Avro 504K Roe e 504N Lince


História e Desenvolvimento.
A fundação da A.V. Roe and Company, em 1º de janeiro de 1910, marcou um capítulo pioneiro na história da aviação mundial, representando um marco de inovação, empreendedorismo e determinação em um período de efervescência tecnológica. Estabelecida em Brownsfield Mill, na Great Ancoats Street, Manchester, pelos irmãos Alliott Verdon Roe e Humphrey Verdon Roe, a empresa emergiu como uma das primeiras a produzir aeronaves em série, contribuindo significativamente para o desenvolvimento da indústria aeronáutica britânica. A história da A.V. Roe and Company é, acima de tudo, uma narrativa de visão, perseverança e colaboração fraterna, que transformou os sonhos de voo de Alliott em uma realidade comercial e militar, deixando um legado duradouro na aviação. Alliott Verdon Roe, um engenheiro visionário, foi o coração técnico da empresa, responsável pelo projeto e construção das aeronaves. Seu irmão, Humphrey, desempenhou um papel igualmente crucial, trazendo suporte financeiro obtido por meio dos lucros do negócio familiar de teares e assumindo a direção administrativa até 1917, quando se juntou ao Corpo Aéreo Real RFC (Royal Flying Corps). Antes mesmo da fundação da companhia, Alliott já havia demonstrado sua genialidade: em 1908, seu primeiro aeroplano, o Roe I Triplane, apelidado de The Bullseye, realizou seu voo inaugural nos campos de Manchester. Este modelo, projetado e construído artesanalmente, é amplamente reconhecido como a primeira aeronave de projeto integralmente britânico, um feito que colocou a Inglaterra na vanguarda da aviação em seus primórdios. Com o estabelecimento formal da A.V. Roe and Company, a operação foi estruturada para atender ao crescente mercado de aviação. Um galpão foi alugado no Brooklands Flying Grounds, onde as aeronaves finalizadas eram exibidas e comercializadas por £450, um preço acessível para a época. As vendas começaram a ganhar tração, impulsionadas pela evolução constante dos projetos de Alliott. No final de 1912, o negócio não apenas se provou financeiramente viável, mas também revelou um potencial promissor, com perspectivas de crescimento a curto e médio prazo. Em 1913, a empresa alcançou autonomia financeira e tornou-se altamente lucrativa, consolidando sua posição em um mercado que, embora vibrante, começava a atrair concorrentes, desafiando a A.V. Roe a inovar continuamente para manter sua competitividade. Um marco significativo na trajetória da empresa foi a construção, em 1912, do monoplano Tipo F e do biplano Avro Tipo G, as primeiras aeronaves do mundo com cabine fechada para a tripulação. Embora esses modelos não tenham avançado além do estágio de protótipo, eles demonstraram a ousadia e a visão inovadora da companhia. O verdadeiro impulso para o futuro da A.V. Roe veio com o lançamento do Avro E, também conhecido como Avro 500, uma aeronave que se destacou por seu desempenho excepcional. Este modelo atraiu a atenção do Royal Flying Corps, resultando, no final de 1913, no primeiro contrato militar da empresa: a encomenda de 18 células destinadas aos Esquadrões de Treinamento nº 3, nº 4 e nº 5. 

As entregas começaram no início de 1914, e, em março do mesmo ano, as aeronaves foram declaradas plenamente operacionais, marcando a entrada definitiva da A.V. Roe no setor de defesa e consolidando sua reputação como uma fabricante confiável.O Avro E 500, lançado em 1913, conquistou ampla aceitação entre pilotos e instrutores do Corpo Aéreo Real RFC (Royal Flying Corps), recebendo elogios do comando por seu desempenho confiável e design robusto. Esse sucesso motivou a diretoria da A.V. Roe and Company, liderada por Alliott Verdon Roe, a investir recursos próprios no desenvolvimento de uma versão aprimorada, resultando no Avro 504. Apesar de derivado de seu antecessor, o novo modelo incorporava melhorias significativas em aerodinâmica e desempenho, demonstrando o compromisso da empresa com a inovação contínua. Em julho de 1913, dois protótipos foram fabricados, e o primeiro voo ocorreu em 5 de setembro do mesmo ano, a tempo de participar da Feira Aérea Internacional de Farnborough. O design avançado e a performance impressionante do Avro 504 atraíram imediatamente a atenção do comando das forças armadas britânicas, que reconheceram seu potencial para atender às crescentes demandas militares. As negociações com o Corpo Aéreo Real  - RFC (Royal Flying Corps) e o Real Serviço Aéreo Naval - RNAS (Royal Naval Air Service) resultaram na assinatura de contratos para a produção de um número substancial de aeronaves, marcando um momento de virada para a A.V. Roe. No entanto, a capacidade produtiva da fábrica original, localizada em Brownsfield Mill, Manchester, revelou-se insuficiente para atender à demanda. Em resposta, a empresa transferiu suas operações para instalações maiores em Clifton Street, Miles Platting, ainda em Manchester. Mesmo essa medida se mostrou temporária, pois o aumento contínuo dos pedidos levou a um novo estrangulamento produtivo, forçando a migração para as instalações da Mather & Platt Works, em Newton Heath. Essas expansões refletem o dinamismo da A.V. Roe em adaptar-se às exigências de um mercado em rápida expansão, bem como a dedicação de seus funcionários, que trabalharam arduamente para manter a produção em ritmo acelerado. As primeiras unidades do Avro 504 foram declaradas operacionais em março de 1914, sendo inicialmente destinadas a missões de treinamento e observação. Sua versatilidade e confiabilidade tornaram-no um pilar dos esquadrões de instrução das forças armadas britânicas, preparando pilotos para os desafios da aviação militar. Contudo, o eclodir da Primeira Guerra Mundial, em 28 de julho de 1914, transformou profundamente o destino da A.V. Roe and Company e do Avro 504. O conflito, que envolveu as principais potências europeias em uma escala sem precedentes, elevou a aeronave a um novo patamar operacional. Além de seu papel em treinamento, o Avro 504 foi empregado em missões de combate na frente europeia, incluindo reconhecimento, bombardeio leve e até ataques improvisados. Essa adaptação às exigências da guerra destacou a robustez do projeto e a capacidade da empresa de responder rapidamente às necessidades militares.
Em 14 de agosto de 1914, apenas duas semanas após o início da Primeira Guerra Mundial, o Avro 504 fez história de maneira trágica ao se tornar a primeira aeronave britânica abatida pelo fogo antiaéreo alemão. Pilotada pelo 2º Tenente Vincent Waterfall, com o Tenente Charles George Gordon Bayly como navegador, a aeronave pertencia ao 5º Esquadrão do Royal Flying Corps (RFC). Esse evento, ocorrido em um contexto de guerra incipiente, destacou os riscos enfrentados pelos primeiros aviadores, que operavam em máquinas frágeis e expostas, enfrentando defesas antiaéreas cada vez mais eficazes. Apesar dessa perda, o Avro 504 logo demonstrou sua versatilidade em uma missão notável conduzida pelo Royal Naval Air Service (RNAS) em 21 de novembro de 1914. Três Avro 504, partindo de Belfort, no nordeste da França, realizaram um audacioso ataque às instalações alemãs de produção e manutenção de dirigíveis Zeppelin em Friedrichshafen, nas margens do Lago de Constança. Carregando quatro bombas de 20 libras (9 kg) cada, as aeronaves enfrentaram condições adversas, com uma sendo abatida próximo ao alvo. As demais, no entanto, lograram êxito, atingindo diretamente os galpões dos dirigíveis e destruindo uma usina geradora de hidrogênio, em uma operação que demonstrou o potencial estratégico da aviação em alvos de alto valor. Conforme a Primeira Guerra Mundial ganhava intensidade, a tecnologia aeronáutica avançava em um ritmo frenético, com o surgimento de novas gerações de caças, bombardeiros e aeronaves de observação mais avançados. Esse progresso tornou o ambiente de combate cada vez mais hostil para o Avro 504, cujas capacidades, embora notáveis para sua época, foram superadas por modelos mais modernos. Assim, a aeronave foi rapidamente relegada a missões de segunda linha, sendo transferida para esquadrões de treinamento na Inglaterra, onde continuou a desempenhar um papel crucial na formação de pilotos. Até então, a produção do Avro 504 já alcançava milhares de unidades, abrangendo versões que evoluíram do Avro 504A ao Avro 504J, com motores que progrediram de 60 hp para 80 hp, refletindo o esforço contínuo da A.V. Roe and Company para aprimorar sua criação. No inverno de 1917 e 1918, a escassez de aeronaves de caça no continente europeu e a necessidade urgente de substituir os obsoletos interceptadores Vickers B.E.2c nos esquadrões de defesa doméstica levaram o comando do RFC a uma decisão inovadora: converter os Avro 504J e 504K para missões de caça. Essas versões foram adaptadas para um único assento, equipadas com uma metralhadora leve Lewis .303 (7,62 mm), montada acima da asa, e padronizadas com motores Gnome Monosoupape de 100 hp. Um total de 274 células foram modificadas, sendo distribuídas a oito esquadrões de defesa doméstica. Essa conversão, embora improvisada, demonstrou a versatilidade do Avro 504 e a capacidade da A.V. Roe de responder às demandas emergentes da guerra, mesmo em um contexto de recursos limitados.

A trajetória do Avro 504 como a principal aeronave de instrução primária da aviação britânica é uma história de longevidade, versatilidade e impacto global, que reflete o talento de seus criadores na A.V. Roe and Company e a dedicação de gerações de pilotos, instrutores e técnicos que confiaram em suas qualidades para formar aviadores em todo o mundo. Após a Primeira Guerra Mundial, encerrada em novembro de 1918, o Avro 504 consolidou-se como o “treinador padrão” britânico, uma conquista atribuída à sua estabilidade, facilidade de manuseio e robustez. Com a criação da Força Aérea Real (RAF) em 1918, resultante da fusão do Royal Flying Corps (RFC) e do Royal Naval Air Service (RNAS), o Avro 504 continuou a desempenhar um papel central nos esquadrões de treinamento, formando milhares de pilotos que seriam a espinha dorsal da aviação militar britânica. A abundância de aeronaves consideradas “excedentes de guerra” permitiu que cerca de 300 Avro 504 fossem transferidos para escolas civis de pilotagem na Grã-Bretanha, onde receberam registros civis. Nessas instituições, as aeronaves foram empregadas não apenas no treinamento de pilotos, mas também em tarefas inovadoras, como o reboque de faixas publicitárias, uma prática que demonstrava sua versatilidade. Muitas dessas aeronaves permaneceram em uso até o início da década de 1940, um testemunho de sua durabilidade em uma era de rápidos avanços tecnológicos. A influência do Avro 504 transcendeu as fronteiras britânicas. Na nascente força aérea da União Soviética, formada após a Revolução de 1917 e a Primeira Guerra Mundial, o modelo foi adotado tanto em sua forma original quanto em uma versão local, conhecida como Avrushka (“Little Avro”). Equipadas com cópias russas do motor rotativo Gnome Monosoupape, essas aeronaves foram amplamente utilizadas no treinamento primário até o final da década de 1920, contribuindo para a consolidação da aviação militar soviética em seus primeiros anos. Na China Nacionalista, durante o mesmo período, o Avro 504 foi adquirido em grande quantidade, inicialmente para treinamento. No entanto, em meio às guerras regionais que marcaram a década de 1920, essas aeronaves foram adaptadas para missões de combate, com pilotos lançando granadas de mão e morteiros modificados em ataques improvisados. Esses usos, embora rudimentares, destacam a adaptabilidade do Avro 504 em contextos de recursos limitados. Em 1925, a A.V. Roe and Company, buscando manter a relevância do Avro 504 em um cenário de avanços tecnológicos, apresentou o Avro 504N, uma versão modernizada do modelo original. Dois protótipos foram construídos para avaliação: um equipado com o motor Bristol Lucifer e outro com o Armstrong-Siddeley Lynx. O desempenho superior do motor Lynx levou à sua seleção pela RAF, que encomendou 592 células entre 1925 e 1932. 
Essas aeronaves equiparam cinco esquadrões de treinamento e foram usadas também como aviões de comunicação, reforçando o papel do Avro 504N como uma ferramenta essencial para a formação de pilotos. A nova versão também conquistou mercados internacionais, sendo exportada para forças militares da Bélgica, Brasil, Chile, Dinamarca, Grécia, Sião (atual Tailândia) e África do Sul. Além disso, a produção licenciada do Avro 504N ocorreu na Dinamarca, Bélgica, Canadá e Japão, evidenciando o alcance global do modelo e a confiança depositada em seu design. Os Avro 504N da Força Aérea Real (Royal Air Force) passariam a ser substituídos a partir de 1933 pelo novo treinador primário Avro Tutor, ao fim de 1935 restariam apenas sete células que seriam convertidas em aeronaves rebocadoras de alvos e planadores. Grande parte das aeronaves em bom estado de conservação seriam doados para escolas civis de pilotos, recebendo o registro civil, se mantendo em operação até o início da década de 1940. Ao todo foram produzidas entre os anos de 1914 e 1928 um total de onze mil quatrocentas e oitenta e quatro células, dispostas em vinte e nove versões. Além de serem montados em treze fábricas na Grã-bretanha, a aeronave seria ainda montada sob licença na Argentina, Bélgica, União Soviética, Japão, Canadá, Dinamarca, França, com versões customizadas desenvolvidas localmente como as japonesas Yokosuka K2Y1 e Yokosuka K2Y2, russas como U-1 (Uchebnyi – 1) e MU-1 (Morskoy Uchebnyi – 1), dinamarquesa Orlogsværftet Flyvemaskineværksted LB.I e australianas como598 Warregull e  599 Warregull II.  Sua versão a ser mais produzida, no entanto, seria o Avro 504K, modelo originalmente configurado como aeronave de treinamento de dois lugares, que apresentava como curiosidade a possibilidade de poder a ser equipado como uma vasta gama de motores em virtude da escassez de componentes durante a Primeira Guerra Mundial. Em termos de operadores militares o modelo esteve a serviço das forças armadas do Brasil, Argentina, Canada, Estônia, Finlândia, Grécia, Guatemala, Índia Britânica, Irã, Irlanda, Japão, Letônia, Malaia, México, Mongólia, Noruega, Peru, África do Sul, Sião, Polônia, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça, Tailândia Uruguai e Estados Unidos. O modelo registraria sua marca na História aeronáutica internacional, por ser a primeira aeronave britânica a dispersar tropas em terra, bem como o primeiro avião britânico a fazer um bombardeio sobre a Alemanha, sendo também a primeira a ser derrubada por fogo antiaéreo inimigo. Seria eternizada por formar futuros ases do conflito, como Billy Bishop entre outros que apelidariam a aeronave como "palito de dente" na Força Aérea Real (Royal Air Force).   

Emprego na Marinha do Brasil.
O desenvolvimento da aviação militar no Brasil teve suas raízes no início do século XX, um período marcado por avanços tecnológicos revolucionários desencadeados pelo primeiro voo controlado de uma aeronave mais pesada que o ar, realizado pelo inventor brasileiro Alberto Santos-Dumont em 1906 com o 14-bis, em Paris. Inspirado por esse marco e pela crescente relevância da aviação nos conflitos globais, o Brasil buscou estruturar sua capacidade aérea militar. Em fevereiro de 1914, foi fundada a Escola Brasileira de Aviação no Campo dos Afonsos, Rio de Janeiro, por meio de uma parceria entre o Ministério da Guerra e a empresa italiana Gino, Buccelli & Cia. Essa colaboração envolveu o fornecimento de equipamentos e instrutores estrangeiros para formar os primeiros aviadores militares do Exército Brasileiro, estabelecendo as bases para a Aviação Militar. Paralelamente, a Marinha do Brasil, reconhecendo o potencial estratégico da aviação em operações marítimas, demonstrou pioneirismo ao criar a Escola de Aviação Naval (EAvN) em 23 de agosto de 1916. Essa iniciativa foi impulsionada pela visão de líderes navais, como o então Ministro da Marinha, Almirante Alexandrino de Alencar, que se inspirou no uso de aeronaves durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). A guerra destacou o valor dos hidroaviões em missões de reconhecimento, patrulha e apoio naval, motivando a Marinha a adquirir suas primeiras aeronaves. Sob a liderança do Almirante Protógenes Pereira Guimarães, patrono da Aviação Naval Brasileira, a EAvN foi incumbida de desenvolver a doutrina de emprego aéreo e preparar pessoal qualificado para operar essas plataformas. As primeiras aeronaves adquiridas pela Marinha foram três aerobotes Curtiss Model F, fabricados pela Curtiss Aircraft Company, dos Estados Unidos. O primeiro desses hidroaviões realizou seu voo operacional em 1916, enquanto os outros dois foram montados até outubro do mesmo ano na Carreira Tamandaré, localizada no Arsenal de Marinha, próximo ao Morro de São Bento, no Rio de Janeiro. Essa área, situada nas proximidades da antiga ponte para a Ilha das Cobras, é hoje ocupada pelo rancho do 1º Distrito Naval. Pouco depois, a EAvN foi transferida para a Ilha das Enxadas, onde foram construídos dois hangares com capacidade para abrigar quatro aeronaves cada, consolidando a infraestrutura inicial para a formação de aviadores navais. Nos anos seguintes, a EAvN, com o apoio de instrutores norte-americanos, concentrou-se na formação dos primeiros aviadores navais brasileiros, desenvolvendo competências essenciais para operações aéreas marítimas. Contudo, o aumento da complexidade das missões navais, que incluíam observação, caça e bombardeio, revelou a necessidade de modernizar a frota e as práticas de instrução. Muitos dos hidroaviões utilizados pela EAvN, que compunham uma coleção variada de modelos, estavam alcançando o fim de sua vida útil operacional no final da década de 1910. 

Essa obsolescência, combinada com a evolução tecnológica da aviação militar, exigiu uma reavaliação estratégica. Para enfrentar esses desafios, a Marinha decidiu reduzir a diversidade de tipos de aeronaves em sua frota, padronizando os equipamentos e sistematizando os métodos de instrução de voo. Essa iniciativa visava aumentar a eficiência do treinamento e preparar a Aviação Naval para incorporar modelos mais modernos, capazes de atender às demandas de operações multifuncionais. A modernização incluiu a aquisição de aeronaves com maior desempenho e a adoção de práticas de ensino mais estruturadas, alinhadas com os padrões internacionais da época. Nesse contexto, a Marinha buscou modernizar suas práticas de formação de pilotos, inspirando-se em métodos avançados desenvolvidos pelas potências aliadas. A adoção do “Sistema Gosport”, introduzido pelo Royal Naval Air Service (RNAS) britânico em 1916, representou um marco na sistematização do treinamento de pilotos. Esse sistema, que enfatizava o uso de aeronaves terrestres para instrução inicial, oferecia maior segurança e eficiência em comparação com os hidroaviões, permitindo aos alunos dominar habilidades básicas de voo antes de progredir para operações mais complexas.   Para implementar o Sistema Gosport, a Marinha do Brasil enviou uma delegação de oficiais à Inglaterra, onde puderam estudar de perto as práticas de treinamento e as aeronaves empregadas. Durante essa missão, os oficiais brasileiros tiveram seu primeiro contato com o Avro 504, uma aeronave biplana projetada pela Avro Aircraft Company e amplamente utilizada como treinador primário pelo RNAS e pela Royal Air Force (RAF). O Avro 504, introduzido em 1913, tornou-se um dos aviões de treinamento mais icônicos da Primeira Guerra Mundial, conhecido por sua robustez, facilidade de manutenção e versatilidade. Sua adoção no Sistema Gosport consolidou-o como o padrão para a formação de pilotos, influenciando a decisão brasileira de incorporá-lo à Aviação Naval. A incorporação do primeiro Avro 504K pela Marinha do Brasil ocorreu de forma fortuita, em maio de 1920, como resultado do término das operações da companhia aérea britânica Handley Page Ltda no Brasil. Após a Primeira Guerra Mundial, o excesso de material aeronáutico disponível no mercado internacional incentivou a criação de empresas de transporte aéreo. A Handley Page, autorizada pelo governo brasileiro a operar rotas entre cidades brasileiras, trouxe ao país quatro aeronaves, incluindo um Avro 504K. Com a falência da empresa, suas aeronaves foram doadas ao governo brasileiro, e o Avro 504K, registrado com a matrícula “46”, foi transferido para a EAvN. A integração desse exemplar à EAvN, ainda sediada na Ilha das Enxadas, apresentou desafios, uma vez que a base não dispunha de uma pista adequada para aeronaves terrestres. 
Não há registros claros se o Avro 504K foi desmontado e armazenado ou mantido em outro local. Contudo, esse evento marcou o início da transição da Aviação Naval para o uso de aviões terrestres, alinhando-se ao Sistema Gosport. Para atender à crescente demanda por aeronaves de treinamento modernas, a Marinha destinou recursos para ampliar sua frota de Avro 504. Em 1921, foram adquiridas quatro células usadas, equipadas com o motor rotativo Gnome Monosoupape de 100 hp, conhecido por sua confiabilidade. As duas primeiras unidades chegaram ao Brasil no final do primeiro semestre de 1921, sendo montadas em agosto e enviadas ao Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, onde operaram temporariamente até a conclusão de uma pista na nova base da EAvN, na Ponta do Galeão. Um acidente resultou na perda de uma dessas aeronaves, levando à montagem das duas células restantes entre novembro e dezembro de 1921. A frota foi reforçada com a celebração de um contrato em 23 de maio de 1922 com a Curtiss Aeroplane Export Corporation, para a aquisição de mais 12 células usadas do Avro 504, configuradas com motores radiais Le Rhône de 110 hp. Essas aeronaves, embora de segunda mão, representavam um avanço em relação aos hidroaviões iniciais, oferecendo maior desempenho e adequação às práticas de treinamento sistematizadas. Até o final de 1923, a Aviação Naval operava 16 aeronaves Avro 504K, alocadas à 3ª Esquadrilha da Flotilha de Treinamento, sediada na Ilha das Enxadas e, posteriormente, na Ponta do Galeão. Apesar do número considerável, a disponibilidade operacional era severamente limitada devido a pequenos acidentes e à falta de manutenção adequada. Durante os tumultos políticos de 1924, as atividades da EAvN foram significativamente reduzidas, resultando em uma queda de 50% no número de alunos formados em 1925. Em momentos de maior tensão revolucionária, algumas aeronaves Avro 504K foram armadas com metralhadoras Lewis calibre .303 (7,62 mm × 54 mm) para missões de apoio tático, evidenciando a versatilidade do modelo em cenários de crise. As restrições orçamentárias impostas pelo contexto político limitaram o fluxo de peças de reposição, levando a índices alarmantes de indisponibilidade. Em 1925, apenas quatro células estavam operacionais, com as demais armazenadas ou em manutenção prolongada. No ano seguinte, o Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro (CAvNRJ) conseguiu recuperar uma aeronave adicional, mas os desafios persistiram. Em 1926, três Avro 504K realizaram um feito notável para a época: um raid aéreo entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Contudo, duas aeronaves foram perdidas durante a missão, reduzindo ainda mais a frota operacional. Até o final de 1927, apenas três Avro 504K permaneciam disponíveis, com as demais perdidas em acidentes ou em reparos de grande escala.

Reconhecendo a necessidade de modernizar sua frota de treinamento, a Diretoria Geral de Aeronáutica da Marinha avaliou propostas para aquisição de novas aeronaves. Embora inicialmente considerasse a compra de células usadas do Avro 504K junto ao governo britânico, a atenção voltou-se para a variante mais moderna, o Avro 504N/O, equipada com melhorias significativas, como o motor radial Armstrong Siddeley Lynx de 180 hp, que oferecia maior desempenho e confiabilidade. Em janeiro de 1927, a Marinha celebrou um contrato para a aquisição de seis células novas de fábrica, acompanhadas de um amplo pacote de peças de reposição, visando mitigar os problemas de manutenção enfrentados anteriormente. As novas aeronaves Avro 504N/O foram recebidas e colocadas em condições de voo durante o primeiro semestre de 1928. Elas passaram a compartilhar as tarefas de treinamento com os Avro 504K remanescentes, que, devido ao desgaste, registraram uma redução significativa no número de horas de voo. A introdução do 504N/O representou um avanço na padronização do treinamento, alinhando a EAvN aos padrões internacionais de formação de pilotos. A operação das novas aeronaves não foi isenta de dificuldades. Apenas três dias após o primeiro voo de um Avro 504N/O, em julho de 1928, uma das células sofreu uma pane no motor e caiu nas proximidades do CAvNRJ. No mês seguinte, outra aeronave realizou um pouso forçado no mar. Ambas foram resgatadas e enviadas para reparos, mas uma delas permaneceu em manutenção por um período prolongado, refletindo os desafios logísticos enfrentados pela Aviação Naval em um contexto de recursos limitados. Em 1929, o ano letivo da EAvN foi iniciado com apenas cinco aeronaves Avro 504N/O, das quais duas estavam equipadas com flutuadores para operações anfíbias. Essas aeronaves desempenharam um papel crucial no treinamento de pilotos no Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro (CAvNRJ) e na EAvN, contribuindo para a formação de aviadores navais em 1929 e 1930. Paralelamente, as três últimas células operacionais do Avro 504K, já desgastadas por anos de uso intensivo, foram submetidas a um programa de modernização iniciado em maio de 1929. O foco principal foi a substituição do motor rotativo Gnome Monosoupape, conhecido por sua instabilidade, pelo motor radial fixo Armstrong Siddeley Lynx IVC, mais confiável e eficiente. Algumas dessas aeronaves também foram adaptadas para operar com flutuadores, visando atender às necessidades de operações marítimas. O processo de modernização foi concluído em janeiro de 1930, mas os resultados não atenderam às expectativas. A performance das aeronaves modernizadas não alcançou os objetivos desejados, e a frota remanescente enfrentava desafios logísticos crescentes. Como resultado, a Diretoria Geral de Aeronáutica da Marinha decidiu desativar os Avro 504K após um voo de formatura da EAvN em junho de 1930, encerrando sua carreira na Aviação Naval Brasileira. Apesar do número reduzido de aeronaves, devido a acidentes que exigiam reparos prolongados, os Avro 504 foram fundamentais para a formação da maior turma de aviadores navais até então, com sete oficiais recebendo o brevê de aviador naval em 1931.
O ano de 1931 prometia intensificar as atividades de treinamento, com a EAvN planejando formar a maior turma de aviadores navais desde sua criação em 1916, incluindo a primeira turma de aviadores da Reserva Naval Aérea. No entanto, esses planos foram interrompidos pela Revolução Constitucionalista de 1932, um conflito civil liderado pelo estado de São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas, que buscava a redemocratização do país após o golpe de 1930. A revolta, que durou de julho a outubro de 1932, resultou na suspensão de praticamente todas as atividades de instrução aérea da EAvN, redirecionando recursos e esforços para operações de apoio tático. Nesse período, os Avro 504N/O já não eram mais utilizados na formação inicial de pilotos, mas continuavam desempenhando um papel essencial no adestramento do pessoal do CAvNRJ. Essas aeronaves, embora limitadas em número, foram empregadas em tarefas de treinamento avançado e manutenção das habilidades de voo, garantindo a continuidade das operações da Aviação Naval em um contexto de crise. O início das hostilidades faria com que a Aviação Naval reunisse todos os seus recursos de material e pessoal para o esforço de guerra, e entre as aeronaves convocadas estavam os Avro 504N/O Lince. Entre outras necessidades das forças legalistas encontrava-se o patrulhamento fluvial na região do pantanal, na tentativa de inibir qualquer atividade das forças Constitucionalistas.  Para dar apoio direto às unidades de superfície da Marinha do Brasil, em agosto dois Avro 504N/O receberiam metralhadoras Vickers .303 de calibre 7,62 mm × 54 mm e foram enviados à Base Naval de Ladário. Equipados com flutuadores, esses aviões regularmente realizavam missões de vigilância nos longos cursos fluviais da região, executando ainda o patrulhamento de fronteira. Ao término da Revolução Constitucionalista, estes dois aviões que se encontravam no Pantanal regressariam ao Centro de Aviação Naval do Rio de Janeiro - CAvN RJ e foram aparentemente recolhidas as Oficinas Gerais de Aviação Naval (OGAN) a fim de sofrerem uma revisão geral. Por sua vez, em setembro de 1932, um Avro 504N/O seria dado como pronto entregue após uma revisão completa. Porém essa aeronave teria uma vida efêmera, acidentando-se com perda total de material e infelizmente de pessoal em dezembro daquele mesmo ano. A partir de então, a historia dos Avro 504N/O torna-se nebulosa. Existem indicações de que os aviões que estiveram no Pantanal, junto com mais outra célula, permaneceriam nas  Oficinas Gerais de Aviação Naval (OGAN) e de lá não sairiam mais. O certo é que, em 1934, seria dada baixa aos Avro 504N/O Lince, encerrando, assim definitivamente, a carreira destas aeronaves no Brasil.

Em Escala.
Para representarmos o Avro 504K “A7” pertencente a  Marinha do Brasil,  a serviço da Escola de Aviação Naval - EAvN,  empregamos o antigo kit da Airfix na escala 1/72. Modelo este de fácil montagem, porém apresentando baixo detalhamento, exigindo ainda confecção em scratch dos para-brisas. Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM Decals presentes no antigo set 72/09.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura empregado pelos Avro 504K da Aviação Naval, inicialmente as aeronaves foram recebidas em uma tonalidade de amarelo denominada "clear dope linen" com o FS 33695. Já as células do modelo Avro 504N/O receberam padrões de pintura em metal natural com as marcações nacionais. 

Bibliografia :
- Avro 504 – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Avro_504
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores
- 100  anos da Aviação Naval - Marinha do Brasil & Fundação Getulio Vargas
- Asas sob os Mares , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/Asas%20sobre%20os%20mares/index.html

UH-13 Aérospatiale AS355F2 Ecureuil 2

História e Desenvolvimento.
A derrota da França em 10 de maio de 1940, seguida pela ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial, representou um golpe devastador à sua outrora vigorosa indústria de defesa. Sob o controle do regime de Vichy e das autoridades de ocupação, a França foi relegada à condição de fornecedora subordinada de componentes e materiais básicos destinados ao esforço industrial do Terceiro Reich, interrompendo abruptamente o ciclo de inovação tecnológica que o país vinha desenvolvendo desde o final da década de 1920. Com o término do conflito, em 1945, a reconstrução nacional tornou-se prioridade do governo francês. O setor aeronáutico, considerado estratégico tanto para a defesa quanto para a soberania tecnológica, recebeu atenção especial dentro do plano de reindustrialização conduzido pelo Estado. Nesse contexto, foi implementada uma política de nacionalizações e reorganização estrutural, que resultou na criação de duas grandes empresas estatais: a Société Nationale des Constructions Aéronautiques du Sud-Est (SNCASE) e a Société Nationale des Constructions Aéronautiques du Sud-Ouest (SNCASO).Ambas nasceram da incorporação e fusão de pequenas companhias privadas — muitas delas fragilizadas economicamente pela guerra — em um esforço governamental para concentrar recursos técnicos e humanos em polos regionais de pesquisa, desenvolvimento e produção. Essa política industrial visava restaurar a competitividade do setor aeronáutico francês, transformando-o em um instrumento de modernização e prestígio nacional. Durante o final da década de 1940 e início dos anos 1950, a SNCASE e a SNCASO atuaram de forma complementar, tanto na produção de aeronaves de asas fixas quanto na introdução de tecnologias emergentes de aeronaves de asas rotativas — os helicópteros. Nesse segmento, o governo francês investiu pesadamente em pesquisa e desenvolvimento, promovendo acordos de cooperação tecnológica e produção sob licença com empresas estrangeiras, principalmente norte-americanas e britânicas. Esse intercâmbio técnico permitiu à França assimilar rapidamente conceitos avançados de engenharia aeronáutica, servindo de base para o desenvolvimento de projetos autônomos e genuinamente nacionais. Um dos frutos mais notáveis desse processo foi o helicóptero Alouette II, desenvolvido pela SNCASE e equipado com motor turboeixo Turbomeca Artouste, tecnologia que representava um salto qualitativo em termos de desempenho e confiabilidade. O Alouette II realizou seu primeiro voo em março de 1955, e sua entrada em serviço marcou um ponto de inflexão na história da aviação francesa.  Em 1º de março de 1957, em um movimento de consolidação industrial promovido pelo Estado francês, ambas as empresas foram fundidas, dando origem à Sud Aviation (Société Nationale de Constructions Aéronautiques du Sud). Essa nova companhia passou a centralizar a maior parte da produção aeronáutica do sul da França, reunindo sob uma mesma administração programas civis e militares.

A Sud Aviation herdou não apenas o know-how técnico e os projetos em andamento das duas antecessoras, mas também sua ambição de inserir a França no seleto grupo de potências aeroespaciais. A SNCASE, por exemplo, já havia acumulado experiência relevante com aeronaves como o SNCASE Languedoc (avião comercial de médio porte) e o SNCASE Mistral, uma versão licenciada do De Havilland Vampire britânico. O êxito do Alouette II, pioneiro entre os helicópteros movidos a turbina, abriu caminho para o desenvolvimento de uma aeronave ainda mais robusta e capaz de suportar maiores cargas. Assim nasceu o  Alouette III, designado como SA 316 ou SA 319 em suas variantes, que realizou seu voo inaugural em 28 de fevereiro de 1959 e entrou em serviço em 1961. Projetado para atender à demanda por um helicóptero versátil, capaz de operar em condições extremas, como grandes altitudes e climas rigorosos, o Alouette III consolidou-se como um marco na aviação de asas rotativas. Em 1965, uma colaboração anglo-francesa foi estabelecida com o objetivo de desenvolver um substituto para a versão militar do Alouette III. Dessa parceria surgiu o Aérospatiale SA341/SA342 Gazelle, um helicóptero leve e ágil que veio a equipar as forças armadas da França e do Reino Unido. Apesar de seu sucesso no mercado militar, o elevado custo de aquisição e operação limitou sua adoção no setor civil internacional. Com base na experiência adquirida com o Gazelle, a equipe de engenharia da Aérospatiale voltou-se para um novo desafio: conceber um helicóptero que combinasse inovação tecnológica com acessibilidade econômica. Para tanto, realizou extensas pesquisas de mercado junto a potenciais operadores, que destacaram três requisitos fundamentais: baixos níveis de ruído e vibração, maior capacidade de transporte e custos operacionais reduzidos. Esses parâmetros seriam essenciais para posicionar a nova aeronave como uma alternativa competitiva ao principal rival no mercado global, o norte-americano Bell 206 Jet Ranger. O projeto resultante apresentou um helicóptero monoturbina com capacidade para até cinco ocupantes, incluindo piloto e passageiros. Incorporando avanços em aviônica, a aeronave foi desenhada para oferecer custos de aquisição e manutenção significativamente inferiores aos do SA341/SA342 Gazelle. Inspirando-se em técnicas da indústria automotiva, a Aérospatiale integrou componentes compartilhados com veículos das marcas Citroën e Renault, além de adotar o inovador sistema Starflex para o rotor principal. Esse sistema, aliado a uma construção eficiente, conferiu à aeronave um desempenho excepcional, com baixo custo operacional, tornando-a ideal para uma ampla gama de missões civis e militares. O protótipo, batizado como Aérospatiale AS350-001, realizou seu primeiro voo em 27 de junho de 1974, sob o comando do piloto de testes Daniel Bernard Certain Bauchart. Equipado com um moderno motor turboeixo Lycoming Avco LTS-101, capaz de gerar 592 shp, o Aérospatiale AS350 demonstrou desde o início sua versatilidade e eficiência, marcando o início de uma nova era para a Aérospatiale.
Após sua apresentação oficial, o Aérospatiale AS350 foi submetido a um rigoroso programa de testes e ensaios em voo, cuja fase inicial revelou limitações na potência do motor norte-americano originalmente instalado. Para superar esse obstáculo, a equipe de engenharia optou pela substituição pelo motor francês Turbomeca Arriel 1B, que oferecia 641 shp e havia sido projetado especificamente para helicópteros leves. Essa decisão estratégica provou-se acertada, e o segundo protótipo, já equipado com o novo motor, realizou seu voo inaugural em 14 de fevereiro de 1975. Esse motor foi escolhido para a versão principal (AS350B) devido ao melhor desempenho em relação ao Lycoming, que era menos potente para certas condições. Durante os extensos ensaios, diversas melhorias técnicas foram implementadas, culminando na versão final de produção. Com o objetivo de atender aos padrões internacionais, três células do helicóptero foram produzidas para os processos de certificação. Em 1977, após obter as aprovações necessárias, o modelo, agora batizado como Aérospatiale AS350B Écureuil (Esquilo), foi lançado nos mercados europeu e norte-americano. Sua combinação de desempenho, confiabilidade e custos operacionais reduzidos rapidamente atraiu o interesse de operadores privados, resultando em uma crescente demanda. A partir de 1978, o Aérospatiale AS350 Écureuil consolidou sua presença com a celebração de contratos governamentais significativos nos dois continentes, especialmente para missões policiais e de socorro aeromédico. O sucesso no mercado civil e paramilitar incentivou a Aérospatiale a desenvolver uma variante militar, voltada principalmente para o treinamento e conversão de pilotos, com funções secundárias como transporte de autoridades (VIP), ligação e observação. Nascia assim o Aérospatiale AS350 BB uma variante específica do helicóptero AS350 Écureuil (atualmente Airbus Helicopters H125), projetada principalmente para atender às necessidades do mercado britânico, em particular para treinamento e operações específicas da Força Aérea Real do Reino Unido (RAF). Para atender aos requisitos de desempenho militar, essa versão foi equipada com o motor Turbomeca Arriel 1D, que entregava 684 shp, conferindo um desempenho ligeiramente superior ao da versão civil. O novo modelo foi configurado com controles duplos robustos e sistemas simplificados para facilitar o aprendizado de pilotos novatos. Inclui instrumentação adaptada para treinamento militar, com sistemas de navegação e comunicação compatíveis com os padrões da RAF. O Aérospatiale  AS350 BB foi selecionado em 1979 pela DHFS Defence Helicopter Flying School (DHFS) (hoje parte do sistema de treinamento do Reino Unido) para formar pilotos de helicóptero das Forças Armadas Britânicas. Após sua introdução passaria a substituir helicópteros mais antigos, como o Westland SA341 Gazelle, em programas de treinamento militar, além de oferecer uma plataforma versátil para outras missões civis e militares no Reino Unido. Operado pela FB Heliservices (atual Cobham Helicopter Services), foi usado extensivamente na base de Força Aérea Real (RAF) em  Shawbury. 

Assim, logo após a certificação internacional dos protótipos do AS-350, a Aérospatiale deu início aos estudos para o desenvolvimento de uma variante bimotora. A estratégia da empresa foi maximizar a padronização com o modelo monomotor, utilizando componentes e sistemas já testados, o que não apenas reduziu custos e prazos de desenvolvimento, mas também facilitou a integração na cadeia logística e de manutenção já estabelecida. Esse enfoque resultou em um processo de desenvolvimento ágil, culminando no primeiro voo do protótipo do AS-355 em 28 de setembro de 1979.O AS-355E Ecureuil 2 foi projetado para manter a essência do AS-350, mas com melhorias significativas voltadas para a segurança e o desempenho. A aeronave foi equipada com dois motores turboeixo Allison 250-C20F, cada um desenvolvendo 420 shp (cavalos de potência no eixo), que proporcionavam maior potência e redundância em comparação com o modelo monomotor. A escolha desses motores foi estratégica, pois eles já eram amplamente utilizados e reconhecidos pela confiabilidade, o que facilitava a manutenção e o fornecimento de peças. O sistema hidráulico de controle do AS-355E era simples, projetado para garantir uma operação eficiente sem comprometer a segurança. Essa característica foi particularmente apreciada por operadores que buscavam um equilíbrio entre desempenho e facilidade de manutenção. Durante os ensaios em voo, realizados logo após o primeiro voo do protótipo, a Aérospatiale identificou oportunidades de aprimoramento, resultando em pequenas modificações que foram incorporadas rapidamente ao projeto, garantindo a robustez do modelo antes da produção em série. A produção em série do AS-355E Ecureuil 2 marcou o início de uma nova fase para a família Ecureuil. A aeronave foi bem recebida no mercado, especialmente em setores que exigiam alta confiabilidade, como transporte de passageiros, operações médicas de emergência (HEMS) e missões policiais. A configuração bimotora permitia que o helicóptero operasse em condições mais exigentes, como voos sobre áreas urbanas densas ou corpos d’água, onde a segurança era uma prioridade absoluta.Posteriormente, a Aérospatiale lançou a versão AS-355F Ecureuil 2, que introduziu um sistema hidráulico duplo de controle, aprimorando ainda mais o desempenho e a segurança em voo. Essa evolução refletiu o compromisso da fabricante em atender às necessidades de operadores que buscavam maior sofisticação e robustez operacional. Ao final da década de 1980, o AS-355E e suas variantes já haviam conquistado um espaço significativo no mercado global. A combinação de segurança, desempenho e custos operacionais competitivos tornou o modelo uma escolha popular em diversos países. A padronização com o AS-350 permitiu que operadores se beneficiassem de uma cadeia de suprimentos consolidada, reduzindo os custos de manutenção e peças de reposição. Além disso, a crescente frota de helicópteros Ecureuil contribuiu para a criação de uma rede global de suporte técnico, o que reforçou a confiança no modelo.
O sucesso comercial do AS-355E também abriu portas para sua adaptação em missões militares. A Aérospatiale vislumbrou o potencial da aeronave bimotora em aplicações especializadas, como ataque ao solo, apoio aéreo aproximado, patrulha marítima, guerra antissubmarino (ASW), ataque antinavio (ASM) e busca e salvamento de combate (Combat-SAR).  O objetivo era transformar o helicóptero em uma plataforma capaz de operar em cenários exigentes, mantendo a eficiência operacional e a facilidade de manutenção características da família Ecureuil. As principais modificações incluíram: Reforços Estruturais e Blindagem: Para suportar as condições adversas de operações militares, o AS-355E recebeu reforços estruturais em sua fuselagem. Áreas críticas, como o grupo motriz e a cabine, foram protegidas com blindagem, incluindo piso e assentos blindados para os tripulantes, garantindo maior segurança em ambientes hostis. Motores Mais Potentes: A substituição dos motores originais Allison 250-C20F (420 shp cada) pelo Turbomeca Arriel 2-B, com 847 hp, foi uma das melhorias mais significativas. Aviônica Avançada: A aeronave foi equipada com sistemas aviônicos mais sofisticados, projetados para operações de combate. Isso incluía sistemas de navegação e comunicação compatíveis com missões táticas, além de preparação para integração de óculos de visão noturna (NVG) e sistemas de imageamento diurno e noturno, como câmeras térmicas e sensores infravermelhos. Sistemas de Defesa Passiva: Para aumentar a sobrevivência em cenários de combate, o AS-355E militar foi equipado com dispositivos de contramedidas, como dispensadores de chaff e flare, destinados a desviar mísseis guiados por calor ou radar. Armamento Modular: A aeronave foi adaptada para receber uma variedade de sistemas de armas, permitindo sua configuração para diferentes tipos de missões. Em 1992 um processo de fusão englobaria as divisões de produção de aeronaves de asas rotativas da empresa francesa Aérospatiale e da alemã Messerschmitt-Bölkow-Blohm, nascendo assim a European Aeronautic Defence and Space Company (EADS). Novamente seria adotada um sistemática de identificação diferente, renomeando as versoes militares como "Fennec" (Raposa), distinguindo assim da versão civil "Écureuil" (Esquilo). As versões de maior destaque seriam a AS550 C2 Fennec, AS550 U2 Fennec e AS550 C3 Fennec. Os primeiros contratos de exportação seriam celebrados ainda no ano de 1990, envolvendo entregas para as forças armadas da França, Argentina, Brasil, Colômbia, Argélia, Dinamarca, Emirados Árabes Unidos, Malásia, México, Singapura, Paquistao, Uberquistao e China (versão produzida localmente do Z-11). Esta família de aeronaves designada comercialmente em 2005 como Airbus H-125, permanece em produção contínua  até os dias atuais, acumulando mais de três mil e setecentas células entregues ao mercado civil, forças de segurança e também a mais de quarenta forças armadas militares ao redor do mundo. Apesar da idade da maioria das células remanescentes, constantes programas de retrofit estrutural e modernizações garantem que esta família de aeronaves de asas rotativas ainda se manterá na ativa por mais pelo menos  vinte e cinco anos.

Emprego na Marinha do Brasil.
A utilização  de aeronaves de asas rotativas na Aviação Naval teve sua gênese em 1952 com a criação da Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), tendo como seu primeiro vetor quatro anos mais tarde duas células do modelo Westland WS-51/2 Widegon. A seguir mais helicópteros de outros modelos  seriam incorporados, porém desde  meados da década de 1960, o comando da Aviação Naval da Marinha do Brasil reconheceu que a solução para os desafios logísticos relacionados à manutenção de sua frota de helicópteros passava pela criação de uma indústria nacional dedicada à fabricação de aeronaves de asas rotativas. Essa visão estratégica começou a ganhar forma com a fundação da Embraer S/A, em 1969, e avançou significativamente em 1973, quando o Instituto de Fomento Industrial do Centro Técnico Aeroespacial (IFI-CTA) assumiu a liderança na organização de um projeto para estabelecer uma empresa voltada à produção de helicópteros no Brasil. No que diz respeito às necessidades da Marinha do Brasil, os esforços iniciais concentraram-se na possibilidade de a Embraer produzir, sob licença, o helicóptero Aérospatiale-Westland Gazelle, uma aeronave consolidada no mercado internacional. Contudo, avaliações técnicas revelaram que as linhas de montagem da Embraer, otimizadas para aeronaves de asa fixa, não se adequavam à complexidade da fabricação de helicópteros. Diante desse obstáculo, o Instituto de Fomento Industrial do CTA, em parceria com a Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), passou a buscar alternativas no mercado global, iniciando contatos com diversos fabricantes de helicópteros e solicitando propostas para a produção local. Entre as empresas que responderam ao chamado, a francesa Aérospatiale destacou-se pela proatividade e visão estratégica. Inicialmente, a companhia propôs a produção de uma versão customizada do AS-315B Lama, um helicóptero robusto, mas já ultrapassado para as demandas brasileiras. Após análises, a escolha recaiu sobre o AS350 Écureuil, um modelo mais moderno, versátil e alinhado às necessidades operacionais da Marinha e do mercado civil. As negociações envolveram o governo federal, o governo do estado de Minas Gerais, a empresa Serviços Aerofotogramétricos Cruzeiro do Sul e a Aérospatiale. Esse processo culminou, em abril de 1978, na assinatura de um acordo histórico para a criação da Helicópteros do Brasil S/A (Helibras), uma empresa de capital misto com 45% de participação da Aérospatiale e 55% de capital brasileiro, distribuído entre a Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais, a Serviços Aerofotogramétricos Cruzeiro do Sul e a Minas Gerais Participações. A escolha da cidade de Itajubá, no interior de Minas Gerais, para a instalação da planta fabril foi estratégica, combinando incentivos econômicos, localização favorável e potencial para o desenvolvimento industrial regional. Como protagonista no apoio à criação da Helibras, a Marinha do Brasil posicionou-se naturalmente como um dos primeiros clientes da nova empresa. A primeira aeronave, registrada com a matrícula N-7051, foi submetida a testes de voo na França e entregue oficialmente a representantes da Marinha do Brasil em maio de 1979.

Em junho do mesmo ano, o helicóptero foi desmontado e transportado por via aérea ao Brasil, desembarcando no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, São Paulo. No local, foi recebido por oficiais do Grupo de Fiscalização e Recebimento de Helicópteros (GFRH), responsáveis por supervisionar o processo de incorporação. De Campinas, a aeronave foi transportada por via terrestre até o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos, onde a Helibras operava instalações provisórias.  Após a conclusão dessa etapa, o UH-12 foi submetido a um rigoroso programa de ensaios em voo, conduzido sob a supervisão da Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM). Esse processo, que visava garantir a conformidade técnica e a prontidão operacional da aeronave, estendeu-se por cinco meses, culminando na sua incorporação oficial ao 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (EsqdHU-1), sediado na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia, Rio de Janeiro, no final de 1979. As cinco aeronaves restantes previstas no contrato, com matrículas N-7052, N-7053, N-7054 e N-7055, foram montadas diretamente no Brasil, nas instalações da Helibras. Essas unidades foram incorporadas à frota da Aviação Naval até março de 1980, ampliando a capacidade operacional do EsqdHU-1. Na primeira metade da década de 1980, a Aviação Naval do Brasil, embora já operasse uma frota significativa de helicópteros, identificou a necessidade de incorporar aeronaves de asas rotativas bimotoras para atender às demandas de transporte e missões de emprego geral. Essa decisão foi motivada pela necessidade de superar as limitações operacionais observadas nos helicópteros Westland UH-2 Wasp e Helibras UH-12 Esquilo, especialmente no contexto do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). As condições extremas do ambiente antártico, marcadas por adversidades climáticas e meteorológicas, exigiam uma aeronave com maior segurança operacional, característica que somente um helicóptero bimotor poderia proporcionar de forma consistente. Com base nessa necessidade estratégica e após a liberação de recursos orçamentários, a Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) iniciou um processo meticuloso de avaliação das opções disponíveis no mercado internacional. Esse estudo foi conduzido em paralelo a outro processo de aquisição, voltado para a obtenção de helicópteros de transporte de médio porte. A Marinha priorizou propostas comerciais e técnicas que oferecessem uma solução integrada, capaz de atender de forma abrangente às demandas de ambas as categorias de aeronaves, otimizando recursos e garantindo eficiência operacional. Em setembro de 1984, a DAerM apresentou um relatório final que apontava a proposta da empresa francesa Aérospatiale como a mais vantajosa. O documento destacava dois modelos: o AS-332 Super Puma, para a categoria de transporte médio, e o AS-355 F2 Ecureuil 2, como a solução ideal para a necessidade de um helicóptero bimotor leve. A escolha refletia não apenas o desempenho técnico superior dos modelos, mas também a capacidade da Aérospatiale de oferecer um pacote completo, incluindo suporte logístico e manutenção, aspectos cruciais para operações em ambientes desafiadores como a Antártida.
As negociações avançaram rapidamente, culminando na assinatura de um  contrato firmado em março de 1985 entre o Ministério da Marinha do Brasil e a Aérospatiale, no âmbito do Programa Charcot, previa a aquisição de seis helicópteros AS-332 Super Puma e onze AS-355 F2 Ecureuil 2, este último com um custo unitário de US$ 1.543.096,00. As aeronaves AS-355 F2 foram encomendadas não apenas com a configuração padrão de aviônica, mas também equipadas com tecnologias avançadas para atender às exigências operacionais da Aviação Naval. Entre os sistemas embarcados, destacavam-se o moderno radar meteorológico Bendix 1400C e os avançados sistemas de rádio VHF/UHF e AM/FM AN/ARC-182, garantindo maior precisão e segurança em missões críticas. Adicionalmente, quatro das onze células foram entregues já com a pintura de alta visibilidade padrão antártico, adequada às operações no ambiente extremo da Antártida. O primeiro helicóptero AS-355 F2, designado pela Aviação Naval como UH-13, foi recebido em agosto de 1986 nas instalações da Aérospatiale em Marignane, França. A aeronave passou por uma rigorosa inspeção conduzida pelo Grupo de Fiscalização e Recebimento de Helicópteros (GFRH) antes de ser liberada. Posteriormente, todas as onze unidades foram transportadas por via naval ao Brasil, chegando à Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA), onde foram montadas por equipes técnicas da Helibras S/A em conjunto com mecânicos do 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (HU-1). Em um esforço coordenado, todas as aeronaves foram declaradas plenamente operacionais até o final de junho de 1987, marcando um avanço significativo na capacidade operacional da Aviação Naval. Apesar das diferenças técnicas em relação ao UH-12 Esquilo, a transição para o UH-13 foi conduzida de forma eficiente. O processo de qualificação dos pilotos e tripulantes do HU-1 transcorreu de maneira fluida, graças à familiaridade com a família Ecureuil e ao suporte técnico oferecido pela Aérospatiale e pela Helibras. Contudo, em 3 de junho de 1988, um lamentável acidente resultou na perda de uma célula do UH-13 Esquilo , que colidiu com as águas da Lagoa de Araruama, no Rio de Janeiro, durante uma aproximação para pouso na BAeNSPA. Apesar desse revés, a introdução do UH-13 na Aviação Naval seguiu como planejado, consolidando sua relevância em operações estratégicas. O UH-13 Esquilo provou seu valor logo em sua estreia operacional, com destaque para sua participação no Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). Em 17 de novembro de 1987, durante a Operação Antártica IV, o helicóptero foi embarcado no navio H-42 Barão de Teffé, onde permaneceu em operação até abril do ano seguinte. A partir dessa missão, o UH-13 tornou-se presença constante nas operações antárticas, inicialmente a bordo do H-42 e, posteriormente, no Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel (H-44). Sua configuração bimotora e os sistemas avançados garantiam segurança e eficiência em um dos ambientes mais desafiadores do planeta.

Além das missões antárticas, os UH-13 Esquilo foram amplamente empregados em apoio à Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), operando em diversos pontos do território nacional. Com uma capacidade de carga externa significativamente superior à do UH-12 Esquilo monomotor, o UH-13 destacou-se como a plataforma ideal para o transporte de equipamentos e materiais que excediam as limitações de seu antecessor. Essa versatilidade permitiu que o helicóptero desempenhasse um papel essencial em missões logísticas e de apoio, reforçando a capacidade operacional da Marinha do Brasil. Os helicópteros UH-13 Ecureuil 2, operados pelo 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (EsqdHU-1) da Marinha do Brasil, destacaram-se por sua versatilidade em uma ampla gama de missões, incluindo busca e salvamento, ligação e observação, remoção aeromédica e transporte logístico. A partir da década de 1990, esses helicópteros passaram a integrar, com crescente frequência, os destacamentos aéreos embarcados a bordo das fragatas e corvetas da Esquadra Brasileira, consolidando seu papel em operações marítimas. Durante esse período, em razão do programa de modernização dos helicópteros Westland SAH-11 Sea Lynx, os UH-13 Esquilo foram temporariamente embarcados nas fragatas da classe Niterói, desempenhando missões de esclarecimento marítimo e observação de tiro naval. Com o avanço da modernização dos Sea Lynx, essas atividades passaram a se concentrar, em grande parte, nas corvetas da classe Inhaúma, onde os UH-13 continuaram a demonstrar sua eficácia em operações embarcadas. Ao longo de sua trajetória operacional, a frota de UH-13 enfrentou desafios, incluindo a perda de duas células em acidentes. O primeiro incidente envolveu o UH-13 de matrícula N-7059, perdido em 5 de junho de 1987, na Lagoa de Araruama, RJ, conforme registrado anteriormente. Um segundo acidente ocorreu em dezembro de 1989, mas, anos mais tarde, essa célula foi reconstruída nas instalações da Helibras em Itajubá, Minas Gerais, e reintroduzida em serviço como um UH-12 (HB350 BA). Além disso, em 8 de dezembro de 2005, a aeronave de matrícula N-7061 foi doada à Armada Nacional do Uruguai, sendo rematriculada como Armada 071, demonstrando a cooperação internacional entre as forças navais. Os UH-13 também se destacaram como plataformas de armas, sendo empregados em missões de treinamento e em apoio a operações de desembarque do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). Um exemplo notável foi sua atuação na Campanha de Lançamento do Míssil AIM-9 Sidewinder, em conjunto com as aeronaves McDonnell Douglas AF-1/1A Skyhawk do 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1), onde os UH-13 Esquilo serviram como lançadores de alvos, contribuindo para o sucesso dos exercícios.
Apesar de sua comprovada eficiência, o desgaste operacional das células, agravado pelas rigorosas condições do ambiente marítimo, levou o comando da Força Aeronaval a iniciar estudos para a substituição das aeronaves de asas rotativas leves. Esse processo foi incorporado ao Programa Helicópteros de Emprego Geral de Pequeno Porte (UHP), desenvolvido pela Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM) a partir de 2015. O programa visava modernizar a frota, garantindo a continuidade das operações com maior eficiência e segurança, em resposta às demandas operacionais crescentes. O Programa Helicópteros de Emprego Geral de Pequeno Porte (UHP), concebido pela Diretoria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), demandava um planejamento detalhado e um orçamento significativo, o que implicava um cronograma extenso para sua implementação. Contudo, a urgência pela substituição dos helicópteros UH-13 Ecureuil 2, que haviam servido com distinção por mais de três décadas, tornou-se evidente. Essas aeronaves desempenharam um papel fundamental no Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), operando em um dos ambientes mais inóspitos do planeta. No entanto, após mais de trinta anos de serviço, a frota de UH-13 apresentava uma redução significativa no número de células operacionais, agravada pela obsolescência de seus sistemas aviônicos. Essa condição comprometia a segurança e a eficiência das operações, especialmente nas exigentes condições da Antártida.Diante desse cenário, a Marinha optou por avaliar oportunidades de aquisição no mercado internacional, uma estratégia que culminou na compra de três helicópteros Airbus H135 T3. Essa aquisição marcou o início do declínio da era operacional dos UH-13 Ecureuil 2. O processo de desativação gradual dessas aeronaves teve início durante a 38ª Operação Antártica (OPERANTAR XXXVIII), em 25 de outubro de 2019, quando duas unidades do UH-13 foram embarcadas no Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel (H44), que acompanhou o Navio Polar Almirante Maximiano (H41) em uma expedição ao continente antártico. O término dessa operação, em abril de 2020, marcou o fim de 32 anos de operação ininterrupta dos UH-13 no âmbito do PROANTAR. Esse momento abriu espaço para o início das operações com os novos Airbus UH-17, que passaram a assumir as responsabilidades antes desempenhadas pelos UH-13. Apesar da desativação no contexto antártico, as células remanescentes do UH-13, ainda operadas pelo 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral (EsqdHU-1), continuam em serviço, cumprindo missões variadas dentro do escopo da unidade. Essas aeronaves permanecerão ativas até que sejam plenamente substituídas por um novo vetor de asas rotativas, a ser selecionado no âmbito do Programa UHP. O legado dos UH-13 Ecureuil 2 na Aviação Naval brasileira é inegável. Por mais de três décadas, essas aeronaves foram pilares do PROANTAR e de outras operações, enfrentando desafios extremos com resiliência e confiabilidade. Sua substituição, embora necessária, marca o encerramento de uma era significativa, mas também sinaliza o compromisso da Marinha do Brasil com a modernização e a segurança de suas operações aeronavais.

Em Escala.
Para representar o helicóptero Aérospatiale AS355 F2 Ecureuil 2, designado pela Aviação Naval da Marinha do Brasil como UH-13 “MB 7065”, utilizamos um modelo artesanal confeccionado em resina, na escala 1/48 (ou possivelmente 1/50, conforme aparenta). Este modelo,  provavelmente derivado do kit original da Heller do AS-350, necessitou de algumas alterações para representar o modelo exato empregado na Marinha do Brasil.  Os exaustores laterais das turbinas foram ajustados, e dois exaustores adicionais foram incorporados na parte superior da aeronave, garantindo maior fidelidade à versão operacional. Além disso, os esquis de pouso foram substituídos pelos componentes originais do kit Heller. Para a aplicação das marcações, utilizamos decais do conjunto 48/07B da FCM Decals, que reproduzem com precisão os detalhes visuais do UH-13. No entanto, para corresponder à matrícula específica “MB 7065”, os numerais foram adaptados com decais provenientes de outros conjuntos, permitindo uma representação fiel e personalizada da aeronave.
O esquema de cores, baseado no padrão Federal Standard (FS), descrito a seguir, corresponde à pintura de alta visibilidade aplicada aos helicópteros Aérospatiale AS355 F2 Ecureuil 2, designados UH-13 Esquilo, utilizados no âmbito do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). Esse padrão foi desenvolvido para atender às exigências das operações no continente antártico, onde a visibilidade é essencial em meio ao ambiente predominantemente branco e inóspito. Por outro lado, as demais células do UH-13, não destinadas ao PROANTAR, adotavam o esquema de pintura padrão utilizado pelos helicópteros Helibras UH-12 Esquilo.


Bibliografia :
- Eurocopter AS 355  Wikipédia - http://en.wikipedia.org/wiki/Eurocopter_AS355
- O Tudão Esquadrão HU-1 – Revista Força Aérea Nº 70
- O Esquadrão HU-1 na OPERANTAR - https://www.marinha.mil.br/secirm/pt-br/proantar/aeronaval
Aeronaves Militares Brasileiras 1916 / 2015  - Jackson Flores Jr

Citroen 2 CV Charleston

Historia e Desenvolvimento
André Gustave Citroën, engenheiro e empresário francês de ascendência judaica holandesa e polonesa, figura entre os nomes mais influentes da história da indústria automotiva, tanto no contexto francês quanto no cenário internacional. Dotado de notável engenhosidade técnica, destacou-se ainda jovem pela invenção das engrenagens bi-helicoidais, conhecidas como espinha de peixe, solução mecânica que reduzia vibrações e ruídos e que se tornaria um símbolo duradouro de sua visão inovadora. Sua trajetória industrial teve início em 1912, quando fundou uma metalúrgica de porte modesto, inicialmente voltada à produção de componentes mecânicos e, posteriormente, de armamentos leves para a infantaria. O eclodir da Primeira Guerra Mundial, em 1914, representou um ponto de inflexão decisivo em sua carreira. A demanda crescente por material bélico impulsionou de forma extraordinária a expansão de sua empresa, que passou a ocupar posição estratégica como fornecedora do Estado francês. Ao longo do conflito, a metalúrgica de Citroën ampliou rapidamente sua capacidade produtiva, fabricando uma vasta gama de peças e componentes essenciais ao esforço de guerra e consolidando uma infraestrutura industrial de grande escala. Com o fim das hostilidades, em 1918, sobreveio um novo desafio. A brusca interrupção das encomendas militares deixou a empresa com elevada capacidade produtiva ociosa, exigindo uma redefinição urgente de seu modelo de negócios. Foi nesse contexto que André Citroën demonstrou, mais uma vez, sua extraordinária visão empreendedora. Aproveitando a experiência adquirida na produção em série durante o conflito, ele redirecionou seus esforços para o nascente mercado de automóveis de passeio, lançando, no segundo semestre de 1919, o Citroën Type A, o primeiro automóvel produzido em larga escala na França. Robusto, simples e relativamente acessível, o Type A obteve sucesso imediato junto ao público francês, simbolizando o início da motorização de amplas camadas da sociedade. Entretanto, o rápido avanço tecnológico do setor logo impôs novos desafios. Concorrentes passaram a abandonar as tradicionais carrocerias com estruturas de madeira, adotando soluções construtivas mais modernas, o que fez com que os primeiros modelos da Citroën se tornassem visualmente ultrapassados em pouco tempo. Longe de se acomodar, André Citroën voltou-se novamente à inovação como instrumento de sobrevivência e diferenciação. Em 1928, sua empresa tornou-se pioneira na Europa ao introduzir veículos com carroceria integralmente metálica, um avanço técnico que elevou significativamente os padrões de segurança, durabilidade e produção industrial. Esse movimento culminaria, poucos anos depois, no lançamento de um dos automóveis mais revolucionários do século XX: o Citroën Traction Avant. Apresentado no início da década de 1930, o Traction Avant incorporava três inovações fundamentais até então inéditas em conjunto: estrutura monobloco, suspensão independente nas rodas dianteiras e tração dianteira. Essas soluções técnicas, verdadeiramente disruptivas para a época, redefiniram os paradigmas da engenharia automotiva e estabeleceram um novo padrão construtivo que influenciaria gerações futuras de veículos, incluindo modelos emblemáticos como o Mini e o Volkswagen Golf, além de permanecerem presentes, sob diferentes formas, na grande maioria dos automóveis modernos.

Paradoxalmente, o extraordinário avanço tecnológico representado pelo Traction Avant teve um custo elevado. Os vultosos investimentos necessários para seu desenvolvimento comprometeram a saúde financeira da empresa. Em 1934, diante de uma situação econômica insustentável, a Citroën declarou falência e foi adquirida por seu principal credor, a fabricante de pneus Michelin. Apesar desse revés, o Traction Avant revelou-se um notável sucesso comercial. A excelente aceitação do modelo pelo mercado gerou volumes expressivos de vendas e rentabilidade, permitindo não apenas a recuperação financeira da empresa, mas também a consolidação definitiva da marca Citroën no mercado francês e a expansão de sua influência por toda a Europa. Assim, o legado de André Citroën ultrapassou os limites de sua própria trajetória empresarial, afirmando-se como um dos pilares da moderna indústria automotiva mundial. O Citroën 2CV foi oficialmente apresentado ao público no Salão do Automóvel de Paris de 1948, em um momento em que a Europa ainda enfrentava os desafios da reconstrução no pós-Segunda Guerra Mundial. Concebido para responder às necessidades de mobilidade de uma sociedade que buscava soluções simples, econômicas e confiáveis, o 2CV materializava um conceito inovador ao aliar funcionalidade, baixo custo e extrema simplicidade construtiva. Equipado inicialmente com um motor bicilíndrico de 375 cm³, refrigerado a ar, capaz de desenvolver 9 cavalos de potência, o modelo causou impacto imediato não apenas por sua proposta técnica, mas também por seu estilo singular e deliberadamente espartano. A reação inicial da imprensa refletiu esse estranhamento: um jornalista norte-americano, ao observar o veículo, teria ironizado ao perguntar “onde está o abridor de latas?”, comentário que ilustra a surpresa causada por um automóvel que rompia conscientemente com os padrões estéticos da época. Com o passar do tempo, porém, a combinação de economia, simpatia e praticidade conquistou o público europeu, transformando o 2CV em um verdadeiro ícone cultural. Com peso aproximado de 560 kg, o 2CV compensava sua potência modesta com uma notável leveza, oferecendo desempenho compatível com sua proposta essencialmente utilitária. A designação “deux chevaux” (dois cavalos) não fazia referência direta à potência real do motor, mas à potência fiscal, enquadrando o veículo em uma categoria tributária favorecida pelas políticas governamentais francesas de incentivo aos automóveis populares. Essa estratégia tornou o 2CV especialmente acessível, contribuindo para sua ampla disseminação em um continente que buscava reconstruir sua infraestrutura e sua vida cotidiana. Atenta às demandas do mercado por melhor desempenho, a Citroën introduziu, em 1954, uma versão aprimorada equipada com um motor de 425 cm³, capaz de entregar 12 cavalos de potência e alcançar uma velocidade máxima em torno de 80 km/h. Nesse mesmo período, foi lançada a versão furgão do 2CV, destinada ao transporte de pequenas cargas em áreas urbanas. Essa variante revelou-se particularmente versátil e ampliou significativamente o espectro de utilização do modelo, contribuindo para o aumento de sua popularidade. O êxito comercial levou a Citroën a expandir a produção do 2CV a partir de 1957, com a implantação de linhas de montagem em subsidiárias no Camboja e na Espanha, marcando o início de sua verdadeira internacionalização. 
Em 1958, a marca apresentou uma das versões mais singulares da família: o 2CV Sahara, um modelo tecnicamente ousado, dotado de dois motores de 425 cm³, tração nas quatro rodas e potência combinada de 24 cavalos, capaz de atingir cerca de 100 km/h. Embora sua produção só tenha se iniciado em 1960, estendendo-se até 1966 com aproximadamente 700 unidades fabricadas, o Sahara destacou-se por sua capacidade de operar em terrenos difíceis, consolidando a imagem de robustez e engenhosidade associada ao 2CV. A expansão global do modelo prosseguiu ao longo da década de 1960. A produção foi iniciada em Portugal em 1964 e, posteriormente, estendida à América do Sul, por meio de acordos de montagem no regime CKD (completely knocked down) em países como Paraguai, Uruguai e Equador, ampliando ainda mais a presença internacional do veículo. O preço competitivo foi um dos principais fatores responsáveis pelo sucesso do 2CV. Na Alemanha Ocidental, durante a década de 1950, o modelo era vendido por aproximadamente metade do valor de um Volkswagen Fusca, consolidando sua posição no segmento de automóveis econômicos. Contudo, nesse mesmo período, a concorrência tornou-se mais acirrada, com o surgimento de veículos compactos como o alemão Messerschmitt KR175 e o italiano Isetta, que disputavam o mesmo público. Ainda assim, a combinação singular de acessibilidade, durabilidade e carisma assegurou ao Citroën 2CV um lugar especial na memória coletiva e na história da indústria automotiva. Mais do que um simples meio de transporte, o 2CV tornou-se um símbolo de engenhosidade prática e de democratização da mobilidade, deixando um legado duradouro que transcende gerações. Ao longo da década de 1960, o Citroën 2CV passou a enfrentar um ambiente competitivo cada vez mais desafiador no mercado automotivo europeu. Modelos como o Simca 100, desenvolvido a partir de tecnologia licenciada da Fiat, e o Renault 4, primeiro hatchback de grande produção da marca francesa, conquistaram rapidamente a preferência de parcelas significativas do público, especialmente no mercado francês. A esses concorrentes somavam-se os chamados “microcarros”, entre eles o Messerschmitt KR175 e o Isetta, que atraíam consumidores por seus preços reduzidos, ainda que oferecessem desempenho, conforto e capacidade de transporte claramente inferiores aos do 2CV. Apesar desse cenário adverso, o Citroën 2CV conseguiu preservar sua relevância comercial. Sua robustez mecânica, baixo consumo, facilidade de manutenção e um carisma singular, construído ao longo de anos de presença nas estradas europeias, sustentaram sua posição como um veículo confiável e acessível. Mais do que um produto, o 2CV já havia se consolidado como um símbolo cultural, capaz de atravessar transformações de mercado sem perder sua identidade essencial. Paralelamente ao uso civil, o 2CV encontrou um nicho inesperado no meio militar, onde suas qualidades de simplicidade, leveza e resistência revelaram-se particularmente valiosas. Em 1961, a Marinha Real Britânica (Royal Navy) adquiriu 65 unidades do modelo, incluindo versões convencionais e picape, destinadas ao emprego pelos Regimentos de Comandos dos Fuzileiros Reais (Royal Marines). 

A decisão foi motivada, sobretudo, pelo reduzido peso do veículo  cerca de 560 kg , que permitia seu transporte por helicópteros embarcados em porta-aviões, característica especialmente relevante para operações em ambientes hostis, como regiões de selva e áreas litorâneas remotas. O desempenho do Citrone 2CV em condições adversas superou as expectativas, rendendo avaliações positivas e demonstrando sua capacidade de operar de forma confiável em cenários para os quais, à primeira vista, não havia sido concebido. Esse êxito no serviço britânico serviu de referência e impulsionou sua adoção pelas Forças Armadas Francesas, que passaram a empregar o modelo em múltiplas funções. O Exército Francês (Armée de Terre), a Força Aérea (Armée de l’Air) e a Marinha Nacional (Marine Nationale) incorporaram o 2CV em configurações variadas, incluindo transporte de pessoal, furgão utilitário e ambulância. Em diversos casos, as viaturas foram adaptadas para missões específicas, refletindo a flexibilidade da plataforma. Algumas unidades receberam equipamentos de reconhecimento armado, sendo dotadas de metralhadoras Browning M2 calibre .50 ou AANF1 calibre .30 ; outras foram configuradas como veículos de comando, equipados com sistemas de rádio; e houve ainda versões adaptadas para o emprego de canhões sem recuo de 106 mm. Essas aplicações pouco convencionais reforçaram a reputação do 2CV como um veículo extraordinariamente adaptável, capaz de atender a exigências operacionais diversas com soluções simples e eficazes. No final da década de 1970, a experiência acumulada levou o Exército Francês (Armée de Terre) a solicitar à Citroën o desenvolvimento de uma versão militar dotada de tração nas quatro rodas, capaz de ampliar ainda mais o desempenho fora de estrada. O resultado desse esforço foi o Citroën Méhari 4x4, um utilitário leve concebido especificamente para operações cross-country. O modelo apresentava carroceria metálica e era equipado com um motor bicilíndrico de 652 cm³, refrigerado a ar, dotado de ignição eletrônica integral, capaz de desenvolver 34 cv a 5.750 rpm e 36 lb.ft de torque a 3.500 rpm, valores modestos, porém suficientes para assegurar confiabilidade e mobilidade em terrenos variados. Cerca de 400 unidades do Méhari 4x4 foram adquiridas pelas Forças Armadas Francesas, permanecendo em serviço ativo até meados da década de 1990. Este modelo teve emprego operacional real, porém limitado e de baixa intensidade, compatível com a natureza do veículo e com a doutrina militar francesa do período, sendo operado pelas forças coloniais francesas na África Francófona (Chade, Djibouti,  República Centro-Africana e Gabão). Seriam empregados por tropas de infantaria leve,  unidades de reconhecimento e forças de guarnição colonial, em  tarefas de patrulhamento armado, ligação entre unidades, reconhecimento, escolta leve e  transporte rápido de pequenas equipes.  Em diversas ocasiões, essas missões envolveram contato hostil esporádico, emboscadas de baixa intensidade e presença armada dissuasiva, caracterizando emprego em ambiente de combate, ainda que não em batalhas convencionais. Este modelo veria ainda ação real em territórios Ultramarinos Franceses como Nova Caledônia, Polinésia Francesa e  Guiana Francesa, com destaque para este último, onde o veiculo  foi empregado em patrulhas de fronteira, ações contra garimpo ilegal, vigilância territorial e apoio a forças de segurança, ambientes nos quais o risco armado era real, embora intermitente.
Nas décadas de 1960 e 1970, o Citroën 2CV reafirmou de forma definitiva sua vocação para a versatilidade ao ser incorporado por diversas forças armadas, sobretudo em países africanos, muitos deles então recém-independentes e ligados à França por laços históricos, políticos e logísticos. Nesses contextos, o modelo destacou-se como um meio de transporte confiável e econômico, sendo empregado em funções variadas que iam do deslocamento de pessoal e material leve até tarefas de patrulhamento e apoio tático. Sua simplicidade construtiva, aliada à robustez mecânica e à facilidade de manutenção em ambientes com infraestrutura limitada, tornava-o particularmente adequado às exigências desses teatros operacionais. A trajetória industrial do 2CV teve início em 1948 e estendeu-se por mais de quatro décadas, encerrando-se oficialmente em julho de 1990, quando a última unidade deixou a linha de montagem da fábrica portuguesa da Citroën, em Mangualde. A cerimônia que marcou esse momento simbolizou o fim de uma era na história da marca. Ao longo desse período, a família 2CV ultrapassou a expressiva marca de cinco milhões de unidades produzidas, consagrando-se não apenas como o modelo mais popular da Citroën, mas também como um dos automóveis mais emblemáticos da história da indústria automobilística mundial. Entre as diversas derivações do projeto original, merece destaque o Citroën Méhari, produzido sob licença pela empresa Nordex, no Uruguai. Essa versão apresentava características próprias, moldadas pelas condições industriais e pelas necessidades regionais. Equipado exclusivamente com tração dianteira, o Méhari uruguaio utilizava componentes mecânicos fornecidos pela Citroën Argentina e uma carroceria confeccionada em plástico reforçado com fibra de vidro. Essa solução técnica, mais simples e economicamente viável, dispensava os sofisticados processos de moldagem por injeção empregados na França, evidenciando a capacidade da Citroën de adaptar seus projetos a diferentes realidades produtivas sem abdicar dos princípios de funcionalidade e acessibilidade que caracterizavam o 2CV. Para além de seu papel como veículo utilitário, o Citroën 2CV transcendeu o universo automobilístico e consolidou-se como um símbolo cultural, especialmente na Europa das décadas de 1950 e 1960. Sua imagem foi imortalizada na cultura popular por meio de obras consagradas, como As Aventuras de Tintim, do cartunista belga Hergé. No álbum O Caso Girassol, o 2CV surge conduzido pelos célebres detetives Dupond e Dupont, reforçando sua associação com o cotidiano europeu da época. Esse carisma foi ainda celebrado em iniciativas como uma edição especial dos chocolates Côte d’Or, que reuniu personagens de Tintim e modelos clássicos da Citroën, testemunhando o profundo enraizamento do automóvel no imaginário coletivo. Concebido originalmente como um veículo popular destinado a atender às necessidades de mobilidade do pós-guerra, o 2CV revelou-se, ao longo do tempo, muito mais do que um simples meio de transporte. Tornou-se um ícone de resiliência, engenhosidade e empatia social, capaz de se adaptar a contextos tão distintos quanto o uso civil cotidiano e o emprego militar. Sua longevidade, aliada à simplicidade e à durabilidade, assegurou-lhe um legado singular. Assim, o Citroën 2CV permanece não apenas como um automóvel marcante, mas como uma expressão duradoura do espírito inovador da Citroën e de sua capacidade de transformar limitações em virtudes, deixando uma marca indelével na memória de gerações.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
O Citroën 2CV, consagrado internacionalmente como um símbolo de simplicidade, economia e versatilidade, teve uma participação pouco conhecida, porém significativa, no contexto militar brasileiro. Durante a década de 1950, o modelo foi empregado de forma temporária tanto pelo Exército Brasileiro quanto pela Força Aérea Brasileira, em circunstâncias diretamente influenciadas por acontecimentos geopolíticos de grande repercussão internacional, em especial a Crise do Canal de Suez, deflagrada em 1956. A origem desse episódio remonta à decisão do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, que, em julho daquele ano, anunciou a nacionalização do Canal de Suez. A medida foi adotada como resposta à recusa dos Estados Unidos e do Reino Unido em financiar a construção da Barragem de Aswan, após avaliarem com desconfiança a crescente aproximação do Egito com países do bloco socialista, como a União Soviética e a Tchecoslováquia. A nacionalização do canal representou um gesto de afirmação da soberania egípcia e marcou um ponto de inflexão na história do Oriente Médio e da política internacional do pós-guerra, produzindo reflexos que se estenderam muito além da região, inclusive na reorganização logística e militar de diversos países. O Canal de Suez, com aproximadamente 163 quilômetros de extensão, ligando o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, foi construído entre 1859 e 1869 e constituiu-se em uma das mais importantes obras de infraestrutura do século XIX. Seu custo humano foi elevado: estima-se que mais de 120 mil trabalhadores egípcios tenham perdido a vida durante sua construção, muitos em decorrência de epidemias como a cólera. Originalmente sob controle conjunto do Egito e da França, o canal tornou-se rapidamente uma artéria vital para o comércio mundial, ao permitir uma ligação direta entre a Europa e a Ásia, dispensando a longa navegação ao redor do Cabo da Boa Esperança. Em 1879, assolado por graves dificuldades financeiras, o Egito foi compelido a vender sua participação no canal ao Reino Unido, que, poucos anos depois, em 1882, enviou tropas à região com o objetivo de proteger seus interesses estratégicos. Essa presença militar consolidou a influência britânica no Egito e aprofundou o caráter colonial da administração do canal, situação que perduraria até meados do século XX. Nesse contexto histórico, ganhou força o movimento conhecido como nacionalismo árabe ou arabismo, que defendia a unificação política e cultural dos povos árabes, do norte da África ao Oriente Médio. Embora de caráter idealista e difícil execução prática, essa corrente encontrou amplo respaldo popular nas décadas de 1950 e 1960, sobretudo sob a liderança carismática de Nasser. Valendo-se de meios de comunicação modernos para a época, como o rádio portátil, o líder egípcio conseguiu difundir sua mensagem mesmo nas regiões mais remotas do mundo árabe, articulando discursos centrados na soberania nacional, na justiça social e na oposição à influência colonial ocidental.A nacionalização do Canal de Suez acentuou as tensões internacionais, alinhando Grã-Bretanha, França e Israel em oposição direta ao Egito. 

Para grande parte do mundo árabe, a criação do Estado de Israel era percebida como uma herança do colonialismo europeu, o que transformou o confronto com o novo país em um dos pilares ideológicos do nacionalismo árabe. Embora inicialmente tenha projetado Nasser como um líder regional de grande prestígio, a Crise do Suez e os conflitos que se seguiram acabaram por expor os limites de sua estratégia política e militar. A nacionalização do Canal de Suez, anunciada pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser em julho de 1956, desencadeou uma das crises internacionais mais significativas do século XX, cujos desdobramentos ultrapassaram o Oriente Médio e repercutiram profundamente na ordem geopolítica global do pós-guerra. A decisão de Nasser foi motivada pela recusa dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha em financiar a construção da Barragem de Aswan, considerada estratégica para o desenvolvimento econômico do Egito. Diante desse impasse, o líder egípcio decretou lei marcial na região do canal e assumiu o controle da Companhia do Canal de Suez, apostando que as receitas provenientes dos pedágios cobrados das embarcações permitiriam financiar integralmente a obra em um período estimado de cinco anos. A medida causou profunda inquietação em Londres e Paris, que viam no Canal de Suez não apenas um ativo econômico, mas uma artéria vital para o abastecimento de petróleo do Golfo Pérsico destinado à Europa. O temor de um eventual fechamento do canal ou de sua utilização como instrumento de pressão política levou Grã-Bretanha e França a interpretarem a nacionalização como uma ameaça direta a seus interesses estratégicos e à sua influência histórica na região. Diante do fracasso das iniciativas diplomáticas para solucionar a crise, Grã-Bretanha, França e Israel articularam uma ação militar conjunta, lançada em outubro de 1956. As forças israelenses invadiram a Península do Sinai, servindo de pretexto para a intervenção anglo-francesa, que, sob o argumento de garantir a segurança da navegação internacional, promoveram desembarques militares em portos egípcios no mês seguinte. No entanto, a operação encontrou forte resistência política e diplomática, tanto no plano interno  com manifestações contrárias à guerra nos próprios países europeus envolvidos  quanto no cenário internacional, sob a pressão direta da Organização das Nações Unidas (ONU) e da União Soviética. A chamada Crise do Canal de Suez tornou-se, assim, um marco decisivo na história das relações internacionais, evidenciando o declínio da influência colonial europeia e a ascensão de novas potências no sistema internacional. Como resposta à escalada do conflito, a ONU criou, ainda em 1956, sua primeira missão de manutenção da paz: a Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF-Suez), conhecida no Brasil como FENU-Suez, com a finalidade de separar as forças em confronto, supervisionar os cessar-fogos e restaurar a estabilidade na região. O Brasil, na condição de membro ativo da ONU, foi convidado a integrar a comissão internacional de estudos sobre o conflito, desempenhando papel relevante nos esforços diplomáticos que culminaram na desescalada da crise. 
Em dezembro de 1956, sob supervisão das forças da ONU, iniciou-se a retirada das tropas britânicas e francesas, enquanto as forças israelenses completaram sua evacuação em março de 1957. Esse desfecho representou uma derrota política e diplomática para as potências invasoras, consolidando a autoridade da ONU como mediadora de conflitos internacionais. Além de sua atuação diplomática, o Brasil contribuiu de forma concreta com o envio de um contingente militar ao Oriente Médio, reafirmando seu compromisso com a paz e a segurança coletivas. O efetivo brasileiro, composto por militares oriundos de diversas regiões do país, contou com expressiva participação do Rio Grande do Sul, estado tradicionalmente reconhecido por sua forte cultura e formação militar. Dos vinte contingentes que integraram o Batalhão de Infantaria brasileiro, posteriormente conhecido como Batalhão Suez, três foram provenientes daquele estado, evidenciando sua relevância no esforço nacional. Integrado à UNEF, o Batalhão Suez tornou-se um símbolo da presença brasileira em missões de paz internacionais, representando não apenas a contribuição militar do país, mas também sua vocação diplomática e seu alinhamento aos princípios do multilateralismo. A participação brasileira na Crise de Suez consolidou-se, assim, como um capítulo significativo da história militar e diplomática nacional, inserindo o Brasil de forma mais assertiva no cenário internacional do pós-Segunda Guerra Mundial. Entre janeiro de 1957 e julho de 1967, o Brasil exerceu um papel relevante e contínuo no âmbito da Força de Emergência das Nações Unidas no Egito (UNEF-Suez), contribuindo com o envio de vinte contingentes militares ao teatro de operações como parte de uma missão multinacional de manutenção da paz. A presença brasileira teve início em fevereiro de 1957, quando as primeiras tropas do Exército Brasileiro desembarcaram no Oriente Médio, integrando uma força internacional composta por militares de dez nações: Brasil, Canadá, Colômbia, Dinamarca, Finlândia, Índia, Indonésia, Iugoslávia, Noruega e Suécia. Os contingentes participantes da UNEF foram formados integralmente por unidades militares nacionais, mantendo suas estruturas orgânicas, tradições e doutrinas próprias. O material empregado refletia a diversidade de origens dos países integrantes, sendo o equipamento padronizado de acordo com a disponibilidade logística fornecida pelas nações colaboradoras e pelas próprias Nações Unidas. Nesse contexto, destacaram-se veículos de procedência norte-americana amplamente difundidos no pós-Segunda Guerra Mundial, como os blindados Ford M-8 Greyhound e Ford M-20 Command Car, além de Jeeps Willys MB e Ford GPW, viaturas Dodge das séries WC-52, WC-53 e WC-56, o utilitário Ford M-151 MUTT, caminhões britânicos Bedford e carros blindados de reconhecimento Coventry Armoured Car Mk. I. A contribuição brasileira no campo logístico incluiu a utilização de caminhões FNM D-11000 e viaturas leves Volkswagen Kombi, enquanto a França forneceu à missão veículos da família Citroën 2CV, abrangendo versões sedan, picape e ambulância.  Após avaliação técnica realizada pela Comissão de Material das Nações Unidas, o Citroën 2CV Charleston foi selecionado como o principal veículo destinado às tarefas administrativas da Força de Emergência das Nações Unidas no Egito (UNEF-Suez), em razão de sua simplicidade mecânica, confiabilidade e baixo consumo. Ao todo, noventa unidades foram cedidas pelo governo francês, provenientes dos estoques do Exército Francês (Armée de Terre), sendo posteriormente distribuídas entre os dez países participantes da missão.  O contingente brasileiro recebeu nove viaturas Citroën 2CV, distribuídas da seguinte forma: seis veículos na versão sedan, uma ambulância e duas picapes. Destas, duas viaturas foram destinadas à Polícia do Exército (PE), cinco ao Exército Brasileiro e uma à Força Aérea Brasileira (FAB), que mantinha um destacamento administrativo permanente na região. 
Esse destacamento desempenhou papel fundamental no apoio logístico da missão, destacando-se pela manutenção de uma ponte aérea regular de correio entre o Brasil e o Egito, essencial para assegurar a comunicação, o fluxo administrativo e o apoio moral às tropas desdobradas. Embora não existam registros oficiais conclusivos que confirmem o emprego sistemático das ambulâncias Citroën 2CV em missões médicas pela força brasileira, a presença do modelo no inventário da Força de Emergência das Nações Unidas no Egito (UNEF-Suez)evidencia sua adequação às exigências operacionais do teatro de operações. Leve, robusto e de manutenção simplificada, o 2CV demonstrou capacidade de adaptação a um ambiente desértico e operacionalmente complexo, superando sua concepção original como automóvel popular de uso civil. A participação brasileira na Força de Emergência das Nações Unidas no Egito (UNEF-Suez), apoiada por um conjunto heterogêneo de meios materiais e humanos, constituiu um marco na história militar e diplomática do país. O Citroën 2CV Charleston, com seu design singular e desprovido de paralelos com os veículos disponíveis no Brasil na década de 1950, despertou imediata curiosidade entre os militares brasileiros que participaram da Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF-Suez). Sua estética incomum, aliada à simplicidade de condução, conquistou os oficiais, que, apesar da modesta potência de seu motor, elogiaram sua funcionalidade. Um dos destaques do modelo era seu teto removível de lona, que oferecia praticidade e ventilação em um ambiente tão hostil quanto o deserto egípcio. A robustez do 2CV, equipado com um confiável motor boxer refrigerado a ar, revelou-se ideal para as condições desafiadoras da região, com poucos registros de falhas mecânicas, comprovando sua adequação às exigências do teatro de operações. Durante quase uma década, de 1957 a 1967, os Citroën 2CV Charleston e suas variantes — incluindo sedans, picapes e ambulâncias — serviram às forças brasileiras na UNEF-Suez, desempenhando tarefas administrativas essenciais para o funcionamento da missão multinacional de paz. Embora seu papel fosse modesto, esses veículos contribuíram significativamente para a logística da operação, apoiando os esforços de uma força composta por dez nações em um período de grande instabilidade no Oriente Médio. Os militares brasileiros, conhecidos como “boinas azuis”, enfrentaram condições extremas na Faixa de Gaza, incluindo calor escaldante, tempestades de areia e a constante ameaça de minas terrestres, enquanto patrulhavam incansavelmente as fronteiras entre Israel e Egito. Em meio a tamanha tensão, o 2CV se destacou como um aliado confiável, facilitando a mobilidade e a comunicação em um cenário de incertezas. Ao término da participação brasileira na missão, em julho de 1967, os Citroën 2CV, assim como os demais equipamentos utilizados pelas nações envolvidas, foram deixados no Egito. Não há registros oficiais que esclareçam seu destino final — se foram incorporados às forças armadas egípcias ou simplesmente abandonados. Contudo, o legado desses veículos transcende sua presença física. O 2CV, inicialmente projetado como um carro popular para o público civil, revelou-se um símbolo de resiliência e adaptabilidade, desempenhando um papel humilde, mas valioso, em uma missão dedicada a promover lampejos de paz em uma região marcada por conflitos. A história do Citroën 2CV na UNEF-Suez reflete não apenas a versatilidade de um ícone automotivo, mas também o compromisso brasileiro com a cooperação internacional e a busca por estabilidade em um mundo dividido.

Em Escala.
Para representarmos o Citroen 2CV Charleston em serviço ao Exército Brasileiro durante sua participação na FENU- SUEZ (Força de Emergência das Nações Unidas), empregamos o excelente kit da Revell presente na escala 1/24. Não há necessidade de se proceder nenhuma alteração para se  compor a versão utilizada pelo Brasil. Empregamos decais na escala 1/35 confeccionados sob encomenda pela Eletric Products , presentes no Set “Suez - 1957 / 1967".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura padrão empregado em todos os veículos participantes das Forças de Paz da ONU (Organização das Nações Unidas), durante a crise do Canal de Suez. Somente os carros pertencentes a Policia Militar do Exército Brasileiro (PE) apresentavam diferenças sutis neste esquema de pintura.
Bibliografia: 
- Citroën 2 CV vai completar 70 anos - https://jornaldocarro.estadao.com.br
- Citroen 2 CV Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/Citro%C3%ABn_2CV
- Citroen 2 Cv  – http://www.citroenet.org.uk/
- Batalhão Suez -   http://www.batalhaosuez.com.br