JN-4D Curtiss Jenny

História e Desenvolvimento.
No alvorecer do século XX, a aviação configurava-se como um campo ainda incipiente, marcado por intensos esforços experimentais voltados à superação dos desafios inerentes ao voo controlado. Nesse contexto, o feito histórico dos Irmãos Wright, realizado em 17 de dezembro de 1903, em Kitty Hawk, constituiu um marco decisivo, inaugurando uma nova era e estimulando inventores e engenheiros ao redor do mundo a se dedicarem ao desenvolvimento aeronáutico. Entre os pioneiros destacamos  Glenn Hammond Curtiss. Inicialmente reconhecido por sua habilidade no desenvolvimento de motocicletas e motores de combustão interna, Curtiss demonstrou notável capacidade de adaptação ao identificar, ainda nos primórdios da aviação, o potencial transformador desse novo setor. A partir de 1904, passou a dedicar-se à concepção de motores aeronáuticos leves, voltados inicialmente à propulsão de dirigíveis. Nesse mesmo ano, seu motor do tipo V-twin, com potência de 9 HP  originalmente concebido para motocicletas  foi adaptado para impulsionar o dirigível California Arrow. O êxito desse voo representou um marco significativo, sendo considerado o primeiro dirigível bem-sucedido da América do Norte, contribuindo para consolidar a reputação de inovação  no desenvolvimento de motores leves, eficientes e confiáveis. A trajetória de Curtiss ganhou novo impulso em 1907, ao integrar a Aerial Experiment Association, iniciativa idealizada por Alexander Graham Bell. A associação desempenhou papel fundamental no avanço das pesquisas aeronáuticas, reunindo talentos e promovendo experimentações sistemáticas que contribuíram para a evolução do voo motorizado. Entre 1908 e 1910, a AEA projetou e construiu 04 aeronaves experimentais, destacando-se o modelo June Bug, que, em 4 de julho de 1908, realizou um voo público de aproximadamente 1,6 km em Hammondsport, sendo agraciado com o troféu Scientific American por representar o primeiro voo público superior a um quilômetro nos Estados Unidos. Outro projeto notável foi o Silver Dart, terceira aeronave da associação e integralmente concebida por Curtiss, que realizou seu voo inaugural em 23 de fevereiro de 1909, no Canadá. O acúmulo dessas experiências, aliado ao domínio técnico  no desenvolvimento de motores e estruturas aeronáuticas, culminou na fundação da Curtiss Aeroplane Company, em 1909, na cidade de Hammondsport. Com a expansão da demanda por aeronaves, especialmente no contexto que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, a empresa foi reorganizada em 1916 sob a denominação Curtiss Airplane and Motor Company, transferindo sua sede para Buffalo. Nesse período, a companhia destacou-se sobretudo na produção de hidroaviões e aeronaves de treinamento, áreas nas quais a confiabilidade dos motores desenvolvidos por Curtiss se mostrava particularmente valiosa. Como reconhecimento por sua contribuição pioneira à aviação, Glenn Curtiss recebeu, em 8 de junho de 1911, a licença de piloto nº 1 concedida pelo Aero Club of America  distinção atribuída em função da ordem alfabética adotada na emissão das licenças, mas que simboliza, de maneira eloquente, sua posição de destaque entre os primeiros aviadores certificados dos Estados Unidos.

Em um momento decisivo para a consolidação da aviação naval, em 14 de novembro de 1910, o piloto de testes e demonstração Eugene Ely, realizou uma decolagem histórica a partir de uma plataforma improvisada instalada no convés dianteiro do cruzador USS Birmingham (CL-2). O êxito dessa operação não apenas demonstrou a viabilidade do emprego de aeronaves embarcadas, como também inaugurou uma relação duradoura e estratégica entre a empresa  e a Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy). Ainda no mesmo ano, em dezembro foi estabelecido um centro de instrução destinado à formação de pilotos militares, iniciativa que viria a constituir um dos marcos fundadores da aviação militar no pais. Esse esforço foi acompanhado por uma série de inovações entre as quais se destacam o desenvolvimento da primeira aeronave anfíbia e a concepção de aparelhos aptos a operar a partir de navios, ampliando significativamente o espectro de emprego das aeronaves. Ao longo da primeira metade da década de 1910, a empresa intensificou a produção de aeronaves biplanas voltadas ao treinamento, atendendo à crescente demanda. Até 1913, predominavam nas forças armadas norte-americanas aeronaves do tipo pusher, caracterizadas pela hélice posicionada na parte traseira. Contudo, a recorrência de acidentes levou os militares a condenar oficialmente esse arranjo em fevereiro de 1914, passando a priorizar configurações do tipo tractor, nas quais a hélice é instalada na parte frontal, proporcionando maior segurança operacional e melhor desempenho aerodinâmico. Foi nesse contexto de transição tecnológica que buscou-se incorporar experiências europeias ao desenvolvimento de novos projetos, contratando o engenheiro britânico Benjamin Douglas Thomas, oriundo da Sopwith Aviation Company. Sob sua liderança, teve início, no final de 1913, o desenvolvimento do  Model J, concebido como um biplano robusto e adequado às exigências do treinamento avançado. O projeto incorporava soluções inovadoras para a época, como estrutura em madeira reforçada, asas de envergaduras desiguais  com a asa superior mais longa  e motor montado na seção frontal, garantindo melhor estabilidade, desempenho e visibilidade para o piloto. Paralelamente, a empresa desenvolvia o Model N, sendo ambos os modelos submetidos à avaliação em 1914. Nos testes iniciais, o Model J destacou-se de forma expressiva, alcançando a velocidade de 85 mph (aproximadamente 137 km/h), o que o tornava, à época, o avião mais rápido em operação nos Estados Unidos. Embora concebido originalmente como aeronave terrestre, o projeto demonstrou elevada versatilidade ao ser adaptado para operações como hidroavião, mediante a instalação de flutuadores. A produção do modelo, entretanto, foi limitada a apenas duas aeronaves uma para marinha e outra para o exército, com seu  primeiro  ocorrendo em 10 de maio de 1914, em Hammondsport, sendo pilotado pelo próprio Glenn Curtiss. Os resultados obtidos durante os ensaios evidenciaram desempenho superior, com o modelo superando seus concorrentes diretos em termos de velocidade, estabilidade e confiabilidade.
Em julho de 1914, a Seção de Aviação do Signal Corps do Exército (ASSC) formalizou a encomenda de protótipos adicionais. No entanto, ao avaliar os resultados obtidos com os modelos anteriores, optou-se por uma solução de síntese: a fusão das principais qualidades dos projetos Model J e N. Dessa convergência técnica emergiu o Curtiss JN  cuja designação refletia precisamente essa combinação , concebido para atender às crescentes exigências operacionais e de treinamento da aviação militar norte-americana. Paralelamente, a Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) conduziu avaliações de uma versão equipada com flutuadores, confirmando o potencial da aeronave para operações navais, especialmente no contexto de reconhecimento e instrução. O primeiro exemplar dessa nova família recebeu a designação JN-2, realizando seu voo inaugural no início de 1915. Os ensaios subsequentes, embora promissores, revelaram limitações em termos de estabilidade e controle, o que motivou uma série de refinamentos no projeto. Essas melhorias resultaram no desenvolvimento do JN-3, introduzido em 1916. Equipado com um motor mais potente e dotado de aperfeiçoamentos estruturais  como asas reforçadas e superfícies de controle mais eficientes, o modelo apresentou desempenho superior. Submetido a avaliações pelo Exército dos Estados Unidos (U.S Army), o JN-3 foi empregado operacionalmente pelo 1º Esquadrão Aero em missões de observação ao longo da fronteira com o México, durante a Expedição Pancho Villa. Nessas operações, a aeronave demonstrou qualidades notáveis de robustez, confiabilidade e facilidade de manutenção, recebendo avaliações altamente positivas de instrutores, pilotos e equipes técnicas. O reconhecimento dessas qualidades ultrapassou o âmbito norte-americano. Ainda em 1916, o Corpo Aéreo Real (RFC) manifestou interesse em adquirir uma aeronave de treinamento básico junto ao fabricante. Simultaneamente, o exército norte-americano demandava novas unidades que incorporassem avanços técnicos adicionais. A convergência dessas necessidades culminou no desenvolvimento do Curtiss JN-4, versão que representaria a maturidade do conceito. O JN-4 distinguia-se de seus predecessores por apresentar uma estrutura mais leve e refinada, além da introdução de ailerons em ambas as asas, um leme de maiores dimensões e modificações aerodinâmicas nas asas, estabilizadores e elevadores. O modelo passou a ser equipado com o motor OX-5 V8, de 90 hp, que lhe conferia velocidade máxima da ordem de 121 km/h e teto de serviço aproximado de 2.000 metros. O primeiro voo ocorreu no final de 1916, em Hammondsport, sendo conduzido por pilotos de teste da Curtiss, que avaliaram positivamente suas características de estabilidade e desempenho. Entre 1916 e 1917, a aeronave foi amplamente testada desmonstrada  elevada confiabilidade operacional e facilidade de manutenção. Essas qualidades permitiram ao JN-4 superar concorrentes diretos, como o Standard J-1, consolidando-se como a principal plataforma de instrução básica. As variantes iniciais, designadas JN-4A e JN-4B, incorporaram ajustes, incluindo modificações na envergadura das asas e na configuração do trem de pouso, visando aprimorar ainda mais a estabilidade e a segurança em voo.

A produção em larga escala do Curtiss JN-4 teve início em 1916, sendo conduzida majoritariamente pela Curtiss Airplane and Motor Company em sua unidade industrial situada em Buffalo. O expressivo volume de encomendas, oriundo tanto das forças armadas dos Estados Unidos quanto do Reino Unido, levou à expansão da fabricação para o Canadá, onde o modelo passou a ser produzido localmente sob a designação JN-4 “Canuck”, visando atender às necessidades operacionais daquele país e das forças britânicas em território norte-americano. Até o término da Primeira Guerra Mundial, em 1918, foram produzidas aproximadamente 6.813 aeronaves da família JN-4, incluindo as variantes JN-4A, JN-4B, JN-4C, JN-4D e JN-4H. A elevada demanda levou ainda à participação de outras empresas na produção sob licença, como a Springfield Aircraft Corporation, ampliando significativamente a capacidade industrial voltada à formação de pilotos militares. A entrada dos Estados Unidos no conflito, em 1917, foi determinante para o aumento da produção, com o JN-4 sendo amplamente empregado em campos de treinamento tanto em seu país de origem quanto no Canadá. Neste último, a aeronave também serviu ao Corpo Aéreo Real (RFC), reforçando a cooperação entre as nações aliadas no esforço de formação de aviadores. Nesse contexto, o  Curtiss JN-4 consolidou-se como provavelmente o mais emblemático avião de treinamento norte-americano da guerra, sendo responsável pela formação de mais de 95% dos cadetes da militares norte-americanos durante o período. Paralelamente, os britânicos empregaram tanto o JN-4 quanto sua variante canadense em conjunto com o Avro 504, especialmente em centros de instrução localizados na província de Ontário, consolidando um sistema integrado de treinamento de pilotos no continente norte-americano. Embora concebido primordialmente como aeronave de instrução, o Curtiss JN-4 destacou-se por sua notável versatilidade. Sua estrutura robusta e de fácil modificação permitiu adaptações para diferentes perfis de missão. Entre essas, destaca-se a substituição do trem de pouso convencional por esquis, solução amplamente adotada nas versões canadenses, possibilitando operações contínuas ao longo de todo o ano, inclusive em condições climáticas rigorosas. Outra aplicação inovadora foi sua adaptação para missões de evacuação aeromédica, tornando-se uma das primeiras aeronaves militares a desempenhar tal função. Mediante a instalação de uma maca na seção posterior ao assento do piloto, o Curtiss JN-4 passou a ser empregado no resgate de militares feridos, contribuindo para salvar numerosas vidas nos cenários operacionais da guerra. Adicionalmente, algumas unidades foram experimentalmente equipadas com suportes para pequenas bombas sob a fuselagem ou com metralhadoras destinadas à autodefesa. Contudo, não há registros consistentes de emprego dessas configurações em missões de combate, permanecendo o  Curtiss JN-4 essencialmente como uma plataforma de treinamento e apoio, cujo legado esteve profundamente associado à formação de gerações de aviadores durante um dos períodos mais críticos da história da aviação.
Com o término da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, o Curtiss JN-4 “Jenny” permaneceu em serviço militar em diversos países, incluindo Estados Unidos, Canadá e outras nações aliadas, sendo empregado sobretudo em funções de treinamento, reconhecimento e apoio utilitário. Sua reconhecida robustez estrutural e simplicidade operacional favoreceram uma transição eficiente para o período pós-conflito, quando um grande número de aeronaves excedentes foi disponibilizado tanto para uso civil quanto militar. Nesse contexto, milhares de unidades foram comercializadas como excedentes a preços extremamente reduzidos  em alguns casos, por valores tão baixos quanto US$ 50 dólares , fator que desempenhou papel decisivo na expansão da aviação civil. Essas aeronaves passaram a ser amplamente utilizadas em exibições aéreas itinerantes, conhecidas como barnstorming, além de integrarem serviços pioneiros de transporte de correspondência, como o  Correio Aéreo dos Estados Unidos (U.S. Air Mail Service), estabelecido em 1918. Tal disseminação contribuiu significativamente para a popularização do voo e para o surgimento das primeiras iniciativas comerciais no setor aéreo. Dentre os episódios marcantes associados ao emprego do JN-4 no pós-guerra, destaca-se sua participação em uma das primeiras experiências bem-sucedidas de bombardeio em mergulho. Esse feito ocorreu no início de 1919, durante a intervenção militar dos Estados Unidos no Haiti. Na ocasião, o tenente Lawson H. Sanderson, pertencente ao Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC), conduziu uma missão contra forças insurgentes locais. Ao identificar um alvo em solo, Sanderson adotou uma abordagem inovadora: realizar um mergulho acentuado em direção ao objetivo antes do lançamento das bombas, aumentando consideravelmente a precisão do ataque. Essa ação não apenas evidenciou o potencial tático do emprego aéreo em apoio direto às forças terrestres, como também contribuiu para o desenvolvimento, ao longo da década de 1920, das doutrinas de bombardeio em mergulho  técnica que viria a desempenhar papel relevante em conflitos posteriores. Entretanto, o rápido avanço da tecnologia aeronáutica no pós-guerra logo relegou o Curtiss JN-4 à condição de obsolescência relativa. Gradualmente, o modelo passou a ser empregado em funções secundárias nas forças armadas norte-americanas, com muitas unidades sendo retiradas do serviço ativo e armazenadas. Ainda assim, o elevado número de aeronaves disponíveis em boas condições possibilitou sua transferência, em condições economicamente vantajosas, para diversos países, entre os quais Brasil, Argentina, Cuba e a China Nacionalista, contribuindo para o desenvolvimento inicial de suas respectivas aviações militares. Ao todo, foram produzidas 6.813 aeronaves da família JN-4 até o final da década, número que reflete não apenas a relevância industrial do programa, mas também o impacto duradouro desse modelo na consolidação da aviação militar e civil em escala global.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
Assim como o brasileiro Alberto Santos Dumont é amplamente reconhecido por seu voo histórico de 1906 com o 14-Bis  considerado o primeiro aparelho mais pesado que o ar a realizar um voo público e documentado, a Marinha do Brasil exerceu papel decisivo na introdução e consolidação da aviação militar no país. Apenas cinco anos após esse feito, a Marinha brasileira já demonstrava notável visão estratégica ao identificar o potencial das aeronaves como instrumento de poder militar. Em 1911, dois acontecimentos de grande relevância marcaram o início dessa trajetória. O primeiro deles ocorreu em 29 de abril, quando o tenente Jorge Henrique Moller tornou-se o primeiro militar brasileiro a obter o brevet de piloto, conquistado na França. Sua qualificação representou um marco pioneiro na formação de aviadores militares no Brasil, abrindo caminho para o desenvolvimento de uma doutrina aérea ainda incipiente. Poucos meses depois, em 14 de outubro de 1911, foi fundado o Aeroclube Brasileiro, entidade que desempenhou papel fundamental na difusão da cultura aeronáutica no país. O aeroclube tornou-se um importante centro de convergência para entusiastas, técnicos e futuros pilotos  civis e militares, contribuindo diretamente para a criação de uma base humana e institucional necessária ao desenvolvimento da aviação nacional. Essas iniciativas evidenciam o comprometimento precoce da Marinha em explorar as possibilidades da aviação em um momento em que a tecnologia ainda se encontrava em estágio embrionário e suas aplicações militares estavam em processo de definição. Tal postura visionária culminaria, alguns anos mais tarde, na criação formal da aviação naval brasileira. O marco institucional desse processo ocorreu em 23 de agosto de 1916, quando o então presidente Wenceslau Braz sancionou o Decreto nº 12.155, estabelecendo a Escola de Aviação Naval. Esta instituição tornou-se o verdadeiro berço da aviação militar brasileira e um símbolo do pioneirismo da Marinha do Brasil no campo aeronáutico. Inicialmente instalada no antigo Arsenal de Marinha, na cidade do Rio de Janeiro, a escola foi posteriormente transferida para a Ilha das Enxadas, onde suas atividades puderam ser ampliadas e estruturadas de maneira mais eficiente. Sua missão ia além da simples formação de pilotos: buscava também capacitar técnicos especializados e estabelecer as bases para o emprego estratégico de aeronaves em operações navais e de defesa. Nesse período inicial, a Escola de Aviação Naval protagonizou importantes avanços operacionais, destacando-se a realização dos primeiros voos de longa distância  conhecidos como raids  no Brasil. Entre esses, figuram as ligações entre o Rio de Janeiro e Angra dos Reis, bem como entre o Rio de Janeiro e Campos dos Goytacazes. Tais missões demonstraram, de forma concreta, a viabilidade do emprego de aeronaves na conexão entre centros urbanos e no reforço da presença militar, antecipando aplicações que se tornariam essenciais nas décadas seguintes. Dessa forma, a atuação pioneira da Marinha do Brasil não apenas acompanhou os avanços internacionais da aviação, mas também contribuiu decisivamente para a construção de uma capacidade aérea nacional.

Coube ainda à Escola de Aviação Naval desempenhar um papel pioneiro em iniciativas de caráter logístico e simbólico no país. Entre essas realizações, destacam-se o transporte da primeira mala aérea civil e da primeira mala aérea militar no Brasil, marcos que evidenciaram, desde cedo, o potencial das aeronaves como meio eficiente de comunicação e integração territorial. A instituição também protagonizou eventos de grande relevância histórica, como o primeiro voo do pioneiro Alberto Santos Dumont na condição de passageiro em uma aeronave militar brasileira, bem como o primeiro embarque de um chefe de Estado em voo militar, protagonizado pelo presidente Wenceslau Braz. Tais episódios reforçam não apenas o simbolismo da aviação nascente, mas também sua crescente aceitação institucional e política. No contexto internacional, a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial foi formalizada em 26 de outubro de 1917, quando o governo brasileiro declarou guerra ao Alemanha, alinhando-se à Tríplice Entente, composta por França, Reino Unido e Rússia. A atuação brasileira no conflito concentrou-se, sobretudo, na criação da Missão Aché, oficialmente denominada Comissão Brasileira de Estudos, Operação de Guerra e Compra de Material. Deslocada para a França em janeiro de 1918, a missão foi integrada ao Exército Francês, sob o comando do marechal Ferdinand Foch. Os oficiais brasileiros foram distribuídos em diversas unidades, participando ativamente das operações finais do conflito, com destaque para a Ofensiva dos Cem Dias (agosto a novembro de 1918), que culminaria na derrota das potências centrais. Nesse conjunto de atividades, merece destaque a atuação de aviadores navais brasileiros, que participaram de missões reais de patrulha durante o conflito, integrando o 10º Grupo de Operações de Guerra do Corpo Aéreo Real (RFC). Essa experiência proporcionou aos militares brasileiros contato direto com doutrinas, técnicas e tecnologias de ponta, contribuindo significativamente para a formação de uma mentalidade aeronáutica moderna no país. Apesar desse pioneirismo, os primeiros anos da aviação naval brasileira foram marcados por limitações estruturais. A Marinha do Brasil enfrentava uma crônica escassez de recursos financeiros e materiais, o que restringia a expansão de suas atividades e a modernização de seus meios. Essa realidade contrastava com o avanço acelerado da aviação em outras nações, evidenciando a necessidade de investimentos mais consistentes. Paralelamente, iniciativas no âmbito estadual também contribuíam para o desenvolvimento da aviação no Brasil. A Força Pública Paulista, por exemplo, adquiriu nos Estados Unidos cinco aeronaves usadas do modelo Curtiss JN-4D Jenny, destinadas à sua Esquadrilha de Aviação, criada em 1919. Essas aeronaves receberam matrículas entre os números 101 e 104, embora existam poucos registros detalhados sobre sua operação. Buscando reverter as limitações existentes, o Estado-Maior da Armada lançou, em 1921, o Projeto da Organização Aérea do Litoral  uma iniciativa ambiciosa destinada a estruturar a aviação naval com unidades operacionais modernas e devidamente equipadas. Esse projeto foi acompanhado pela alocação de recursos financeiros mais consistentes, permitindo a aquisição de aeronaves específicas para missões de caça, patrulha e reconhecimento..
Assim o Ministério da Marinha passou a conduzir, no exterior, uma política de aquisições baseada em “compras de oportunidade”, buscando identificar modelos disponíveis que atendessem, de forma rápida e economicamente viável, às necessidades emergentes da aviação naval brasileira. Tal estratégia refletia tanto as restrições orçamentárias quanto a urgência em modernizar os meios aéreos, inserindo o Brasil em um cenário internacional cada vez mais marcado pela importância do poder aéreo Nesse contexto de reorganização e expansão, um dos principais objetivos consistia em ampliar a disponibilidade de aeronaves de instrução para a Escola de Aviação Naval (EAvN). O momento mostrava-se particularmente favorável, uma vez que o mercado internacional encontrava-se saturado por milhares de aeronaves de treinamento desativadas pelas forças armadas aliadas ao término da Primeira Guerra Mundial. Nesse cenário, o serviço de aviação naval norte-americana passava por um processo de modernização, com a introdução de novos treinadores, como o Consolidated PT-3. Como consequência, um número significativo de aeronaves Curtiss JN-4 Jenny foi gradualmente retirado de serviço. Essas aeronaves, além de apresentarem custos extremamente acessíveis, ainda dispunham de considerável vida útil remanescente, configurando-se como uma autêntica “compra de oportunidade”. Após negociações governamentais, foi acertada a aquisição de 04 exemplares da versão Curtiss JN-4D Jenny  considerada a mais bem-sucedida e tecnicamente aprimorada da família, com um total de 4.175 unidades produzidas. As aeronaves foram selecionadas em bases norte-americanas, incluindo instalações no estado de Maryland, com base em suas boas condições estruturais. Posteriormente, foram desmontadas e transportadas ao Brasil por via marítima. Os quatro exemplares chegaram ao Rio de Janeiro em junho de 1926, ainda ostentando o esquema de pintura e as marcações originais da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) . Após o desembarque, foram trasladados por via terrestre até o Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro, onde passaram por processo de remontagem e adaptação. Inicialmente matriculadas como 01 a 04, as aeronaves receberam posteriormente os números de série nacionais 421 a 424, além das insígnias da Marinha do Brasil, incluindo a adoção dos cocares brasileiros. O primeiro voo de um Curtiss JN-4D em serviço brasileiro ocorreu em 7 de agosto de 1926. Na sequência, as aeronaves foram oficialmente incorporadas à frota da Escola de Aviação Naval, passando a operar no âmbito da Flotilha de Instrução da Esquadra Terrestre, ao lado de modelos como o Avro 504K e o Curtiss N-9H. Entretanto, apesar de representarem um incremento formal na dotação de aeronaves disponíveis, os quatro Curtiss JN-4D tiveram emprego operacional bastante limitado ao longo do ciclo de instrução de 1926. As razões para essa reduzida utilização não estão claramente documentadas nas fontes disponíveis, podendo estar associadas a fatores técnicos, logísticos ou mesmo à necessidade de formação de pessoal qualificado para sua operação e manutenção. Ainda assim, sua aquisição ilustra de maneira clara os esforços dl em modernizar seus meios aéreos.

A limitada disponibilidade operacional dessas aeronaves não as isentou da ocorrência de incidentes. Ainda em 1926, no período compreendido entre os meses de setembro e novembro, dois acidentes de pequena monta afetaram diretamente a prontidão da frota, reduzindo-a à metade. Como medida paliativa, duas células foram parcialmente desmontadas, com o objetivo de fornecer componentes para a recuperação das demais em condições de voo. Paralelamente, no mesmo ano, a Força Pública Paulista ampliou sua capacidade aérea ao adquirir mais oito exemplares da versão Curtiss JN-4D Jenny. Essas aeronaves foram desembarcadas no Porto de Santos e posteriormente transportadas até o Campo de Marte, onde foram remontadas e incorporadas à Esquadrilha de Aviação daquela corporação. Receberam as matrículas de nº 107 a nº 114, sendo que algumas passaram a ostentar nomes próprios, como Tenente Chantre, Borba Gato, Paes Leme, Raposo II e Manoel Preto, em consonância com tradições de batismo aeronáutico então em voga. No âmbito da Marinha do Brasil, entretanto, o ano de 1927 não apresentou evolução significativa no emprego dos Curtiss JN-4D. Integradas à 3ª Esquadrilha da Flotilha de Instrução da Esquadra Terrestre, essas aeronaves registravam, no primeiro semestre, um número bastante reduzido de missões  raramente ultrapassando quinze surtidas mensais. Ao longo de todo o ano, contabilizaram apenas 319 voos de instrução, índice modesto que pode ser parcialmente explicado pelo reduzido número de alunos matriculados na Escola de Aviação Naval (EAvN) naquele período. Adicionalmente, há indícios de que, embora as aeronaves ainda dispusessem de vida útil remanescente em seus registros técnicos, começaram a apresentar problemas de natureza estrutural. Esse fator, possivelmente agravado pelas condições locais de operação e manutenção, contribuiu para a queda nos índices de disponibilidade. A situação agravou-se em agosto de 1927, quando um acidente resultou na perda total de uma das células, reduzindo a frota a apenas três aeronaves. Durante os primeiros meses de 1928, os Curtiss JN-4D remanescentes continuaram a operar de forma intermitente, realizando um número limitado de voos de adestramento em apoio à Flotilha de Instrução. Essa sobrevida operacional foi viabilizada, em grande medida, pela utilização de peças de reposição oriundas de estoques remanescentes dos Curtiss N-9H, empregados pela aviação naval brasileira entre 1919 e 1926. No início do segundo semestre de 1928, restavam apenas duas aeronaves em condições de voo, quadro que refletia o desgaste progressivo das células, os acidentes acumulados e a crescente escassez de peças sobressalentes. Simultaneamente, novas aeronaves de treinamento de origem britânica começavam a ser incorporadas à aviação naval, oferecendo melhores condições operacionais e tecnológicas. Diante desse cenário, o comando da Marinha optou pela desativação definitiva dos últimos Curtiss JN-4D ao final de 1928, encerrando uma breve e pouco expressiva trajetória operacional no Brasil. Apesar de seu reduzido impacto na instrução de pilotos navais, essas aeronaves representam um capítulo relevante na história da aviação militar brasileira.
Em contraste com a limitada trajetória operacional dos exemplares empregados pela Marinha do Brasil, os Curtiss JN-4D Jenny operados pela Força Pública Paulista (FPP) tiveram um emprego significativamente mais amplo e relevante ao longo de sua vida útil. Baseadas no Campo de Marte  que viria a consolidar-se como o principal aeródromo da região, atualmente denominado Aeroporto de São Paulo/Campo de Marte, essas aeronaves foram operadas pela Esquadrilha de Aviação da corporação, subordinada ao Grupo Misto de Aviação. Nesse contexto, desempenharam três funções principais: formação de pilotos, reconhecimento aéreo e apoio tático em operações internas. Já em 1926, durante os desdobramentos da chamada Revolução de 1926 no Brasil, particularmente nas ações envolvendo a Divisão Revolucionária em Goiás, os JN-4D foram empregados em missões de reconhecimento e lançamento de panfletos de propaganda, apoiando operações conjuntas da Força Pública Paulista e do governo federal contra forças insurgentes. Em 1930, no contexto do movimento que culminou na deposição do presidente Washington Luís e na ascensão de Getúlio Vargas ao poder, essas aeronaves voltaram a ser utilizadas, sobretudo em missões de patrulha aérea e transporte de mensagens, refletindo o papel crescente da aviação como elemento de ligação e vigilância em cenários de instabilidade política. Entretanto, foi durante a Revolução Constitucionalista de 1932 que os Curtiss JN-4D atingiram seu emprego mais significativo. Nesse conflito, no qual São Paulo insurgiu-se contra o governo federal, as aeronaves desempenharam múltiplas funções, incluindo reconhecimento, bombardeio leve  mediante adaptações para o transporte de pequenas cargas explosivas  e apoio logístico. Apesar de sua já evidente obsolescência, contribuíram em diversas operações, como nas tentativas de romper o bloqueio naval imposto ao Porto de Santos, atuando em conjunto com aeronaves mais modernas, como o Curtiss A-3B D-12 Falcon, adquirido especificamente para o conflito. Com o término das hostilidades em 1932, as aeronaves remanescentes da Força Pública Paulista (FPP) foram gradualmente desativadas, em razão do desgaste acumulado e da rápida evolução tecnológica da aviação. Algumas unidades, entretanto, tiveram seu destino prolongado no meio civil, sendo transferidas a operadores privados. Dentre esses casos, destaca-se a cessão de uma aeronave à pioneira Anésia Pinheiro Machado, a segunda mulher brasileira a obter o brevê de piloto, em 1928, e a primeira a realizar um voo solo no país. Utilizando o Curtiss JN-4D em demonstrações aéreas e atividades de instrução, Anésia contribuiu de forma significativa para a difusão e popularização da aviação civil no Brasil. Dessa forma, o Curtiss JN-4D “Jenny”, no âmbito da Força Pública Paulista, consolidou-se como um marco na história da aviação militar brasileira. Sua atuação em conflitos internos ao longo das décadas de 1920 e 1930 evidencia não apenas sua versatilidade operacional, mas também o papel pioneiro desempenhado por essas aeronaves na introdução do emprego sistemático do poder aéreo em cenários de segurança interna, apesar de suas limitações técnicas inerentes a uma tecnologia em rápida evolução.

Em Escala.
Para representarmos o Curtiss JN-4D " 423 " da Aviação Naval da Marinha do Brasil, empregamos a única opção disponível em kit na escala 1/48 para este modelo, pertencente a Lindberg, fabricante que, apesar de ter fama de produtos de baixo nível de qualidade e detalhamento, conseguiu nos surpreender positivamente. Não há necessidade de se implementar quaisquer alterações para representar a versão empregada pela aviação naval. Fizemos uso de decais oriundos diversos sets da FCM Decais para finalizarmos o modelo.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregados nas aeronaves de treinamento da marinha americana com a adoção dos cocares e marcações padrão da Aviação Naval da Marinha do Brasil, esquema este que perdurou durante toda a carreira do modelo no Brasil. Já as aeronaves empregadas pela Força Pública Paulista (FPP), fizeram uso de pelo menos três esquemas distintos de pintura e identificação.

Bibliografia :
- Curtiss JN-4 Jenny – Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/Curtiss_JN-4
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 - 2015 – Jackson Flores Jr
- Aviação Militar Brasileira 1916 - 1984 - Francisco C. Pereira Netto
- Curtiss JN-4D Jenny no Brasil, por Aparecido Camazano Alamino – Revista Asas

HM-2 Sikorsky Black Hawk S-70A

História e Desenvolvimento
Igor Ivanovich Sikorsky, nascido em 25 de maio de 1889 em Kiev, então parte do Império Russo (atual Ucrânia), emergiu como uma figura pivotal na história da aviação, moldada por uma era de turbulência e inovação. Filho de um professor de psicologia, Sikorsky desenvolveu fascínio precoce pelo voo, inspirado por leituras de Leonardo da Vinci e Júlio Verne. Aos 20 anos, em 1909, construiu seus primeiros helicópteros experimentais na Rússia, mas enfrentou limitações técnicas que o levaram a focar em aviões de asa fixa. Seu marco veio durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), com o design do Ilya Muromets – um bombardeiro quadrimotor gigante, o maior avião do mundo na época, capaz de carregar até 1.000 kg de bombas e voar por horas sobre as linhas inimigas. Em março de 1919, aos 30 anos, ele emigrou para os Estados Unidos via França, chegando a Nova York com apenas US$ 600 no bolso e um sonho inabalável. Como muitos imigrantes da era – uma onda que incluía cientistas fugindo do bolchevismo –, Sikorsky lecionou matemática para compatriotas russos enquanto sonhava em reviver sua carreira. Em 23 de maio de 1923, ele fundou a Sikorsky Aero Engineering Corporation nas proximidades do aeródromo de Roosevelt Field, em Nova York.  A nova companhia foi estabelecida com o objetivo de projetar e produzir aeronaves civis voltadas para treinamento e transporte leve, atendendo à crescente demanda por aviação comercial e recreativa nos Estados Unidos durante os anos 1920. Em 1925, a empresa foi renomeada para Sikorsky Manufacturing Company, três anos mais tarde, em 1928, a companhia transferiu suas instalações industriais para Stratford, no estado de Connecticut. Em 1929, a Sikorsky Manufacturing Company passou a integrar a United Aircraft and Transport Corporation (atual RTX Corporation, anteriormente United Technologies Corporation), um conglomerado industrial que reunia diversas empresas do setor aeronáutico. No final da década de 1930, o mercado de aeronaves anfíbias e multimotores enfrentou uma queda significativa na demanda, impactado por mudanças nas preferências do mercado e pela instabilidade econômica global. Diante desse cenário, a diretoria da United Aircraft optou por fundir a divisão de projetos e fabricação da Sikorsky Manufacturing Company com a Vought Aircraft Company, criando a Vought-Sikorsky Division. Essa reestruturação permitiu a Igor Sikorsky redirecionar seus esforços para um campo até então pouco explorado: o desenvolvimento de aeronaves de asas rotativas. Fascinado pela ideia de voo vertical desde sua juventude, Sikorsky dedicou-se ao projeto de um helicóptero funcional, culminando no Vought-Sikorsky VS-300. O VS-300 realizou seu primeiro voo em 13 de maio de 1940. Pilotado pelo próprio Sikorsky, o helicóptero demonstrou a viabilidade de uma aeronave de rotor único, capaz de decolagem e pouso verticais. Após uma série de testes e modificações, o projeto evoluiu para o VS-316, também conhecido como XR-4. Em 14 de janeiro de 1942, o XR-4 realizou seu primeiro voo bem-sucedido, e, em maio do mesmo ano, foi aprovado pela Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). O sucesso do Sikorsky R-4 durante a Segunda Guerra Mundial consolidara o helicóptero como uma ferramenta essencial em operações militares, especialmente em missões de busca e salvamento.  

Contudo, a empresa vislumbrou oportunidades ainda maiores, não apenas no âmbito militar, mas também no mercado civil, onde os helicópteros poderiam desempenhar papéis cruciais em transporte, evacuação aeromédica e outras aplicações comerciais. Essa visão estratégica levou a Sikorsky Manufacturing Company, a investir recursos próprios no desenvolvimento de um helicóptero de médio porte, projetado para atender às demandas emergentes de ambos os setores, nascendo assim os modelos S-55, H-19, e H-34 , que galgariam grande sucesso nos mercados militar e civil. A seguir o conflito do Vietnã emergiu como um laboratório vivo para a aviação rotativa, transformando helicópteros de meros veículos utilitários em pilares da mobilidade tática. Foi nesse cenário, entre 1965 e 1973, que o Bell UH-1 Iroquois alcançou seu apogeu comercial e operacional. Mais de 3.000 unidades foram empregadas no conflito, equipando não apenas o Exército dos Estados Unidos (US Army), mas também a Força Aérea, a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais, em uma escala que superava qualquer operação anterior e destacava o gênio do engenheiro Arthur Young, criador do sistema de rotor estabilizador que tornava o Huey manobrável em ambientes hostis como as selvas densas e montanhas do Sudeste Asiático. Essas aeronaves, impulsionadas pelo motor turboeixo Lycoming T53 — uma inovação que substituía os pistões radiais por turbinas mais potentes e leves, permitindo velocidades de até 200 km/h e cargas úteis de até 1.800 kg —, foram empregadas em uma multiplicidade de papéis que redefiniram a guerra moderna. Apesar de seu desempenho exemplar, o Comando do Exército Americano identificou limitações críticas em meados da guerra. Os Hueys, careciam de proteção balística adequada, espaço interno para tropas em armaduras pesadas e resistência a danos que permitissem operações prolongadas em teatros de alta intensidade.  Assim, no final da década de 1960, em meio ao pós-Tet Offensive de 1968 — um turning point que expôs a necessidade de equipamentos mais resilientes —, estudos conjuntos entre o Pentágono e fabricantes foram iniciados para conceber uma sucessora. Esses esforços culminaram no programa Utility Tactical Transport Aircraft System (UTTAS), lançado formalmente em 1972 sob a égide do Departamento de Defesa dos EUA, com um orçamento inicial de bilhões de dólares e requisitos rigorosos: uma aeronave de porte médio, bimotora para redundância (inspirada nas falhas de motores únicos no Vietnã), capacidade para 11 soldados equipados, velocidade de cruzeiro superior a 250 km/h, blindagem contra armas leves e mísseis, e sistemas aviônicos avançados para voo noturno e em condições adversas. Entre os principais requisitos exigidos pelo programa UTTAS (Utility Tatical Transport Aircraft System) estava aquele que apregoava uma aeronave com dois motores turbo eixo, permitindo assim uma maior capacidade de sobrevivência da célula e do grupo motriz em cenários de conflagração, podendo suportar danos em combate, levando assim a necessidade de criação de um novo motor turbo eixo para atender a estas demandas, processo este  que culminaria no exitoso projeto do conjunto General Electric T700.   

Os demais parâmetros deste programa como confiabilidade operacional, sobrevivência em ambientes de combate e custos de ciclo de vida reduzidos, iriam resultar em recursos inovadores para aeronaves de asas rotativas até então. Entre estes os motores com desempenho otimizado para operação e altas temperaturas ou altas altitudes, design modular de conjuntos de componentes críticos, caixas de transmissão secas; subsistemas redundantes (hidráulicos, elétricos e de vôo) com alta tolerância a impactos de balística; blindagem para tripulantes e tropas, entre outros melhoramentos incorporados no programa da futura aeronave. Ainda que este helicóptero apresentasse dimensões superiores aos Bell UH-1D/H, deveria ainda possibilitar ser transportado a bordo de um Lockheed C-130 Hércules. Este processo capitaneado então pelo comando do Exército Americano (US Army), teve o início oficial em janeiro de 1972 com o lançamento do RFP (Request for Proposal – Pedido de Proposta). Diversas empresas nacionais manifestariam interesse no programa, que previa a aquisição de um suntuoso lote de células a curto e médio prazo. Análises detalhadas destas propostas levariam a definição de dois candidatos finalistas, sendo estes representados pelo Sikorsky YUH-60A e Boeing-Vertol YUH-61A. Estas duas empresas receberiam um contrato de financiamento para a construção de protótipos de avaliação, com primeiro voo do modelo Sikorsky Aircraft ocorrendo em 17 de outubro de 1974, sendo seguido um mês depois pelo seu concorrente. Logo na sequência mais dois protótipos de cada modelo seriam produzidos a fim de serem submetidos a um extenso programa de avaliação e testes em voo. Este programa seria dividido em um estágio preliminar com início previsto em novembro de 1975, e uma fase final programada para o mês de março do ano seguinte. Em uma detalhada análise comparativa a aeronave da Sikorsky Aircraft venceu seu concorrente o Boeing-Vertol YUH-61A, em quase todos os parâmetros exigidos. Desta maneira o Sikorsky YUH-60A seria declarado como vencedor do programa UTTAS (Utility Tatical Transport Aircraft System), recebendo assim em dezembro de 1976 um primeiro contrato de produção de sessenta aeronaves para o Exército Americano (US Army). As primeiras entregas as unidades de treinamento e conversão do agora designado Sikorsky UH-60A Black Hawk (nomeado em homenagem ao líder de guerra nativo-americano), ocorreram a partir de outubro de 1978, com o modelo sendo classificado como operacional a partir de junho do ano seguinte. Sua missão operacional era o de substituir o Bell UH-1H como aeronave de transporte tático de tropas, podendo nesta configuração transportar até onze soldados totalmente equipados.  Seu batismo de fogo ocorreria em outubro de 1983 durante a Operação Urgent Fury, a invasão de Granada, em uma madrugada chuvosa, sob comando do Brigadeiro-General Hugh R. Overton, helicópteros UH-60A transportaram a 1ª Brigada de Paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada de Point Salines para o sul da ilha, inserindo 500 soldados em zonas quentes próximas a Pearls Airport, onde resistiam forças do New Jewel Movement.

Embora Granada tenha sido o batismo americano, o Black Hawk logo se tornou onipresente: na Invasão de Panama (1989, Operação Just Cause), ele inseriu Rangers em Points Salinas sob fogo panamenês; na Guerra do Golfo (1991), sofreu as primeiras perdas em missões de CSAR (Combat Search and Rescue), com dois abatidos em 27 de fevereiro; e na Batalha de Mogadíscio (1993), imortalizado no filme Black Hawk Down, onde dois foram derrubados por milicianos somalis, custando 18 vidas americanas mas destacando sua tenacidade. Para Israel, o batismo veio em abril de 1996, durante a Operação Grapes of Wrath contra o Hezbollah no sul do Líbano, com UH-60A "Yanshuf" realizando reconhecimentos sob foguetes Katyusha. A variante UH-60C emergiu no final dos anos 1980, como uma modificação improvisada para missões de posto de comando aerotransportado (Airborne Command Post). Diferente do UH-60A padrão (transporte de tropas) ou do EH-60 Quick Fix (guerra eletrônica), o UH-60C foi adaptado pela Força Aérea e pelo Exército dos Estados Unidos para coordenar operações em tempo real, equipado com rádios avançados, consoles de comunicação e sistemas de dados para generais em voo. Em 1980, trinta células seriam convertidas para o emprego em “Operações Especiais”, sendo equipados aviônicos adicionais, sistemas de visão e navegação noturna, sistema de visão infravermelha (FLIR), tanques de combustível suplementares e armamento defensivos e ofensivo na forma de duas metralhadoras rotativas do tipo Minugun M-134 de 7,62 mm. Especificamente, UH-60C do 101º Comando de Aviação e do VII Corpo foram destacados para o teatro do Golfo Pérsico em agosto de 1990. Seu debut em zona de combate veio durante fases iniciais de Desert Shield, coordenando logística em desertos sauditas. Em 1988 seria a vez do desenvolvimento do MH-60K Black Hawk, primeira versão equipada com sonda para reabastecimento em voo, radar de terreno AN/APQ-174B, passando a ser equipado com os motores T700-GE-701C. O aumento no peso bruto da aeronave nestas versões especializadas levaria o comando do Exército dos Estados Unidos (US Army) a solicitar melhorias no projeto para a manutenção dos parâmetros de desempenho original. Esta demanda levaria a atualização dos motores T700-GE-701C, adoção de uma caixa de câmbio mais robusta (ambos desenvolvidos para o SH-60B Seahawk). Esta alteração no grupo motopropulsor permitiu aumentar sua capacidade de elevação externa passando para 450 kg e 4.100 kg, um fator importante foi a incorporação de um novo sistema de controle de vôo automático (AFCS) que facilitava o controle de voo devido aos motores mais potentes que passavam a exigir mais atenção na condução da aeronave.  Esta nova versão receberia a designação militar de UH-60L Black Hawk, com sua produção em série sendo iniciada em 1989, com as primeiras aeronaves entrando em serviço ativo em meados do ano seguinte. Paralelamente a Sikorsky Aircraft Co. seria contratada para promover a atualização da frota remanescente de helicópteros UH-60A Black Hawk para este novo padrão. 
Durante os anos seguintes esta família de aeronaves foi se tornando o esteio da força de helicópteros das forças armadas norte-americanas, sendo desenvolvidas novas versões especializadas como o EH-60L (sistemas de missão), UH-60Q - HH-60L (evacuação aero médica), MH-60L (operações especiais), MH-60L DAP (armado com misseis Hellfire e Stinger) e UH-60A RASCAL (versão laboratório para a NASA). No entanto no em fins da década de 1990 vislumbrou-se a necessidade de promover a renovação da frota a médio prazo, principalmente focando na substituição das primeiras células a entrar em serviço, cujo ciclo de vida já completava quase vinte anos, desta maneira definiu pelo desenvolvimento de uma nova versão atualizada da aeronave. Esta demanda seria atendida no ano de 2001 com a aprovação do programa UH-60M, esta nova aeronave estaria equipada como novos motores General Eletric T700-GE-701D, aviônica e sistemas de controle de voo, comunicação e navegação de última geração.  Em fevereiro de 2005 o Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América, aprovou a produção de um pequeno lote da nova variante para fins de ensaios e avaliação, com as primeiras vinte e duas células sendo entregues a partir de julho do mesmo ano. Este programa de testes culminaria na assinatura de um contrato para a aquisição de mil e duzentas células, que pelo cronograma deveriam ser entregues até o final do ano de 2007. Em março de 2009, um novo contrato no valor de US$ 1,3 bilhão, seria assinado para produção de mais cento e duas aeronaves configuradas para missões especializadas, com este recebendo um aditivo em 2014 para mais cem aeronaves customizadas.  O Sikorsky UH-60 Black Hawk, teria seu batismo de fogo, durante a invasão de Granada no Caribe em 1983, sendo novamente empregados no continente na invasão do Panamá em 1989. Durante a primeira Guerra do Golfo em 1991, o UH-60 Black Hawk participaria até então da maior missão de assalto aéreo com helicópteros realizada pela aviação do Exército dos Estados Unidos (US Army), envolvendo mais de trezentas aeronaves de asas rotativas. O modelo teria destacada atuação na crise de Mogadíscio, na Somália em 1993, onde duas aeronaves foram abatidas por açao de lança foguetes – RPGs das forças somalis. Atualmente as linhas de produção Sikorsky Aircraft Corporation, continuam em plena atividade, acumulando mais de 4.900 células, entregues até fins do ano de 2022, dispostas em mais de trinta versões (muitas destas especializadas).  Grande parte destas aeronaves se mantem em serviço militar nos Estados Unidos, República do Afeganistão, Áustria, Austrália, Bahrain, Brasil, Brunei, Chile, China, Colômbia, Egito, Albânia, Eslováquia, Israel, Japão, Jordânia, Malásia, México, Marrocos, Lituânia, Coreia do Sul, Filipinas, Polônia, Portugal, Arábia Saudita, Suécia, Taiwan, Tailândia, Tunísia, Turquia, Ucrânia e Emirados Árabes. 

Emprego no Exército Brasileiro.
A história da Aviação do Exército Brasileiro tem suas raízes nos campos de batalha da Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), especificamente nas operações em Humaitá e Curupaiti, em 1867. Durante esse conflito, o Duque de Caxias, Luiz Alves de Lima e Silva, patrono do Exército Brasileiro, destacou-se como pioneiro ao empregar balões cativos para observação militar.  Os balões, operados sob a liderança de Caxias, foram utilizados para monitorar as fortificações paraguaias, fornecendo informações cruciais sobre as posições inimigas. Essa capacidade de observação aérea foi decisiva para o planejamento e a execução de ofensivas de grande escala pelas forças aliadas, contribuindo significativamente para o sucesso das operações. Com o término da Guerra da Tríplice Aliança, o Exército Brasileiro institucionalizou o uso de balões por meio da criação do Serviço de Aerostação Militar, em 1870. Durante os 47 anos seguintes, até 1917, esse serviço desenvolveu atividades balonísticas voltadas para observação, reconhecimento e coleta de informações. Em 1913, o Exército Brasileiro deu um passo significativo rumo à modernização de sua capacidade aérea com a criação da Escola Brasileira de Aviação (EsBAv), sediada no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, foram adquiridos os primeiros aviões militares do Exército, de fabricação italiana, marcando a transição dos balões para aeronaves motorizadas. Em 1919, foi fundada a Escola de Aviação Militar, precursora do atual Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx), com o objetivo de formar aviadores militares capacitados para operar as novas tecnologias aeronáuticas.  Em 1931, o Exército Brasileiro lançou o Correio Aéreo Militar (CAM), que, em conjunto com o Correio Aéreo Naval, formou um sistema postal aéreo de alcance nacional. A trajetória inicial da Aviação do Exército Brasileiro foi interrompida em 20 de janeiro de 1941, com a criação do Ministério da Aeronáutica (MAer).  Essa reestruturação marcou o fim da primeira fase da aviação do Exército Brasileiro. Na década de 1980, o Ministério do Exército Brasileiro lançou o ambicioso Programa Força Terrestre 90 (FT-90), um plano estratégico voltado para a modernização e reestruturação das capacidades operacionais do Exército. A integração de aeronaves de asas rotativas às forças terrestres revelou-se essencial para ampliar a mobilidade tática, incrementar o poder de combate e assegurar maior flexibilidade operacional em cenários de guerra moderna. Buscando a modernização e a adequação da força ao novo cenário. A partir do início da década de 1980, o Estado-Maior do Exército (EME) deu início a estudos doutrinários para definir o emprego de helicópteros em operações de infantaria e cavalaria.  

Em 1986, seria criadas duas estruturas fundamentais para a reativação da Aviação do Exército: Diretoria de Material de Aviação do Exército (DMAvEx): Responsável pela gestão logística, aquisição de aeronaves, manutenção e desenvolvimento técnico da aviação militar. 1º Batalhão de Aviação do Exército (1º BAvEx): A unidade operacional inicial, destinada a operar as primeiras aeronaves de asas rotativas e estabelecer as bases para a formação de pilotos e tripulações. Em janeiro de 1988, a Aviação do Exército ganhou forma física com a instalação da 1ª Base de Aviação do Exército (BAvEx) na cidade de Taubaté, no interior do estado de São Paulo.  Após a definição da estrutura conceitual e organizacional da Aviação do Exército, tornou-se imperativo identificar os vetores aéreos que atenderiam às necessidades estratégicas da força. Estes estudos e  negociações culminaram, em 1988, na assinatura de um contrato que previa a aquisição de 16 helicópteros leves Helibras HB350 L1 Esquilo e 36 helicópteros médios Aérospatiale AS365K Pantera. Enquanto os AS365K Pantera seriam produzidos nas instalações da Aérospatiale na França, os HB350 L1 Esquilo seriam montados na fábrica da Helibras S/A em Itajubá, Minas Gerais, marcando um importante passo para a indústria aeronáutica nacional. Esses helicópteros leves receberam a designação militar HA-1 (Helicóptero de Ataque 1). A primeira unidade, o Helibras HA-1 EB 1001, foi oficialmente entregue em 21 de abril de 1989, durante uma cerimônia militar realizada na sede do 1º Batalhão de Aviação do Exército (1º BAvEx). Os resultados operacionais positivos observados nos primeiros anos de utilização dos helicópteros HA-1 evidenciaram a necessidade de expansão da frota. Assim, um aditivo contratual foi assinado, possibilitando a aquisição de mais 20 unidades, agora da versão especializada AS550 A2 Fennec, destinadas a operar em  missões de escolta e reconhecimento armado. Durante os anos seguintes o Exército Brasileiro viria a consolidar sua doutrina operacional no emprego de aeronaves de asas rotativas, logrando êxito em suas atividades, preparando assim sua força para saltos mais ousados.  Em 10 de março de 1995, o Brasil marcou sua entrada em um capítulo significativo de sua história diplomática e militar ao integrar a Missão de Observadores Militares Peru-Equador (MOMEP), uma iniciativa de paz multinacional promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Essa missão tinha como objetivo primordial mediar e solucionar o conflito fronteiriço entre o Equador e o Peru, centrado na disputada região do Vale do Cenepa e da Cordilheira do Condor, palco de tensões históricas entre os dois países. A MOMEP representava um marco na América Latina, pois buscava fortalecer a capacidade regional de resolução de conflitos de maneira autônoma, rompendo com a prática tradicional de depender de arbitragens externas, como a Corte Internacional de Justiça, o Vaticano ou potências extracontinentais. 
A missão, liderada pela ONU, contou com a participação de um contingente multinacional composto por militares do Brasil, Argentina, Chile e Estados Unidos, que atuaram como observadores, oficiais de coordenação e equipe de apoio logístico. O Brasil contribuiu com um destacamento de aproximadamente 200 militares, cuja presença reforçou o compromisso do país com a promoção da paz e da estabilidade regional. Para atender às demandas operacionais da missão, foi formado um grupo aéreo multinacional, composto por aeronaves de asa fixa e rotativa, essencial para apoiar as atividades dos observadores em uma região marcada por terrenos desafiadores e de difícil acesso. A Força Aérea Brasileira (FAB) contribuiu com uma aeronave de transporte Cessna C-98 Caravan, adequada para operações logísticas em áreas remotas. No entanto, a Aviação do Exército Brasileiro, responsável por fornecer helicópteros, enfrentava limitações devido às características de sua frota na época. Composta por helicópteros Helibras-Aerospatiale HB 350 L1 Esquilo (HA-1), AS 550 A2 Fennec (HA-1) e SA-365 K Pantera (HM-1), a frota era formada por aeronaves de pequeno e médio porte, projetadas para missões táticas e de reconhecimento, mas não otimizadas para as exigências específicas de transporte e apoio logístico em larga escala requeridas pela MOMEP. Como parte de sua liderança na coordenação geral dessa missão de paz, destinada a resolver o conflito fronteiriço entre Peru e Equador na região do Vale do Cenepa e da Cordilheira do Condor, o Brasil obteve a oportunidade singular de incorporar quatro helicópteros Sikorsky S-70A-36 Black Hawk à sua frota. Essa aquisição foi viabilizada por meio do programa Foreign Military Sales (FMS) do governo dos Estados Unidos, com a aprovação formal do Congresso Americano e do Departamento de Defesa em julho de 1997. Após a formalização do contrato, uma comitiva de oficiais do Exército Brasileiro foi enviada à cidade de Stratford, Connecticut, sede da Sikorsky Aircraft Corporation. O grupo, composto por dez pilotos e outros militares, participou de um programa intensivo de treinamento, que incluiu cursos de pilotagem e manutenção básica das aeronaves S-70A Black Hawk. Concluído o treinamento em novembro de 1997, os militares brasileiros realizaram o translado das quatro aeronaves até a base da MOMEP em Patuca, no Equador, onde passaram a operar sob a designação HM-2 (Helicóptero de Manobra 2) na Aviação do Exército Brasileiro. As aeronaves, matriculadas como HM-2 “EB 3001 a 3004”, chegaram ao Equador com o padrão de pintura tático do Exército dos Estados Unidos (US Army), em verde oliva escuro. Para atender às exigências da missão de paz e destacar sua neutralidade, os helicópteros receberam faixas brancas aplicadas em três pontos da fuselagem e a inscrição “MOMEP” nas portas principais, identificando claramente sua função a serviço da ONU.

Os HM-2 Black Hawk provaram ser um ativo indispensável para a MOMEP, apoiando diretamente a Coordenação Geral da missão e desempenhando um amplo espectro de tarefas. Suas missões incluíam a fiscalização de pontos de fronteira e da zona desmilitarizada estabelecida entre Peru e Equador, patrulhas aéreas de monitoramento, transporte logístico para pelotões e pontos de observação, além de apoio às atividades operacionais da força-tarefa multinacional. A capacidade dos Black Hawk, conhecidos por sua robustez e versatilidade, permitiu à missão superar os desafios impostos pelo terreno acidentado e pela logística complexa da região. Além das operações estritamente militares, os HM-2 também desempenharam um papel humanitário significativo. Durante a missão, realizaram inúmeras surtidas para transportar civis a hospitais, resgatar feridos em áreas de conflito e prestar apoio médico em regiões de difícil acesso. Essas ações reforçaram o impacto positivo da presença brasileira, demonstrando não apenas competência operacional, mas também um compromisso com o bem-estar das populações locais afetadas pelo conflito. Entre as inúmeras operações conduzidas pelo Brasil, destaca-se a evacuação aeromédica realizada em 9 de agosto de 1998, no Vale do Cenepa. Nessa data, o helicóptero Sikorsky S-70A-36 Black Hawk, designado HM-2 “EB 3004” pela Aviação do Exército Brasileiro, foi acionado para uma missão crítica: resgatar um soldado equatoriano gravemente ferido após pisar em uma mina terrestre. A operação, realizada sob a escuridão da noite em um terreno acidentado a uma altitude de 7.000 pés (2.133 metros), representou um desafio técnico e operacional de grande magnitude. O sucesso da missão deveu-se à excepcional capacidade do helicóptero Black Hawk, aliado ao profissionalismo da tripulação brasileira, que fez uso do avançado sistema de óculos de visão noturna (NVG) modelo Litton ANVIS-6. Essa tecnologia, combinada com a habilidade dos pilotos, permitiu a execução segura e eficaz da evacuação, salvando a vida do militar equatoriano e reforçando o compromisso humanitário do Brasil na missão. Contudo, a trajetória do HM-2 “EB 3004” foi marcada por um trágico revés pouco tempo depois. Em 13 de setembro de 1998, a mesma aeronave sofreu um acidente que resultou em sua destruição parcial, deixando uma vítima fatal e cinco feridos. O incidente, ocorrido durante as operações da MOMEP, foi um lembrete dos riscos inerentes às missões em ambientes hostis e desafiadores. Após o acidente, o helicóptero foi resgatado do local e, em novembro de 1998, enviado às instalações da Sikorsky Aircraft Corporation em Stratford, Connecticut, onde passou por um meticuloso processo de recuperação. Graças à expertise da fabricante, a aeronave foi restaurada às plenas condições de voo, retornando ao serviço operacional em um curto período de tempo, demonstrando a resiliência e a robustez do projeto do Black Hawk.
Com o encerramento oficial da MOMEP em 30 de junho de 1999, após o sucesso do Acordo de Paz de Brasília de 1998, que pôs fim ao conflito fronteiriço entre Peru e Equador, os quatro helicópteros HM-2 Black Hawk (EB 3001 a 3004) foram transladados para o Brasil em agosto de 1999. Essas aeronaves, que haviam desempenhado um papel crucial na missão, foram incorporadas ao 4º Esquadrão de Aviação do Exército (4º Esquad AvEx), sediado no Aeroporto de Ponta Pelada, em Manaus, Amazonas. A escolha dessa base estratégica refletia a importância da região amazônica para as operações militares brasileiras, onde o terreno vasto e de difícil acesso demanda recursos aéreos versáteis e confiáveis. No novo contexto, os HM-2 Black Hawk passaram a desempenhar um amplo espectro de missões, consolidando a capacidade operacional da Aviação do Exército Brasileiro. Suas tarefas incluíam operações de emprego geral, transporte de tropas, busca e salvamento (SAR), evacuação aeromédica (EVAM), além de apoio às operações especiais e às forças terrestres. Com o passar dos anos, os HM-2 Black Hawk receberam atualizações significativas para manter sua relevância operacional, especialmente no desafiador ambiente amazônico. A substituição dos óculos ANVIS-6 pelo modelo mais avançado Litton ANVIS-9 ampliou a eficácia das operações noturnas, enquanto a instalação de um sistema de radar meteorológico melhorou a navegação em condições adversas, comuns na região da Amazônia. Para atender às demandas de missões de maior alcance, os helicópteros foram equipados com até quatro tanques suplementares externos de combustível, aumentando significativamente seu raio de ação e permitindo operações prolongadas em áreas remotas. A versatilidade dos HM-2 Black Hawk foi comprovada em inúmeras operações, com destaque para sua atuação na Operação Yanomami, em 2023. Durante essa iniciativa, voltada para o combate ao garimpo ilegal e o apoio às comunidades indígenas em Roraima, os helicópteros desempenharam um papel essencial no transporte logístico, conectando comunidades isoladas e garantindo o suporte necessário em um cenário de logística complexa. A capacidade de operar na densa floresta amazônica, aliada à robustez e confiabilidade das aeronaves, consolidou os HM-2 como um pilar fundamental da Aviação do Exército Brasileiro. Apesar de sua extensa folha de serviços, os HM-2 Black Hawk, em operação desde 1997, enfrentam desafios decorrentes de quase três décadas de uso intensivo. O desgaste operacional, agravado pela obsolescência de seus cockpits analógicos, tem elevado os custos de manutenção, especialmente devido à crescente escassez de peças de reposição. Esse cenário motivou o Exército Brasileiro a iniciar negociações para a aquisição de até 12 novas células, com entregas previstas a partir de 2025. Os exemplares que forem desativados serão desmontados, com peças em condições de uso destinadas à manutenção do restante da frota, garantindo a continuidade do serviço até a chegada das novas aeronaves. 

Em Escala: 
Para representarmos o Sikorsky S-70 HM-2 Black Hawk  "EB 2004", empregamos um antigo kit da Minicraft  na escala 1/48, que apresenta um versão semelhante a empregada no Exército Brasileiro, não necessitando assim de nenhuma modificação. Apenas para melhor detalharmos o modelo, incluímos as duas metralhadoras laterais FN MAG 58M calibre 7.62 mm oriundas de outro modelo. Fizemos uso de decais produzidos pela FCM  Decais  que estão presentes no Set 48/13.


O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura tático das aeronaves de asas rotativas dos Exército dos Estados Unidos (U.S Army) , inicialmente as mesmas receberam faixas brancas, aplicadas em três pontos da fuselagem e a inscrição MOMEP (Missão de Observadores Militares Peru Equador). Posteriormente após o regresso ao Brasil estas marcações foram suprimidas, mantendo até os dias atuais o primeiro esquema de pintura.

Bibliografia : 

- Sikorsky UH-60 Blackhawk, Wikipedia -http://en.wikipedia.org/wiki/Sikorsky_UH-60_Black_Hawk  

- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores 

- História da Força Aérea Brasileira, Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html 

- Nas Asas da Aviação do Exército, Claudio Lucchesi e Roger Pascoal - Revista Asas  nº 15  

- Novos Black Hawk para o Exército Brasileiro - https://www.infodefensa.com