piloto e cabides subalares para cargas externas. Essas demandas impactariam no peso final da  aeronave, comprometendo seu desempenho. Diante desse desafio, a equipe de engenheiros demonstrou notável resiliência, resultando em uma proposta revisada designada como XP-47A, contudo, a nova versão ainda não alcançava os parâmetros necessários para rivalizar com os caças alemães, resultando em sua rejeição.  Correndo contra o tempo e sob pressão para oferecer uma solução competitiva, os engenheiros voltaram às pranchetas e desenvolveram um projeto completamente novo, o XP-47B. A aeronave apresentava uma construção toda em metal (exceto para as superfícies de controle da cauda que eram cobertas de tecido) asas elípticas, e um bordo de ataque direto ligeiramente deslocado para traz.  
A aeronave dispunha de uma cabine ampla, projetada para oferecer razoável conforto ao piloto e equipada com certo nível de proteção blindada. Tanques de combustível auto-vedantes completavam o conjunto de medidas destinadas a aumentar a sobrevivência em combate. O sistema propulsor era baseado no potente motor radial Pratt & Whitney R-2800 Double Wasp, um propulsor de dezoito cilindros capaz de desenvolver cerca de 2.000 hp (aproximadamente 1.500 kW). Esse motor era combinado com um sistema de turbocompressor, permitindo ao novo caça alcançar velocidades superiores a cerca de 643 km/h e operar a altitudes próximas de 40.000 pés. Na realidade, o protótipo do XP-47B foi concebido praticamente em torno do conjunto motor-turbocompressor. O turbocompressor foi instalado na parte traseira da fuselagem, atrás da cabine do piloto, com um complexo sistema de dutos conduzindo os gases de escape até o conjunto. Essa solução técnica determinou as grandes dimensões da aeronave. Ao observar o projeto final,  Alexander Kartveli teria comentado de forma bem-humorada: “será um dinossauro, mas um dinossauro bem proporcionado.” O primeiro voo ocorreu em 6 de maio de 1941. A aeronave possuía uma cobertura transparente fixa para a cabine, e o acesso do piloto era realizado por meio de uma porta lateral na fuselagem. Após a solução de alguns problemas iniciais de projeto identificados durante os testes de voo, o modelo recebeu autorização para produção em série, passando a adotar a designação oficial P-47B Thunderbolt. As primeiras aeronaves começaram a ser entregues às unidades operacionais em dezembro de 1941. A entrada dos Estados Unidos no conflito evidenciaria rapidamente o potencial do novo caça, que passou a ser considerado um recurso estratégico de grande importância para o esforço de guerra aliado. Nesse contexto surgiu a versão P-47C, que embora  visualmente muito semelhante ao modelo anterior, essa variante incorporava diversas melhorias estruturais e operacionais. Entre as modificações introduzidas estavam reforços nas superfícies metálicas de controle, a adoção de um mastro de rádio vertical mais curto e a instalação de um sistema regulador mais eficiente para o turbocompressor. Com base nessas melhorias, foi firmado um contrato para a produção de mais de 600 aeronaves, cujas primeiras unidades começaram a ser entregues em setembro de 1942. Após a produção das primeiras cinquenta e sete aeronaves, novas melhorias de engenharia foram implementadas, resultando na versão  P-47C-1 , da qual foram produzidas 125  unidades. Em seguida, surgiria a variante  P-47C-2 , cuja produção totalizou cerca de 120 aeronaves. Essa versão introduziu uma modificação importante,  a instalação de um ponto de fixação sob a linha central da fuselagem, permitindo o transporte de bombas ou tanques suplementares de combustível.  Em novembro  a variante, o P-47C-5 que introduziria o novo motor Pratt & Whitney R-2800-59 equipado com sistema de injeção de água-metanol com um aumento na potência final. No final de 1942, a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), concluiu que a maioria dos problemas presentes nas primeiras versões, haviam sido resolvidos, levando a decisão de se enviar para a Inglaterra o 56 º Grupo de Caça com seus novos P-47C-5, para assim se juntar aos efetivos da 8º Oitava Força Aérea. 

Desde o início de seu desenvolvimento, seria concebido como um caça fortemente armado. Seu armamento padrão consistia em oito metralhadoras Browning M2 calibre .50, distribuídas nas asas e alimentadas por aproximadamente 2.500 cartuchos de munição. Essa poderosa combinação conferia à aeronave um elevado poder de fogo, tornando-a extremamente eficaz tanto em missões de combate aéreo quanto em operações de ataque ao solo. A primeira missão de combate do P-47C ocorreu em 10 de março de 1943, quando um grupo dessas aeronaves realizou uma missão de varredura de caça sobre a França ocupada. Pouco mais de um mês depois, em 15 de abril de 1943, seria registrada a primeira vitória aérea do modelo: o major Don Blakeslee conseguiu abater um caça alemão Focke-Wulf Fw 190.  As experiências acumuladas durante esse período inicial de operações revelaram diversos aspectos passíveis de aprimoramento no projeto da aeronave. Essas observações operacionais levariam a uma série de refinamentos técnicos que culminaram na introdução da versão  P-47D , rapidamente liberada para produção em grande escala. As primeiras células  eram em essência, muito semelhantes ao  P-47C , sendo inicialmente produzidas 10células designadas P-47D-1-RA. O sufixo final utilizado na designação indicava a unidade fabril responsável por sua produção: o código “RE” identificava as aeronaves produzidas na planta de Farmingdale, enquanto o sufixo “RA” era aplicado às aeronaves fabricadas na instalação industrial de Evansville. Na prática, o  P-47D consistiu em uma longa série de blocos de produção progressivamente aperfeiçoados. As primeiras subvariantes  D-1, PD-6, D-10 e P-D-11  incorporaram diversas melhorias estruturais, incluindo a adição de novos flaps de refrigeração do motor ao redor da seção superior do capô. Essas modificações foram introduzidas para reduzir problemas de superaquecimento observados em operações de campo. Posteriormente, a versão P-47D-15  foi desenvolvida em resposta a solicitações de unidades de caça norte-americanas e britânicas, que buscavam ampliar o alcance operacional da aeronave. Para isso, foram introduzidos sistemas de combustível sob pressão, capazes de transferir combustível a partir de tanques subalares externos. As variantes subsequentes  D-16, D-20, D-22 e D-23  mantiveram características semelhantes às do P-47D-15, incorporando principalmente melhorias nos sistemas de combustível e em diversos subsistemas do motor. A partir da versão P-47D-20, passou a ser adotada com novo motor Pratt & Whitney R-2800-59  Double Wasp. As primeiras versões da aeronave  incluindo os modelos  e  as variantes iniciais do P-47D e ainda o  P-47G ( P-47C produzido sob licença pela Curtiss-Wright)  apresentavam a fuselagem traseira elevada conhecida como configuração “razorback”. Esse desenho era acompanhado por uma cobertura deslizante da cabine com molduras estruturais espessas, o que limitava significativamente a visibilidade traseira do piloto e dificultava a detecção antecipada de aeronaves inimigas aproximando-se por esse setor. Para solucionar esse problema a partir do P-47D-25 seria foi adotada uma nova cobertura de cabine em formato de bolha  conhecida como “bubbletop” que proporcionava visibilidade praticamente irrestrita em todas as direções.
Para permitir essa alteração, a seção traseira da fuselagem foi rebaixada e redesenhada, com as primeiras aeronaves passando a ser entregues a partir de maio de 1944 as unidades da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). Entretanto, essa modificação trouxe consequências aerodinâmicas inesperadas. A redução da área lateral da fuselagem traseira comprometeu a estabilidade direcional da aeronave, gerando tendência à instabilidade em guinada. Para solucionar o problema, foi introduzida  uma pequena quilha dorsal à frente da deriva, recurso que restaurava parte da área lateral perdida e melhorava o controle em voo. Essa solução passou a ser adotada em produção a partir da variante P-47D-40, sendo posteriormente aplicada retroativamente às versões D-25, D-27, D-28 e D-30 por meio de kits de modificação instalados em campo. Paralelamente à evolução das variantes padrão, novas versões especializadas foram desenvolvidas para responder às exigências operacionais do conflito.  Uma delas foi o P-47M  concebido especificamente para enfrentar aeronaves alemãs de alto desempenho que surgiram nos estágios finais da guerra, como o Messerschmitt Me 262 e o Focke-Wulf Fw 190D.  Essa variante empregava um motor mais potente, tendo seu armamento reduzido para seis metralhadoras, buscando melhorar o desempenho e a velocidade máxima. Apesar de suas qualidades, entrou em serviço relativamente tarde e foi utilizado apenas por um grupo de. Outra evolução importante foi o P-47N Thunderbolt, projetado especificamente para operações no vasto teatro de operações do Oceano Pacífico. Essa versão foi otimizada para missões de longo alcance, particularmente aquelas destinadas a escoltar os bombardeiros estratégicos Boeing B-29  em ataques contra o território do Japão. O P-47N possuía asas redesenhadas com maior envergadura e pontas semi-elípticas, maior capacidade de combustível e uma quilha dorsal ampliada, que contribuía para melhorar a estabilidade durante longos voos. Durante o conflito, o P-47 destacou-se particularmente como caça-bombardeiro da , desempenhando papel decisivo em missões de apoio aproximado e interdição. A robusta estrutura da aeronave permitia transportar uma grande variedade de armamentos, incluindo bombas de 230 kg e 450 kg, foguetes M8 rocket de 4,5 polegadas e foguetes de alta velocidade High Velocity Aircraft Rocket (HVAR) de 5 polegadas . Essa combinação transformou o avião em uma plataforma extremamente eficaz para ataques contra colunas blindadas, linhas ferroviárias e infraestruturas logísticas. Entre junho de 1944 e maio de 1945, pilotos reivindicaram a destruição de cerca de 86.000 vagões ferroviários, 9.000 locomotivas, 6.000 veículos blindados e aproximadamente 68.000 caminhões, contribuindo significativamente para o colapso da infraestrutura militar do Eixo. Foi empregado por diversas forças aéreas aliadas, incluindo a Grã-Bretanha, a França, a União Soviética, o México e o Brasil.  Após o término da guerra,  continuou a servir  até a segunda metade da década de 1950, na Bolívia, Chile, China, Colômbia, Equador, Honduras, Irã, Itália, Iugoslávia, Nicarágua, Peru, Portugal, República Dominicana, Turquia e Venezuela. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente preocupação a possibilidade de uma eventual expansão das potências do Potências do Eixo  em direção ao continente americano. Esses receios foram intensificados após a Batalha da França e a subsequente capitulação francesa em junho de 1940. A queda da França levantou preocupações estratégicas quanto à possibilidade de a Alemanha nazista utilizar territórios coloniais franceses como bases operacionais no Atlântico e na África Ocidental, incluindo regiões como as Ilhas Canárias e Dakar. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ser considerado uma área de importância estratégica singular, sobretudo em razão de sua posição geográfica no Atlântico Sul e de sua proximidade relativa com o continente africano. Paralelamente, os avanços militares japoneses no Sudeste Asiático e no Pacífico incluindo a ocupação da Indochina em 1940 e das Filipinas em 1942  alteraram profundamente as cadeias globais de suprimento de matérias-primas estratégicas. Nesse cenário, o Brasil assumiu papel fundamental como fornecedor de látex natural, matéria-prima essencial para a produção de borracha sintética e natural, amplamente empregada na fabricação de pneus, mangueiras, vedantes e inúmeros componentes utilizados na indústria militar. Diante desse contexto estratégico, o governo brasileiro liderado pelo presidente Getúlio Vargas intensificou a aproximação diplomática, econômica e militar com os Estados Unidos. Essa cooperação resultou na assinatura de diversos acordos bilaterais voltados ao fortalecimento da defesa hemisférica. Um dos instrumentos mais importantes dessa cooperação foi a adesão brasileira ao programa de assistência militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos, aprovado pelo Congresso norte-americano em março de 1941. Por meio desse programa, o Brasil recebeu uma linha de crédito inicial estimada em aproximadamente US$ 100 milhões de dólares. Esses recursos foram destinados à modernização das Forças Armadas Brasileiras, permitindo a aquisição de armamentos modernos, incluindo aeronaves militares, veículos blindados, carros de combate, navios de patrulha e diversos equipamentos logísticos. O objetivo central era atualizar as capacidades militares brasileiras, que até então enfrentavam sérias limitações decorrentes da obsolescência de seus equipamentos e da defasagem de sua doutrina operacional. Nesse período, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), instituída oficialmente em 20 de janeiro de 1941, enfrentava desafios significativos relacionados à modernização de sua frota. A aviação militar brasileira era composta majoritariamente por aeronaves consideradas ultrapassadas para os padrões do conflito, o que limitava sua capacidade operacional. Seria decidido também  que o país enviaria um contingente expedicionário para ajudar no esforço aliado no teatro europeu de operações, operando em conjunto com duas unidades áreas, uma de observação e ligação e outra de caça bombardeio. 

Em cumprimento aos termos estabelecidos nos acordos de cooperação militar firmados entre o Brasil e os Estados Unidos, foi criado, em 18 de dezembro de 1943, o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa). Essa unidade seria integrada operacionalmente ao 350º Grupo de Caça (Fighter Group) da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), passando a operar como unidade de caça-bombardeio equipada com o Republic P-47D Thunderbolt, aeronave que se tornaria o principal vetor de ataque do grupo durante a campanha na Europa. A fase inicial de preparação ocorreu em Aguadulce, onde os pilotos brasileiros realizaram treinamento de adaptação utilizando aeronaves  P-40 Warhawk. Após essa etapa, os integrantes do grupo  incluindo pilotos e equipes de manutenção foram transferidos para a Suffolk Army Air Field, onde tiveram o primeiro contato com o P-47D Thunderbolt, aeronave que seria empregada nas operações de combate no teatro europeu. O processo de conversão operacional seguiu os mesmos padrões aplicados aos pilotos de caça norte-americanos naquele período. Em média, cada piloto realizou cerca de setenta horas de treinamento no novo caça, período ao final do qual eram considerados plenamente qualificados para operações de combate. Concluída a fase de instrução, o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) foi deslocado por via marítima para a Itália, onde chegou em 6 de outubro de 1944, passando a integrar as forças aéreas aliadas engajadas nas operações da Campanha da Itália. As primeiras aeronaves destinadas à unidade foram recolhidos pelos próprios pilotos brasileiros e transportados até a base aérea de Tarquínia, que se tornaria o principal ponto de operações do grupo. Essas aeronaves faziam parte do lote fornecido à Força Aérea Brasileira (FAB), composto por 68 exemplares do modelo. No início da campanha, 31 aeronaves foram efetivamente entregues à unidade, com as demais permanecendo armazenadas como reserva estratégica, junto ao  “Army Air Force Storage Center - Mediterranean Theater of Operations”, em Nápoles, um depósito que atendia às unidades da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), baseadas no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Entre essas primeiras aeronaves, 15  pertenciam à versão P-47D-25-RE  passando a ostentar designações operacionais internas como “A3”, “A4”, “D2”, “B1”, “C1”, “C6”, “B3”, “B4”, “B5” e “D6”. Também pertencia a essa variante a aeronave utilizada pelo comandante do grupo, o Nero Moura, identificada como P-47D “1”. O início efetivo das operações de combate destinadas a missões Apoio aéreo aproximado, Interdição tática e Ataque a Infraestruturas de transporte, se deu em 31 de outubro de 1944.  Durante as primeiras missões, os pilotos brasileiros voavam individualmente, integrados como quarto elemento às esquadrilhas dos três esquadrões norte-americanos que compunham o  350º Grupo de Caça (Fighter Group),  o 345th, 346th e 347th  Esquadrões de Caça (Fighter Squadron). Essa fase inicial de integração operacional permitiu que os pilotos do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) adquirissem experiência prática nas condições reais de combate da frente italiana, familiarizando-se com os procedimentos táticos empregados pela pelos norte-americanos antes de iniciar operações plenamente autônomas.
À medida que os pilotos brasileiros acumulavam experiência operacional no teatro italiano da Segunda Guerra Mundial, passaram a ser designados para missões progressivamente mais complexas e arriscadas sobre o front da Itália. Essas operações envolviam frequentemente voos a baixa altitude e ataques diretos contra posições inimigas, o que expunha as aeronaves ao intenso fogo da artilharia antiaérea alemã. Em 6 de novembro de 1944, ocorreu a primeira perda em combate da unidade. O John Richardson Cordeiro e Silva, 2º Tenente Aviador, foi abatido pela artilharia antiaérea alemã (conhecida como flak) nas proximidades da localidade de Pianoro, durante uma missão na qual voava como número quatro de uma esquadrilha do 347th  Esquadrão de Caça. Na manhã do dia seguinte, 7 de novembro de 1944, a unidade sofreu uma segunda perda trágica. O aviador Oldegard Olsen Sapucaia, também 2º Tenente Aviador, faleceu durante um voo de treinamento quando os controles de seu P-47D-25-RE travaram durante a execução de manobras evasivas simuladas. A aeronave entrou em um parafuso invertido a aproximadamente 450 metros de altitude. Embora o piloto tenha conseguido ejetar-se da aeronave, seu paraquedas não chegou a abrir completamente antes do impacto com o solo. Dois dias após o acidente, a explicação técnica para o ocorrido começou a emergir. A seção de manutenção da unidade recebeu um boletim técnico alertando que as células dos P-47D-25/D-27 e D-28 não deveriam ser submetidos a manobras não coordenadas envolvendo aileron e leme. Nessas circunstâncias, o leme poderia travar na posição aplicada, provocando uma rotação descontrolada no eixo lateral e conduzindo a aeronave a um parafuso invertido de difícil recuperação. Esse fenômeno aerodinâmico estava relacionado à redução da área lateral da fuselagem traseira nas primeiras versões “bubbletop” do  P-47, característica que já havia sido identificada como fator de instabilidade direcional. A solução adotada posteriormente pelo fabricante foi a introdução de uma quilha dorsal à frente da deriva, medida aplicada nas versões mais recentes da aeronave. Contudo, como essa modificação só era instalada durante revisões estruturais de maior porte  realizadas no 80º Esquadrão de Manutenção em Cerignola  apenas um número limitado dos P-47  brasileiros chegou a receber essa atualização durante a campanha. Conforme determinado, as  missões executadas pelo 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa) eram essencialmente de dois tipos principais: ataque ao solo e escolta de bombardeiros, embora esta última ocorresse com menor frequência em virtude da fase avançada do conflito na Itália. Nas missões de ataque ao solo, as aeronaves eram geralmente equipados com bombas de emprego geral AN-M43 de 500 libras (227 kg), bombas de fragmentação de 260 libras (118 kg) ou de 90 libras (40 kg). Outra arma frequentemente empregada era o dispositivo conhecido como Fuel Tank Incendiary (FTI), que consistiam em tanques de combustível descartáveis  com capacidades de 90 galões (340 litros), 110 galões (416 litros) ou 165 galões (624 litros), adaptados com espoletas e preenchidos com gasolina de aviação misturada a compostos químicos que tornavam o combustível gelatinoso. Quando lançados sobre o alvo, esses dispositivos atuavam como armas incendiárias improvisadas, demonstrando elevada eficácia contra concentrações de veículos, depósitos logísticos e agrupamentos de tropas inimigas.

Outro armamento utilizado foram os foguetes antitanque M8A2 de 4,5 polegadas, disparados a partir de lançadores M10  instalados sob as asas. Contudo, esse sistema revelou-se relativamente ineficaz em combate, pois os foguetes apresentavam baixa precisão, e a instalação dos lançadores prejudicava significativamente as características aerodinâmicas das aeronaves Nas missões de escolta, os caças brasileiros exploravam o poderoso armamento orgânico,  composto por oito metralhadoras calibre .50. Nessas operações, as aeronaves normalmente transportavam tanques alijáveis de combustível sob as asas, ampliando seu raio de ação e permitindo acompanhar formações de bombardeiros em voos de longa distância. Entre os alvos mais frequentes dessas missões encontrava-se a região do Passo do Brenner, importante corredor estratégico entre a Itália e a Áustria, utilizado pelas forças alemãs para o deslocamento de tropas e suprimentos ao longo dos últimos meses da guerra. A neutralização desse eixo logístico representava um objetivo prioritário para as forças aéreas aliadas na fase final da campanha italiana. Pelo menos três exemplares  P-47Ds  operados pelos brasileiros, receberam a instalação de uma câmera fotográfica oblíqua K-25A, posicionada no bordo de ataque do cabide subalar esquerdo. Essa modificação foi realizada pelos próprios mecânicos brasileiros da unidade, demonstrando elevado grau de iniciativa técnica e capacidade de adaptação em condições de guerra. A presença desse equipamento permitia a obtenção de fotografias logo após a execução dos ataques, registrando os efeitos do bombardeio sobre os alvos inimigos. Normalmente, essa tarefa era desempenhada pela aeronave que voava na posição número quatro da esquadrilha  a última a mergulhar sobre o alvo  possibilitando a captura de imagens das explosões provocadas pelas bombas lançadas pelas demais aeronaves da formação. Contudo, essa função tornava o avião de reconhecimento particularmente vulnerável, pois permanecia mais tempo sobre a área do alvo e, por essa razão, recebia frequentemente a maior atenção da artilharia antiaérea alemã. Entre os pilotos brasileiros que se destacaram nas operações aéreas na Itália, merece especial menção o Pedro de Lima Mendes, 2º Tenente Aviador integrante da esquadrilha Azul do 1º Grupo de Aviação de Caça, considerado o piloto mais eficiente tanto da unidade brasileira quanto do 350th Grupo de Caça durante a campanha. Igualmente notável foi o desempenho do pessoal de manutenção e apoio em terra. A dedicação e a competência técnica desses profissionais refletiram-se na elevada taxa média de aeronaves disponíveis para operações: cerca de 81%, índice que jamais caiu abaixo de 77% ao longo da campanha. Esse desempenho figurava entre os mais elevados registrados entre as unidades aéreas sob comando norte-americano no Teatro de Operações do Mediterrâneo. Durante as missões de combate, muitos aviões retornavam às bases com danos estruturais provocados principalmente pela artilharia antiaérea alemã. Ainda assim, graças à eficiência das equipes de manutenção, essas aeronaves eram rapidamente reparadas e preparadas para novas missões, garantindo a continuidade das operações do grupo. Com o encerramento das hostilidades na Itália, em 3 de maio de 1945, foi possível apresentar o balanço de suas atividades operacionais, pois ao  longo de 184 dias de operações, a unidade realizou 445 missões, totalizando 2.546 surtidas ofensivas e quatro surtidas defensivas.
Mesmo tendo sido responsável por apenas 5% do total de missões montadas pelo XXII Comando Aéreo Tático, seria responsável pela destruição de 85% dos depósitos de munições, 36% dos depósitos de combustível, 28% das pontes (19% danificadas), 15% dos veículos motorizados (13% danificados) e 10% dos veículos hipomóveis (10% danificados). Devido à escassez de pilotos substitutos, muitos aviadores brasileiros acumularam um número excepcionalmente elevado de missões de combate, com vários deles ultrapassando a marca de 80 surtidas. Mas o preço pago foi alto e do total  , 05 foram mortos em combate, 04 em acidentes aéreos (um deles ainda no Panamá, durante o treinamento), 08 foram abatidos com 05  feitos prisioneiros, 03 abatidos e por fim 07 foram afastados por motivos de saúde.  Em junho de 1945, todos os 26 P-47Ds brasileiros, foram levados em vôo até Capodichino, ao Army Air Force Storage Center - Mediterranean Theater of Operations, onde foram desmontados e enviados por via terrestre para Nápoles, para serem embarcados para o Brasil. No traslado, o P-47D-27-RE n° 42-26788 acidentou-se durante o pouso em Capodichino, sendo considerado perda total.  As aeronaves  foram desmontadas encaixotadas e embarcadas e transportadas em um navio. O pessoal de terra e parte dos oficiais aviadores voltaram para ao país a bordo do navio de transporte de tropas  USS General M. C. Meigs (AP-116), embarcando  no dia 06 de julho de 1945.  Uma equipe de 20 pilotos seria escolhida para se deslocar por via aérea aos Estados Unidos, para receberem 19 P-47D-30-RA novos, equipados com o que de mais avançado existia, como miras K-14B, cabides subalares S-1, radar de alerta traseiro AN/APS-13 ; equipamento para roupas anti-G e provisão para instalação de cinco foguetes HVAR de 127mm em cabides subalares “zero-length”  sem trilhos para os foguetes).  Esses P-47D-30 chegaram ao Brasil em julho de 1945, antes mesmo dos  embarcados da Itália, e vieram a equipar o 1º GpAvCa com os P-47D "italianos" ao  chegaram ao Brasil sendo montados no Galeão, para serem transladados em voo até a Base Aérea de Santa Cruz, para serem alocados junto ao  2º Grupo de Caça (GpCa), unidade criada em 17 de agosto de 1944 na Base Aérea de Natal e transferida em outubro para o Rio de Janeiro, estando inicialmente equipados com aeronaves Curtiss P-40 Warhawk.   Com o reequipamento desta nova unidade com os P-47D, e novas turmas de pilotos necessitando serem treinadas,  decidiu-se que, após passarem por rigoroso treinamento em aeronaves AT-6D no Estágio de Seleção de Pilotos de Caça (ESPC), os pilotos selecionados seriam transferidos ao 2º GpCa para a conversão operacional para o modelo. Neste momento restavam poucas células ativas ainda do modelo inicial P-47D-RE-25, que conviviam com as versões posteriores. Em 13 de outubro de 1952, os  Thunderbolts seriam  redesignados como F-47, restanto neste momento poucas células disponíveis, devido à falta de peças de reposição, até mesmo de pneus.  Nesta fase restavam em voo somente cinco células do modelo P-47D-RE-25, com das demais estocadas ou perdidas em acidentes, sendo todas descarregadas do inventario da Força Aérea Brasileira em 17 de março de 1958.

Em Escala.
Para representarmos o P-47D-RE-25 "C-1 226762" pertencente 1º Grupo de Aviação de Caça (Gp Av Ca), pilotado pelo Capitão Aviador Fortunato Câmara de Oliveira durante a campanha da Itália,  empregamos o excelente kit da Academy na escala 1/48 embalado pela HTC Modelismo. Este modelo pode ser montado direto da caixa sem a necessidade de qualquer alteração para assim se representar a versão brasileira operada na Itália, antes da adoção uma quilha dorsal. Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM  Decals que estão presentes neste kit.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura padrão empregado na maioria das aeronaves recebidas no teatro de operações Italiano, sendo que apenas três das quinze aeronaves foram recebidas sem qualquer esquema de camuflagem. Após o regresso ao Brasil as células mantiveram o padrão original até passarem pelo processo de revisão em âmbito de parque, quando passaram a adotar a pintura em metal natural com aplicação de verde oliva para parte superior frontal para evitar reflexos, este último padrão foi mantido até a desativação do modelo no ano de 1958.

Bibliografia :
- O Trator Voador por Jackson Flores Junior- Revista Força Aérea Nº 2
-  P-47D Thunderbolt - Wikipédia http://en.wikipedia.org/wiki/Republic_P-47_Thunderbolt
-  Republic P-47 Thunderbolt na FAB por Aparecido Camazano Alamino - Revista Asas Nº 62
-  Aeronaves Militares Brasileiras 1916 / 2015  - Jackson Flores Jr

Jeep MB Willys Ambulância (T/E)

Historia e Desenvolvimento.
No final da década de 1920, o comando do Exército dos Estados Unidos (U.S Army) intensificou de maneira sistemática seus esforços para transformar a estrutura operacional da Força Terrestre, buscando acelerar a transição de um modelo predominantemente hipomóvel, fortemente dependente da tração animal, para uma força progressivamente mecanizada, capaz de responder às exigências de um cenário bélico em rápida transformação. Esse movimento foi diretamente impulsionado pelos avanços tecnológicos proporcionados pela vigorosa indústria automotiva norte-americana, que passou a oferecer soluções inovadoras e cada vez mais confiáveis para os desafios da mobilidade e da logística militar. O amplo programa de mecanização concebido pelo Exército abrangia o desenvolvimento de diferentes categorias de veículos, incluindo caminhões de carga, meios de transporte de tropas e, de forma prioritária, um veículo utilitário leve dotado de tração integral 4x4. Esse novo meio deveria ser capaz de operar com eficiência em terrenos fora de estrada, transpor obstáculos naturais com facilidade e transportar até quatro soldados totalmente equipados, assegurando rapidez, flexibilidade e autonomia às pequenas unidades em operações táticas. As primeiras iniciativas voltadas à concepção desse utilitário leve envolveram uma colaboração estreita entre oficiais do Exército e representantes da indústria automotiva, embora tenham sido marcadas por significativos desafios técnicos e severas restrições orçamentárias. O conceito começou a ganhar contornos mais definidos no início de 1932, sob a liderança do Coronel Robert G. Howie, então comandante da 7ª Companhia de Tanques, sediada em Fort Snelling, Minnesota. Entusiasta convicto da motomecanização integral da Força Terrestre, Howie possuía uma visão clara das novas exigências operacionais impostas pela evolução da guerra moderna. Sua experiência prática aliada a uma sólida compreensão estratégica revelou-se decisiva para o avanço do projeto. Sob sua supervisão direta, o primeiro protótipo funcional foi construído nas oficinas do Fort Sam Houston, no Texas. Submetido a rigorosos testes de campo, o veículo apresentou resultados animadores, demonstrando capacidade satisfatória de operação em terrenos difíceis e atendimento às exigências táticas estabelecidas. Esses ensaios iniciais reforçaram a confiança do alto comando do Exército na viabilidade do conceito, levando à decisão de destinar recursos para a produção de um lote pré-série de setenta veículos. Entretanto, as severas restrições financeiras impostas pela Grande Depressão acabaram por adiar essa etapa, interrompendo temporariamente o avanço do programa. O projeto somente seria retomado no final de 1936, quando o cenário econômico norte-americano começou a apresentar sinais de recuperação e o Exército voltou a priorizar, de forma mais enfática, seus esforços de modernização. Após a realização de uma concorrência aberta, a Bantam Car Company, sediada na Pensilvânia, foi selecionada para desenvolver e produzir o lote pré-série. Reconhecida por sua agilidade na fabricação de veículos leves, a Bantam entregou os primeiros exemplares a partir de meados de 1938, destinando-os ao Quartel-General do Departamento do Exército, localizado em Fort Holabird, Baltimore, Maryland.

Com essa frota inicial disponível, o Exército ampliou consideravelmente seu programa de testes, avaliando o desempenho dos veículos em diferentes tipos de terreno e sob variadas condições operacionais. Esse processo revelou-se fundamental não apenas para validar o projeto do ponto de vista técnico, mas também para iniciar a construção de uma doutrina específica de emprego operacional para veículos utilitários leves com tração integral 4x4. Esses testes estabeleceram as bases conceituais e práticas do que, em poucos anos, se consolidaria como o Jeep um ícone militar que revolucionaria a mobilidade tática durante a Segunda Guerra Mundial. No âmbito de um abrangente programa de ensaios de campo conduzido ao longo do final da década de 1930, o Exército dos Estados Unidos (U.S Army) constatou que o novo utilitário leve apresentava um potencial excepcional para ampliar de forma significativa a mobilidade da Força Terrestre. Capaz de operar com eficácia em uma ampla variedade de ambientes fora de estrada, o veículo demonstrou versatilidade em múltiplas funções, superando obstáculos naturais e assegurando o transporte eficiente de até quatro combatentes totalmente equipados. Esses resultados consolidaram a convicção do comando do Exército de que o utilitário representava um avanço estratégico decisivo para a mecanização das forças armadas, conduzindo à decisão de adotá-lo em larga escala. Com base nesses resultados promissores, foi lançada, em 1940, uma concorrência formal para a produção em série do veículo utilitário leve 4x4. O processo foi conduzido com elevado grau de rigor, envolvendo o envio de convites a mais de uma centena de empresas da indústria automotiva norte-americana. As participantes deveriam apresentar propostas técnicas e comerciais detalhadas, acompanhadas de protótipos plenamente funcionais que atendessem às exigentes especificações militares. O objetivo central da concorrência era assegurar que o veículo final reunisse robustez, confiabilidade e capacidade de produção em grande escala, em consonância com as necessidades operacionais do Exército. Entretanto, o rápido agravamento das tensões geopolíticas na Europa e no Pacífico Sul, impulsionado pela ascensão da Alemanha Nazista e do Império do Japão, alterou profundamente o contexto desse processo. A iminência de um conflito de proporções globais evidenciou a urgência de reequipar as forças armadas norte-americanas. Em resposta, o comando do Exército revisou drasticamente o cronograma original, estabelecendo um prazo excepcionalmente curto de apenas 49 dias para a apresentação de protótipos funcionais. Essa exigência, reflexo direto da pressão estratégica do momento, impôs desafios consideráveis às empresas concorrentes. Das mais de cem empresas inicialmente convidadas, apenas três aceitaram o desafio: a Ford Motor Company, a American Bantam Car Company e a Willys-Overland Company. A American Bantam, uma pequena montadora da Pensilvânia com experiência na produção de veículos leves, foi a única a cumprir integralmente o prazo estipulado, entregando um protótipo funcional em setembro de 1940. Designado Bantam Reconnaissance Car (BRC), o veículo foi submetido a rigorosos testes comparativos, nos quais demonstrou desempenho notável em termos de mobilidade, resistência estrutural e aderência às especificações militares. Embora o protótipo da Bantam tenha se destacado nos ensaios iniciais, o comando do Exército, consciente da necessidade urgente de produção em grande escala, optou por aprovar também os projetos apresentados pela Ford e pela Willys-Overland. 
Essa decisão foi motivada, sobretudo, pela limitada capacidade industrial da Bantam, insuficiente para atender sozinha à crescente demanda militar em tempo compatível com a conjuntura internacional. Os testes comparativos entre os diferentes protótipos resultaram em uma série de aprimoramentos técnicos no projeto original, incorporando contribuições das três montadoras e pavimentando o caminho para a padronização definitiva do veículo que se tornaria um dos maiores símbolos da mecanização militar do século XX. O modelo pré-série Bantam BRC, desenvolvido pela American Bantam Car Company, apresentava uma configuração que conciliava elementos estilísticos ainda influenciados pelos automóveis civis da década de 1930  perceptíveis sobretudo na seção traseira da carroceria com soluções técnicas especificamente concebidas para atender às rigorosas exigências militares. Dotado de tração integral 4x4, suspensão reforçada e capacidade de carga de um quarto de tonelada, o BRC foi projetado para oferecer robustez, confiabilidade e elevada versatilidade em operações de campo, características essenciais em um contexto de crescente preparação para a guerra. Embora os protótipos apresentados pela American Bantam, pela Ford Motor Company e pela Willys-Overland Company tenham sido inicialmente aprovados pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army), persistiam dúvidas quanto à viabilidade técnica e industrial dos projetos desenvolvidos pelas duas grandes montadoras. Com o objetivo de dirimir essas incertezas, o Exército promoveu uma nova e decisiva rodada de testes de campo, realizada entre 27 de setembro e 16 de outubro de 1940, nos campos de prova do Quartel-General do Departamento do Exército. Durante esses ensaios comparativos, o Bantam BRC voltou a se destacar de forma consistente, impressionando engenheiros e oficiais militares por seu desempenho superior, especialmente em termos de mobilidade, resistência estrutural e adequação às especificações operacionais. Os resultados levaram o Exército a reconsiderar a ideia inicial de adotar três modelos distintos, inclinando-se, naquele momento, a favorecer o projeto desenvolvido pela Bantam. Como consequência direta desse desempenho, em 31 de março de 1941 foi firmado um contrato com a American Bantam Car Company para a produção de 1.500 unidades do modelo BRC-40. Contudo, à medida que o cronograma militar se tornava cada vez mais exigente, ficou evidente que a Bantam não dispunha nem da capacidade industrial nem da solidez financeira necessárias para sustentar uma produção em larga escala, compatível com as demandas impostas pela iminência do conflito global. Diante dessa limitação, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos tomou uma decisão controversa e historicamente sensível: transferir o projeto técnico e as plantas originais do BRC-40 para a Ford Motor Company e para a Willys-Overland Company. Essa medida permitiu que ambas as empresas desenvolvessem suas próprias versões do veículo utilitário leve, introduzindo aperfeiçoamentos e adaptações a partir do conceito originalmente concebido pela Bantam. Apesar do caráter claramente arbitrário dessa decisão, ela não foi formalmente contestada pela diretoria da Bantam, possivelmente em razão da delicada situação financeira enfrentada pela empresa naquele momento. Como forma indireta de compensação, a American Bantam Car Company foi contemplada com contratos relevantes para a produção de componentes automotivos, reboques de carga e combustível T/1 de ¾ de tonelada — que totalizaram mais de 70 mil unidades  além da fabricação de torpedos destinados à Marinha Real Britânica (Royal Navy). 

Essa estratégia assegurou a sobrevivência da empresa durante o esforço de guerra, ainda que sua contribuição fundamental para a concepção do Jeep tenha sido progressivamente ofuscada pelo sucesso posterior dos modelos produzidos em grande escala pela Ford e pela Willys. Em agosto de 1941, consolidando a transição para a produção massiva, o Exército dos Estados Unidos assinou um novo contrato com a Willys-Overland Company para a fabricação de mais 16.000 veículos, designados inicialmente como MA Quad, modelo que evoluiria pouco depois para o consagrado Willys MB.  A Willys-Overland foi selecionada para a produção em larga escala do Jeep em razão de sua comprovada capacidade industrial e, sobretudo, das melhorias técnicas incorporadas ao projeto original, com destaque para o motor Willys Go-Devil, amplamente reconhecido por sua maior potência, robustez mecânica e confiabilidade em condições severas de operação. Esses atributos tornaram o veículo particularmente adequado às exigências de um conflito de dimensões globais, no qual a simplicidade construtiva e a facilidade de manutenção eram fatores decisivos. Nos meses subsequentes, à medida que a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial exigia uma expansão acelerada da capacidade produtiva, novos contratos foram firmados. Nesse contexto, a Ford Motor Company emergiu como a principal parceira industrial do esforço de guerra, recebendo, até o final de 1945, as maiores encomendas para a fabricação do utilitário. O modelo produzido pela Ford recebeu a designação oficial Ford G.P.W. (General Purpose Willys), refletindo tanto sua função de uso geral quanto a padronização do projeto desenvolvido pela Willys. Embora fabricado em diferentes plantas industriais da Ford, o G.P.W compartilhava essencialmente o mesmo desenho, componentes e especificações do Willys MB, assegurando plena intercambiabilidade e facilitando a logística militar. No âmbito do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), os soldados passaram a se referir informalmente ao veículo pela sigla “GP”, derivada da expressão General Purpose. Na pronúncia corrente em inglês, o termo soava como “Jeep”, denominação que rapidamente se disseminou entre as tropas e passou a identificar não apenas o veículo, mas também um conceito de mobilidade, agilidade e resistência no campo de batalha. Curiosamente, o termo “Jeep” também evocava Eugene the Jeep, personagem das histórias em quadrinhos do marinheiro Popeye, criado na década de 1930. O carismático animal de estimação de Olivia Palito era retratado como dotado de habilidades extraordinárias, como atravessar obstáculos, caminhar por paredes e alcançar lugares inacessíveis. Essa associação simbólica encontrou forte ressonância entre os soldados, que viam no utilitário leve qualidades semelhantes de versatilidade e superação. Expressões como “Hey, he’s a real Jeep!” tornaram-se comuns para elogiar pessoas de notável vigor físico ou capacidade de adaptação, contribuindo para a consolidação do nome como um ícone cultural e militar. À medida que a produção industrial se intensificava, o Jeep passou a integrar, em número crescente, as frotas das unidades militares norte-americanas destacadas nos mais diversos teatros de operações. O batismo de fogo do Ford G.P.W. ocorreu em 1942, com sua introdução em combate tanto no Pacífico Sul quanto no Norte da África. No teatro do Pacífico, o veículo foi amplamente empregado nas campanhas contra as forças do Exército Imperial Japonês, desempenhando funções essenciais em missões de reconhecimento, transporte de pessoal e suprimentos, além de servir como plataforma improvisada para armamentos leves. Sua capacidade de operar em terrenos acidentados, alagadiços ou lamacentos revelou-se crucial nas operações realizadas nas ilhas do Pacífico.
No Norte da África, durante a Operação Torch, iniciada em novembro de 1942, o Ford G.P.W. foi utilizado extensivamente pelas forças norte-americanas e britânicas. Enfrentando as severas condições do deserto, o veículo demonstrou notável resistência e confiabilidade, contribuindo de forma decisiva para a mobilidade tática das tropas aliadas em um ambiente hostil e desafiador.  Embora não tenham sido originalmente concebidos para atuar como ambulâncias, os Jeeps revelaram-se excepcionalmente adequados para a evacuação de soldados feridos em zonas de combate, graças a seu tamanho compacto, baixo perfil e notável capacidade de transpor terrenos acidentados.  A ampla disponibilidade de Jeeps nas frentes de combate contrastava fortemente com a escassez de ambulâncias militares dedicadas, como os modelos produzidos pela Dodge e pela International. Diante dessa realidade, o Jeep passou a ser empregado de forma improvisada no transporte de feridos, sobretudo nas fases iniciais do conflito. Em um primeiro momento, essas viaturas não recebiam modificações estruturais significativas: macas eram acomodadas sobre a seção traseira ou mesmo sobre o capô, fixadas de maneira precária, enquanto pacientes com ferimentos leves se posicionavam onde houvesse espaço disponível. Embora rudimentar, essa solução revelou-se essencial em situações de emergência, evidenciando a versatilidade do veículo e sua contribuição direta para a preservação de vidas em ambientes hostis. À medida que a guerra avançava, tanto no teatro europeu quanto no Pacífico, a experiência acumulada em campo levou ao desenvolvimento de adaptações progressivas, destinadas a melhorar a segurança e o mínimo de conforto no transporte de macas. No Pacífico, em particular, o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) identificou rapidamente o potencial do Jeep como ambulância leve, capaz de operar em terrenos difíceis e de difícil acesso, onde veículos maiores enfrentavam severas limitações. Esse reconhecimento resultou na celebração de um contrato com a General Motors–Holden, em Melbourne, na Austrália, para a conversão de Jeeps em ambulâncias especificamente dedicadas a essa função. Conhecidos como “Holden Jeeps”, esses veículos representaram as primeiras versões produzidas em escala relativamente ampla com a finalidade exclusiva de evacuação médica. As modificações incluíam uma estrutura composta por tubos e perfis de ferro angular, destinada a sustentar um gabinete de lona, no interior do qual eram instalados suportes para duas macas, além de assentos traseiros para dois pacientes ambulatoriais. O acesso ao compartimento médico era facilitado por uma pequena porta localizada no lado esquerdo do painel traseiro, enquanto, no lado direito da carroceria, foi incorporado um compartimento específico para suprimentos médicos, estendendo-se até a área normalmente ocupada pelo passageiro dianteiro. O para-brisa passou a ser mantido em posição vertical, e a roda sobressalente foi transferida para o capô, soluções que visavam otimizar o espaço interno e melhorar a funcionalidade do conjunto. Após o término do conflito, os Jeeps adaptados como ambulâncias permaneceram em serviço ativo e continuaram a desempenhar um papel relevante durante a Guerra da Coreia (1950–1953).  O êxito dessas viaturas levou o comando do Exército dos Estados Unidos a solicitar à Willys-Overland Company o desenvolvimento de um modelo sucessor, concebido desde a origem para a função de evacuação médica. O resultado desse esforço foi o CJ-4MA-01, derivado da plataforma do M-38, porém dotado de maior distância entre eixos, de modo a atender de forma mais adequada às exigências do transporte de feridos. Produzido e adotado em larga escala, o CJ-4MA-01 substituiu progressivamente os veteranos Jeeps-ambulância. 

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar com crescente apreensão a possibilidade de uma expansão do conflito para o continente americano. A capitulação da França, em junho de 1940, alterou de forma profunda o equilíbrio estratégico global e ampliou os temores de Washington, uma vez que abriu à Alemanha Nazista a possibilidade de utilizar antigas possessões francesas como pontos de apoio avançados no Atlântico. Regiões como as Ilhas Canárias, Dacar e outras colônias africanas passaram a ser vistas como potenciais bases operacionais, capazes de sustentar ações militares que ameaçassem diretamente as Américas. Nesse novo contexto geopolítico, o Brasil assumiu posição central nas análises estratégicas norte-americanas. Sua proximidade geográfica com o continente africano  especialmente a partir do Nordeste brasileiro fazia do país um possível ponto de contato entre os dois lados do Atlântico, tornando-o vulnerável a uma eventual ofensiva do Eixo. Paralelamente, a expansão japonesa no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeu o acesso dos Aliados às tradicionais fontes de látex, transformando o Brasil no principal fornecedor dessa matéria-prima essencial à produção de borracha, insumo indispensável à indústria bélica e ao esforço de guerra aliado. Além do fator econômico, a posição geográfica do litoral brasileiro conferia-lhe elevada importância militar. O Nordeste, em particular, destacava-se como a região de menor distância entre os continentes americano e africano, com a cidade do Recife assumindo papel estratégico singular. A partir desse eixo, seria possível estabelecer bases aéreas, portos militares e corredores logísticos destinados ao trânsito de aeronaves, tropas e suprimentos com destino aos teatros de operações europeu e norte-africano, reforçando a capacidade de projeção de poder dos Aliados no Atlântico. Diante desse cenário, intensificou-se, em curto espaço de tempo, um movimento de aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa convergência resultou em investimentos estratégicos, acordos bilaterais e no fortalecimento da cooperação em defesa. Entre as iniciativas mais relevantes destacou-se a adesão do Brasil ao programa de ajuda militar norte-americano conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), cujo objetivo central era apoiar países aliados por meio do fornecimento de equipamentos e recursos militares. Os termos desse acordo garantiram ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material bélico e à modernização das Forças Armadas Brasileiras. Por meio desse mecanismo, o país passou a ter acesso a armamentos modernos, aeronaves, veículos militares, carros de combate e outros meios essenciais para a defesa do território nacional. Esses recursos mostraram-se particularmente importantes diante da intensificação dos ataques de submarinos alemães no Atlântico Sul, que ameaçavam a navegação mercante e colocavam em risco o fluxo de matérias-primas estratégicas exportadas pelo Brasil aos Estados Unidos, fundamentais para a indústria de guerra norte-americana.

A participação brasileira no esforço aliado, inicialmente concentrada no fornecimento de recursos estratégicos e no apoio logístico, não tardaria a se ampliar. O então presidente Getúlio Vargas deixou claro que o Brasil não se limitaria ao papel de fornecedor e parceiro econômico, sinalizando a disposição do país em assumir uma postura mais ativa no conflito. Essa orientação política abriria caminho, nos anos seguintes, para o aprofundamento do comprometimento brasileiro com a causa aliada, culminando na decisão de empregar tropas nacionais em um teatro de operações de relevância internacional. No âmbito deste prorgama, o Brasil, a partir do final de 1941, começou a receber um expressivo volume de equipamentos bélicos provenientes dos Estados Unidos, abrangendo caminhões, veículos utilitários leves, aeronaves, embarcações e armamentos. O Exército Brasileiro foi o principal beneficiário desse aporte, que representou um marco significativo na modernização de suas capacidades operacionais. Os contratos inicialmente firmados entre os governos brasileiro e norte-americano, previam o fornecimento quase dois mil veículos utilitários leves com tração 4X4 do tipo "Jeep", com estes não atendendo a nenhum critério de padronização por fabricante ou modelo, não existindo registros oficiais por parte das forças armadas brasileiras sobre a quantidade de modelos recebidos que foram produzidos pela Ford Motors Company ou pela Willys Overland Company. Os primeiros veículos utilitários desta família começariam a ser recebidos no Brasil em lotes a partir de março 1942, e mesclavam veículos novos e usados, estes oriundos da frota pertencente ao Exército dos Estados Unidos (US Army), existindo relatos de alguns modelos raríssimos como alguns Willys MA (sem registro) poucos "Slatt Grill" (grade de grelha), e até uma unidade do modelo primordial Bantam BRC-40. Salientamos que a partir de registros fotográficos, nos permitem atestar que grande parte destes carros foram fabricados durante o ano de 1941, representado assim modelos da fase inicial de produção. Com este processo atendendo ao procedimento formal de cessão de equipamento militar a aliados, priorizaria-se assim a entrega de versões mais novas e aprimoradas para as forças armadas norte-americanas, com estas repassando seus veículos usados para exportação. O advento do recebimento destes carros e sua operação no Brasil, em muito contribuiria no processo de implantação do programa de motomecanização em larga escala no Exército Brasileiro, não só por sua versatilidade, mas também pela quantidade disponível. Pois neste momento a frota de veículos utilitários leves com tração integral deste porte, se resumia a poucos e antigos veículos do modelo Vidal & Sohn Tempo G-1200 de procedência alemã que foram recebidos em 1938, porém disponíveis em um número insuficiente para se dotar sequer uma unidade operacional completa. Uma pequena parcela destes novos utilitários norte-americanos seria ainda cedida a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Marinha do Brasil para o emprego em missões administrativas, transporte de pilotos ou de remoção médica.
Em 13 de agosto de 1943, em meio ao aprofundamento do engajamento brasileiro no esforço de guerra aliado, foi oficialmente criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Concebida como uma grande unidade expedicionária, a força reuniu aproximadamente 25.000 militares e foi estruturada segundo os padrões organizacionais e doutrinários do Exército dos Estados Unidos, que privilegiavam elevada mobilidade, flexibilidade logística e integração entre armas e serviços. Essa conformação refletia não apenas as exigências do teatro de operações europeu, mas também a necessidade de adaptar rapidamente tropas brasileiras a um modelo de guerra industrial e mecanizada. A composição evidenciava essa preocupação com a autonomia e a eficiência operacional. A força incluía quatro grupos de artilharia  três equipados com obuses de 105 mm e um com peças de 155 mm , além de uma esquadrilha da Força Aérea Brasileira (FAB) destinada a missões de ligação e observação. Completavam sua estrutura um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento, uma companhia de comunicações, um destacamento de saúde, uma companhia de manutenção, uma companhia de intendência, um pelotão de sepultamento, um pelotão de polícia militar e, de forma simbólica e tradicional, uma banda de música.  Para atender às rigorosas exigências de mobilidade impostas pelo teatro de operações italiano, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi dotada de uma frota considerável de veículos militares, entre os quais se destacavam cerca de 660 viaturas utilitárias leves com tração integral 4x4, popularmente conhecidas como Jeeps. Uma parcela significativa desses veículos, tanto leves quanto médios, já possuía um histórico operacional intenso, tendo participado de campanhas anteriores na Sicília e no Norte da África. A transferência de equipamentos usados ao Brasil, frequentemente em estado de conservação limitado, refletia a estratégia logística dos Estados Unidos, que concentravam seus recursos mais modernos e recém-fabricados na preparação da Operação Overlord, a grande invasão aliada da França, realizada em junho de 1944 e consagrada na história como o “Dia D”. Apesar das limitações decorrentes do desgaste acumulado, os Jeeps revelaram notável robustez e versatilidade, desempenhando funções essenciais nas operações da FEB ao longo da campanha italiana. Sua simplicidade mecânica, aliada à capacidade de transpor terrenos íngremes, enlameados ou destruídos pelos combates, fez dessas viaturas um elemento indispensável tanto no apoio logístico quanto nas ações de combate e de socorro. No âmbito do Serviço de Saúde da Força Expedicionária Brasileira, estruturado em um Batalhão de Saúde e um Destacamento de Saúde, parte dessa frota foi destinada a missões críticas de evacuação de feridos. Essas operações obedeciam a uma sistemática bem definida de socorro, evacuação, triagem e hospitalização, iniciada ainda na linha de frente. Nesse contexto, a mobilidade assumia papel central, envolvendo desde o trabalho dos padioleiros no campo de batalha até o emprego de viaturas capazes de transportar rapidamente os feridos aos Postos de Saúde (PS). Nos Postos de Saúde realizava-se a triagem dos combatentes atingidos, a estabilização inicial dos feridos graves, o tratamento de lesões leves que permitissem o pronto retorno ao combate e a adoção de medidas de caráter preventivo, fundamentais para a manutenção do efetivo. Em consonância com a doutrina operacional norte-americana então vigente, ao Exército Brasileiro  empregava dois tipos principais de viaturas nessas missões.

Os Jeeps Willys MB adaptados como ambulâncias de campanha, conhecidos como “Holden Jeeps”, eram utilizados na evacuação inicial, transportando os feridos diretamente da linha de frente até os Postos de Saúde. Sua leveza e agilidade permitiam operar com eficiência em terrenos difíceis e sob condições adversas. Para os casos que demandavam evacuação em maior profundidade, até os Postos de Atendimento Avançados (PAAs), operados pelas Companhias de Saúde Avançadas do Batalhão de Saúde (2º Escalão), eram empregadas as ambulâncias especializadas Dodge WC-54. Essas viaturas, de maior porte, ofereciam melhores condições de conforto e assistência durante o deslocamento, assegurando cuidados médicos mais completos aos feridos em trânsito. Dessa forma, a integração entre Jeeps e ambulâncias dedicadas constituiu um elemento fundamental do sistema de evacuação médica da Força Expedicionária Brasileira (FEB), contribuindo decisivamente para a eficiência do atendimento aos combatentes brasileiros durante a campanha da Itália. Ainda que essenciais, os utilitários leves fornecidos ao Exército Brasileiro para emprego pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) mostraram-se, de modo geral, insuficientes para atender plenamente às exigências de mobilidade da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE). Essa limitação também se fez sentir de maneira particularmente sensível no âmbito do Serviço de Saúde, uma vez que o número de jipes Willys MB adaptados como ambulâncias do tipo “Holden Jeeps” era extremamente reduzido: apenas nove unidades desses veículos especializados foram efetivamente recebidas. Após o batismo de fogo das tropas brasileiras em solo italiano, tornou-se evidente a necessidade de ampliar a disponibilidade de viaturas destinadas à evacuação médica, tanto junto ao Serviço de Saúde quanto aos seus Batalhões de Saúde. Diante da impossibilidade de receber reforços imediatos, a solução encontrada foi a improvisação, prática recorrente em cenários de guerra. Estima-se que pelo menos trinta jipes Willys MB, fabricados em 1942, tenham sido adaptados localmente para o cumprimento de missões de remoção de feridos. Essas adaptações variavam conforme os recursos disponíveis e a urgência da situação. Na configuração mais simples, sem alterações estruturais profundas na carroceria, procedia-se à instalação de uma padiola disposta transversalmente na parte traseira da viatura, com os punhos apoiados diretamente nas laterais do veículo. Em versões mais elaboradas, eram instalados suportes específicos para a padiola na carroceria, permitindo que seus punhos se apoiassem na padiola anterior e no para-brisa rebatido, proporcionando maior estabilidade durante o transporte. Uma vez adaptados para essa função, esses jipes passaram a ostentar as marcações da cruz vermelha em suas carrocerias, seguindo o padrão adotado pelas demais viaturas especializadas em evacuação e primeiros socorros ao longo de toda a Campanha da Itália. Paralelamente, no Brasil, os jipes dos modelos Ford GPW e Willys MB consolidavam-se como a espinha dorsal da frota motomecanizada do Exército Brasileiro, sendo distribuídos por unidades militares em todo o território nacional. Além disso, esses veículos passaram a equipar instalações da Força Aérea Brasileira e da Marinha do Brasil, evidenciando sua versatilidade e importância estratégica no pós-guerra imediato. Há registros não oficiais indicando que ao menos cinco jipes do tipo ambulância Willys MB “Holden Jeeps” teriam sido recebidos no país entre 1944 e 1945, permanecendo em serviço junto a unidades de infantaria sediadas no estado do Rio de Janeiro.
Com o encerramento das hostilidades na Europa, em maio de 1945, os jipes remanescentes da Força Expedicionária Brasileira, assim como os demais veículos, armas e equipamentos cedidos pelos Estados Unidos, foram entregues ao Comando de Material do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), na cidade de Roma. Nessa unidade, os veículos que se encontravam em melhores condições de conservação foram selecionados, armazenados e, posteriormente, remetidos ao Brasil por via marítima.  Ao chegarem ao Brasil, os Jeeps provenientes do teatro de operações europeu foram incorporados à frota de utilitários leves que já se encontrava em serviço no país desde 1942. Distribuídos entre as unidades operacionais do Exército Brasileiro, esses veículos passaram a desempenhar papel relevante no fortalecimento da capacidade logística e tática das Forças Armadas, contribuindo para a mobilidade, o transporte de pessoal e a sustentação das atividades operacionais em um período de reorganização do pós-guerra. A partir da segunda metade da década de 1950, o Brasil voltou a receber novos lotes de Jeeps classificados como “material excedente de guerra” (War Surplus), oriundos do Exército dos Estados Unidos no âmbito do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP). Essas remessas representaram um reforço significativo para o Exército Brasileiro, permitindo não apenas a ampliação da frota disponível, mas também a substituição gradual de viaturas mais antigas e desgastadas. Como resultado, observou-se uma maior padronização dos modelos em uso, o que simplificou os processos de manutenção, racionalizou o emprego de peças de reposição e elevou a eficiência operacional das unidades. Nesse mesmo contexto, registros indicam a incorporação de ao menos oito exemplares do Jeep Willys MB “Holden Jeeps”, configurados como ambulâncias de campanha. Projetados para a evacuação médica em condições adversas, esses veículos reforçaram o Serviço de Saúde do Exército Brasileiro, destacando-se por sua versatilidade e pela capacidade de operar em terrenos difíceis, onde outros meios de transporte apresentavam limitações. Na década de 1960, teve início um novo ciclo de modernização, marcado pela incorporação dos primeiros Jeeps militarizados produzidos em território nacional, como os modelos Willys-Overland e Ford CJ-2, CJ-5 e CJ-6. Paralelamente, o Brasil também recebeu viaturas usadas do modelo Willys M-38A1, que passaram a complementar a frota existente. A partir de 1962, começaram a entrar em serviço as primeiras ambulâncias militares desenvolvidas com base em veículos fabricados no país, a exemplo dos Ford Willys-Overland Rural F-75 e F-85, concebidos para atender de forma mais adequada às demandas do Serviço de Saúde. A produção em larga escala desses utilitários nacionais marcou o início de um processo gradual de desativação dos Jeeps recebidos nas décadas de 1940 e 1950, incluindo os emblemáticos Willys MB e Ford GPW, que haviam sido fundamentais durante a Segunda Guerra Mundial e no período imediatamente posterior. No que se refere especificamente aos 32 Jeeps Willys MB “Holden Jeeps” que estiveram em serviço no Exército Brasileiro, não há registros oficiais que esclareçam seu destino final. É plausível supor que, à medida que a frota foi modernizada e padronizada com veículos nacionais, essas viaturas tenham sido progressivamente retiradas de operação.

Em Escala.
Para representarmos o Willys MB "Holden Jeep" ambulância pertencente ao Serviço de Saúde da Força Expedicionária Brasileira (FEB), empregado na campanha da Itália durante a Segunda Guerra Mundial, fizemos uso do kit produzido pela Italeri na escala 1/35. Modelo este de baixo detalhamento e qualidade relativa de injeção. Fizemos uso de decais produzidos pela Decals e Books, presentes no livro "FEB na Segunda Guerra Mundial" de Luciano Barbosa Monteiro, em conjunto com decais originais do modelo. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado pelo Exército dos Estados Unidos em todos os seus veículos empregados durante a Segunda Guerra Mundial no teatro de operações da Europa, com estes Willys MB "Holden Jeep" recebendo apenas as marcações e seriais do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira. Alguns deste manteriam durante o conflito os números seriais norte-americanos ostentando o escudo do Cruzeiro do Sul. Em seu retorno ao Brasil os veículos mantiveram este padrão de pintura até sua desativação. 

Bibliografia : 
- Jeep Ford & Willys  https://en.wikipedia.org/wiki/Willys_MB
- Jeeps no Exército Brasileiro - https://jplopes.tripod.com/exbrz.htm
- FEB na segunda Guerra Mundial - Luciano Barbosa de Monteiro
- Leand & Lease Act  - Revista Tecnologia e Defesa - Edição 133.
- Serviço de Saúde na Segunda Guerra Mundial 1º Ten Al Jardel da Silva Pires e 1º Ten Al João Gabriel Mendes Morais