M-41B e M-41C Caxias (VBC CC)

História e Desenvolvimento
Desde o início da década de 1960, o carro de combate médio M-41 Walker Bulldog consolidou-se como o principal pilar da Arma de Cavalaria Blindada do Exército Brasileiro. Sua introdução representou um salto qualitativo em termos de capacidade operacional, colocando a Força Terrestre em um novo patamar de modernização. Dotado de avançadas características técnicas e táticas para a época, o M-41 destacou-se como um dos blindados mais modernos em operação na América Latina, conferindo ao Brasil significativa vantagem estratégica e fortalecendo o poder de dissuasão nacional durante décadas. Entretanto, apesar de sua relevância operacional e valor estratégico, a frota brasileira de M-41 Walker Bulldog jamais recebeu, ao longo de sua vida útil, programas sistemáticos de manutenção preventiva e corretiva compatíveis com as diretrizes do fabricante. Esse descuido técnico começaria a cobrar seu preço na segunda metade da década de 1970, quando os índices de disponibilidade operacional dos veículos passaram a cair de forma alarmante. Além da natural fadiga dos materiais, o Exército enfrentava sérias dificuldades para obter suprimentos e peças de reposição no mercado internacional. Com a produção do modelo já encerrada nos Estados Unidos, as unidades brasileiras passaram a recorrer com frequência ao uso de componentes não originais, de qualidade inferior, em sistemas sensíveis como retentores, mangueiras e linhas hidráulicas. Essa prática, repetida de maneira prolongada, resultaria em um processo cumulativo de desgaste, culminando em falhas mecânicas recorrentes e afetando severamente a eficiência global da frota. A essa conjuntura somava-se outro fator crítico: a escassez de munição de 76 mm para o canhão M-32, armamento principal do M-41. A produção desses projéteis havia sido descontinuada nos Estados Unidos no início da década de 1970, e o Brasil, à época, não dispunha de uma linha de produção nacional que pudesse suprir essa lacuna. O cenário se agravaria ainda mais a partir de 1977, com o rompimento do Acordo Militar Brasil–Estados Unidos, que resultou na interrupção definitiva das linhas de fornecimento de peças e munições. Diante desse quadro preocupante, tornou-se imperativo encontrar uma solução que restaurasse a operacionalidade da frota e garantisse maior autonomia logística. Nesse contexto, o Exército Brasileiro iniciou estudos técnicos e operacionais voltados ao desenvolvimento de um programa de repotenciamento e modernização dos M-41 Walker Bulldog. O objetivo era duplo: recuperar as condições de combate dos blindados e ampliar ao máximo o índice de nacionalização de componentes críticos, reduzindo a dependência externa. Entre as medidas previstas, destacava-se a substituição do motor original a gasolina Continental AOS-895-3, de elevado consumo (chegando a ultrapassar três litros por quilômetro rodado), por um conjunto motriz a diesel de fabricação nacional, mais econômico e confiável. Também se estudava a substituição do armamento principal, com o intuito de adequar o poder de fogo às novas realidades táticas e logísticas da Força Terrestre.

Diante do quadro crítico de obsolescência e da necessidade urgente de restabelecer a capacidade operacional da frota de carros de combate M-41 Walker Bulldog, o Comando do Estado-Maior do Exército (EME) determinou a criação de um grupo de pesquisa de alta prioridade, denominado “Atualização do Carro de Combate M-41”. A coordenação geral do programa ficaria sob a responsabilidade do Departamento de Ensino e Pesquisa do Exército (DEP), cabendo ao Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IPD) a execução técnica do projeto. O programa foi estruturado em duas grandes frentes de trabalho: remotorização e modernização do armamento principal. No que se refere à propulsão, o estudo, oficialmente registrado sob a denominação “Estudo de Viabilidade 01/03”, previa a substituição do motor original a gasolina por um motor a diesel de fabricação nacional, visando reduzir custos operacionais, ampliar a autonomia e diminuir a dependência de insumos estrangeiros. Inicialmente, foi considerada a adaptação do motor Scania DS-14, produzido no Brasil, como alternativa viável. Paralelamente, estudava-se a questão do armamento principal. Duas soluções foram analisadas: a primeira consistia na produção local de munições de 76 mm para o canhão M-32; a segunda, na conversão do armamento para o calibre de 90 mm. Após avaliações técnicas e logísticas, a primeira opção foi descartada, optando-se pela conversão, uma vez que o calibre de 90 mm era compatível com as munições utilizadas pelos carros de reconhecimento EE-9 Cascavel, então em plena produção pela indústria nacional. Este ambicioso programa extrapolava o campo puramente técnico, pois representava também um esforço estratégico para consolidar a autossuficiência industrial e tecnológica da Força Terrestre. O objetivo era garantir que motores, componentes e suprimentos pudessem ser integralmente obtidos no Brasil, priorizando a participação da indústria nacional de defesa. Superadas as dificuldades iniciais de ordem conceitual e burocrática, os trabalhos práticos tiveram início com o carro de combate M-41 EB11-070, selecionado como protótipo. O foco inicial recaiu sobre a substituição do motor, sendo conduzidos inúmeros estudos envolvendo alternativas nacionais até que se chegou a uma solução definitiva: a instalação de um motor Scania V8 turbodiesel de 14 litros e 350 hp. Durante os testes de campo, contudo, constatou-se uma tendência ao superaquecimento do motor, o que exigiu aperfeiçoamentos no sistema de refrigeração. A solução adotada envolveu a instalação de ventiladores especiais e a reconfiguração completa do compartimento do motor. Para acomodar o novo conjunto propulsor e otimizar a refrigeração, o teto traseiro do compartimento foi modificado, permitindo a colocação de um radiador horizontal, acionado por dois ventiladores hidráulicos. A força motriz desses ventiladores era transmitida por uma bomba hidráulica acoplada a uma tomada de força do motor principal.
Além disso, foi acrescentada uma blindagem suplementar na parte posterior do veículo, destinada a proteger o novo sistema de arrefecimento. Importante destacar que tais modificações não exigiram cortes na estrutura original do chassi; o acréscimo foi realizado com chapas de aço SAE 1045, temperadas e revenidas a 38/40 RC, mantendo a mesma espessura da blindagem original. Diversas melhorias adicionais foram implementadas, envolvendo incremento de potência, aperfeiçoamento do sistema de ventilação e ajustes de engenharia. O protótipo modernizado passou por rigorosos testes de campo, cujos resultados foram consolidados em um relatório técnico apresentado em 19 de fevereiro de 1979. Com a aprovação desse documento, o projeto foi oficialmente concluído, e o carro de combate modernizado recebeu a nova designação de M-41B, marcando o início da fase de repotenciamento da frota de blindados médios do Exército Brasileiro. Nesta fase seria decidido transferir a implementação deste programa para a indústria privada nacional, com a Bernadini S/A Indústria e Comercio sendo selecionada, principalmente por já estar envolvida no desenvolvimento da família de carros de combate leves X1. Seriam então produzidos quatorze unidade como pré-série para avaliação a partir do projeto desenvolvido pelo IPD e Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Blindados (CPDB), do então Parque Regional de Motomecanização da 2º Região Militar (PqRMM/2). Os  veiculos pré-série ainda equipados com os canhoes de 76 mm seriam disponibilizados a algumas unidades que operavam o modelo em sua versão original, com o intuito de colher subsídios para um eventual aprimoramento do projeto. Assim estes carros seriam testados extensivamente nos mais variados tipos de terrenos, totalizando cerca de 4.500 km em estrada e 500 km em terrenos adversos, sendo possível aferir satisfatórios resultados. Em testes comparativos com o M-41A-3, avaliou-se que apesar do modelo modernizado apresentar uma velocidade final máxima em terreno plano inferior ao modelo original, seriam verificadas vantagens interessantes como maior torque e melhor autonomia, com seu alcance a gasolina de 110 km passando para aproximadamente 550 km em estrada. Neste contexto pelo fato de haver uma ampliação dos contratos, a Bernardini S/A optou por passar a linha de desmontagem e montagem, para a sua nova fábrica em Cotia na região metropolitana de São Paulo.  Com a definição do grupo mecânico, o programa avançaria para a segunda fase, envolvendo a troca do canhão de 76 mm, sendo montados em protótipos a arma francesa do modelo F-1 e posteriormente o 90 mm NR8500 mm da Engesa S/A, este produzido no país sob licença da Bélgica. Ambos seriam testados sendo aferidos excelentes resultados, porém despontaria também neste processo a adoção de uma solução de baixo custo sugerida pela Bernardini S/A. Esta nova proposta objetivava reusinar os tubos originais, alterando assim os calibres dos canhões de 76 mm para 90 mm, utilizando a mesma munição empregada nos EE-9 Cascavel já em plena produção e operação com grande êxito. 

Isso resolveria o problema de escassez de munição nos país do Exército Brasileiro, além do emprego da de carga oca, fato este que levaria a aceitação da proposta. Apesar deste conceito, seu processo de desenvolvimento seria alongado e neste meio tempo finalizados pela Bernardini S/A, noventa e um carros M-41B equipados com o canhão original de 76 mm, sendo distribuídos as unidades de cavalaria blindada, onde serviriam até serem convertidos para a nova versão M-41C. Com as definições finalizadas seria dado início a conversão dos canhões, com este processo envolvendo o broqueamento no calibre de 90 mm, apresentando o mesmo número de raias do modelo Cockerill Engesa podendo assim utilizar a mesma munição padrão empregado no EE-9 Cascavel. Neste momento como os canos originais de 76 mm eram maiores em comprimento, decidiu-se cortar para ficarem do mesmo tamanho de 3.600 mm de tubo, com esta arma recebendo a designação de Can 90mm 76/90M32Br1. Posteriormente aferiu-se que o tamanho não afetava o funcionamento quando transformado em 90 mm, e a partir deste momento não se cortaria mais o cano original, com esta arma com comprimento de tubo de 4.500 mm recebendo a designação de  Can 90mm 76/90M32Br2. Este processo de conversão envolvendo uma nova perfuração no canhão traria alguns problemas para diversos carros, pois as paredes internas, em alguns casos, possuíam um lado mais grosso que o outro, o que seria mais comum e encontrar nos carros remanescentes. Outro fator não resolvido era o fato que após alguns disparos, a torre se enchia de fumaça, dificultando o trabalho da tripulação, não funcionando muito bem os sistemas de extração de gases. Em resumos este processo de transformação não resultaria em uma arma mais eficiente que a de 76 mm, pois apenas foi levado em conta apenas o tipo de munição a ser empregada, com a original desenvolvendo uma velocidade de 732m/s com 11,7 kg de explosivo, contra 700m/s com 8,5 kg de explosivo no calibre de 90 mm. Posteriormente, surgiu a ideia de aumentar os calibres de 76 mm para 90 mm de baixa pressão. Foram feitos todos os ensaios e cálculos teóricos e verificou-se ser possível usar os mesmos tubos adotando-se para câmara um pedaço fretado, pois a câmara de 90 mm era de menor diâmetro que a original que tinha o formato cônico. Os primeiros disparos foram feitos estáticos e depois foram feitos testes de supressão. A precisão aferida seria excelente, muito superior ao de 76 mm original. Uma vez aceito, passar-se-ia a implementar esta transformação nas oficinas do Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP), sob a operação da Engesa S/A. Os primeiros canhões eram curtos com 3.600 mm (pois o ferramental não permitia fabricá-los mais compridos), levando a necessidade de emprego de um contrapeso, devido a posição de suspensão nos munhões.Os tubos dos canhões passariam a ser modificados no AGSP na linha de produção da Engesa S/A lá existente, e as culatras eram adaptadas e modificadas na fábrica da Bernardini S/A.                                    Devido à elevada carga de compromissos assumidos pela Engesa S/A junto a diversos contratos governamentais, a empresa acabou por priorizar outros projetos em detrimento do programa de modernização do M-41. Diante desse impasse, optou-se por buscar uma nova linha de produção que pudesse assegurar a continuidade e o bom andamento das transformações planejadas. Com o apoio do Exército Brasileiro, a Bernardini S/A estruturou uma linha própria (“in house”) dedicada exclusivamente a esse processo. A adoção de um novo ferramental permitiu preservar o comprimento original do tubo do canhão, de 4.500 mm, sendo introduzidas, a pedido da Força Terrestre, alterações em sua geometria interna, inspiradas nos canhões franceses F-4. O modelo final, fruto dessa reengenharia, recebeu a designação oficial Canhão 90 mm 76/90 M32Br3, tornando-se o primeiro do gênero com capacidade de empregar munições do tipo APDSFS – “Flecha”, o que representou um expressivo avanço tático para os carros de combate nacionais. Os testes conduzidos no Campo de Provas de Marambaia evidenciaram que as diferenças balísticas entre as versões Br1 e Br2 eram mínimas, sendo a adaptação do novo armamento aos M-41C relativamente simples. Por esse motivo, não era incomum observar, nos anos subsequentes, ambas as versões operando simultaneamente nas unidades blindadas. Durante a segunda metade da década de 1980, a Bernardini intensificou seus esforços para exportar o kit de modernização do M-41 a outras forças armadas que ainda operavam o M-41 Walker Bulldog em larga escala. Em 1987, a empresa ofereceu a solução à Dinamarca, em parceria com a companhia alemã Krauss-Maffei, enviando um exemplar do M-41B ao país para testes de campo que se estenderam por 45 dias, ao término dos quais o veículo foi devolvido. No ano seguinte, em 1988, ocorreu a primeira experiência prática com o kit de remotorização, instalado em um M-41A3 pertencente ao Exército da Tailândia, que o avaliou durante três meses. Na sequência, outro conjunto de modernização participou de uma concorrência promovida pelo Exército de Taiwan, cuja frota então superava a centena de unidades do modelo, configurando-se como um cliente potencialmente relevante. Apesar dos resultados positivos obtidos nos testes, tanto a Tailândia quanto Taiwan acabaram por aceitar propostas mais vantajosas apresentadas pelo governo dos Estados Unidos, que incluíam o reequipamento de suas forças blindadas com os modernos M-60 Patton. Antes mesmo dessas tentativas de exportação, em 1980, a Bernardini S/A já havia conquistado um contrato internacional de destaque: a modernização de vinte e dois M-41A1 pertencentes ao Exército do Uruguai, consolidando sua expertise e projeção no cenário latino-americano da indústria de defesa.

Emprego no Exército Brasileiro.
Os primeiros M-41B, informalmente apelidados de Brazilian Bulldog, começaram a ser incorporados ao serviço ativo no final de 1979, equipando inicialmente o 2º Regimento de Carros de Combate (RCC), sediado em Pirassununga, interior do estado de São Paulo. A escolha dessa unidade não foi aleatória: os veículos da pré-série, utilizados nos testes e no processo de homologação, já se encontravam sob a responsabilidade do regimento, o que facilitou a transição operacional. À medida que as entregas foram sendo realizadas, a partir de meados de 1980, outros regimentos também passaram a receber o modelo repotenciado, destacando-se o 4º RCC e o 1º RCC. Apesar de manterem o canhão original M-32 de 76 mm, os 91 M-41B produzidos apresentaram desempenho notável em campo, recebendo elogios principalmente por sua maior autonomia, elevado torque e pelo novo sistema elétrico, muito mais confiável que o do modelo anterior. O êxito do programa motivou a assinatura de um novo contrato, ampliando o escopo da modernização para abranger toda a frota remanescente, composta por 212 carros  entre as variantes M-41, M-41A1 e M-41A3. Entretanto, 54 unidades do M-41A3 Walker Bulldog, adquiridas do Japão em 1982, foram excluídas do programa, sendo destinadas exclusivamente ao fornecimento de peças de reposição. Com o avanço dos estudos voltados à substituição do canhão principal por um modelo de 90 mm, começaram a ser concluídas, nas instalações da Bernardini S/A, as primeiras unidades do M-41C, designação que marcava a segunda fase do programa. Popularmente chamados de “Caxias”, esses veículos eram inicialmente armazenados até que recebessem seus novos canhões. As conversões consistiam na usinagem dos tubos originais de 76 mm, transformando-os para o calibre 90 mm, procedimento realizado sob rigorosos testes de qualidade no Campo de Provas de Marambaia, no Rio de Janeiro. Ali, cada arma era submetida a ensaios balísticos em estativa; as que fossem aprovadas eram incorporadas aos carros, enquanto as que apresentassem falhas irreparáveis eram substituídas por tubos reservas. Para reforçar o estoque estratégico de armamento, a Bernardini S/A adquiriu ainda 22 canhões de 76 mm provenientes do Exército Uruguaio, que havia recentemente substituído esses armamentos pelos Cockerill Mk IV de 90 mm. Essa aquisição permitiu ampliar a reserva técnica e garantir a continuidade do programa de conversão. Os testes realizados em Marambaia demonstraram mínimas diferenças balísticas entre as versões Br1 e Br2 do novo canhão, cuja adaptação aos M-41C mostrou-se simples e eficiente. Apesar disso, era comum observar, ao longo dos anos seguintes, ambas as versões operando lado a lado em diversas unidades blindadas. De modo geral, a maioria dos M-41C foi equipada com o Canhão 90 mm 76/90 M32Br2, embora algumas unidades tenham recebido o M32Br1, de tubo com 3.600 mm de comprimento. Diversos veículos dessa configuração permaneceram em operação regular, notadamente junto ao 5º Regimento de Carros de Combate, sediado em Rio Negro, no estado do Paraná, atestando a robustez e a longevidade do projeto de modernização conduzido pela indústria nacional. 

Na configuração final do programa de modernização, a alteração estética e funcional mais evidente foi aplicada à torre dos carros de combate M-41B. Ao redor da torre original foram instalados vários compartimentos laterais blindados; suas paredes externas foram fabricadas em aço de blindagem, enquanto as tampas foram executadas em aço comum de construção mecânica. Essa solução visava criar um estágio de detonação exterior: em caso de impacto por munição, os elementos adicionais eram projetados para explodir ou deformar-se antes de atingir a blindagem principal da torre, aumentando assim a proteção contra projéteis do tipo HESH (High Explosive Squash Head). No novo projeto de torre foram também incorporados cinco lançadores de granadas fumígenas, uma inovação tardia, porém significativa, para a Arma de Cavalaria Blindada do Exército. Uma opção não adotada — mas que constou como alternativa durante os testes — foi a instalação de saias laterais (skirts), que, se integradas, teriam acrescido proteção contra cargas ocas. Embora esse recurso estivesse presente em projetos contemporâneos promissores porém frustrados,  como o Engesa EE-T1 Osório e o Bernardini MB-3 Tamoyo, sua aplicação rotineira nas forças brasileiras só viria a ocorrer décadas mais tarde, com a adoção dos VBC CC Leopard 1A5 em 2006. O processo de modernização, contudo, não foi isento de dificuldades práticas. A integração entre empresas privadas — nacionais e estrangeiras — e os diversos órgãos do Exército revelou-se complexa. Etapas do programa ficaram distribuídas entre múltiplos atores, frequentemente com cronogramas apertados e ritmos de trabalho distintos entre o setor público e o privado, o que prejudicou a coordenação e o cumprimento de prazos. Esse quadro de dificuldades está refletido nos relatórios do comandante do 4º Regimento de Carros de Combate (RCC), relativos ao recebimento dos primeiros 34 M-41C em 1985. Os documentos registravam problemas recorrentes, tais como vazamentos de água e de fluidos nos tanques de expansão e lubrificação, falhas em suportes e braçadeiras, deficiências na filtragem de combustível e pane nos motores de partida e em diversos elementos do sistema elétrico. As torres apresentavam defeitos generalizados — desde falhas nos circuitos de disparo elétrico até problemas nos mecanismos de elevação e na direção. Identificou-se ainda mau funcionamento nos exaustores das torres, que, em muitos casos, apenas ventilavam sem cumprir sua função plena. Além desses problemas de maior monta, verificaram-se faltas de itens de montagem e acabamento: dos veículos entregues, 22 foram recebidos sem o encosto do banco do motorista e sem as algemas destinadas a fixar a couraça traseira, entre outras ausências de componentes de menor impacto individual, mas significativas em conjunto.
É importante também salientar que os M-41, M-41A1, M-41A2 e M-41A3 eram retirados das unidades operativas, modernizados e entregues novamente, ficando muitos problemas para serem sanados diretamente quanto ao seu uso, até que assim fosse possível se implementar uma padronização, à medida que este processo avançava, e os primeiros lotes seriam novamente encaminhados a Bernardini S/A para novamente serem padronizados como os demais. Deve-se citar que este programa ao envolver várias versões do M-41 presentes na frota nacional, geraria uma denominação de registro de blindado no Exército Brasileiro para cada carro modernizado, nascendo assim o M-41C, M-41A1C, M-41A2C e M-41A3C. Porém como isto trazia uma certa complicação para seus usuários finais, optou-se por adotar a nomenclatura apenas com o final "C", que muitos afirmam ser de Caxias, mas que nunca foi. Apesar da implementação de vários programas de ordem corretiva, a partir de 1987 seriam identificados problemas as caixas de transmissão CD-500 dos M-41C do 4 º Regimento de Carros de Combate (RCC), sendo necessário prover a troca do pinhão (converter drive gear) e da roda do conversor (convert pump drive gear). Todo este processo seria realizado integralmente nos Parques Regionais de Motomecanização, cabendo a Moto Peças Transmissões S/A a fabricação destes novos componentes. No entanto esta solução não atenderia as demandas existentes, levando ao reprojeto de vários itens, com a solução definitiva sendo implementada somente a partir de meados do ano de 1988. Com a maioria dos problemas resolvidos os M-41C Caxias voltariam a carga plena dotando a 5º Brigada de Cavalaria Blindada (BDA C BlD), o 1º , 2º, 3º , 4º e 5º Regimentos de Carros de Combate (RCC), 4º, 6º, 9º e 20º Regimentos de Cavalaria Blindado (RCB). Seriam ainda distribuídos a Escola de Material Bélico, berços dos blindados e templo de manutenção do Exército Brasileiro, além do 15º Regimento de Cavalaria Mecanizado (RC Mec) e Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Estes carros de combate, devido a seu tamanho e peso, possuíam a capacidade para serem plenamente transportados por via férrea, sem trazer problemas para a malha ferroviária do país, podendo ser facilmente transportadas em pranchas especializadas sem a necessidade de grandes modificações. Esta estrutura fora desenvolvida anteriormente para a operação dos M-41, M-41A1 e M-41A3 envolvendo alguns tipos de rampas fixas e móveis que facilitavam seu embarque. Também podiam ser transportados em pranchas rodoviárias existente no Exército Brasileiro e nas empresas de transporte civil. Esta facilidade proporcionaria a Força Terrestre quando no emprego dos M-41C Caxias um poder de mobilidade em âmbito nacional jamais observado na História da cavalaria blindada. Com este patamar infelizmente nunca mais ter sido alcançado, principalmente devido ao peso superior dos carros de combate incorporados ao longo dos anos seguinte, que compromete as capacidades da estrutura rodoviária e ferroviária nacionais.   

Após as entregas dos últimos carros M-41C Caxias, seria celebrado junto a Bernardini S/A um contrato complementar para proceder a atualização dos primeiros noventa e um M-41B para o modelo M-41C, criando assim uma padronização de toda a frota. Salienta-se que todos os carros recebidos durante a década de 1960 foram modernizados, e os diversos M-41A-3 em sua versão original preservados atualmente em diversas localidades são na verdade os carros de combate adquiridos do Japão no ano de 1982 que foram destinados somente a servir como fontes de peças de reposição. Ao longo dos anos seguintes os M-41C Caxias seguiram prestando excelentes serviços ao Exército Brasileiro, no entanto seu desempenho poderia ter sido muito melhor caso fossem destinadas verbas adequadas para sua completa modernização envolvendo não só a adoção do canhão Engesa NR8500 mm, mas também outras melhorias. Entre estas destaca-se a possibilidade do emprego de munição do tipo flecha, que poderia ser importada e posteriormente nacionalizada, pois um sistema semelhante se encontrava em desenvolvimento junto ao Centro Tecnológico do Exército (CTEx).  Em termos de sistemas embarcados, citamos os testes realizados em um M-41C equipado com um sistema sigth com laser e visão noturna, fabricado pela empresa norte-americana Kollmorgen. O sight era o M-220, totalmente intercambiável com o futuro MB-3 Tamoyo, recebendo dados de um computador Ferranti, que seria fabricado no Brasil. Este equipamento traria um grande diferencial tático para a arma de cavalaria blindada. Por fim seria desenvolvido e testado um sistema de blindagem adicional seguindo o conceito "add on" acoplada através de parafusos, na parte frontal do veículo, reforçando a face (glacis) e a parte superior a partir desta. Esta solução seria criada com investimentos próprios da Bernardini S/A, sendo desenvolvida a partir de uma blindagem monometálica desenvolvida em conjunto com o Centro Tecnológico do Exército (CTEx). O objetivo deste conjunto era o de proporcionar o aumento da proteção da face frontal do M-41C, que em tese, naquele momento, poderia ter de hipoteticamente enfrentar os carros de combate TAM argentinos, equipados com o canhão L7 de 105 mm. Esforços comerciais seriam feitos junto a Diretoria de Material Bélico (DBM), visando incluir este acessório no pacote de modernização, porém apesar do aceite formal, as limitações orçamentárias vigentes naquele época levariam a produção de somente cinquenta conjuntos junto as instalações do Parque Regional de Motomecanização da 3º Região Militar (PqRMM/3) em Santa Maria no estado do Rio Grande do Sul. Com este processo sendo conduzido sob a supervisão de técnicos da empresa e militares daquela organização, com este sistema de proteção adicional sendo esporadicamente empregado pelos  Regimentos de Carros de Combate (RCC). A incorporação dos carros de combate Leopard 1A1 Krauss Maffei a partir de 1997,  daria inicio a um gradual processo de desativação dos M-41C Caxias, afetando inicialmente os  Regimentos de Carros de Combate (RCC). Este movimento seria intensificado no ano seguinte quando os  4° e 5° RCC, em Rosário do Sul e Rio Negro passaram a operar exclusivamente os M-60A3 TTS MBT.  
A partir deste momento à medida que estes carros de combate iam sendo retirados de serviço, alguns, muitos poucos, passariam a ser utilizados para outras funções. Este processo envolvia a remoção de suas torres, sendo convertidos em veículos escola e rebocadores. No caso do primeiro modelo, esta customização visava a formação de motoristas e, para que fosse utilizada para esta finalidade, no espaço em que se encontrava a torre com canhão após a sua remoção, sendo ali instalada uma cadeira que ficava quase toda fora do veículo, fixada a uma estrutura metálica de fácil confecção, servindo para que o instrutor pudesse acompanhar o aprendizado do motorista e controlá-lo. Já a versão rebocadora receberia um par de bancos que ficavam totalmente no interior do veículo, no compartimento da torre, possibilitando assim transportar pessoal sentado para apoiar a missão que fosse necessário cumprir e usando o chassi como se fosse um trator sobre lagartas. Seria utilizado para empurrar ou tracionar outras viaturas que precisassem ser removidas ou até socorridas, sejam nos quarteis ou em manobras quer eram frequentes. No final da década de 2010 os M-41C remanescentes em serviço passariam a ser concentrados nos Regimento de Cavalaria Blindado (RCB), como o 20º baseado na cidade de Campo Grande, MS, 9º em São Gabriel, 6º em Alegrete, 4º em São Luiz Gonzaga, todos no RS, Regimento Escola de Cavalaria Andrade Neves. No início da década seguinte somente o 20º Regimento de Cavalaria Blindado (RCB) ainda operava o M-41C Caxias, com estes passando a ser desativados a partir do ano de 2009, quando o advento do recebimento dos novos Leopard 1A5 promoveria um programa de redistribuição das forças blindadas. Neste contexto seria definido que os M-60A3 TTS fossem transferidos para este regimento, permitindo desativar os derradeiros M-41C.  No entanto este não seria o fim da carreira destes carros de combate, pois em junho de 2018 a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania aprovaria o Projeto de Lei 6643/13, do Executivo, autorizando a doação de vinte e cinco M-41C para o Exército do Uruguai, atendendo as demandas geradas por acordo entre os dois países. Estes carros de combate seriam então revisados pelo Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar (Pq R Mnt/3), sendo entregues oficialmente aos militares uruguaios em outubro de 2019.   

Em Escala.
Para representarmos o  Bernardini M-41C Caxias "EB22957" pertencente ao Exército Brasileiro,  empregamos como base o kit da Tamiya na escala 1/35. Para se compor a versão modernizada, tivemos de implementar diversas alterações em scratch build, com foco no chassi (parte traseira), torre (laterais) e canhão de 90 mm. Empregamos neste modelo decais fabricados pela Decals e Books presentes no Set " Forças Armadas do Brasil ".
Inicialmente os M-41B Brazilian Buldog e M-41C Caxias (dos primeiros lotes) empregariam o padrão de pintura total em verde oliva, mesmo esquema aplicado aos M-41, M-41A1, M-41A2 e M-41A3 quando de seu recebimento na década de 1960. A partir do ano de 1983 estes carros de combate receberiam novo padrão de camuflagem tático de dois tons adotados para todos os veículos do Exército Brasileiro, com este sendo descrito abaixo.

Bibliografia :
M-41 Walker Buldog - http://pt.wikipedia.org/wiki/M41_Walker_Bulldog
- Blindados no Brasil Volume I, por Expedito Carlos S. Bastos
- Blindados no Brasil Volume II, por Expedito Carlos S. Bastos
- M-41C Rede de Tecnologia & Inovação do Rio de Janeiro - http://www.redetec.org.br/inventabrasil/caxias.htm
- Carro de combate M-41 no Exército Brasileiro - http://www.defesanet.com.br

M-62 e M-543 REO Viatura Socorro (VTE)

História e Desenvolvimento.  
Em agosto de 1897, Ransom Eli Olds, um engenheiro e designer de automóveis movido por uma paixão incansável pela inovação, fundou a Olds Motor Vehicle Company na cidade de Lansing, Michigan. Esse marco deu origem à marca Oldsmobile, que, ao longo das décadas, se tornaria sinônimo de excelência no mercado automotivo, conquistando o imaginário global com seus icônicos carros de passeio. A Oldsmobile não foi apenas uma empresa – foi a expressão do sonho de Olds de transformar a mobilidade, conectando pessoas e comunidades por meio de veículos confiáveis e elegantes. Em 1904, com a Oldsmobile já consolidada, Ransom Eli Olds decidiu embarcar em um novo desafio empresarial. Em parceria com outros empreendedores, ele fundou a REO Motor Car Company, na qual detinha 52% do capital acionário e assumiu os papéis de presidente e gerente geral. Para focar nessa nova empreitada, Olds tomou a difícil decisão de deixar a Olds Motor Vehicle Company em 1905, confiando que sua visão continuaria a prosperar em novas mãos. A REO, batizada com as iniciais de seu fundador, tornou-se o próximo capítulo de sua jornada, marcada pela mesma determinação que o levou a revolucionar a indústria automotiva. Para garantir a eficiência e a qualidade da REO, Olds demonstrou sua visão estratégica ao estabelecer empresas subsidiárias dedicadas à produção de componentes essenciais. A National Coil Company, a Michigan Screw Company e a Atlas Drop Forge Company foram criadas para formar uma cadeia de suprimentos confiável, reduzindo a dependência de fornecedores externos e assegurando a robustez dos veículos REO. Essa abordagem refletia não apenas sua perspicácia empresarial, mas também seu compromisso com a criação de empregos e o fortalecimento da economia local em Michigan. Inicialmente, Olds planejou nomear sua nova empresa como “R.E. Olds Motor Car Company”. Contudo, uma disputa legal movida pela Olds Motor Vehicle Company, que alegava confusão potencial entre os nomes devido à semelhança fonética, levou à mudança para “REO”. A partir de então, a marca REO, escrita em letras capitais ou, em algumas ocasiões, como “Reo”, tornou-se um símbolo de inovação e qualidade, estampada em veículos e materiais promocionais que conquistariam admiradores nos Estados Unidos e além. Em 1905, a REO lançou seu primeiro modelo, o Reo Speed-Wagon, um precursor das picapes modernas que combinava funcionalidade com design prático. O sucesso inicial do Speed-Wagon trouxe resultados animadores, consolidando a REO como uma força ascendente no mercado automotivo. Em 1907, a empresa alcançou um faturamento bruto superior a 4,5 milhões de dólares, posicionando-se entre as quatro maiores montadoras dos Estados Unidos. Esse êxito foi impulsionado pela dedicação de Olds e de sua equipe, que trabalhavam incansavelmente para expandir o portfólio da empresa com modelos que atendiam às necessidades de um público diversificado. Apesar do sucesso inicial, a partir de 1908, a REO enfrentou desafios crescentes devido à concorrência de montadoras emergentes, como a Ford Motor Company e a General Motors. Mesmo com a introdução de carros mais modernos e luxuosos, a participação de mercado da REO começou a declinar, exigindo adaptação e inovação contínuas para manter sua relevância. Em 1910, a REO estabeleceu uma divisão dedicada à fabricação de caminhões, com uma planta industrial localizada em St. Catharines, Ontário, Canadá. Essa iniciativa ampliou o alcance da empresa, atendendo à crescente demanda por veículos utilitários. Um dos episódios mais memoráveis da história da REO ocorreu em 1912, com a épica viagem Trans-Canadá. Um carro de turismo especial REO de 1912 percorreu 4.176 milhas (6.720 km) de Halifax, Nova Escócia, a Vancouver, Colúmbia Britânica, demonstrando a durabilidade e a confiabilidade dos veículos da marca. 

Em 1915, Ransom Eli Olds passou o cargo de gerente geral a seu protegido, Richard H. Scott, e, em 1923, deixou a presidência, mantendo-se como presidente do conselho. Sua saída da liderança operacional marcou o fim de uma era, mas seu legado continuou a guiar a empresa. Nesse mesmo ano, a REO lançou o “Motor Pullman Car”, um veículo recreativo pioneiro, conhecido popularmente como motorhome. Esse modelo conquistou uma fatia significativa do mercado, refletindo a capacidade da REO de antecipar tendências e atender às aspirações de uma sociedade em busca de novas formas de mobilidade e lazer. Entre 1915 e 1925, sob a liderança de Richard H. Scott, a REO Motor Car Company desfrutou de um período de alta lucratividade, consolidando sua posição no competitivo mercado automotivo norte-americano. Esse sucesso inspirou a empresa a lançar um ambicioso programa de expansão, projetado para ampliar sua competitividade ao oferecer carros de passeio em diversas faixas de preço, acessíveis a diferentes classes sociais. Modelos como o Reo Flying Cloud, lançado em 1927, e o sofisticado Reo Royale 8, introduzido em 1928, alcançaram êxito comercial, conquistando admiradores pela combinação de design e desempenho. Contudo, o programa de expansão revelou-se insustentável, culminando em um retumbante fracasso agravado pela Grande Depressão de 1929, que abalou profundamente a indústria automotiva dos Estados Unidos. As consequências da Grande Depressão foram devastadoras, trazendo perdas financeiras severas para a REO e para toda a cadeia produtiva automotiva. Diante desse cenário crítico, Ransom Eli Olds, fundador da empresa, interrompeu sua aposentadoria em 1933, reassumindo o comando com a determinação de reverter os resultados negativos. Com sua visão estratégica e experiência, Olds conseguiu, em um curto espaço de tempo, estabilizar as finanças da companhia, reacendendo a esperança entre trabalhadores e investidores. Sua liderança foi um farol em tempos de incerteza, mas, fiel ao seu legado de delegar responsabilidades, ele se retirou novamente do comando no final de 1934, deixando a empresa em bases mais sólidas. Nesse período, análises mercadológicas revelaram a necessidade de uma mudança estratégica. Em 1936, a REO tomou a decisão de abandonar a produção de carros de passeio, concentrando-se exclusivamente no mercado de caminhões, onde já vinha obtendo resultados promissores desde 1934. Modelos como o REO Fire Truck, voltado para bombeiros, e, a partir de 1936, o REO Bus e o REO Speed Wagon Truck, destacaram-se pela robustez e versatilidade, conquistando a confiança de clientes comerciais. Esses veículos não eram apenas máquinas – eram ferramentas que apoiavam comunidades, desde o combate a incêndios até o transporte público, refletindo o compromisso da REO com a funcionalidade e o serviço. Apesar dos sucessos no segmento de caminhões, a REO enfrentou problemas de gestão que geraram instabilidade financeira e fiscal. No início de 1939, a empresa atingiu seu ponto mais crítico, com a interrupção da linha de produção devido à inadimplência com fornecedores, que comprometeu o fluxo de componentes. Esse momento de dificuldade testou a resiliência dos trabalhadores, que, mesmo diante da incerteza, mantiveram a esperança de um recomeço. 
A virada veio em 1940, impulsionada pelo agravamento das tensões geopolíticas na Europa e no Sudeste Asiático. Antecipando a possibilidade de envolvimento na Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos implementou medidas para fortalecer sua indústria automotiva, visando preparar a cadeia produtiva para o reequipamento das forças armadas. Nesse contexto, os credores da REO receberam aportes governamentais, permitindo à empresa recuperar sua capacidade produtiva. Esse apoio foi mais do que financeiro – foi um reconhecimento do potencial da REO para contribuir com o esforço nacional, reacendendo o orgulho de seus funcionários. A partir de meados de 1941, a REO Motor Car Company integrou-se plenamente ao esforço de guerra norte-americano, redirecionando suas linhas de produção para a fabricação de componentes militares, incluindo motores e caminhões de porte médio para diversas aplicações. Um dos destaques foi a produção do Studebaker US6 2½-ton 6x6 truck, um caminhão robusto que se tornou essencial para a logística militar. A REO entregou mais de 22 mil unidades desse modelo, muitas destinadas à União Soviética sob os termos do Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). O término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, trouxe à REO Motor Car Company um momento de estabilidade financeira há muito não experimentado, resultado de sua intensa participação no esforço de guerra norte-americano. A produção de caminhões militares, como o Studebaker US6, havia fortalecido a empresa, mas, com o fim do conflito, a demanda por esses veículos diminuiu gradualmente, exigindo uma reorientação estratégica. Para os trabalhadores da REO, que haviam dedicado longas horas às linhas de produção durante a guerra, esse novo cenário representava tanto um desafio quanto uma oportunidade de redefinir o futuro da companhia, mantendo viva a chama da inovação que sempre a caracterizou. Reconhecendo a necessidade de diversificar suas operações, a REO lançou, em 1946, uma divisão industrial dedicada à produção de cortadores de grama movidos a gasolina. Essa decisão, aparentemente simples, revelou-se uma estratégia visionária. Os cortadores de grama garantiram lucros consistentes e um fluxo de caixa positivo, sustentando a empresa durante os três anos seguintes, marcados por uma significativa redução nas vendas de caminhões. Para os funcionários, essa nova linha de produção não era apenas uma fonte de renda – era um símbolo de adaptação, permitindo que a REO atravessasse um período de incerteza com resiliência e esperança. O aprendizado adquirido com a fabricação de caminhões militares sob licença durante a guerra inspirou a liderança da REO a reinvestir no segmento de veículos pesados. Antecipando a necessidade iminente de renovação da frota militar norte-americana, a empresa destinou recursos próprios ao desenvolvimento de uma nova família de caminhões de transporte pesado com tração integral. Essa aposta refletia a confiança dos engenheiros e gestores da REO em sua capacidade de inovar, bem como o compromisso de atender às demandas de um mercado em transformação. No final da década de 1940, o Exército dos Estados Unidos lançou uma concorrência para o desenvolvimento de um novo caminhão militar com tração 6x6, destinado a substituir a frota envelhecida de modelos como o GMC CCKW 353 e o Studebaker US-6G, que apresentavam sinais de desgaste e obsolescência. Esse programa representava uma oportunidade de grande relevância, com um contrato que prometia revitalizar a indústria automotiva militar. 

Diversas montadoras apresentaram propostas, mas o projeto conceitual da REO, centrado no caminhão M-34, destacou-se pela sua ousadia e inovação, capturando a atenção dos militares. Equipado com um sistema de trânsito subaquático, o M-34 podia atravessar rios e lagos por até quatro horas, utilizando um snorkel para o motor e um escapamento estendido. Essa capacidade, incomum para a época, desafiava as convenções e posicionava o M-34 como uma das maiores inovações no universo dos caminhões, um legado que permanece admirado até hoje. Alimentado por um motor a gasolina OA-331 Continental I-6, o veículo era capaz de transportar até duas toneladas e meia, destacando-se especialmente em operações fora de estrada, onde sua tração integral 6x6 garantia desempenho excepcional. Um primeiro lote de produção pré-série seria contratado, com estes caminhões sendo destinados a um extenso programa de testes de campo, com estes sendo iniciados no início do ano de 1950. O resultado deste processo, levaria o comando do Corpo Técnico do Exército dos Estados Unidos (US Army) há homologar seus parâmetros operacionais.  Em seguinte seria firmado um primeiro contrato envolvendo a aquisição de cinco mil caminhões, que seriam produzidos nas linhas de montagem da montadora na cidade Lansing, no estado de Michigan. Os primeiros REO M-34 passariam a ser entregues as unidades operativas do exército já em setembro de 1950. O REO M-34 teve seu batismo de fogo durante a Guerra da Coreia (1950-1953), quando centenas de unidades foram enviadas para a linha de frente. Em terrenos acidentados e sob condições extremas, o caminhão demonstrou sua capacidade única de atravessar rios e córregos, graças ao inovador sistema de trânsito subaquático. Essa habilidade conquistou o coração das tropas, que carinhosamente o apelidaram de “Eager Beaver” – uma referência a um castor animado de desenho animado, simbolizando sua capacidade de atravessar rios e córregos em terrenos adversos. No entanto, o uso contínuo em operações reais revelou limitações no projeto original. Problemas de desempenho em terrenos desafiadores e a potência insuficiente do motor a gasolina OA-331 Continental I-6 de seis cilindros demandaram melhorias. A REO respondeu com agilidade, introduzindo alterações significativas, como a adoção de conjuntos duplos de pneus nos eixos traseiros, que aumentaram a capacidade de carga e facilitaram o deslocamento fora de estrada. O motor foi substituído por um novo conjunto multifuel, mais eficiente e adaptável, resultando na evolução do modelo para o REO M-35. Após o fim da Guerra da Coreia em 1953, a REO enfrentou um revés significativo ao perder uma concorrência para a General Motors Corporation, que conquistou novos contratos de produção com o Exército dos Estados Unidos. Esse golpe testou a resiliência da empresa, mas a REO encontrou uma nova oportunidade com o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A crescente demanda por caminhões militares levou à assinatura de um novo contrato, permitindo que a REO retomasse a produção em larga escala de seu modelo REO M-35.
A introdução do REO M-35A2, uma evolução aprimorada do caminhão militar M-35, marcou um capítulo notável na história da REO Motor Car Company e das forças armadas norte-americanas. Equipado com o motor multicombustível LDT 465 Turbo de 478 polegadas cúbicas (7,8 L), produzido pela Continental Motors Company, Hercules ou White Motor Company, o M-35A2 desenvolvia 134 cv (100 kW) e 330 pés-lb (447 N⋅m) de torque. Esse motor, projetado para operar com uma ampla gama de combustíveis – incluindo diesel, querosene, óleo de aquecimento e gasolina –, oferecia uma flexibilidade operacional que era essencial em cenários de guerra e missões remotas. Para os soldados que dependiam do M-35A2, essa versatilidade não era apenas uma especificação técnica – era a garantia de que suprimentos e apoio chegariam, independentemente das condições. O M-35A2 contava com uma transmissão manual de cinco velocidades, acoplada a uma caixa de transferência divorciada de duas velocidades, como a Rockwell 136-21 (operada por sprag) ou a Rockwell 136-27 (selecionável e operada a ar). Essa configuração assegurava desempenho robusto em terrenos desafiadores, consolidando o caminhão como um pilar da logística militar. Embora a versão A2 fosse a mais comum, a família M-35 incluía os modelos Standard, A1, A2 e A3, com o Standard equipado com o motor a gasolina REO “Gold Comet” ou Continental OA331 de seis cilindros. As versões A1 e A3, por sua vez, frequentemente utilizavam transmissões de quatro velocidades, enquanto a maioria dos A2 contava com caixas “diretas” de cinco velocidades, otimizando a eficiência. Adotado em larga escala a partir de 1965, o REO M-35A2 tornou-se o principal caminhão de transporte das forças armadas norte-americanas, destacando-se pela sua capacidade de carga de até duas toneladas e meia e pela adaptabilidade a diversas funções. Além do modelo padrão, foram desenvolvidas versões especializadas, como tanque de combustível e cisterna de água (M-49), oficina de reparos gerais (M-109), basculante (M-47), guindaste (M-108, M-62 e M-543), bombeiro (530B) e reparo de linhas telefônicas (M-763). Uma variante de distância entre eixos extralonga, o M-36, com uma caçamba de 16 pés (4,9 metros), ampliou ainda mais sua utilidade. Para os militares que operavam essas versões, o M-35A2 era mais do que um veículo – era um parceiro indispensável, capaz de transformar desafios logísticos em soluções práticas. A versatilidade do M-35A2 transcendeu as fronteiras dos Estados Unidos, com milhares de unidades exportadas ou produzidas sob licença para as forças armadas de países como Argentina, Áustria, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Egito, Israel, Turquia, Vietnã e muitos outros. Em cada nação, o caminhão carregava a missão de conectar tropas, transportar suprimentos e apoiar comunidades, muitas vezes em condições extremas. Nos Estados Unidos, a família M-35 permaneceu em serviço até 1996, quando foi gradualmente substituída pelos veículos do programa FMTV (Family of Medium Tactical Vehicles), como o M-1078. Essa transição marcou o fim de uma era, mas não apagou o impacto do M-35A2, que continuou a ser lembrado como um dos caminhões militares mais confiáveis e inovadores de sua época. Sua capacidade de operar em terrenos adversos, atravessar corpos d’água e adaptar-se a múltiplas funções deixou uma marca indelével na história militar.  

Emprego no Exército Brasileiro.
A adesão do Brasil ao esforço de guerra aliado durante a Segunda Guerra Mundial, por meio do programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), representou um divisor de águas para as Forças Armadas Brasileiras. Entre 1942 e 1945, o país recebeu um vasto conjunto de recursos, incluindo aeronaves, navios, armamentos, veículos e equipamentos militares, que fortaleceram significativamente sua capacidade operacional. Para o Exército Brasileiro, esse apoio traduziu-se na incorporação de mais de cinco mil caminhões militares com tração integral, pertencentes às famílias GMC CCKW, Studebaker US6G, Ward LaFrance, Corbitt e Diamond. Esses veículos, destinados a missões de transporte e aplicações especializadas – como socorro, cisterna, comando e basculante –, trouxeram uma experiência transformadora, elevando a mobilidade de tropas e cargas a patamares até então inimagináveis. Para os soldados que os operavam, esses caminhões eram mais do que máquinas – eram símbolos de prontidão, conectando a determinação militar à missão de defender a soberania nacional. No entanto, ao final da década de 1950, essa frota começou a apresentar preocupantes índices de indisponibilidade. O desgaste operacional, agravado pela dificuldade de importar peças de reposição – especialmente porque muitos desses modelos haviam sido descontinuados nos Estados Unidos há mais de uma década –, comprometeu gravemente a operacionalidade do Exército Brasileiro. Essa situação gerou profunda preocupação no comando da Força Terrestre, pois a redução da capacidade tática ameaçava a eficácia das operações militares. Para os militares responsáveis pela logística, o desafio era claro: encontrar soluções que preservassem a mobilidade essencial para missões de integração territorial e defesa, em um contexto de recursos limitados. A gravidade do cenário demandou estudos minuciosos para identificar soluções viáveis a curto e médio prazo. A opção mais imediata seria a aquisição de um número semelhante de caminhões militares modernos com tração 4x4 e 6x6, com destaque para os modelos REO M-34 e M-35, conhecidos por sua robustez e versatilidade em operações exigentes. Contudo, o investimento necessário para adquirir um lote significativo desses veículos revelou-se incompatível com as restrições orçamentárias do Exército Brasileiro na época. Essa realidade impôs a busca por alternativas mais práticas, capazes de equilibrar eficácia operacional com viabilidade financeira. Após análises detalhadas, três soluções complementares foram propostas. A primeira consistia na aquisição de um número reduzido de caminhões militares modernos, como os REO M-34 e M-35, para atender às necessidades mais críticas. A segunda envolvia a repotencialização dos caminhões GMC CCKW 352-353 e Studebaker US6G, visando prolongar sua vida útil por meio de reformas e atualizações. A terceira alternativa propunha a incorporação de caminhões comerciais militarizados, que poderiam assumir missões secundárias, aliviando a pressão sobre a frota militar. 

Juntas, essas medidas prometiam restaurar um nível mínimo de capacidade operacional, garantindo que o Exército pudesse cumprir suas responsabilidades com maior segurança. No entanto, a segunda opção – a repotencialização dos caminhões existentes – foi descartada após estudos aprofundados conduzidos pela equipe do Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2). A análise revelou que a falta de experiência técnica e infraestrutura para implementar um programa de tal magnitude em escala tornava a iniciativa inviável.  Com o desgaste operacional e a crescente dificuldade de obtenção de peças de reposição, a capacidade de mobilização da Força Terrestre estava comprometida. Nesse cenário, a adoção de caminhões militarizados produzidos no Brasil ganhou destaque, impulsionada pelo apoio do governo brasileiro ao fortalecimento da indústria automotiva nacional. Essa iniciativa, que atraiu montadoras internacionais ao país, representava mais do que uma solução logística – era um símbolo de progresso, conectando a visão estratégica do Exército ao desenvolvimento econômico e industrial do Brasil. A primeira medida significativa foi a formalização de um acordo com a Fábrica Nacional de Motores (FNM), uma empresa estatal de capital misto sediada no Rio de Janeiro, que mantinha uma parceria comercial com a montadora italiana Alfa Romeo para a produção de caminhões médios e pesados. Por meio desse acordo, o Exército Brasileiro passou a incorporar versões militarizadas dos modelos civis FNM D-9500 e FNM D-11000, com adoção iniciada no começo da década de 1960. Esses caminhões destacavam-se por seu baixo custo, robustez e manutenção acessível, características que atendiam às limitações orçamentárias da época. Apesar de suas qualidades, os caminhões FNM não foram projetados como veículos militares, o que restringia seu desempenho em ambientes fora de estrada. Essa limitação impediu que substituíssem integralmente os antigos caminhões americanos, que, mesmo obsoletos, ofereciam tração superior em terrenos desafiadores. Ainda assim, entre 1957 e 1960, uma quantidade significativa de FNM D-9500 e D-11000 foi adquirida, sendo classificados como Viatura de Transporte não Especializada (VTNE). A incorporação dos caminhões FNM trouxe um alívio imediato, mas não eliminou a necessidade de veículos militares com tração integral 4x4 ou 6x6, essenciais para missões táticas em terrenos adversos. Consciente dessa lacuna, o comando do Exército Brasileiro voltou-se ao mercado internacional em busca de um modelo que combinasse excelência técnica com viabilidade econômica. A meta era ambiciosa: adquirir pelo menos dois mil novos caminhões, incluindo versões especializadas para funções como cisterna, comando e basculante. Esse volume de caminhões,  seria crucial para restaurar a capacidade operacional, excedia em muito o orçamento disponível, tornando indispensável a obtenção de uma linha de crédito internacional para financiar o programa.
Em 1957, após uma análise detalhada de diversos modelos de veículos militares, o caminhão norte-americano REO M-35 6x6 destacou-se como o que melhor atendia às especificações exigidas pela Força Terrestre Brasileira. Contudo, o elevado custo unitário de cada unidade fabricada inviabilizou a aquisição de veículos novos. Diante desse cenário, o Comando do Exército Brasileiro optou por explorar a compra de caminhões usados, iniciando negociações com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DoD). O objetivo era adquirir entre 500 e 1.000 veículos, valendo-se dos termos do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos, firmado em 1952. Esse acordo, por meio do Programa de Assistência Militar (MAP - Military Assistance Program), facilitava o acesso a equipamentos militares modernos, com o propósito de fortalecer a defesa regional frente à hipotética ameaça de expansão socialista. As tratativas evoluíram para um amplo pacote de assistência militar, que incluía não apenas caminhões, mas também carros de combate, blindados de transporte de tropas e veículos leves. Esse pacote visava atender à premente necessidade de renovação dos recursos materiais do Exército Brasileiro e das demais Forças Armadas. No que se refere aos caminhões militares com tração integral 6x6, o acordo previa o fornecimento de mais de dois mil veículos usados, todos em excelente estado de conservação, provenientes da reserva estratégica do Exército dos Estados Unidos (US Army). A frota era composta majoritariamente pelos modelos REO M-34 G742 (chassi M-44 motor REO OA331 6 cil 127 hp gasolina) e M-35A2 G-742, além de diversas variantes especializadas, como os REO M-34 Talha, M-109 Oficina, M-47 Transporte, M-611C Cisterna Combustível, M-41C Transporte, M-49C Cisterna Combustível, M-609 Oficina, M-613 Oficina, M-614 Basculante, M-108 Oficina, M-543 Socorro, M-602 Transporte, M-54 Transporte e M-62 Socorro. As primeiras unidades, dos modelos REO M-34 e M-34 Talha, começaram a ser entregues no início de 1958, totalizando cerca de mil caminhões. Essa aquisição representou um marco significativo, permitindo ao Exército Brasileiro recuperar grande parte de sua mobilidade operacional. Contudo, devido a atrasos nos cronogramas de entrega, os primeiros caminhões REO M-35 A2C, juntamente com suas variantes especializadas, só foram recebidos a partir do início de 1965. Em serviço no Exército Brasileiro, os REO M-34  receberiam a designação de Viatura de Transporte não Especializado Carga Emprego Geral 2½-Ton, 6×6 (VTNE), passando a serem empregados principalmente em missões de transporte de tropas, cargas, reboque de peças de artilharia e demais funções não especializadas de logística. Esse modelo ao longo do anos seguintes se tornaria essencial no Exército Brasileiro em operações de deslocamento de unidades militares, especialmente em regiões de difícil acesso.  

No âmbito do fortalecimento das capacidades logísticas e operacionais, o Exército Brasileiro incorporou, ao lado dos caminhões de transporte REO M-34 G742 6x6, os primeiros veículos de socorro REO M-62 Wrecker. Esses caminhões, projetados para missões de resgate e apoio em operações de campo, foram concebidos em 1950 pelo Exército dos Estados Unidos com o objetivo de substituir os já desgastados Diamond T-969 Wrecker e Ward La France M-1/A1, amplamente utilizados durante a Segunda Guerra Mundial. O desenvolvimento do REO M-62 Wrecker culminou na construção de seu protótipo inicial em 1952. O veículo preservava o chassi e o conjunto mecânico do caminhão REO M-40C, equipado com o motor a gasolina Continental R6602, capaz de gerar 196 cavalos de potência. A transmissão contava com cinco velocidades, complementada por uma caixa de transferência de duas velocidades, garantindo robustez e versatilidade. Um dos destaques do M-62 era seu guindaste hidráulico, fabricado pela Austin Western Company, com capacidade de elevação de até 9 toneladas (20.000 libras). Esse guindaste, operado por uma bomba acionada pela tomada de força do motor, conferia ao veículo grande eficiência em operações de recuperação. Após rigorosos testes de campo, o REO M-62 foi aprovado para produção em série, com as primeiras unidades entrando em serviço ativo em meados de 1953. No Brasil, estima-se que o Exército tenha recebido aproximadamente 12 unidades desses caminhões especializados, designados como "Viatura de Transporte Especializado Socorro Pesado 5 Toneladas 6x6 M-62". Essas viaturas foram alocadas aos batalhões de logística, onde substituíram os antigos veículos de socorro leve Diamond T 969/A/0 G-509, de 4 toneladas e tração 6x6, recebidos durante a Segunda Guerra Mundial e já em estado avançado de desgaste. Nos Estados Unidos, questões jurídicas relacionadas ao licenciamento do sistema de guindaste da Austin Western Company levaram a R.E. Olds Motor Car Company a buscar alternativas para atender às demandas do mercado interno. A solução encontrada foi a adoção de um novo guincho hidráulico fabricado pela Gar Wood & Company, resultando no modelo REO M-543. Essa nova versão passou a predominar nas forças armadas norte-americanas e, consequentemente, foi fornecida ao Exército Brasileiro no âmbito do Programa de Assistência Militar (MAP - Military Assistance Program), complementando os contratos previamente estabelecidos. Estima-se que um total de quinze destes caminhões seriam cedidos neste pacote, sendo dispostos nas versões REO M-543, M-543A1 e M-543A2, passando a serem recebidos a partir de maio de 1967, juntamente com os primeiros lotes dos modelos REO M-35. Estes caminhões, também seriam distribuídos aos batalhões de logistica, com a missão de substituir e complementar agora, os antigos VE Socorro Pesado de Rodas 6 toneladas 6x6  Ward La France M-1/A1 G-116 Mod 1000, que se encontravam em serviço no Exército Brasileiro, desde a Segunda Guerra Mundial. 
Ao longo das décadas, os caminhões REO M-62 e M-543 desempenharam um papel fundamental no Exército Brasileiro, prestando serviços valiosos em diversas regiões do país. Esses veículos, essenciais para operações logísticas e de socorro, foram amplamente empregados em missões que exigiam robustez e confiabilidade, consolidando sua relevância nas unidades de logística. A partir do final da década de 1970, os caminhões REO M-34 e M-35, peças-chave na mobilidade operacional do Exército, começaram a apresentar sinais de desgaste devido ao uso intensivo e prolongado. A redução na disponibilidade dessas viaturas, aliada à dificuldade de manutenção, levou o Exército a planejar estratégias de médio e longo prazo, que incluíam tanto a substituição gradual da frota quanto a repotencialização dos veículos ainda em operação. Nesse contexto, os primeiros esforços de modernização foram conduzidos entre 1981 e 1983 pelo Parque Regional de Manutenção da 1ª Região Militar (Pq R Mnt/1), com a revitalização de um lote de caminhões REO M-34. Um dos principais avanços foi a substituição do motor original a gasolina REO OA331, de 6 cilindros, pelo motor diesel nacional MWM 229-6, também de 6 cilindros, mais econômico e adaptado às condições locais. Essa modernização foi estendida a outros modelos REO em serviço, incluindo os REO M-62 e M-543, designados como Viatura Especializada de Socorro Pesado de Rodas 5 Toneladas 6x6. Os trabalhos foram realizados pelos Parques Regionais de Manutenção da 3ª e 7ª Regiões Militares (Pq R Mnt/3 e Pq R Mnt/7), garantindo a continuidade operacional dessas viaturas. A repotencialização permitiu prolongar a vida útil desses caminhões, que continuaram a desempenhar funções críticas em batalhões de logística. Na década de 1990, o Exército Brasileiro iniciou a incorporação de viaturas especializadas de socorro de 5 e 6 toneladas produzidas pela Mercedes-Benz do Brasil S/A. Essa transição aliviou a demanda sobre a frota de caminhões REO, permitindo a desativação progressiva dos M-62, que, por sua idade avançada, apresentavam desgaste significativo. Até 2002, pelo menos duas unidades do M-62 permaneceram em serviço nos 3º e 4º Batalhões de Logística (B Log), um testemunho de sua durabilidade. Curiosamente, alguns REO M-543 continuaram em operação até os dias atuais, integrando as frotas do 16º e 25º Batalhões de Logística (B Log), do 20º Batalhão de Logística de Paraquedista (B Log Pqdt) e da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Na AMAN, destaca-se um M-543 com modificação no grupo ótico frontal, equipado com lentes quadradas, uma adaptação que reflete a capacidade do Exército em customizar seus equipamentos para atender às necessidades operacionais. Apesar da introdução de novos modelos Mercedes-Benz MB 2246, de 6 toneladas, a partir dos anos 2000, o Exército Brasileiro só passou a contar com um veículo militar de socorro verdadeiramente especializado em agosto de 2023, com a aquisição dos Navistar Defense MaxxPro MRV-PK 6x6, obtidos por meio do Programa de Vendas Militares Estrangeiras (Foreign Military Sales – FMS) dos Estados Unidos. Esses novos veículos representam um avanço significativo na capacidade de socorro especializado, complementando a frota e marcando o início de uma nova era na logística militar brasileira.

Em Escala. 
Para representarmos a Viatura de Transporte Especializado Socorro 5 toneladas 6X6 REO M-62 optamos pelo antigo kit da Renwal Blueprint Models na escala 1/32, único modelo disponível nesta escala. Apesar de certa idade este kit apresenta ainda um excelente padrão de qualidade em termos de detalhes e encaixes. Não é necessário proceder nenhuma alteração para se compor a versão empregada pelo Exército Brasileiro. Empregamos decais confeccionados pelo fabricante Decal & Book pertencentes ao "Set Forças Armadas Brasileiras 1942/1982". 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático do Exército Brasileiro, que seria aplicado em todos seus veículos militares desde a Segunda Guerra Mundial até a o final do ano de 1982.  Tanto os REO M-62 quanto os M-543, M-543A1 e M-543A2 foram recebidos neste padrão, mantendo este esquema até o ano 1982, quando gradativamente passariam a ostentar o esquema de camuflagem tático em dois tons adotado pela Força Terrestre. 

Bibliografia :
- M-35 2½ ton cargo truck - http://en.wikipedia.org/wiki/M35_2%C2%BD_ton_cargo_truck 
- M-62 medium Wrecker - https://www.armyvehicles.dk/m62wrecker.htm
- M-34 e M-35 Series, Olive Drab -  http://olive-drab.com/od_mvg_www_deuce_m35.php

M-59A1 FMC (VBTP)


História e Desenvolvimento.
A origem e o emprego em larga escala dos carros blindados de transporte de tropas (VBTP) consolidaram-se durante a Segunda Guerra Mundial, com o uso de veículos de tração meia-lagarta que se destacaram pela mobilidade e versatilidade. No Exército Alemão (Wehrmacht), o modelo Hanomag Sd.Kfz. 251 tornou-se emblemático, sendo amplamente utilizado em diversas frentes. Já entre as forças aliadas, especialmente os exércitos norte-americano e britânico, a predominância foi dos modelos M-2, M-3 e M-5 Half Track Car, produzidos pela White Motor Company. Esses veículos foram empregados em grande quantidade em todos os teatros de operações, desempenhando papéis cruciais no transporte de tropas e carga. Apesar de sua relevância no esforço de guerra, os modelos norte-americanos apresentavam uma deficiência significativa: a ausência de uma cobertura blindada. Essa limitação deixava os soldados vulneráveis a disparos de armas leves e estilhaços de projéteis, expondo uma falha estrutural no projeto. Para corrigir esse problema, ainda nas fases finais do conflito, foi desenvolvido o projeto M-44 (T16), um veículo blindado de transporte derivado do carro de combate M-18 Hellcat. Esse modelo foi concebido com o objetivo principal de oferecer proteção integral aos seus ocupantes, resultando dimensões consideravelmente superiores aos meia-lagartas da época e uma capacidade de transporte de até 24 soldados totalmente equipados, com um peso total de combate de 23 toneladas. Três protótipos do M-44 foram construídos e submetidos a testes de campo, mas os resultados revelaram limitações críticas. O peso excessivo do veículo comprometia sua velocidade e capacidade de transposição de terrenos irregulares, levando ao cancelamento do projeto em junho de 1945. Apesar do insucesso, o conceito de um blindado de transporte de tropas com proteção reforçada não foi abandonado. Em setembro do mesmo ano, foi aberta uma concorrência para o desenvolvimento de um novo VBTP, com capacidade para transportar até 10 soldados e baseado no chassi do veículo de transporte de carga T-43 Cargo Carrier. Diversas montadoras apresentaram propostas em meados de 1946, que foram avaliadas pelo Comando de Material do Exército dos Estados Unidos (US Army). O modelo conceitual T-18E1, desenvolvido pela International Harvester Company (IHC), destacou-se nos testes, resultando na assinatura de um contrato para a produção de quatro protótipos iniciais. Esses protótipos foram concluídos e submetidos a ensaios a partir de 1947, em um processo que se estendeu por mais de oito meses. Durante os testes, foram identificadas diversas necessidades de melhorias, que orientaram os próximos passos no desenvolvimento desse tipo de blindado.

Após a incorporação das melhorias identificadas nos testes iniciais, os quatro protótipos do veículo blindado foram submetidos a novos ensaios, obtendo, subsequentemente, a homologação para produção em série. Em maio de 1950, foi assinado o primeiro contrato para a aquisição de mil unidades, com o modelo recebendo a designação oficial de M-75 Veículo de Infantaria Blindado (Armored Personnel Carrier - APC). A entrega das primeiras unidades às unidades de infantaria do Exército dos Estados Unidos (US Army) teve início em 1952, substituindo de imediato os veículos meia-lagarta White M-3 e M-5 Half Track, ainda em operação. Embora mais leve que os protótipos do modelo M-44, o M-75 apresentava um peso de combate de 18 toneladas. Durante exercícios operacionais, constatou-se que o veículo não conseguia acompanhar a velocidade dos carros de combate no campo de batalha, violando um princípio fundamental da mobilidade: a sincronia na movimentação das unidades motorizadas de uma força terrestre. Essa limitação gerou grande preocupação no Comando do Exército dos Estados Unidos, resultando na decisão de cancelar o contrato de produção ainda em vigor. Como medida emergencial, centenas de veículos meia-lagarta M-3 e M-5, previamente transferidos para a reserva, foram reativados. Para sanar essa deficiência, em dezembro de 1953, o Exército lançou uma nova concorrência com o objetivo de desenvolver um veículo blindado de transporte de tropas que atendesse a requisitos mais modernos. O projeto previa a aquisição de pelo menos cinco mil unidades, destinadas a substituir tanto os remanescentes meia-lagartas quanto os recém-introduzidos M-75. O novo veículo deveria manter a premissa de oferecer proteção adequada aos ocupantes, mas com um peso total reduzido, garantindo maior agilidade no campo de batalha. Além disso, exigia-se capacidade anfíbia para a transposição de rios e pequenos cursos d’água, bem como a possibilidade de ser transportado por aviões de grande porte, então em desenvolvimento. Em janeiro de 1954, diversas empresas do setor automotivo começaram a apresentar suas propostas técnicas e comerciais. O Comando de Material do Exército dos Estados Unidos realizou as primeiras avaliações, culminando na elaboração de uma lista final (short list) que incluiu os modelos propostos pela International Harvester Corporation (IHC) e pela Food Machinery and Chemical Corporation (FMC). Esse processo marcou o início de uma nova etapa no desenvolvimento de blindados de transporte de tropas, com foco em maior eficiência e adaptabilidade às demandas do campo de batalha moderno.

O desenvolvimento do M-59 Armored Personnel Carrier (APC) representou um marco significativo na modernização dos veículos blindados de transporte de tropas (VBTP) do Exército dos Estados Unidos, buscando atender às demandas por maior mobilidade, proteção e versatilidade no campo de batalha. Após a concorrência lançada em dezembro de 1952, que visava substituir os veículos meia-lagarta e o recém-introduzido M-75 APC, o Exército dos Estados Unidos (US Army) financiou a construção de protótipos de cada modelo apresentado, com o objetivo de submetê-los a ensaios de campo comparativos. Os protótipos foram entregues pelos fabricantes até o final de abril de 1953, e o modelo T-59, desenvolvido pela Food Machinery and Chemical Corporation (FMC), destacou-se frente aos concorrentes, sendo selecionado pelo Comando do Exército dos Estados Unidos. Essa escolha foi motivada pela capacidade do T-59 de atender aos requisitos estabelecidos, que priorizavam baixo custo de produção e manutenção, além de maior eficiência operacional em comparação com os modelos anteriores. Um dos pilares do projeto do T-59, posteriormente designado M-59 APC, era a utilização de componentes compartilhados com o carro de combate médio M-41 Walker Bulldog. Essa comunalidade de peças não apenas reduzia os custos de produção, mas também otimizava a logística de manutenção, facilitando a gestão de peças de reposição. O M-59 era propulsionado por dois motores comerciais a gasolina General Motors GMC-302, que, combinados, geravam uma potência de 7.200 HP. Esses motores estavam acoplados a uma transmissão hidramática Cadillac 301MG, que aprimorava a dirigibilidade e o controle pelo motorista. O veículo foi projetado com uma capacidade anfíbia limitada, equipado com um sistema de vedação de borracha em todas as portas e escotilhas, permitindo operações em águas calmas a uma velocidade máxima de 6,9 km/h. Seu casco soldado, construído em aço, oferecia proteção contra armas leves, com espessuras variando de 0,375 polegadas (0,95 cm) na parte superior a 1 polegada (2,49 cm) na base, com uma espessura média de 0,625 polegadas (1,59 cm). O amplo compartimento interno permitia o transporte de até 10 soldados totalmente equipados ou cargas diversas, incluindo, de forma notável, a possibilidade de acomodar internamente um veículo Jeep Willys MB. Para a condução, o motorista dispunha de um periscópio de visão noturna infravermelho M-19 e múltiplos periscópios M-17, que garantiam visibilidade mesmo em condições de combate com o veículo "abotoado" (com todas as escotilhas fechadas). Em termos de autodefesa, o novo M-59 APC era equipado com uma torre automática M-13, armada com uma metralhadora Browning M-2 calibre .50, que contava com um estoque de 2.205 cartuchos armazenados no interior do veículo. Após a seleção do modelo T-59, desenvolvido pela Food Machinery and Chemical Corporation (FMC), o Exército dos Estados Unidos (US Army) celebrou um contrato para a produção de oito veículos pré-série. 

Esses exemplares foram destinados a um segundo programa de ensaios operacionais, planejado para ocorrer entre setembro e outubro de 1953. Concluídos os testes de campo, foram identificadas necessidades de melhorias, prontamente implementadas pelo fabricante. Com as correções realizadas, o modelo foi homologado para produção em série, recebendo a designação oficial de M-59 Veículo de Infantaria Blindado (Armored Personnel Carrier - APC). Em seguida, foi assinado um contrato ambicioso para a aquisição de 6.300 unidades, com um cronograma que previa a entrega total do lote até o final de 1960. As primeiras unidades de série começaram a ser incorporadas às unidades de infantaria do Exército dos Estados Unidos em agosto de 1954, sendo recebidas com entusiasmo devido ao seu porte robusto e design moderno. Para desenvolver doutrinas de operação adequadas, o M-59 foi integrado aos regimentos equipados com carros de combate médios M-41 Walker Bulldog, com o objetivo de avaliar seu desempenho em cenários simulados de combate de alta mobilidade. Apesar de suas qualidades, os testes conjuntos com o M-41 revelaram limitações significativas no M-59, especialmente relacionadas à sua potência e mobilidade. Equipado com dois motores a gasolina GMC Model 302, de seis cilindros em linha, cada um gerando 146 cv, o veículo alcançava uma velocidade máxima de apenas 32 km/h. Essa performance era insuficiente para acompanhar o M-41 Walker Bulldog, que atingia até 45 km/h, comprometendo a sincronia essencial entre unidades blindadas em operações de combate. Além disso, o peso de combate de 19,3 toneladas resultava em uma autonomia limitada de 150 km, restringindo o M-59 a missões de média distância e impactando seu desempenho em operações que exigiam maior raio de ação. Embora o M-59 apresentasse uma blindagem superior aos veículos anteriores de sua categoria, com espessuras variando de 0,95 cm a 2,49 cm, testes subsequentes demonstraram sua vulnerabilidade às novas munições perfurantes de médio calibre, cada vez mais comuns nos arsenais dos exércitos do bloco soviético. Essas deficiências geraram preocupação no Comando do Exército dos Estados Unidos, que passou a questionar a eficácia e a capacidade de sobrevivência do M-59 em um hipotético conflito moderno, particularmente em cenários europeus de alta intensidade. Apesar dos desafios, o contrato de produção foi mantido, considerando que grande parte das unidades já havia sido entregue. A partir de 1957, o Exército iniciou estudos para adaptar o M-59 a funções especializadas, visando otimizar a frota existente. Versões como posto de comando, porta-morteiro e ambulância foram desenvolvidas, ampliando a versatilidade do veículo em papéis de apoio. Essas adaptações refletiram o esforço para maximizar o potencial do M-59, mesmo diante de suas limitações táticas. Esse projeto foi validado pelo Exército dos Estados Unidos (US Army), resultando na conversão de mais de 600 veículos nas linhas de produção da Food Machinery and Chemical Corporation (FMC).
A nova variante, designada M-84 Mortar Carrier, teve seu interior modificado com um piso reforçado estruturalmente para suportar a placa de base M-24A1 e um morteiro M-30 de 81 mm, equipado com um sistema de mira óptico M-53. O veículo contava com racks internos para armazenar 88 munições, sendo operado por uma guarnição de seis soldados responsáveis pela condução e operação da arma. O peso final do M-84, plenamente carregado, atingia 21.400 kg, superior ao do M-59 original devido à munição transportada. Essa característica tornava a versão porta-morteiro mais lenta no campo de batalha, mas a redução de mobilidade não foi considerada um fator limitante, dado o perfil tático da artilharia móvel, que prioriza apoio de fogo em posições estratégicas. O M-84 permaneceu como o principal porta-morteiro do Exército dos Estados Unidos até o final da década de 1960, quando foi gradualmente substituído pelo FMC M-106 Mortar Carrier, mais avançado e integrado ao novo conceito de blindados. Reconhecendo as deficiências do M-59, como baixa velocidade, autonomia limitada e vulnerabilidade a munições perfurantes de médio calibre, o Exército dos Estados Unidos iniciou, em 1958, estudos para o desenvolvimento de um novo veículo blindado de transporte de tropas. Esses esforços culminaram no conceito AAM-PVF (Airborne Armored Multi-Purpose Vehicle), um veículo blindado multiuso aerotransportado. Esse conceito se materializou em 1960 com o projeto T-113, que evoluiu para o icônico M-113 APC. O M-113 revolucionou a categoria ao incorporar uma blindagem de duralumínio, mais leve e eficiente, que reduzia significativamente o peso final do veículo. Essa inovação permitiu, pela primeira vez, uma velocidade compatível com os carros de combate, como o M-41 Walker Bulldog e o M-48 Patton, garantindo a sincronia essencial em operações mecanizadas. Além disso, o M-113 oferecia maior capacidade anfíbia e era apto ao transporte aéreo, atendendo plenamente aos requisitos do AAM-PVF. Com a introdução do M-113 no final da década de 1960, o Exército dos Estados Unidos (US Army) iniciou a substituição progressiva do M-59. Grande parte da frota de M-59 foi transferida para as unidades de reserva da Guarda Nacional (National Guard), onde continuou a desempenhar funções de treinamento e apoio. Posteriormente, sob os termos do Programa de Assistência Militar (MAP - Military Assistance Program), um número significativo de M-59 foi cedido a nações alinhadas com a geopolítica norte-americana, em condições vantajosas. A Turquia tornou-se o maior operador internacional do M-59, recebendo mais de 1.500 unidades, seguida pela República do Vietnã, com 866 veículos. Outros países, como Etiópia, Brasil, Grécia, Líbano, Vietnã do Sul e Venezuela, receberam cerca de 420 unidades no total. Esses veículos permaneceram em serviço até o início da década de 1990, desempenhando papéis variados, desde transporte de tropas até apoio logístico, dependendo das necessidades de cada força armada.

Emprego no Exército Brasileiro.
O processo de motomecanização da Força Terrestre brasileira teve início na década de 1920, marcando os primeiros esforços para modernizar a logística e a mobilidade do Exército Brasileiro. Durante esse período, a incorporação de caminhões permitiu, de forma ainda limitada, o transporte de cargas e soldados, representando um avanço em relação às tradicionais operações hipomóveis. Na década de 1930, a frota de veículos foi ampliada, mas continuava composta majoritariamente por modelos civis adaptados para uso militar, com modificações mínimas para atender às necessidades da Força. No início da década de 1940, o Exército Brasileiro começou a vislumbrar uma modernização mais significativa de seus meios, impulsionado pelo surgimento de veículos blindados de transporte de pessoal (VBTP) nas forças armadas de potências como Alemanha e Estados Unidos, que demonstravam eficácia em cenários de combate da Segunda Guerra Mundial. Esse anseio começou a se materializar em 1942, com a adesão do Brasil ao programa norte-americano Lend-Lease Bill Act (Lei de Arrendamento e Empréstimo). Por meio desse acordo, o Exército Brasileiro recebeu seus primeiros veículos blindados, incluindo o M3-A1 Scout Car, equipado com tração sobre rodas, e os meia-lagartas M-2 e M-3 Half Track. Curiosamente, embora projetados para o transporte de tropas no front de batalha, esses veículos não foram inicialmente empregados nessa função no Brasil. Influenciado pela doutrina militar francesa, que ainda se baseava nas táticas da Primeira Guerra Mundial e privilegiava operações hipomóveis, o Exército Brasileiro destinou esses blindados à tração de peças leves de artilharia. Essa escolha refletia a mentalidade operacional da época, que ainda não havia absorvido plenamente as inovações táticas da guerra mecanizada. A crescente influência norte-americana durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente após a entrada do Brasil no conflito ao lado dos Aliados, trouxe mudanças significativas na doutrina da Força Terrestre. O recebimento de um grande lote de meia-lagartas M-3, M-3A1 e M-5 possibilitou, pela primeira vez, a implementação de táticas de infantaria motorizada. Esses veículos, embora limitados pela ausência de cobertura blindada integral, marcaram o início da transição para operações mais dinâmicas e mecanizadas, alinhando o Exército Brasileiro às práticas das forças aliadas. No início da década de 1950, o comando da Força Terrestre passou a avaliar a efetividade e a capacidade de sobrevivência de suas unidades mecanizadas em um hipotético cenário de conflito moderno. Ficou evidente a necessidade de substituir os equipamentos recebidos na década de 1940, que, embora úteis, estavam obsoletos frente às exigências de um campo de batalha em rápida evolução. Essa constatação culminou em um marco histórico para a modernização do Exército Brasileiro: a assinatura, em 15 de março de 1952, do Acordo Militar Brasil-Estados Unidos, formalizado pelos presidentes Getúlio Vargas e Harry Truman.

Essa parceria bilateral, sob condições econômicas vantajosas, visava substituir os equipamentos militares cedidos durante a Segunda Guerra Mundial, alinhando as capacidades do Exército Brasileiro às exigências de um contexto geopolítico e tecnológico em constante transformação. Por meio desse acordo, o Brasil integrou o grupo de nações beneficiadas pelo Programa de Assistência Militar (MAP - Military Assistance Program), que facilitava o acesso a equipamentos militares modernos, com o objetivo de fortalecer a defesa regional contra a hipotética ameaça expansionista socialista durante a Guerra Fria. Nesse contexto, o Exército Brasileiro foi contemplado com uma parcela significativa dos recursos do acordo. A partir de agosto de 1960, começaram a ser entregues os primeiros equipamentos, incluindo 50 carros de combate médios M-41 Walker Bulldog, dois veículos de socorro M-74 Sherman Recovery Vehicle e 20 viaturas blindadas de transporte de pessoal FMC M-59 APC. Embora usados, os M-59 encontravam-se em excelente estado de conservação, com baixa quilometragem, tendo sido armazenados desde 1959 nas instalações da Unidade do Corpo de Artilharia (Ordnance Corps Depot), no estado de Ohio, nos Estados Unidos. Alguns veículos registravam menos de 1.000 milhas rodadas, pois haviam sido retirados de serviço após a identificação de limitações operacionais em campo. Os M-59 cedidos ao Brasil pertenciam à variante M-59 A1, que incorporava melhorias em relação à versão inicial de produção em série. Entre os aprimoramentos, destacava-se o processo de soldagem do casco de aço, com uma blindagem de 25 mm de espessura, proporcionando maior resistência. Tecnologicamente, esses blindados eram equipados com o eficiente sistema de periscópios M-17 e o dispositivo infravermelho M-19, que permitia a condução em ambientes noturnos ou com escotilhas fechadas, um avanço significativo para as operações táticas. Para autodefesa, o M-59 A1 dispunha de uma torre com acionamento hidráulico, armada com uma metralhadora automática Browning calibre .50. Esse sistema de torre automática, inédito no Exército Brasileiro, oferecia, pela primeira vez, proteção adequada ao operador da arma, marcando um progresso em relação aos meia-lagartas utilizados anteriormente. Os 20 carros blindados M-59 A1 destinados ao Exército Brasileiro foram cuidadosamente revisados e colocados em plenas condições de funcionamento nas instalações americanas antes de serem preparados para transporte por via naval. Em 14 de agosto de 1960, os veículos chegaram ao porto do Rio de Janeiro, juntamente com os primeiros M-41 Walker Bulldog. No Brasil, passaram por inspeções detalhadas e foram preparados para o estágio operacional, incluindo o treinamento de seus operadores.
Em dezembro de 1960, o Exército Brasileiro recebeu um importante reforço em seu processo de modernização material: vinte veículos blindados M-59 A1, provenientes dos Estados Unidos no âmbito do Acordo de Assistência Militar (Military Assistance Program – MAP), firmado entre ambos os países durante o período da Guerra Fria. O programa visava fortalecer as nações aliadas do Ocidente por meio da transferência de equipamentos e doutrinas militares, contribuindo para a padronização dos meios empregados pelos exércitos do hemisfério ocidental. Esses vinte exemplares do M-59 A1 foram distribuídos equitativamente entre o 15º Regimento de Cavalaria Mecanizada (15º RecMec) e o 16º Regimento de Cavalaria Mecanizada (16º RecMec), ambos sediados na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. Essa alocação representou um marco decisivo no processo de modernização da Força Terrestre, sinalizando o início de uma nova fase no emprego tático-operacional da cavalaria mecanizada brasileira, que passava a adotar meios plenamente blindados e sobre lagartas. Oficialmente designados no Brasil como VBTP M-59 (Veículo Blindado de Transporte de Pessoal), esses veículos introduziram um salto qualitativo sem precedentes na capacidade de mobilidade e proteção das tropas. Eles desempenharam papel central na formação das primeiras unidades de infantaria motorizada e na elaboração de táticas combinadas com os carros de combate médios M-41 Walker Bulldog e os carros leves M-3 Stuart, então em operação. O emprego do M-59 tinha um propósito estratégico claro: consolidar a doutrina de transporte blindado de pessoal e integrar os meios de infantaria à força blindada de combate, algo até então inexistente na estrutura da Força Terrestre. Apesar de sua velocidade máxima de apenas 32 km/h, o que limitava o acompanhamento direto dos carros de combate no terreno, o M-59 superava de forma notável os antigos meia-lagartas White M-2, M-3 e M-5, que haviam servido intensamente desde a Segunda Guerra Mundial e ainda compunham grande parte do parque motorizado nacional. Essa superioridade não se restringia apenas ao desempenho mecânico. O M-59 oferecia proteção balística significativamente superior, além de capacidade para transportar até dez soldados completamente equipados ou, alternativamente, cargas diversas e armamentos leves. Essa versatilidade chamou a atenção dos oficiais brasileiros, que viam no veículo uma ferramenta de mobilidade tática e logística inédita até então. Durante os exercícios e manobras realizados ao longo dos primeiros anos de operação, o M-59 demonstrou notável adaptabilidade. Além de sua função primária como transporte de tropas, era frequentemente empregado para rebocar peças de artilharia leve, como os canhões antitanques M-1 de 57 mm e M-3 de 37 mm, ou até mesmo para transportar veículos leves, como os Jeeps Willys e Ford GPW 4x4, diretamente até as linhas de frente. Tal característica aumentava substancialmente a flexibilidade e a autonomia operacional da infantaria, permitindo maior mobilidade e segurança nas manobras ofensivas e defensivas.

Durante esse mesmo período, os Veículos Blindados de Transporte de Pessoal (VBTP) M-59 passaram a ser empregados em exercícios combinados com os carros de combate leves M-3 e M-3A1 Stuart, então integrantes dos Batalhões de Carros de Combate Leve (BCCL). Apesar das diferenças de desempenho e concepção entre as duas plataformas, observou-se que o M-59 conseguia acompanhar satisfatoriamente as manobras dos Stuarts em terrenos de treinamento, demonstrando boa compatibilidade tática e consolidando sua importância no contexto nascente das forças mecanizadas nacionais. A integração com os carros leves M-3 Stuart reforçou a confiança no potencial do M-59 como veículo de apoio às operações mecanizadas de baixa intensidade, permitindo ao Exército Brasileiro experimentar, pela primeira vez de forma sistemática, doutrinas combinadas de infantaria e blindados. Contudo, esse cenário começou a se transformar rapidamente com a introdução de novos carros de combate médios M-41A1 e M-41A3 Walker Bulldog, provenientes de remessas subsequentes do Acordo de Assistência Militar (MAP). Esses modernos veículos, que vieram substituir os veteranos Stuarts como principal carro de combate da Força Terrestre, trouxeram consigo um novo patamar de mobilidade e potência. Nos primeiros exercícios conjuntos entre os VBTP M-59 e os M-41 Walker Bulldog, logo se tornou evidente a limitação de desempenho do blindado de transporte. Assim como já havia sido identificado pelo Exército dos Estados Unidos (U.S.Army), o M-59 mostrava-se incapaz de acompanhar o ritmo operacional dos M-41, que alcançavam velocidades de até 45 km/h, contrastando com os modestos 32 km/h do veículo de transporte. Essa discrepância de mobilidade prejudicava a sincronia tática essencial às operações combinadas entre infantaria mecanizada e carros de combate, evidenciando uma limitação crítica em cenários de alta manobrabilidade. Além das restrições de desempenho em combate, o M-59 apresentou desafios significativos no campo logístico, especialmente em deslocamentos de média e longa distância dentro do território brasileiro. Com um peso bruto de 19,3 toneladas, o veículo excedia a capacidade estrutural de boa parte da infraestrutura viária nacional da década de 1960, abrangendo pontes, viadutos, estradas não pavimentadas e, particularmente, as plataformas ferroviárias utilizadas no transporte estratégico de material militar. Essas limitações dificultavam a mobilização em larga escala e restringiam seu emprego a áreas específicas, reduzindo sua flexibilidade operacional em um país de dimensões continentais como o Brasil. Tais fatores, somados à baixa autonomia e ao elevado custo de manutenção, evidenciaram a necessidade de um veículo mais leve, versátil e adaptado às condições nacionais. Apesar de suas limitações, o VBTP M-59 A1 teve papel fundamental na evolução doutrinária e operacional do Exército Brasileiro. Sua introdução marcou a transição de uma força predominantemente hipomóvel e equipada com meia-lagartas para uma força efetivamente mecanizada sobre lagartas, apta a operar com maior proteção e capacidade de fogo em diferentes ambientes táticos.
A experiência adquirida com o M-59 proporcionou valiosas lições sobre o emprego de blindados de transporte de tropas, servindo de base para o desenvolvimento da doutrina de cavalaria mecanizada moderna e preparando o terreno para a adoção do M-113, introduzido no Brasil a partir de 1967. Mais leve, ágil e plenamente compatível com a infraestrutura brasileira, o M-113 superou as limitações operacionais do M-59, consolidando-se como o novo padrão da mecanização do Exército. As restrições impostas pelo desempenho e pela logística do M-59 levaram, por fim, o Ministério do Exército a recusar novas ofertas de cessão desses veículos Essa necessidade, porém, foi rapidamente atendida com a negociação, a partir de 1965, da cessão de mais de 500 veículos blindados de transporte de tropas FMC M-113 A0, desenvolvidos nos Estados Unidos como sucessores diretos do M-59. A incorporação de um número tão expressivo de M-113 A0 permitiu um ciclo completo de renovação dos meios mecanizados do Exército Brasileiro, possibilitando a desativação definitiva dos meia-lagartas M-2, M-3 e M-5, que haviam servido desde a Segunda Guerra Mundial. Em 1969, com os Veículos Blindados de Transporte de Tropas M-113A0 alcançando pleno status operacional, o 15º Regimento de Cavalaria Mecanizada (15º RecMec) e o 16º Regimento de Cavalaria Mecanizada (16º RecMec), ambos sediados no Rio de Janeiro, passaram a ser equipados com esses novos blindados, mais leves, ágeis e compatíveis com as demandas táticas e logísticas do período. Com a chegada dos M-113, os VBTP M-59 A1 foram gradualmente relegados a funções secundárias, como treinamento de operadores e participações em cerimônias oficiais. Um momento emblemático de seu uso cerimonial ocorreu em setembro de 1972, quando os  VBTP M-59 foram empregados no transporte dos restos mortais do imperador Dom Pedro I e de sua primeira esposa, a imperatriz Leopoldina, em um evento de grande simbolismo histórico na cidade de São Paulo, marcando as comemorações do sesquicentenário da Independência do Brasil. No início da década de 1980, em um esforço para revitalizar os M-59 ainda em operação, a empresa paulista Moto Peças Transmissões S/A, de Sorocaba, em colaboração com técnicos do Parque Regional de Motomecanização da Segunda Região Militar (PqRMM/2), em São Paulo, iniciou estudos para um possível programa de repotenciamento. O foco principal era substituir os dois motores originais a gasolina GMC-302 por equivalentes nacionais movidos a diesel, seguindo o modelo de outros programas de modernização bem-sucedidos conduzidos pelo PqRMM/2. Contudo, análises econômicas revelaram que o projeto não era viável, devido à pequena escala da frota de apenas 20 veículos. Essa constatação levou ao cancelamento do programa, selando o destino dos M-59 no Exército Brasileiro. Apesar de sua limitada quantidade, o M-59 serviu como inspiração para o desenvolvimento de um projeto nacional de veículo blindado de transporte de tropas sobre lagartas, batizado de Charrua. Embora o Charrua não tenha avançado para a produção em série, ele reflete o impacto duradouro do M-59 na busca por soluções autóctones para as necessidades da Força Terrestre.

Em Escala.
A ausência de um kit específico no mercado para o Veículo Blindado de Transporte de Pessoal (VBTP) M-59A1 "EB10-414", pertencente ao 15º Regimento de Cavalaria Mecanizada (15º RecMec), inspirou-nos a empreender um projeto de modelismo utilizando a técnica de scratch building. Para a realização deste projeto, optamos por utilizar como base o kit do carro de combate M-41 Walker Bulldog, produzido pela Tamiya na escala 1/35. Aproveitamos apenas elementos fundamentais desse kit, como chassi, rodas, suspensão, esteiras e alguns acessórios, enquanto todo o restante da estrutura do M-59A1 foi construído manualmente, em scratch. Para a  identificação do veículo, utilizamos decais de alta qualidade produzidos pela Eletric Products, extraídos do conjunto "Veículos Militares Brasileiros 1944-1982". Esses decais permitiram recriar com exatidão as marcações do M-59A1 "EB10-414", incluindo insígnias do 15º RecMec e detalhes que remetem à sua operação no Exército Brasileiro durante a década de 1960.
O padrão de pintura tático do Exército Brasileiro, baseado no sistema de cores Federal Standard (FS), foi aplicado uniformemente a todos os veículos militares da Força Terrestre desde a Segunda Guerra Mundial até o final de 1982. Esse esquema, caracterizado por sua funcionalidade e adaptabilidade aos diversos cenários operacionais. A maioria dos VBTP M-59A1 preservados em museus ou unidades do Exército Brasileiro ainda ostenta esse padrão de pintura, mantendo viva a memória de sua contribuição para a motomecanização da Força Terrestre. 

Bibliografia :
- Blindados no Brasil Volume I,  -  por Expedito Carlos S. Bastos
- M-59 APC Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/M59_(APC)
- M-113 no Brasil - por Expedito Carlos S. Bastos