CA4F-2 Grumman Widegon J4-F2

Historia e Desenvolvimento.
Leroy Randle Grumman, figura central na história da aviação norte-americana, nasceu em 1895 na cidade de Huntington. Desde cedo, demonstrou forte inclinação para a engenharia e para a aviação, interesses que moldariam uma trajetória marcada por contribuições decisivas ao desenvolvimento da indústria aeronáutica militar. Após concluir sua formação em engenharia mecânica pela Cornell University, em 1916, Grumman direcionou seus esforços para o serviço militar, alistando-se na reserva da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) durante o período da Primeira Guerra Mundial. Seu talento técnico destacou-se rapidamente, sendo reconhecido por seus superiores, que identificaram nele um perfil adequado para funções estratégicas no emergente campo da aviação naval. Com o intuito de aprofundar sua formação, foi encaminhado à Columbia University, onde se especializou em motores aeronáuticos área de grande relevância em uma época de acelerado desenvolvimento tecnológico. Concluída essa etapa, foi designado para a Estação Naval de Miami (NAS), onde recebeu treinamento como piloto e instrutor de voo. Nessa função, passou a atuar na formação de novos cadetes, evidenciando não apenas domínio técnico, mas também habilidades de liderança e ensino. Movido por seu interesse pela operação em combate, Leroy Grumman posteriormente integrou-se às unidades de aviação naval como piloto de bombardeiros. Seu desempenho exemplar nessa função lhe rendeu uma indicação para ingressar no Massachusetts Institute of Technology (MIT) onde cursou engenharia aeronáutica, graduando-se com distinção formação que ampliou de maneira significativa sua base teórica e capacidade analítica. Após sua passagem pelo MIT, Leroy Grumman assumiu o papel de piloto de ensaios, sendo responsável pela avaliação de novas aeronaves destinadas à aviação naval norte-americana. Essa experiência foi fundamental para consolidar sua compreensão integrada entre projeto, desempenho e operação, preparando-o para desafios mais amplos no setor industrial. Em março de 1927, decidiu solicitar sua baixa do serviço ativo na Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), buscando novas oportunidades na iniciativa privada. Pouco depois, ingressou na Loening Aeronautical Engineering Corporation, empresa pioneira no desenvolvimento de aeronaves anfíbias. Nesse ambiente, retomou suas atividades como piloto de testes, concentrando-se especialmente nos modelos anfíbios segmento no qual a empresa possuía reconhecida expertise. Seu desempenho destacado e sua visão técnica rapidamente o conduziram a posições de liderança, sendo promovido inicialmente a gerente de fábrica e, posteriormente, a gerente geral. Nessa função, Leroy Grumman passou a exercer papel direto no desenvolvimento e aperfeiçoamento de projetos aeronáuticos, contribuindo de maneira significativa para o avanço tecnológico da empresa e consolidando as bases que culminariam na sua futura atuação como um dos mais influentes nomes da indústria aeroespacial norte-americana.

Às vésperas da Grande Depressão, em 1929, a Loening Aeronautical Engineering Corporation foi adquirida pela Keystone Aircraft Company. Diante do cenário econômico adverso, a nova administração promoveu uma reestruturação que incluiu o encerramento das operações da planta em Manhattan e sua transferência para Bristol. Relutante em deixar Long Island, onde havia consolidado sua vida pessoal e profissional, Leroy Randle Grumman passou a considerar novos rumos para sua carreira. Movido por espírito empreendedor e confiança em sua experiência acumulada, Grumman tomou uma decisão decisiva: em 6 de dezembro de 1929, ao lado de seus colegas Jake Swirbul e William Schwendler, fundou a Grumman Aeronautical Engineering Company, estabelecida em Baldwin. Nos primeiros anos de atividade, a empresa concentrou-se em serviços de manutenção, reparo e revisão de aeronaves, com especial atenção aos modelos anfíbios anteriormente produzidos pela Loening. O primeiro contrato relevante foi firmado com a Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy), que operava uma considerável frota de aeronaves anfíbias. Esse acordo inicial proporcionou a base financeira necessária para que a jovem empresa ampliasse suas ambições, passando a investir no desenvolvimento de aeronaves próprias, voltadas para transporte, treinamento e, sobretudo, combate  alinhadas às exigências específicas da aviação embarcada. Em resposta às demandas da Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy) por aeronaves mais eficientes e adaptadas ao ambiente naval, Grumman introduziu uma inovação de grande impacto: o sistema de trem de pouso retrátil, patenteado em 1932 (Registro nº 1.859.624). Essa tecnologia foi incorporada ao Grumman FF-1, o primeiro caça desenvolvido pela empresa com recursos próprios. O sucesso dos testes de voo, aliado à inovação técnica do projeto, atraiu a atenção das autoridades navais, resultando no primeiro contrato de produção em escala para a Grumman  um marco que consolidou sua entrada definitiva no seleto grupo de fornecedores estratégicos da Marinha. Esse êxito inicial abriu caminho para uma série de contratos subsequentes, estabelecendo a empresa como uma das principais fornecedoras de aeronaves de combate naval ao longo das décadas seguintes. Nesse processo de consolidação, outra contribuição notável de Grumman foi o desenvolvimento do sistema Sto-Wing, um mecanismo engenhoso de dobramento de asas que permitia otimizar o armazenamento de aeronaves a bordo de porta-aviões, maximizando o aproveitamento do espaço disponível. Essa solução foi implementada de forma pioneira no Grumman F-4F Wildcat, um dos mais importantes caças navais do início da Segunda Guerra Mundial. O Wildcat desempenhou papel crucial nos combates no Teatro do Pacífico, contribuindo significativamente para o esforço de guerra aliado. Seu desempenho operacional, aliado às inovações incorporadas em seu projeto, consolidou a reputação da Grumman como uma das mais influentes e inovadoras empresas da indústria aeronáutica mundial, bem como o legado de Roy Grumman como um dos grandes visionários da aviação do século XX.
Apesar de manter uma relação estreita com os militares, a empresa decidiu, em meados da década de 1930, diversificar parcialmente sua atuação, direcionando esforços ao emergente mercado civil de transporte aéreo. Essa iniciativa foi impulsionada por sinais de recuperação econômica, criando um ambiente mais favorável à aviação comercial e executiva. Nesse contexto, a empresa retomou sua expertise no desenvolvimento de aeronaves anfíbias de pequeno porte, agora voltadas ao uso civil, muitas vezes aproveitando soluções técnicas oriundas de projetos militares previamente concebidos. Foi nesse cenário que a empresa recebeu uma encomenda de um grupo de influentes empresários de Long Island. Esses clientes demandavam uma aeronave anfíbia executiva com alcance e autonomia suficientes para realizar ligações regulares entre Long Island e a cidade de Nova York. Atendendo a essa solicitação  e vislumbrando um nicho de mercado promissor  foi dado início ao desenvolvimento de um projeto que resultaria no  G-21 Goose, concebido como uma aeronave anfíbia de luxo voltada ao transporte executivo. O protótipo realizou seu primeiro voo em 29 de maio de 1937, apresentando uma configuração monoplana de asa alta e construção predominantemente metálica. Exceções a essa estrutura incluíam a porção traseira das asas, bem como superfícies de controle e flaps, que eram revestidos em tecido .  Equipada com dois motores radiais Pratt & Whitney R-985 Wasp Junior, de nove cilindros, cada um com potência de 450 hp (340 kW), instalados nas bordas de ataque das asas. Sua fuselagem, de grande profundidade, desempenhava função estrutural e hidrodinâmica como casco, enquanto o trem de pouso retrátil, acionado manualmente, conferia versatilidade operacional tanto em terra quanto na água. Após sua introdução no mercado norte-americano, o G-21 obteve rápida aceitação comercial. Seu sucesso foi impulsionado não apenas por suas qualidades técnicas, mas também por uma estratégia de marketing eficaz, que o posicionava como um verdadeiro “iate voador”, destinado a um público de alto poder aquisitivo. As primeiras versões de produção eram configuradas para transportar dois a três passageiros, oferecendo comodidades como bar e lavatório, sendo adquiridas por corporações e milionários. Paralelamente, o modelo também encontrou espaço no segmento de táxi aéreo. Nessa configuração, o interior era simplificado, tornando a aeronave mais acessível e economicamente viável. Essa adaptação ampliou significativamente o alcance do G-21 no mercado, contribuindo para sua popularização e consolidando sua reputação como uma aeronave versátil e confiável. O êxito comercial do modelo não passou despercebido pelo setor militar. Em particular, o comando da Guarda Costeira dos Estados Unidos (USCG) demonstrou interesse na aeronave, iniciando consultas acerca da viabilidade de uma versão militarizada. Esse movimento marcaria o início de uma nova fase na trajetória do G-21, ampliando ainda mais seu espectro de emprego e reforçando a capacidade da Grumman de transitar com sucesso entre os mercados civil e militar.

Em resposta ao interesse militar, a empresa apresentou a proposta do G-21B Goose, cuja principal distinção em relação à versão civil residia na possibilidade de emprego armado. O modelo podia ser equipado com uma metralhadora Browning .30 instalada em uma posição dorsal traseira, além de transportar até duas bombas de 45 kg. O protótipo dessa variante foi submetido a avaliações entre abril e maio de 1938, culminando na assinatura de um contrato para a aquisição de trinta unidades. O êxito inicial também abriu caminho para o mercado internacional. A primeira venda de exportação da empresa foi concretizada com o fornecimento de duas aeronaves à Aviação Naval Portuguesa. Em seguida, um novo contrato foi firmado com a Força Aérea Real Canadense (RCAF), que adquiriu 20 unidades, ampliando a presença internacional do modelo. O desempenho do G-21B junto à Guarda Costeira dos Estados Unidos (USCG) motivou o Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) a incorporar o modelo em suas fileiras. No início de 1939, foram encomendadas 10 aeronaves destinadas a missões de transporte e ligação, designadas como OA-9. Posteriormente, já no contexto da Segunda Guerra Mundial, mais sessenta unidades da variante Grumman OA-13A foram incorporadas ao serviço, evidenciando a crescente importância desse tipo de aeronave para operações utilitárias e de apoio. Paralelamente, visando atender à demanda por aeronaves mais simples, econômicas e de produção rápida, a Grumman iniciou, em 1939, estudos para o desenvolvimento de um modelo de menor porte. Esse esforço resultou no G-44 Widgeon, cujo protótipo realizou seu primeiro voo em 22 de julho de 1940. O Widgeon era equipado com dois motores Ranger L-440-5, de aproximadamente 200 hp cada, apresentando custos de aquisição e operação significativamente inferiores aos do G-21, equipado com motores Pratt & Whitney R-985 Wasp Junior. Embora menor e menos potente, o novo modelo mantinha capacidade militar, podendo ser armado com uma metralhadora Browning calibre .30 e transportar até duas bombas ou cargas de profundidade de 50 kg sob as asas. Apesar de seu desempenho inferior em comparação, o baixo custo e a simplicidade operacional permitiram sua ampla disseminação, aumentando significativamente o número de aeronaves disponíveis para missões de patrulha costeira. Essa característica foi particularmente valiosa em um contexto de guerra, permitindo ampliar a cobertura de vigilância marítima e liberar aeronaves maiores para operações de maior alcance em alto-mar. Mais uma vez, a Guarda Costeira dos Estados Unidos (USCG) foi a primeira a adotar o modelo, encomendando 25 unidades do  J4F-1. Essas aeronaves foram destinadas a missões de patrulha marítima, guerra antissubmarino (ASW) e busca e salvamento (SAR), refletindo a versatilidade do projeto. As primeiras entregas ocorreram em meados de 1941, coincidindo com a intensificação da ameaça representada pelos submarinos alemães e italianos que operavam próximos ao litoral dos Estados Unidos. Com o Atlântico assumindo papel central como teatro de operações, o Widgeon passou a desempenhar funções essenciais na vigilância costeira, contribuindo de forma significativa para a defesa do território e para a proteção das rotas marítimas.
Um marco significativo na trajetória operacional do J4F-1 Widgeon ocorreu em 1º de agosto de 1942, quando uma aeronave do Esquadrão de Patrulha 212 da Guarda Costeira dos Estados Unidos (USCG), baseada em Houma, sob o comando do Capitão Henry White, localizou e atacou o submarino alemão U-166. O ataque resultou no afundamento da embarcação, feito que rendeu ao piloto a prestigiosa Distinguished Flying Cross, evidenciando a eficácia do Widgeon em operações de guerra antissubmarino. Paralelamente, o modelo também foi incorporado ao esforço de guerra por meio da Civil Air Patrol, organização composta por pilotos civis voluntários que atuavam em apoio às forças armadas durante a Segunda Guerra Mundial. Pelo menos dez aeronaves J4F-1 foram operadas pela CAP em missões de patrulha costeira, vigilância e transporte de correspondência. Um episódio particularmente notável ocorreu em 11 de julho de 1942, quando um  G-44 Widgeon, armado com cargas de profundidade e tripulado pelo Capitão Johnny Haggins e pelo Major Wynant Farr, localizou e atacou um submarino alemão, resultando em seu afundamento. Esse evento destacou a capacidade do Widgeon de operar com eficácia em cenários de combate, apesar de suas dimensões compactas. A Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) também adotou o modelo, introduzindo a variante Grumman J4F-2 Widgeon, que se distinguia por modificações estruturais, como a ausência da escotilha de observação frontal. Essas aeronaves foram amplamente empregadas em missões de patrulha marítima e busca e salvamento, reforçando a capacidade da Marinha em proteger rotas estratégicas. Sob os termos do Lend-Lease Act, o Widgeon também foi fornecido a nações aliadas. Destaca-se a incorporação pela Marinha Real (Royal Navy), que designou a aeronave como “Gosling”. Nessas forças, o modelo desempenhou funções relevantes em missões de patrulha e salvamento no Atlântico e em outros teatros operacionais. Com o término da guerra em 1945, a empresa voltou-se novamente ao mercado civil, buscando capitalizar o sucesso do Widgeon. Uma versão aprimorada foi desenvolvida, incorporando melhorias no casco visando maior eficiência hidrodinâmica  e um interior mais confortável, adequado ao transporte executivo e ao segmento de táxi aéreo. Entre 1945 e 1949, foram produzidas 76 unidades dessa versão modernizada, com a última entrega registrada em janeiro de 1949. Adicionalmente, a empresa Société Aéro-Navale produziu, sob licença, mais 43 células na França, ampliando a presença internacional do modelo no pós-guerra. No âmbito militar, as aeronaves remanescentes do Widgeon foram gradualmente retiradas de serviço ativo nos Estados Unidos ao final da década de 1940. Muitas dessas unidades foram posteriormente transferidas para países aliados, incluindo Cuba, Israel, Portugal, Uruguai, Nova Zelândia e Noruega, assegurando a continuidade operacional do modelo em diferentes contextos geográficos e estratégicos para nações aliadas, incluindo Cuba, Israel, Portugal, Uruguai, Nova Zelândia e Noruega.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No limiar da Segunda Guerra Mundial, o avanço das potências do Eixo notadamente a Alemanha Nazista, a Itália Fascista e o Japão Imperial suscitou crescente inquietação por parte do governo dos Estados Unidos quanto à segurança do continente americano. Tal apreensão intensificou-se de maneira decisiva após a Batalha da França, culminando na capitulação francesa em junho de 1940. Esse desfecho abriu a possibilidade concreta de a Alemanha estabelecer bases operacionais em territórios franceses de elevado valor estratégico, como Ilhas Canárias e Dacar, na costa ocidental africana, potencialmente utilizáveis como plataformas para operações militares direcionadas ao Hemisfério Ocidental. Nesse contexto de incerteza geopolítica, o Brasil passou a ocupar posição de destaque nas concepções defensivas aliadas, em virtude de sua singular projeção geográfica. Situado no extremo oriental da América do Sul, o território brasileiro  particularmente sua faixa nordestina  configurava o ponto de menor distância entre os continentes americano e africano. Cidades como Recife assumiram, assim, papel central como elo natural entre ambas as margens do Atlântico. Essa proximidade, se por um lado expunha o país a eventuais ameaças oriundas de uma expansão do Eixo a partir da África, por outro o convertia em ativo estratégico de primeira ordem para os Aliados. A hipótese de utilização da costa africana como base de projeção ofensiva alemã era reforçada pelos desígnios expansionistas do regime nazista, particularmente no norte da África. Paralelamente, a ascensão do Japão Imperial no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul  acompanhada da conquista de áreas ricas em recursos naturais  elevou a importância do Brasil como fornecedor de matérias-primas essenciais ao esforço de guerra aliado. Dentre estas, destacava-se o látex, insumo indispensável à produção de borracha, amplamente empregada na fabricação de pneus, componentes aeronáuticos e diversos equipamentos militares. Ademais, o litoral brasileiro, especialmente na região Nordeste, apresentava condições excepcionalmente favoráveis à instalação de bases aéreas e portos militares. Tais infraestruturas revelaram-se fundamentais para o apoio logístico às operações aliadas, viabilizando o trânsito de tropas, suprimentos e aeronaves com destino aos teatros de operações na Europa e no norte da África. Nesse arranjo estratégico, Recife consolidou-se como um dos principais centros de articulação do esforço de guerra no Atlântico Sul, desempenhando a função de verdadeira ponte transatlântica. Diante desse cenário, intensificou-se a aproximação política, econômica e militar entre o Brasil e os Estados Unidos, culminando na celebração de acordos estratégicos de grande relevância. Entre estes, destacou-se a adesão brasileira ao Lend-Lease Act Bill (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), promulgado pelo congresso norte-americano em 1941, cujo propósito central consistia no fortalecimento das capacidades militares das nações aliadas por meio do fornecimento de equipamentos, munição, armas, insumos e apoio logístico, contribuindo decisivamente para a modernização das forças armadas brasileiras no contexto do conflito global. A intensificação das operações de guerra submarina no Atlântico Sul, conduzidas por unidades navais da Alemanha Nazista e da Itália Fascista, impôs a necessidade de uma resposta articulada e eficaz por parte dos Aliados. 

Nesse contexto, a Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) passou a estruturar uma rede de bases operacionais ao longo do litoral do Brasil, com especial ênfase na região Nordeste. A partir dessas instalações, esquadrões de patrulha marítima deram início a operações sistemáticas de vigilância, escolta de comboios e combate aos submarinos inimigos , principalmente os  alemães chamados U-boats que, a partir de 1942, intensificaram significativamente suas ações contra a navegação mercante no Atlântico Sul. Esses ataques tiveram impacto direto sobre o comércio exterior brasileiro, cuja relevância estratégica residia no fornecimento contínuo de matérias-primas essenciais à indústria de guerra dos Estados Unidos. Diante dessa ameaça, a cooperação bilateral aprofundou-se, refletindo-se não apenas na presença militar norte-americana em território brasileiro, mas também na ampliação do apoio material por meio do Lend-Lease Act. No caso brasileiro, esse acordo assegurou inicialmente uma linha de crédito da ordem de US$ 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de equipamentos modernos, incluindo aeronaves, veículos blindados e carros de combate, contribuindo de forma decisiva para o fortalecimento das capacidades defensivas nacionais. Paralelamente, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB)  instituída em 1941  passou a integrar de maneira progressiva esse esforço de guerra, realizando suas primeiras missões de patrulha e combate antissubmarino. Os primeiros engajamentos contra unidades submarinas do Eixo no Atlântico Sul envolveram, assim, não apenas forças norte-americanas, mas também efetivos brasileiros, evidenciando o caráter cooperativo das operações aliadas na região. Nesse cenário operacional, tornou-se evidente a necessidade de dispor de aeronaves adequadas para missões de busca e salvamento (SAR), especialmente voltadas ao resgate de tripulações abatidas e náufragos oriundos de embarcações torpedeadas. Todavia, o inventário da Força Aérea Brasileira (FAB) ainda era composto, em grande medida, por aeronaves anfíbias oriundas das décadas de 1920 e 1930, já obsoletas para operações em mar aberto. Embora o país tivesse recebido, no âmbito da cooperação com os Estados Unidos, aeronaves do tipo Consolidated PBY-5 e PBY-5A Catalina, estas foram prioritariamente alocadas a missões de patrulha marítima e escolta de comboios, em virtude de sua elevada autonomia e capacidade operacional. Diante dessa lacuna, o Ministério da Aeronáutica (MAer) formalizou junto ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos a solicitação de aeronaves especificamente destinadas a tarefas de busca e salvamento. Em resposta, e sob os termos do Lend-Lease Act, o governo norte-americano autorizou a transferência imediata de 14 aeronaves novas do tipo Grumman J4F-2 Widgeon, originalmente destinadas à aviação naval da Marinha dos Estados Unidos. Essa medida representou um passo significativo no aprimoramento da capacidade brasileira de conduzir operações de resgate no ambiente marítimo, complementando o esforço aliado de proteção das rotas estratégicas no Atlântico Sul.
As aeronaves em questão, de concepção anfíbia e dimensões relativamente compactas, revelaram-se particularmente adequadas às exigências operacionais do litoral brasileiro, sobretudo em missões de busca e salvamento e em operações costeiras de menor envergadura. Nesse sentido, complementavam de forma eficaz as capacidades dos PBY-5 Catalina, empregados em missões de maior alcance. O processo de translado dessas aeronaves para o Brasil teve início no segundo semestre de 1942, sendo realizado de maneira gradual, em pares, por tripulações norte-americanas. As duas últimas foram recebidas em 17 de fevereiro de 1943, na Base Aérea do Galeão. Em serviço, a aeronave recebeu a designação UCF-4F2, sendo matriculadas de FAB 2001 a 2014, com marcações visuais distintivas no nariz e na cauda, identificadas como “FAB 1” a “FAB 14”. Inicialmente concentradas no Galeão, suas tripulações pertencentes a  2ª Esquadrilha de Adestramento Militar (2ª EAM) foram treinadas por por instrutores norte-americanos.Posteriormente, no contexto de reorganização estrutural da Força Aérea Brasileira, a 2ª EAM foi transformada no 2º Grupo da Unidade Volante, passando a operar parte da frota de aeronaves UCF-4F2 Widgeon. As demais unidades foram distribuídas estrategicamente entre a Base Aérea de Belém, a Base Aérea de Florianópolis, a Base Aérea de Santa Cruz e a Seção de Aviões de Comando, também sediada no Rio de Janeiro. Essa dispersão refletia a necessidade de cobertura operacional ao longo de extensas áreas do território nacional, incluindo regiões de difícil acesso, como a Amazônia. No emprego operacional, os Widgeon desempenharam funções de grande relevância, destacando-se em missões de busca e salvamento (SAR), patrulha costeira, transporte de pessoal e suprimentos, além de tarefas de ligação entre unidades militares. Sua capacidade anfíbia permitindo operações tanto em pistas terrestres quanto em superfícies aquáticas  mostrou-se particularmente valiosa diante das condições geográficas e logísticas do país. Do ponto de vista técnico, todas as 14 células do  J4F-2 Widgeon foram entregues equipadas com suportes subalares aptos ao transporte de até duas cargas de profundidade ou bombas leves, cada uma com peso aproximado de 50 kg. Tais dispositivos eram concebidos para emprego em missões de guerra antissubmarino (ASW), visando atingir submarinos inimigos em profundidades rasas. Não obstante essa capacidade, a documentação histórica disponível indica que o emprego armado dessas aeronaves foi limitado durante o conflito. Na prática, sua atuação concentrou-se majoritariamente em atividades de apoio notadamente resgate, transporte e ligação, nas quais desempenharam papel significativo no esforço de guerra aliado no Atlântico Sul. Importa ressaltar que, em sua fase inicial de operação, todas as aeronaves permaneceram concentradas na Base Aérea do Galeão, onde os tripulantes da 2ª Esquadrilha de Adestramento Militar foram submetidos a um rigoroso programa de formação, conduzido por instrutores norte-americanos, assegurando a plena assimilação das doutrinas e técnicas operacionais associadas ao emprego desse tipo de aeronave.

Apesar de sua reconhecida versatilidade, o Grumman UCF-4F2 Widgeon enfrentou dificuldades operacionais significativas no âmbito da Força Aérea Brasileira (FAB), as quais impactaram negativamente sua reputação entre os pilotos brasileiros. Entre os principais fatores adversos destacavam-se suas características de voo desafiadoras, em especial o acentuado perfil de arfagem durante a amerissagem, condição que tornava essa fase do voo particularmente crítica  sobretudo para tripulações com menor nível de experiência. Essa limitação contribuiu diretamente para a ocorrência de um número expressivo de incidentes e acidentes, comprometendo a confiabilidade operacional do modelo. O primeiro evento relevante devidamente documentado ocorreu em maio de 1945, quando uma aeronave baseada na Base Aérea de Belém (BABE) realizou um pouso convencional sem o acionamento do trem de pouso, resultando em danos estruturais irreparáveis e na consequente perda total da célula. Ainda no mesmo ano, em novembro, um segundo acidente nas proximidades de Vigia de Nazaré ocasionou a perda de mais uma aeronave. No período compreendido entre 1942 e o final da década de 1940, a frota de UCF-4F2 Widgeon acumulou 07 perdas totais, todas decorrentes de acidentes operacionais. Relatórios oficiais indicam que a combinação entre o comportamento instável da aeronave durante a amerissagem e a limitada experiência de parte dos pilotos constituiu o principal fator contributivo para tais ocorrências. Diante desse quadro, a Força Aérea Brasileira (FAB) adotou medidas com vistas à mitigação dos riscos operacionais. Entre elas, destacou-se a decisão de concentrar todas as aeronaves remanescentes em uma única localidade, de modo a aprimorar os padrões de supervisão, instrução e manutenção. Nesse contexto, no último trimestre de 1947, o Ministério da Aeronáutica (MAer) promoveu uma reestruturação na gestão de sua  frota. Inicialmente, estaa aeronaves foram transferidas para a Base Aérea do Galeão (BAGL), sendo incorporadas ao 1º Grupo de Transporte (1º GT), sediado no Campo dos Afonsos. Posteriormente, decidiu-se pela realocação da maior parte dessas unidades para a Base Aérea de Belém (BABE), onde passaram a desempenhar papel relevante no fortalecimento das atividades de instrução da unidade local. Nessa nova configuração operacional, os Widgeon  seriam redesignados internamento como CA4F-2, sendo empregados , sobretudo, na formação de tripulações destinadas à operação dos Consolidated CA-10 Catalina, aeronaves que haviam se tornado essenciais para o funcionamento das rotas do Correio Aéreo Nacional (CAN) na região amazônica. Paralelamente às atividades de treinamento, essas aeronaves também desempenharam missões de ligação entre unidades militares baseadas na Amazônia, assegurando a conectividade entre bases remotas em uma região caracterizada por grandes distâncias e limitações de infraestrutura, contribuindo, assim, para a integração operacional e logística do território nacional.
De forma complementar às suas atribuições principais, essas aeronaves também desempenharam papel relevante no apoio às linhas secundárias do Correio Aéreo Nacional (CAN), assegurando o transporte de correspondências e suprimentos essenciais para comunidades isoladas na bacia amazônica  uma função de grande importância logística e social em uma região caracterizada por vastas distâncias e limitada infraestrutura terrestre. No entanto, à medida que a década de 1950 avançava, tornava-se cada vez mais evidente o processo de obsolescência do Grumman J4F-2 Widgeon. Em agosto de 1951, a Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA) emitiu instrução oficial classificando o modelo como completamente ultrapassado, recomendando sua retirada do serviço ativo em curto prazo. Tal decisão refletia a realidade operacional da época, uma vez que a frota já se encontrava reduzida a apenas três aeronaves em condições de voo. A fase final de operação do modelo foi marcada por novos acidentes. Em abril de 1952, uma aeronave foi perdida durante uma amerissagem forçada na Baía de Guanabara, submergindo e tornando inviável qualquer tentativa de recuperação. Pouco tempo depois, outro incidente grave ocorreu nas proximidades do Aeroclube de Bauru, resultando na perda total de uma célula pertencente à Esquadrilha de Adestramento da Base Aérea de Santa Cruz. A última aeronave remanescente permaneceu em operação regular até meados de 1958, quando sua utilização passou a ser considerada economicamente inviável. Em consequência, foi recolhida ao Parque de Material de Aeronáutica dos Afonsos, no Rio de Janeiro, onde permaneceu aguardando deliberação quanto ao seu destino final. Posteriormente, por meio de ato formal da Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA), sua desativação foi oficializada, sendo a aeronave alienada para venda. Adquirido por um operador civil, o aparelho foi registrado para uso como táxi aéreo. Contudo, sua carreira nessa nova condição revelou-se efêmera: o registro de voo foi rapidamente suspenso pela Diretoria de Aviação Civil, em razão do não cumprimento de exigências documentais. Impedido de operar, o Widgeon acabou sendo abandonado no Aeroporto Campo de Marte na cidade de São Paulo. Somente em 1976, após a conclusão de um processo judicial, a aeronave foi reintegrada ao patrimônio da Força Aérea Brasileira (FAB). No ano seguinte, em 1977, foi emitida diretriz específica visando à sua preservação histórica. Para tanto, a célula foi desmontada por equipes do Parque de Manutenção Aeronáutica de São Paul (PAMASP) o e transportada por via terrestre até a Base Aérea dos Afonsos (BAAF). Incorporada ao acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL), a aeronave passou por um criterioso processo de restauração, sendo posteriormente colocada em exposição com o padrão de pintura original de sua incorporação à Força Aérea Brasileira (FAB). Atualmente, ostenta a matrícula “FAB 14”, em referência ao período em que serviu à 2ª Esquadrilha de Adestramento Militar, preservando, assim, a memória de sua contribuição às operações aéreas no Brasil durante e após o período da guerra.

Em Escala.
Para a representação do Grumman J4F-2 Widgeon, registrado como “FAB 14”, foi selecionado o kit descontinuado da Classic Airframes na escala 1/48, reconhecido por seu elevado nível de detalhamento e pela inclusão de diversas peças em resina. Não são necessárias modificações para retratar a versão utilizada pela Força Aérea Brasileira (FAB), permitindo a montagem direta do modelo conforme fornecido na caixa. Dada a ausência de um conjunto de decalques específicos para essa composição, foram usados ​​​​decais variados provenientes de conjuntos da FCM Decals, complementados pelos decalques exclusivos incluídos no kit.
O esquema de núcleos está em conformidade com o padrão Federal Standard (FS), descrito a seguir, corresponde ao padrão tático naval adotado pela Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) para aeronaves anfíbias durante a Segunda Guerra Mundial, com a adição exclusiva das marcas da Força Aérea Brasileira (FAB). Esse padrão foi interrompido após realização da primeira revisão geral das células, momento em que as aeronaves passaram a ser pintadas integralmente em cor de metal natural, com o leme nas cores verde e amarelo e as marcações nacionais aplicadas.

Bibliografia :
- Grumman G-44 Widegon - Wikipedia -  http://en.wikipedia.org/wiki/Grumman_G-44_Widgeon
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916/ 2016 – Jackson Flores Jr
- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aviação Militar Brasileira 1916 / 1984 - Francisco C. Pereira Netto

PT-26 Fleet Aircraft Cornell M62A

História e Desenvolvimento.
A Fairchild Aviation Corporation figura entre as mais emblemáticas fabricantes aeronáuticas da história do século XX. A empresa foi fundada em 1924 pelo visionário empreendedor norte-americano Sherman Fairchild, um prolífico industrial que, ao longo de sua vida, esteve diretamente envolvido na criação de mais de setenta empresas nos setores aeronáutico, fotográfico e eletrônico. Inicialmente estabelecida nas localidades de Farmingdale e East Farmingdale, no estado de Nova York, a Fairchild Aviation surgiu como a companhia-mãe destinada a coordenar e integrar os diversos interesses aeronáuticos de Fairchild, servindo como eixo central de um ambicioso conglomerado industrial. Desde seus primeiros anos, a empresa destacou-se pela inovação tecnológica. Entre suas realizações pioneiras esteve o desenvolvimento da Fairchild FC-1, reconhecida como a primeira aeronave norte-americana a incorporar uma cabine de pilotagem totalmente fechada, além de um sistema de trem de pouso com acionamento hidráulico  avanços significativos em uma época em que a maioria das aeronaves ainda operava com cockpits abertos e soluções mecânicas rudimentares. Essas inovações refletiam a preocupação da empresa com segurança, conforto e eficiência operacional, características que se tornariam marcas registradas de seus projetos. Dando continuidade à sua estratégia de crescimento e consolidação industrial, a Fairchild Aviation expandiu-se por meio da aquisição e incorporação de outras empresas relevantes do setor. Em 1925, integrou ao grupo a Caminez Engine Company, ampliando sua capacidade no desenvolvimento de motores aeronáuticos. Poucos anos depois, em 1929, adquiriu a Kreider-Reisner Aircraft Company, sediada em Hagerstown, no estado de Maryland, fortalecendo sua base produtiva e diversificando ainda mais seu portfólio de aeronaves. Em consonância com sua visão internacional e com a crescente demanda por aeronaves no mercado global, a Fairchild estabeleceu, ainda na década de 1920, sua primeira planta industrial fora dos Estados Unidos, criando a subsidiária Fairchild Aircraft Ltd. na cidade de Longueuil, na província de Quebec, Canadá. Essa unidade desempenharia papel fundamental na produção de aeronaves civis e militares, mantendo-se ativa até o início da década de 1950 e contribuindo significativamente para o esforço industrial norte-americano e aliado durante períodos críticos, como a Segunda Guerra Mundial. Além da FC-1, a Fairchild alcançou grande notoriedade com o lançamento do modelo Fairchild 71, uma aeronave projetada especificamente para missões de fotografia aérea. Diferentemente dos aviões então em serviço, o Fairchild 71 possuía desempenho e estabilidade suficientes para voar de forma contínua em altitudes mais elevadas, superando limitações operacionais que comprometiam a qualidade dos levantamentos fotográficos. Sua robustez, alcance e capacidade de carga rapidamente o tornaram um dos aviões mais populares de sua época. O prestígio do Fairchild 71 foi ainda reforçado por sua associação a feitos históricos, como sua utilização pelo explorador polar Richard E. Byrd durante a célebre expedição ao Polo Sul, realizada entre 1928 e 1929. Esse episódio projetou internacionalmente a reputação da empresa, demonstrando a confiabilidade de seus projetos em condições extremas. 

O reconhecimento governamental não tardaria: em 1935, a Fairchild firmou seu primeiro grande contrato oficial ao ser selecionada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos para o desenvolvimento de pesquisas baseadas em fotografia aérea, destinadas ao mapeamento da erosão do solo e à análise de seus impactos ambientais. Nesse contexto de expansão e consolidação institucional, a empresa passou a adotar oficialmente a denominação Fairchild Aircraft Manufacturing Company, reafirmando sua posição de destaque na indústria aeronáutica norte-americana. Apesar de deter uma participação relevante no mercado civil norte-americano especialmente no segmento de aeronaves destinadas ao treinamento básico e a usos utilitários, a presença da empresa no setor militar permanecia até o final da década de 1930, relativamente modesta. Sua atuação restringia-se, em grande medida, ao fornecimento de componentes e subconjuntos para outros fabricantes responsáveis pela produção de aeronaves militares destinadas as forças armadas. Tal cenário, contudo, começaria a se transformar à medida que o poder aéreo assumia papel central no pensamento estratégico das forças armadas norte-americanas, em um contexto internacional marcado pela crescente instabilidade política e militar que precedeu a Segunda Guerra Mundial. Naquele período, o treinamento básico dos futuros pilotos do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (United States Army Air Corps – USAAC) era realizado quase exclusivamente com o emprego dos biplanos Boeing PT-17 Stearman. Embora robusta e confiável, essa aeronave apresentava uma concepção já ultrapassada, típica da aviação dos anos 1920. Seus comandos dóceis e comportamento previsível facilitavam o aprendizado inicial, mas não exigiam dos cadetes o desenvolvimento pleno das habilidades de pilotagem avançadas que seriam indispensáveis na operação das modernas aeronaves de combate, cada vez mais rápidas, pesadas e complexas. A percepção dessa lacuna formativa levou o comando militar, em 1939, a reconhecer a necessidade urgente de substituir seus obsoletos treinadores biplanos por uma aeronave mais representativa das características de voo dos caças e bombardeiros contemporâneos. Assim, ainda naquele ano, foi lançada uma concorrência oficial para o desenvolvimento de um novo treinador básico: um monomotor monoplano de asa baixa, capaz de oferecer aos futuros pilotos uma progressão gradual de aprendizado, estimulando o domínio de técnicas mais refinadas de controle, navegação e consciência situacional. Como requisito fundamental, a nova aeronave deveria apresentar baixos custos de aquisição, operação e manutenção, refletindo a necessidade de produção em larga escala em um cenário de rápida expansão das forças aéreas. O certame despertou grande interesse na indústria aeronáutica norte-americana. Oito fabricantes responderam ao chamado, submetendo um total de dezoito propostas distintas de aeronaves de treinamento. Entre os concorrentes encontrava-se a Fairchild Aircraft Manufacturing Company, que apresentou o modelo M-62. Diferentemente de algumas propostas concebidas exclusivamente para a competição, este modelo era fruto de um esforço de desenvolvimento interno da empresa, financiado com recursos próprios.
Seus estudos preliminares haviam sido iniciados ainda em 1933, sob a liderança do engenheiro-chefe Armand Thiebolt, e tinham como princípios fundamentais o emprego de componentes mecânicos amplamente disponíveis no mercado, com elevada intercambiabilidade, bem como a utilização de materiais não estratégicos, reduzindo custos e facilitando a produção em grande escala. O primeiro protótipo do Fairchild M-62 realizou seu voo inaugural em 15 de maio de 1939, a partir das instalações da empresa em Hagerstown, no estado de Maryland. A aeronave era propulsionada por um motor Fairchild Ranger L-440, de seis cilindros em linha e 175 cavalos de potência, combinação que oferecia desempenho adequado às exigências do treinamento inicial, ao mesmo tempo em que mantinha a simplicidade mecânica e a confiabilidade desejadas pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Esse voo inaugural marcaria o início de um processo que não apenas redefiniria o papel da Fairchild no setor militar, mas também contribuiria de forma decisiva para a formação de toda uma geração de pilotos militares norte-americanos. Todas as propostas apresentadas foram submetidas a um amplo e rigoroso programa de avaliações comparativas e ensaios em voo, conduzidos sob a supervisão militar. Ao término desse processo, a decisão final recaiu sobre o modelo M-62, desenvolvido pela Fairchild Aircraft Manufacturing Company, considerado o mais equilibrado em termos de desempenho, custo, robustez e adequação pedagógica às exigências do treinamento militar moderno. A aeronave selecionada era um monomotor biplace, com assentos dispostos em tandem e cockpit aberto, adotando uma configuração monoplana de asa baixa cantiléver  uma solução contemporânea que aproximava o aluno das características de voo dos caças então em desenvolvimento. O trem de pouso fixo, de bitola ampla, aliado ao tradicional volante de cauda, proporcionava excelente estabilidade durante as operações em solo, reduzindo a incidência de acidentes nas fases mais críticas do aprendizado. Seu projeto estrutural refletia uma filosofia de simplicidade aliada à robustez. A fuselagem era construída em tubos de aço soldados, revestidos em tecido, enquanto as asas e superfícies de cauda empregavam extensivamente compensado de madeira. A seção central das asas possuía revestimento em madeira compensada, assim como os painéis externos e a estrutura da empenagem. Essa solução construtiva, além de resistente, permitia a utilização de materiais não estratégicos, aspecto considerado fundamental diante da crescente mobilização industrial norte-americana. A propulsão ficava a cargo do motor Ranger L-440-3, com seis cilindros em linha invertido, com potência inicial de 175 hp. Essa configuração proporcionava uma seção frontal estreita, garantindo excelente visibilidade para instrutor e aluno uma característica altamente valorizada em uma aeronave de treinamento básico. O conjunto, aliado ao trem de pouso robusto e amplamente espaçado, resultava em uma plataforma estável e previsível, ideal para a formação inicial de pilotos militares. Em 22 de setembro de 1939, foi celebrado o primeiro contrato oficial entre a Fairchild Aircraft Manufacturing Company e o Exército dos Estados Unidos (U.S Army), prevendo a aquisição de 270 aeronaves.  

Em virtude do elevado emprego de madeira em sua estrutura, o acordo envolveu uma ampla rede de subcontratações, abrangendo 27 empresas especializadas em marcenaria, fábricas de móveis e indústrias correlatas, além de uma fundição dedicada à produção dos componentes metálicos. Essa estratégia não apenas acelerou a produção como também contribuiu para a mobilização do parque industrial civil em apoio ao esforço de defesa nacional. As primeiras aeronaves começaram a ser entregues às escolas de aviação em meados de 1940, recebendo a designação militar PT-19. Rapidamente, o modelo conquistou a confiança e a simpatia tanto dos instrutores quanto dos alunos, destacando-se por suas qualidades de voo, resistência estrutural e baixo custo operacional. O sucesso inicial levou, naturalmente, à intenção de formalizar novas encomendas. Entretanto, o agravamento da situação internacional com a intensificação da guerra na Europa e o avanço do expansionismo japonês no Sudeste Asiático impôs uma aceleração sem precedentes nos programas de fortalecimento das forças armadas norte-americanas. Nesse contexto, o poder aéreo assumiu papel central, ampliando de forma exponencial a necessidade de formação de pilotos militares. Como resposta direta a essa demanda urgente, em janeiro de 1941 foi firmado um contrato emergencial para a produção de mais de 3.000 aeronaves da versão aprimorada PT-19A, agora equipadas com o motor Ranger L-440-3 de 200 hp, consolidando definitivamente o treinador da Fairchild como um dos pilares da formação aérea dos Estados Unidos às vésperas da Segunda Guerra Mundial. A capacidade industrial instalada da Fairchild Aircraft Manufacturing Company revelou-se insuficiente para atender, nos prazos estipulados, ao ambicioso cronograma de entregas imposto pela rápida expansão do programa de treinamento aéreo norte-americano. Diante dessa limitação, decidiu-se pelo licenciamento da produção da aeronave a outras empresas do setor, entre elas a Howard Aircraft Corporation, a St. Louis Aircraft Corporation, a Aeronca Aircraft e, por fim, a fabricante canadense Fleet Aircraft. Essa medida permitiu a rápida ampliação da capacidade produtiva, ao mesmo tempo em que integrava diferentes polos industriais ao esforço de mobilização aeronáutica aliado. Paralelamente, a crescente necessidade de capacitar os futuros pilotos para o voo por instrumentos uma habilidade cada vez mais essencial em um cenário operacional moderno e de guerra total levou à adaptação de parte da linha de produção. Inicialmente, seis aeronaves foram convertidas mediante a incorporação de uma capota de lona móvel, que podia ser estendida sobre o cockpit dianteiro, permitindo que o cadete realizasse o voo completamente sem referências externas, orientando-se exclusivamente pelos instrumentos de bordo. Essa variante experimental demonstrou desempenho plenamente satisfatório e passou a ser designada PT-19B. O sucesso do conceito resultou na adoção da versão para produção em série, conduzida pela Fairchild Aircraft Manufacturing Company e pela Aeronca Aircraft, totalizando cerca de 900 aeronaves construídas nessa configuração. Com frequência, o PT-19B é confundido com o PT-26, embora se trate de modelos distintos. O PT-26 foi desenvolvido especificamente para as Forças Armadas Canadenses e possuía cabine de pilotagem totalmente fechada, uma adaptação voltada a oferecer maior conforto e proteção às tripulações, especialmente em função das severas condições climáticas predominantes no Canadá. 
Nesse mesmo período, avançavam as negociações com o governo canadense visando à produção de uma versão adaptada do Fairchild Cornell para atender às exigências específicas do Plano de Treinamento Aéreo da Comunidade Britânica (British Commonwealth Air Training Plan – BCATP). De importância vital para o esforço de guerra aliado, esse ambicioso programa tinha como objetivo formar e qualificar dezenas de milhares de pilotos destinados às futuras operações no teatro europeu. A escolha do Canadá como principal base de instrução decorreu, sobretudo, de sua posição geográfica estratégica, distante das zonas de combate e, portanto, menos exposta aos riscos inerentes às áreas de conflito. Entretanto, as severas condições climáticas canadenses representavam um desafio significativo para a instrução aérea com o Fairchild PT-19, cuja cabine aberta expunha instrutores e alunos a baixas temperaturas, ventos intensos e intempéries frequentes. Como resposta a essa limitação, foi desenvolvida uma versão dotada de cabine de pilotagem totalmente fechada, concebida para proporcionar maior conforto térmico e operacional às tripulações durante os voos de instrução. Essa variante recebeu a designação PT-26 M-62A Cornell I e manteve o motor em linha invertido Ranger L-440-3, com potência de 200 hp. O primeiro protótipo realizou seu voo inaugural em julho de 1942, sendo rapidamente aprovado para produção em série sob licença nas instalações da Fleet Aircraft Limited, no Canadá. Ao todo, foram produzidas 670 unidades dessa versão inicial. Na sequência, entrou em produção o PT-26A Cornell II, equipado com o motor Ranger L-440-7, também de 200 hp, incorporando melhorias de confiabilidade e desempenho. Dessa variante, foram entregues 807 aeronaves ao Plano de Treinamento Aéreo da Comunidade Britânica. Por fim, em 1943, foi introduzido o PT-26B Cornell III, que apresentava aperfeiçoamentos pontuais em relação ao modelo anterior. Dessa última versão, 250 aeronaves foram fornecidas à Força Aérea Real do Canadá (Royal Canadian Air Force – RCAF). Os PT-26 permaneceram em serviço ativo até meados da década seguinte, quando foram gradualmente desativados e transferidos para uso civil, passando a operar em escolas de pilotagem e aeroclubes regionais. Em comparação aos tradicionais treinadores biplanos que os precederam, os Fairchild PT-19 e PT-26 representaram um verdadeiro divisor de águas no ensino da aviação militar. Pela primeira vez, ainda no estágio básico, os cadetes tinham contato com uma aeronave de desempenho superior, capaz de operar a velocidades mais elevadas e com características aerodinâmicas — como a carga alar — mais próximas das aeronaves de combate. Essa transição exigia maior precisão, disciplina e atenção por parte dos alunos, contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento de habilidades avançadas de pilotagem e para um melhor rendimento ao longo da formação. A exemplo de outros modelos da família, centenas de células do Fairchild PT-26 Cornell permaneceram em condições de voo até o início da década de 1960. Muitos desses exemplares sobrevivem até os dias atuais, preservados em museus aeronáuticos ou mantidos em operação por entusiastas, como testemunhos vivos de uma aeronave que marcou profundamente a história do treinamento aéreo durante a Segunda Guerra Mundial.

Emprego na Marinha do Brasil
A primeira fase da Aviação Naval brasileira, compreendida entre 1916 e 1941, caracterizou-se por um período de notável pioneirismo e gradual expansão das capacidades aéreas da Marinha do Brasil. Nesse intervalo, a Força desenvolveu e operou sua própria aviação, empregando hidroaviões como os Macchi M.7, Macchi M.9 e Curtiss MF, utilizados em missões de instrução, patrulha costeira, ligação e demonstrações de presença naval. Tratava-se de uma época marcada pela experimentação, pela formação das primeiras gerações de aviadores navais e pela construção de uma cultura operacional própria, ainda que limitada pelos recursos técnicos e financeiros disponíveis. Essa autonomia, entretanto, seria abruptamente interrompida em 20 de janeiro de 1941, quando o Decreto-Lei nº 2.961, assinado pelo Presidente Getúlio Vargas, instituiu a Força Aérea Brasileira (FAB), unificando sob uma única organização as aviações do Exército e da Marinha. A medida, concebida no contexto da modernização do Estado Novo e da iminência da Segunda Guerra Mundial, buscava racionalizar meios e centralizar a condução do poder aéreo nacional. Como consequência, a Aviação Naval foi extinta como braço operacional independente, inaugurando um período de quase uma década de afastamento da Marinha do domínio direto das operações aéreas. Com o término do conflito mundial, em 1945, a Marinha do Brasil passou a articular de forma consistente uma campanha política e institucional em favor da reativação de sua Aviação Naval. Argumentava-se que a estrutura da Força Aérea Brasileira (FAB), embora adequada às necessidades estratégicas de defesa aérea e ataque, não atendia de maneira plena às demandas específicas do meio marítimo, particularmente nas áreas de busca e salvamento, patrulha oceânica, esclarecimento naval e apoio direto às forças de superfície. Em 1947, o então Ministro da Marinha, Almirante Sylvio de Noronha, defendeu publicamente a necessidade de restabelecer a autonomia aeronaval, recorrendo a exemplos internacionais consagrados, como o da Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy), que mantinha pleno controle sobre seus meios aéreos embarcados. Essa longa e complexa disputa institucional encontrou seu desfecho em 1952, com a promulgação do Decreto-Lei nº 3.244, que autorizou a reativação da Aviação Naval, encerrando a chamada “segunda fase” de sua história. Sob uma perspectiva humana, esse período foi marcado pela perseverança e pelo empenho de oficiais que se dedicaram à causa aeronaval, como o Capitão Jorge da Silva Prado, responsável por liderar estudos técnicos, pareceres doutrinários e petições formais que demonstravam a viabilidade e a necessidade estratégica da reativação. Embora permeada por dificuldades e restrições, essa fase foi essencial para o amadurecimento institucional da Aviação Naval e para a consolidação de uma doutrina própria, alinhada às exigências do pós-guerra. Nesse contexto, foi criada a Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), à qual coube a responsabilidade de coordenar e supervisionar todas as atividades relacionadas à aviação embarcada e à formação do pessoal especializado. Em 1955, como desdobramento direto desse esforço organizacional, foi instituído o Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN), com a missão de ministrar cursos voltados às operações aeronavais, destinados tanto ao pessoal da Marinha do Brasil quanto, em regime de cooperação, à Força Aérea Brasileira (FAB).

Entre os primeiros cursos oferecidos destacou-se o de formação de Observador Aéreo Naval, cuja etapa teórica teve início em 1º de março de 1956. A fase prática do curso foi conduzida junto ao Aeroclube do Brasil, onde os oficiais participantes receberam instrução de voo em aeronaves civis, adaptadas às necessidades didáticas do programa. Paralelamente, a Marinha do Brasil passou a enviar oficiais aos Estados Unidos para receberem instrução de voo em aeronaves de asas rotativas, sob a égide da Marinha dos Estados Unidos. Oficiais e graduados também foram destacados para cursos de manutenção aeronáutica e sistemas de bordo, assegurando a formação de um corpo técnico qualificado, capaz de sustentar, no médio e longo prazo, o renascimento da Aviação Naval brasileira. Esse processo de reconstrução e consolidação da Aviação Naval brasileira seria significativamente acelerado a partir de 12 de dezembro de 1956, quando o Governo Federal, em articulação direta com o Ministério da Marinha e após prolongadas negociações diplomáticas e técnicas, formalizou a aquisição de um porta-aviões leve britânico da classe Colossus, o HMS R-71 Vengeance. Com deslocamento padrão da ordem de 19.900 toneladas, o navio-aeródromo era um veterano da Segunda Guerra Mundial. Encerrada a guerra, o Vengeance fora arrendado à Marinha Real Australiana (Royal Australian Navy), permanecendo em serviço naquele país entre novembro de 1952 e agosto de 1955. Após o término do contrato de arrendamento, o navio foi devolvido ao governo britânico e colocado à disposição para alienação, circunstância que abriu a oportunidade para sua aquisição pelo Brasil, no contexto do esforço nacional de modernização do poder naval. Após a compra, o porta-aviões foi encaminhado, em meados de 1957, aos estaleiros da empresa holandesa Verolme United Shipyard, na cidade de Roterdã, onde seria submetido a um abrangente programa de modernização e atualização tecnológica. O processo, concluído em dezembro de 1960, transformou profundamente o navio, que emergiu com um convés de voo angular de 8,5°, catapulta e sistema de parada modernizados, novos elevadores de aeronaves, uma ilha completamente redesenhada, além da atualização dos sistemas de operação aérea, sensores eletrônicos e do armamento defensivo.  Paralelamente a esse processo de modernização naval, a Marinha do Brasil avançava na formação de recursos humanos e na aquisição de meios aéreos de asas rotativas. Em meados de 1958, chegaram ao país dois helicópteros Westland WS-51 Widgeon Mk.2, empregados pelo Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN) na instrução de pilotagem dos oficiais que haviam concluído o Curso de Observador Aéreo Naval. Ainda naquele ano, foram incorporados dois Kawasaki-Bell 47G, adquiridos juntamente com os navios-hidrográficos Sirius e Canopus, além de três helicópteros Bell 47J, ampliando de forma significativa a capacidade de instrução e experimentação operacional. Assim, ao final de 1958, o CIAAN dispunha de um total de sete helicópteros, empregados não apenas na formação de pilotos, mas também em uma ampla gama de missões, incluindo transporte leve, ligação, observação e apoio às atividades navais. 
À medida que se aproximava a data de entrega oficial do porta-aviões brasileiro — que seria incorporado à Armada como NAeL A-11 Minas Gerais  reacendia-se, no âmbito do Ministério da Marinha, a aspiração de recuperar também a Aviação Naval de asas fixas. Nesse contexto, a partir do final de 1959, a Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) passou a conduzir estudos e esforços preliminares voltados à elaboração de um planejamento coerente e de bases doutrinárias plausíveis para a efetiva reativação dessa capacidade. Todavia, naquele momento, ainda não existiam definições concretas quanto aos tipos de aeronaves de asas fixas e rotativas que viriam a equipar o grupo aéreo do novo porta-aviões brasileiro, tampouco havia consenso institucional sobre a repartição de responsabilidades entre a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira (FAB)  esta última detentora, por força legal, da prerrogativa de operar aeronaves de asa fixa.  Em 5 de junho de 1961, por meio do Aviso Ministerial nº 1.003, foi oficialmente criada a Força Aérea Naval, estrutura integrante da Esquadra e concebida para operar a partir do navio-aeródromo. Essa nova organização compreendia o 1º Grupo Aéreo Embarcado, inicialmente estruturado em dois esquadrões o 1º Esquadrão de Aviões Antissubmarino e o 1º Esquadrão de Helicópteros Antissubmarino, além do 2º Esquadrão de Helicópteros Antissubmarino, destinado a operar a partir de outros meios de superfície da Esquadra, e do 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (EsqdHU-1). Entretanto, em razão do reduzido número de aeronaves então disponíveis, apenas o EsqdHU-1 pôde ser efetivamente organizado, vindo a ser ativado em maio de 1962.  Para viabilizar esse objetivo, foi elaborado um ambicioso programa de reativação da Aviação Naval de asas fixas, que não se limitava à mera organização administrativa das unidades aéreas. O plano abrangia, de maneira integrada, aspectos relativos à composição e formação de pessoal, treinamento técnico e operacional, infraestrutura, aquisição de equipamentos de apoio e, sobretudo, a obtenção de aeronaves adequadas às diversas missões previstas. Entre as prioridades destacadas nesse planejamento figurava a necessidade de constituir um esquadrão de instrução dotado exclusivamente de aeronaves de asas fixas, condição considerada essencial para garantir autonomia e continuidade no processo de formação de aviadores navais. Esse esforço, contudo, esbarrava em um obstáculo de natureza jurídica e institucional. O ressurgimento da Aviação Naval ocorria em um contexto no qual ainda vigorava o Decreto-Lei de 20 de janeiro de 1941, que, ao criar o Ministério da Aeronáutica, concedera à Força Aérea Brasileira (FAB) a exclusividade na operação de aeronaves de asas fixas no território nacional. Na prática, a existência e a expansão de uma aviação naval de asas fixas colocavam em xeque essa prerrogativa legal, dando origem a um prolongado embate interforças. Diante desse cenário sensível, a Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) optou por adotar uma postura cautelosa, afastando-se temporariamente dos tradicionais fornecedores internacionais de aeronaves militares, a fim de evitar o fortalecimento prematuro de uma capacidade que poderia agravar as tensões institucionais. Em seu lugar, passou a buscar soluções alternativas, baseadas sobretudo em “compras de oportunidade”, capazes de atender às necessidades imediatas sem provocar confrontos diretos.

Esses esforços desenvolveram-se em duas frentes complementares. A primeira concentrou-se no mercado internacional, com a prospecção de aeronaves militares usadas, disponíveis para aquisição em condições favoráveis. A segunda voltou-se para o mercado interno, buscando a obtenção de aeronaves de treinamento básico junto a operadores civis, em especial aqueles vinculados ao Aeroclube do Brasil.  Os primeiros resultados dessa estratégia seriam alcançados ainda em 1961, com a aquisição de aeronaves dos modelos Taylorcraft BC-12D e CAP-4 Paulistinha. Esses aviões passaram a operar junto ao Destacamento Especial de Aeronaves do Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN), não com a finalidade de formar pilotos, mas empregados principalmente no adestramento do Curso de Observador Aéreo Naval (COAN), bem como em missões de ligação, transporte leve e apoio às atividades administrativas e operacionais da Base Aeronaval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA). Ainda que modestos em termos de desempenho e sofisticação, esses meios representaram um passo inicial concreto no processo de reconstrução da aviação naval brasileira.  A busca por aeronaves de treinamento básico para a Aviação Naval da Marinha do Brasil persistiria, resultando em meados do ano de 1962 na aquisição de uma célula do modelo Fleet PT-26 M-62A Cornell I, que segundo relatos seria negociada junto a um particular no próprio Aeroclube do Brasil. Esta aeronave após ser recebida seria imediatamente entregue ao Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN), para ser integrado ao acervo do Destacamento Especial de Aeronaves. Apesar de pertencer ao modelo inicial de produção, esta aeronave estava equipada com o sistema de radio empregado nas versões mais recentes desta aeronave. Neste momento está célula seria submetida a uma revisão básica, na qual receberia o segundo padrão de pintura a ser adotado pela Aviação Naval, bem como sua matrícula de "N708 - FV 607". Em 22 de fevereiro de 1961, foram criados dois esquadrões, subordinados ao CIAAN: o 1º Esquadrão de Helicópteros de Instrução e Adestramento (EsqdHI-1) e o 1º Esquadrão de Aviões de Instrução. Esse último era dotado, originalmente, de apenas três aviões: um Taylorcraft BC-12D, um CAP-4 e o Fairchild PT-26. Essas aeronaves, além de poucas, eram inadequadas para o treinamento dos pilotos navais, de forma que a Marinha adquiriu, em 1962, seis aviões de treinamento suíços Pilatus P-3-04, os quais chegaram ao Brasil em janeiro e março de 1963. No entanto, logo após sua entrada em serviço, o PT-26 começou a apresentar anomalias no grupo propulsor, manifestando-se como panes de pequena monta, como vibrações irregulares e falhas intermitentes no sistema de ignição. Esses problemas, comuns em motores Ranger L-440, usados intensivamente durante a guerra, foram agravados pelo clima tropical brasileiro, com alta umidade e temperaturas elevadas acelerando o desgaste de componentes como pistões e válvulas. Humanamente, esses incidentes iniciais geraram preocupação entre os pilotos e mecânicos da BAeNSPA, que viam na segurança um princípio inegociável. Diante das anomalias persistentes, a célula do PT-26 foi submetida a uma revisão completa na Oficina Geral da Aviação Naval (OGAvN), uma unidade especializada na manutenção de aeronaves navais. 
Em novembro de 1962, um relatório técnico detalhado foi emitido, revelando que o motor Fairchild Ranger L-440 estava avariado, com danos em componentes críticos como o virabrequim e os rolamentos, possivelmente devido a fadiga acumulada de horas de voo anteriores. O documento concluía que a aeronave não poderia voar por tempo indeterminado, recomendando uma substituição completa de peças ou uma overhaul extensiva. Este preocupante cenário retiraria de imediato o modelo do processo de instrução e formação de pilotos, tendo em vista que a segurança em voo era um dos parâmetros básicos e inegociáveis da doutrina do Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN). Esforços seriam realizados junto ao mercado civil na tentativa de obtenção de componentes críticos para a substituição em seu motor, porém este em muito diferia da grande maioria dos motores ainda em uso no Brasil, salientado que nesta época a frota de aeronaves civis em condições de voo dos modelos Fairchild M-62 PT-19A/B e PT-3FG que antes pertenceram a Força Aérea Brasileira (FAB) já operava nos aeroclubes com grandes índices de indisponibilidade.  Assim com base neste status, não existem indicações oficiais de que esse avião tenha registrado algum voo no transcorrer do ano de 1963, mas, em outubro de 1964, o  Fleet Aircraft PT-26 M-62A Cornell I, já figurava como parte do acervo do Destacamento de Aeronaves para Serviços Auxiliares da  Base Aeronaval de São Pedro da Aldeia (BaeNSPA), onde deveria ser empregado em tarefas administrativas e de ligação. Porém naquele mesmo mês, um relatório do Estado-Maior da Armada informava que esta aeronave pertencia ao 1º Esquadrão de Aviões de Instrução do Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN). Novamente não existem registros oficiais sobre a realização de voos durante o final de 1964 e o inicio do ano seguinte. Paralelamente a estes evento, a  crise institucional criada pela disputa entre os Ministérios da Aeronáutica e Marinha, pelo direito a operação de aeronaves de asas fixas se agravava dia a dia, com a solução sendo auferida em 26 janeiro de 1965,  mediante promulgação do decreto presidencial Nº 55.627, que que efetivamente extinguia a aviação naval de asas fixas da Marinha do Brasil. Em consequência dos artigos apresentados naquele instrumento,  seria definido que toda estrutura material e de pessoal deveriam ser incorporadas a Força Aérea Brasileira (FAB). Assim semanas mais tarde esta célula seria entregue a seus representantes, e as avaliações iniciais apontavam como uma aeronave obsoleta não sendo recomendada sua recuperação e operação, principalmente pelo seu modelo semelhante o  Fairchild M-62 PT-19A/B e PT-3FG, ter sido retirado do processo de instrução da Escola de Aeronáutica (EAer). Desta maneira esta aeronave não receberia nem a matricula militar, sendo repassado diretamente ao Departamento de Aviação Civil (DAC) a fim de ser doado para qualquer aeroclube que se habilitasse. No entanto não existem registros oficiais, e acredita-se que esta célula tenha sido logo em seguida sucateada, encerrando assim sua efêmera carreira militar no Brasil.

Em Escala. 
Para representarmos o Fleet PT-26 M-62A Cornell I, "N708" pertencente ao Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN), fizemos uso do excelente kit em resina na escala 1/48 do fabricante Planet Models. Modelo este que apresenta facilidade de montagem e opções de detalhamentos interessantes. Como modificação incluímos apenas o radome da antena de rádio.  Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM Decals, presentes em diversos sets deste fabricante. 

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura adotado pela Aviação Naval da Marinha Brasileira em suas aeronaves de asas fixas e asas rotativas a partir de fins da década de 1950. Este esquema seria mantido quando da transferência da célula para a Força Aérea Brasileira (FAB) no início do ano de 1965, como aeronave não foi incorporada em serviço, especula-se que tenho sido sucateada ainda portando este padrão. 

Bibliografia : 

História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha- http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html 
-  Aeronaves Militares Brasileiras  1916 – 2015 Jackson Flores Jr 

-  Fairchild PT-19 - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Fairchild_PT-19 

- Centenário da Diretoria de Aeronáutica da Marinha  

-  Fairchild PT-19 - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Fairchild_PT-19