H-60L Sikorsky Black Hawk

História e Desenvolvimento.
Igor Ivanovich Sikorsky, nascido em 25 de maio de 1889 em Kiev, emergiu como uma figura pivotal na história da aviação, moldada por uma era de turbulência e inovação. Filho de um professor de psicologia, Sikorsky desenvolveu fascínio precoce pelo voo, inspirado por leituras de Leonardo da Vinci e Júlio Verne. Aos 20 anos, em 1909, construiu seus primeiros helicópteros experimentais na Rússia, mas enfrentou limitações técnicas que o levaram a focar em aviões de asa fixa. Seu marco veio durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), com o design do Ilya Muromets  um bombardeiro quadrimotor gigante, o maior avião do mundo na época, capaz de carregar até 1.000 kg de bombas e voar por horas sobre as linhas inimigas Em março de 1919, aos 30 anos, ele emigrou para os Estados Unidos via França, chegando a Nova York com apenas US$ 600 no bolso e um sonho inabalável. Como muitos imigrantes da era  uma onda que incluía cientistas fugindo do bolchevismo, Sikorsky lecionou matemática para compatriotas russos enquanto sonhava em reviver sua carreira. Em 23 de maio de 1923, ele fundou a Sikorsky Aero Engineering Corporation nas proximidades do aeródromo de Roosevelt Field, em Nova York.  A  companhia foi estabelecida com o objetivo de projetar e produzir aeronaves civis voltadas para treinamento e transporte leve, atendendo à crescente demanda por aviação comercial e recreativa nos Estados Unidos durante. Em 1925, a empresa foi renomeada para Sikorsky Manufacturing Company, três anos mais tarde, em 1928, a companhia transferiu suas instalações industriais para Stratford, no estado de Connecticut. Em 1929, a Sikorsky Manufacturing Company passou a integrar a United Aircraft and Transport Corporation, um conglomerado industrial que reunia diversas empresas do setor aeronáutico. No final da década de 1930, o mercado de aeronaves anfíbias e multimotores enfrentou uma queda significativa na demanda, impactado por mudanças nas preferências do mercado e pela instabilidade econômica global. Diante desse cenário, a diretoria da United Aircraft optou por fundir a divisão de projetos e fabricação com a Vought Aircraft Company, criando a Vought-Sikorsky Division. Essa reestruturação permitiu a Igor Sikorsky redirecionar seus esforços para um campo até então pouco explorado: o desenvolvimento de aeronaves de asas rotativas. Fascinado pela ideia de voo vertical desde sua juventude, Sikorsky dedicou-se ao projeto de um helicóptero funcional, culminando no Vought-Sikorsky VS-300. O VS-300 realizou seu primeiro voo em 13 de maio de 1940. Pilotado pelo próprio Sikorsky, o helicóptero demonstrou a viabilidade de uma aeronave de rotor único, capaz de decolagem e pouso verticais. Após uma série de testes e modificações, o projeto evoluiu para o VS-316, também conhecido como XR-4. Em 14 de janeiro de 1942, o XR-4 realizou seu primeiro voo bem-sucedido, e, em maio do mesmo ano, foi aprovado pela Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). O sucesso do R-4 durante o conflito consolidara o helicóptero como uma ferramenta essencial em operações militares, especialmente em missões de busca e salvamento. 

Contudo, a empresa vislumbrou oportunidades ainda maiores, não apenas no âmbito militar, mas também no mercado civil, onde os helicópteros poderiam desempenhar papéis cruciais em transporte, evacuação aeromédica e outras aplicações comerciais. Essa visão estratégica levou a Sikorsky Manufacturing Company, a investir recursos próprios no desenvolvimento de um helicóptero de médio porte, projetado para atender às demandas emergentes de ambos os setores, nascendo assim os modelos S-55, H-19, e H-34 , que galgariam grande sucesso nos mercados militar e civil. A seguir o conflito do Vietnã emergiu como um laboratório vivo para a aviação rotativa, transformando helicópteros de meros veículos utilitários em pilares da mobilidade tática. Foi nesse cenário, entre 1965 e 1973, que o Bell UH-1 alcançou seu apogeu comercial e operacional. Mais de 3.000 unidades foram empregadas no conflito, equipando não apenas o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), mas também a Força Aérea (USAF), a Marinha (U.S Navy) e o Corpo de Fuzileiros Navais, em uma escala que superava qualquer operação anterior e destacava o gênio do engenheiro Arthur Young, criador do sistema de rotor estabilizador que tornava o Huey manobrável em ambientes hostis como as selvas densas e montanhas do Sudeste Asiático. Essas aeronaves, impulsionadas pelo motor turboeixo Lycoming T53 uma inovação que substituía os pistões radiais por turbinas mais potentes e leves, permitindo velocidades de até 200 km/h e cargas úteis de até 1.800 kg, foram empregadas em uma multiplicidade de papéis que redefiniram a guerra moderna. Apesar de seu desempenho exemplar, o Comando do Exército Americano identificou limitações críticas em meados da guerra. Os Hueys, projetados , careciam de proteção balística adequada, espaço interno para tropas em armaduras pesadas e resistência a danos que permitissem operações prolongadas em teatros de alta intensidade.  Assim, no final da década de 1960, em meio ao pós-Tet Offensive de 1968  expôs a necessidade de equipamentos mais resilientes , estudos conjuntos foram iniciados para conceber uma sucessora. Esses esforços culminaram no programa Utility Tactical Transport Aircraft System (UTTAS), lançado formalmente em 1972 sob a égide do Departamento de Defesa, com um vultuoso orçamento inicial e requisitos rigorosos: uma aeronave de porte médio, bimotora para redundância (inspirada nas falhas de motores únicos no Vietnã), capacidade para 11 soldados equipados, velocidade de cruzeiro superior a 250 km/h, blindagem contra armas leves e mísseis, e sistemas aviônicos avançados para voo noturno e em condições adversas. Entre os principais requisitos exigidos pelo programa UTTAS estava aquele que apregoava uma aeronave com dois motores turbo eixo, permitindo assim uma maior capacidade de sobrevivência da célula e do grupo motriz em cenários de conflagração, podendo suportar danos em combate, levando assim a necessidade de criação de um novo motor turbo eixo para atender a estas demandas, processo este  que culminaria no  projeto do conjunto General Electric T700.  
Os demais parâmetros deste programa como confiabilidade operacional, sobrevivência em ambientes de combate e custos de ciclo de vida reduzidos, iriam resultar em recursos inovadores para aeronaves de asas rotativas até então. Entre estes os motores com desempenho otimizado para operação e altas temperaturas ou altas altitudes, design modular de conjuntos de componentes críticos, caixas de transmissão secas; subsistemas redundantes (hidráulicos, elétricos e de vôo) com alta tolerância a impactos de balística; blindagem para tripulantes e tropas, entre outros melhoramentos incorporados no programa da futura aeronave. Ainda que este helicóptero apresentasse dimensões superiores aos Bell UH-1D/H, deveria ainda possibilitar ser transportado a bordo de um Lockheed C-130 Hércules. Este processo capitaneado então pelo comando do Exército Americano (US Army), teve o início oficial em janeiro de 1972 com o lançamento do RFP (Request for Proposal – Pedido de Proposta). Diversas empresas nacionais manifestariam interesse no programa, que previa a aquisição de um suntuoso lote de células a curto e médio prazo. Análises detalhadas destas propostas levariam a definição de dois candidatos finalistas, sendo estes representados pelo Sikorsky YUH-60A e Boeing-Vertol YUH-61A. Estas duas empresas receberiam um contrato de financiamento para a construção de protótipos de avaliação, com primeiro voo do modelo Sikorsky Aircraft ocorrendo em 17 de outubro de 1974, sendo seguido um mês depois pelo seu concorrente. Logo na sequência mais dois protótipos de cada modelo seriam produzidos a fim de serem submetidos a um extenso programa de avaliação e testes em voo. Este programa seria dividido em um estágio preliminar com início previsto em novembro de 1975, e uma fase final programada para o mês de março do ano seguinte. Em uma detalhada análise comparativa a aeronave da Sikorsky Aircraft venceu seu concorrente o Boeing-Vertol YUH-61A, em quase todos os parâmetros exigidos. Desta maneira o Sikorsky YUH-60A seria declarado como vencedor do programa UTTAS (Utility Tatical Transport Aircraft System), recebendo assim em dezembro de 1976 um primeiro contrato de produção de sessenta aeronaves para o Exército Americano (US Army). As primeiras entregas as unidades de treinamento e conversão do agora designado Sikorsky UH-60A Black Hawk (nomeado em homenagem ao líder de guerra nativo-americano), ocorreram a partir de outubro de 1978, com o modelo sendo classificado como operacional a partir de junho do ano seguinte. Sua missão operacional era o de substituir o Bell UH-1H como aeronave de transporte tático de tropas, podendo nesta configuração transportar até onze soldados totalmente equipados.  Seu batismo de fogo ocorreria em outubro de 1983 durante a Operação Urgent Fury, a invasão de Granada, em uma madrugada chuvosa, sob comando do Brigadeiro-General Hugh R. Overton, helicópteros UH-60A transportaram a 1ª Brigada de Paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada de Point Salines para o sul da ilha, inserindo 500 soldados em zonas quentes próximas a Pearls Airport, onde resistiam forças do New Jewel Movement.

Embora Granada tenha sido o batismo americano, o Black Hawk logo se tornou onipresente: na Invasão de Panama (1989, Operação Just Cause), ele inseriu Rangers em Points Salinas sob fogo panamenês; na Guerra do Golfo (1991), sofreu as primeiras perdas em missões de CSAR (Combat Search and Rescue), com dois abatidos em 27 de fevereiro; e na Batalha de Mogadíscio (1993), imortalizado no filme Black Hawk Down, onde dois foram derrubados por milicianos somalis, custando 18 vidas americanas mas destacando sua tenacidade. Para Israel, o batismo veio em abril de 1996, durante a Operação Grapes of Wrath contra o Hezbollah no sul do Líbano, com UH-60A "Yanshuf" realizando reconhecimentos sob foguetes Katyusha. A variante UH-60C emergiu no final dos anos 1980, como uma modificação improvisada para missões de posto de comando aerotransportado (Airborne Command Post). Diferente do UH-60A padrão (transporte de tropas) ou do EH-60 Quick Fix (guerra eletrônica), o UH-60C foi adaptado pela Força Aérea e pelo Exército dos Estados Unidos para coordenar operações em tempo real, equipado com rádios avançados, consoles de comunicação e sistemas de dados para generais em voo. Em 1980, trinta células seriam convertidas para o emprego em “Operações Especiais”, sendo equipados aviônicos adicionais, sistemas de visão e navegação noturna, sistema de visão infravermelha (FLIR), tanques de combustível suplementares e armamento defensivos e ofensivo na forma de duas metralhadoras rotativas do tipo Minugun M-134 de 7,62 mm. Especificamente, UH-60C do 101º Comando de Aviação e do VII Corpo foram destacados para o teatro do Golfo Pérsico em agosto de 1990. Seu debut em zona de combate veio durante fases iniciais de Desert Shield, coordenando logística em desertos sauditas. Em 1988 seria a vez do desenvolvimento do MH-60K Black Hawk, primeira versão equipada com sonda para reabastecimento em voo, radar de terreno AN/APQ-174B, passando a ser equipado com os motores T700-GE-701C. O aumento no peso bruto da aeronave nestas versões especializadas levaria o comando do Exército dos Estados Unidos (US Army) a solicitar melhorias no projeto para a manutenção dos parâmetros de desempenho original. Esta demanda levaria a atualização dos motores T700-GE-701C, adoção de uma caixa de câmbio mais robusta (ambos desenvolvidos para o SH-60B Seahawk). Esta alteração no grupo motopropulsor permitiu aumentar sua capacidade de elevação externa passando para 450 kg e 4.100 kg, um fator importante foi a incorporação de um novo sistema de controle de vôo automático (AFCS) que facilitava o controle de voo devido aos motores mais potentes que passavam a exigir mais atenção na condução da aeronave.  Esta nova versão receberia a designação militar de UH-60L Black Hawk, com sua produção em série sendo iniciada em 1989, com as primeiras aeronaves entrando em serviço ativo em meados do ano seguinte. Paralelamente a Sikorsky Aircraft Co. seria contratada para promover a atualização da frota remanescente de helicópteros UH-60A Black Hawk para este novo padrão. 
Durante os anos seguintes esta família de aeronaves foi se tornando o esteio da força de helicópteros das forças armadas norte-americanas, sendo desenvolvidas novas versões especializadas como o EH-60L (sistemas de missão), UH-60Q - HH-60L (evacuação aero médica), MH-60L (operações especiais), MH-60L DAP (armado com misseis Hellfire e Stinger) e UH-60A RASCAL (versão laboratório para a NASA). No entanto no em fins da década de 1990 vislumbrou-se a necessidade de promover a renovação da frota a médio prazo, principalmente focando na substituição das primeiras células a entrar em serviço, cujo ciclo de vida já completava quase vinte anos, desta maneira definiu pelo desenvolvimento de uma nova versão atualizada da aeronave. Esta demanda seria atendida no ano de 2001 com a aprovação do programa UH-60M, esta nova aeronave estaria equipada como novos motores General Eletric T700-GE-701D, aviônica e sistemas de controle de voo, comunicação e navegação de última geração.  Em fevereiro de 2005 o Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América, aprovou a produção de um pequeno lote da nova variante para fins de ensaios e avaliação, com as primeiras vinte e duas células sendo entregues a partir de julho do mesmo ano. Este programa de testes culminaria na assinatura de um contrato para a aquisição de mil e duzentas células, que pelo cronograma deveriam ser entregues até o final do ano de 2007. Em março de 2009, um novo contrato no valor de US$ 1,3 bilhão, seria assinado para produção de mais cento e duas aeronaves configuradas para missões especializadas, com este recebendo um aditivo em 2014 para mais cem aeronaves customizadas.  O Sikorsky UH-60 Black Hawk, teria seu batismo de fogo, durante a invasão de Granada no Caribe em 1983, sendo novamente empregados no continente na invasão do Panamá em 1989. Durante a primeira Guerra do Golfo em 1991, o UH-60 Black Hawk participaria até então da maior missão de assalto aéreo com helicópteros realizada pela aviação do Exército dos Estados Unidos (US Army), envolvendo mais de trezentas aeronaves de asas rotativas. O modelo teria destacada atuação na crise de Mogadíscio, na Somália em 1993, onde duas aeronaves foram abatidas por açao de lança foguetes – RPGs das forças somalis. Atualmente as linhas de produção Sikorsky Aircraft Corporation, continuam em plena atividade, acumulando mais de quatro mil e novecentas células, entregues até fins do ano de 2022, dispostas em mais de trinta versões (muitas destas especializadas).  Grande parte destas aeronaves se mantem em serviço militar nos Estados Unidos, República do Afeganistão, Áustria, Austrália, Bahrain, Brasil, Brunei, Chile, China, Colômbia, Egito, Albânia, Eslováquia, Israel, Japão, Jordânia, Malásia, México, Marrocos, Lituânia, Coreia do Sul, Filipinas, Polônia, Portugal, Arábia Saudita, Suécia, Taiwan, Tailândia, Tunísia, Turquia, Ucrânia e Emirados Árabes. 

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No contexto da modernização institucional da Força Aérea Brasileira (FAB) no início da década de 1950, o Ministério da Aeronáutica (MAer) deu início, ao final de 1951, a um programa estratégico voltado à aquisição de aeronaves de asas rotativas. Tal iniciativa representou um marco relevante na incorporação de tecnologias inovadoras às operações da força, alinhando o Brasil às tendências emergentes da aviação militar no pós-guerra. Após um criterioso processo de avaliação técnica, a escolha recaiu sobre o Bell 47D1. Ainda que integrassem uma frota reduzida, essas aeronaves passaram a ser intensamente empregadas em um amplo espectro de missões, incluindo ligação, observação e busca e salvamento (SAR). Sua versatilidade era ampliada pela possibilidade de operação em ambiente marítimo, graças à disponibilidade de kits de flutuação, permitindo seu emprego em apoio a operações navais. Dessa forma, estabelecia-se, no âmbito da força, o embrião doutrinário das missões de salvamento com aeronaves de asas rotativas. Essa evolução encontrava respaldo em compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em 1944, ao aderir à Convenção sobre Aviação Civil Internacional, que estabelecia a obrigatoriedade de os países signatários manterem uma infraestrutura eficiente voltada às operações de busca e salvamento, cobrindo suas áreas de responsabilidade continentais e marítimas. Em consonância com essas diretrizes,  instituiu-se , em 16 de novembro de 1950, o Serviço de Busca e Salvamento, estruturando formalmente essa capacidade no país. Como componente aéreo desse sistema, foram incorporadas aeronaves especializadas, como o Boeing SB-17G e o Consolidated PBY-5A Catalina, além da introdução, em 1958, de quatro exemplares do Sikorsky H-19D  os primeiros helicópteros dedicados exclusivamente a missões SAR. Contudo, o emprego intensivo dessas aeronaves rapidamente resultou em desgaste acentuado, comprometendo sua disponibilidade operacional. Essa limitação começou a ser superada a partir de 1967, com a incorporação do Bell UH-1D Huey, helicóptero configurado especificamente para missões de busca e salvamento. Sua introdução representou um expressivo salto qualitativo, sendo a primeira aeronave de asas rotativas equipada com motorização a turbina a operar no Brasil. Dotado de maior desempenho, confiabilidade e aviônicos mais avançados em comparação aos modelos anteriores, o UH-1D ampliou significativamente a capacidade de resposta da força em cenários operacionais complexos. Na primeira metade da década de 1970, o emprego do Huey  em especial na variante adaptada para operações SAR  desempenhou papel fundamental na introdução da doutrina de C-SAR (Combat Search and Rescue)  no Brasil. Pela primeira vez,  dispunha-se  de uma aeronave de asas rotativas capaz de operar como plataforma armada, equipada com metralhadoras M-60 de calibre de 7,62 mm e lançadores de foguetes não guiados. Essa capacidade proporcionava maior autodefesa e aumentava substancialmente as chances de sobrevivência da tripulação em ambientes hostis, consolidando um novo patamar de atuação para missões de resgate em áreas sob ameaça inimiga.

As qualidades operacionais demonstradas, sobretudo em missões de contrainsurgência (COIN) durante a Guerrilha do Araguaia, levaram o comando da Força Aérea Brasileira (FAB) a ampliar novamente sua frota de helicópteros. Essa necessidade traduziu-se na aquisição de vinte e quatro células usadas do modelo Bell UH-1H Huey, provenientes dos estoques do aviação do Exército dos Estados Unidos (U.S Army). As aeronaves começaram a ser recebidas a partir de 1973, sendo distribuídas aos 1º, 2º, 3º e 4º Esquadrões Mistos de Reconhecimento e Ataque (EMRA), unidades responsáveis por missões de apoio tático, reconhecimento armado e ataque leve. A partir de 1984, a introdução dos helicópteros leves Helibras HB350B Esquilo (designação militar UH-50) permitiu  ampliar e diversificar suas capacidades no emprego de aeronaves armadas. Equipados com diferentes configurações de armamento incluindo pods de metralhadoras e foguetes não guiados de 35 mm e 70 mm  esses helicópteros assumiram, ao longo dos anos, papel central nas missões de ataque leve, com destaque para sua atuação junto ao 2º/8º GAv - Esquadrão Poti. Em meados da década de 1990, o Ministério da Aeronáutica (MAer) passou a considerar a substituição da envelhecida frota de UH-1H por aeronaves mais modernas, como o S-70 Black Hawk, considerado seu sucessor natural. No entanto, os elevados custos associados à aquisição de novos helicópteros tornaram essa transição inviável naquele momento, levando à adoção de uma solução intermediária baseada na compra de aeronaves usadas. Nesse contexto, fazendo uso dos vantajosos termos do programa norte-americano de Vendas Militares a Estrangeiros – FMS (Foreing Military Sales), foram adquiridas, em 1997, 20 células adicionais do UH-1H, oriundas do Exército dos Estados Unidos (U.S Army).  Essas aeronaves apresentavam melhorias relevantes, incluindo aviônicos atualizados e compatibilidade com sistemas de visão noturna (NVG), o que representou um avanço significativo em termos de capacidade operacional. Tal iniciativa permitiu a desativação de células mais antigas e a recuperação parcial da disponibilidade. No mesmo período, o Exército Brasileiro passou a operar quatro unidades do Sikorsky S-70A Black Hawk, cujo desempenho operacional foi amplamente elogiado. Esses resultados despertaram o interesse do Comando da Aeronáutica (CoMAer), que passou a acompanhar de perto a performance do modelo, vislumbrando sua futura adoção como substituto dos UH-1H. Em 2004, a questão da renovação da frota voltou à pauta prioritária, diante do avançado estado de desgaste e obsolescência das aeronaves remanescentes. A solução adotada resultou na incorporação de dois modelos distintos e complementares: o Sikorsky UH-60L Black Hawk, destinado a missões táticas e utilitárias, e o Eurocopter EC725 Caracal, de maior porte, cuja produção sob licença no Brasil foi viabilizada. Essa transição marcou um novo ciclo na evolução da aviação de asas rotativas , caracterizado pela incorporação de plataformas mais modernas, com maior capacidade de carga, alcance, sobrevivência e integração tecnológica.
Com o objetivo de assegurar maior longevidade operacional e eficiência logística, definiu-se que os novos vetores deveriam ser adquiridos diretamente de fábrica, garantindo um ciclo de vida estimado de ao menos três décadas. Nesse contexto, em 2004, seriam iniciadas negociações com os governos dos Estados Unidos e da França, buscando condições comerciais favoráveis, bem como oportunidades de transferência de tecnologia. O governo norte-americano por meio do programa Foreign Military Sales (FMS), ofereceria um pacote competitivo. Como resultado, a escolha recaiu sobre o Sikorsky UH-60L, uma versão modernizada do consagrado Black Hawk, equipada com aviônicos digitais e plenamente apta a operações noturnas. Embora mais acessível que a variante mais recente UH-60M, o modelo representava um salto qualitativo expressivo em relação aos antigos Bell UH-1H Huey, superando-os em praticamente todos os aspectos operacionais. Em maio de 2005, após um extenso processo de avaliação técnica e financeira, seria  formalizado contrato com a Sikorsky Aircraft Co. para a aquisição de um lote inicial de 06 aeronaves H-60L, em um acordo estimado em cerca de US$ 90 milhões de dólares. O pacote incluía treinamento para 20 pilotos e 50 mecânicos, fornecimento de peças de reposição e suporte logístico por um período de cinco anos, assegurando autonomia operacional. A primeira aeronave, matriculada FAB 8901, foi entregue em 27 de julho de 2006, na cidade de Huntsville, importante polo aeroespacial norte-americano. Pilotos do 7º/8º Grupo de Aviação realizaram os voos de aceitação, marcando o início da transição operacional. O traslado da aeronave teve início em 29 de julho, com uma longa rota que incluiu diversas escalas pelos Estados Unidos e pela América Central, culminando na entrada em território brasileiro por Boa Vista, até alcançar seu destino final em Manaus. A incorporação oficial ocorreu na Base Aérea de Manaus, em cerimônia que marcou a entrada do modelo em operação no Esquadrão Harpia. As demais aeronaves foram entregues na sequência, permitindo ao esquadrão substituir gradualmente seus UH-1H, que passaram a ser transferidos para o 2º/10º GAv. A introdução do UH-60L representou um avanço operacional sem precedentes. Com maior capacidade de carga  em torno de 1.000 kg , autonomia ampliada, velocidade superior e sistemas embarcados modernos, incluindo proteção balística e aviônicos compatíveis com operações em qualquer condição meteorológica, os Black Hawk revolucionaram as capacidades do Esquadrão Harpia. Entre as principais missões atribuídas à unidade destacam-se a infiltração e exfiltração de tropas  com o emprego de técnicas como rapel, pouso de assalto e método McGuire, operações de busca e salvamento (SAR), tanto em ambiente amazônico quanto marítimo, e missões de Combat-SAR. Adicionalmente, o esquadrão passou a desempenhar um papel relevante em ações de apoio social e humanitário, especialmente junto a populações ribeirinhas e indígenas da região amazônica. Entre essas atividades incluem-se campanhas de vacinação conduzidas pelo Ministério da Saúde, missões de transporte presidencial e  operações de ajuda humanitária internacional.

Entre 2008 e 2009, o comando da Força Aérea Brasileira (FAB) conduziu negociações para a aquisição de doze aeronaves novas de fábrica junto à Sikorsky Aircraft Co., por meio do programa Foreign Military Sales (FMS). O contrato, estimado em cerca de US$ 220 milhões de dólares, foi firmado em um contexto de fortalecimento das relações estratégicas entre o Brasil e os Estados Unidos. As entregas ocorreram entre 2010 e meados de 2013, com as aeronaves sendo transportadas ao Brasil a bordo de cargueiros Lockheed C-130H Hercules. Esse novo lote de helicópteros destinou-se não apenas a reforçar a dotação do 7º/8º Grupo de Aviação, sediado na Base Aérea de Manaus, mas também a equipar o 5º/8º Grupo de Aviação, com base na Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Essa redistribuição permitiu que o Esquadrão Pantera transferisse gradualmente seus Bell UH-1H Huey ao 2º/10º Grupo de Aviação, concentrando nessa unidade as células remanescentes desse modelo. Diferentemente do primeiro lote incorporado em 2006  que priorizava maior autonomia por meio de tanques suplementares internos, essas aeronaves foram configuradas para oferecer maior espaço útil na cabine, com autonomia padrão de aproximadamente 2 horas e 20 minutos. Quando equipadas com tanques externos opcionais, podiam atingir mais de seis horas de voo, característica particularmente valiosa em missões de longa duração na região amazônica ou em operações de resgate marítimo. Entre as diversas capacidades operacionais do H-60L, destacam-se as missões de Combat-SAR, nas quais o modelo se sobressai por sua robustez, redundância de sistemas críticos e elevada capacidade de sobrevivência em ambientes hostis. Equipados, em determinadas configurações, com metralhadoras rotativas General Electric M-134 Minigun de 7,62 mm (cadência de 3.600 tiros/minuto), os Black Hawk apresentam elevado poder de autodefesa, sendo especialmente adequados para operações de resgate em áreas sob ameaça inimiga. Ao longo dos anos seguintes, essas aeronaves consolidaram-se como vetores multifuncionais, empregados em missões de reconhecimento armado, transporte tático, inserção de forças especiais e busca e salvamento, com destaque para sua atuação contínua na região amazônica com destaque na Operação Ágata voltadas ao combate a ilícitos transfronteiriços. Em julho de 2017, a frota de H-60L alcançou a expressiva marca de 30.000 horas de voo, celebrada em Manaus, reunindo diferentes gerações de tripulantes em reconhecimento aos inúmeros resgates e missões bem-sucedidas realizadas ao longo de mais de uma década de operação. Os desafios logísticos inerentes à operação em ambientes remotos, especialmente na Amazônia, levaram à celebração, em 28 de julho de 2021, de um contrato de suporte com o fabricante. Avaliado em cerca de US$ 50 milhões de dólares e com duração de quatro anos, o acordo contemplou a criação de estoques locais de peças em Manaus e Campo Grande, reduzindo significativamente os prazos de manutenção. Paralelamente, a capacitação de mecânicos brasileiros muitos treinados em Huntsville contribuiu para elevar os índices de disponibilidade operacional da frota, atingindo patamares próximos a 85%.
Em 6 de dezembro de 2018, durante as comemorações dos 61 anos de criação do 2º/10º Grupo de Aviação, realizadas na Base Aérea de Campo Grande, ocorreu a cerimônia oficial de incorporação do Sikorsky H-60L Black Hawk à unidade. Esse marco institucional assinalou o início do processo de desativação dos veteranos Bell UH-1H Huey conhecidos como “Sapão” no âmbito da Força Aérea Brasileira (FAB). Inicialmente, duas aeronaves provenientes do primeiro lote adquirido foram transferidas do 7º/8º Grupo de Aviação para o Esquadrão Pelicano. Por se tratar da principal unidade dedicada exclusivamente às missões de busca e salvamento (SAR), a introdução do H-60L representou um salto expressivo em termos de desempenho e disponibilidade operacional. Enquanto os UH-1H demandavam inspeções frequentes a cada 25 horas de voo, o novo vetor ampliou esse intervalo para cerca de 40 horas. Da mesma forma, os ciclos de manutenção mais profunda evoluíram de aproximadamente 150 para 360 horas, reduzindo significativamente o tempo de indisponibilidade das aeronaves. Essas melhorias tornaram o H-60L particularmente adequado às exigentes condições da Amazônia, onde a logística é complexa e a infraestrutura aeroportuária é limitada. Nesse cenário, o helicóptero passou a desempenhar papel essencial em missões de resgate e apoio à saúde indígena, alcançando comunidades isoladas como as mais de 300 aldeias situadas no Território Yanomami  onde aeronaves de asas fixas não conseguem operar. Já à época, observavam-se indícios de expansão da frota Black Hawk no país, tendência que se confirmou nos anos seguintes. Em setembro de 2025, a Força Aérea Brasileira anunciou planos para a aquisição de 11 aeronaves adicionais do modelo H-60L, oriundas dos estoques do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), por meio do programa "Black Hawk Exchange Sales Team", programa governamental destinado a atualização de aeronaves desta família, com repasse a nações amigas a condições extremamente favoráveis. O contrato, avaliado em aproximadamente US$ 230 milhões de dólares e firmado com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, elevará a frota total para cerca de 29 aeronaves. Essa expansão reforça a capacidade  em missões de busca e salvamento (SAR), Combat Search and Rescue e apoio humanitário, com as novas aeronaves sendo distribuídas entre os esquadrões de asas rotativas, Pelicano, Harpia e Pantera. A empresa ACE Aeronautics LLC foi designada como fornecedora responsável pela modernização e suporte, incluindo a instalação do sistema integrado Garmin BrIFD G5000H em toda a frota em operação.  Essa atualização tecnológica, abrangendo tanto as novas células quanto as já em operação, visa assegurar a padronização dos sistemas embarcados e prolongar a vida útil operacional das aeronaves até aproximadamente 2040. Tal iniciativa reflete não apenas o compromisso do Brasil com a modernização de seus meios aéreos, mas também com o fortalecimento de sua autonomia tecnológica e capacidade de resposta em cenários operacionais complexos.

Em Escala.
Para representarmos o Sikorsky H-60L  Black Hawk  "FAB 8909" pertencente ao 7° Esquadrão do 8° Grupo de Aviação – Esquadrão Harpia, empregamos um antigo kit da Minicraft  na escala 1/48, que apresenta a versão MH-60K.  Para adequarmos a versão empregada pela Força Aérea Brasileira (FAB), confeccionamos em scracth build o domo do radar meteorológico.  Fizemos uso de decais produzidos sob encomenda pela PRM  Decals  que estão presentes no Set Black Hawk - Forças Armadas Brasileiras.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa um padrão de pintura tático de baixa visibilidade, adotado pelos Sikorsky UH-60L a partir da aquisição do segundo lote das aeronaves. Originalmente as primeiras aeronaves foram recebidas ostentando o esquema de pintura adotado por todas as aeronaves de asas rotativas em serviço na aviação do  Exército dos Estados Unidos (U.S. Army).  Empregamos tintas,  vernizes  e washes produzidos pela Tom Colors. 
Bibliografia:
- H-60L Black Hawk, uma década operando na FAB - www.defesanet.com.br
- A Família Black Hawk no Brasil - Revista Asas Edição 87
- História da Força Aérea Brasileira por, Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 -  2016 – Jackson Flores Jr

Scania Série 100 "Jacaré" (VTTNE)

História e Desenvolvimento.
Fundada em 1891 na cidade de Malmö, no sul da Suécia, a empresa sueca Maskinfabriks AB Scania iniciou sua atuação voltada à fabricação de carruagens e vagões ferroviários, refletindo a vocação industrial da região de Skåne  cujo nome, em sua forma latina, inspiraria a marca Scania. Em 1896, na mesma província, estabeleceu-se a unidade fabril da fabricante inglesa de bicicletas Humber & Co, que, poucos anos depois, teve suas operações incorporadas à Scania, integrando-se a um processo de consolidação típico do dinamismo industrial europeu do final do século XIX. A partir de 1900, a companhia passou a estampar o nome Scania nas coroas das bicicletas que produzia, gesto que, embora simples em sua forma, revelou-se decisivo para aproximar a marca do cotidiano das pessoas e fortalecer sua identidade comercial. A história do setor automotivo sueco ganharia novo capítulo em 1911, quando a Scania estabeleceu fusão estratégica com a VABIS, sediada na cidade de Södertälje. Dessa união nasceu o grupo Scania-Vabis, inicialmente dedicado à produção de caminhões e automóveis para o mercado interno, em um país cuja logística e defesa territorial exigiam soluções de grande mobilidade em ambientes severos. Com o advento da Primeira Guerra Mundial, o grupo passou a colaborar diretamente com as Forças Armadas Suecas, expandindo sua linha para tratores de artilharia com tração integral, caminhões e ambulâncias. Entre os primeiros modelos notabilizou-se o caminhão utilitário Scania CLC, concebido para atender às exigências logísticas e de transporte em um exército em modernização, além da ambulância Scania‑Vabis Type III, que demonstrava a crescente preocupação humanitária na remoção e assistência aos feridos. No contexto defensivo do início da década de 1940 — momento em que a Europa enfrentava devastadora escalada bélica  o grupo retomou sua produção militar com ênfase em veículos de maior capacidade operacional. Nesse período destacaram-se os caminhões Scania LB‑350 e Scania LB‑38F, projetados com chassis robustos e grande versatilidade, permitindo adaptação para transporte de cargas, socorro, postos de comando, deslocamento de tropas, remoção de neve e conversões estruturais para ônibus militares. Embora a Suécia tenha permanecido oficialmente neutra durante a Segunda Guerra Mundial, a produção desses caminhões ilustra o esforço estratégico nacional de prontidão e dissuasão defensiva, em uma postura de vigilância e resiliência diante da imprevisibilidade do ambiente geopolítico. Seu desenvolvimento não estava atrelado ao estímulo ofensivo do conflito, mas sim à proteção do território e da população sueca, revelando o senso de responsabilidade da indústria nacional ao se colocar como suporte à defesa e, sobretudo, à preservação de vidas. Com o fim da guerra, em 1945, o grupo iniciou gradual reconversão industrial, aproveitando soluções e aprendizados do período militar para a concepção de novas gerações de viaturas. Esse movimento evolutivo é percebido no surgimento posterior das séries Scania L‑36A e Scania L‑50, largamente empregadas nas décadas seguintes pela estrutura logística da Svenska Armén, já em um cenário de defesa mais mecanizada e integrada. Paralelamente, a Scania-Vabis intensificava suas ambições de internacionalização, firmando parcerias e redes de distribuição fora do eixo europeu, especialmente com mercados estratégicos nas Américas e na Ásia, em um processo de expansão que marcaria sua afirmação como fabricante global de soluções de transporte pesado.

A trajetória da Scania no Brasil iniciou-se em 1949, marco simbolizado pela importação do caminhão Scania L‑65. A chegada desses veículos, em um país que começava a reconstruir e expandir sua infraestrutura após a Segunda Guerra Mundial, representou mais do que uma simples operação comercial: foi o prenúncio de uma relação industrial e humana duradoura com o Brasil. No início da década de 1950, o Brasil experimentava um período de vigorosa transformação econômica e crescente integração com fabricantes automotivos europeus e norte-americanos. Muitas empresas nacionais surgiram para representar e, posteriormente, montar veículos em território brasileiro, impulsionadas por um mercado interno em ascensão e pela demanda crescente por transporte e logística. Nesse contexto, em 1953, foi fundada em São Paulo a Distribuidora Vemag S.A., que assumiu inicialmente a representação e a montagem de automóveis da Studebaker Corporation. Pouco tempo depois, a empresa brasileira firmaria parceria estratégica com a Scania-Vabis, estendendo sua atuação à linha de caminhões, ônibus e motores a diesel. Em 1954, com a expansão de seu parque industrial no bairro do Ipiranga, a Vemag iniciou a montagem no sistema Completely Knocked Down (CKD), no qual conjuntos e componentes eram enviados totalmente desmontados para serem assemblados localmente. O modelo Scania L‑75 foi um dos primeiros a nascer sob esse processo, alcançando 159 unidades montadas até 1955, com índice de nacionalização de 35%. Mesmo antes da formalização de um programa governamental de incentivo à indústria automotiva, a Vemag S/A adotou postura pioneira: iniciou a nacionalização de componentes, particularmente das cabines, aproveitando sua capacidade industrial  à época, a maior estamparia em operação no território brasileiro. Tal movimento refletia não apenas a visão estratégica da diretoria, mas também o espírito inventivo de técnicos e operários brasileiros, que, com recursos limitados, assumiam a missão de industrializar e fortalecer o setor automotivo nacional. A guinada definitiva viria em 1956, com a criação do programa federal Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA) pelo governo brasileiro. O objetivo era claro: estimular a formação de um parque industrial automotivo robusto, integrado e nacional, por meio de incentivos fiscais e benefícios a fabricantes que se estabelecessem no Brasil. Motivada por essa iniciativa  e reconhecendo a posição estratégica do Brasil no desenvolvimento do transporte motorizado de um país continental  a Scania-Vabis decidiria implantar sua primeira unidade fabril fora da Suécia, elegendo o Brasil como destino. Para que essa operação fosse viável, firmou parceria societária com a Vemag Veículos e Máquinas Agrícolas S.A., que assumiu participação acionária relevante e providenciaria a estrutura produtiva local. Dessa cooperação nasceu a empresa Scania‑Vabis do Brasil S.A. – Motores Diesel, dedicada à produção de motores a diesel, enquanto a Vemag S/A  ficaria encarregada do fornecimento de componentes periféricos, montagem das viaturas, distribuição nacional e assistência técnica. Essa união foi histórica não apenas por representar a autonomia industrial de um fabricante estrangeiro em território brasileiro, mas principalmente porque consolidou uma participação colaborativa genuína da engenharia, da indústria e do capital humano brasileiro no nascimento da Scania no país.
Em abril de 1958, o caminhão Scania L‑71  o primeiro modelo a sair de uma linha de montagem Scania em solo não sueco  chegou ao mercado com expressivo índice de nacionalização de 65%. O lançamento destacava não apenas a qualidade construtiva da engenharia sueca, mas também a capacidade industrial brasileira, desenvolvida com esforço e participação de projetistas, técnicos, estampeiros e montadores nacionais. No início de sua atuação industrial no Brasil, os primeiros caminhões produzidos mantiveram estreita ligação estética e técnica com os modelos importados, refletindo um processo natural de transferência de tecnologia e design. Ainda assim, com a crescente maturidade da indústria nacional e o aprendizado acumulado pelas equipes brasileiras, rapidamente se tornaria evidente a necessidade de adaptar os veículos às exigências de um país de dimensões continentais e infraestrutura viária em expansão. Esse movimento culminou, ao final de 1958, em uma atualização relevante que consolidaria o novo padrão do caminhão Scania L‑75. O modelo recebeu uma nova grade frontal, capô e para-lamas redesenhados, conferindo-lhe uma identidade estética mais moderna e funcional. Sob o ponto de vista mecânico, incorporou o avançado motor de injeção direta, com 10.260 cm³, capaz de produzir 165 hp e torque de 63 m.kgf o mais elevado registrado entre os caminhões fabricados no país naquele período. Mantendo as duas configurações de entre-eixos, sua capacidade de carga foi estendida a 9,9 toneladas, avanço expressivo para o padrão industrial brasileiro da época. A nova viatura ainda dispunha de transmissão de cinco marchas com caixa reduzida, com a primeira marcha não sincronizada, eixo traseiro de dupla redução, freios pneumáticos e rodas raiadas. Outro diferencial de grande impacto operacional foi a adoção do sistema de bloqueio pneumático do diferencial, tecnologia até então incomum no setor nacional, que reforçava a aptidão do caminhão para terrenos irregulares e estradas de baixa qualidade. A cabine, entretanto, foi mantida sem alterações substanciais, preservando o desenho estrutural e a ergonomia já consolidados entre os operadores. Em maio de 1959, a Scania ampliaria seu parque industrial com a inauguração de uma nova planta de motores na cidade de São Paulo, agora com blocos fundidos localmente pela Cofap S.A., o que elevou o índice de nacionalização desses propulsores para 63%, apesar da continuidade da importação de componentes críticos, como virabrequim e eixo de comando de válvulas. Esse avanço simbolizava um processo gradual, porém sólido, de autonomia produtiva, apoiado diretamente pelo capital humano técnico brasileiro. O crescente reconhecimento da marca no país, associado ao desempenho superior dos veículos frente aos concorrentes diretos, expôs também os limites de produção da parceira industrial original, a Vemag S.A.  cujas instalações, embora modernas, já operavam próximas ao teto de sua capacidade. Assim, em 1960, a Scania-Vabis optaria por assumir integralmente sua produção no Brasil, reestruturando sua razão social para Scania-Vabis do Brasil S.A. Veículos e Motores, mantendo a Vemag, por tempo breve, com participação minoritária na nova composição societária. Quase simultaneamente, no início de 1959, a Scania avançaria sobre um novo e promissor segmento industrial com o lançamento do chassi de ônibus Scania B‑75.

Embora dotado de arquitetura dianteira, suspensão por feixe de molas e ampla unificação mecânica com o caminhão L-75 (excetuando-se a duplicidade de reduções no conjunto de transmissão e diferencial), o chassi representava notável inovação ao introduzir um desenho estrutural mais baixo e silencioso, concebido especialmente para o transporte de passageiros. O resultado era um patamar inédito de conforto, estabilidade e redução de ruído no transporte rodoviário intermunicipal brasileiro  avanço percebido imediatamente pelos operadores do setor.Essa receptividade alcançaria projeção histórica quando, a partir de 1961, a tradicional transportadora rodoviária de passageiros Viação Cometa S.A. iniciou a substituição de sua frota de ônibus importados General Motors Coach pelos novos chassis Scania B-75. Ao longo das décadas seguintes, a empresa brasileira acumularia mais de quatro mil veículos da marca, consolidando-se como a maior frotista mundial de caminhões e ônibus Scania até 1994, e reafirmando não apenas a confiança na engenharia sueca, mas sobretudo na capacidade industrial e no trabalho técnico brasileiro que viabilizaram essa jornada. Em 1960, impulsionada pelas metas de nacionalização impostas pelo governo brasileiro e pela necessidade de ampliar sua capacidade produtiva, a Scania tomou a decisão estratégica de construir sua própria fábrica em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo. Com isso, assumiu integralmente a produção e comercialização de seus veículos, encerrando a parceria com a Vemag S/A. Inaugurada oficialmente em 8 de dezembro de 1962, essa unidade tornou-se a primeira planta completa da Scania fora do continente europeu, representando um marco histórico para a empresa e consolidando sua presença no mercado brasileiro. Em dezembro de 1962, toda a linha de produção da Scania-Vabis do Brasil S.A. foi transferida para as modernas e amplas instalações de São Bernardo do Campo. Nesse período, o índice de nacionalização dos veículos já alcançava impressionantes 92% em peso, embora as cabines continuassem a ser estampadas e montadas pela Vemag. No final de 1963, os modelos de caminhões e ônibus, agora denominados L-76 e B-76, receberam atualizações significativas, incluindo uma nova caixa de marchas e melhorias em desempenho, com torque elevado para 76 m.kgf e potência de 195 cavalos. Esteticamente, os veículos permaneceram inalterados. Nos anos subsequentes, a Scania continuou a aprimorar seus caminhões, introduzindo novas versões e inovações técnicas. Em 1964, duas variantes com três eixos foram incorporadas à linha: o modelo LS, equipado com um terceiro eixo de apoio, e o LT, com configuração 6×4. Em 1965, a empresa introduziu um filtro de ar centrífugo de maior capacidade, montado externamente, além de um novo câmbio sincronizado de cinco marchas com redutor, acionado pneumaticamente por um botão na alavanca de mudanças. No ano seguinte, em 1966, a direção hidráulica passou a ser oferecida como item de série nos chassis de ônibus e como opcional nos caminhões, enquanto os ônibus receberam um duplo circuito de freios, elevando os padrões de segurança. Ainda em 1966, durante o V Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, a Scania apresentou uma nova cabine, disponível nas versões normal e leito. Mais ampla e com design de linhas retas, a cabine contava com para-brisa, portas e janelas maiores, vigias nas colunas traseiras e retrovisores externos ampliados. A grade, o capô e os para-lamas mantiveram o desenho original. Internamente, o painel de instrumentos foi redesenhado, incorporando um conta-giros e estofamento na parte superior, enquanto o isolamento termoacústico foi aprimorado.
Uma prática caixa de ferramentas foi adicionada sob o banco do passageiro, reforçando a funcionalidade. Paralelamente, o índice de nacionalização dos veículos continuou a crescer, atingindo 95% com o início da usinagem local de virabrequins e eixos de comando de válvulas. Nesse ponto, a caixa de marchas, ainda importada da matriz sueca, permanecia como o principal componente não nacionalizado. No VI Salão Internacional do Automóvel de São Paulo, realizando no ano 1968, seria lançado o caminhão L-110 (também nas versões LS e LT), também conhecido como L-110 Super, foi um caminhão pesado produzido pela Scania-Vabis entre 1968 e 1974, pertencente à série "0" da marca, que marcou a transição para um novo sistema de nomenclatura baseado no deslocamento do motor (11 litros) e na geração do veículo. Fabricado no Brasil, em São Bernardo do Campo, o L-110 foi um marco na história da Scania no país, sendo amplamente utilizado em operações de transporte rodoviário e reconhecido por sua robustez e inovação para a época. Apresentava  o Motor diesel de 6 cilindros em linha, com 11.000 cm³ (11 litros) com 203 cv (cavalos) a 2.200 rpm (versão naturalmente aspirada) ou 256 cv com turboalimentação (L-110 Super). O motor utilizava injeção direta e, a partir de 1961, a Scania ofereceu a opção de turbo-diesel, elevando significativamente o desempenho. Estava disponível em três opções de entre eixos : LB-110: Versão 4x2 (tração simples, duas rodas traseiras). LBS-110: Versão 6x2 com eixo de apoio (tração simples, eixo traseiro adicional elevável).  LT-110: Versão 6x4 com tração tandem (duas rodas traseiras motrizes). Apresentaria ainda chassi: reforçado, projetado para operações pesadas, com opções de diferentes alturas e configurações modulares e suspensão dianteira e traseira com feixes de molas (suspensão a ar não era padrão na época). No final de 1969, por razões estratégicas de posicionamento no mercado global, a matriz sueca optou por simplificar a identidade da marca, reduzindo o nome Scania-Vabis para simplesmente Scania, uma mudança adotada em escala mundial. No ano seguinte, a empresa uniu forças com a Saab AB, renomada fabricante sueca de automóveis e aeronaves, formando a Saab-Scania AB. No Brasil, a subsidiária passou a ser conhecida como Saab-Scania do Brasil S.A. – Veículos e Motores. Essa parceria, que fortaleceu a sinergia entre as empresas, perdurou até 1995, quando foi desfeita. Esse período marcou uma fase de notável crescimento para a operação brasileira da Scania. A subsidiária expandiu sua presença tanto no mercado interno quanto no externo, alcançando a notável façanha de exportar blocos de motor e bombas de óleo para a própria matriz sueca. Em 1971, a produção atingiu a marca de 1.115 veículos, superando pela primeira vez de forma consistente o patamar de mil unidades – feito que, até então, só havia sido alcançado em 1963 e 1966. A trajetória ascendente continuou, com um crescimento expressivo de 36,8% na produção em 1972. Em 1976, a fábrica de São Bernardo Oculus atingiu 4.571 unidades produzidas, embora fatores conjunturais do país, como instabilidades econômicas, adiassem a superação da barreira de 5.000 veículos para 1986. Esse cenário de expansão trouxe um marco histórico em 1975, quando a filial brasileira superou, pela primeira vez, as vendas da matriz sueca. Esse feito, inicialmente excepcional, tornou-se cada vez mais frequente nas décadas seguintes, consolidando a operação brasileira como um pilar estratégico para a Scania global. A combinação de inovação, qualidade e adaptação às demandas do mercado brasileiro posicionou a empresa como referência no setor de veículos pesados, com reflexos que ecoam até os dias atuais.

Emprego na Forças Armadas Brasileiras.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Exército Brasileiro experimentou um salto expressivo em sua capacidade de mobilização e prontidão logística, alavancado pelo recebimento de caminhões militares cedidos pelos Estados Unidos no âmbito do programa Lend-Lease Act. Essas viaturas tornaram-se fundamentais para o transporte de tropas, equipamentos e suprimentos, contribuindo de maneira decisiva para a modernização operacional da Força Terrestre naquele período. Entretanto, ao final da década de 1950, essa mesma frota passou a enfrentar obstáculos crescentes que comprometiam sua disponibilidade. O desgaste natural decorrente do uso intensivo tanto durante o conflito quanto nos anos subsequentes — somou-se à dificuldade logística de manter modelos que já haviam sido gradualmente retirados das linhas de produção e suporte industrial nos Estados Unidos. Exemplares amplamente utilizados à época, como o GMC CCKW e o Studebaker US6G, encontravam-se descontinuados havia mais de uma década, o que resultava em um fluxo cada vez mais escasso e oneroso de peças de reposição. Diante dessa conjuntura, o comando do Exército reconheceu a necessidade urgente de reestruturar sua logística automotiva, a fim de preservar um nível confiável de prontidão. Nesse contexto, foram avaliadas alternativas para ampliar a sobrevida da frota existente, incluindo estudos sobre a repotencialização dos caminhões 6x6 e 6x4 em serviço. Após análises técnicas pormenorizadas, concluiu-se que a modernização generalizada desses modelos não alcançaria a relação custo-benefício desejada, sobretudo em razão da obsolescência de componentes críticos, da carência de suporte industrial continuado e do elevado investimento exigido por um processo de revitalização em larga escala. Diante dessas restrições, consolidou-se como diretriz estratégica a ampliação do emprego de caminhões comerciais adaptados ao uso militar. Essa solução permitia priorizar as viaturas de tração integral remanescentes, de maior aptidão fora de estrada, para missões táticas e deslocamentos em regiões sem pavimentação, enquanto os veículos comercialmente militarizados poderiam assumir  com menor custo  funções de apoio secundário, como o transporte de cargas gerais em rodovias e áreas com infraestrutura minimamente consolidada. Essa prática, aliás, já possuía precedentes doutrinários no país desde a década de 1930, quando veículos civis de menor porte começaram a ser incorporados em missões auxiliares, reforçando a capacidade logística com soluções economicamente sustentáveis. Para atender à demanda por caminhões médios de emprego geral, o Ministério do Exército direcionou suas aquisições ao mercado nacional, elegendo como parceiro industrial a Fábrica Nacional de Motores. A empresa, pilar do desenvolvimento automotivo brasileiro no período, tornou-se responsável pelo fornecimento de viaturas comerciais de porte médio, com manutenção acessível e custos compatíveis com a realidade orçamentária vigente. Ainda que a renovação de parte da frota logística brasileira tenha avançado de forma consistente ao final da década de 1960, um desafio estrutural permanecia evidente: a necessidade de dotar o Exército de caminhões pesados com tração 6x6, projetados desde a origem para suportar as exigências de emprego militar em ambientes severos, com elevado desempenho fora de estrada e maior capacidade tática. Esse requisito despertou legítimas dúvidas, no âmbito institucional, sobre a capacidade da indústria nacional em desenvolver um veículo dessa natureza  que, além de tecnologicamente robusto, deveria permanecer financeiramente viável em termos de aquisição e suporte. Esse questionamento começou a ser superado a partir de 1966, com a entrada em serviço dos primeiros caminhões comerciais amplamente militarizados produzidos pela Mercedes-Benz do Brasil. 

Um marco representativo dessa evolução foi o lançamento dos modelos táticos Mercedes‑Benz L‑1114, que introduziram reforços estruturais relevantes no chassi e na cabine, além de para-choques reforçados, gancho hidráulico de reboque e carroceria desenvolvida para o emprego em operações de carga geral. Essa solução, embora ainda de configuração 4x4, demonstrava, de forma inequívoca, que o Brasil havia iniciado a transição de um ciclo de dependência logística para um processo gradual  e bem-sucedido  de autonomia técnico-industrial no segmento de viaturas militares, combinando inovação nacional, resiliência operacional e sensibilidade às limitações orçamentárias do período. O êxito operacional dos primeiros caminhões militarizados dotados de tração integral, especialmente em terrenos severos e condições fora de estrada, evidenciou a capacidade real da indústria brasileira em conceber soluções robustas, adaptadas às exigências de um teatro operacional moderno. Na década de 1970, a paulista Engesa S/A consolidava-se como uma das mais respeitadas empresas do setor automotivo nacional, reconhecida por sua especialização no desenvolvimento de suspensões reforçadas e sistemas de tração integral (4x4 e 6x6), voltados ao uso em ambientes não pavimentados e operações de alta mobilidade. Esse capital técnico e industrial despertou o interesse estratégico do Exército Brasileiro, que passou a enxergar na empresa um potencial parceiro capaz de contribuir para a evolução da mobilidade militar no País, particularmente em uma fase marcada pela crescente demanda por vetores logísticos pesados e de perfil genuinamente militar. Nesse contexto, o então Ministério do Exército lançou, no final de 1970, uma consulta formal às principais montadoras nacionais, com o propósito de avaliar a viabilidade do desenvolvimento de um caminhão pesado especificamente projetado para emprego militar, equipado com tração 6x6 e apto a operar com eficácia em terrenos irregulares, solos de baixa aderência e regiões de difícil acesso. Apenas duas corporações responderam à chamada: a Mercedes-Benz do Brasil e a Saab‑Scania do Brasil S.A., ambas já detentoras de experiência prévia no segmento de veículos pesados e soluções militarizadas. Em maio de 1971, a equipe de engenharia da Saab-Scania apresentou ao Exército um protótipo militarizado baseado no Scania LT-110 6x6, incorporando o avançado sistema de tração total e a notável suspensão Boomerang  ambos desenvolvidos pela Engesa. O veículo possuía eixo dianteiro totalmente tracionado e um conjunto traseiro do tipo bogie (MG-HD4/12 G-10), com diferenciais bloqueáveis nos eixos de dupla redução, além de carroceria militar projetada para suportar cargas elevadas e aplicações táticas específicas. Após eventual aprovação, sua missão primária seria o tracionamento de peças de artilharia de grande porte, incluindo o obuseiro norte-americano M‑114 155 mm e o britânico Vickers 152,4 mm. De forma complementar, estaria destinado ao transporte de cargas pesadas e ao apoio logístico especializado, com ênfase nas operações conduzidas pelos Batalhões de Engenharia de Construção (BEC). Em parceria direta com a Engesa, a Saab-Scania produziu dois protótipos completos, posteriormente submetidos a uma exigente campanha de ensaios de campo no final de 1971. Durante esse período, os veículos foram avaliados comparativamente com as soluções apresentadas pela Mercedes-Benz, notadamente os protótipos MB LG-1519 6x6 e MB LG-1819 6x6. Embora o desempenho do modelo Scania tenha sido amplamente reconhecido pelo rigor técnico de sua concepção, a concorrência foi vencida pelos caminhões da Mercedes-Benz, que foram declarados os mais aderentes às necessidades doutrinárias e operacionais. 
Ainda assim, o revés não arrefeceu a determinação institucional da Saab-Scania em fortalecer sua presença no setor militar nacional. Essa ambição foi reiterada ainda em 1971, com o lançamento do chassi Scania B-110, o primeiro da marca a adotar suspensão pneumática em sua arquitetura estrutural um marco relevante para o transporte pesado de passageiros e cargas no Brasil. A introdução do modelo B-110 confirmou o compromisso da Scania com a vanguarda tecnológica, agregando mais potência, dirigibilidade superior, conforto operacional e notável resiliência mecânica, atributos que a posicionaram como uma referência incontornável no segmento de veículos pesados de alta mobilidade no País. Naquele momento, o Exército Brasileiro enfrentava a necessidade de renovar e ampliar sua frota de caminhões do tipo cavalo mecânico, classificados pela Força Terrestre como Trator sob Rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral (VTTNE). A frota existente era composta por um número limitado de veículos norte-americanos, como os Diamond T-980, Corbitt-White G-512 modelo 50SD6 e Pacific M-26/M-25 Dragon Wagon (este último retirado de serviço em 1970), além de modelos nacionais produzidos pela Fábrica Nacional de Motores (FNM), como o FNM D-11000. A expansão da frota visava atender à crescente demanda dos Regimentos de Carros de Combate (RCC) e Batalhões de Infantaria Blindada (BiB), que necessitavam de veículos robustos para o transporte rodoviário de longa distância dos blindados, VBTP M-113 e carros de combate  M-3 Stuart e M-41 Walker Bulldog, amplamente utilizados pelo Exército Brasileiro. Nesse contexto, a Saab-Scania do Brasil apresentou um protótipo militarizado do cavalo mecânico Scania Engesa 110 Super 6x6, com capacidade para 17 toneladas. O veículo incorporava o avançado sistema de suspensão tipo Boomerang desenvolvido pela Engesa S/A, garantindo maior desempenho em operações fora de estrada. Como diferencial, o protótipo incluía um guincho hidráulico posicionado atrás da cabine, inspirado nos caminhões militares norte-americanos Pacific M-26 e M-25 Dragon Wagon. Esse sistema era complementado por correntes, cabos de reboque, polias hidráulicas de 10 e 20 toneladas e outros acessórios projetados para a recuperação de veículos blindados leves e médios em campo. O protótipo foi submetido a testes pelo Exército Brasileiro, recebendo elogios de oficiais pela sua versatilidade e desempenho. No entanto, a customização para uso complementar como veículo de socorro fora de estrada elevava significativamente os custos de produção, tornando-o inviável para aquisição em larga escala. Diante disso, a proposta foi descartada, e a demanda do Exército voltou a se concentrar na aquisição de um cavalo mecânico voltado exclusivamente para transporte rodoviário, priorizando eficiência e viabilidade econômica. Em 1972, o Exército Brasileiro deu inicio a  sua parceria com a Saab-Scania do Brasil S.A. ao adquirir os primeiros sessenta caminhões "cavalo mecânico"  Scania 110 Super 6x6. Estavam equipados com um motor a diesel, 6 cilindros em linha, com 11.000 cm³, apresentando uma potencia de até 256 cv a 2.200 rpm (turboalimentado) com um torque aproximadamente  de 96 m.kgf (708 lb.ft.) a 1.500 rpm. Possuia uma caixa de transmissão sincronizada, com 5 marchas e redutor (10 velocidades com splitter opcional), acionada pneumaticamente para maior facilidade de uso. Sua tração integral 6x6, com eixo dianteiro tracionado e transmissão traseira tipo “bogie” (MG-HD4/12 G-10), equipada com diferenciais bloqueáveis para operações fora de estrada. 

Seu chassi era reforçado e foi projetado para suportar cargas pesadas e operações exigentes, com configuração modular para atender às necessidades militares. Sua suspensão pneumática tipo Boomerang, foi desenvolvida em parceria com a Engesa S/A, garantindo maior estabilidade e capacidade de operação em terrenos irregulares. Desta maneira tinha capacidade de até 17 toneladas, com possibilidade de tracionar veículos blindados de até 20 toneladas em operações rodoviárias. Complementando o pacote de militarização receberiam para-choques reforçados para maior resistência em condições adversas,  guincho Hidráulico: Instalado atrás da cabine, com capacidade de tração de até 20 toneladas, inspirado nos caminhões militares norte-americanos Pacific M-26/M-25 Dragon Wagon. Incluía correntes, cabos de reboque e polias hidráulicas de 10 e 20 toneladas para recuperação de veículos blindados leves e médios. Imediatamente, os novos caminhões foram destinados aos Regimentos de Carros de Combate (RCC), onde passaram a desempenhar um papel crucial no transporte rodoviário de blindados.  Ainda naquele ano, esses novos Tratores sob Rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral (VTTNE) foram também empregados na mobilização dos recém adquiridos obuseiros autopropulsados M-108, que passaram a integrar os Grupos de Artilharia de Campanha Autopropulsado (GACAp). O desempenho excepcional desses caminhões no Exército Brasileiro incentivou a Saab-Scania do Brasil a buscar novas oportunidades junto às Forças Armadas. Em 1976, a empresa apresentou à Marinha do Brasil uma proposta para fornecer o mesmo modelo Scania 110 Super 6x6 ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), que iniciava a incorporação de seus primeiros veículos blindados, como os nacionais Engesa EE-11 Urutu e EE-9 Cascavel. Contudo, a escolha da Marinha recaiu sobre o cavalo mecânico Mercedes-Benz 1924-42 com tração 4x2, militarizado com a adoção de uma quinta roda, atendendo às suas necessidades específicas. Em 1978, o Ministério do Exército celebrou um novo contrato com a Saab-Scania do Brasil S.A. – Veículos e Motores para a aquisição de mais vinte caminhões Scania 110 Super 6x6. A partir de 1980, esses veículos passaram a tracionar modernos semirreboques militares fabricados pela empresa paulista Biselli Viaturas e Equipamentos Especiais S/A. Construídas inteiramente em aço com piso reforçado, essas pranchas rodoviárias foram projetadas para transportar veículos blindados de até 20 toneladas, como os novos Bernardini X1A e X1A2, ou até dois blindados de transporte de tropas M-113 APC. Essa aquisição representou um marco significativo para o Exército Brasileiro, possibilitando a aposentadoria dos tratores FNM D-11000 da missão de transporte de blindados e fortalecendo a capacidade logística da Força Terrestre com uma frota mais moderna e eficiente. Nos anos subsequentes, a parceria entre o Exército Brasileiro e a Saab-Scania se consolidou por meio de novos contratos, que incorporaram à frota uma ampla gama de modelos militarizados da montadora sueca, todos na configuração de cavalo mecânico. 

Entre esses modelos destacaram-se o Scania 75 (Motor Scania D-10 6 cil 165 cv Diesel) VE Guindaste Villares P&H 425-TC 6x6 1972, VE Guindaste Villares P84 6x6 1974, VE Socorro Pesado de Rodas 6x6 testes 1972) CS Bat. de Eng. e Construção, VTE Cisterna Combustível 35.000L 6x6, VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 17 Ton 6x4 / 6x6 1972, VTTNE Trator s/Rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral carroceria aberta 1975 e VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 30Ton 4X2 1973. Scania 111 “Jacaré” 1971 a 1976 (Motor Scania DS-11 202/274 cv diesel) L-111/38 - VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 30/40 Ton 4x2 1971, VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 30/40 Ton 4x2 1978 Scania 112 (Motor Scania 303/305 cv diesel). T-112H VTNE Furgão Carga Emprego Geral 25 Ton 6x2 1984(recebido por doação/cessão). T-112H/HW 1989 a 1991 VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Hospital de Campanha, VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 35 Ton 4x2 1990/94/95/96 VTNE Furgão Carga Emprego Geral 25 Ton 4x2 1984. Scania 113 (Motor Scania Diesel) L-113/08 VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral Ton 4x2 Semi reboque tanque de combustível 25.0000L óleo diesel EB-30. T-113H VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 35 Ton 4x2 1994/96/97, VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral Ton 4x2 Semi reboque tanque de combustivel 25.0000L diesel CM Bat. de Eng. e Construção -Scania 114 1999 a 2005 (Motor Scania DSC-11-74 turbo 6 cil 322 cv) - Scania 115 (Motor Scania DS-11 202/274 cv Diesel) L- 115/38 VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 40 Ton 6x4 1971 EB-30 . Scania R-124 (Motor Scania Diesel) VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 57 ton 6X2 2004. Scania T-124 GA4X2-NZ360 1998 a 2005 (Motor Scania DSC-12-02 turbo intercooler 6 cil 360 cv diesel VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 66 Ton 4x2 2000/2003.  Scania LK-141 (Motor Scania V8 375 cv diesel) VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral Ton 1996. - Scania 142 T-142HS 1987 a 1989 (motor Scania V8 DSC14 400 cv diesel) VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 30 Ton 4X2. T-142EW 1989 a 1991 (Motor Scania 411 cv) VTTNE Trator s/ rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral 6x4 1987. Scania 340 (Motor Scania Diesel 340 cv diesel) VTE Betoneira 8x8 . Scania DS11R Ap Cl 1 Verolme (Motor Scania DS-11R Diesel) VE Combate a Incêndio 5 ½ Ton 4x4 1976/89. Esses veículos foram amplamente utilizados não apenas no transporte de blindados, mas também em funções logísticas nos Batalhões de Suprimento (BSUP), tracionando carretas frigoríficas e de transporte de cargas, atendendo às demandas operacionais com versatilidade e confiabilidade. Nesse mesmo período, a Força Aérea Brasileira (FAB) também reconheceu a qualidade dos caminhões Scania, adquirindo pelo menos cinco cavalos mecânicos para uso nos Parques de Manutenção da Aeronáutica (PAMA). A partir da década de 1990, a hegemonia da Scania no fornecimento de caminhões do tipo cavalo mecânico para o Exército Brasileiro começou a ser desafiada com a entrada da Volvo do Brasil S/A, especialmente com o modelo NL 12 360. Esses veículos passaram a dividir as tarefas de transporte de blindados e cargas com outros modelos, como os Mercedes-Benz AXOR 3344 e 2644, Ford Cargo 1933 e, de maneira mais expressiva, o Iveco Stralis 410 NR. 

Em Escala.
Para representarmos Trator sob rodas Cavalo Mecânico Emprego Geral (VTTNE) - Scania 110 Super 6x6 17 toneladas empregado pelo Exército Brasileiro, fizemos uso do excelente kit artesanal em metal e plástico injetado, produzido pela Fusaro Trucks na escala 1/43. Para adequarmos o modelo a versão militarmos procedemos a inclusão do sistema de guincho e mecânico e filtro de ar complementar, e completamos o conjunto com uma carreta semi reboque confeccionada em scratch. Fizemos uso de decais produzidos pela Decal & Books, presentes no set especial “Forças Armadas do Brasil 1983 – 2002”.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático camuflado em dois tons, empregado na maioria dos veículos em uso no Exército Brasileiro a partir do ano de 1983. Anteriormente estes veículos ostentavam o padrão anterior da Força Terrestre, totalmente em verde oliva, a exemplo do esquema tático norte-americano utilizado durante Segunda Guerra Mundial. Empregamos tintas e vernizes produzidos pela Tom Colors.

Bibliografia :
- Scania Vabis do Brasil  Lexicar - http://www.lexicarbrasil.com.br/scania/ 
- Veículos Militares Brasileiros – Roberto Pereira de Andrade e José S Fernandes 
- Exército Brasileiro - http://www.exercito.gov.br