Dodge WC-56/57 Comando (TP)

História e Desenvolvimento.
No alvorecer do século XX, mais precisamente em 1900, os irmãos John Francis Dodge e Horace Elgin Dodge deram início a um empreendimento ousado e visionário: a concepção de um automóvel capaz de se destacar em um mercado norte-americano ainda em formação e marcado por rápidas transformações tecnológicas. Em seus primeiros anos, a produção possuía caráter quase artesanal, limitada à fabricação de poucas dezenas de unidades. Esse cenário, contudo, começaria a se transformar de maneira decisiva a partir de 1914, quando a adoção de processos de produção em série marcou oficialmente o surgimento da Dodge Brothers Motor Company como um dos protagonistas da nascente indústria automobilística dos Estados Unidos. Em um curto espaço de tempo, a empresa conquistou sólido prestígio no competitivo segmento de automóveis de passeio, alcançando expressiva participação no mercado interno. O sucesso comercial obtido nesse período gerou os recursos financeiros necessários para a ampliação do portfólio da marca, viabilizando, já na década seguinte, o desenvolvimento de veículos utilitários voltados ao mercado civil e comercial. A entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, em 1917, representaria um ponto de inflexão importante nessa trajetória, pois a Dodge passou a fornecer milhares de veículos militarizados à Força Expedicionária Americana (American Expeditionary Forces – AEF). Entre os modelos que se destacaram nesse esforço estavam o Dodge Light Repair Truck e a Dodge Ambulance, amplamente empregados no apoio logístico e médico das tropas em campanha. A história da empresa, contudo, seria abruptamente marcada pelo falecimento prematuro de seus fundadores, ambos no ano de 1920. Com a perda de John e Horace Dodge, o controle acionário da companhia passou para suas respectivas viúvas, Matilda Dodge e Anna Dodge. Apesar da continuidade das operações, a ausência da liderança direta dos irmãos fundadores enfraqueceu a condução estratégica da empresa, culminando, em 1928, na venda da Dodge Brothers Motor Company para a Chrysler Corporation. Essa aquisição marcou o início de uma nova fase, inserindo a Dodge em um grande conglomerado industrial e garantindo sua continuidade em um mercado cada vez mais competitivo. Sob a administração da Chrysler, os primeiros veículos utilitários lançados pela Dodge no mercado norte-americano passaram a ser desenvolvidos com base nas plataformas dos automóveis de passeio do grupo. Essa estratégia permitiu uma significativa redução nos custos de projeto e produção, graças ao compartilhamento de ferramental, componentes e processos industriais. Como resultado, os novos utilitários puderam ser comercializados a preços competitivos, assegurando à Dodge uma importante vantagem frente à concorrência. Assim como ocorrera com os automóveis de passeio, esses veículos alcançaram expressivo sucesso de vendas, consolidando a reputação da marca como sinônimo de robustez, confiabilidade e versatilidade, particularmente em aplicações severas e em ambientes fora de estrada. O crescimento sustentado das vendas gerou novos aportes financeiros, permitindo que a empresa passasse a planejar projetos mais ambiciosos tanto no curto quanto no médio prazo. 

Paralelamente, na primeira metade da década de 1930, o cenário geopolítico internacional começou a se deteriorar de forma perceptível, sobretudo na Europa, com a ascensão do Partido Nacional-Socialista na Alemanha e a consolidação do poder de Adolf Hitler. Esse contexto despertou crescente preocupação em diversas nações, incluindo os Estados Unidos, que, apesar de manterem oficialmente uma política de neutralidade, acompanhavam com atenção o avanço das tensões internacionais. Diante da perspectiva de uma nova corrida armamentista global, a diretoria da Dodge Motor Company identificou uma oportunidade estratégica no segmento militar. Em 1934, a empresa passou a investir recursos próprios no desenvolvimento de projetos e protótipos conceituais de caminhões militares de médio e grande porte. Esses esforços se apoiavam na experiência acumulada durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Dodge havia adquirido know-how relevante no fornecimento de veículos às forças armadas norte-americanas, posicionando-se, assim, para atender a futuras demandas militares em um cenário internacional cada vez mais instável. Em 1937, já integrada ao conglomerado industrial da Chrysler Corporation, alcançou um marco relevante em sua trajetória ao apresentar ao Exército dos Estados Unidos (US Army) seu primeiro protótipo experimental de caminhão militar. Designado K-39-X-4, o veículo possuía capacidade de carga de 1½ tonelada e era equipado com tração integral nas quatro rodas, uma característica ainda pouco difundida à época. Submetido a extensos e rigorosos testes de campo, o protótipo destacou-se pelo elevado grau de robustez, confiabilidade mecânica e desempenho em terrenos adversos, qualidades que impressionaram os avaliadores militares e resultaram na assinatura de um contrato inicial para a produção de aproximadamente 800 unidades. As primeiras entregas ocorreram poucos meses depois, consolidando a confiança dos militares na capacidade industrial e técnica da Dodge. Esse êxito inicial abriu caminho para a celebração de novos contratos, envolvendo agora os caminhões Dodge VC-1 e VC-6, ambos da classe de ½ tonelada, que rapidamente se tornariam elementos centrais no portfólio militar da empresa. Paralelamente ao atendimento das demandas militares, a Dodge lançou versões civis desses veículos no mercado norte-americano, onde obtiveram expressivo sucesso comercial, reforçando a imagem da marca como referência em veículos utilitários robustos e versáteis. Impulsionada por esses resultados positivos, a empresa ampliou sua linha de produtos em 1938, introduzindo novos modelos que passaram a ser fabricados na recém-inaugurada unidade industrial Warren Truck Assembly, localizada no estado de Michigan. Concebida especificamente para a produção de caminhões leves e médios, essa planta representou um avanço estratégico significativo na capacidade produtiva da Dodge, permitindo maior escala e flexibilidade industrial. No ano seguinte, em 1939, a Dodge apresentou uma linha inteiramente renovada de picapes e caminhões, caracterizada por um design mais moderno e pela introdução da designação “Job-Rated”. Esse conceito enfatizava a adequação precisa de cada veículo às mais variadas exigências de trabalho, consolidando definitivamente a reputação da marca no mercado como sinônimo de inovação, eficiência e durabilidade.
A produção em larga escala teve início em novembro do mesmo ano, e, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o modelo foi redesignado como série WC (Weapons Carriers). A letra “W” indicava o ano de início da produção (1941), enquanto “C” representava a classificação de ½ tonelada. Posteriormente, o código “C” foi estendido para modelos de ¾ tonelada e 1 ½ tonelada 6x6, com o primeiro veículo dessa família sendo o G-505 WC de ½ tonelada. Ao longo de 1940, a Dodge Motor Company consolidou sua relevância no cenário militar ao produzir mais de seis mil caminhões leves com tração integral 4x4, pertencentes à série Dodge WC de ½ tonelada. Esses veículos, encomendados por meio de dois contratos firmados com o governo norte-americano, incluíam os modelos VF-401 a VF-407, equipados com a tecnologia de motor T-203 (Dodge G-621). Tratavam-se de evoluções dos modelos experimentais pré-guerra, como o RF-40 (-X) e o TF-40 (-X) (ou T-200/T-201), construídos sobre um chassi com a mesma distância entre eixos de 143 polegadas (3,63 metros). Esses novos caminhões WC substituíram os modelos Dodge VC-1 e VC-6 de ½ tonelada, também pertencentes à série original G-505, no arsenal do Exército dos Estados Unidos (US Army). Entre o final de 1940 e o início de 1942, a Dodge, em colaboração com a Fargo Motor Car Company, produziu um total de 82.000 veículos de ½ tonelada com tração 4x4, atendendo a diversos contratos celebrados com o Departamento de Guerra dos Estados Unidos. Os modelos WC-1 e WC-50, pertencentes à classe de ½ tonelada, destacavam-se pela intercambialidade de 80% de seus componentes com os novos modelos de ¾ tonelada lançados posteriormente, uma característica que otimizava a logística e a manutenção em campo. Em 1942, a Dodge atualizou sua linha de caminhões, dividindo-a em duas categorias principais: o modelo G-502, de ¾ tonelada, com tração integral 4x4 e chassi mais curto, e o G-507, de ½ tonelada, com tração 6x6, projetado para transporte de carga e tropas. Apesar das melhorias no design, a empresa manteve, de forma estratégica, a nomenclatura da família WC, o que gerava certa confusão. O WC-51 era equipado com um motor de seis cilindros flathead (T-214), com 3.800 cm³ e aproximadamente 92 cavalos de potência. Sua baixa taxa de compressão proporcionava torque robusto, ideal para operações fora de estrada, embora resultasse em um consumo de combustível relativamente elevado . O chassi, com uma distância entre eixos de 98 polegadas (2,49 metros), era mais curto que o de outros modelos da família, como o G-507 de ½ tonelada 6x6, conferindo maior agilidade em manobras. Um dos principais diferenciais desses veículos era a alta intercambialidade de peças, exigida pelo comando do Exército dos Estados Unidos, que alcançava 80% entre os modelos de ½ e ¾ tonelada. Essa característica simplificava significativamente os processos de manutenção e o suprimento logístico nos diversos fronts da Segunda Guerra Mundial. A família Dodge WC destacou-se pela impressionante versatilidade, abrangendo 38 variantes que incluíam transporte de tropas, carga, ambulâncias, veículos de comando, estações móveis de comunicações, unidades equipadas com canhões de 57 mm, oficinas móveis e veículos de reconhecimento, entre outros. Muitas dessas versões apresentavam cabines abertas com cobertura de lona, adaptadas às necessidades específicas do campo de batalha.

A excepcional intercambialidade de 80% das peças de reposição entre as variantes da família Dodge WC foi um fator determinante para sua eficiência operacional, garantindo manutenção ágil e suporte logístico confiável mesmo nas condições mais desafiadoras da Segunda Guerra Mundial. Essa característica, aliada à robustez inigualável desses veículos, consolidou a reputação da Dodge como uma das principais fornecedoras de equipamentos militares, desempenhando um papel crucial na mobilidade e na eficácia das forças aliadas em diversos teatros de operações. Entre as versões dessa família de utilitários com tração 4x4, destacou-se o Carro de Comando (Command Car), projetado especialmente para o transporte de oficiais de alta patente no campo de batalha, garantindo não apenas mobilidade, mas também a capacidade de coordenar operações em ambientes hostis. Os modelos de Carro de Comando, denominados Dodge WC-56 e WC-57 pelo Comando do Exército dos Estados Unidos (US Army), foram desenvolvidos com base nas plataformas dos Dodge WC-51 e WC-52, mantendo sua essência robusta, mas com adaptações específicas. A principal diferença entre as duas variantes residia na presença de um guincho hidráulico frontal no WC-57, modelo G-502E, capaz de suportar até 2.268 kg, ideal para operações em terrenos acidentados. Ambos os modelos receberam proteções frontais e traseiras personalizadas, sirenes sob medida e bandeiras metálicas indicativas de posto, com a possibilidade de equipar uma metralhadora Browning calibre .30 no caso de transporte de generais de divisão, reforçando sua função estratégica. Além disso, os veículos podiam ser equipados com um avançado sistema de rádio de 12 volts, semelhante ao utilizado pelo modelo especializado em comunicações, o Dodge WC-58, permitindo aos comandantes coordenar suas forças com rapidez e eficiência, independentemente da dispersão das tropas no teatro de operações. O desenvolvimento dos Dodge WC-56 e WC-57 teve início com a apresentação dos primeiros protótipos no outono de 1941, submetidos a rigorosos testes de campo que comprovaram sua versatilidade e resistência. Aprovados em dezembro do mesmo ano, esses modelos receberam os primeiros contratos de produção em janeiro de 1942, com a fabricação em série iniciada em abril nas linhas de montagem da Dodge Motors Company, em Detroit, as mesmas utilizadas para os modelos WC-51, WC-52 e WC-54. A partir de maio de 1942, os WC-56 e WC-57 foram oficialmente incorporados aos três ramos das Forças Armadas norte-americanas, marcando o início de sua trajetória em serviço ativo. No front de combate, esses veículos destacaram-se não apenas no transporte de oficiais, mas também em missões de reconhecimento em terrenos desafiadores, demonstrando notável capacidade off-road. A presença do guincho no WC-57 ampliava sua utilidade em operações que exigiam a superação de obstáculos ou a recuperação de outros veículos. A combinação de robustez, funcionalidade e tecnologia avançada, como os sistemas de rádio, tornou os Dodge WC-56 e WC-57 instrumentos indispensáveis para a coordenação tática, contribuindo significativamente para o sucesso das operações aliadas.
Embora menos populares entre as tropas em comparação aos jipes Ford GPW e Willys MB, devido ao seu peso maior e menor manobrabilidade, os Dodge WC-56 e WC-57 Command Car marcaram presença em momentos cruciais da Segunda Guerra Mundial. Esses veículos transportaram figuras históricas como os generais George Smith Patton Jr. e Dwight David "Ike" Eisenhower, desempenhando um papel vital nas operações nos campos de batalha da Europa e no teatro do Pacífico Sul. Sua robustez e confiabilidade os tornaram instrumentos indispensáveis para o comando tático, permitindo que líderes militares coordenassem estratégias em condições desafiadoras com agilidade e segurança. No âmbito do Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), os Dodge WC-56 e WC-57 foram fornecidos em grandes quantidades a nações aliadas, com destaque para a União Soviética, Austrália, Canadá e as Forças Francesas Livres. Durante o conflito, esses veículos foram intensamente utilizados pelas três forças armadas norte-americanas em todos os fronts, demonstrando sua versatilidade em missões de transporte de oficiais e reconhecimento em terrenos variados. Até setembro de 1945, as linhas de produção da Dodge Motors Company e da Fargo Division Company, em Detroit, entregaram um total de 21.156 unidades do WC-56 e 6.010 unidades do WC-57, consolidando sua relevância logística e operacional. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os Dodge WC-56 e WC-57 continuaram a servir em cenários de conflito, notadamente durante a Guerra da Coreia (1950–1953), onde sua durabilidade foi novamente comprovada. A grande quantidade de veículos disponíveis permitiu que milhares de unidades permanecessem em serviço nas Forças Armadas dos Estados Unidos até meados da década de 1950, quando começaram a ser gradualmente substituídos pelo Dodge M-37, configurado para missões de transporte de oficiais de alta patente. Esse processo gerou um excedente significativo de veículos em bom estado de conservação, que, após revisões e armazenamento, foram incluídos no portfólio de equipamentos militares oferecidos pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos a nações amigas por meio de programas de assistência militar. Entre os beneficiários, destacam-se as forças armadas de países como França, Espanha, Áustria, Brasil, Bélgica, Grécia, Irã, Cuba, Portugal, África do Sul, Argentina, Venezuela, Chile, Israel e Suíça. Em algumas dessas nações, especialmente em países em desenvolvimento, os Dodge WC-56 e WC-57 foram revitalizados localmente, com destaque para a substituição de seus grupos motrizes, o que permitiu prolongar sua vida útil. Em certos casos, esses valentes veteranos permaneceram em serviço operacional até o início da década de 1980, testemunhando sua durabilidade e adaptabilidade.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos passou a encarar com crescente apreensão a possibilidade de uma incursão militar das potências do Eixo — Alemanha, Itália e Japão — contra o continente americano. Tal preocupação intensificou-se de maneira decisiva após a capitulação da França, em junho de 1940. A derrota francesa abriu a perspectiva de que a Alemanha nazista pudesse utilizar territórios sob influência ou domínio francês, como as Ilhas Canárias, Dacar e outras colônias ultramarinas, para o estabelecimento de bases operacionais avançadas, criando condições estratégicas favoráveis a uma eventual ofensiva transatlântica. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ser considerado um dos pontos mais sensíveis do hemisfério ocidental. Sua posição geográfica, marcada pela relativa proximidade com o continente africano  região que figurava nos planos de expansão alemães , tornava o território brasileiro um elo natural entre os teatros de operações europeu, africano e americano. A essa vulnerabilidade estratégica somava-se um fator econômico de grande relevância: em virtude das conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul, o Brasil assumiu o papel de principal fornecedor de látex para os países aliados. Essa matéria-prima era indispensável à produção de borracha, insumo essencial para a indústria bélica, particularmente na fabricação de pneus, mangueiras, vedações e diversos componentes militares. Além dessas considerações, o litoral brasileiro apresentava vantagens estratégicas singulares para a instalação de bases aéreas e portos militares, sobretudo na região Nordeste. A cidade do Recife destacava-se como ponto-chave, por representar a menor distância entre os continentes americano e africano. Essa condição tornava a região ideal para funcionar como uma ponte logística, facilitando o deslocamento de tropas, o transporte de suprimentos e o traslado de aeronaves destinadas aos teatros de operações da Europa e do Norte da África. Diante desse cenário, consolidou-se, em curto espaço de tempo, um movimento de aproximação política, diplomática e econômica entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa convergência resultou em investimentos estratégicos e na celebração de acordos de cooperação militar, que redefiniriam a posição brasileira no contexto da guerra. Entre as iniciativas mais relevantes destacou-se a adesão do Brasil ao programa de assistência militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), cujo objetivo central era promover a modernização das forças armadas dos países aliados. Os termos desse acordo asseguraram ao Brasil uma linha inicial de crédito da ordem de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de material bélico. Tal aporte permitiu ao país o acesso a armamentos modernos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate, recursos fundamentais para o fortalecimento de sua capacidade defensiva. Esses meios mostraram-se particularmente importantes diante da crescente ameaça representada pelos ataques de submarinos alemães no Atlântico Sul, que colocavam em risco a navegação civil e afetavam diretamente o comércio exterior brasileiro, responsável pelo transporte contínuo de matérias-primas estratégicas destinadas à indústria de guerra norte-americana.

A participação brasileira no esforço de guerra aliado, inicialmente de caráter logístico e econômico, não tardaria a se ampliar. O então presidente Getúlio Vargas deixou claro que o Brasil não se limitaria ao fornecimento de recursos estratégicos e sinalizou a disposição do governo em assumir um papel mais ativo no conflito, incluindo a possibilidade do envio de tropas brasileiras para um teatro de operações de relevância no cenário internacional. No âmbito deste programa, o Brasil, a partir do final de 1941, começou a receber um expressivo volume de equipamentos bélicos provenientes dos Estados Unidos, abrangendo caminhões, veículos utilitários leves, aeronaves, embarcações e armamentos. O Exército Brasileiro foi o principal beneficiário desse aporte, que representou um marco significativo na modernização de suas capacidades operacionais. Dentre os equipamentos fornecidos, os utilitários Dodge WC-51 e WC-52, com tração integral 4x4, começaram a ser entregues ao Brasil no final de 1942. Esse atraso inicial decorreu da prioridade dada às forças armadas norte-americanas, que demandavam grandes quantidades desses veículos para os esforços de guerra. Quase todos os lotes destinados ao Brasil eram compostos por veículos novos, recém-saídos das linhas de produção da Dodge Motor e da Fargo Motor. A incorporação dos  WC-51 e WC-52 ao Exército Brasileiro marcou um avanço significativo na doutrina operacional da força terrestre. Esses modernos utilitários substituíram uma frota obsoleta de veículos leves de origem civil, inadequadamente adaptados para uso militar, além de um pequeno número de modelos importados, como os alemães Vidal & Sohn Tempo-Werk G1200, recebidos em 1938, mas insuficientes para equipar sequer uma unidade mecanizada. Com a chegada de aproximadamente 300 unidades dos utilitários, o Exército Brasileiro deu início a um processo de transição estratégica, abandonando gradativamente o modelo hipomóvel dependente de tração animal  em favor de uma força terrestre mecanizada, mais ágil e preparada para os desafios modernos. Além do Exército, algumas unidades desses veículos foram destinadas à Força Aérea Brasileira (FAB) e à Marinha do Brasil, onde foram empregadas em funções administrativas, reforçando a versatilidade dos modelos WC-51 e WC-52. Essa modernização coincidiu com o crescente envolvimento do Brasil na no conflito ao lado dos Aliados. Em 9 de agosto de 1943, por meio da Portaria Ministerial nº 4.744, publicada em boletim reservado no dia 13 do mesmo mês, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Estruturada como a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), sob o comando do General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, além da divisão principal, diversos órgãos não-divisionários essenciais para sua operação. A composição contemplava quatro grupos de artilharia, uma esquadrilha de aviação da Força Aérea Brasileira para ligação e observação, um batalhão de engenharia, um batalhão de saúde, um esquadrão de reconhecimento e uma companhia de comunicações. A força contava ainda com um comando próprio, um comando de quartel-general, um destacamento de saúde, uma companhia de manutenção, uma companhia de intendência, um pelotão de sepultamento e um pelotão de polícia.
A Força Expedicionária Brasileira (FEB), constituída por um efetivo aproximado de 25.000 homens, foi organizada de acordo com os padrões doutrinários e operacionais do Exército dos Estados Unidos (US Army), os quais enfatizavam a elevada mobilidade tática como elemento essencial para o sucesso das operações modernas. Para atender a essa exigência, a FEB foi dotada de uma expressiva frota de veículos destinados ao transporte de pessoal, alinhada aos modelos então em uso pelas forças aliadas. Nesse contexto, destacaram-se os utilitários Dodge WC-51 e WC-52, amplamente empregados nos diversos escalões de comando e nas unidades de combate. As tropas brasileiras desembarcaram na Itália em agosto de 1944 e, após um curto período de adaptação e treinamento, passaram a integrar o V Corpo do Exército dos Estados Unidos, então sob o comando do general Mark Wayne Clark. Nessa fase, a FEB recebeu a totalidade de seu armamento, equipamentos e viaturas a partir do estoque estratégico norte-americano localizado na cidade italiana de Tarquinia, centro logístico responsável pela recompletação das forças aliadas no teatro de operações. No que se refere às viaturas de médio porte, estima-se que tenham sido disponibilizados quase trezentos veículos, distribuídos entre os modelos Dodge WC-51, WC-52, WC-56 e WC-57. No caso específico dos carros de comando WC-56 e WC-57, acredita-se que pelo menos trinta unidades tenham sido entregues, embora não existam registros documentais conclusivos que permitam estabelecer com precisão o número exato desses veículos empregados durante a Campanha da Itália. Tais viaturas não foram utilizadas exclusivamente pelo Exército Brasileiro, havendo indícios de que a Força Aérea Brasileira tenha recebido ao menos dois exemplares do modelo WC-56, os quais passaram a operar junto ao comando do 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa). O batismo de fogo da Força Expedicionária Brasileira ocorreu em 15 de setembro de 1944, quando os soldados brasileiros entraram em combate direto contra as forças do Exército Alemão (Wehrmacht). Nessa ocasião, os pracinhas fizeram uso pleno de seus meios mecanizados para o deslocamento e a condução das operações, com os oficiais de comando incluindo o general-de-divisão João Baptista Mascarenhas de Morais  utilizando de forma recorrente os escassos, porém valiosos, carros de comando Dodge WC-56 e WC-57. Ao longo de toda a campanha na Itália, esses veículos desempenharam papel de grande relevância, assegurando a mobilidade dos quadros de comando por todo o itinerário percorrido. Operaram sob condições extremamente adversas, enfrentando terrenos montanhosos, vias precárias e severas variações climáticas, características do teatro de operações europeu. Nessas circunstâncias, as qualidades de robustez, confiabilidade e simplicidade mecânica dos WC-56 e WC-57 mostraram-se decisivas, permitindo que manutenções e reparos fossem realizados de forma imediata e improvisada, muitas vezes sem o apoio de instalações adequadas ou ferramental especializado.

Com o encerramento das hostilidades na Europa, em maio de 1945, os carros de comando Dodge WC-56 e WC-57, assim como os demais veículos, armamentos e equipamentos pertencentes à Força Expedicionária Brasileira, foram encaminhados ao Comando de Material do Exército dos Estados Unidos, sediado na cidade de Roma. Nessa organização, as viaturas que se encontravam em melhor estado de conservação foram selecionadas, armazenadas e, posteriormente, despachadas ao Brasil por via marítima, onde continuariam a servir às Forças Armadas nacionais no período do pós-guerra. Estes se juntariam aos demais veículos dos mesmos modelos que já se encontravam em serviço desde 1942, não só no Exército Brasileiro, mas também na Força Aérea Brasileira (FAB), tendo em vista que ao todo seriam cedidos ao país nos termos do programa Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos) um total de cento e setenta cinco carros dispostos nas versões WC-56 e WC-57, que seriam distribuídos a diversas unidades operativas espalhadas ao longo do território nacional. Entre o final desta década e meados da próxima mais veículos do modelo Dodge WC-56 seriam recebidos nos termos do acordo Militar Brasil – Estados Unidos, totalizando mais quarenta e oito carros. Grande parte desta frota se manteria em operação nos anos, sendo carinhosamente apelidados no Exército Brasileiro como “jipão” ou ainda “pata choca”, sendo preferidos por seus usuários em detrimento a família de jipes Willys MB ou Ford GPW, muito função de seu perfil operacional superior, sendo sempre priorizados em missões de transporte de alto oficiais do Exército Brasileiro. Já na Força Aérea Brasileira, os Dodge WC-56 e WC-57 seriam empregados no transporte de pilotos e oficiais, com a maioria dos veículos sendo concentrados na Base Aérea de Santa Cruz no Rio de Janeiro – RJ. Todos os utilitários de porte médio com tração total 4X4 produzidos pela Dodge Motors Company, teriam grande papel no processo de modernização e transformação da Força Terrestre Brasileira nos anos seguintes. Apesar de atender a contento as expectativas, no início da década de 1960, o status operacional da frota começaria a despertar a preocupação por parte do comando do Exército Brasileiro, tendo em vista a baixa taxa de disponibilidade destes veículos. Este cenario era causado principalmente por problemas no processo de aquisição de peças de reposiçao, mais notadamente referente ao motor a gasolina Dodge T-214 de seis cilindros com válvulas laterais e refrigerado a água, conjunto deste que teve sua produção descontinuada no final do ano de 1947 nos Estados Unidos. Fazia-se necessário então, buscar uma solução emergencial, com sendo desenvolvida através de negociações junto ao Departamento de Estado do governo dos Estados Unidos, visando dentro do escopo do Programa de Assistência Militar (Military Assistance  Program – MAP), visando a aquisição de um considerável lote de utilitários mais modernos da família Dodge M-37 e M-43. 
Estes entendimentos resultariam na aquisição e mais de trezentos utilitários usados destes modelos, que passariam a ser recebidos no Brasil a partir do ano de 1966. Esta movimentação permitiria relegar a frota remanescente destes carros de comando, a apenas a tarefas de transporte e serviços administrativos, sendo também suplementados pelos primeiros utilitários de produção nacional, que por apresentarem melhor desempenho e conforto passariam a serem empregados no transporte de oficiais e comandantes Durante a década de 1960, a equipe técnica do Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar (PqRMM/2), sediado em São Paulo, dedicou-se a estudos inovadores para substituir os motores a gasolina Dodge T-214 por modelos a diesel de fabricação nacional. Inspirada em programas bem-sucedidos de remotorização, como os aplicados aos caminhões GMC CCKW, Studebaker US6 e aos veículos meia-lagarta White Motors M-3, M-3A1 e M-5, essa iniciativa visava prolongar a vida útil da frota de utilitários Dodge, enfrentando os desafios impostos pela descontinuação das peças de reposição do motor T-214 nos Estados Unidos. Apesar do potencial transformador, o projeto de remotorização não avançou além da fase inicial de protótipos, devido a limitações técnicas e logísticas. Como solução paliativa, optou-se pela retífica dos motores a gasolina originais, um esforço que abrangeu uma parte significativa da frota dos modelos Dodge WC-51, WC-52, além de algumas dezenas de WC-56 e WC-57, permitindo que esses veículos continuassem a servir com dedicação por mais alguns anos. Paralelamente, a década de 1960 marcou o início da incorporação de utilitários militarizados de fabricação nacional, como os modelos da família Ford Willys-Overland Rural F-75 e F-85 e o Toyota Bandeirante. Esses veículos, projetados para atender às demandas do terreno brasileiro e às necessidades operacionais, foram gradualmente adotados não apenas pelo Exército Brasileiro, mas também pela Marinha do Brasil e pela Força Aérea Brasileira (FAB). A introdução em larga escala desses utilitários nacionais representou um marco na busca pela autossuficiência militar, atendendo de forma eficaz às exigências logísticas e operacionais da Força Terrestre. Esse movimento desencadeou a desativação progressiva dos Dodge WC-51, WC-52, WC-56 e WC-57. Ao longo da década de 1970, apenas um pequeno número dessas viaturas permaneceu em serviço operacional, refletindo a transição para uma frota mais moderna. Os últimos carros de comando, os modelos WC-56 e WC-57, foram retirados do serviço ativo apenas em 1981, encerrando uma trajetória de quase quatro décadas de contribuições inestimáveis. Algumas dessas viaturas, preservadas em batalhões e comandos militares, foram mantidas como veículos cerimoniais operacionais, servindo como testemunhas vivas da história e da resiliência dos militares brasileiros. Esses utilitários, que outrora transportaram oficiais em campos de batalha e apoiaram missões cruciais, permanecem como símbolos de uma era de transformação e compromisso com a modernização das Forças Armadas Brasileiras.

Em Escala.
Para representarmos o Dodge WC-56 “EB10-143”, fizemos uso do antigo kit fabricado pela Peerless, na escala 1/35, a opção por este fabricante se deu pela dificuldade da obter o modelo da Italeri no mercado. Apesar de compartilharem o mesmo molde, o plástico empregado por este primeiro fabricante é quebradiço indicando assim baixa qualidade do material. Não foram necessárias mudanças para se representar a versão empregada pelo Exército Brasileiro, fizemos uso de decais confeccionados pela Eletric Products presentes no Set " Veículos Militares Brasileiros 1944 - 1982 ".
O esquema de cores descrito abaixo, representa o padrão de pintura tático militar do Exército dos Estados Unidos (U.S Army), presente em todos os veículos recebidos durante a campanha de Itália, recebendo apenas as marcações nacionais brasileiras. Após o término do conflito os Dodge WC-56 e WC-57 manteriam este esquema, recebendo apenas pequenos detalhes de marcações de tipo e número de série do veículo. As viaturas empregadas pela Força Aérea Brasileira (FAB) manteriam o padrão de pintura original norte-americano até a sua retirada de serviço no início da década de 1970.



Bibliografia : 
- Dodge WC Series – Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/Dodge_WC_series
- Manual Técnico – Exército Brasileiro 1951
- Características  Gerais de Veículos do Exército Brasileiro – Ministério da Guerra 1947
- Dodge 3/4  Ton WC-51 Uma Experiência real na FEB, por Expedito Stephani Bastos