U-7 Embraer EMB 810C/D Seneca

História e Desenvolvimento. 
A trajetória de uma das mais emblemáticas famílias de aeronaves leves teve início em 1927, com a fundação da Taylor Brothers Aircraft Manufacturing Company, na cidade de Rochester, pelos irmãos Clarence Gilbert Taylor e Gordon A. Taylor. Inserida em um período de expansão inicial da aviação civil, a empresa buscava desenvolver aeronaves acessíveis e confiáveis, capazes de democratizar o voo em um momento em que este ainda era restrito a poucos. Em 1931, foi lançado o Taylor Cub, um monomotor biplace de asa alta que rapidamente se destacou por sua simplicidade construtiva, baixo custo operacional e facilidade de pilotagem. Essas qualidades foram determinantes para seu sucesso comercial, especialmente em meio às dificuldades impostas pela Grande Depressão. Até meados da década de 1930, mais de 4.000 unidades haviam sido produzidas, evidenciando sua aceitação no mercado e sua importância na consolidação da aviação leve. Em dezembro de 1937, após mudanças societárias significativas e a ascensão de William T. Piper, a empresa foi reorganizada e renomeada como Piper Aircraft Company, estabelecendo sua sede em Lock Haven. Sob a liderança de Piper  frequentemente chamado de “Henry Ford da aviação”, a companhia consolidou sua posição como referência mundial na produção de aeronaves leves. Nesse novo contexto, o Piper J-3 Cub, evolução direta do Taylor Cub, tornou-se um verdadeiro ícone da aviação. Amplamente difundido no mercado civil, o modelo conquistou milhares de operadores graças à sua confiabilidade e versatilidade, tornando-se sinônimo de aviação geral em diversos países. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939 e a entrada dos Estados Unidos no conflito em 1941, após o ataque a Pearl Harbor, a Piper desempenhou papel relevante no esforço de guerra aliado. A empresa produziu mais de 5.000 unidades do Piper L-4 Grasshopper, versão militar do Cub, empregada em missões de observação, ligação e evacuação médica em diversos teatros de operações, incluindo a Europa, o Norte da África e o Pacífico. Sua capacidade de operar em pistas improvisadas, frequentemente sob condições adversas, tornou-o indispensável para o apoio direto às forças terrestres. Inicialmente, as aeronaves eram exportadas em kits para montagem nos países de destino. Contudo, a Piper rapidamente adotou uma estratégia mais abrangente ao negociar licenças de produção internacional, permitindo que parceiros fabricassem localmente o Cub com componentes nacionais. Essa abordagem foi implementada em países como Brasil, Argentina e Austrália, contribuindo não apenas para a expansão comercial da empresa, mas também para o desenvolvimento industrial e tecnológico dessas nações, além de facilitar a integração de regiões remotas por meio do transporte aéreo. Com o término da guerra em 1945, a Piper voltou seu foco ao mercado civil, beneficiando-se do crescimento econômico do pós-guerra e do aumento do interesse pela aviação geral. Modelos como o Piper PA-11 Cub Special e o Piper PA-18 Super Cub deram continuidade ao legado do Cub, alcançando expressivos números de produção e mantendo a empresa como protagonista no setor.

O início da Guerra da Coreia trouxe nova demanda por aeronaves militares leves, como as versões Piper L-18 e L-21, novamente empregadas em missões de observação e ligação. Esse aumento na produção contribuiu para fortalecer a posição financeira da empresa, permitindo que William T. Piper recuperasse o controle acionário após um período de dificuldades. Nesse mesmo contexto, impulsionado pelo sucesso de sua linha de aeronaves monomotoras e pela necessidade de atender a mercados mais exigentes, Piper tomou a decisão estratégica de desenvolver uma aeronave bimotora. Essa iniciativa marcou o início de uma nova fase de inovação tecnológica para a empresa, que, com base em princípios de simplicidade, eficiência e visão empreendedora, consolidou-se como um dos pilares da aviação leve mundial, transformando o voo em um instrumento de integração, mobilidade e desenvolvimento. No início da década de 1950, a Piper Aircraft Company, sob a liderança inspiradora de William T. Piper, consolidou sua posição como referência mundial na fabricação de aeronaves leves, movida pela missão de tornar o voo acessível e funcional para uma ampla gama de usuários. Com uma visão que combinava inovação técnica e sensibilidade às necessidades humanas, a empresa buscou diversificar sua linha de produtos para atender à crescente demanda do mercado de aviação geral, em um período de reconstrução global após a Segunda Guerra Mundial. Inicialmente, a Piper avaliou a possibilidade de produzir o modelo Baumann, mas optou por desenvolver um projeto próprio, aproveitando a expertise adquirida com a incorporação da Stinson Aircraft Corporation em 1948. Esse esforço resultou no Piper PA-23 Apache, um bimotor que marcou a entrada da empresa no segmento de aeronaves executivas, oferecendo maior capacidade, conforto e desempenho para operadores comerciais e privados. Ao mesmo tempo, a Piper identificou uma oportunidade no setor agrícola, lançando, em 1959, o PA-25 Pawnee, sua primeira aeronave projetada especificamente para pulverização aérea. Com sua estrutura robusta e capacidade de operar em pistas rudimentares, o Pawnee tornou-se um aliado indispensável para agricultores, conectando a aviação ao labor diário de comunidades rurais e contribuindo para o sustento de famílias em diversas partes do mundo. Em 1960, a linha de produtos da Piper refletia sua versatilidade e compromisso com a aviação geral, atendendo às aspirações de pilotos, instrutores e operadores em um mundo em rápida transformação. Entre os modelos de maior destaque estavam uma variante agrícola e uma versão biposto do Piper PA-18 Super Cub, amplamente utilizado em treinamento e missões utilitárias, conectando comunidades remotas e formando gerações de aviadores; duas versões do PA-24 Comanche, um monomotor de alto desempenho projetado para atender ao mercado executivo com sofisticação e eficiência; e o recém introduzido PA-25 Pawnee, que consolidava a presença da Piper no setor agrícola, apoiando o trabalho árduo de agricultores. Além desses, a empresa oferecia outros modelos de menor expressão comercial, mas que reforçavam sua reputação de oferecer soluções acessíveis e confiáveis, unindo pessoas e lugares em uma era de expansão da aviação civil. 
O surgimento do Piper Seneca, outro capítulo significativo na história da empresa, teve início em 1965, quando a empresa respondeu à crescente demanda por aeronaves executivas de baixo custo com o lançamento do PA-32 Cherokee Six. Esse monomotor de trem de pouso fixo, projetado para transportar até seis passageiros, conquistou o mercado pela sua combinação de espaço generoso, simplicidade operacional e economia, atendendo às necessidades de famílias, pequenas empresas e operadores regionais que buscavam uma alternativa acessível para viagens de curta e média distância. O sucesso comercial do Cherokee Six, que rapidamente se tornou um favorito entre aqueles que valorizavam praticidade e conforto, inspirou a Piper a desenvolver uma variante bimotora baseada na mesma plataforma, visando oferecer maior segurança, redundância e desempenho para missões executivas mais exigentes.  O primeiro protótipo, inicialmente designado PA-34-180 Twin Six e registrado como N3401K, realizou seu voo inaugural em 25 de abril de 1967. Em uma abordagem experimental ousada, esse modelo combinava dois motores Lycoming O-360 de 180 hp montados nas asas com o motor original do PA-32 Cherokee Six, resultando em uma configuração trimotora que buscava explorar novas possibilidades de desempenho. Contudo, os testes iniciais revelaram que um projeto exclusivamente bimotor ofereceria maior simplicidade e eficiência, levando a Piper a abandonar a configuração trimotora em favor de uma solução mais prática e confiável. O segundo protótipo, que alçou voo em 30 de agosto de 1968, incorporou avanços significativos, incluindo um trem de pouso retrátil e uma cauda vertical mais alta, melhorando a aerodinâmica e o controle da aeronave. Essas modificações refletiam a dedicação da Piper em ouvir as necessidades de seus clientes e aperfeiçoar seus projetos para oferecer maior segurança e desempenho. O terceiro protótipo, voado em 20 de outubro de 1969, apresentou a configuração mais próxima do modelo de produção, equipado com motores Lycoming IO-360-A1A de 200 hp, consolidando a visão da Piper de criar uma aeronave que unisse eficiência, acessibilidade e excelência técnica. O desenvolvimento do PA-23 Apache, do Seneca e do PA-25 Pawnee, voltado para a agricultura, ilustra o espírito empreendedor da Piper, que transformava sonhos de voo em realidade, conectando agricultores, executivos e pilotos amadores em suas jornadas de trabalho e aspirações. A primeira versão de produção, o  PA-34-200 Seneca, recebeu sua certificação pela Administração Federal de Aviação (FAA) em 7 de maio de 1971, marcando um momento de orgulho para a Piper e seus engenheiros, que trabalharam incansavelmente para atender aos rigorosos padrões de segurança da aviação. Com a certificação assegurada, a empresa elaborou estratégias de marketing e vendas, lançando o modelo no final de 1971 como parte da linha de 1972, agora oficialmente designado Piper Seneca I. Equipado com dois motores Lycoming IO-360-C1E6, o Seneca I se destacava por sua configuração de contrarrotação  com o motor do lado direito, designado IO-360-C1E6L, girando o virabrequim em direção oposta ao do lado esquerdo.

Esse sistema eliminava as limitações críticas de motor encontradas em outros bimotores leves, garantindo maior controlabilidade em caso de falha ou desligamento de um dos motores, uma característica que proporcionava segurança e confiança aos pilotos e passageiros. A combinação de desempenho confiável, segurança aprimorada e uma excelente relação custo-benefício impulsionou o Seneca I a um sucesso comercial notável no mercado norte-americano. Até o final de 1973, mais de 900 unidades foram comercializadas, atendendo a operadores executivos, escolas de voo e empresas de táxi aéreo que viam na aeronave uma solução versátil para suas necessidades. Cada voo do Seneca carregava as histórias de pilotos que conectavam cidades, transportavam famílias e conduziam negócios, reforçando o papel da Piper em tornar o céu um espaço acessível e inspirador. Contudo, apesar do êxito comercial, alguns operadores relataram desafios no manejo da aeronave, apontando áreas do projeto que poderiam ser aprimoradas. Sensível a esses comentários, a equipe de engenharia da Piper comprometeu-se a revisar o projeto original. Em resposta às necessidades expressas por operadores e à incessante busca pela excelência, a Piper Aircraft Company dedicou-se a aprimorar o projeto do PA-34 Seneca, resultando no desenvolvimento do PA-34-200T Seneca II. Esse novo modelo incorporou uma série de refinamentos cuidadosamente planejados nas superfícies de controle, incluindo ailerons ampliados e balanceados, a adição de uma guia anti-servo no leme para maior precisão de manobra e um peso bobinado no estabilizador para otimizar a estabilidade. A designação “T” refletia uma significativa evolução na motorização, com a adoção dos motores turboalimentados de seis cilindros Continental TSIO-360E ou EB, que proporcionavam desempenho superior, especialmente em altitudes elevadas, permitindo que pilotos e passageiros enfrentassem voos em condições desafiadoras com confiança. O Seneca II preservou o inovador arranjo de motores contrarrotativos do modelo anterior, garantindo maior controlabilidade em caso de falha de um motor, uma característica que oferecia segurança e tranquilidade aos operadores. Além das melhorias técnicas, o Seneca II introduziu uma configuração interna opcional conhecida como “club seating”, na qual os dois assentos da primeira fila eram voltados para trás, enquanto os dois traseiros olhavam para a frente, criando um ambiente mais espaçoso e confortável para os passageiros. Essa inovação atendia às necessidades de famílias e executivos que valorizavam o conforto em viagens de negócios ou lazer. Como opcional, o modelo também podia ser equipado com um kit STOL (Short Take-off and Landing), permitindo decolagens e pousos em pistas curtas, uma vantagem inestimável para operadores em regiões remotas. A certificação pela Administração Federal de Aviação (FAA) foi obtida em 18 de julho de 1974, marcando o início imediato da comercialização do Seneca II. Essas melhorias não apenas atenderam às expectativas dos operadores, mas também ampliaram significativamente o mercado da aeronave, com mais de 2.500 unidades produzidas entre 1975 e 1981, conectando pessoas e lugares com uma combinação de desempenho, segurança e acessibilidade.
Em agosto de 1981, a Piper Aircraft Company introduziu no mercado o PA-34-220T Seneca III, modelo que representou um importante salto qualitativo dentro da consagrada família Seneca. Certificado pela Federal Aviation Administration (FAA) em 17 de dezembro do mesmo ano, o Seneca III incorporou avanços relevantes, especialmente no conjunto motopropulsor. Equipado com motores Continental TSIO-360-KB, capazes de gerar até 220 hp (limitados a esse regime por cinco minutos, com posterior redução para 200 hp), o modelo apresentava desempenho aprimorado, particularmente em razão da operação acima de 2.575 rpm e da adoção de hélices tripás, que contribuíam para maior eficiência em subida e melhor velocidade de cruzeiro. Além das melhorias técnicas, o Seneca III trouxe refinamentos estéticos e funcionais que elevaram significativamente o padrão de conforto e ergonomia. O para-brisa, agora moldado em peça única, proporcionava melhor visibilidade e contribuía para ganhos aerodinâmicos, enquanto o painel de instrumentos em metal substituía a antiga fáscia plástica removível, oferecendo maior durabilidade e sofisticação. A incorporação de sistemas como ar-condicionado e degelo ampliava a capacidade operacional da aeronave, permitindo voos em condições climáticas adversas com maior segurança e conforto  um fator decisivo para operadores executivos e comerciais. Entre 1981 e 1993, mais de 930 unidades do Seneca III foram produzidas, consolidando seu êxito junto a operadores executivos, escolas de aviação e empresas de táxi aéreo, que encontraram na aeronave uma solução equilibrada entre desempenho, confiabilidade e custo operacional. O desenvolvimento contínuo da linha que incluía modelos como o  PA-34 Seneca II, o PA-23 Apache e o PA-25 Pawnee  evidencia a capacidade da Piper de interpretar as demandas do mercado e transformá-las em soluções técnicas eficientes. Em 1994, a empresa apresentou o  PA-34-220T Seneca IV, certificado pela FAA em 17 de novembro de 1993. Embora externamente semelhante ao seu antecessor, o modelo incorporava melhorias pontuais, como o redesenho do capô dos motores, visando otimizar o desempenho em cruzeiro e reduzir o arrasto aerodinâmico. Posteriormente, a Piper lançou o PA-34-220T Seneca V, versão que permanece em produção até os dias atuais. Com um conjunto de atualizações voltadas à aviônica, conforto e eficiência operacional, o Seneca V mantém a competitividade da linha em um mercado cada vez mais exigente. Estima-se que, ao longo das diferentes variantes, mais de 5.000 unidades da família Seneca tenham sido entregues em âmbito global. O Piper Seneca também encontrou aplicação em forças aéreas de diversos países, como Equador, Honduras, Panamá, Sérvia e Brasil, onde foi empregado em missões de transporte leve, ligação e treinamento. Essa versatilidade reforça o legado da aeronave como uma plataforma confiável, capaz de atender tanto ao setor civil quanto a aplicações institucionais, mantendo viva a tradição da Piper de produzir aeronaves que conectam pessoas, regiões e oportunidades ao redor do mundo.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Em 1974, a Embraer S/A (Empresa Brasileira de Aeronáutica), fundada em 1969 sob a liderança visionária de Ozires Silva e com o apoio do governo brasileiro, celebrava quatro anos de operação como uma empresa consolidada no cenário aeronáutico global. . Com um quadro de aproximadamente 3.000 funcionários, a companhia havia estruturado uma base industrial sólida e conquistado reconhecimento por meio de três programas de grande êxito, voltados a diferentes segmentos do mercado. Entre esses destaques figurava o  EMB-110 Bandeirante, designado C-95 na Força Aérea Brasileira (FAB), um turboélice versátil destinado ao transporte regional; o EMB-326GB Xavante, versão sob licença do Aermacchi MB-326, empregado em missões de treinamento avançado e ataque leve; e o EMB-200 Ipanema, aeronave agrícola que se tornara essencial para o agronegócio nacional. Em conjunto, esses programas permitiram à Embraer S/A  atender de forma eficaz os setores civil, militar e agrícola, contribuindo para a integração territorial, o fortalecimento da defesa e o aumento da produtividade rural em um país de dimensões continentais. Apesar do elevado nível de ocupação de suas linhas de produção, impulsionado por encomendas governamentais e comerciais, a empresa identificava lacunas importantes no mercado. Ao longo da década de 1970, a aviação civil brasileira  tanto no segmento comercial quanto executivo  experimentava um crescimento expressivo, impulsionado pela expansão econômica e pela necessidade de integração de regiões distantes. Entretanto, a infraestrutura aeroportuária nacional ainda era, em grande parte, composta por aeródromos de pequeno porte, frequentemente situados em áreas remotas e dotados de pistas não pavimentadas, como terra ou cascalho. Essa realidade impunha limitações operacionais a aeronaves de maior porte e evidenciava a necessidade de soluções mais adequadas às condições locais. Embora a Embraer S/A estivesse envolvida no desenvolvimento de aeronaves de médio porte derivadas da plataforma do Bandeirante, tais projetos não atendiam plenamente à demanda por aviões leves, de baixo custo operacional e capazes de operar em pistas curtas  requisitos essenciais para operadores regionais, empresas e usuários privados. Nesse contexto, o Brasil destacava-se como o maior importador de aeronaves leves do hemisfério sul, com forte predominância de modelos monomotores e bimotores com capacidade para até dez ocupantes, muitos dos quais produzidos pela Piper Aircraft Corporation. Aeronaves como o  PA-23 Cherokee e o  PA-34 Seneca tornaram-se amplamente utilizadas por empresas e operadores privados, sendo empregadas em transporte executivo, deslocamentos rápidos e operações em localidades com infraestrutura limitada. Sua combinação de confiabilidade, economia e versatilidade correspondia às necessidades de um país em desenvolvimento, onde a aviação desempenhava papel estratégico na integração nacional. Projeções realizadas à época indicavam que, até 1978, o mercado brasileiro poderia absorver cerca de 3.000 aeronaves leves  um volume que representava uma oportunidade estratégica. 

Atenta a esse cenário, a Embraer S/A  passou a considerar a produção sob licença de aeronaves deste segmento, como uma alternativa viável para internalizar essa demanda, promovendo o fortalecimento da cadeia produtiva local. Dessa forma, a empresa vislumbrava não apenas expandir sua atuação para novos nichos de mercado, mas também contribuir para o desenvolvimento tecnológico e industrial do país, atendendo às necessidades de pilotos, operadores e comunidades que dependiam da aviação como instrumento de mobilidade, integração e progresso econômico. A opção mais estratégica envolveu a formação de uma parceria com um fabricante internacional de renome, uma abordagem que reduziria os elevados custos de desenvolvimento de novos projetos e aceleraria a entrada no mercado nacional. Após avaliações cuidadosas, a escolha recaiu sobre a Piper Aircraft Company. As negociações  evoluíram para um acordo histórico de produção sob licença, assinado durante as comemorações do quinto aniversário da Embraer S/A , no  dia 19 de agosto de 1974. Esse acordo de produção  não apenas permitiu à empresa brasileira fabricar aeronaves da Piper no Brasil, mas também representou uma oportunidade estratégica para adquirir conhecimento técnico (know-how) em produção em larga escala neste segmento de aeronaves, fortalecendo a indústria aeronáutica nacional e preparando a empresa para atender à crescente demanda por aviões leves.  O acordo inicial contemplava a produção de dois modelos: o EMB-820 Navajo, baseado no Piper PA-24 Navajo Chieftain, e o EMB-810 Seneca, derivado do Piper  PA-34 Seneca III. Esses aviões, projetados para transporte executivo e operações regionais, atendiam perfeitamente às necessidades de empresas de taxi aéreo e operadores que buscavam soluções confiáveis para conectar cidades e regiões remotas, muitas vezes utilizando pistas curtas e rudimentares.  Ainda em 1974, a Embraer expandiu seu portfólio com a introdução do EMB-720 Minuano, uma versão licenciada do Piper Cherokee Six, um monomotor robusto e versátil que rapidamente conquistou o mercado brasileiro por sua capacidade de transportar até 06 passageiros. Para apoiar a crescente demanda de produção, foi firmada uma parceria com a Sociedade Aeronáutica Neiva Ltda, localizada em Botucatu, no interior do estado de São Paulo, empresa com tradição na fabricação de aeronaves agrícolas e leves. Essa colaboração permitiu a produção de mais dois modelos, apresentados oficialmente em 17 de junho de 1975: o EMB-710 Carioca, baseado no Piper Cherokee 235 Pathfinder, e o EMB-711 Corisco, derivado do Piper PA-28 Cherokee Arrow II. Entre 1976 e 1984, a parceria com a Piper rendeu frutos adicionais com o lançamento de mais três modelos: o EMB-712 Tupi, baseado no Piper PA-28A1 Archer II, conhecido por sua simplicidade e eficiência em treinamento; o EMB-721 Sertanejo, derivado do PA-32R Cherokee Lance e o EMB-821 Carajá, uma versão modernizada do  PA-31-350 Navajo Chieftain.
O acordo de licenciamento firmado entre a Embraer S/A  e a Piper Aircraft Company representou um marco decisivo para a indústria aeronáutica brasileira, culminando na produção local de oito modelos que alcançaram expressivo sucesso comercial. Essa parceria não apenas consolidou a presença da Embraer no mercado interno, como também elevou sua reputação internacional, projetando-a como uma fabricante capaz de absorver tecnologia, adaptá-la e evoluí-la com soluções próprias. Desde o início, a produção dessas aeronaves no Brasil foi acompanhada por um processo progressivo de nacionalização de componentes. Embora sistemas mais complexos  como motores, aviônicos e equipamentos de comunicação  continuassem a ser importados, a incorporação crescente de itens fabricados localmente estimulou o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional, gerando empregos qualificados e promovendo avanços tecnológicos em diversos setores industriais. Em 1984, buscando maior eficiência operacional e melhor aproveitamento de recursos, toda a linha de produção de aeronaves leves foi transferida para a Sociedade Aeronáutica Neiva Ltda, sediada em Botucatu, empresa que havia se tornado subsidiária da Embraer S/A em 1980. Essa reestruturação permitiu uma integração mais racional das atividades produtivas, contribuindo para o aumento da capacidade industrial e a padronização dos processos. Os resultados superaram as expectativas mais otimistas. As aeronaves produzidas sob licença conquistaram ampla aceitação entre operadores civis brasileiros, alcançando níveis de confiabilidade e desempenho comparáveis aos de seus equivalentes norte-americanos. Entre 1975 e 2000, foram entregues 2.326 aeronaves oriundas dessa cooperação, incluindo cerca de 900 unidades da família Embraer EMB-810 Seneca. Muitas dessas aeronaves permanecem em operação até os dias atuais, evidenciando a robustez do projeto e a qualidade da produção nacional. No âmbito militar, a parceria também teve desdobramentos relevantes. Em 1977, o Ministério da Aeronáutica (MAer) decidiu adquirir 35 aeronaves dos modelos EMB-810C Seneca II e EMB-810D Seneca III, reconhecendo o valor estratégico da aviação leve no apoio às operações militares e na integração territorial. Essa iniciativa refletia tanto o compromisso com o fortalecimento da indústria nacional quanto a necessidade de dispor de meios aéreos eficientes para um país de dimensões continentais. Como se tratavam de aeronaves já produzidas para o mercado civil, sem necessidade de modificações militares significativas, as primeiras entregas ocorreram ainda no mesmo ano, demonstrando a capacidade de resposta da indústria nacional. Na Força Aérea Brasileira (FAB), esses aviões receberam a designação U-7 Seneca e passaram a desempenhar missões fundamentais de ligação, observação aérea e apoio ao comando. Nesse papel, os U-7 Seneca contribuíram de forma decisiva para a integração entre bases aéreas, o transporte ágil de pessoal e a coordenação de operações em regiões remotas. 

À medida que as unidades eram recebidas, elas foram distribuídas estrategicamente a diversas unidades aéreas e bases em todo o território nacional, de norte a sul, operando em aeródromos que variavam de pistas modernas a campos improvisados em regiões remotas. Apesar do entusiasmo inicial pela aquisição de aeronaves produzidas localmente pela Embraer S/A, em parceria com a Piper Aircraft Company, o U-7 Seneca enfrentou desafios significativos durante sua operação, particularmente devido a um elevado número de incidentes envolvendo a quebra da bequilha durante pousos, especialmente em pistas curtas e rudimentares, comuns em diversas regiões do Brasil. Esses contratempos geraram críticas no âmbito da Força Aérea Brasileira (FAB), ofuscando, em parte, o potencial da aeronave e desafiando os operadores que dependiam de sua versatilidade para conectar bases e comunidades remotas em um país de proporções continentais. No entanto, quando em voo, o U-7 Seneca demonstrava qualidades notáveis, graças à sua suíte eletrônica avançada para a época. Equipado com sistemas de navegação por instrumentos de alta confiabilidade, incluindo ADF Collins 650D, NAV/COM Bendix King KX-165, piloto automático Century III, VOR com ILS e transponder Modo C, o Seneca oferecia precisão e segurança em operações sob condições adversas. Complementando esses sistemas, o radar monocromático RDR-2100 Bendix-King garantia uma capacidade excepcional de navegação, permitindo que pilotos cumprissem missões com confiança, mesmo em ambientes desafiadores. Essa combinação de tecnologia e robustez tornava o Seneca uma ferramenta valiosa para os oficiais e tripulações que, com dedicação, conectavam as vastas regiões do Brasil, unindo esforços em prol da soberania e do progresso nacional. As aeronaves U-7 Seneca foram distribuídas a diversas unidades da FAB, desempenhando papéis cruciais em esquadrões e bases por todo o território nacional. Entre as unidades que operaram o modelo estavam o 1º, 2º e 6º Esquadrões de Transporte Aéreo (ETA), o 1º/13º Grupo de Aviação (GAv) – Esquadrão Paquera, o 1º/8º GAv – Esquadrão Falcão, o 2º/8º GAv – Esquadrão Poti, o 2º/8º GAv – Esquadrão Puma, o 5º/8º GAv – Esquadrão Pantera e o 7º/8º GAv – Esquadrão Harpia. Além disso, o Seneca foi empregado como aeronave orgânica em instituições de formação, como a Academia da Força Aérea (AFA), a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAr) e a Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAr), bem como nas Bases Aéreas de Brasília (BABR) e Anápolis (BAAN). A única unidade EMB-810D Seneca III operava a partir da Base Aérea de Brasília, destacando-se em missões de comando e ligação na capital federal. Para ampliar sua capacidade operacional em pistas curtas e não preparadas, comuns nos rincões do Brasil, as aeronaves U-7 Seneca receberam, ao longo de seus primeiros anos de serviço, kits STOL (Short Take-off and Landing) Robertson, que permitiam decolagens e pousos em espaços reduzidos. 
Com o objetivo de ampliar a capacidade operacional do Embraer EMB-810 Seneca em pistas curtas e não preparadas  uma realidade frequente em diversas regiões do Brasil, a Força Aérea Brasileira (FAB) implementou a instalação de kits STOL (Short Take-off and Landing) do tipo Robertson. Esses conjuntos incluíam modificações aerodinâmicas, como dispositivos nas pontas das asas, que aumentavam a sustentação e melhoravam o desempenho em decolagens e pousos em distâncias reduzidas. O processo foi conduzido com elevado rigor técnico nas instalações do Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMA-LS), em Minas Gerais, unidade responsável pela manutenção do modelo, resultando na redesignação das aeronaves para U-7A Seneca. Ao final da década de 1990, o Comando da Aeronáutica (COMAER) conduziu uma análise abrangente de sua frota de transporte leve, avaliando o estado operacional das aeronaves EMB-810C/D U-7 e U-7A. Esse estudo considerou fatores como idade média das células, ciclos de voo e vida útil remanescente, concluindo que, embora ainda confiáveis, os aviões aproximavam-se do limite de sua viabilidade operacional diante das exigências de modernização da força. Com base nesses resultados, iniciou-se um processo gradual de desativação. As aeronaves foram progressivamente recolhidas ao PAMA-LS, onde passaram por revisões gerais e descaracterização militar. Posteriormente, eram transferidas em voo para o Parque de Material Aeronáutico dos Afonsos (PAMA-AF), localizado no Rio de Janeiro, onde permaneciam armazenadas e disponíveis para alienação, com vistas à sua venda para operadores civis. A última aeronave em operação  um EMB-810C Seneca II U-7A, matrícula FAB 2632  realizou seus voos finais em agosto de 2010, encerrando um ciclo de décadas de serviço dedicado à Força Aérea Brasileira (FAB). Em reconhecimento ao seu valor histórico, essa unidade foi preservada e incorporada ao acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL), onde permanece como testemunho material da evolução da aviação militar brasileira. Apesar de críticas iniciais  sobretudo relacionadas a incidentes envolvendo a bequilha , a introdução do U-7 Seneca representou um avanço significativo, especialmente no que se refere à modernização de seus sistemas de navegação e aviônicos. Entre os equipamentos embarcados destacavam-se o ADF Collins 650D, o NAV/COM Bendix King KX-165, o piloto automático Century III, sistemas VOR com ILS, transponder Modo C e o radar meteorológico monocromático RDR-2100 Bendix-King, que ampliavam consideravelmente a segurança e a capacidade operacional da aeronave. Essas qualidades, aliadas ao baixo desgaste estrutural decorrente do uso relativamente moderado, contribuíram para que as aeronaves desativadas fossem rapidamente absorvidas pelo mercado civil. Pilotos particulares e pequenas empresas de táxi aéreo encontraram nesses aparelhos uma solução confiável, eficiente e economicamente viável, permitindo que o legado do Embraer EMB-810 Seneca se estendesse para além do serviço militar, continuando a conectar pessoas e regiões.

Em Escala.
A construção de uma réplica em miniatura do Embraer EMB-810C Seneca II U-7A, matrícula “FAB 2602”, utilizando o recente kit em resina na escala 1/72 da Duarte Models. O kit destaca-se pela alta qualidade de acabamento de suas peças, oferecendo um nível de detalhamento notável para a escala 1/72, que captura com precisão as linhas e características do Seneca. A utilização dos decais originais fornecidos no kit, produzidos pela FCM Decais, garante autenticidade na representação das marcações da Força Aérea Brasileira (FAB), incluindo a matrícula “FAB 2602. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura adotado pelas aeronaves de transporte e ligação da Força Aérea Brasileira (FAB) durante a década de 1970.  Este esquema foi mantido em uso até a desativação das aeronaves no ano de  2010.

Bibliografia :
- Aeronaves Militares Brasileira 1916 – 2015 Jackson Flores Junior
- Centro Histórico da Embraer - http://www.centrohistoricoembraer.com.br/pt-BR/HistoriaAeronaves/Paginas/EMB-810.aspx
- Piper PA-34 Seneca – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Piper_PA-34_Seneca

BT-9 North American NA-46P


História e Desenvolvimento.
A fundação da North American Aviation, em 6 de dezembro de 1928, na cidade de Los Angeles, Califórnia, marcou o início de uma trajetória que transformaria a empresa em um dos pilares da indústria aeronáutica norte-americana. Estabelecida pelo empresário Clement Melville Keys, a companhia nasceu como uma holding corporativa, com o objetivo de negociar participações em companhias aéreas e empresas relacionadas à aviação, em um momento de efervescência no mercado aeronáutico dos Estados Unidos. A história da North American Aviation é uma narrativa de adaptação, inovação e perseverança, protagonizada por visionários como Keys e James H. Kindelberger, que, junto a engenheiros, trabalhadores e pilotos, superaram desafios econômicos e técnicos para posicionar a empresa como uma líder no desenvolvimento de aeronaves militares e de treinamento. Inicialmente, a North American Aviation operava como uma holding, aproveitando o crescimento da aviação comercial e militar na década de 1920. No entanto, a promulgação da controversa “Lei do Correio Aéreo” de 1934, que reformulou a regulamentação do transporte aéreo nos Estados Unidos, desencadeou o colapso de muitas holdings do setor, incluindo os planos originais da empresa. Diante desse revés, a North American Aviation, já reconhecida como uma referência no meio aeronáutico, reorientou sua estratégia para o desenvolvimento e produção de componentes e, posteriormente, aeronaves completas. Essa transição foi liderada por James H. “Dutch” Kindelberger, um engenheiro com vasta experiência adquirida na Douglas Aircraft Company. Sob sua direção, a empresa passou a operar com capital proveniente da Eastern Air Lines, consolidando sua posição em um mercado competitivo. Em 1935, um marco significativo foi a aquisição da North American Aviation pela General Motors Corporation, por meio de uma fusão com sua divisão aeronáutica, a General Aviation Manufacturing Corporation. Nesse mesmo ano, a empresa decidiu transferir sua planta fabril de Dundalk, Maryland, para Los Angeles, Califórnia, atraída pelas condições climáticas estáveis da região, que permitiam a realização de ensaios de voo durante todo o ano. Essa mudança estratégica refletiu a visão de longo prazo da companhia, que buscava otimizar suas operações e se posicionar em um centro de inovação aeronáutica. Com a nova planta, a North American direcionou seus esforços para o mercado de aeronaves de treinamento, um segmento percebido como menos saturado em comparação com os nichos de aeronaves maiores ou mais complexas, como caças e bombardeiros. Desse novo direcionamento estratégico nasceram os modelos North American GA-16, projetado para missões de treinamento básico, e o NA GA-15, voltado para tarefas de reconhecimento e observação. Esses projetos, baseados em designs previamente desenvolvidos pela General Aviation Manufacturing Corporation, representaram os primeiros passos da North American Aviation na produção de aeronaves completas. Os protótipos realizaram seus voos inaugurais em janeiro de 1935, sendo submetidos a rigorosos programas de ensaios que culminaram em sua homologação no mesmo ano. 

A introdução do North American GA-16, redesignado como NA-18, e sua subsequente evolução para as variantes BT-9 e NJ-1, marcou um momento significativo na história da North American Aviation, consolidando sua reputação como uma fabricante inovadora e confiável no cenário aeronáutico dos Estados Unidos. Este processo, iniciado na década de 1930, reflete o empenho de engenheiros, pilotos de teste e líderes visionários, como James H. “Dutch” Kindelberger, em atender às demandas crescentes do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) e da Marinha dos Estados Unidos (US Navy). A história dessas aeronaves é uma narrativa de dedicação, inovação e adaptação, que transformou um projeto inicial de treinamento em um pilar essencial para a formação de pilotos militares, em um contexto de preparação para os desafios globais que se aproximavam. Após sua apresentação oficial, o GA-16, redesignado NA-18, foi submetido a um rigoroso programa de ensaios em voo, projetado para atender a uma consulta prévia do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), que buscava uma aeronave monoplano para treinamento e formação de pilotos. Com uma configuração de monoplano de trem de pouso fixo, o NA-18 possuía uma estrutura metálica revestida com tela aeronáutica, combinando robustez e leveza. Equipado com o confiável motor radial Wright R-975 de 400 hp, o modelo demonstrou desempenho promissor durante os testes, embora os resultados tenham identificado áreas para melhorias. Essas avaliações culminaram no desenvolvimento da versão NA-19, redesignada como BT-9 Advanced Trainer, que incorporou refinamentos técnicos para atender às exigências do Exército . Em outubro de 1935, a North American Aviation celebrou seu primeiro contrato de produção com o Exército dos Estados Unidos, envolvendo 42 células do BT-9. As entregas começaram no início de 1936, marcando o início da integração da aeronave nos principais centros de instrução do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC). Logo após, um segundo contrato foi firmado para 40 unidades de uma variante aprimorada, o BT-9A, que se distinguia pela adição de duas metralhadoras calibre .30: uma instalada na asa direita e outra no nariz, sincronizada com a hélice. Essas modificações refletiam a necessidade de preparar pilotos para cenários de combate, introduzindo elementos de treinamento tático. Posteriormente, as versões BT-9B, com 117 unidades encomendadas, e BT-9C, com 97 unidades, incorporaram melhorias nos sistemas elétricos e de navegação, consolidando a reputação do modelo como uma plataforma de treinamento versátil e eficaz. O desempenho do BT-9 nos centros de instrução do Exército rendeu elogios de instrutores e alunos, que destacaram sua estabilidade, facilidade de manuseio e confiabilidade. Esse sucesso despertou o interesse da aviação naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), que buscava uma aeronave de treinamento compatível com suas necessidades operacionais. 
A introdução do North American NJ-1, uma versão navalizada do NA-18, marcou um avanço significativo no treinamento de pilotos da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), consolidando a reputação da North American Aviation como uma empresa inovadora em um período de rápidas transformações na aviação militar. Contudo, a rápida evolução tecnológica e as crescentes tensões geopolíticas da década de 1930 logo revelaram a necessidade de um novo vetor de treinamento, culminando no desenvolvimento do NA-16-4P e em uma ambiciosa campanha de exportação. Essa trajetória reflete não apenas a visão estratégica de líderes como James H. “Dutch” Kindelberger, mas também o empenho de engenheiros, pilotos de teste e equipes comerciais que trabalharam incansavelmente para posicionar a North American como uma força global na indústria aeronáutica. A história do NJ-1 e suas variantes é uma narrativa de inovação, adaptação e determinação, enraizada em um contexto de preparação para conflitos iminentes e expansão internacional. O NJ-1, cujo protótipo realizou seu voo inaugural em maio de 1936, foi projetado para atender às demandas específicas da aviação naval, incluindo operações em ambientes marítimos. Após testes bem-sucedidos, a Marinha dos Estados Unidos (US Navy) encomendou 40 unidades, que rapidamente se tornaram um pilar essencial no treinamento de seus pilotos. Apesar de representar uma evolução significativa em relação às aeronaves de treinamento anteriores, o NJ-1 logo enfrentou os limites de sua concepção, com o avanço tecnológico indicando sua obsolescência a médio prazo. Esse cenário motivou a North American Aviation a desenvolver um novo modelo, projetado para emular o desempenho das aeronaves de caça modernas. A nova aeronave deveria incorporar um trem de pouso retrátil e superfícies revestidas de alumínio, substituindo o tradicional revestimento de tela, características que a alinhariam com as exigências de um cenário militar em rápida evolução. As tensões políticas na Europa, com a ascensão de regimes autoritários e os primeiros sinais de uma corrida armamentista, levaram o governo norte-americano a implementar um programa emergencial de rearmamento. Esse contexto intensificou a demanda por aeronaves de treinamento modernas, capazes de preparar pilotos para operar caças e bombardeiros de última geração. Diferentemente das concorrências anteriores, que envolviam lotes menores, esse novo processo previa uma aquisição de grande escala, refletindo a urgência de fortalecer as forças armadas dos Estados Unidos. A North American Aviation, ciente dessas oportunidades no mercado interno, também voltou seus olhos para o exterior, buscando clientes em nações que passavam por processos de modernização militar. Países da América Latina, Europa, Ásia e Oceania, com orçamentos militares muitas vezes limitados, tornaram-se alvos estratégicos, pois buscavam vetores de treinamento modernos, mas com custos de aquisição e operação acessíveis.

Para conquistar esses mercados, a diretoria comercial da empresa lançou, a partir de meados de 1937, uma ambiciosa campanha de marketing. Essa iniciativa incluiu apresentações e demonstrações das qualidades das novas aeronaves em diversos países, destacando sua confiabilidade, desempenho e economia operacional. A campanha focou inicialmente na América Latina, onde as forças armadas de nações como a Argentina buscavam modernizar suas frotas. O primeiro sucesso veio com a celebração de um contrato com o governo argentino, que adquiriu 29 aeronaves da versão de exportação NA-16-4P (designada NA-34), equipadas com o motor Curtiss-Wright R-975 Whirlwind. Essas aeronaves foram destinadas à Aviação Militar do Exército Argentino, marcando a entrada da North American no mercado internacional e consolidando sua reputação como uma fornecedora confiável de aeronaves de treinamento. No mercado interno, a North American Aviation firmou novos contratos com o Corpo Aéreo do Exército (USAAC) e, de forma mais significativa, com a Aviação Naval da Marinha (US Navy). A partir de 1938, as unidades de treinamento começaram a receber as primeiras aeronaves, que se destacaram por sua confiabilidade e adequação às exigências de formação de pilotos. Essas entregas reforçaram a posição da empresa como um fornecedor essencial para as forças armadas americanas, em um momento em que o país se preparava para os desafios de um cenário global cada vez mais instável. A ascensão do militarismo na Europa e na Ásia, com eventos como a anexação da Áustria pela Alemanha em 1938 e a Segunda Guerra Sino-Japonesa, intensificou a necessidade de modernizar as forças aéreas, tanto nos Estados Unidos quanto em nações aliadas. Na América Latina, a North American Aviation continuou sua campanha de marketing iniciada em 1937, realizando novas apresentações em 1939 que despertaram o interesse de vários países. Esse esforço resultou na assinatura de contratos com os governos do Brasil e da Venezuela, ampliando a presença da empresa na região. Esses acordos refletiam a busca de nações latino-americanas por modernizar suas forças aéreas em um contexto de rivalidades regionais e limitações orçamentárias, com o NA-16-4P sendo uma escolha ideal por seu equilíbrio entre desempenho avançado e custos operacionais acessíveis. A entrada da North American nesses mercados fortaleceu os laços aeronáuticos entre os Estados Unidos e a América Latina, contribuindo para a formação de pilotos em países que desempenhariam papéis estratégicos durante a Segunda Guerra Mundial. O maior sucesso comercial da North American, no entanto, veio da Oceania, com a celebração de um contrato para produção sob licença com a Commonwealth Aircraft Corporation (CAC) em Melbourne, Austrália. Esse acordo, firmado no final da década de 1930, previa a montagem de 700 aeronaves de treinamento avançado, equipadas com motores radiais Pratt & Whitney R-1340 Wasp de 600 hp, destinadas aos esquadrões de treinamento da Real Força Aérea Australiana (RAAF). Essas aeronaves, que entraram em serviço ativo a partir do final de 1939, permaneceram operacionais até o final da década de 1940, desempenhando um papel crucial na formação de pilotos australianos. 
Outro contrato significativo foi assinado com o governo sueco, para equipar as unidades de treinamento da Força Aérea Sueca (Flygvapnet). Esse acordo envolveu a montagem de 138 aeronaves, designadas localmente como SK14 e SK14A, nas instalações da SAAB Svenska Aeroplan AB. A pedido dos militares suecos, as aeronaves podiam ser equipadas com motores Curtiss-Wright R-975 Whirlwind de 450 hp ou com motores italianos Piaggio P VII C de 435 hp. Essa flexibilidade refletia a preocupação da Suécia em reduzir a dependência de fornecedores únicos, especialmente em um contexto de crescentes tensões políticas na Europa, com a ascensão do nazismo e o início da Segunda Guerra Mundial em 1939. A escolha de motores alternativos foi uma medida estratégica, garantindo a continuidade da operação das aeronaves em um cenário de possíveis interrupções no fornecimento de peças. Em serviço junto as unidades de treinamento do Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC), o North American BT-9 começaria a apresentar um preocupante índice de problemas com  stall/spin e velocidade de estol, resultando em algumas ocorrências graves. Tentativas de correção seriam feitas, gerando versões modificadas no desing das asas, chegando no desenvolvimento do modelo BT-14 o qual seria construídas duzentas e cinquenta e uma células. Porém os resultados obtidos seriam paliativos, não atendendo as demandas de segurança necessárias para aeronaves de treinamento. Este cenário levaria a necessidade de desenvolvimento de uma nova aeronave de treinamento desta categoria, o que culminaria no programa  "USAAC  Basic Combat” (USAAC Combate Básico). Ao todo até fins do ano de 1939 seriam produzidas pela North American Corporation um total de duzentas e trinta e nove células, distribuídas entre as versões BT-9, BT-9A, BT-9B, BT-9C, BT-9D e NJ-1. Já as aeronaves montadas sob licença na Austrália e Suécia ou destinadas à exportação totalizariam a cifra de mil e trezentas células.  Junto as forças armadas norte-americanas, tando o BT-9 quanto o BT-14 passariam a ser substituídos a partir de 1940 pelo novo North American  BC-1 (Basic Combat – Treinador Básico de Combate). Além de seu país de origem, aeronaves desta família seriam operadas pelas forças armadas da Argentina, China, França (incluindo também a Força Aérea Francesa de Vichy), Alemanha Nazista (aeronaves capturadas), Honduras, Japão, Holanda, África do Sul, Rodésia do Sul, Suécia, Reino Unido e Venezuela. Seu substituto natural em quase todas estas nações, seriam as versões iniciais dos North American NA-72 e T-6 Texan, mesmo assim grande parte desta frota se manteria em operação pelo menos até o início da década de 1950. 

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A história do programa de formação de aviadores navais no Brasil, iniciado com a fundação da Escola de Aviação Naval (EAvN) em 23 de agosto de 1916, é uma narrativa de determinação, inovação e adaptação, marcada pelo esforço contínuo de oficiais, instrutores e técnicos em construir uma aviação naval robusta em um contexto de limitações tecnológicas e orçamentárias. Estabelecida na Ilha do Rijo, na Baía de Guanabara, a EAvN lançou as bases para a formação de pilotos que desempenhariam um papel crucial na defesa marítima do Brasil. Essa trajetória, que se desdobrou ao longo das décadas de 1910 e 1930, reflete a resiliência de uma instituição que enfrentou desafios estruturais e tecnológicos para acompanhar o rápido avanço da aviação mundial, consolidando a formação de aviadores como um pilar estratégico da Marinha do Brasil. Nos primeiros dez anos de operação, a Escola de Aviação Naval (EAvN) concentrou-se em estruturar sua doutrina e meios operacionais, um processo marcado por dificuldades logísticas e pelo aprendizado gradual. Durante esse período, a formação de pilotos foi sustentada pelo uso de aeronaves biplanas, como o Avro 504K, de origem britânica. Embora atendesse aos requisitos mínimos para treinamento, o Avro 504K, com seu design robusto, porém datado, logo revelou limitações frente aos avanços tecnológicos da aviação mundial. Consciente da necessidade de modernização, o Comando da Aviação Naval, já na década de 1920, começou a planejar a renovação de sua frota. Em 1932, esse esforço culminou na aquisição dos De Havilland DH-60T Moth Trainer, aeronaves mais modernas que representaram um avanço significativo no treinamento básico. No entanto, o rápido progresso da tecnologia aeronáutica na década de 1930 tornou obsoleta grande parte da frota militar brasileira, exigindo um novo ciclo de modernização para manter a competitividade da Aviação Naval. Nesse contexto, a Marinha do Brasil direcionou esforços estratégicos para a formação de seus pilotos, reconhecendo que a capacitação de aviadores era essencial para a eficácia operacional. Um marco importante foi a celebração de um contrato com a empresa alemã Focke-Wulf GmbH para a aquisição e produção sob licença do treinador básico FW-44 Stieglitz (Pintasilgo). Esse programa, iniciado na década de 1930, não apenas atendeu às necessidades de treinamento básico, mas também lançou as bases para a futura indústria aeronáutica brasileira, promovendo o desenvolvimento de capacidades locais para a montagem de aeronaves militares. O  Focke Wulf FW-44, com sua confiabilidade e facilidade de manuseio, tornou-se um pilar do treinamento inicial, permitindo que a Escola de Aviação Naval (EAvN) formasse pilotos com maior eficiência. Apesar dos avanços no treinamento básico, restava a necessidade de preencher a lacuna no treinamento avançado, essencial para preparar pilotos para operar aeronaves mais complexas. 

Em 1937, a Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) abriu uma concorrência internacional para selecionar uma nova aeronave que atendesse a esses requisitos. Fabricantes de renome, incluindo alemães, norte-americanos e britânicos, apresentaram propostas, com destaque para modelos como o Waco D, Seversky X-BT, Curtiss  Wright 19R, Avro 626 e as variantes do  North American NA-16-4P e NA-16AP. A Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) conduziu análises rigorosas, descartando rapidamente as aeronaves de configuração biplana, que já não correspondiam às ambições da Aviação Naval. A preferência recaiu sobre designs monoplanos, que ofereciam maior modernidade e desempenho, alinhando-se às tendências globais da aviação militar Descartadas as aeronaves de concepção mais antiga, o processo se estenderia por mais seis meses, porém os concorrentes finais que pertenciam ao portifólio da North American Aviation Corporation e por serem de concepção mais moderna, apresentavam um custo unitário de aquisição superior ao orçamento originalmente destinado a esta concorrência. Neste objetivo seriam conduzidas novas negociações comerciais com seus representantes visando assim viabilizar a aquisição de um pequeno lote destas aeronaves. Este processo se estenderia pelos próximos seis meses, culminando assim em uma proposta ajustada para a venda de um lote de aeronaves do modelo NA-16P-4P, que atendia plenamente as características exigidas pela Aviação Naval. Esta versão oferecida em muito se assemelhava ao modelo North American BT-9C empregado pela Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC),  e apresentava algumas facetas semelhantes aos North American NA-45 encomendados pela Força Aérea Venezuelana e pelo Exército Argentino. O contrato seria oficialmente assinado entre a Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) e North American Aviation Corporation, na cidade do Rio de Janeiro no dia 2 de dezembro de 1938. Este termo previa a aquisição de doze aeronaves novas de fábrica, da versão de exportação agora designada pelo fabricante como NA-46. Este acordo incluiria ainda um pacote completo de suporte abrangendo grande lote de peças de reposição, pacote de treinamento para operação e manutenção, além de todo o ferramental. O primeiro lote destas aeronaves seria transportado por via naval, sendo recebido no porto do Rio de Janeiro no terceiro trimestre de 1939, com estas aeronaves apresentando os números de série de produção de 46-972 á 46-977. Uma segunda remessa com as células restantes de serial 46-1991 a 46-1996 seria desembarcada no Brasil em meados do mês de abril do ano seguinte. Estas aeronaves estavam equipadas com o motor a pistão radial Wright Whirlwind R-975-E3 de 400 hp, que rendia ao modelo uma performance inferior as versões em uso nas forças armadas norte-americanas. 
As especificações da concorrência internacional lançada pela Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) em 1937 exigiam uma aeronave versátil, capaz de realizar missões de ataque ao solo além de treinamento avançado. O North American NA-16-4P, selecionado entre propostas de fabricantes alemães, norte-americanos e britânicos, atendia a esses requisitos com um design monoplano moderno, equipado com duas metralhadoras Browning calibre .30 — uma na asa direita e outra no capô, sincronizada com a hélice. A aeronave também podia carregar até quatro bombas de queda livre de 50 kg e, opcionalmente, uma metralhadora móvel na traseira da cabine, conferindo-lhe flexibilidade para treinamento tático e operações de combate leve. Essa configuração refletia a visão estratégica da Marinha de preparar pilotos para cenários operacionais mais complexos, em um período marcado pelo avanço da aviação militar global. Após a incorporação, as aeronaves receberam a designação militar V1 NA e as matrículas V1 NA-192 a V1 NA-203. Representantes da North American Aviation ministraram treinamentos iniciais de operação e manutenção, garantindo que pilotos e técnicos da Aviação Naval dominassem as características do novo modelo. As primeiras seis aeronaves foram destinadas à 1ª Esquadrilha de Adestramento Militar (1º EAM), sediada na Ilha do Rijo, onde começaram as operações de treinamento avançado. As demais células foram alocadas à 2ª Esquadrilha de Adestramento Militar (2º EAM), com sede na Base de Aviação Naval do Galeão, no Rio de Janeiro. Essas unidades tinham como missão aprimorar as habilidades aeronáuticas dos pilotos recém-formados na Escola de Aviação Naval (EAvN), que até então haviam treinado apenas em biplanos, como o Avro 504K e o Focke-Wulf FW-44 Stieglitz. O programa de adestramento incluía instrução em navegação, tiro aéreo, comunicações e bombardeio, projetado para preparar os aviadores para as exigências da aviação moderna. A chegada do segundo lote de aeronaves, em abril de 1940, completou a dotação das esquadrilhas, permitindo a implementação plena do programa de instrução. Esse esforço representou um avanço significativo, pois introduziu os pilotos a uma aeronave monoplana com características mais próximas das usadas em combate, marcando uma transição crucial na formação naval. No entanto, a criação do Ministério da Aeronáutica (MAer), em 20 de janeiro de 1941, alterou drasticamente o curso desses esforços. A decisão, aguardada desde meados de 1940, unificou a aviação militar brasileira sob a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB), resultando na transferência imediata de todas as aeronaves, pessoal e infraestrutura da Aviação Naval para o novo ramo militar. Essa mudança, embora estratégica para a consolidação das forças aéreas brasileiras, encerrou abruptamente a carreira do V1 NA na Marinha, interrompendo o trabalho árduo de oficiais e pilotos da 1º e 2º EAM.

Com a transferência, a frota da Força Aérea Brasileira (FAB) passou a contar com mais de 400 aeronaves, mas apenas cerca de 25% delas, incluindo os North American NA-46 (uma designação posterior para as variantes do NA-16), possuíam valor estratégico significativo naquele momento. A maioria das aeronaves herdadas estava em estado de obsolescência, destacando a importância dos V1 NA como um dos poucos modelos modernos à disposição da nova força aérea. Este contexto resultaria no fato de que a 1º Esquadrilha de Adestramento Militar (1º EAM), seria uma das raras unidades da Aviação Naval que não seria afetada por mudanças organizacionais ou de material, se mantendo intacta, não só em termos de missão, mas também de identidade.   Ainda durante seu processo de integração junto a estrutura da Força Aérea Brasileira, a 1ª Esquadrilha de Adestramento Militar (1º EAM), infelizmente sofreria a sua primeira perda total de material e pessoal, em um acidente em 13 de maio de 1941 próximo a cidade de Adamantina no estado de São Paulo. Não obstante esta fatídica ocorrência, a unidade seguiria rotineiramente desenvolvendo seus trabalhos, no entanto já despontava no horizonte uma importante tarefa para aquela unidade e seus North American NA-46. Neste momento a ameaça da guerra na Europa já começava a se aproximar de nosso país, com o Governo Federal começando a considerar seu possível envolvimento no conflito como uma resposta direta em caso de agressão, fazendo se necessário então reforçar suas forças armadas. A participação da arma área neste conflito cada vez mais ganhava importância, com o comando da Força Aérea Brasileira (FAB) percebendo a necessidade de reforçar substancialmente seu quadro de pilotos, tendo em vista que seu quadro de oficiais aviadores neste período era de apenas trezentos e oitenta e nove militares. Diversos esforços seriam iniciados com um deles entre os meses de junho e agosto de 1942 culminando no estabelecimento de Centros de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), se destacando o centro pertencente a Base Aérea do Galeão no Rio de Janeiro. Para enfrentar esse desafio, o comando da Aeronáutica implementou medidas estratégicas, incluindo a criação dos Centros de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) entre junho e agosto de 1942. O CPOR da Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, foi equipado com as 11 células remanescentes do NA-46, recebendo a missão de transformar pilotos civis em aviadores militares aptos para serviço imediato. O programa de treinamento foi estruturado em etapas: a instrução básica era realizada nos biplanos alemães Focke-Wulf FW-44J, seguida pelo treinamento avançado nos NA-46, culminando na graduação como aspirante a oficial aviador.
A chegada de novos treinadores Fairchild PT-19 em grande quantidade a partir de 1942, fornecidos por meio de acordos com os Estados Unidos, como o programa Lend-Lease, promoveu uma reorganização no sistema de treinamento da Força Aérea Brasileira (FAB). A instrução básica passou a ser centralizada na Base Aérea do Galeão, enquanto as aeronaves NA-46 foram transferidas para o II Grupamento do CPOR, onde continuaram a desempenhar um papel crucial no treinamento avançado. Nesse processo, as aeronaves receberam novas matrículas, alinhadas ao padrão da Aeronáutica, sendo redesignadas como BT-9. Essa transição reflete a rápida modernização da FAB, que buscava integrar equipamentos mais avançados enquanto maximizava o uso das aeronaves existentes, mesmo em um contexto de recursos limitados Com o término do conflito em 1945, o papel dos BT-9 começou a diminuir, à medida que a Força Aérea Brasileira (FAB) priorizava a incorporação de aeronaves mais avançadas. Em maio de 1947, uma comissão técnica da Base Aérea do Galeão avaliou a frota, declarando cinco células impróprias para operação devido à sua obsolescência e ao péssimo estado de conservação. A recuperação dessas aeronaves foi considerada antieconômica, levando à decisão de desmontá-las para uso como fonte de peças de reposição, com as carcaças posteriormente sucateadas. Essa medida, embora pragmática, marcou o início do declínio dos BT-9, refletindo os desafios enfrentados pela Força Aérea Brasileira (FAB) em manter uma frota heterogênea em um período de renovação tecnológica. No início de 1948, a frota sofreu novas perdas com dois acidentes, reduzindo-a a apenas duas células operacionais, matrículas BT-9 1039 e 1040. Essas aeronaves foram relegadas a tarefas administrativas, um papel secundário que contrastava com sua importância anterior no treinamento. Em julho de 1949, um boletim interno da FAB classificou oficialmente o BT-9 como obsoleto para instrução, determinando sua transferência para o Destacamento da Base Aérea de Santos (DBAST), onde continuariam em funções administrativas. Em maio de 1952, a última aeronave em condições de voo foi revisada e transferida para a Base Aérea do Galeão, onde serviu como aeronave orgânica, desempenhando missões de apoio logístico. Finalmente, em agosto de 1953, a ordem foi emitida para que o último BT-9 fosse recolhido ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PQAerAF), no Rio de Janeiro, para alienação e venda como sucata, encerrando sua carreira operacional.

Em Escala.
Para representar o North American NA-46,  com e registro e matrícula "V1NA-192 1-V-1", quando empregado pela Escola de Aviação Naval (EAvN)  durante a década de 1930, optamos pela única alternativa disponível no mercado: um kit em Vac Form da Beechnut Models, na escala 1/72.  Este modelo, por ser antigo, demanda um trabalho meticuloso de correção e ajuste das peças durante a montagem, além de requerer a construção artesanal de diversas partes, utilizando técnicas de "scratch building". Como não há um conjunto de decais dedicado à versão brasileira, recorremos a uma seleção de decais variados produzidos pela FCM Decais para completar a representação com precisão.
O padrão de cores (FS) descrito a seguir corresponde ao esquema de pintura originalmente aplicado aos North American NA-46 quando recebidos em 1939. Após sua transferência para a Força Aérea Brasileira (FAB) em 1941, esse padrão sofreu alterações sutis, limitando-se à substituição dos cocares, à atualização das matrículas e à aplicação das cores verde e amarelo no leme, preservando, assim, a essência do design original com adaptações que refletem a identidade nacional.

Bibliografia:
- Revista ASAS nº 60 " North American T-6 na FAB ( 1942 - 1963 ) - Aparecido Camazano Alamino
- North American BT-9 Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/North_American_BT-9
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015  – Jackson Flores Jr

M.7 e M.9 Macchi Aeronautica

História e Desenvolvimento. 
A Aeronautica Macchi, posteriormente conhecida como Aermacchi e integrada ao grupo Finmeccanica (atual Leonardo S.p.A.), é uma das mais icônicas fabricantes aeronáuticas da Itália, com uma trajetória que abrange mais de um século de inovações em aviação militar e civil. Fundada em fundada em abril de 1912 por Giulio Macchi na cidade Varese, no noroeste da Lombardia como Nieuport-Macchi, com a finalidade básica de produzir aeronaves francesas de projeto da Societé A Nieuport-Delage Issy Les, para a Marinha Real Italiana (Regia Marina) e para o Exército Real Italiano (Regio Esercito Italiano). Em função desta parceria em  1º de maio do ano seguinte passaria a se chamar como Società Anonima Nieuport-Macchi. De suas linhas de produção saíram modelos com modificações locais para reconhecimento e caça, se destacando o  Nieuport-Macchi N.VI, Nieuport-Macchi Parasol, Nieuport-Macchi N.10, Nieuport-Macchi N.11, Nieuport-Macchi N.17. Este processo de fabricação sob licença traria uma importante absorção de know how no projeto e desenvolvimento de aeronaves militares. Curiosamente a gênese de uma ampla família de hidroaviões italianos de sucesso, seria baseada em um processo de em engenharia reversa, quando militares do Exército Real Italiano (Regio Esercito Italiano), lograram êxito em capturar uma aeronave Loher L40E austríaca, esta aeronave seria levada intacta para a estação aérea naval de Porto Corsini e de lá transportada para a fábrica da Nieuport-Macchi. A aeronave seria copiada em tempo recorde pela equipe do engenheiro italiano Alessandro Tonini, com o primeiro protótipo designado como Macchi L1, alçando voo um mês após a chegada do aerobote Loher L40E. Deste modelo quatorze células seriam produzidas e entregues a Marinha Real Italiana (Regia Marina). A busca por um melhor desempenho resultaria no modelo Macchi L-2 que passava a apresentar desing melhorado e um motor mais potente, agora o Isotta Fraschini V.4B com 160 hp de potência. Mais dez aeronaves seriam produzidas até meados do ano de 1916, porém seus resultados em voo, ainda não atendiam plenamente as demandas dos militares italianos.  Novamente de volta a prancheta de projetos, nasceria em 1917  o Macchi L-3, agora renomeado como “M-3”, esta nova aeronave abandonava as influências de desing austríaco, apresentando um novo desenho de casco e asas. Sua performance em voo agradaria o comando da Marinha Real Italiana (Regia Marina), resultando em um contrato para duzentas aeronaves 

Os hidroaviões Macchi  L-3, operavam a partir de bases como Grado, Veneza e Ancona, enfrentando condições desafiadoras, como ataques de caças inimigos, defesas antiaéreas e o ambiente marítimo adverso do Adriático. Relatos históricos indicam que o L-3 foi empregado em operações contra alvos austro-húngaros, como incursões costeiras e reconhecimento de posições fortificadas, enfrentando fogo antiaéreo e, ocasionalmente, caças inimigos como o Hansa-Brandenburg C.I. O Macchi L-4 (ou M.4) foi um hidroavião monomotor de reconhecimento, introduzido em 1917 como uma evolução do Macchi L.3, equipado com um motor Isotta Fraschini V.4B de 170 HP, oferecendo melhor desempenho em missões de patrulha, reconhecimento e bombardeio leve. Em sequência seria desenvolvido o Machi M-5, projetado como um caça hidroavião para atender às demandas da Regia Marina por uma aeronave capaz de enfrentar caças austro-húngaros, como o Hansa-Brandenburg C.I e Phönix D.I, além de realizar patrulhas e ataques leves. Introduzido em 1917, o M.5 era um biplano com flutuadores, equipado com um motor Isotta Fraschini V.6B de 180 HP (algumas unidades usaram motores de até 250 HP), oferecendo maior manobrabilidade que os modelos anteriores (L.3 e L.4). Sua estrutura de madeira coberta por tecido e design aerodinâmico permitiam decolagens e pousos em águas agitadas, enquanto sua capacidade de combate o tornava eficaz contra alvos aéreos e terrestres. O M.5 foi produzido em cerca de 240 unidades (200 pela Macchi e 40 pela Società Idrovolanti Alta Italia), com entregas começando em 1917 e continuando até o final da guerra. O batismo de fogo do Macchi M.5 ocorreu em 1917, provavelmente entre meados e o final do ano, quando as primeiras unidades foram entregues à Regia Marina e integradas às esquadrilhas navais baseadas em portos como Veneza, Grado e Ancona, no Adriático. Diferentemente dos modelos anteriores (L.1 a L.4), focados em reconhecimento e bombardeio leve, o M-5 foi projetado como um caça hidroavião, capaz de enfrentar aeronaves inimigas em combates aéreos e realizar missões ofensivas contra alvos navais e terrestres. No final da Primeira Guerra Mundial, aviões Macchi M-5 foram pilotados por aviadores da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) e do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC). Por suas ações enquanto voava um Macchi M-5 sobre o Mar Adriático ao largo da costa da Áustria-Hungria em 21 de agosto de 1918, o alferes da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) Charles Hammann, um piloto alistado na época, recebeu a primeira Medalha de Honra concedida a um aviador naval norte americano.
Em 1918, o engenheiro italiano Alessandro Tonini, empregaria o Macchi M-5 como ponto de partida para o desenvolvimento de uma nova versão melhorada, apesar de manter a motorização de seu antecessor, seu novo desenho de casco, e passava a ser armado com duas metralhadoras  inglesas Vickers de 7,7 mm, o tornando assim a primeira aeronave produzida pela Aeronautica Macchi S.p.A a estar a combater, em pé de igualdade, com seus pares terrestres.  Cerca de 50 unidades do M.7 foram produzidas durante a guerra, com entregas começando no final de 1918. Sua introdução tardia significou que apenas um número limitado de esquadrões, como a 261ª Squadriglia em Veneza, operou o modelo antes do armistício de 4 de novembro de 1918. O batismo de fogo do Macchi M.7 provavelmente ocorreu no final de outubro ou início de novembro de 1918, durante a Batalha de Vittorio Veneto (24 de outubro a 4 de novembro de 1918), a ofensiva final italiana que levou ao colapso do Império Austro-Húngaro. Apesar de sua modesta produção, o Macchi M-7 conquistou seu lugar na história da aeronáutica a vencer a Schneider Cup em 1921, uma corrida realizada entre hidroaviões de diversos países, os quais representavam literalmente o que havia de mais moderno no meio aeronáutico mundial. O Macchi M-8 começou a ser desenvolvido em paralelo a versão anterior Macchi M-7, e tinha como objetivo introduzir no projeto reforços estruturais significativos, como a introdução de novas asas rígidas (ou struts entre plantas) seu desenho de casco foi melhorado a partir de desenhos anteriores e a unidade traseira foi semelhante à desenvolvida para o Macchi M-7. Diferentemente de seus antecessores, que eram caças hidroaviões otimizados para combate aéreo, o M-8 focava em versatilidade para missões de apoio tático, com maior capacidade de carga em comparação com seus predecessores. A produção do M.8 foi limitada, com estimativas de 30 a 50 unidades fabricadas, devido ao fim da guerra em novembro de 1918. A aeronave foi entregue a esquadrões da Regia Marina, como os baseados em Veneza e Ancona, mas seu uso operacional foi restrito pelo armistício. Após a guerra, o M-8 foi usado em papéis secundários, como treinamento e patrulhas costeiras, na década de 1920. Sua tecnologia influenciou os hidroaviões de competição da Macchi, como o M.39 e M.C.72, que dominaram a Coupe Schneider e estabeleceram recordes de velocidade

Atendo as possíveis necessidades dos militares italianos e possíveis clientes de exportação, em 1918 engenheiro Alessandro Tonini iniciou o desenvolvimento aerobote destinado primordialmente a missões de bombardeio naval e reconhecimento visual de longo alcance.  O Macchi M-9 foi projetado como uma evolução do Macchi M-8, mantendo a configuração de biplano com flutuadores, mas com aprimoramentos na estrutura, aerodinâmica e capacidade de carga. Apresentava a configuração da asa biplano-sequiplana, introduzindo o sistema estrutural do tipo “Warren Truss struts style” (suportes longitudinais unidos apenas por elementos transversais angulados), que se tornaria característica do design deste fabricante. O novo Macchi M-9 era um hidroavião significadamente maior, com uma área alar de 48,5 metros quadrados, envergadura de 15,40 metros, Comprimento de 9,40 metros e altura de 3,25 metros, deslocando um peso vazio de 1.250 kg e bruto de 1.800 kg. Esta aeronave passava a ser equipada com o novo motor Fiat A12 Bis que lhe conferia cerca de 300 hp, o que o possibilitava atingir uma velocidade máxima de 188 km/h e um teto de serviço de 5.500 metros (18.050 pés). O M-9 era otimizado para missões de reconhecimento marítimo, patrulha e bombardeio leve, com capacidade para carregar uma metralhadora defensiva e bombas de até 200 kg. Diferentemente do M-5 e M-7, que eram caças hidroaviões focados em combate aéreo, o M-9 priorizava versatilidade, com maior capacidade de carga e autonomia para operações prolongadas. Neste período ficava cada vez mais claro o desfecho da Primeira Guerra Mundial, com as forças aliadas pressionando cada vez mais o Império, se tornando apenas uma questão de tempo sua rendição incondicional, atento a este cenário era vital para a Aeronáutica Macchi, que a nova aeronave fosse desenvolvida, ensaiada e homologada em tempo recorde, para assim poder contribuir no esforço de guerra, logrando neste contexto um grande contrato de produção para a pela Aviação da Marinha Real Italiana (Aviazione per la Regia Marina).  Correndo contra o tempo, o primeiro protótipo do novo Macchi M-9 alçaria voo em 2 de junho de 1918, sendo imediatamente entregue para os militares italianos a fim de ser submetido a ensaios em voo para aceitação.  Os excelentes resultados em voo observados levariam a rápida homologação para uso militar como bombardeio naval de longo alcance, porém sua produção se limitaria entre 20 a 30 unidades, devido ao término da guerra em novembro de 1918. As entregas começaram no final de 1918, poucos dias então antes da declaração do armistício, com o M-9 sendo alocado a esquadrões da Regia Marina em bases como Veneza e Ancona.
Embora tenha visto pouco ou nenhum combate significativo na Primeira Guerra Mundial, o Macchi M-9 foi amplamente utilizado no período pós-guerra, especialmente na década de 1920, para treinamento, patrulhas costeiras e até mesmo em versões civis. O final da guerra traria a todas as nações europeias grandes cortes em seus orçamentos militares, levando uma redução drásticas nas entregas das aeronaves Macchi M-7 contratadas, resultando em apenas mais vinte e quatro aeronaves a serem entregues as forças armadas italianas até meados do ano de 1919, totalizando então apenas quarenta hidroaviões entregues. Contando com componentes e matérias primas em estoque adquiridas anteriormente, se fazia necessário comercializar o maior número de aeronaves possíveis, com diretoria da empresa passando a mirar um possível mercado de exportação. Assim, em fins de 1919 a áreas comercial da Aeronáutica Macchi, empreendeu esforços e recursos na realização de uma missão de propaganda militar com a finalidade promover os produtos da indústria aeronáutica italiana na América do Sul, com apresentações efetuadas para os governos locais entre eles Argentina que adquiriu dois exemplares para uso em missões de patrulha junto a Aviação Naval da Marinha Argentina (Aviación Naval Argentina), seguido por uma compra semelhante feita pela Marinha Brasileira. Em 1921 a Marinha Polonesa (Morski dywizjon lotniczy,) assinaria contrato para a aquisição de nove células para emprego em sua aviação naval, estas aeronaves transportadas por um navio mercante, e foram recebidas desmontadas no porto de Gdansk, sendo transportadas até a base naval de Puck onde depois de montadas e ensaiadas em voo, passaram a operar em missões de patrulha. Em 1922 a empresa polonesa Centralne Warsztaty Lotnicze (CWL) assumiu a manutenção das aeronaves italianas, inclusive as poucas células militares ainda em uso que estavam alocadas em missões de treinamento. Este contrato ainda a autorizava a produção sob licença do Macchi M-9, com cinco células sendo produzidas e operadas pelo menos até o final do ano de 1926. Um pequeno número de aeronaves seria produzidas pela Aeronáutica Macchi logo após o termino do conflito, em uma configuração inusitada de transporte de passageiros denominada como Macchi M-9 Bis, sendo equipadas com quatro assentos extras, passando a ser empregadas em linhas regulares de transporte de passageiros e correio na Suíça e na Itália, se mantendo nesta função pelo menos até fins da década de 1920.

Emprego na Marinha do Brasil.
Assim como o brasileiro Alberto Santos Dumont é reconhecido mundialmente por seu voo pioneiro em 1906, com o 14-Bis, o primeiro "engenho" mais pesado que o ar a realizar um voo documentado, a Marinha do Brasil desempenhou um papel fundamental na implantação e consolidação da aviação militar no país. Apenas cinco anos após o voo histórico de Santos Dumont, a Marinha do Brasil demonstrou uma visão prospectiva ao reconhecer o potencial estratégico das aeronaves no campo militar. Em 1911, dois eventos significativos marcaram o início desse interesse: Primeiro Piloto Militar Brasileiro: Em 29 de abril de 1911, o Tenente da Marinha Jorge Henrique Moller tornou-se o primeiro militar brasileiro a receber o "brevet" de piloto, obtido na França. Sua qualificação representou um passo pioneiro na formação de uma geração de aviadores militares no Brasil. Fundação do Aeroclube Brasileiro: Em 14 de outubro de 1911, foi criado o Aeroclube Brasileiro, uma instituição que fomentou o interesse pela aviação no país, servindo como um ponto de convergência para entusiastas e futuros pilotos, incluindo militares. Esses eventos refletem o comprometimento precoce da Marinha em explorar as possibilidades da aviação, em um momento em que a tecnologia aeronáutica ainda era incipiente e sua aplicação militar estava apenas começando a ser compreendida. O marco oficial do nascimento da Aviação Naval Brasileira ocorreu em 23 de agosto de 1916, quando o Presidente Wenceslau Braz assinou o Decreto nº 12.155, criando a Escola de Aviação Naval (EAvN). Essa instituição, a primeira escola militar de aviação do Brasil, tornou-se o berço da aviação militar brasileira e um símbolo do pioneirismo da Marinha do Brasil. Inicialmente instalada no antigo Arsenal de Marinha, no Rio de Janeiro, a Escola de Aviação Naval (EAvN) foi posteriormente transferida para a Ilha das Enxadas, onde suas operações foram expandidas. A criação da Escola de Aviação Naval (EAvN) representou um passo audacioso para o Brasil, que buscava alinhar-se às potências mundiais no desenvolvimento de capacidades aéreas militares. A escola foi projetada para formar pilotos e técnicos, além de estabelecer as bases para o uso estratégico de aeronaves em operações navais e de defesa. Neste momento a  Escola de Aviação Naval (EAvN) realizou os primeiros voos de longa distância, conhecidos como "raids", entre o Rio de Janeiro e Angra dos Reis, e entre o Rio de Janeiro e Campos. Esses voos demonstraram a viabilidade do uso de aeronaves para conectar cidades e reforçar a presença militar.  Caberia ainda a Escola de Aviação Naval (EAvN) ser  responsável pelo transporte da primeira mala aérea civil e da primeira mala aérea militar, marcando o início do uso de aeronaves para comunicações logísticas no Brasil.  

Eventos especiais também seriam registrados como o  primeiro voo de Santos Dumont, como passageiro, em uma aeronave militar brasileira; primeiro voo de um Presidente da República em uma aeronave militar brasileira. Apesar do pioneirismo da Marinha do Brasil na criação da Aviação Naval, com a fundação da Escola de Aviação Naval (EAvN) em 1916, os primeiros anos dessa força foram marcados por uma crônica escassez de recursos financeiros e materiais. Essas limitações inibiram o desenvolvimento natural da Aviação Naval, restringindo sua capacidade de expandir operações e modernizar suas estruturas.  Apesar do recebimento de um punhado de hidroaviões nos anos de 1917 e 1918, a fragilidade material dessas aeronaves resultava na baixíssima disponibilidade desses meios. Numa época em que a vida útil de uma aeronave militar era medida em meses, a equipe de manutenção da aviação naval operava pequenos milagres para manter um número mínimo de hidroaviões disponíveis para a formação dos alunos matriculados naquela escola de aviação. Com o término da Primeira Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918, a aquisição de material aeronáutico no exterior, bem como o intercâmbio de profissionais da aviação militar, ficou mais fácil e econômico, principalmente devido à necessidade premente das indústrias de armamentos europeias em buscar novos mercados para seus produtos, pois o final do conflito desencadearia uma série de cancelamentos de contratos de produção para o esforço de guerra aliado, com o maior impacto deste efeito sendo sentido na indústria aeronáutica. Neste momento o Ministério da Marinha, iniciou no exterior buscas do tipo de "compras de oportunidade" de modelos que pudessem atender a estas demandas, e no transcurso de 1919, seriam adquiridos cinco diferentes tipos de hidroaviões. Entre estes encontrava-se um exemplar de um Macchi M-7, o qual foi montado no mês de novembro de 1919 e imediatamente entregue a Escola de Aviação Naval (EAvN).  Apesar de ser originalmente uma aeronave de caça e reconhecimento, este M-7 seria empregado exclusivamente no treinamento dos alunos e no adestramento dos instrutores da escola.  Nesse mesmo ano a Societá Italiana di Transport Aerei, tentou organizar no Brasil um serviço de transporte aéreo, empregando inicialmente três aeronaves, infelizmente esta iniciativa não lograria êxito, e ao encerrar das operações a empresa optaria por doar estes aviões ao governo brasileiro, entre estes se encontrava uma célula do modelo  Macchi M-7 , que seria repassado a Escola de Aviação Naval (EAvN) em fevereiro de 1920.
A frota inicial de Macchi M-7 da Aviação Naval Brasileira foi reforçada em 1921 com a doação de uma célula pelo governo italiano ao Capitão-Tenente José Pinto de Almeida De Lamare, em reconhecimento por sua tentativa de realizar um raid aéreo pioneiro entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires. Esse voo, planejado para outubro de 1920, terminou em um acidente no Rio Grande do Sul, mas a iniciativa foi celebrada como um marco de coragem e inovação. A aeronave doada integrou-se ao trio de M-7 já em operação na Escola de Aviação Naval (EAvN), totalizando quatro unidades. Os Macchi M-7 foram empregados principalmente  em missões de instrução e treinamento de pilotos. Além disso, participavam esporadicamente de desfiles aéreos e eventos oficiais no Rio de Janeiro, demonstrando as capacidades da Aviação Naval em cerimônias públicas. Essas aeronaves, embora ágeis para sua época, enfrentavam desafios inerentes à tecnologia da aviação inicial, como a fragilidade de suas estruturas de madeira e tecido, que exigiam revisões frequentes devido à exposição ao ambiente marítimo (umidade e salinidade). O uso intensivo dos Macchi M-7, que se estendeu por pouco mais de três anos (1920-1923), revelou a vulnerabilidade de sua construção. As revisões gerais tornaram-se cada vez mais frequentes, com duas das quatro aeronaves recolhidas para reparos e manutenção em 1923. Em 13 de abril de 1923, uma terceira unidade sofreu um acidente que resultou em perda total, reduzindo a frota operacional a apenas uma aeronave. A chegada de novas aeronaves terrestres e hidroaviões de instrução em 1922 e 1923, incluindo o Curtiss MF, um hidroavião americano mais moderno, acelerou a obsolescência dos Macchi M-7. O Curtiss MF, com sua construção mais robusta e desempenho superior, tornou-se a escolha preferida para treinamento. Após inspeções realizadas em 5 de julho de 1923, as duas células remanescentes do M.7, juntamente com a unidade acidentada, foram oficialmente desativadas da frota da EAvN em 4 de setembro de 1923, marcando o fim de sua operação na Aviação Naval. Paralelamente à operação dos Macchi M-7, a Marinha do Brasil buscava expandir e modernizar sua frota de aeronaves no final da década de 1910. Restrições orçamentárias levaram o comando naval a priorizar "compras de oportunidade", aproveitando promoções de fabricantes estrangeiros. Nesse contexto, a Aeronautica Macchi, reconhecida por seus hidroaviões de qualidade, lançou uma campanha de demonstração na América do Sul para promover suas aeronaves militares. 

A entrega dos cinco Macchi M-9 ocorreu entre 1919 e 1920, com as aeronaves sendo transportadas por via naval e remontadas nas instalações da Escola de Aviação Naval (EAvN), nas Ilhas das Enxadas, Rio de Janeiro. O primeiro hidroavião foi montado em outubro de 1919, seguido por um segundo em fevereiro de 1920 e um terceiro em julho do mesmo ano. Os dois últimos foram completados ao longo de 1920, totalizando cinco unidades operacionais destinadas exclusivamente à Escola de Aviação Naval (EAvN). Embora estes hidroaviões fossem orginalmente destinados a execução de tarefas de reconhecimento, com limitada capacidade para efetuar missões de bombardeiro, não existem registros de que a Marinha do Brasil pretendia formar uma unidade de emprego tático. A absoluta falta de pessoal adequadamente treinado e a ausência de meios materiais para apoiar as atividades de uma unidade aérea, inibiam esta possibilidade, e prova disso é que não existem relatos sob a aquisição de armamento para estas aeronaves. Os Macchi M-9 foram empregados principalmente na EAvN para treinamento e adestramento de pilotos já diplomados e instrutores. Suas funções incluíam: Treinamento de Voo: Exercícios para aprimorar habilidades de pilotagem em hidroaviões, incluindo decolagens e pousos em água, navegação marítima e manobras básicas. Adestramento de Instrutores: Capacitação de oficiais para atuar como instrutores na Escola de Aviação Naval (EAvN), essencial para a formação de novas gerações de aviadores navais. E por fim Demonstrações: Participação em eventos oficiais, como desfiles aéreos no Rio de Janeiro, para promover a Aviação Naval. Nominalmente o atendimento a estas demandas de emprego operacional carecia de maiores exigências, os voos de adestramento cobravam seu preço, tendo em vista que em média 50% da frota estava sempre indisponível, passando por reparos.  Em novembro de 1920, a Aviação Naval Brasileira sofreu sua primeira perda significativa com um Macchi M-9, de matrícula “31”, que caiu na Baía de Guanabara durante uma missão de treinamento. O acidente resultou na perda total da aeronave e na trágica morte de seus dois ocupantes, um piloto e um observador. Esse incidente reduziu a frota de M-9 para quatro unidades, destacando os riscos inerentes à operação de hidroaviões em um ambiente marítimo desafiador e com tecnologia ainda rudimentar.
Apesar dos esforços incansáveis do pessoal de manutenção da Escola de Aviação Naval (EAvN), a frota de Macchi M-9 continuou enfrentando dificuldades ao desempenhar seu papel de adestramento e formação do pessoal lotado naquela  escola. Em 1921, cerca de 50% das quatro aeronaves remanescentes estavam recolhidas às oficinas para reparos e revisões de grande porte, devido ao desgaste acumulado em voos de treinamento intensivos. Esses desafios refletiam as limitações tecnológicas e logísticas da aviação naval brasileira, agravadas pelo ambiente tropical e pela falta de peças de reposição. No transcorrer daquele ano, a Escola de Aviação Naval (EAvN) raramente logrou disponibilizar para voos de instrução os outros dois Macchi M-9, uma situação que se manteve durante o ano seguinte.  Em 1923, a situação da frota de Macchi M.9 agravou-se com a perda de mais um hidroavião, reduzindo a frota a apenas três unidades. Embora detalhes específicos sobre o acidente não estejam amplamente documentados, ele provavelmente ocorreu durante uma missão de treinamento, similar ao incidente de 1920, devido aos riscos inerentes à operação de hidroaviões em águas agitadas ou sob condições climáticas desfavoráveis. Essa perda, combinada com a indisponibilidade crônica das aeronaves remanescentes, comprometeu ainda mais a capacidade da Escola de Aviação Naval (EAvN) de manter uma frota operacional. A chegada dos hidroaviões Curtiss MF em 1922 e 1923, fabricados pela americana Curtiss Aeroplane and Motor Company, marcou um ponto de inflexão para a Aviação Naval Brasileira. O Curtiss MF, projetado especificamente para treinamento, oferecia maior robustez, confiabilidade e facilidade de manutenção em comparação com os M-9, que já eram considerados obsoletos. A introdução desses novos hidroaviões mitigou o impacto da crescente indisponibilidade dos M-9, permitindo que a EAvN continuasse suas atividades de instrução sem interrupções significativas. Em 4 de setembro de 1923, as três células remanescentes dos Macchi M.9 foram oficialmente desativadas da frota da Aviação Naval Brasileira, marcando o fim de sua operação.  Após a desativação, as células dos Macchi M.9 foram alienadas e vendidas como sucata para aproveitamento de matéria-prima, uma prática comum na época para aeronaves obsoletas. Os Macchi M-7 e  M-9 representaram um marco na história da Aviação Naval Brasileira, consolidando a Escola de Aviação Naval (EAvN)  como um centro de formação de pilotos e preparando o terreno para a adoção de aeronaves mais modernas. 

Em Escala.
Para representarmos o Macchi M-7 da Aviação Naval matrícula "33" empregamos o kit da Fly na escala 1/48, apesar de ser um modelo com baixa qualidade de injeção, possui detalhamento em resina. A versão original representa o modelo Macchi M-5, sendo assim necessário a realização de algumas conversões para compormos versão empregada pela Marinha do Brasil. Como não há no mercado um conjunto de decais específico para esta aeronave em seu emprego na Aviação Naval da Marinha do Brasil, fizemos uso de decais diversos produzidos pela FCM Decais.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura aplicado as aeronaves operacionais da Escola de Aviação Naval (EAvN) durante as décadas de 1910 e 1920, sendo este padrão mantido nos Macchi M-7 e Macchi M- 9 durante toda a sua carreira na Aviação Naval da Marinha do Brasil.


Bibliografia :
- Macchi M.7 Wikipedia  - https://en.wikipedia.org/wiki/Macchi_M.7
- Macchi M.9 Wikipedia  - https://en.wikipedia.org/wiki/Macchi_M.9
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 Jackson Flores Jr
- Aviação Militar Brasileira 1916 -  1984 - Francisco C. Pereira Netto