T-21 (S.11) e T-22 (S.12) Fokker

História e Desenvolvimento.
Anthony Fokker, filho de um comerciante neerlandês, revelou desde cedo notável inclinação para a mecânica e, em particular, para os ainda incipientes estudos da aviação. Em 1910, aos vinte anos de idade, concebeu e construiu sua primeira aeronave, o “Spin” (Aranha), um monoplano de asa alta claramente influenciado pelos projetos do pioneiro francês Henri Farman. Os ensaios realizados nos Países Baixos demonstraram resultados promissores, encorajando o jovem inventor a buscar horizontes mais favoráveis ao desenvolvimento de suas ideias. Nesse contexto, em 1911, Fokker transferiu-se para a Alemanha, atraído pelo ambiente altamente dinâmico de Johannisthal, então um dos mais importantes centros aeronáuticos europeus, situado nos arredores de Berlim. Ali concentravam-se diversas empresas emergentes do setor, como a Rumpler e a Albatros Flugzeugwerke, formando um ecossistema propício à inovação. Sob uma perspectiva humana, essa mudança representou uma decisão de grande risco: ainda jovem, Fokker afastou-se de sua família e passou a enfrentar limitações financeiras, além das dificuldades inerentes à adaptação linguística e cultural, em nome de seu projeto de vida. Em 22 de fevereiro de 1912, estabeleceu formalmente a Fokker Aviatik GmbH em Johannisthal, com capital inicial modesto e direcionamento voltado à fabricação e comercialização de aeronaves. A designação “Aviatik”, amplamente empregada à época  derivada do latim avis (pássaro), refletia tanto o espírito do período quanto uma estratégia de atração de investidores alemães. Inicialmente instalada em uma oficina de pequenas dimensões e contando com reduzido número de mecânicos, a empresa produziu seus primeiros monoplanos inspirados diretamente no “Spin”. Ainda em dezembro de 1912, a jovem companhia obteve seu primeiro contrato de maior relevância, ao fornecer duas aeronaves monoplano ao Exército Alemão (Deutsches Heer), fato que marcaria o início de uma relação institucional determinante para sua consolidação. Fokker, dotado de personalidade ousada e marcadamente empreendedora, envolvia-se pessoalmente nos ensaios em voo, demonstrando coragem em um período no qual a atividade aeronáutica era associada a elevados índices de acidentes e mortalidade. Entre 1913 e 1914, a Fokker Aviatik GmbH passou por significativa expansão de suas instalações em Johannisthal, alcançando um quadro aproximado de cem trabalhadores e diversificando sua produção para atender tanto à demanda civil quanto militar. Dentre os modelos iniciais destacavam-se o Fokker M.1 Spin e o Fokker M.5, aeronaves de treinamento que incorporavam soluções técnicas inovadoras, como o controle lateral por torção das asas (wing warping), conceito originalmente desenvolvido pelos irmãos Wright e posteriormente adaptado para conferir maior estabilidade operacional. Em 1913, Fokker apresentou o modelo M.5 ao Exército Alemão (Deutsches Heer), assegurando contratos para a formação de pilotos na escola de aviação de Döberitz. Paralelamente, a empresa iniciou exportações para mercados estrangeiros, como a Rússia e a Suécia, contribuindo para consolidar a reputação de Fokker como um dos mais promissores inovadores de sua geração.

 Em 1914, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a Fokker Aviatik GmbH redirecionou decisivamente sua produção para fins militares, atendendo à crescente demanda alemã por aeronaves de combate mais eficazes  um movimento que definiria, de maneira duradoura, o papel da empresa no cenário aeronáutico internacional. A eclosão da Primeira Guerra Mundial representou um ponto de inflexão decisivo na trajetória da Fokker Aviatik GmbH, que rapidamente se consolidou como uma das principais fornecedoras de aeronaves para o Exército Alemão. Nesse contexto de mobilização industrial e acelerado desenvolvimento tecnológico, Anthony Fokker destacou-se ao introduzir, em 1915, o caça monoplano Fokker E.I Eindecker, dotado de um sistema de sincronização de disparo  o denominado interrupter gear. Tal dispositivo permitia o uso de metralhadoras disparando através do arco da hélice sem danificá-la, constituindo uma inovação de grande impacto no combate aéreo. Convém observar, sob o prisma técnico, que o armamento empregado não correspondia a uma metralhadora Gatling de múltiplos canos, mas sim a metralhadoras sincronizadas de tiro contínuo, como a LMG 08/15, calibradas no padrão 7,92 × 57 mm Mauser. Ainda assim, a introdução desse sistema conferiu aos alemães uma vantagem tática temporária nos céus da Europa, período que ficaria conhecido como o “Flagelo Fokker” (Fokker Scourge). Durante essa fase, ases da aviação como Max Immelmann e Oswald Boelcke obtiveram vitórias expressivas, contribuindo para consolidar a reputação de Fokker como um dos principais inovadores do setor. À medida que o conflito se intensificava, o Estado alemão passou a exercer maior controle sobre a indústria aeronáutica, assumindo, na prática, a gestão das operações da empresa. Ainda assim, Fokker foi mantido como figura central no desenvolvimento de projetos, ocupando posição de destaque como projetista. Nesse cenário, estabeleceu-se uma colaboração  em grande medida imposta pelas circunstâncias de guerra com a Junkers, empresa pioneira no emprego de estruturas metálicas e em conceitos avançados de engenharia aeronáutica. Essa associação resultou, em 20 de outubro de 1917, na criação da Junkers-Fokker Aktiengesellschaft (Jfa), iniciativa que buscava combinar a experiência produtiva da Fokker com as inovações estruturais da Junkers. Contudo, divergências técnicas, administrativas e estratégicas acabaram por comprometer a eficácia da parceria, levando à sua dissolução em curto espaço de tempo. Apesar disso, diversos conceitos desenvolvidos nesse período foram incorporados a projetos subsequentes, contribuindo para uma certa convergência estética e tecnológica entre aeronaves das duas empresas ao longo da década seguinte. Durante a fase final do conflito, sob a liderança técnica de Reinhold Platz, a Fokker produziu alguns dos mais notáveis caças alemães da guerra, dentre os quais se destacam o Fokker D.VI, o célebre triplano Fokker Dr.I (Dreidecker)  imortalizado como a aeronave associada ao “Barão Vermelho”, Manfred von Richthofen  e o altamente eficiente Fokker D.VII. 
Este último, introduzido em 1918, é amplamente considerado o melhor caça alemão do conflito, combinando excelente desempenho, com velocidade máxima em torno de 200 km/h, e armamento composto por duas metralhadoras sincronizadas LMG 08/15. Ao longo da guerra, a Fokker produziu aproximadamente 7.600 aeronaves, o impacto do Fokker D.VII foi tal que ao final do conflito a Alemanha foi obrigada a entregar todos os exemplares remanescentes As disposições impostas pelo Tratado de Versalhes proibiram o pais de manter ou desenvolver uma indústria aeronáutica militar, o que teve impacto direto sobre as atividades de Anthony Fokker. Diante desse novo cenário, o empresário foi compelido a encerrar, em 1919, as operações de sua fábrica em Johannisthal. Em uma decisão estratégica e ousada, transferiu clandestinamente parte significativa de seus equipamentos, máquinas e ferramental para os Países Baixos, onde, em 21 de julho do mesmo ano, fundou a N.V. Nederlandsche Vliegtuigenfabriek, estabelecida em Amsterdã. A partir de então, passaria a concentrar seus esforços no desenvolvimento de aeronaves em território neutro, afastando-se das restrições impostas à Alemanha derrotada. No início da década de 1920, atento às oportunidades do mercado internacional, Fokker ampliou sua atuação para além da Europa. Em 1923, transferiu-se para os Estados Unidos, onde consolidou sua presença industrial ao fundar, em 1927, a Atlantic Aircraft Corporation, posteriormente rebatizada como Fokker Aircraft Corporation of America. Esse movimento marcou o início de um período de grande prosperidade para a empresa, que viria a se tornar, naquele contexto, uma das maiores fabricantes de aeronaves do mundo. O principal símbolo desse êxito foi o trimotor de transporte de passageiros Fokker F.VIIa/3m, introduzido em meados da década de 1920. Robusto, confiável e adaptado às condições operacionais ainda precárias da aviação comercial da época, o modelo alcançou ampla aceitação internacional, sendo empregado por dezenas de companhias aéreas e chegando a deter, em 1936, cerca de 40% do mercado norte-americano. Inicialmente, a empresa dividia espaço no mercado europeu com a Junkers. Com o tempo, contudo, os projetos da Fokker conquistaram predominância tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, até a entrada em cena do Ford Trimotor, cuja concepção incorporava, em certa medida, soluções estruturais e aerodinâmicas semelhantes às desenvolvidas por Fokker e pela própria Junkers. O falecimento de Anthony Fokker, em 1939, marcou o fim de uma era para a companhia. Pouco depois, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e a subsequente ocupação dos Países Baixos pela Alemanha, a empresa voltou a operar sob controle alemão. Nesse período, foi incumbida da produção em larga escala de aeronaves de treinamento básico como o Bücker Bü 181 Bestmann, além de participar da fabricação de componentes essenciais para aeronaves de transporte, notadamente o Junkers Ju 52/3m. 

Os efeitos do conflito foram profundamente devastadores para os Países Baixos. A infraestrutura industrial nacional  incluindo as instalações da Fokker em Amsterdã  sofreu severos danos durante o período de ocupação entre 1940 e 1945. No pós-guerra, a empresa enfrentou o desafio de reconstruir suas capacidades produtivas em um ambiente econômico e industrial fragilizado. Nesse contexto, a Fokker direcionou seus esforços iniciais para o desenvolvimento de aeronaves leves de treinamento, identificando um nicho promissor no mercado europeu. As forças aéreas do continente, em processo de reorganização e modernização, necessitavam substituir aeronaves obsoletas da era pré-guerra, como o de Havilland DH.82 Tiger Moth, o Bücker Bü 131 Jungmann, o Boeing-Stearman PT-17 Kaydet e o Fairchild PT-19. A necessidade de formar pilotos aptos a operar aeronaves cada vez mais rápidas e tecnologicamente sofisticadas impulsionou a demanda por treinadores modernos, abrindo caminho para uma nova fase de desenvolvimento na história da empresa. Nesse contexto de reconstrução e reposicionamento no mercado aeronáutico do pós-guerra, a Fokker deu início ao desenvolvimento de um novo treinador básico, que viria a ser designado como S.11. A letra “S” derivava do termo holandês Scholenvliegtuig (aeronave de instrução), refletindo claramente sua finalidade. O projeto inicial, identificado como “Projeto 223”, foi concebido com o objetivo de atender às crescentes demandas por formação de pilotos em uma aviação cada vez mais complexa e exigente. Do ponto de vista conceitual, o S.11 incorporava soluções inovadoras para a época, destacando-se a configuração monoplana de asa baixa com assentos lado a lado para aluno e instrutor. Essa disposição representava uma ruptura em relação ao tradicional arranjo em tandem, proporcionando melhor comunicação, maior interação visual e mais eficiente supervisão durante as fases de instrução. Estruturalmente, a aeronave adotava uma construção mista, equilibrando robustez, simplicidade e custos operacionais. A fuselagem era composta por uma treliça de tubos de aço soldados, parcialmente revestida com compensado e lona, enquanto as superfícies aerodinâmicas  asas e empenagens  eram integralmente metálicas, assegurando maior durabilidade e facilidade de manutenção. O trem de pouso fixo, com pernas anguladas (knicked), foi projetado para absorver melhor os impactos em pistas não preparadas, característica relevante no cenário europeu do pós-guerra. A motorização ficava a cargo do Lycoming O-435-A, um motor boxer de seis cilindros opostos, refrigerado a ar, capaz de desenvolver cerca de 190 hp. Esse conjunto conferia ao S.11 desempenho adequado à sua missão, com velocidade máxima em torno de 209 km/h, teto operacional aproximado de 4.000 metros e peso máximo de decolagem na ordem de 1.100 kg. O protótipo, registrado como PH-NBE, foi construído nas instalações da Fokker em Amsterdã, utilizando técnicas de produção que buscavam otimizar o equilíbrio entre desempenho e viabilidade econômica. 
Seu primeiro voo ocorreu em 18 de dezembro de 1947, no Aeroporto de Schiphol, com sua avaliação  evidenciando boas qualidades de estabilidade e manuseio. Entretanto, os ensaios conduzidos ao longo de 1948 revelaram a necessidade de refinamentos aerodinâmicos, como melhorias no estabilizador horizontal, com o objetivo de corrigir tendências de instabilidade direcional, bem como ajustes no sistema de leme, visando reduzir esforços excessivos durante subidas prolongadas. Adicionalmente, o canopy foi redesenhado e ampliado, proporcionando melhor visibilidade e ventilação à cabine. Esses estudos permitiram identificar e solucionar de forma eficaz as limitações iniciais do projeto. Com a maturidade técnica alcançada, a Fokker iniciou, ainda em 1948, uma campanha de demonstração voltada a potenciais operadores militares. Como resultado, foi firmado o primeiro contrato com a Real Força Aérea Holandesa, que encomendou 39 aeronaves destinadas à substituição dos treinadores Bücker Bü 181. A introdução operacional do S.11 ocorreu em março de 1950, quando cadetes passaram a utilizá-lo em missões de instrução básica, frequentemente sob condições climáticas adversas características do norte dos Países Baixos, como ventos intensos e nevoeiros persistentes. O êxito do modelo rapidamente despertou interesse internacional, levando à sua adoção por outros países. Entre os primeiros clientes estrangeiros destacou-se a recém-criada Força Aérea de Israel, que adquiriu inicialmente 41 aeronaves adaptadas para operações em ambiente desértico. As primeiras unidades foram entregues em maio de 1951, sendo incorporadas ao Esquadrão 101. Neste mesmo momento, renascida Força Aérea Italiana - AMI (Aeronautica Militare Italiana) também estava em busca de uma nova aeronave de treinamento primário, elegendo o Fokker S.11 como seu modelo padrão, resultando em um contrato de produção sob licença pela empresa Aeronautica Macchi Sp.A, envolvendo a montagem de 150 células. Ao contabilizarmos as aeronaves produzidas pela empresa holandesa e sob licença, o total de células entregues atingiria a cifra de trezentos e cinquenta e oito aviões até o ano e 1958. Em 1948 as linhas de produção da Fokker estavam engajadas na produção do S.11 Instructor , quando a equipe de projetistas da N.J Konklijke Nederlandshe Vliegtuigen Fabriek Fokker iniciaram estudos para o desenvolvimento de uma versão triciclo da aeronave, agregando uma bequilha, porém inicialmente a proposta não foi aceita pela diretoria da empresa em face do foco no S.11. Porém em 1949, seria dado o aval para o desenvolvimento desta nova versão, que recebeu a designação de S.12 que era rigorosamente idêntico ao seu antecessor, distinguindo se unicamente pela incorporação de uma bequilha e pelo deslocamento à ré dos trens principais de pouso. A nova versão era rigorosamente idêntica ao seu antecessor, distinguindo se unicamente pela incorporação de uma bequilha e pelo deslocamento à ré dos trens principais de pouso. O primeiro protótipo com  a matrícula  6287, alçaria voo em meados de 1950. Apesar das expectativas positivas o Fokker  S.12 não lograria o mesmo êxito do modelo antecessor, não sendo assim  incorporado pela Real Força Aérea Holandesa (NLAF) o que evidentemente desestimulou as exportações da aeronave.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Ao término da Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea Brasileira (FAB) apresentava um expressivo inventário superior a 1.500 aeronaves militares consideradas modernas para os padrões da época, sendo a grande maioria incorporada a partir de 1942 no âmbito do Lend-Lease Act. Esse programa de cooperação foi determinante para a rápida expansão e modernização da aviação militar brasileira durante o conflito. No que se refere à capacidade ofensiva,  dispunha-se  de um conjunto robusto de aeronaves de primeira linha, entre as quais se destacavam os caças-bombardeiros Republic P-47D Thunderbolt e Curtiss P-40 Warhawk, além dos vetores de ataque Douglas A-20 Havoc, Lockheed PV-1 Ventura e North American B-25 Mitchell. Esse conjunto era complementado por aeronaves destinadas a transporte, patrulha marítima e guerra antissubmarino (ASW), conferindo uma posição de destaque estratégico  sendo então considerada a segunda maior força aérea das Américas e a principal do hemisfério sul. Todavia, essa aparente superioridade encontrava-se ameaçada pelo rápido avanço tecnológico observado a partir da segunda metade da década de 1940. A introdução de aeronaves a jato e de sistemas eletrônicos mais sofisticados tornava progressivamente obsoletos os vetores de origem bélica recente, como o P-47 e o P-40. A situação era agravada pela descontinuação da produção de peças de reposição no pós-guerra, afetando diretamente a disponibilidade operacional dessas aeronaves. Motores como o Pratt & Whitney R-2800 Double Wasp, que equipava o P-47, passaram a enfrentar crescentes dificuldades logísticas, resultando em índices de prontidão que, em algumas unidades, caíram para cerca de 60% por volta de 1950. Paralelamente, consolidava-se no âmbito estratégico nacional a percepção de que a integração territorial do Brasil  dada sua dimensão continental  dependia, em grande medida, do emprego intensivo do transporte aéreo. Tal entendimento reforçava a necessidade de não apenas manter, mas também modernizar e expandir a capacidade aeronáutica nacional. Nesse contexto, ganhava força a ideia de criação de uma indústria aeronáutica própria, inicialmente voltada à produção sob licença e à montagem local de aeronaves, como forma de absorver tecnologia, desenvolver mão de obra especializada e reduzir a dependência externa. Simultaneamente, o Ministério da Aeronáutica (MAer) passou a estudar alternativas para a substituição de sua já envelhecida frota de treinamento básico, composta majoritariamente pelos Fairchild PT-19 e sua variante nacional Fairchild PT-3FG. Embora robusto, o PT-19 apresentava limitações significativas: sua cabine aberta, o envelope de voo restrito  com velocidade máxima em torno de 200 km/h  e a ausência de capacidade acrobática mais avançada tornavam-no inadequado para preparar pilotos destinados a operar aeronaves de maior desempenho. A situação do PT-3FG mostrava-se ainda mais crítica. Produzido no Brasil, mas submetido a intenso desgaste ao longo dos anos de guerra e pós-guerra, o modelo enfrentava elevados índices de indisponibilidade operacional  que chegavam a aproximadamente 40% em 1949  em grande parte devido à escassez de peças de reposição e às limitações estruturais acumuladas pelo uso contínuo.

Dessa forma, ao final da década de 1940, tornava-se evidente que a modernização da aviação de treinamento não constituía apenas uma necessidade operacional imediata, mas também um passo essencial dentro de um projeto mais amplo de desenvolvimento e autonomia tecnológica da aviação brasileira. Inserido nesse contexto, o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) passou a reconhecer a conveniência de reequipar a Escola de Aeronáutica (EAer) com aeronaves mais modernas a partir de meados da década seguinte, compatíveis com as novas exigências operacionais impostas pela evolução da aviação militar. Paralelamente, em 1950, um grupo de empresários brasileiros iniciou tratativas com a Fokker, visando estabelecer no país uma base industrial capaz de produzir aeronaves sob licença. A iniciativa, embora promissora, enfrentou obstáculos significativos, sobretudo em razão da crônica escassez de recursos financeiros que caracterizava as Forças Armadas brasileiras naquele período. Soma-se a isso a postura cautelosa  por vezes reticente do governo federal e do próprio Ministério da Aeronáutica, influenciada por experiências anteriores pouco exitosas em projetos de industrialização aeronáutica. Ainda assim, diante da inexistência de fabricantes nacionais em operação e da carência de alternativas viáveis, os meios militares optaram por analisar com maior profundidade a proposta apresentada. As negociações entre os empresários brasileiros e a direção da Fokker evoluíram de forma relativamente célere; entretanto, o mesmo não se verificou nas tratativas com o Ministério da Aeronáutica, que se estenderam por mais de dois anos, refletindo a complexidade de se estabelecer um modelo que conciliasse os interesses industriais, financeiros e estratégicos das partes envolvidas. Em maio de 1952, o processo atingiu um estágio mais avançado, levando a Força Aérea Brasileira (FAB) a enviar aos Países Baixos uma comissão de oficiais aviadores com a finalidade de avaliar, in loco, as aeronaves incluídas na proposta. O pacote inicial contemplava a produção, sob licença e nas instalações da Fábrica do Galeão, no Rio de Janeiro, de quatro modelos de instrução: o Fokker S.11, destinado ao treinamento básico; o  S.12, também voltado à instrução primária; o  S.13, um bimotor de treinamento; e o S.14, um jato de instrução avançada. Após análise técnica, o S.13 foi prontamente descartado, uma vez que apresentava desempenho inferior às versões do Beechcraft C-45 Expeditor então em operação na Aeronáutica. Com isso, o interesse brasileiro concentrou-se nos modelos S.11, S.12 e S.14, considerados mais alinhados às necessidades de formação progressiva de pilotos militares. A partir desse ponto, intensificaram-se as negociações visando à concretização do projeto. De um lado, os empresários brasileiros, em associação com a Fokker, estruturaram a Fokker Indústria Aeronáutica S/A, empresa que ficaria responsável pela execução industrial do empreendimento. De outro, o Ministério da Aeronáutica (MAer) concordou em ceder, sob regime de arrendamento, as instalações da Fábrica do Galeão, cabendo à nova empresa realizar os investimentos necessários à sua modernização, bem como à aquisição e instalação do maquinário destinado à produção das aeronaves.
Esse arranjo representava um passo concreto no sentido da implantação de uma base industrial aeronáutica no Brasil, ainda que em estágio inicial e fortemente dependente de tecnologia estrangeira. Finalmente, em 7 de agosto de 1953, foi firmado o primeiro contrato entre o Ministério da Aeronáutica (MAer) e a Fokker Indústria Aeronáutica S/A, formalizando o acordo e marcando o início efetivo de um dos mais relevantes esforços de industrialização aeronáutica no país durante o período pós-guerra. O acordo firmado em 7 de agosto de 1953 estabelecia um cronograma de execução a ser cumprido ao longo de cinco anos, definindo metas claras para a implantação da produção aeronáutica no Brasil. Nos termos contratuais, a recém-criada subsidiária brasileiras deveria inicialmente fornecer cinco exemplares do Fokker S.11-4, integralmente produzidos na Holanda e posteriormente montados nas instalações da Fábrica do Galeão, no Rio de Janeiro. Essa etapa inicial tinha como objetivo viabilizar a transferência gradual de conhecimento técnico e a adaptação da infraestrutura industrial brasileira aos padrões exigidos pela fabricação aeronáutica. Na sequência, previa-se a produção de mais 95 aeronaves do mesmo modelo em território nacional, com exceção do motor  importado  consolidando, assim, a capacidade produtiva local. Concluída essa fase, o contrato estabelecia a fabricação de 50 unidades do Fokker S.12, variante diretamente derivada do S.11, diferenciando-se principalmente pela adoção de trem de pouso triciclo, solução mais alinhada às tendências modernas de treinamento. Por fim, previa-se a produção de aeronaves a jato de instrução avançada, com a entrega inicial de cinco exemplares do Fokker S.14 com componentes fornecidos pela matriz holandesa, seguida pela construção de outras 45 unidades no Brasil. Entretanto, o desenvolvimento desse ambicioso programa seria profundamente impactado por fatores de natureza política e institucional. Em 24 de agosto de 1954, o país foi abalado pelo suicídio do então presidente Getúlio Dorneles Vargas, evento que desencadeou significativa instabilidade no cenário nacional. Como consequência, mudanças na condução do Ministério da Aeronáutica (MAer) alteraram o grau de apoio ao projeto. A saída do ministro Nero Moura e sua substituição pelo tenente-brigadeiro Eduardo Gomes introduziram novas diretrizes administrativas, resultando em entraves que retardaram o andamento da iniciativa. Paralelamente, surgiram divergências entre os sócios brasileiros da Fokker Indústria Aeronáutica S/A e a matriz holandesa, agravando ainda mais as dificuldades do empreendimento. Esse conjunto de fatores culminou no cancelamento da produção dos jatos Fokker S.14, bem como na desistência do recebimento das cinco unidades que seriam inicialmente fornecidas pela Holanda. Nesse contexto adverso, o cronograma original sofreu atrasos significativos. Os primeiros cinco exemplares do  S.11-4  fabricados na Holanda e montados no Brasil  somente foram concluídos no último trimestre de 1956, sendo entregues ao Ministério da Aeronáutica com mais de dois anos de atraso. Essas aeronaves foram então distribuídas à Escola de Aeronáutica, onde passaram a integrar o estágio de formação básica de pilotos.

A produção nacional evoluiu gradualmente a partir desse ponto. Entre janeiro e fevereiro de 1957, os primeiros 14 exemplares fabricados no Brasil foram entregues à Escola de Aeronáutica (EAer), marcando o início efetivo da produção em série no país. A partir de então, a incorporação de novas aeronaves ocorreu de forma contínua, com a chegada mensal de uma ou duas unidades, acompanhando o amadurecimento da linha de produção. Finalmente, em abril de 1959, foram entregues os últimos quatro exemplares do Fokker S.11-4a, completando o lote de 100 aeronaves previsto no contrato original. Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo do processo, o programa representou um marco relevante no esforço de implantação de uma indústria aeronáutica no Brasil, contribuindo de maneira significativa para a formação de recursos humanos e para a consolidação de capacidades industriais no setor. Designados  como T-21, os novos treinadores foram prontamente incorporados às atividades da Escola de Aeronáutica tão logo começaram a ser recebidos. Antes, contudo, de sua efetiva inserção no ciclo de formação dos cadetes, tornou-se necessário estabelecer um núcleo inicial de instrutores qualificados no novo modelo  processo conduzido com relativa rapidez e sem intercorrências relevantes, refletindo a boa adaptação operacional da aeronave. Até o final de 1957, com a chegada progressiva das primeiras unidades, a instrução de voo básica ainda era predominantemente realizada no Fairchild PT-19. Gradualmente, porém, o T-21 passou a ser introduzido no estágio primário, substituindo o veterano treinador. Nesse novo arranjo, os cadetes acumulavam, em média, entre 85 e 95 horas de voo antes de prosseguirem para a fase seguinte de instrução no T-6 Texan. Comparativamente ao PT-19, o T-21 apresentava qualidades de voo superiores, especialmente no que se refere à estabilidade e à execução de manobras acrobáticas básicas. Ainda assim, algumas limitações foram observadas no emprego cotidiano. Entre elas, destacavam-se a potência relativamente modesta do motor Lycoming O-435-A, que impunha restrições à execução de manobras mais exigentes, e a autonomia de voo reduzida, fator que limitava a duração das missões de instrução. A partir dos últimos meses de 1959, o T-21 passou a assumir papel predominante na fase primária de treinamento. Entretanto, nesse mesmo período, um grave acidente marcaria profundamente a história da aviação militar brasileira. Em 22 de dezembro daquele ano, um T-21 colidiu, durante a execução de uma manobra acrobática fora da área designada de instrução, com um Vickers Viscount da VASP, que realizava procedimento de aproximação para o Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. O cadete que pilotava o T-21 conseguiu ejetar-se  ou, mais precisamente, abandonar a aeronave com o uso de paraquedas  e sobreviver ao acidente. Já entre os ocupantes da aeronave comercial, houve vítimas fatais, tornando o episódio um dos mais graves da aviação brasileira à época. Para além de suas consequências imediatas, o acidente evidenciou o crescente problema da saturação do espaço aéreo na região do Rio de Janeiro. Como desdobramento direto, acelerou-se o processo de estudos para  transferência das atividades de instrução de voo  para o interior do estado de São Paulo, na cidade de Pirassununga, com a criação do Destacamento Precursor da Escola de Aeronáutica. 
Ademais, o episódio contribuiu para a desativação do Campo de Manguinhos, tradicional aeródromo que abrigava o Aeroclube do Brasil e diversas atividades aeronáuticas civis. Apesar do impacto institucional e simbólico do acidente, a rotina operacional dos T-21 sofreu alterações limitadas no curto prazo. Ao longo dos primeiros anos da década de 1960, essas aeronaves continuaram a operar regularmente a partir do Campo dos Afonsos, estendendo suas atividades também aos aeródromos de Jacarepaguá e Nova Iguaçu, consolidando-se como um dos pilares da formação básica de pilotos  naquele período.  Ao compartilhar o pátio de estacionamento com aeronaves como o T-6 Texan, T-22 e outros vetores pertencentes à Escola de Aeronáutica (EAr), o Fokker T-21 rapidamente se consolidou como a aeronave predominante daquela organização. Tal protagonismo esteve diretamente relacionado à reestruturação do sistema de formação de pilotos, na qual as fases mais avançadas da instrução passaram a ser progressivamente transferidas para Pirassununga, futura sede da Academia da Força Aérea (AFA). Entretanto, ao se alcançar a segunda metade da década de 1960, tornava-se evidente que o ciclo operacional do T-21 aproximava-se de seu encerramento. O avanço tecnológico e a introdução de aeronaves mais modernas apontavam para sua substituição iminente. Nesse contexto, destacou-se a entrada em serviço do Aerotec T-23 Uirapuru, um treinador primário inteiramente metálico, dotado de melhor desempenho e concebido segundo padrões mais atualizados de engenharia aeronáutica, o que o tornava substancialmente superior ao T-21 em diversos aspectos. Esse período também foi marcado por mudanças significativas  ainda que transitórias  nos métodos de formação de oficiais aviadores da Força Aérea Brasileira (FAB). Diversas doutrinas e modelos de instrução foram testados, reduzindo progressivamente o espaço operacional do T-21 dentro desse novo contexto. Como resultado, iniciou-se um processo gradual de desativação da aeronave. O primeiro indicativo concreto desse movimento ocorreu em 1969, quando, após passarem por revisão geral no Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF), 16 exemplares do T-21 foram preparados para transferência a forças aéreas estrangeiras. Desses, oito aeronaves foram destinadas à Força Aérea Boliviana (FAB) e outras oito à Força Aérea Paraguaia (FAP), marcando o início da retirada progressiva do modelo do serviço ativo no Brasil. No ano seguinte, foram adotadas medidas mais amplas visando à sua desativação definitiva. Diversas células foram selecionadas, submetidas a revisões gerais e posteriormente transferidas ao Departamento de Aviação Civil (DAC), que se encarregou de redistribuí-las a instituições civis. Entre os principais beneficiários destacaram-se o Aeroclube do Brasil e o Aeroclube do Rio Grande do Sul, onde essas aeronaves continuaram a desempenhar papel relevante na formação de pilotos civis. Finalmente, em 1973, os últimos exemplares do Fokker T-21 foram oficialmente retirados da carga da Força Aérea Brasileira (FAB), encerrando sua carreira militar no país. Como forma de preservar sua memória histórica, ao menos uma dessas aeronaves foi destinada ao Museu Aeroespacial (MUSAL), onde permanece como testemunho de uma fase importante da formação de pilotos e do desenvolvimento da aviação no Brasil.

Em Escala:
Para representarmos o  Fokker T-21 " FAB 0705" empregamos o antigo kit da Smer na escala 1/40, modelo este extremamente espartano, porém de fácil montagem. Aplicamos pequenos detalhamentos em scratch na cabine. Decais  artesanais produzidos por nosso amigo Cesar Hares de Curitiba em conjunto com decais FCM completaram o conjunto.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura das aeronaves de instrução da Escola de Aeronáutica (EAer), mantendo este padrão até sua desativação em 1973, algumas aeronaves Fokker T-21 receberam ainda um esquema provisório camuflado em três tons.
Bibliografia :
- Fokker S-11  - Wikipedia - http://en.wikipedia.org/wiki/Fokker_S-11
- História da Força Aérea Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Fokker S-11 e S-12 Instructor - Rafael Pinheiro Machado
- Aeronaves Militares Brasileiras  1916 a 2015 – Jackson Flores Junior

T-23 Aerotec Uirapuru

História e Desenvolvimento.
O marco inicial da construção aeronáutica no Brasil remonta a 1910, com a concepção do denominado “Avião São Paulo”, considerado a primeira aeronave integralmente projetada e construída em território nacional. O projeto contou com a colaboração de Alberto Santos-Dumont, cuja projeção internacional já se encontrava consolidada em razão de suas realizações com o 14-bis e o Demoiselle. Em parceria com o aviador francês Dimitri Sensaud de Lavaud, a aeronave foi construída na região de Osasco, realizando seu voo inaugural em 7 de janeiro de 1910. Ainda que rudimentar sob o ponto de vista técnico, o empreendimento simbolizou o esforço inicial do país em acompanhar o acelerado desenvolvimento da aviação mundial. Todavia, a carência de infraestrutura industrial e de financiamento adequado impediu sua continuidade em escala produtiva. O término da Primeira Guerra Mundial trouxe novo impulso ao setor aeronáutico em âmbito global, criando condições para o surgimento de iniciativas mais estruturadas também no Brasil. Nesse cenário, destacou-se a atuação do industrial Henrique Lage, que, em 1927, fundou a Companhia Nacional de Navegação Aérea (CNNA), no Rio de Janeiro. A criação da CNNA representou um avanço significativo ao estabelecer as bases da produção industrial de aeronaves e motores no país, superando a fase predominantemente artesanal que caracterizara os esforços anteriores. Ainda que em escala limitada, a empresa produziu aeronaves voltadas tanto ao mercado interno quanto a contratos externos, marcando o início de uma incipiente capacidade industrial aeronáutica nacional. A década de 1920 foi marcada por iniciativas que buscavam consolidar essa capacidade. Em 1920, foi concluído o biplano “Rio de Janeiro”, um monomotor inspirado no Caudron G.3, desenvolvido nas oficinas de Henrique Lage sob a liderança do capitão francês Etienne Lafay e do engenheiro Braconnot. O projeto representou um dos primeiros esforços de adaptação tecnológica às condições locais, com o uso de materiais disponíveis no país. Em 1922, outro marco relevante foi o voo inaugural do biplano bimotor “Independência”, também concebido por Lafay, cuja configuração trator-empurrador e emprego de motores rotativos  já então considerados obsoletos  evidenciavam tanto a criatividade quanto as limitações tecnológicas enfrentadas. Apesar de demonstrarem potencial técnico, ambos os projetos não avançaram para a produção em série, refletindo a ausência de uma política industrial consistente e de incentivos governamentais estruturados. A década de 1930 representaria uma inflexão nesse processo, com o surgimento de propostas mais alinhadas a uma visão estratégica de desenvolvimento. Nesse contexto, destacou-se a atuação do engenheiro Guedez Muniz, que, após formação na Europa, retornou ao Brasil em 1931 trazendo consigo a perspectiva de criação de uma indústria aeronáutica autônoma e tecnicamente consistente. Muniz defendia a utilização de recursos nacionais  como madeiras, ligas metálicas e alumínio  associada à necessidade de apoio estatal por meio de incentivos à pesquisa, ao desenvolvimento e à produção. Sua atuação simboliza a transição de iniciativas isoladas e experimentais para um esforço mais estruturado de construção de uma base industrial aeronáutica no Brasil.

Em 1935, o engenheiro Guedez Muniz liderou, no Campo dos Afonsos, a construção de dois protótipos do treinador biplano Muniz M-7, então uma das principais iniciativas nacionais voltadas à formação de pilotos militares. Esse projeto constituiu um marco relevante ao incorporar, de forma deliberada, componentes produzidos no Brasil, como ligas metálicas aplicadas ao trem de pouso e revestimentos têxteis nas asas, evidenciando uma preocupação crescente com a nacionalização de insumos e a redução da dependência externa. No ano seguinte, em 1936, a Companhia Nacional de Navegação Aérea, sob a direção de Henrique Lage, assumiu a produção do M-7, entregando os primeiros exemplares de uma série que totalizaria 26 aeronaves. Tal realização é frequentemente apontada como a primeira produção em série de aeronaves no Brasil, consolidando, ainda que em escala inicial, a capacidade industrial do país e demonstrando o potencial da articulação entre iniciativa privada e apoio governamental. Paralelamente, o ano de 1936 também foi significativo pela implantação das Oficinas Gerais da Aviação Naval, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, estrutura que posteriormente se tornaria conhecida como Fábrica do Galeão. Esse complexo industrial viria a desempenhar papel central no desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira nas décadas seguintes. Em 1938, a unidade celebrou acordo para produção sob licença de aeronaves da empresa alemã Focke-Wulf, incluindo o treinador  Fw 44 Stieglitz e o bimotor Fw 58 Weihe, este último designado no Brasil como Galeão 2FG. Entre 1938 e 1942, foram produzidas 25 células desse modelo, considerado o primeiro avião de transporte de passageiros montado no país. Sua fabricação envolveu crescente nacionalização de componentes, como estruturas em madeira e revestimentos, representando um avanço técnico expressivo. Ainda em 1938, foi concluído o desenvolvimento do Muniz M-9, evolução direta do M-7, incorporando melhorias aerodinâmicas e operacionais que ampliaram sua confiabilidade. Em maio de 1939, o Exército Brasileiro encomendou 20 unidades do modelo, das quais cinco foram exportadas  um feito notável para a indústria nacional naquele período. A CNNA prosseguiu com a produção até 1943, totalizando 40 aeronaves. A exportação do M-9 evidenciou o potencial competitivo dos projetos brasileiros, embora ainda limitado por fatores estruturais, reforçando a importância do apoio estatal contínuo para a consolidação do setor. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Fábrica do Galeão enfrentou desafios decorrentes das mudanças geopolíticas, especialmente em função da inicial cooperação com a indústria alemã. Contudo, após a entrada do Brasil no conflito ao lado dos Aliados, em 1942, a produção de modelos germânicos foi interrompida, sendo substituída pela fabricação sob licença de aeronaves norte-americanas, como o Fairchild PT-19, designado localmente como PT-3FG. Durante o auge do esforço de guerra, a fábrica chegou a empregar cerca de 2.000 trabalhadores, operando em regime contínuo. Nesse período, destacaram-se iniciativas de engenharia reversa e adaptação industrial, permitindo a produção local de componentes essenciais como tanques de combustível e suportes para armamentos  utilizando materiais disponíveis no país, incluindo ligas de alumínio de origem nacional.
Em paralelo a esse processo de expansão industrial, foi fundada, em agosto de 1942, a Companhia Aeronáutica Paulista, sediada em Santo André, sob a liderança do industrial Francisco Pignatari. Sua criação ocorreu em um contexto de crescente mobilização nacional em torno da aviação, impulsionada pela Campanha Nacional de Aviação, idealizada por Assis Chateaubriand, que difundiu o lema “Dêem asas ao Brasil”. Essa campanha desempenhou papel fundamental ao estimular a formação de pilotos e a expansão dos aeroclubes em todo o país, criando uma demanda concreta por aeronaves de treinamento acessíveis e confiáveis. Nesse ambiente de efervescência, consolidavam-se as bases sociais, industriais e institucionais que sustentariam, nas décadas seguintes, o desenvolvimento da aviação brasileira. A Companhia Aeronáutica Paulista (CAP), ainda em 1942, adquiriu os ativos da Empresa Aeronáutica Ypiranga (EAY), incluindo os direitos do projeto do EAY-201 Ypiranga. Esse modelo serviria de base para o desenvolvimento do consagrado CAP-4 Paulistinha, uma das aeronaves mais emblemáticas da aviação civil brasileira. O CAP-4  foi concebido como um monoplano de asa alta, biposto, destinado à formação básica de pilotos. Seu desenvolvimento contou com a colaboração do Instituto de Pesquisas Tecnológicas e de engenheiros como Romeu Corsini e Clay Presgrave. Embora inspirado no projeto norte-americano Taylor Cub, o Paulistinha foi adaptado às condições operacionais brasileiras, incorporando soluções construtivas simples e eficientes, como fuselagem em tubos de aço, revestimento em tecido e motorização Continental A-65-8 de 65 hp. Realizando seu primeiro voo em 2 de abril de 1943, o CAP-4 rapidamente se destacou por sua robustez, baixo custo operacional e facilidade de manutenção. Produzido em cerca de 780 exemplares até 1949, tornou-se amplamente utilizado por aeroclubes e instituições militares, desempenhando papel fundamental na formação de pilotos em todo o país e consolidando-se como um verdadeiro ícone da aviação brasileira. Em 1943, foi firmado um acordo com a North American Aviation para a produção sob licença do treinador avançado  T-6 Texan na Fábrica de Aviões de Lagoa Santa, em Minas Gerais. O objetivo era suprir a demanda da Força Aérea Brasileira por aeronaves capazes de preparar pilotos para operações mais complexas, incluindo aquelas realizadas no Atlântico Sul e na campanha italiana. Inicialmente sob gestão estatal, o projeto foi posteriormente transferido ao grupo liderado por Francisco Pignatari, responsável pela empresa, em uma tentativa de elevar a eficiência produtiva. Ainda que a empresa tenha contribuído para a montagem de aproximadamente 50 células do T-6 Texan, o programa enfrentou dificuldades decorrentes da complexidade técnica do modelo e da dependência de componentes importados, o que limitou seu pleno sucesso industrial. No imediato pós-guerra, surgiram iniciativas voltadas à organização mais estruturada do setor aeronáutico nacional. Em 1946, foi criado o Comitê para a Organização do Centro Técnico de Aeronáutica, sob a liderança de Casimiro Montenegro Filho, figura central na concepção de um sistema integrado de pesquisa, desenvolvimento e formação de recursos humanos, que futuramente daria origem ao Centro Técnico de Aeronáutica (CTA) e ao Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA).

Apesar dessas iniciativas promissoras, o ano de 1948 marcou um período de profunda crise para a indústria aeronáutica brasileira. O mercado foi inundado por aeronaves excedentes de guerra provenientes dos Estados Unidos, vendidas a preços extremamente baixos, o que reduziu drasticamente a competitividade dos produtos nacionais. Nesse contexto adverso, empresas como a Companhia Nacional de Navegação Aérea  responsável pelos treinadores Muniz M-7 e M-9  e a própria Companhia Aeronáutica Paulista enfrentaram severas dificuldades financeiras, culminando no encerramento de suas atividades. A Fábrica do Galeão também foi impactada, tendo suas linhas de produção praticamente paralisadas, passando a se dedicar majoritariamente a atividades de manutenção e reparo de aeronaves, como o Consolidated PBY Catalina e o T-6 Texan. Esse cenário evidenciou, de forma clara, as limitações estruturais da indústria aeronáutica nacional à época, fortemente dependente de contratos governamentais e carente de uma política industrial consistente que assegurasse sua sustentabilidade em um ambiente competitivo internacional. Apesar dos reveses enfrentados no imediato pós-guerra, o início da década de 1950 marcou uma retomada gradual dos esforços voltados à produção seriada de aeronaves militares no Brasil. Nesse contexto, o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) identificou a necessidade premente de substituir a frota de treinamento básico da Escola de Aeronáutica (EAer), então composta por aeronaves já consideradas obsoletas diante dos novos padrões operacionais. Como resposta a essa demanda, foi celebrado, em 1953, um acordo com a Fokker para a produção sob licença do treinador  S.11  no Brasil, por meio de sua subsidiária local, a Fokker Indústria Aeronáutica S/A, utilizando as instalações da Fábrica do Galeão. Até o final de 1957, foram entregues cerca de 150 aeronaves,  desempenhando papel essencial na modernização do processo de formação de pilotos.  Todavia, a execução desse programa esteve longe de ser linear. A produção enfrentou uma série de dificuldades, incluindo atrasos nos cronogramas, entraves logísticos e limitações no processo de nacionalização de componentes. A forte dependência de tecnologia estrangeira e a complexidade de estruturar uma cadeia de suprimentos local evidenciaram uma lacuna crítica: a carência de recursos humanos altamente qualificados. Tornava-se evidente que engenheiros e técnicos brasileiros precisariam não apenas absorver o conhecimento técnico internacional, mas também adaptá-lo às condições específicas do país seja no emprego de materiais disponíveis localmente, seja na adequação dos projetos às realidades operacionais brasileiras. Foi nesse ambiente que amadureceu a concepção de um sistema integrado de formação e pesquisa em engenharia aeronáutica. Tal visão materializou-se com a criação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 1950, e do Centro Técnico de Aeronáutica (CTA), em 1953, ambos estabelecidos em São José dos Campos. Essas instituições tornaram-se pilares fundamentais para o desenvolvimento científico, tecnológico e industrial da aviação nacional, formando gerações de engenheiros e promovendo pesquisa aplicada de alto nível. Antes mesmo da formação das primeiras turmas de engenheiros pelo ITA, já surgiam iniciativas impulsionadas pelo interesse em consolidar uma indústria aeronáutica de maior complexidade tecnológica. 
Entre essas, destacou-se a fundação da Indústria Aeronáutica Aerotec S/A, em 1962, também em São José dos Campos. A empresa foi criada pelo empresário Carlos Gonçalves, em associação com os engenheiros Wladimir Monteiro Carneiro e Michel Cury. Inicialmente, a Aerotec tinha como objetivo a produção de componentes de reposição para aeronaves civis de treinamento e turismo segmento que experimentava significativa expansão naquele período. Essa iniciativa refletia não apenas a crescente demanda por suporte técnico à aviação leve, mas também a consolidação de um ambiente industrial mais favorável ao desenvolvimento de competências locais, preparando o terreno para avanços mais ambiciosos na indústria aeronáutica No entanto seus fundadores estavam atentos a todas as novas oportunidades de mercado, e entre estas vislumbrava-se a possível necessidade futura em proceder a modernização de suas aeronaves de treinamento básico Fokker T-21 e T-22, que neste momento sofriam com problemas de disponibilidade de frota.  Esta demanda seria destinada a reequipar em curto prazo a Escola de Aeronáutica (EAer), e deveria representar algo na ordem de pelo menos uma centena de novas aeronaves de treinamento básico a serem adquiridas. Este vultuoso possível contrato, viria a  despertar o interesse da diretoria da Aerotec S/A. Assim com base nesta  oportunidade mercadológica, a equipe de projetos da empresa elucidaria esforços para o desenvolvimento de uma nova aeronave destinada a instrução primária. Seguindo a diretiva estratégica do Governo Federal em se fomentar o desenvolvimento de uma indústria de defesa nacional, decidiu-se que o substituto dos treinadores holandeses deveria ser projetado e fabricado no Brasil. Os parâmetros básicos para o desenvolvimento deste modelo deviam conceber uma aeronave de asa baixa de pequeno porte, com sua construção sendo totalmente composta em alumínio, com assentos lado a lado, alta manobrabilidade e trem de pouso triciclo. Este projeto tinha ainda por principal objetivo aliar características ideais de simplicidade, robustez e principalmente apresentar um baixo custo de operação.  Ciente desta necessidade e primícias básicas de desenvolvimento, a empresa, apresentaria em fins de 1964,  o projeto  A-122, que fora concebido pelos engenheiros Carlos Gonçalves e José Carlos de Sousa Reis. O conceito inicial da aeronave foi rapidamente validado, sendo financiada  a construção do primeiro protótipo que seria concluído em abril de 1965.  Sob a matrícula PP-ZTF, esta aeronave alçaria o primeiro voo em 02 de junho do mesmo ano. Tratava-se de uma aeronave monomotora, metálica, biplace com assentos a lado a lado, duplo comando, asa baixa, trem de pouso triciclo e empenagem convencional, e estava equipado com um motor Lycoming O-300-B1, com quatro cilindros opostos horizontalmente, gerando uma potência de 100 hp. As primeiras avaliações indicariam a necessidade de se melhorar suas características aerodinâmicas, que resultavam em uma grande dificuldade para a aeronave sair de parafusos, característica essa que acabaria resultando em um acidente fatal, vitimando o piloto de testes.  A fim de se sanar está a falha o projeto seria profundamente revisto, culminando na inclusão de uma quilha na parte posterior da fuselagem. Neste processo verificou-se também necessidade de se aumentar a potência , resultando na troca do motor original por outro do mesmo fabricante agora na versão 0-320-B1B, passando a  desenvolver 160 hp.  

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Concluída a fase inicial de avaliação em voo, o programa evoluiu para uma etapa decisiva com a celebração de um primeiro contrato envolvendo duas aeronaves de pré-série. Esses exemplares realizaram seus voos entre janeiro e abril de 1968, sendo imediatamente integrados a um amplo programa de ensaios conduzido ao longo desse mesmo período. Ao término dessa fase, os resultados obtidos permitiram a homologação oficial do projeto pelo Centro Técnico de Aeronáutica (CTA), validando suas características operacionais e estruturais. Nesse momento, a aeronave, até então identificada como A-122, passou a receber a designação militar T-23, sendo também batizada como “Uirapuru”  em referência à ave amazônica de canto singular, símbolo de harmonia e precisão. A consolidação dessa etapa abriu caminho para a formalização de um contrato de aquisição inicial, contemplando 30 aeronaves de série. O acordo foi oficialmente firmado em setembro de 1968 entre a Indústria Aeronáutica Aerotec S/A e o Ministério da Aeronáutica (MAer), incluindo, além das aeronaves de produção, o segundo protótipo  anteriormente registrado como PP-ZTT, atualmente preservado no Museu Aeroespacial (MUSAL)  e os dois exemplares de pré-série. As primeiras quatro células do lote de produção foram concluídas em fevereiro de 1970, sendo preparadas para entrega oficial à Força Aérea Brasileira (FAB). A cerimônia ocorreu em 6 de março de 1970, nas instalações da Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga, ocasião em que as aeronaves receberam as matrículas FAB 0940 a 0943. Após um breve período dedicado à adaptação operacional e à formação de instrutores, o T-23 Uirapuru foi gradualmente incorporado ao programa de instrução básica de voo, desempenhando papel fundamental na reformulação da doutrina de formação de pilotos militares. Sua introdução visava suprir a lacuna deixada desde 1962, quando os Fokker T-21 e T-22 foram retirados do processo formativo da antiga Escola de Aeronáutica (EAr). A retirada relativamente precoce desses treinadores de origem holandesa esteve associada, em parte, a limitações observadas em determinados regimes de voo, nos quais apresentavam características indesejáveis de manobrabilidade e comportamento aerodinâmico, impactando negativamente a qualidade da instrução básica. Em contraste, o T-23 Uirapuru, equipado com motor Lycoming O-320-B1B de 160 hp, oferecia desempenho significativamente superior. Entre suas principais características destacavam-se velocidade máxima de aproximadamente 225 km/h, velocidade de cruzeiro em torno de 190 km/h, teto de serviço de 4.500 metros e autonomia próxima de quatro horas. Além dos ganhos em desempenho, a aeronave apresentava melhores qualidades de voo e maior previsibilidade em manobras, fatores essenciais para a formação segura e eficiente de novos pilotos militares. Dessa forma, a introdução do T-23 representou não apenas a substituição de um vetor de treinamento, mas um avanço qualitativo na doutrina de instrução, alinhando-a às exigências de uma aviação militar cada vez mais sofisticada.

Em 1969, a Força Aérea Brasileira (FAB) intensificou o processo de incorporação do Aerotec T-23 Uirapuru na Academia da Força Aérea (AFA), situada em Pirassununga. A chegada contínua de novas células ao longo daquele ano possibilitou não apenas a consolidação do modelo como vetor principal de instrução primária, mas também a reestruturação orgânica do ensino de voo na instituição. Nesse contexto, foram ativados dois esquadrões dedicados exclusivamente à instrução aérea: o 1º Esquadrão de Instrução Aérea  (EIA) – Esquadrilha Antares e o 2º Esquadrão de Instrução Aérea (EIA) – Esquadrilha Castor. Essas unidades foram concebidas para oferecer treinamento primário-básico aos cadetes, constituindo a base da formação operacional dos futuros oficiais aviadores. O programa de instrução adotado na Academia da Força Aérea (AFA) previa uma carga média de aproximadamente 75 horas de voo no T-23, abrangendo um conjunto abrangente de atividades essenciais à formação inicial, entre as quais se destacavam: manobras de precisão, voltadas ao desenvolvimento do controle fino da aeronave e da navegação; exercícios acrobáticos, destinados a aprimorar a confiança e a capacidade de resposta em situações críticas; voos em formação, fundamentais para operações coordenadas em ambiente militar; e instrução básica por instrumentos, introduzindo os fundamentos da navegação em condições adversas. A configuração biplace com assentos lado a lado e duplo comando do Aerotec T-23 Uirapuru revelou-se particularmente adequada a esse conjunto de missões, facilitando a interação entre instrutor e aluno. Aliada a isso, sua robustez estrutural, simplicidade de manutenção e baixo custo operacional contribuíram para sua ampla aceitação. Não por acaso, a aeronave passou a ser carinhosamente apelidada de “Zarapa” por instrutores e cadetes, refletindo o grau de familiaridade e confiança conquistado no ambiente operacional. Do ponto de vista técnico, o Aerotec T-23 Uirapuru demonstrou excelente desempenho em manobras e comportamento previsível em voo, qualidades que foram ainda mais aprimoradas após as revisões aerodinâmicas realizadas entre 1966 e 1968  dentre as quais se destaca a incorporação de uma quilha ventral, responsável por melhorar a estabilidade direcional. Esses fatores consolidaram sua reputação como um treinador confiável e eficiente. O êxito operacional do modelo levou o Ministério da Aeronáutica (MAer) a firmar, ainda em 1969, um segundo contrato com a Indústria Aeronáutica Aerotec S/A, prevendo a aquisição de mais 27 aeronaves, que receberam as matrículas FAB 0972 a 0999. As entregas desse novo lote tiveram início a partir de 1971, ampliando significativamente a frota disponível para instrução e outras tarefas de apoio. Por sua vez, as aeronaves pertencentes ao lote de pré-produção  anteriormente utilizadas nos ensaios e na fase inicial de integração  foram transferidas para o Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMALS), em Minas Gerais . Nessa unidade, passaram a desempenhar funções orgânicas, incluindo missões de ligação e transporte leve, evidenciando a versatilidade do projeto.
O Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMALS) desempenhou, ademais, papel central na sustentação logística da frota, atuando como principal centro de manutenção e apoio ao T-23 Uirapuru. Sua atuação foi fundamental para garantir elevados índices de disponibilidade operacional, assegurando a continuidade e a eficiência do processo de formação de pilotos  ao longo das décadas seguintes. A incorporação do segundo lote do Aerotec T-23 Uirapuru possibilitou a ampliação de seu emprego para além da Academia da Força Aérea, estendendo sua utilização a outras organizações da Força Aérea Brasileira (FAB). Entre essas, destacou-se o Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM), sediado na Base Aérea de Natal, que passou a desempenhar papel relevante na descentralização da formação de pilotos militares. A partir de março de 1971, o Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM), integrou o T-23 ao seu programa de instrução, estruturado no âmbito do Curso de Piloto Militar, com duração aproximada de dez meses. Esse curso era organizado em duas fases distintas e complementares. O estágio básico, conduzido no T-23 Uirapuru, concentrava-se no desenvolvimento das competências fundamentais de pilotagem, navegação e execução de manobras. Já o estágio avançado era realizado no Cessna T-37 Tweet, aeronave a jato de origem norte-americana, responsável por introduzir os cadetes às exigências operacionais de plataformas de maior desempenho e complexidade. Nesse contexto, o T-23 revelou-se elemento central na formação inicial, graças à sua simplicidade construtiva, confiabilidade e características de voo previsíveis, permitindo aos alunos consolidar uma base técnica sólida antes da transição para aeronaves a jato. Sua introdução no Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM) não apenas ampliou a capacidade formativa, como também contribuiu para a descentralização do ensino, possibilitando a formação de pilotos em diferentes regiões do país. A crescente demanda por novos aviadores levou o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) a adotar medidas para acelerar a disponibilização das aeronaves. Por meio do Aviso Ministerial nº R-033/GM4, de 22 de novembro de 1971, foi recomendada a entrega prioritária de todos os exemplares do T-23 ao CFPM, a fim de atender à necessidade imediata de ampliação dos efetivos em formação. A única exceção prevista foi a manutenção de uma aeronave junto ao Centro Técnico de Aeronáutica (CTA), em São José dos Campos, destinada à continuidade dos ensaios em voo e ao aperfeiçoamento técnico do projeto. Essa diretriz foi prontamente implementada e, a partir de janeiro de 1972, o CFPM recebeu um reforço significativo de meios aéreos, incluindo as 27 aeronaves do segundo lote  matrículas FAB 0972 a 0999 cuja entrega teve início em 1971. O aumento da disponibilidade de aeronaves permitiu a condução das atividades de instrução sem restrições relevantes, consolidando o papel do T-23 Uirapuru como pilar da formação básica de pilotos militares no Brasil e fortalecendo, de maneira decisiva, a capacidade operacional da Força Aérea Brasileira naquele período.

A conclusão da infraestrutura da Academia da Força Aérea (AFA), em 1973, permitiu a centralização de todas as atividades de formação de oficiais aviadores em Pirassununga. Essa decisão, de caráter estratégico, visava não apenas otimizar recursos e padronizar procedimentos, mas também elevar a eficiência do treinamento por meio da concentração das atividades em um único centro de excelência, dotado de instalações modernas e de uma frota diversificada de aeronaves de instrução. Com essa reestruturação, a Academia da Força Aérea (AFA) assumiu integralmente as atribuições até então desempenhadas pelo Centro de Formação de Pilotos Militares, sediado na Base Aérea de Natal, o qual havia exercido papel fundamental na formação de pilotos desde o início da década. Como consequência direta desse processo, o Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM) foi oficialmente desativado em 1974, marcando o encerramento de suas operações. A transferência dos meios aéreos  incluindo os  T-23 Uirapuru,  T-25 Universal e  T-37 Tweet  assegurou a continuidade do processo de instrução sem descontinuidades. A partir desse momento, a academia passou a concentrar a totalidade da frota de T-23, que constituía o principal vetor da instrução primária. Entretanto, a frota remanescente começava a apresentar sinais de desgaste, atingindo níveis considerados críticos em termos de disponibilidade de células para sustentar o fluxo contínuo de formação de cadetes. Diante desse cenário, o Ministério da Aeronáutica (MAer) optou por exercer, em 1974, uma cláusula contratual que previa a aquisição adicional de 42 aeronaves. Essas novas unidades passaram a ser entregues a partir de 1975, sendo incorporadas às atividades de instrução junto ao 1º Esquadrão de Instrução Aérea – Esquadrilha Antares e ao 2º Esquadrão de Instrução Aérea – Esquadrilha Castor. Ao longo desse período, a frota do T-23 foi submetida a sucessivos programas de modernização e revisão, conduzidos pelo Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (PAMALS). Essas intervenções permitiram manter elevados índices de disponibilidade operacional, prolongando a vida útil das aeronaves e assegurando sua adequação às exigências do treinamento. Em 1977, a Força Aérea Brasileira (FAB) avaliou que, apesar das limitações inerentes ao seu envelope de voo e à sua manobrabilidade, o T-23 ainda poderia continuar contribuindo de forma relevante para a formação básica de pilotos, uma vez que tais restrições não comprometiam as fases iniciais do treinamento. Contudo, tornou-se evidente a necessidade de atualização de seus sistemas, especialmente no que se referia aos equipamentos de navegação e comunicação. Nesse sentido, foram iniciados estudos visando à implementação de um programa mais abrangente de modernização, incluindo retrofit estrutural e a incorporação de novos sistemas aviônicos. O objetivo era proporcionar aos cadetes um primeiro contato com tecnologias mais próximas daquelas encontradas em aeronaves operacionais de linha, reduzindo a lacuna entre as fases básica e avançada da instrução. 
Entre as propostas em análise, destacava-se a introdução de sistemas mais modernos de navegação  incluindo, em perspectiva, tecnologias que evoluiriam posteriormente para o uso de sistemas como o Global Positioning System (GPS) refletindo a preocupação  em alinhar sua doutrina de ensino às transformações tecnológicas da aviação contemporânea. O programa de modernização foi aprovado pelo Ministério da Aeronáutica (MAer), que determinou a seleção de 45 células do Aerotec T-23 Uirapuru em melhores condições estruturais e com menor número de horas de voo. Essas aeronaves foram então submetidas a um processo de atualização nas instalações da Indústria Aeronáutica Aerotec S/A. Do ponto de vista visual e aerodinâmico, a principal modificação introduzida foi a substituição da cobertura original da nacele por um conjunto mais moderno e eficiente, conferindo à aeronave um perfil mais refinado. Como resultado dessas alterações, surgiu a versão designada T-23B Uirapuru, que incorporava melhorias estruturais e atualizações em sistemas. Entretanto, já no início da década de 1980, a introdução de aeronaves mais modernas de caça, ataque e transporte nas unidades operacionais da Força Aérea Brasileira (FAB) evidenciou a necessidade de uma reformulação mais profunda na doutrina de formação de pilotos. Nesse novo contexto, avaliações técnicas passaram a considerar o T-23B como progressivamente inadequado para a instrução básica, não apenas em função do desgaste acumulado de suas células, mas também por suas limitações em termos de envelope de voo frente às crescentes exigências operacionais. Na tentativa de oferecer uma solução nacional, a própria Aerotec apresentou o projeto A-132 Tangará, designado YT-17 pela Força Aérea Brasileira (FAB), concebido como potencial substituto. Embora seu protótipo tenha sido amplamente testado, o Comando da Aeronáutica (COMAER) optou por direcionar sua preferência para aeronaves de treinamento com configuração de assentos em tandem, consideradas mais adequadas à progressão pedagógica dos pilotos militares. Diante desse cenário, iniciou-se o processo de retirada gradual dos T-23B do serviço ativo. Paralelamente, a Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga, passou a receber o Embraer T-27 Tucano, aeronave significativamente mais moderna, o que permitiu a reorganização do sistema de instrução: os Neiva T-25 Universal passaram a assumir o estágio básico, enquanto o Tucano ocupava níveis mais avançados da formação. A desativação oficial do T-23B como aeronave de instrução ocorreu em 1º de outubro de 1984, em cerimônia realizada na própria Academia da Força Aérea (AFA), encerrando um ciclo de mais de uma década de relevante contribuição à formação de pilotos militares no Brasil. Mesmo após sua retirada do serviço ativo, algumas aeronaves continuaram a desempenhar funções auxiliares. Quatro células foram adaptadas para missões de reboque de planadores, operando por longo período em apoio ao Clube de Voo a Vela da AFA, até serem substituídas por aeronaves como o Embraer EMB-202 Ipanema. Adicionalmente, cerca de 20 exemplares foram transferidos ao Departamento de Aviação Civil (DAC), que promoveu sua redistribuição a diversos aeroclubes pelo país. Muitos desses aviões permaneceram em operação por anos, prolongando, no âmbito civil, a trajetória de uma aeronave que marcou profundamente a história da formação aeronáutica brasileira.

Em Escala.
Para a representação do Aerotec T-23 Uirapuru, matrícula "FAB 1739", pertencente à Academia da Força Aérea (AFA), foi utilizado o kit em resina produzido pela GIIC Modelos, na escala 1/48. Este modelo é reconhecido por sua facilidade de construção e pelo alto nível de detalhamento.  Com o objetivo de enriquecer a representação do modelo, foi incorporada a figura de um piloto, obtida a partir de outro kit na mesma escala.  Os decais utilizados foram aqueles fornecidos no conjunto original do kit da GIIC Modelos. Produzidos pela própria fabricante, os decais apresentaram boa qualidade e adequação ao modelo, garantindo a correta representação das marcações.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura de alta visibilidade empregado nas aeronaves de instrução primaria e básica da Forca Aérea Brasileira (FAB), sendo empregado no Centro de Formação de Pilotos Militares (CFPM) e na Academia da Força Aérea (AFA). Em toda a sua carreira os T-23 Uirapuru ostentaram apenas este padrão de pintura, desde seu recebimento em 1970 até sua retirada de serviço ativo em 1984.
Bibliografia:
- Aerotec T-23 Uirapuru   Wikipédia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Neiva_T-25
- Centro de Formação de Pilotos Militares – Instituto Histórico Cultural da Aeronáutica
- Aeronaves Militares Brasileiras – Jackson Flores Junior
- História da Força Aérea Brasileira - Prof. Rudnei Dias Cunha

AF-1B Skyhawk TA-4KU

História e Desenvolvimento. 
No início da década de 1950, a aviação militar mundial vivenciava uma transformação profunda, impulsionada pela ascensão das aeronaves a jato, que rapidamente começaram a substituir os caças e aviões de ataque equipados com motores a pistão. Esse movimento, amplamente adotado pelas principais potências militares, foi igualmente priorizado pela aviação naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), que buscava modernizar suas capacidades operacionais em um contexto de Guerra Fria, marcado por tensões geopolíticas e uma acelerada corrida armamentista. A Marinha norte-americana, que operava dezenas de porta-aviões de pequeno e médio porte na época, já planejava a construção de navios aeródromos de grande porte, capazes de suportar aeronaves mais avançadas. Nesse cenário, o comando da aviação naval lançou uma concorrência em 1952 para o desenvolvimento de uma nova aeronave de ataque de pequeno porte, projetada especificamente para operações embarcadas em porta-aviões de médio e pequeno porte. Essa iniciativa refletia não apenas a necessidade de modernização, mas também o compromisso com a eficiência operacional e a adaptação às limitações logísticas dos navios existentes. Os requisitos estabelecidos para o projeto eram rigorosos, refletindo as demandas de um ambiente operacional exigente. A aeronave deveria possuir um raio de ação mínimo de 555 km, atingir uma velocidade máxima de até 805 km/h, ter um peso máximo de 13.600 kg e ser capaz de transportar até 1.908 kg de carga útil, incluindo armamentos convencionais e nucleares. Além disso, o projeto deveria priorizar baixo custo de aquisição e manutenção, com o objetivo de substituir os monomotores a pistão Douglas A-1 Skyraider, que, embora robustos e confiáveis, já não acompanhavam o ritmo dos avanços tecnológicos. Esse desafio técnico e estratégico exigia não apenas inovação, mas também uma abordagem que equilibrasse desempenho, versatilidade e economia, em um momento em que os Estados Unidos buscavam consolidar sua supremacia militar no cenário global. A resposta à concorrência veio da Douglas Aircraft Company, sob a liderança do renomado engenheiro-chefe Edward Henry Heinemann, cuja visão e expertise já haviam deixado uma marca indelével na história da aviação militar. Em janeiro de 1952, a Douglas apresentou uma proposta ambiciosa: uma aeronave compacta, projetada especificamente para operar em porta-aviões de médio e pequeno porte, com características que superavam as especificações exigidas. Batizada como A4D Skyhawk, a aeronave pesava apenas 5.440 kg — menos da metade do peso máximo estipulado —, alcançava uma velocidade máxima de 950 km/h e podia transportar uma carga útil de 2.250 kg, incluindo uma ampla gama de armamentos, desde bombas convencionais até ogivas nucleares. Sua área alar, de apenas 8,38 m², eliminava a necessidade de asas dobráveis, uma característica comum em aeronaves embarcadas, reduzindo a complexidade de sistemas hidráulicos e elétricos e, consequentemente, os custos de manutenção. Essa abordagem minimalista, combinada com um design aerodinâmico e eficiente, tornou o Skyhawk uma solução revolucionária, que aliava alto desempenho a um custo acessível. O desenvolvimento do A4D Skyhawk foi marcado por um rigoroso processo de testes. O primeiro protótipo, equipado com o motor turbojato Curtiss-Wright J65, realizou seu voo inaugural em 22 de junho de 1954, na Base da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) em Edwards, Califórnia. 

Os ensaios iniciais foram um sucesso, demonstrando a confiabilidade e a versatilidade da aeronave em condições operacionais exigentes. Com base nesses resultados, a Marinha assinou um contrato para a produção de 18 aeronaves de pré-série, designadas YA4D-1, destinadas ao desenvolvimento final do projeto. Após a conclusão dessa fase, que confirmou o desempenho excepcional do Skyhawk, foi formalizado um contrato para a aquisição de 500 unidades, ao custo unitário de US$ 860.000 — um valor significativamente inferior ao teto de US$ 1.000.000 estipulado na concorrência. Esse feito não apenas destacou a eficiência econômica do projeto, mas também reforçou a reputação da Douglas Aircraft Company como líder em inovação aeronáutica. A primeira versão de produção da aeronave, designada A-4A Skyhawk, era equipada com dois canhões Colt Mk 12 de 20 mm, com capacidade para 100 disparos por arma. A aeronave podia ser configurada com uma ampla variedade de armamentos, incluindo bombas de queda livre, foguetes não guiados, mísseis ar-terra e ar-ar, além de uma bomba termonuclear de pequeno porte. As unidades iniciais foram destinadas aos esquadrões aeronavais VA-72 e VMA-224 da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), com o objetivo de facilitar a adaptação e a conversão dos pilotos para a nova aeronave. Após a conclusão desse processo, as aeronaves foram alocadas diretamente às unidades embarcadas em porta-aviões de pequeno porte, equipando esquadrões de ataque leve. Essa integração conferiu a esses navios uma capacidade de ataque até então inexistente, uma vez que não podiam operar aeronaves de maior porte, como o McDonnell Douglas F-4 Phantom II ou o Vought F-8 Crusader. As primeiras missões dos A-4A Skyhawk concentraram-se na proteção aérea de aeronaves de guerra antissubmarino (ASW) baseadas em porta-aviões médios da classe Essex. As versões A-4A e A-4B não possuíam sistema de radar, sendo direcionadas aos alvos por meio de vetoração realizada a partir de navios da frota ou por aeronaves de alerta aéreo antecipado Grumman E-1 Tracer AEW. O A-4 Skyhawk também foi pioneiro na implementação de um sistema de reabastecimento aéreo tático, reduzindo a dependência de aviões-tanque dedicados de grande porte. Nesse sistema, uma aeronave A-4B configurada para reabastecimento, equipada com um “buddy store” — um tanque externo de combustível com um carretel de mangueira e uma caçamba de reabastecimento extensível —, era lançada sem armamento. Já as aeronaves de ataque eram configuradas com carga máxima de armamentos e recebiam combustível até o limite de peso máximo de decolagem, inferior à capacidade total do tanque. O batismo de fogo do A-4 Skyhawk ocorreu no Sudeste Asiático, onde a aeronave se destacou como o principal vetor de ataque leve da Marinha dos Estados Unidos durante os primeiros anos da Guerra do Vietnã, sendo empregada em missões contra alvos no Vietnã do Norte. Em 1º de maio de 1967, um A-4C Skyhawk do esquadrão VA-76, embarcado no porta-aviões USS Bon Homme Richard, abateu um MiG-17 da Força Aérea do Vietnã do Norte utilizando um foguete Zuni não guiado, marcando a única vitória aérea da aeronave nesse conflito.
Posteriormente, os A-4 Skyhawk começaram a ser substituídos pelo Vought A-7 Corsair II nas missões de ataque da Marinha. Contudo, a aviação do Corpo de Fuzileiros Navais (USMC) manteve a aeronave em serviço em todos os seus esquadrões de ataque. Notavelmente, um A-4E Skyhawk foi responsável pelo lançamento das últimas bombas norte-americanas na Guerra do Vietnã. O McDonnell Douglas A-4 Skyhawk passou a atrair o interesse de diversas nações, especialmente aquelas que operavam porta-aviões menores e mais antigos, remanescentes da Segunda Guerra Mundial, o que resultou na assinatura dos primeiros contratos de exportação para a Argentina e Austrália que operavam navios aeródromos britânicos. Dentre os operadores internacionais, Israel destacou-se como o maior usuário externo, processo iniciado em 1966, quando a França, até então principal fornecedora de equipamentos militares do país, impôs severas restrições à venda de material bélico. Esse cenário levou o governo israelense a intensificar sua aproximação com os Estados Unidos, culminando na implementação de um programa de assistência militar mais robusto. Nesse contexto, o McDonnell Douglas A-4 Skyhawk foi a primeira aeronave oferecida à Força Aérea de Israel (IAF), com as entregas ocorrendo logo após a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967. Localmente designadas como Ayit (termo hebraico para "Águia"), essas aeronaves apresentavam um custo de aquisição equivalente a apenas um quarto do valor de um McDonnell Douglas F-4 Phantom II, com a capacidade de transportar uma carga bélica superior. Essa relação custo-benefício levou Israel a adquirir mais de 200 unidades, consolidando o A-4 como a espinha dorsal de sua força de ataque ao solo. Durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, os A-4 Skyhawk desempenharam um papel central, executando o maior número de missões de ataque terrestre da campanha. Contudo, a alta exposição resultou em perdas significativas, com pelo menos nove aeronaves abatidas por caças MiG-21 e MiG-17 da coalizão árabe e por fogo antiaéreo. Para recompor essas perdas, os Estados Unidos implementaram, no final de 1973, a Operação Nickel Grass, que envolveu a transferência de aeronaves usadas da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) para Israel. Uma versão específica, designada A-4H, foi desenvolvida para atender às necessidades de Israel. Essa variante incorporava aviônicos mais avançados, o motor Pratt & Whitney J52-P-8A com maior empuxo e canhões DEFA de 30 mm, substituindo os Colt Mk.12 de 20 mm. Visualmente, o A-4H distinguia-se por uma "corcova" que abrigava os novos sistemas eletrônicos e por um tubo de escape estendido, modificação local destinada a aumentar a proteção contra mísseis terra-ar guiados por calor. Ao todo, 90 unidades dessa versão foram entregues e empregadas em diversos conflitos. Em 2008, foi iniciado um processo de desativação gradual dos A-4 Skyhawk, que foram substituídos nas missões de ataque pelos caças General Dynamics F-16 Fighting Falcon. Temporariamente, as aeronaves remanescentes foram destinadas a missões de treinamento, até serem definitivamente retiradas de serviço a partir de 2014, quando foram substituídas pelos aviões italianos Alenia Aermacchi M-346 Master.

Em 1965, a Argentina formalizou o primeiro contrato para a aquisição de 25 aeronaves da versão A-4B, destinadas a operações embarcadas no porta-aviões ARA Veinticinco de Mayo (ex-HMS Venerable). Essas aeronaves, provenientes de unidades ativas da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), foram revisadas pela Lockheed Service Company e redesignadas como A-4P. Em 1970, um segundo contrato garantiu a entrega de mais 25 unidades da mesma variante, consolidando o Skyhawk como um pilar da aviação militar argentina. Em 1976, um terceiro acordo ampliou a frota com 25 unidades da versão A-4C, projetadas para substituir os caças North American F-86 Sabre em missões de intercepção. Essa variante foi a primeira a incorporar mísseis ar-ar AIM-9B Sidewinder, conferindo maior capacidade de combate aéreo. Para operações navais, a Marinha Argentina adquiriu, a partir de 1971, 16 unidades da versão A-4Q, adaptadas para substituir os caças Grumman F9F Panther e F9F Cougar no ARA Veinticinco de Mayo. O design compacto e a agilidade do Skyhawk o tornavam ideal para operações em porta-aviões de pequeno porte, uma característica essencial para nações como a Argentina, que operavam navios de origem britânica com limitações de espaço. O contexto histórico da adoção do A-4 Skyhawk pela Argentina está intrinsecamente ligado às dinâmicas da Guerra Fria e às aspirações de modernização militar na América Latina. Durante as décadas de 1960 e 1970, a Argentina, sob sucessivos governos militares, buscava fortalecer suas forças armadas em um cenário de rivalidades regionais e disputas territoriais, particularmente em relação às Ilhas Malvinas, reivindicadas tanto pela Argentina quanto pelo Reino Unido. A escolha do Skyhawk refletia a necessidade de uma aeronave versátil, capaz de operar em missões de ataque, reconhecimento e combate aéreo, enquanto se adaptava às restrições logísticas de um país com recursos limitados. No entanto, a partir do final da década de 1970, os embargos impostos pelos Estados Unidos ao regime militar argentino, em resposta a violações de direitos humanos, complicaram a manutenção e a modernização da frota, exigindo dos técnicos e engenheiros argentinos um esforço extraordinário para manter as aeronaves operacionais. O papel do A-4 Skyhawk alcançou seu ápice durante o conflito das Malvinas, entre abril e junho de 1982, um dos episódios mais dramáticos da história militar argentina. Durante a guerra, 48 aeronaves das versões A-4P, A-4C e A-4Q foram empregadas em missões de ataque contra a frota britânica, enfrentando condições adversas, como longas distâncias operacionais e defesas antiaéreas avançadas. Os pilotos argentinos, muitos dos quais jovens oficiais com treinamento intensivo, demonstraram coragem e habilidade ao realizar ataques de baixa altitude contra navios britânicos. Essas missões resultaram em sucessos notáveis, incluindo o afundamento do destróier Tipo 42 HMS Coventry e das fragatas Tipo 21 HMS Antelope e HMS Ardent, além de danos significativos a outras embarcações. 
No entanto, o custo foi elevado: 22 Skyhawks foram abatidos por caças BAE Sea Harrier FRS1 da Marinha Real Britânica, Harrier GR.3 da Força Aérea Real (RAF), artilharia antiaérea e mísseis terra-ar instalados nas ilhas após o desembarque britânico. Essas perdas refletem a intensidade do conflito e os desafios enfrentados pelos pilotos argentinos, que operavam em um ambiente de superioridade aérea adversária. Após o conflito, as células remanescentes dos Skyhawks foram modernizadas por meio do programa Halcón, que buscava prolongar sua vida útil e melhorar suas capacidades operacionais. Essas aeronaves permaneceram em serviço até 1999, quando foram substituídas por 36 unidades modernizadas da versão Lockheed Martin OA/A-4AR Fightinghawk, marcando o fim de uma era para o Skyhawk na Argentina. Além da Argentina, outras nações com porta-aviões de pequeno porte de origem britânica, como Austrália e Nova Zelândia, também operaram versões do A-4 Skyhawk durante as décadas de 1970 e 1980, destacando sua relevância global como uma aeronave versátil para operações embarcadas. A variante de treinamento e conversão, inicialmente designada TA-4 Skyhawk, foi introduzida em 1956 com o objetivo de proporcionar à Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) uma aeronave dedicada à formação e conversão de pilotos para as versões monoplaces do A-4. Essa variante evoluiu a partir de um lote de pré-série do modelo A-4B, previamente adaptado para fins de treinamento. O TA-4 Skyhawk preservava todas as funcionalidades e capacidades operacionais da versão de ataque monoplace, o que contribuía significativamente para o aprimoramento do aprendizado dos futuros pilotos navais. Além de atender à demanda de conversão, a variante TA-4J Skyhawk também foi concebida para substituir os treinadores avançados embarcados Grumman TF-9J Cougar, consolidando-se como o padrão para instrução avançada na Aviação Naval. Nesse papel, permaneceu em serviço até o início da década de 1990, quando começou a ser gradualmente substituído pelo moderno jato de treinamento McDonnell Douglas T-45 Goshawk. A última variante produzida especificamente para as forças armadas dos Estados Unidos, composta pelos modelos A-4M e TA-4M Skyhawk, representou o ápice tecnológico da família A-4. Essas aeronaves foram operadas majoritariamente pelos esquadrões de ataque da aviação do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (US Marine Corps). A produção final da linha foi destinada a uma encomenda da Força Aérea do Kuwait (al-Quwwat al-Jawwiya al-Kuwaitiya), que incluiu 30 unidades monoplaces A-4KU Skyhawk e seis unidades biplaces TA-4KU. A fabricação do A-4 Skyhawk foi encerrada em fevereiro de 1979, com um total de 565 aeronaves da versão de treinamento entregues a operadores em países como Estados Unidos, Argentina, Brasil, Singapura, Austrália, Indonésia, Israel, Kuwait, Malásia e Nova Zelândia.

Emprego na Marinha do Brasil.
Em 26 de janeiro de 1965, o Decreto-Lei nº 55.627 marcou um ponto de inflexão na história da aviação naval brasileira ao proibir a Marinha de operar aeronaves de asa fixa, determinando a transferência de seus vetores e pessoal para o Ministério da Aeronáutica (MAer). Essa decisão, motivada por uma reestruturação das forças armadas durante o regime militar, limitou a Aviação Naval a helicópteros, enquanto as aeronaves de asa fixa, como os Grumman S-2E Tracker (P-16E), foram absorvidas pela Força Aérea Brasileira (FAB). A restrição permaneceu em vigor até o final da década de 1990, quando a desativação dos últimos S-2E Tracker gerou uma lacuna significativa nas capacidades de aviação embarcada do Brasil. Esse vazio operacional, aliado à modernização das marinhas de outras nações sul-americanas, como a Argentina, que operava o A-4 Skyhawk em seu porta-aviões, criou uma oportunidade para que o almirantado brasileiro buscasse a revogação da chamada “Lei da Asa Fixa”.
Os esforços para restaurar a autonomia da Aviação Naval ganharam força com a redemocratização do Brasil e a reavaliação das prioridades de defesa no final do século XX. Em 8 de abril de 1998, o Decreto Presidencial nº 2.538 foi promulgado, devolvendo à Marinha do Brasil o direito de operar aeronaves de asa fixa, com a condição de que fossem empregadas primariamente a bordo de um navio-aeródromo. Esse marco representou não apenas uma vitória institucional, mas também o reconhecimento da importância estratégica da aviação naval para a projeção de poder marítimo em um país com mais de 7.000 km de costa. No entanto, a implementação dessa decisão enfrentou desafios significativos, particularmente devido às limitações do navio-aeródromo A-11 Minas Gerais, adquirido do Reino Unido em 1956 (ex-HMS Vengeance). Projetado na década de 1940 para operar aeronaves de pequeno porte com motores a pistão, o Minas Gerais, apesar de modernizações ao longo de sua carreira, possuía uma pista de dimensões reduzidas e catapultas com capacidade limitada, inadequadas para jatos de alto desempenho. Essas restrições moldaram diretamente as escolhas da Marinha na busca por uma aeronave compatível. Inicialmente, o comando da Aviação Naval demonstrou interesse nos jatos de ataque franceses Dassault-Breguet Super Étendard, que haviam comprovado sua eficácia em operações embarcadas, incluindo o conflito das Malvinas, onde a Argentina os utilizou com sucesso. O Super Étendard era uma escolha lógica, pois sua concepção permitia operações em porta-aviões de pequeno porte, como o Minas Gerais. No entanto, a aquisição de cinco a dez unidades, novas ou usadas, revelou-se financeiramente inviável devido às limitações orçamentárias da Marinha, agravadas pelo contexto econômico brasileiro da década de 1990, marcado por crises e ajustes fiscais. Diante desse obstáculo, a Marinha voltou sua atenção para uma alternativa mais acessível: o Douglas A-4 Skyhawk, uma aeronave já consagrada por sua versatilidade e capacidade de operar em navios-aeródromos de pequeno porte, como demonstrado por nações como Argentina, Austrália e Nova Zelândia.

Para viabilizar a aquisição, a Marinha realizou consultas internacionais, buscando identificar oportunidades de compra de aeronaves usadas em bom estado de conservação. A resposta veio da The Boeing Company, que, após a aquisição da McDonnell Douglas, ofereceu um lote de aeronaves A-4KU e TA-4KU Skyhawk provenientes do governo do Kuwait. Essas aeronaves, originalmente adquiridas pelo Kuwait na década de 1970, foram devolvidas como parte do pagamento por um lote de caças multifuncionais McDonnell Douglas F/A-18 Hornet. O Skyhawk, com seu design compacto, confiabilidade operacional e baixo custo de manutenção, era uma escolha ideal para as necessidades da Marinha Brasileira, alinhando-se às restrições do A-11 Minas Gerais e às limitações financeiras do país. Negociações entre o governo brasileiro e a The Boeing Company resultaram em uma proposta de US$ 70 milhões, abrangendo a aquisição de 20 aeronaves monoplaces A-4KU Skyhawk e três biplaces TA-4KU, além de um amplo estoque de peças sobressalentes, treinamento e um pacote de armamentos, incluindo mísseis ar-ar Raytheon AIM-9L Sidewinder. As versões A-4KU e TA-4KU estavam entre as mais avançadas da família A-4, sendo derivadas do A-4M Skyhawk II, desenvolvido para missões de ataque do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC). Embora desprovidas de capacidades para ataque nuclear, lançamento de mísseis antirradiação ou uso de bombas guiadas por TV, essas aeronaves incorporavam o moderno sistema Hughes ARBS (Angle Rate Bombing System), para designação de alvos no solo, e podiam operar mísseis AGM-65 Maverick. Equipadas com o motor turbojato Pratt & Whitney J52-P408, que fornecia 11.200 libras de empuxo, as unidades haviam sido produzidas entre 1977 e 1979, com uma média de apenas 1.700 horas de voo, o que as classificava como relativamente novas e com significativa vida útil remanescente. Algumas dessas aeronaves participaram ativamente da Primeira Guerra do Golfo, operando a partir de bases na Arábia Saudita contra forças iraquianas. Uma comissão de oficiais da Marinha do Brasil foi enviada ao Kuwait para selecionar, entre a frota disponível, as 20 unidades monoplaces e três biplaces. Após a escolha, as aeronaves foram revisadas, desmontadas e preparadas para transporte marítimo, chegando ao porto do Rio de Janeiro em 5 de setembro de 1998. Paralelamente, foi determinada a criação de uma unidade especializada para operar os novos jatos de ataque, culminando, em 2 de outubro de 1998, na ativação do 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1), sediado no complexo militar de São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro. O treinamento dos pilotos foi estruturado em duas fases. A primeira etapa envolveu a participação da Força Aérea Brasileira, utilizando suas unidades de instrução. A segunda etapa foi conduzida nos Estados Unidos, na Estação Aeronaval de Kingsville (Naval Air Station Kingsville), no Texas. Nesse período, os oficiais aviadores brasileiros realizaram qualificações para pouso em porta-aviões e treinamento no emprego de sistemas de armamento, utilizando aeronaves de treinamento avançado McDonnell Douglas T-45 Goshawk.
O dia 26 de maio de 2000 marcou um momento histórico, quando um oficial aviador da Marinha Brasileira realizou o primeiro voo de um Douglas A-4KU Skyhawk, iniciando uma nova era para a Aviação Naval. Entre 11 e 13 de setembro do mesmo ano, ocorreram os primeiros toques e arremetidas no convoo do navio-aeródromo A-11 Minas Gerais, um navio projetado na década de 1940 e já próximo do fim de sua vida útil. Esses testes culminaram, entre 18 e 21 de janeiro de 2001, nos primeiros pousos e catapultagens a bordo do Minas Gerais, realizados pelo 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1), conhecido como Esquadrão Falcão. Essas operações, conduzidas com precisão e profissionalismo, simbolizaram a reconquista de uma capacidade operacional perdida por mais de três décadas, desde a proibição imposta pelo Decreto-Lei nº 55.627 de 1965. No entanto, as operações com o A-11 Minas Gerais foram breves. No final de 2001, o governo brasileiro negociou com a França a aquisição do navio-aeródromo R-99 Foch, redesignado A-12 São Paulo, com o objetivo de substituir o veterano Minas Gerais, cuja infraestrutura, projetada para aeronaves a pistão, limitava a operação de jatos modernos. Assim que o A-12 São Paulo foi declarado operacional, os AF-1 Skyhawks passaram a embarcar no novo navio, marcando um avanço significativo na capacidade de projeção de poder marítimo do Brasil. Em dezembro de 2001, dois AF-1A Skyhawk partiram da Base Aeronaval de São Pedro d’Aldeia, no Rio de Janeiro, com destino à Base Aérea de Natal, no Rio Grande do Norte, para realizar os primeiros disparos reais com mísseis AIM-9H Sidewinder. Esses mísseis, revisados e revalidados por empresas nacionais como Mectron S/A, Avibrás S/A e Imbel, demonstraram a capacidade da indústria de defesa brasileira em apoiar a modernização militar. Todos os lançamentos foram bem-sucedidos, permitindo a homologação do Esquadrão VF-1 para operações plenas, um feito que reforçou a confiança na capacidade operacional da Aviação Naval. A Marinha do Brasil planejava manter 15 aeronaves AF-1 operacionais para compor o Grupo Aéreo Embarcado, embora, em determinado momento, até 20 células estivessem em condições de voo. Contudo, ao longo dos anos, a disponibilidade operacional foi gradativamente reduzida devido às severas restrições orçamentárias impostas pelo governo federal às Forças Armadas. Essas limitações financeiras impactaram diretamente a manutenção das aeronaves e a continuidade do treinamento dos pilotos, resultando na perda de qualificações essenciais para operações embarcadas. Diante desse cenário, o comando do Esquadrão VF-1 adotou uma solução pragmática: priorizar a operação das três aeronaves biposto AF-1B Skyhawk, permitindo que dois aviadores compartilhassem as escassas horas de voo disponíveis. Curiosamente, essas aeronaves não foram empregadas em operações embarcadas no A-12 São Paulo, uma decisão justificada pela necessidade de minimizar o risco de acidentes, dado o número reduzido de unidades biposto na frota. Essa escolha reflete a cautela e o profissionalismo do comando, que buscou preservar os recursos limitados enquanto mantinha a operacionalidade do esquadrão.

Iniciado treze anos após a incorporação dos A-4 Skyhawks, em 2000, o programa de modernização conduzido pelo Comando da Força Aeronaval (ComForAerNav) reflete a dedicação de oficiais, pilotos e técnicos em assegurar a capacidade de defesa marítima do Brasil, adaptando-se às limitações impostas por um contexto de restrições orçamentárias e mudanças estratégicas. Este processo, conduzido em parceria com a Embraer S/A, não apenas revitalizou as aeronaves, mas também simbolizou a resiliência e o compromisso humano em preservar a soberania nacional em um cenário geopolítico em transformação. Em 14 de abril de 2000, a Marinha do Brasil firmou um contrato com a Embraer S/A para modernizar inicialmente 12 células dos Skyhawks, com o objetivo de estender sua vida útil e aprimorar suas capacidades operacionais. O programa incluía um retrofit estrutural abrangente e a revitalização do piloto automático, permitindo que os pilotos gerenciassem os sistemas da aeronave com maior eficiência, concentrando-se nas exigências das missões. Entre as melhorias, destacavam-se a instalação de sistemas de defesa ativa e passiva, como o Radar Warning Receiver (RWR), que capacitava a aeronave a detectar e evadir ameaças, como mísseis e caças inimigos, aumentando significativamente sua sobrevivência em cenários de combate. Além disso, foram integrados um terceiro rádio VHF com capacidade de transmissão de dados via data-link, utilizando rádios Rohde & Schwarz, um radar altímetro e o sistema TACAN (Tactical Air Navigation). Essas tecnologias permitiam concentrar informações cruciais em uma única tela multifuncional (CMFD), melhorando a consciência situacional dos pilotos, especialmente em operações embarcadas no porta-aviões ou em voos por instrumentos. O programa também incluiu a modernização dos instrumentos do motor, que passaram a emitir avisos aurais sobre os limites de funcionamento, facilitando o monitoramento em tempo real. A introdução de estações de briefing e debriefing foi outra inovação significativa, permitindo aos pilotos planejar missões com maior precisão, otimizar o uso dos equipamentos aviônicos e avaliar o desempenho pós-voo, contribuindo para o treinamento contínuo e a eficiência operacional. Essas melhorias refletiam a visão estratégica do ComForAerNav de transformar o AF-1 Skyhawk em uma plataforma mais segura, versátil e adaptada às demandas modernas da aviação naval. O primeiro protótipo modernizado, matrícula AF-1B N-1011, realizou seu voo inaugural em 17 de julho de 2013, na Base Aeronaval de São Pedro d’Aldeia, no Rio de Janeiro. Após ensaios bem-sucedidos, que confirmaram a eficácia das atualizações, o ComForAerNav determinou que as demais aeronaves fossem encaminhadas à Embraer para modernização. A primeira célula modernizada foi formalmente entregue em 26 de maio de 2014, marcando um momento de orgulho para a Marinha e para a indústria de defesa brasileira.
A modernização das aeronaves McDonnell Douglas AF-1 Skyhawk pela Marinha do Brasil, conduzida em parceria com a Embraer S/A, enfrentou desafios significativos, mas culminou em um marco notável na preservação da capacidade operacional da Aviação Naval Brasileira. A entrega da última aeronave modernizada, em 2022, consolidou um legado de inovação e dedicação, permitindo que a Aviação Naval continuasse a desempenhar um papel crucial na defesa marítima do Brasil, mesmo após a desativação do navio-aeródromo A-12 São Paulo. As restrições orçamentárias, agravadas pela crise econômica que marcou o Brasil na década de 2010, representaram um obstáculo formidável para o programa de modernização. A combinação de recursos limitados e a necessidade de priorizar outras demandas das Forças Armadas resultou em atrasos na entrega das aeronaves modernizadas. Além disso, a desativação precoce do A-12 São Paulo, em 2017, devido aos elevados custos de manutenção e à obsolescência de sua infraestrutura, exigiu uma reavaliação estratégica pelo Comando da Força Aeronaval (ComForAerNav). Inicialmente planejado para modernizar 12 aeronaves, o programa foi ajustado para contemplar apenas sete unidades: cinco monoplaces AF-1B e dois biplaces AF-1C. A última aeronave modernizada, um modelo AF-1C, foi entregue pela Embraer à Marinha do Brasil em 20 de abril de 2022, marcando a conclusão de um esforço árduo para manter a operacionalidade da frota. O programa de modernização dotou os Skyhawks de capacidades avançadas, transformando-os em vetores aéreos no estado da arte. Entre as melhorias, destacou-se a integração do radar israelense EL/M 2032, que oferecia modos de operação versáteis, incluindo ar-ar, ar-mar, ar-solo e navegação. Este sistema permitia detectar e rastrear alvos aéreos e de superfície, fornecer dados de distância para pontaria de armas e, no modo TWS (Track While Scan), localizar e rastrear automaticamente até 64 alvos simultaneamente. No modo SAR (Synthetic Aperture Radar), o radar possibilitava mapeamento terrestre em missões de reconhecimento, ampliando a capacidade da Aviação Naval para operações de inteligência, como o acompanhamento de alvos de superfície. Essas funcionalidades, combinadas com os sistemas de radar 997 Artisan do Porta-Helicópteros Multipropósito Atlântico, adquirido em 2018, fortaleceram a capacidade da Marinha para realizar missões de interceptação e ataque, garantindo maior eficiência na defesa aérea da Força Naval. Apesar da desativação do A-12 São Paulo e da reduzida frota de Skyhawks, o objetivo principal da modernização foi preservar a doutrina operacional da aviação de asa fixa, mantendo viva a expertise dos pilotos e técnicos até que os jatos de ataque pudessem ser substituídos por uma nova geração de aeronaves.

Em Escala.
Para representarmos o Douglas AF-1B Skyhawk "MB 1021" optamos pelo antigo kit da Monogram (reeditado posteriormente pela Revell) na escala 1/48. Como modelo original refere-se a versão OA-4M, a customização para o modelo TA-4KU requer modificações, principalmente na remoção de sensores e antenas de aviônica espalhados por toda a fuselagem. Empregamos decais de excelente qualidade do fabricante FCM Decal presentes no antigo set 48/044.
O esquema de cores  (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático empregado em todos  A4-KU e TA-4KU recebidos pela Marinha do Brasil, somente o AF-1A  de matricula 1001 receberia um padrão de pintura diferenciado na cor  cinza FS-26187, aplicado somente para a cerimônia  de apresentação das aeronaves no dia 2 de outubro de 1998 durante as comemorações do 82º Aniversário da Aviação Naval. Já as aeronaves modernizadas passariam a apresentar um padrão de pintura de baixa visibilidade com as marcações em low wiz.

Bibliografia :
- Revista Força Aérea Número 13   - Luciano Melo Ribeiro
- Revista Força Aérea Número 21 - Eduardo Baruffi Valente
- Asas Sobre o Mares - Aviação Naval Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha
- McDonnell Douglas A-4 Skyhawk - Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/McDonnell_Douglas_A-4_Skyhawk
- Poder Naval - www.naval.com.br , Alexandre Galante