PV-2 Lockheed Harpoon B-34A

História e desenvolvimento.
Fundada em 1912 pelos irmãos Allan e Malcolm Lockheed na cidade de San Diego, Califórnia, a Lockheed Aircraft Manufacturing Company iniciou suas atividades dedicando-se à produção de aeronaves de pequeno porte voltadas principalmente para o turismo aéreo e o treinamento civil. Desde seus primeiros anos, a empresa destacou-se pela adoção de soluções técnicas inovadoras, o que lhe permitiu conquistar gradualmente espaço em um setor ainda em processo de consolidação. Entretanto, o término da Primeira Guerra Mundial em novembro de 1918, trouxe sérias dificuldades para grande parte da indústria aeronáutica mundial. A desmobilização de milhares de aeronaves militares, que passaram a ser vendidas como excedentes no mercado civil a preços reduzidos, provocou uma saturação do setor e reduziu drasticamente a demanda por novas aeronaves. Esse cenário adverso levou ao fechamento de diversas empresas do ramo, entre elas a própria Lockheed Aircraft Manufacturing Company, obrigando os irmãos Lockheed a buscar novas oportunidades profissionais fora da indústria aeronáutica. Determinado a retomar seu projeto empresarial, Allan Lockheed reuniu-se novamente com um grupo de engenheiros e colaboradores em 1926, entre eles John Knudsen Northrop, Kenneth Kay e Fred Keeler, para fundar uma nova companhia: a Lockheed Aircraft Company, estabelecida em Hollywood, Califórnia. Com o apoio de investidores privados, a empresa passou a desenvolver uma aeronave avançada para a época, o Lockheed Vega, cujo projeto incorporava diversas soluções técnicas derivadas do modelo experimental S-1. O sucesso comercial do Vega foi imediato e significativo. A aeronave destacou-se por sua robustez, desempenho e confiabilidade, sendo rapidamente adotada por companhias aéreas e por pilotos que buscavam estabelecer novos recordes de distância e velocidade. Esse êxito levou a empresa a transferir sua sede para Burbank, Califórnia, em 1928. Nesse mesmo período, a Lockheed alcançou a marca de um milhão de dólares em vendas anuais, operando uma linha de montagem que empregava mais de trezentos trabalhadores e produzia até cinco aeronaves por semana um ritmo expressivo para os padrões da indústria aeronáutica da época. Em julho de 1929, Fred Keeler, então principal acionista da companhia, vendeu 87% das ações da Lockheed para a Detroit Aircraft Corporation, iniciativa que fazia parte de um ambicioso plano de expansão industrial. Contudo, poucos meses depois, a economia mundial foi profundamente abalada pela Great Depression, que provocou a retração de investimentos e a falência de diversas empresas ligadas ao setor aeronáutico. Nesse contexto, a Lockheed enfrentou sérias dificuldades financeiras, culminando em sua insolvência. Em 1932, durante o processo de liquidação judicial da empresa, a companhia foi adquirida por um grupo de investidores liderado pelos irmãos Robert E. Gross e Courtland S. Gross, com a participação do empresário Walter T. Varney. Essa aquisição marcou o início de uma nova fase de recuperação e reestruturação administrativa e tecnológica. Sob essa nova gestão, a empresa rapidamente recuperou a confiança do mercado ao lançar o Model 10 Electra, uma aeronave moderna para sua época, construída inteiramente em metal e projetada para transportar até dez passageiros. O modelo destacou-se por seu desempenho e confiabilidade, tornando-se um importante marco no desenvolvimento da aviação comercial.

Com o objetivo de ampliar sua presença no mercado de aeronaves de transporte de médio porte, a Lockheed Aircraft Corporation iniciou o desenvolvimento do Lockheed Model 14 Super Electra, um projeto concebido com fuselagem alongada e capacidade para transportar até quatorze passageiros. A nova aeronave foi projetada para competir diretamente com o Douglas DC-2, então considerado um dos principais aviões comerciais em operação no mercado internacional. Contudo, análises operacionais realizadas após sua introdução indicaram que os custos de operação e manutenção do Super Electra eram superiores aos de seu principal concorrente, fator que comprometeu sua competitividade comercial. Buscando corrigir essa desvantagem, os engenheiros da Lockheed promoveram modificações no projeto, ampliando a capacidade da aeronave para até dezoito passageiros. Essa alteração permitiu melhorar a relação custo-benefício do modelo, tornando-o mais atrativo para as companhias aéreas. Apesar desses esforços, a empresa enfrentaria um novo desafio com o lançamento do Douglas DC-3, desenvolvido pela Douglas Aircraft Company. O DC-3 rapidamente estabeleceu um novo padrão para a aviação comercial, dominando o mercado mundial e eclipsando o Lockheed Model 18 Lodestar, evolução direta do Super Electra. Como resultado, o Lodestar registrou apenas 94 encomendas, número significativamente inferior às expectativas da empresa e insuficiente para compensar plenamente os investimentos realizados em seu desenvolvimento. A situação da Lockheed começou a se modificar gradualmente com o agravamento das tensões geopolíticas na Europa no final da década de 1930. À medida que se tornava cada vez mais provável a eclosão de um conflito envolvendo a Alemanha Nazista , diversas nações europeias entre elas a ,  Reino Unido, França, Bélgica e Países Baixos, passaram a buscar urgentemente a modernização de suas forças armadas. Entretanto, suas indústrias aeronáuticas nacionais enfrentavam limitações estruturais que dificultavam a produção em larga escala dos equipamentos necessários. Esse contexto abriu uma importante oportunidade para fabricantes norte-americanos. Entre os potenciais clientes, o governo britânico demonstrava especial urgência na renovação de sua frota aérea, sobretudo para missões de bombardeio leve, patrulha marítima e guerra antissubmarino. Atenta a essa demanda emergente, a direção da Lockheed decidiu agir com rapidez, iniciando o desenvolvimento de um novo projeto destinado a atender às especificações da  Força Aérea Real (RAF). Esse programa, inicialmente conhecido como B-14, evoluiu para a criação do Lockheed Hudson, uma aeronave versátil derivada da estrutura do Super Electra. Após avaliações conduzidas por uma comissão técnica britânica nos Estados Unidos, o modelo demonstrou qualidades operacionais promissoras, conquistando a confiança das autoridades. O resultado foi a formalização de um importante contrato de fornecimento, que representaria um ponto de inflexão na trajetória da empresa. O primeiro acordo, firmado em fevereiro de 1939, previa a aquisição de 25 células do modelo de bombardeio Lockheed Model 32 Hudson. Pouco tempo depois, um novo pedido foi realizado, envolvendo 300 aeronaves da versão Lockheed Model 37 Hudson, equipadas com motores Pratt & Whitney R-1830 Twin Wasp. 
Antes mesmo do final de 1940, outra encomenda seria formalizada, elevando o volume total para mais 375 aeronaves. Para atender à crescente demanda por aeronaves, a empresa recorreu à sua subsidiária, a Vega Aircraft Corporation, que passou a dedicar parte significativa de suas linhas de montagem à produção. Dessa iniciativa surgiu o Lockheed Ventura, um modelo que apresentava consideráveis semelhanças estruturais com seu predecessor, o Lockheed Hudson, embora possuísse dimensões ligeiramente maiores e motores mais potentes. As primeiras unidades do Ventura foram entregues à Força Aérea Real (RAF) em meados de 1942, sendo empregadas em missões de bombardeio diurno contra alvos localizados na Europa ocupada. Entretanto, assim como ocorreu com outros bombardeiros médios britânicos, o Ventura demonstrou elevada vulnerabilidade quando operava sem escolta de caças, especialmente em missões de longo alcance, nas quais a proteção aérea era limitada. Diante dessa realidade operacional, essas aeronaves foram progressivamente substituídas nas unidades de bombardeio pelo mais rápido e versátil De Havilland Mosquito, que oferecia melhor desempenho e maior capacidade de sobrevivência. Consequentemente, os Ventura remanescentes foram transferidos para o Comando Costeiro, onde passaram a desempenhar funções de patrulha marítima e ataque antissubmarino. Parte dessas aeronaves também foi cedida a Força Aérea Real Canadense (RCAF) e à Força Aérea Sul-Africana (SAAF), ampliando a presença do modelo em diferentes teatros de operações. Paralelamente, diversas aeronaves Ventura Mk IIA, ainda em fase de produção, foram redirecionadas para a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), onde passaram a receber a designação B-34 Lexington, posteriormente alterada para RB-34, quando adaptadas para missões de reconhecimento. Uma variante foi desenvolvida sob a designação O-56, concebida como uma versão de reconhecimento armado. As principais diferenças estavam relacionadas à motorização: enquanto o primeiro utilizava motores radiais Pratt & Whitney R-2800 Double Wasp, com 2.000 hp (1.491 kW), o O-56 foi equipado com motores Wright R-2600 Cyclone, com 1.700 hp (1.270 kW). Antes mesmo da entrada oficial  no conflito, o comando do Exército  transferiu à Aviação Naval da Marinha dos Estados Unidos (U.S.Navy)  a responsabilidade pelas operações de guerra antissubmarino ao longo da costa norte-americana. Em decorrência dessa, a marinha passou a buscar a ampliação e modernização de seus meios aéreos de patrulha marítima. Assim, os contratos de produção existentes foram transferidos para a Marinha, que promoveu diversas modificações nas aeronaves originalmente projetadas para a força aérea. Essas alterações deram origem ao PV-1 Ventura, cuja produção ficou a cargo da divisão Vega Aircraft Company. O modelo  incorporava diversas modificações destinadas a otimizar seu desempenho em missões de patrulha marítima e ataque antissubmarino. Entre as principais destacava-se a instalação de equipamentos especializados para navegação e detecção de alvos marítimos, além do aumento da capacidade de combustível. O volume máximo passou de 5.081 litros para 6.082 litros, ampliando o alcance operacional.

Como contrapartida para essa ampliação de autonomia, parte do armamento defensivo frontal foi reduzida. A modificação mais significativa, contudo, foi a incorporação do radar ASD-1 radar, equipamento essencial para a detecção de navios e submarinos inimigos, especialmente durante operações noturnas ou sob condições meteorológicas adversas. Os Lockheed PV-1 Ventura da produção inicial eram equipados com uma estação de bombardeio posicionada atrás do radome localizado na parte frontal. Esta configuração incluía quatro janelas laterais e um painel plano para a mira de bombas situado sob o nariz da aeronave. Nos modelos de produção posterior, essa posição de bombardeiro foi substituída por um conjunto de três metralhadoras Browning M-2 de calibre .50 (12,7 mm) instaladas na parte inferior do nariz. Além disso, essas aeronaves tinham a capacidade de transportar até oito foguetes não guiados HVAR de 5 polegadas (127 mm) em lançadores acoplados às asas. As primeiras aeronaves do modelo,  começaram a ser entregues em dezembro de 1942 ao Esquadrão VP-135 "Blind Foxes", que foi destacado para as Ilhas Aleutas. A partir de abril do ano seguinte, este esquadrão iniciou ataques a bases localizadas em Paramushiro e Shimushu, que fazem parte das ilhas japonesas na cadeia das Curilas. Frequentemente, os PV-1 lideravam formações de bombardeiros Consolidated B-24 Liberator em suas missões, principalmente devido à dotação de radar que possuíam. Nesta fase do conflito, essas aeronaves ganharam notoriedade, mostrando-se eficazes tanto em suas funções de patrulha quanto em operações como caças noturnos, onde em mãos de hábeis piloto lograriam em êxito em derrubar muitas aeronaves japonesas. Entretanto, antes mesmo de realizar seu primeiro voo operacional, a liderança da aviação naval norte-americana convocou a Lockheed para discutir melhorias na aeronave, a fim de adequar melhor o projeto original às exigências das missões de patrulha. Esse esforço visava uma ampliação das modificações que já haviam sido implementadas inicialmente na plataforma do Lockheed PV-1 Ventura. No entanto, à medida que o trabalho avançava, as alterações estruturais na célula original tornaram-se tão significativas que a aeronave recebeu uma nova designação de fabrica - Modelo 15, bem como de serviço PV-2 ( Patrol Vega-2, segundo modelo de patrulha produzido pela Lockheed - Vega) e conhecido popularmente como Harpoon. Visualmente similar ao seu predecessor, o novo modelo apresentava uma asa com quase três metros adicionais de envergadura, resultando em um aumento na área alar. Além disso, as empenagens verticais foram redesenhadas e também tiveram seu tamanho ampliado. Em relação à capacidade de combustível, o PV-2 incorporava tanques integrais, substituindo as células de combustível do PV-1 Ventura, o que permitiu um aumento de até 230% na quantidade de querosene de aviação transportável.  No que diz respeito ao armamento fixo, o PV-2 preservou a configuração do modelo anterior, mas foram incluídos uma "bandeja" ventral com três metralhadoras Browning M-2 de calibre .50 e houve modificações no compartimento de bombas, resultando em uma capacidade ofensiva interna aumentada para 1.814 kg.
Satisfeita com o resultado apresentado pela Lockheed Aircraft Company, a Marinha dos Estados Unidos (US Navy) formalizou, em julho de 1943, a encomenda de 500 unidades do modelo PV-2 Harpoon. O voo inaugural da primeira aeronave ocorreu em 3 de dezembro do mesmo ano. Contudo, durante esse teste inicial, foi identificado um problema estrutural relacionado à extensão das asas, que causava o enrugamento dos painéis de alumínio. Tal falha só seria corrigida com o desenvolvimento de um novo projeto de asa, sendo necessário substituir as asas das unidades já concluídas. A produção em série do PV-2 Harpoon teve início no primeiro trimestre de 1944. No entanto, o tempo demandado para equipar as primeiras unidades com as novas asas, aliado a dificuldades de ordem material e de pessoal, resultou em uma entrada tardia da aeronave em operações de combate. Até o final de 1944, apenas 69 unidades, designadas como PV-2C, estavam em fase inicial de treinamento no território continental dos Estados Unidos. Posteriormente, a variante destinada aos teatros de operações, identificada como PV-2D, foi equipada com oito metralhadoras Browning M-2 de calibre .50 para disparo frontal, sendo empregada em missões de ataque ao solo. O esquadrão de patrulha e bombardeio VP-139, conhecido como "Vee-Bees", foi selecionado para operar no teatro do Pacífico, com base nas ilhas Aleutas. Em 6 de abril de 1945, essas aeronaves tiveram seu batismo de fogo, quando quatro PV-2D Harpoon realizaram um ataque contra alvos nas ilhas Kokutan Zaki, no arquipélago das Kuriles, utilizando foguetes e metralhadoras. Entretanto, em 6 de maio do mesmo ano, os ataques a alvos terrestres foram suspensos devido a problemas estruturais nas asas e estabilizadores, observados durante manobras de recuperação de mergulhos em alta gravidade (alto G). A partir de então, as operações do PV-2 Harpoon foram restritas a patrulhas e ataques esporádicos contra navios de superfície, até que reparos fossem implementados por meio de kits de campo fornecidos pelo fabricante. Apesar dessas limitações, as poucas unidades que chegaram aos teatros de operações antes do término do conflito desempenharam papéis significativos, incluindo testes em combate com a bomba voadora Pelican. No âmbito do programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), pequenas quantidades do PV-2 Harpoon foram fornecidas a nações aliadas, como Brasil, Nova Zelândia e França Livre. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a produção da aeronave foi encerrada, totalizando 532 unidades entregues nas versões PV-2, PV-2C e PV-2D. Essas aeronaves permaneceram em serviço principalmente na aviação naval da Marinha dos Estados Unidos (US Navy) até o final da década de 1940, sendo gradualmente substituídas pelo modelo Lockheed P2V-1 Neptune. As células em boas condições foram armazenadas e, posteriormente, integradas ao Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program - MAP), sendo cedidas a países como Portugal, Peru, Itália, Japão e Holanda.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), o governo dos Estados Unidos passou a observar com crescente apreensão a possibilidade de que o conflito, até então concentrado na Europa, viesse a atingir diretamente o continente americano. A expansão militar das potências do Eixo — Adolf Hitler na Alemanha, Benito Mussolini na Itália e o governo imperial japonês liderado por Hirohito  alimentava temores estratégicos em Washington quanto à segurança do hemisfério ocidental. Essa preocupação intensificou-se após a derrota francesa e a assinatura do armistício que resultou na chamada Capitulação da França, em junho de 1940. Com o colapso militar da França, abriu-se a possibilidade de que a Alemanha nazista passasse a exercer influência ou controle sobre territórios estratégicos anteriormente administrados pelos franceses ou por governos aliados na região do Atlântico. Entre esses pontos destacavam-se áreas como Ilhas Canárias e Dacar, além de diversas possessões coloniais francesas no litoral africano. Tais posições poderiam, em tese, servir como plataformas avançadas para operações aéreas e navais no Atlântico, criando condições para uma eventual projeção militar em direção ao continente americano. Nesse contexto geopolítico, o Brasil passou a ser considerado um dos pontos mais sensíveis do sistema de defesa hemisférico. Sua posição geográfica, especialmente na região Nordeste, colocava-o relativamente próximo do continente africano, área que também figurava nos cálculos estratégicos da Alemanha. A estreita projeção do território brasileiro em direção ao Atlântico  particularmente entre os estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte  configurava o trecho de menor distância entre as Américas e a África. Ao mesmo tempo, a dinâmica global da guerra ampliou ainda mais a importância estratégica do país. As conquistas japonesas no Sudeste Asiático e no Pacífico Sul comprometeram severamente o acesso dos Aliados às tradicionais fontes asiáticas de borracha natural. Como consequência, o Brasil assumiu papel de destaque como fornecedor de látex, matéria-prima indispensável à produção de borracha, componente essencial para pneus, vedações, cabos e inúmeros outros materiais fundamentais à indústria de guerra. Além disso, o litoral brasileiro revelou-se de enorme valor estratégico para o esforço aliado. Em especial, a cidade de Recife destacou-se como um dos pontos mais importantes dessa rede logística. Situada em posição privilegiada no Atlântico Sul, a cidade tornou-se um elo natural entre o continente americano, a África e, posteriormente, os teatros de operações no Mediterrâneo e no Norte da África. A partir dessa região, tornava-se possível organizar rotas aéreas e marítimas destinadas ao transporte de tropas, aeronaves, suprimentos e equipamentos militares. Diante dessas circunstâncias, verificou-se uma rápida intensificação das relações políticas, econômicas e militares entre o Brasil e os Estados Unidos.  A ameaça representada pelos submarinos alemães e italianos no Atlântico Sul tornou-se particularmente grave a partir de 1942, quando embarcações mercantes brasileiras passaram a ser atacadas em águas próximas à costa. Esses episódios culminaram na Declaração de Guerra do Brasil ao Eixo, formalizada em agosto daquele ano. 

Naquele momento, entretanto, a recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB) ainda enfrentava limitações consideráveis em termos de treinamento, doutrina e equipamentos. Constituída em 1941 a partir da unificação das antigas Aviações Militar e Naval, a nova força herdara uma frota heterogênea e, em grande parte, tecnicamente ultrapassada. Entre as aeronaves mais modernas então disponíveis figuravam o Vultee V‑11 e o Focke‑Wulf Fw 58 Weihe, modelos que, embora úteis em determinadas funções, revelavam-se insuficientes para atender plenamente às exigências das missões de patrulha marítima e combate antissubmarino. Diante desse quadro, tornou-se evidente a necessidade de um esforço urgente de modernização dos meios aéreos brasileiros. Tal processo foi impulsionado pela criação da Comissão de Compras de Material Aeronáutico, com a missão de selecionar, adquirir e encaminhar ao Brasil aeronaves, equipamentos e sistemas capazes de fortalecer a capacidade operacional da aviação brasileira. A adesão do governo brasileiro ao programa Lend-Lease Bill Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos) garantiu ao país uma linha de crédito inicial de 100 milhões de dólares, destinada à aquisição de equipamentos, armas leves, canhões , aeronaves, veículos, navios  e carros de combate.  Esse aporte financeiro viabilizou o acesso a armamentos modernos, como aeronaves, veículos blindados e carros de combate, essenciais para contrapor as ameaças representadas pelos ataques de submarinos alemães.  Contudo, o aumento acelerado das operações de submarinos alemães e italianos ao longo da costa brasileira demandou uma resposta imediata. Nesse contexto, a Força Aérea Brasileira (FAB) foi incumbida de realizar missões de patrulha marítima, inicialmente com aeronaves inadequadas para essa função, como os caças monomotores Curtiss P-36A e P-40E, enquanto aguardava a entrega de equipamentos especializados. As primeiras missões de combate antissubmarino foram executadas de maneira precária, utilizando bombardeiros North-American B-25B Mitchell. O primeiro confronto registrado ocorreu em 22 de maio de 1942, antes mesmo da entrada oficial do Brasil na guerra, quando uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) atacou um submarino alemão. Este, ao avistar a aeronave brasileira, respondeu com disparos de artilharia antiaérea. A capacidade de patrulha foi significativamente aprimorada a partir de dezembro de 1942, com a entrega das primeiras dez unidades do Lockheed A-28A-LO Hudson, seguidas por mais dezesseis em janeiro de 1943. Em 1943, a estrutura brasileira de guerra antissubmarino foi fortalecida com a criação da United States - Brazilian Training Unit (UsBaTU), sediada na Base Aérea de Natal. Esse grupamento, formado em parceria com os Estados Unidos, tinha como objetivo treinar tripulações brasileiras na arte da guerra anti-superfície e antissubmarino. Instrutores norte-americanos foram responsáveis por preparar os militares para operar as modernas aeronaves Lockheed PV-1 Ventura, que estavam em processo de recebimento pelo Brasil. O emprego operacional do PV-1 Ventura foi atribuído ao 1º Grupo de Bombardeio Médio (1º GBM), sediado na Base Aérea de Recife. Esse grupo assumiu as responsabilidades previamente desempenhadas pelo esquadrão de bombardeio VB-143 da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy), que logo retornaria ao seu país de origem. 
Nesse contexto operacional, o 1º Grupo de Bombardeio Médio (1º GBM) passou a assumir a responsabilidade pela vigilância e defesa de uma extensa faixa do litoral brasileiro, abrangendo aproximadamente 420 quilômetros de costa. Suas atividades incluíam a escolta de comboios marítimos, missões de patrulha e guerra antissubmarino, além de outras tarefas relacionadas à segurança das rotas de navegação no Atlântico Sul  funções de grande relevância no esforço aliado de proteção ao tráfego marítimo durante a Segunda Guerra Mundial. A introdução do Lockheed PV-2C Harpoon na Força Aérea Brasileira (FAB) representou um passo importante no processo de modernização das capacidades operacionais da aviação militar brasileira, particularmente nas áreas de bombardeio, patrulha marítima e combate antissubmarino. Recebidas ao longo do primeiro semestre de 1945, essas aeronaves contribuíram para consolidar a posição estratégica da aviação brasileira no Atlântico Sul em um momento decisivo do conflito, ampliando a eficiência das operações de vigilância e defesa marítima. O processo de incorporação dessas aeronaves teve início com a transferência de quatro unidades do PV-2C Harpoon, conduzidas até a cidade de Recife por tripulações norte-americanas. Posteriormente, esses aviões foram destinados ao 2º Grupo de Bombardeio Médio, sediado na Base Aérea de Salvador. Até então, essa unidade operava em condições relativamente limitadas, utilizando aeronaves já consideradas obsoletas, como o Lockheed A-28A Hudson, provenientes do chamado Escalão Volante. A capacidade operacional do grupo era reforçada pela presença, na região, de unidades da Aviação Naval do  Marinha dos Estados Unidos  (U.S. Navy), que mantinha dois esquadrões destacados para missões de patrulha marítima no litoral brasileiro. Um deles operava hidroaviões Martin PBM-3S Mariner, enquanto o outro utilizava aeronaves Lockheed PV-1 Ventura, pertencentes ao esquadrão VPB-129. Com o retorno dessa última unidade aos Estados Unidos, criou-se uma lacuna operacional significativa no sistema de vigilância marítima da região. Nesse cenário, a incorporação dos novos PV-2C Harpoon tornou-se fundamental para assegurar a continuidade das operações de patrulha e a proteção das rotas marítimas contra possíveis ameaças navais. Para garantir a plena capacitação das tripulações do 2º Grupo de Bombardeio Médio no emprego da nova aeronave, o 1º Grupo de Bombardeio Médio cedeu temporariamente oficiais aviadores experientes. Esses militares desempenharam papel decisivo no processo de adaptação técnica e operacional das equipes, transmitindo conhecimentos práticos sobre o desempenho, os sistemas e as táticas de emprego do Harpoon. Essa cooperação entre unidades da Força Aérea Brasileira (FAB) evidenciou o espírito de integração e profissionalismo que caracterizou a aviação militar brasileira durante o período de guerra. Paralelamente à incorporação das novas aeronaves, o Ministério da Aeronáutica (MAer) implementou um sistema atualizado de designação e identificação de aeronaves, inspirado na nomenclatura utilizada pela Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF). Dentro desse novo padrão, os PV-2C Harpoon passaram a receber a designação B-34A, enquanto os modelos Lockheed PV-1 Ventura foram classificados como B-34.

Curiosamente, um quinto exemplar do Lockheed PV-2 Harpoon foi incorporado com considerável atraso em relação aos demais aviões do mesmo tipo, com a célula sendo transladada em setembro de 1945, porém somente seria incluído na carga no final de novembro de 1946, sendo alocado junto ao  1º Grupo Misto de Instrução. A permanência dos PV-2 Harpoon no 2º Grupo de Bombardeio Médio, sediado na Base Aérea de Salvador, revelou-se relativamente breve. Em 24 de março de 1947, a Força Aérea Brasileira (FAB) passou por uma profunda reorganização estrutural, formalizada por decreto governamental que reformulou de maneira abrangente a organização de suas unidades aéreas. Essa reforma determinou a extinção dos antigos regimentos de aviação, bem como dos grupos especializados de bombardeio leve, médio e de mergulho, dos grupos de caça e das unidades de patrulha. Em substituição a essa estrutura, o mesmo decreto instituiu dezesseis novos Grupos de Aviação (GAv), distribuídos em diferentes regiões do território nacional. No caso da Base Aérea de Salvador, coube-lhe sediar o recém-criado 7º Grupo de Aviação. Entretanto, análises conduzidas pelo Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) indicaram que seria operacionalmente mais conveniente concentrar, em uma única unidade, as aeronaves da família Ventura–Harpoon. A medida visava sobretudo simplificar a logística de manutenção, suprimento e treinamento. Em consequência, decidiu-se transferir todos os aviões Lockheed PV-1 Ventura e PV-2 para a Base Aérea de Recife, onde passariam a integrar o acervo do 1º/6º Grupo de Aviação, unidade criada em 1º de abril de 1947 com a finalidade específica de operar esses modelos. No que se refere aos PV-2, a transferência dos cinco exemplares foi oficialmente formalizada em 7 de outubro daquele ano, sendo que os três últimos aparelhos somente chegaram a Recife em dezembro de 1947. A partir de então, os Harpoon passaram a compartilhar o pátio de estacionamento do 1º/6º GAv com os Ventura e, posteriormente, com os bombardeiros North American B-25J Mitchell. Apesar de representarem um modelo mais recente, dotado de maior alcance e capacidade de armamento em comparação com os Ventura, os PV-2 Harpoon não conquistaram a preferência das tripulações brasileiras. Diversos aviadores consideravam que o desempenho geral da aeronave ficava aquém daquele apresentado pelo PV-1. Enquanto o Ventura era reconhecido por sua relativa agilidade e boa velocidade para um avião de seu porte, o Harpoon era frequentemente descrito como uma aeronave “pesada” em termos de pilotagem. Essa percepção estava diretamente relacionada às características estruturais do modelo. O PV-2 apresentava um peso vazio cerca de 1.700 kg superior ao do Ventura, embora empregasse o mesmo grupo motopropulsor: o motor radial Pratt & Whitney R-2800-31, com 2.000 hp. Como resultado, o desempenho do Harpoon mostrava-se inferior em aspectos importantes, particularmente na velocidade máxima e na razão de subida. A situação tornava-se ainda mais complexa em virtude de dificuldades logísticas relacionadas à manutenção dessas aeronaves. A obtenção de peças de reposição para o PV-2 revelava-se frequentemente problemática, sobretudo no caso de componentes com vida útil relativamente curta. Entre os sistemas mais afetados destacavam-se justamente os motores R-2800-31 e os radares de busca marítima Sperry AN/APS-3, cuja manutenção dependia de uma cadeia de suprimentos nem sempre regular. Esses fatores combinados geravam frequentes entraves na área de manutenção, limitando a disponibilidade operacional dos Harpoon. 
Antecipando o agravamento das dificuldades logísticas relacionadas à manutenção das aeronaves, a Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA) emitiu, em 23 de novembro de 1949, uma instrução classificando os aviões PV-2 Harpoon e PV-1 Ventura na categoria de material “semibom”, denominação administrativa aplicada a equipamentos cuja continuidade operacional era comprometida pela limitação de suporte logístico e pela crescente dificuldade na obtenção de peças de reposição. A partir dessa determinação, o 1º/6º Grupo de Aviação passou a depender essencialmente dos recursos disponíveis em sua própria Seção de Material, bem como dos estoques mantidos no Núcleo do Parque de Aeronáutica de Recife e no Parque de Aeronáutica de São Paulo. Mesmo diante dessas restrições, os PV-2 Harpoon continuaram em operação, sustentados sobretudo pelo notável empenho das equipes de manutenção do grupo e pelo apoio técnico fornecido pelos parques de aeronáutica. Em 1953, uma nova reestruturação operacional foi planejada para as unidades equipadas com esses aviões. No início daquele ano determinou-se que o 1º/6º Grupo de Aviação passaria a operar aeronaves Boeing SB-17G , modelo especializado em missões de busca e salvamento marítimo. Esses aviões haviam sido recebidos pela Força Aérea Brasileira (FAB) em 1951 e já se encontravam baseados na Base Aérea de Recife desde o ano anterior. Com a introdução desse novo material e a redefinição das atribuições operacionais da unidade, decidiu-se transferir os Harpoon e Ventura para a Base Aérea de Salvador, onde seriam incorporados ao 1º/7º GAv. Assim, em dezembro de 1953, os dois PV-2 então remanescentes no 1º/6º GAv foram deslocados para Salvador, retornando a uma base com a qual essas aeronaves já possuíam histórico operacional. Nos últimos anos de serviço, contudo, os PV-2 Harpoon enfrentaram dificuldades cada vez maiores para permanecer em condições de voo. Dos quatro exemplares então existentes na frota, a maioria foi enviada ao Núcleo do Parque de Aeronáutica de Recife, enquanto um deles seguiu para o Parque de Aeronáutica de São Paulo para a realização de revisões gerais de maior complexidade. Ainda assim, tornava-se evidente que essas aeronaves se aproximavam do limite de sua vida útil. A iminente introdução do  P2V-5 Neptune, destinado a equipar o 1º/7º GAv, acelerou o processo de retirada dos Harpoon. Em dezembro de 1957, dois aviões foram oficialmente desativados, seguidos por um terceiro em janeiro de 1958, o que marcou o encerramento definitivo da operação dos PV-2 Harpoon. Restaria apenas um exemplar, o B-34A FAB 5076, que, segundo alguns relatos, teria sido transferido ainda em 1950 para a Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAr), onde passou a ser utilizado como aeronave de instrução em solo. Esse aparelho permaneceu nessa condição por vários anos, sendo finalmente excluído da carga  em março de 1962. Curiosamente, um sétimo PV-2 chegou a ostentar as cores nacionais brasileiras sem jamais ter sido efetivamente incorporado à frota. Tratava-se da aeronave c/n 15-1156, pintada pelo fabricante, com as insígnias brasileiras incluindo a deriva ornamentada com faixas verdes e amarelas  além do número de série “1156” aplicado na cauda. Essa pintura foi realizada com fins promocionais, no contexto da divulgação internacional do modelo. Contudo, a aeronave nunca chegou a ser entregue, sendo posteriormente repintada nas cores norte-americanas e incorporada à Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) em 14 de novembro de 1945.

Em Escala.
Com o objetivo de representar fielmente o Lockheed PV-2 Harpoon B-34A "FAB 466", optamos pelo kit da Special Hobby na escala 1/72. O modelo apresenta facilidade de montagem contando com peças em resina. Essa escolha deve-se ao fato de o modelo já incluir decais específicos para a Força Aérea Brasileira (FAB), refletindo seu uso durante a Segunda Guerra Mundial. Dessa forma, para compor a versão utilizada no país, não se faz necessário realizar qualquer alteração, garantindo uma reprodução autêntica e detalhada da aeronave.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) utilizou vários esquemas de pintura, como o tri-color scheme (introduzido em 1943), que incluía Non-Specular Sea Blue, Non-Specular Intermediate Blue e Insignia White, e o esquema overall Glossy Sea Blue (adotado em 1944 para caças). Neste contexto os  Lockheeds PV-2 Harpoon cedidos a Força Aérea Brasileira (FAB) receberam estes esquemas padronizados. Próximo ao final de sua carreira no Brasil, as células remanescentes receberam um padrão de pintura em alumínio total. 

Bibliografia:
- Aviação Militar Brasileira 1916 -/ 1984 - Francisco C. Pereira Netto
- Lockheed PV-2 Harpoon Wikipedia - Lockheed Ventura - Wikipedia
- História da Força Aérea Brasileira , Professor Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html

M-109A3/A5 155 mm (VBC OAP)

História e Desenvolvimento 
A Segunda Guerra Mundial foi marcada pela introdução de uma dinâmica inovadora nos campos de batalha, caracterizada pela alta mobilidade da infantaria, que impôs às demais armas terrestres a necessidade de se adaptarem a uma nova filosofia de combate. O principal protagonista dessa transformação foi o Exército Alemão (Wehrmacht), que, por meio da tática Blitzkrieg, revelou ao mundo uma abordagem revolucionária para o enfrentamento em conflitos armados. Para combinar mobilidade com capacidade ofensiva, os alemães investiram não apenas em tanques e infantaria transportada por veículos blindados, mas também em artilharia autopropulsada. Exemplos emblemáticos incluem os canhões autopropulsados Hanomag Sd.Kfz. 165 Hummel, equipados com um canhão de 150 mm, o Sturmtiger 606/4, dotado de um canhão de 380 mm, e os carros de assalto Sturmgeschütz (StuG III). Testemunhando os desdobramentos do conflito, o Exército dos Estados Unidos (US Army) reconheceu a relevância estratégica de incorporar ao seu arsenal veículos de artilharia autopropulsada capazes de sustentar operações blindadas com potência de fogo adequada. Os primeiros testes bem-sucedidos foram realizados com plataformas adaptadas de veículos blindados meia-lagarta da família M-3 Half Track, culminando no desenvolvimento do T-19 Howitzer Motor Carriage, armado com um canhão de 105 mm. O êxito dessas experiências confirmou a viabilidade de projetar um veículo totalmente blindado sobre esteiras, resultando em fevereiro de 1942 na introdução do M-7 Priest. Esse obuseiro autopropulsado, equipado com um canhão de 105 mm, foi inicialmente construído sobre a plataforma do tanque médio M-3 Lee e, posteriormente, utilizou o chassi do M-4 Sherman. Seu batismo de fogo ocorreu durante a Segunda Batalha de El Alamein (23 de outubro a 11 de novembro de 1942). Ao todo, foram fabricadas 4.315 unidades até 1945, sendo amplamente empregadas pelos Aliados em todas as frentes da Segunda Guerra Mundial, onde demonstraram notável eficácia e versatilidade no apoio às operações militares. Após o término da Segunda Guerra Mundial, os obuseiros autopropulsados M-7 Priest, ao lado dos M-37, voltaram a desempenhar um papel significativo durante a Guerra da Coreia (1950-1953). Embora tenham cumprido com eficiência a maioria das missões a que foram designados, uma limitação crítica foi identificada: a elevação máxima de 35º do canhão dificultava o engajamento de alvos situados em terrenos elevados, como as montanhas coreanas, comprometendo sua eficácia tática em certas situações. Esse obstáculo tornou evidente a necessidade de desenvolver um novo obuseiro autopropulsado de maior porte, capaz de superar as deficiências observadas nos modelos até então utilizados. A experiência adquirida na Guerra da Coreia (1950-1953) revelou limitações nos obuseiros autopropulsados em uso, como o M-7 Priest e o M-52, especialmente em terrenos montanhosos, onde a elevação limitada dos canhões comprometia a eficácia tática. Para superar essas deficiências, o Exército dos Estados Unidos (US Army) buscou desenvolver uma nova geração de artilharia autopropulsada, mais adaptada às demandas da Guerra Fria. 

Em 1953, o M-52 foi introduzido, utilizando o chassi do tanque M-41 Walker Bulldog. Apesar de avanços na elevação do canhão (de +65º a -10º), o modelo apresentou problemas técnicos que levaram ao cancelamento de sua produção. Em resposta, o Exército abriu uma nova concorrência em 1959, delegando o projeto à Cadillac Motor Car Division, da General Motors, em parceria com o Detroit Arsenal Tank Plant. O programa visava criar dois obuseiros: um de 105 mm (M-108) e outro de 155 mm (M-109), baseados em um chassi comum para reduzir custos logísticos. O M-108, designado T-195 durante o desenvolvimento, aproveitou o chassi do M-41 Walker Bulldog, mas com modificações para maior robustez. Em 1960, um mock-up de cada modelo foi apresentado, seguido pela construção de cinco protótipos, que passaram por extensos testes no segundo semestre daquele ano. EsteS novos blindados apresentavam as seguintes características:  Armamento: Equipado com um obus M-103 de 105 mm para o M-108 e um obus M-126 de 155 mm para M-109, capazes de disparar uma variedade de munições, incluindo alto explosivo (HE), fumígenos e anticarro podendo fazer uso da munição de OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), com um alcance inicial de 14.600 metros no M-109, com este parâmetro podendo ser estendido com o uso de munições assistidas por foguetes). A capacidade de transportar até 28 munições de 155 mm internamente assegurava autonomia operacional. - Blindagem: Contava com uma torre totalmente fechada, construída em alumínio para reduzir peso, oferecendo proteção contra estilhaços e fogo de armas leves, embora limitada contra impactos diretos de artilharia ou mísseis anticarro. - Chassi: Compartilhavam o mesmo chassi, garantindo alta padronização de componentes, como suspensão por barras de torção e esteiras largas, adequadas para diferentes tipos de terreno. - Tripulação: Operado por uma equipe de cinco membros (comandante, artilheiro, carregador, motorista e operador de rádio), assegurando eficiência em combate. Propulsão: movido por um motor Detroit Diesel 8V-71T de 405 hp, acoplado a uma transmissão Allison XTG-411-4A, garantindo mobilidade em terrenos variados e velocidade máxima de cerca de 56 km/h. Por ser disponibilizado primeiramente seria decidido implantar o M-108 no teatro de operações no Vietnã, com o 6º Regimento de Artilharia de Campo (6th Field Artillery Regiment) em 1965 sendo posicionado  Pleiku, na região central do Vietnã, para apoiar operações contra forças do Vietnã do Norte e do Vietcong. Posteriormente, em outubro do mesmo ano, o modelo foi integrado às operações dos 1º e 40º Regimentos de Artilharia de Campo, sediados na base dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (US Marines Corps) em Đông Hà, onde enfrentaram combate real na região de Đông Hà ainda naquele mês. 

Sua mobilidade permitia reposicionamento rápido, diferentemente da artilharia rebocada convencional, sua capacidade de rotação do canhão em 360 graus conferia grande eficácia na sustentação de posições de fogo, especialmente em cenários sujeitos a ataques de múltiplas direções. Já o M-109 seria implantado naquele teatro de operações em meados do ano de 1966, substituindo os obuseiros rebocados, como o M-114 de 155 mm, integrando batalhões de artilharia de campanha, como a 1ª Divisão de Infantaria e a 25ª Divisão de Infantaria. Sua função principal era fornecer fogo de supressão, apoio à infantaria e bombardeio de posições inimigas, durante seu batismo de fogo, o M-109 foi empregado principalmente em missões de apoio às bases de fogo e de supressão e interdição.  Neste último escopo eram disparadas munições de alto explosivo (HE), fumaça e, em alguns casos, munições iluminativas, sendo eficaz contra bunkers, posições fortificadas e concentrações de tropas inimigas. Durante a Ofensiva do Tet (1968), por exemplo, os M-109 foram cruciais na defesa de cidades como Huế e Saigon, onde forneceram fogo contínuo para conter os ataques surpresa do Viet Cong. Neste contexto o M-109 se mostrava muito superior ao M-108, que por sua vez  apresentava limitações operacionais significativas. O canhão de 105 mm, embora preciso, possuía uma cadência de tiro limitada e um poder de destruição insuficiente para neutralizar alvos fortificados, como bunkers, frequentemente encontrados no teatro de operações do Vietnã. Desta maneira em meados do ano de 1976 seria decidido que os novos M-109 gradualmente passassem a substituir no Vietnã os M-108, ser tornando a plataforma predominante naquele conflito. No entanto seu intenso emprego também descortinaria a necessidade melhorias, com destaque para o limitado alcance do canhão M-126, que era  inferior a algumas peças de artilharia soviéticas usadas pelo EVN, como o obuseiro D-30 de 122 mm. Isso exigia que as bases de fogo fossem posicionadas mais próximas das linhas inimigas, aumentando a vulnerabilidade a ataques. O desempenho do M-109 no Vietnã consolidou sua importância como uma plataforma de artilharia versátil, capaz de operar em cenários de contra insurgência e guerra convencional. Sua capacidade de fornecer fogo de apoio contínuo, mesmo em condições adversas, foi fundamental para salvar vidas de soldados americanos e aliados. A experiência no Vietnã também destacou a necessidade de melhorias, que originariam o desenvolvimento do M-109A1, que passava a ser equipado com a  nova versão do motor Detroit Diesel Model 8V-71T acoplado a uma transmissão cross-drive Allison Transmission XTG-411-4A.  A principal evolução estava baseada na introdução do novo canhão M-185 de calibre 39 mm, que apresentava um perfil mais longo, estendendo seu alcance para  18.100 metros com munição convencional e até 24.000 metros com munição assistida por foguete. O obuseiro autopropulsado M-109, um marco da artilharia moderna, teve sua trajetória de desenvolvimento marcada por inovações contínuas e adaptações às exigências dos campos de batalha. 

Seu batismo de fogo ocorreu em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, quando as Forças de Defesa de Israel (Tzavá Haganá le-Israel) empregaram a versão M-109A1 em combates intensos contra forças sírias e egípcias. Essa estreia em um conflito de alta intensidade demonstrou a capacidade do M-109 de fornecer fogo de artilharia preciso e móvel, consolidando sua relevância em cenários de guerra convencional. A evolução subsequente do M-109 trouxe melhorias significativas. A versão M-109A2, introduzida na década de 1970, incorporou avanços em confiabilidade, disponibilidade e manutenção (RAM), além de proteção balística reforçada para o telescópio panorâmico, dispositivo de alinhamento de visão M-140 e sistemas de visão noturna. A capacidade de armazenamento de munição foi ampliada de 28 para 36 cartuchos, aumentando a autonomia operacional. Paralelamente, uma variante simplificada para exportação, a M-109A1B, foi desenvolvida, com diferenças externas mínimas e a remoção do kit de flutuação do casco, atendendo às demandas de mercados internacionais. Nas décadas seguintes, novas versões continuaram a aprimorar o sistema. Os modelos M-109A3, M-109A3B e M-109A4 introduziram sistemas de proteção contra ameaças nucleares e biológicas, refletindo as preocupações da Guerra Fria. Em 1985, o M-109A5 marcou um avanço significativo com a adoção do canhão M284 de calibre 39, que permitia alcances de 22.000 metros com projéteis convencionais e até 30.000 metros com munições assistidas por foguete, ampliando consideravelmente sua capacidade operacional. Em 1991, a versão M-109A6 Paladin representou um salto tecnológico. Com um chassi redesenhado, incluindo blindagem adicional com revestimento interno de kevlar, o M-109A6 integrou o canhão M-284 aprimorado com o suporte M-182A1, além de um novo layout interno para armazenamento seguro de munição e equipamentos. Pela primeira vez, incorporou um sistema de navegação inercial e sensores para alinhamento automático do canhão, aliados a um sistema de comunicação digital criptografado com capacidades de contramedidas eletrônicas (ECM). Essas inovações permitiam à tripulação receber missões de fogo, calcular dados de alvos, posicionar-se, disparar e deslocar-se sem assistência externa, alcançando uma primeira salva em menos de 60 segundos e uma cadência de até quatro disparos por minuto a alcances de 30 quilômetros. A produção inicial, conduzida pela BAE Systems, entregou 164 unidades até o final de 1992, com operacionalidade declarada em abril de 1993. Até 25 de junho de 1999, foram produzidos 950 veículos, encerrando o ciclo de fabricação do M109A6. A versão mais recente, o M-109A7 (anteriormente conhecido como M-109A6 PIM – Paladin Integrated Management), teve seu protótipo apresentado em 2007. Submetido a um extenso programa de testes, o M-109A7 incorpora melhorias em mobilidade, sistemas eletrônicos e sobrevivência, mantendo o M-109 como uma das plataformas de artilharia mais avançadas e confiáveis do mundo. 
Essas evoluções refletem o compromisso contínuo com a modernização, garantindo que o M-109 permaneça relevante em cenários de combate contemporâneos, combinando potência de fogo, precisão e independência operacional. Em 2013 o programa foi aprovado com a empresa BAE Systems, recebendo um contrato para atualização dos primeiros carros M-109A6 para o padrão M-109A7.  Este novo modelo passou a deter maior peso de deslocamento que seu antecessor, passando proporcionará maior precisão, melhor mobilidade e velocidade de deslocamento. As entregas iniciais ao Exército dos Estados Unidos (US Army) tiveram início em 2015, com o programa devendo atingir 580 carros modernizados ao longo dos próximos anos.  Ao longo de mais de cinco décadas de serviço, os obuseiros autopropulsados da família M109 estabeleceram-se como um pilar da artilharia moderna, participando de diversos conflitos globais, incluindo as guerras do Vietnã, Yom Kippur, Irã-Iraque, Saara Ocidental, Golfo Pérsico, Iraque, Guerra Civil Iraniana, Guerra Civil Iemenita e Síria. Sua versatilidade e capacidade de adaptação a diferentes cenários de combate consolidaram sua reputação como uma das plataformas de artilharia mais confiáveis e amplamente utilizadas no mundo. Com uma produção total superior a 7.700 unidades, distribuídas em treze versões distintas, o M-109 foi fabricado nos Estados Unidos pelas empresas General Motors Co. e BAE Systems, além de produzido sob licença pela Samsung Techwin, na Coreia do Sul. Além de seu país de origem, o M-109 foi adotado pelas forças armadas de mais de 30 nações, incluindo Líbia, Djibouti, Etiópia, Grécia, Emirados Árabes Unidos, Irã, Kuwait, Marrocos, Omã, Peru, Suíça, Alemanha, Arábia Saudita, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Egito, Espanha, Itália, Jordânia, Noruega, Países Baixos, Paquistão, Portugal, Tunísia, Áustria, Canadá, Chile, Filipinas, Iraque, Israel, Tailândia, Reino Unido e Coreia do Sul. Essa ampla adoção reflete a robustez e a flexibilidade do sistema, capaz de operar em diversos climas e terrenos. Em 1982, uma variante especializada foi desenvolvida: o M-992A2 FAASV (Field Artillery Ammunition Supply Vehicle), um veículo de transporte de munição baseado na plataforma do M109. Projetado para apoiar operações de artilharia, o M-992A2 garantiu maior eficiência logística, permitindo o reabastecimento rápido de obuseiros em campo. Embora países como Alemanha e Reino Unido estejam desativando seus M-109, substituindo-os por sistemas mais modernos, como o Panzerhaubitze 2000, nos Estados Unidos a família M-109 permanece em serviço ativo. Projeções indicam que o obuseiro continuará operacional por pelo menos mais duas décadas, até a introdução do M-1299, um sistema de artilharia de alcance estendido. Contudo, vale notar que o programa M-1299 foi cancelado em 2024 devido a problemas técnicos, como desgaste excessivo do tubo, reforçando a relevância contínua do M-109A7 e do futuro M-109A52 como pilares da artilharia norte-americana.

Emprego no Exército Brasileiro.
A Artilharia Brasileira possui origens que remontam ao período colonial, tendo participado ativamente das Batalhas dos Guararapes (1648–1649) — episódios amplamente reconhecidos como o marco de formação do Exército Brasileiro. Desde então, a Arma de Artilharia consolidou-se como um dos pilares fundamentais da organização militar nacional, distinguindo-se por seu elevado grau técnico e pela importância tática no campo de batalha. Durante o período imperial, a artilharia figurava entre as armas mais prestigiadas das Forças Armadas, exigindo dos oficiais uma formação completa na Academia Militar do Império do Brasil, em contraste com as armas de infantaria e cavalaria, cujos cursos demandavam menor tempo de instrução. Essa exigência refletia o caráter técnico e científico da Arma, que envolvia conhecimentos de balística, geometria, cálculo e mecânica  elementos essenciais à precisão dos fogos e à eficácia do apoio de combate. No início do século XX, a Artilharia de Campanha brasileira ainda operava com canhões Krupp de 75 mm, de tração animal, um reflexo da limitação tecnológica vigente antes da mecanização das forças terrestres. Essa configuração perdurou até a Segunda Guerra Mundial (1942–1945), quando o país enviou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) para combater na Campanha da Itália, integrando o V Exército dos Estados Unidos. Sob o comando do General Cordeiro de Farias, a Artilharia Divisionária da FEB desempenhou papel decisivo nas vitórias de Monte Castelo e Montese, em 1945. A precisão e a rapidez dos fogos brasileiros foram amplamente reconhecidas pelos Aliados, com destaque para as palavras do Marechal Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB, que exaltou o desempenho dos artilheiros, afirmando que estes “elevaram bem alto as nobres tradições da Artilharia de Mallet”. De fato, a atuação dos artilheiros brasileiros honrou o legado do Marechal Emílio Luís Mallet, patrono da Arma de Artilharia, cuja liderança se destacara na Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870). O prestígio da Artilharia Brasileira também foi reconhecido por autoridades estrangeiras, como o General Mark Clark, comandante do V Exército Americano, que enalteceu a eficiência e a coragem das unidades brasileiras. Paralelamente, durante o mesmo período, a defesa de Fernando de Noronha (1942–1945) evidenciou a capacidade nacional de organizar sistemas de defesa de costa e antiaérea em condições adversas, utilizando artilharia fixa e móvel para proteger o arquipélago contra eventuais incursões navais e aéreas. Com o advento da Guerra Fria, e diante das transformações estratégicas no cenário internacional, o Exército Brasileiro iniciou, em 1952, um amplo processo de modernização de seu material bélico, no âmbito do Acordo de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos e do Military Assistance Program (MAP). A partir de agosto de 1960, o país passou a receber carros de combate, veículos blindados de transporte de tropas e caminhões militares em larga escala, em um esforço contínuo que perdurou por toda a década seguinte. Esse processo representou um salto qualitativo na estrutura e na capacidade operacional da Força Terrestre, consolidando sua prontidão para o emprego em defesa dos interesses nacionais, em um contexto marcado por tensões regionais e pela necessidade de acompanhar os avanços tecnológicos das potências ocidentais.

Em 1970, como parte desse acordo bilateral, o Brasil foi contemplado com a cessão de 72 obuseiros autopropulsados M-108 Howitzer, provenientes do Exército dos Estados Unidos (US Army). A entrega das viaturas teve início no primeiro semestre de 1972, ocasião em que o modelo recebeu sua designação oficial no Exército Brasileiro: Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBCOAP) M-108. Por se tratar de um sistema de armas inédito na Força Terrestre, sua incorporação demandou uma reestruturação organizacional de grande envergadura, voltada à adaptação doutrinária e logística necessária para a operação e manutenção do novo equipamento. Antecipando a chegada das viaturas, em dezembro de 1971, o Exército deflagrou a criação de quatro Grupamentos de Artilharia de Campanha Autopropulsados (GAC Ap), convertendo unidades de artilharia rebocada em formações totalmente mecanizadas. Essa medida representou não apenas a modernização do parque de artilharia, mas também um marco na evolução doutrinária da Arma, que passava a operar em consonância com os padrões tecnológicos e táticos das forças da OTAN e de outros exércitos ocidentais contemporâneos. No final da década de 1980, o comando do  Exército Brasileiro deu início ao programa Força Terrestre 90 (FT-90), uma iniciativa estratégica concebida pelo Estado-Maior do Exército (EME) com o objetivo de modernizar suas estruturas, equipamentos e doutrinas operacionais, com especial foco na arma blindada. Movido pela necessidade de superar a obsolescência de seus sistemas e preparar a Força Terrestre para os desafios do século XXI, o FT-90 representou um marco na transformação da artilharia autopropulsada brasileira, alinhando-a às demandas de um cenário global em constante evolução. O programa priorizou a modernização da cavalaria blindada e da artilharia de campanha, reconhecendo o papel estratégico dessas armas em um contexto geopolítico marcado pela rivalidade com a Argentina e pela crescente importância da Amazônia como região de interesse nacional. Nesse esforço, o Exército optou por aquisições de oportunidade, focando na compra de equipamentos usados, porém em bom estado de conservação. Destacaram-se, nesse período, a incorporação das Viaturas Blindadas de Combate Carro de Combate (VBCCC) alemães Leopard 1A1 e norte-americanas M-60A3 TTS, que fortaleceram significativamente a capacidade operacional da Força. No âmbito da artilharia de campanha, o cenário até então era caracterizado pelo uso de obuseiros convencionais, como os modelos rebocados M-101 de 105 mm e M-102 de 155 mm, além de setenta e dois obuseiros autopropulsados M-108 VBC OAP, incorporados em 1972. Esses equipamentos, empregados pelos Grupamentos de Artilharia de Campanha Autopropulsados (GAC AP), já não atendiam plenamente às exigências modernas, demandando a aquisição de um modelo mais avançado principalmente de maior calibre. Contudo, as restrições orçamentárias impostas ao Exército Brasileiro limitavam a possibilidade de aquisição de veículos novos, levando à formação de uma comissão dedicada a prospectar oportunidades de compra de obuseiros autopropulsados M-109, amplamente utilizados por mais de trinta países na época. 
Entre as opções avaliadas, destacou-se a proposta apresentada pelo comando das Forças Armadas Belgas (La Défense), que manifestou interesse em vender até quarenta unidades do modelo M-109A3, recentemente desativadas em razão da substituição por versões mais modernas da mesma família. A oferta incluía, ainda, um programa de revisão e modernização conduzido pela empresa Sabiex Internacional, que elevaria esses obuseiros a um padrão operacional e tecnológico compatível com as necessidades do Exército Brasileiro à época, assegurando maior eficácia e adequação às demandas do contexto estratégico. Após a conclusão das negociações formais com o governo Belga, o Exército Brasileiro enviou uma comitiva de oficiais à Bélgica para avaliar e selecionar os trinta e sete obuseiros autopropulsados M-109A3 em melhores condições de conservação.  Esses veículos, pertencentes à versão A3, haviam passado por um programa de modernização iniciado em 1980, a partir da base M-109A2, incorporando mais de vinte e sete melhorias significativas. Entre elas, destacavam-se a adoção do canhão M-185 de 155 mm com cano longo, montado na nova armação M-178, além de maior capacidade de transporte de munição e proteção balística aprimorada para o sistema de telescópio panorâmico. Os obuseiros selecionados foram transportados para as instalações da Sabiex Internacional, em Tournai, onde passaram por um rigoroso processo de revisão e atualização, garantindo sua adequação às necessidades operacionais do Exército Brasileiro. Oficialmente designados como Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBCOAP) M-109A3, os primeiros seis veículos foram recebidos em 6 de outubro de 1999, seguidos por lotes adicionais: doze em 26 de maio de 2000, outros doze em 24 de outubro de 2000 e, por fim, sete em 23 de abril de 2001. A distribuição dos M-109-A3 foi estrategicamente planejada, com doze unidades alocadas ao 15º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (GACAp), em Lapa, RS; doze ao 16º GACAp, em São Leopoldo, RS; doze ao 29º GACAp, em Cruz Alta, RS; e uma unidade destinada à Escola de Material Bélico (EsMB), no Rio de Janeiro, RJ, posteriormente transferida ao Centro de Instrução de Blindados (CI Bld). A incorporação desses obuseiros marcou um avanço significativo, conferindo ao Exército Brasileiro maior mobilidade e poder de fogo, superando as limitações dos antigos M-108. No entanto, ao final da primeira década do século XXI, tornou-se evidente que os M-109A3 apresentavam obsolescência em seus sistemas de direção de tiro, enquanto os M-108, ainda em uso, enfrentavam um desgaste ainda mais pronunciado. Esse cenário impulsionou um novo programa de modernização, que culminou, em 2012, na aquisição de quarenta unidades do M-109A5, doadas pelo governo norte-americano por meio do programa Foreign Military Sales (FMS), classificadas como Excess Defence Articles (EDA). Embora os M-109A5 fossem mais avançados, identificou-se a oportunidade de modernizá-los para equipará-los aos padrões do Exército dos Estados Unidos (US Army). 

Assim, foi firmado um contrato de US$ 54 milhões com a BAE Systems para a atualização de trinta e dois veículos, elevando-os à versão M-109A5+ BR. As melhorias incluíram o aumento da potência do motor, de 405 hp (A3) para 440 hp (A5, com motor Low Heat Rejection); ampliação do alcance dos disparos com munição assistida (de 14.600 m para 18.000 m com carga 7; de 18.000 m para 22.000 m com carga 8; e de 23.500 m para 30.000 m com carga 8 HE M549); e a incorporação do sistema VFPS (Ventilated Face Piece System), que proporciona à tripulação ar filtrado e climatizado, essencial para operações em ambientes com ameaças químicas, biológicas ou nucleares (QBN). No campo da eletrônica embarcada, foram integrados componentes avançados, muitos deles presentes na versão M-109A6, como o sistema de posicionamento global (GPS) aliado ao Advanced Field Artillery Tactical Data System (AFATDS), navegação inercial, telas sensíveis ao toque para comando, sistema eletrônico de pontaria com computador balístico e o rádio Harris Falcon III. Além disso, a segurança da tripulação foi reforçada com a adição de um sistema de controle remoto para o bloqueio de viagem do tubo, permitindo ao motorista operar o desbloqueio e bloqueio diretamente de seu compartimento, sem exposição externa. Essa modernização consolidou a artilharia de campanha do Exército Brasileiro como uma força mais ágil, precisa e preparada para os desafios contemporâneos, reforçando seu papel estratégico na defesa nacional. A alocação dos obuseiros M-109A5+ BR foi estrategicamente planejada para reforçar a capacidade operacional da artilharia de campanha do Exército Brasileiro. Os veículos foram distribuídos entre duas unidades de destaque: o 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (3º GAC Ap), conhecido como Regimento Mallet, integrante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada (6ª Bda Inf Bld), sediada em Santa Maria, RS; e o 5º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (5º GAC Ap), vinculado à 5ª Brigada de Cavalaria Blindada (5ª Bda Cav Bld), em Curitiba, PR. Essa distribuição visou otimizar a prontidão e a eficácia dessas unidades em cenários operacionais diversos. Um marco significativo ocorreu em 18 de novembro de 2019, quando o primeiro tiro real com um M-109A5+ BR foi disparado por um veículo do 3º GAC Ap, simbolizando a plena integração desses obuseiros modernizados às operações do Exército Brasileiro. Esse evento reforçou o compromisso da instituição com a modernização de seus meios, assegurando maior precisão e poder de fogo à artilharia de campanha. Em 2018, por meio do programa Foreign Military Sales (FMS), o Exército Brasileiro negociou a aquisição de quarenta viaturas blindadas de esteiras M-992A2 FAASV (Field Artillery Ammunition Supply Vehicle). Classificadas no Brasil como Viatura Blindada de Transporte Especial Remuniciadora (VBTE Remun), essas viaturas foram essenciais para garantir o suporte logístico necessário ao pleno emprego dos M-109A5+ BR no campo de batalha, assegurando o reabastecimento eficiente de munição em operações prolongadas. No mesmo ano, o Exército Brasileiro consolidou a padronização do modelo M-109A5 como o principal obuseiro autopropulsado de sua artilharia de campanha, com a aquisição de mais sessenta unidades da versão M-109A5, também por meio do programa FMS.
Após o desembarque no porto de Paranaguá, PR, em 8 de março de 2018, os obuseiros M-109A5 foram transportados para o Parque Regional de Manutenção da 5ª Região Militar (Pq R Mnt/5), em Curitiba. Nesse local, as viaturas passaram por revisões minuciosas de 3º escalão, um processo essencial para assegurar sua plena conformidade com as exigências operacionais do Exército Brasileiro antes de sua distribuição às unidades de artilharia. A alocação dos novos M-109A5 foi estrategicamente planejada para fortalecer os Grupos de Artilharia de Campanha Autopropulsado (GAC Ap), ampliando a capacidade operacional da artilharia brasileira. Quatro unidades foram destinadas à Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, RJ, onde foram integradas ao Curso de Artilharia. Essa iniciativa permitiu aos cadetes uma formação prática com equipamentos modernos.  A ampliação da frota de M-109A5 consolidou a padronização da artilharia autopropulsada do Exército Brasileiro, promovendo maior interoperabilidade, eficiência e capacidade de resposta em cenários operacionais diversos. Um dos avanços mais significativos da versão modernizada M-109A5+BR foi a incorporação do Advanced Field Artillery Tactical Data System (AFATDS), adaptado no Brasil sob a designação Sistema Digitalizado de Artilharia de Campanha (SISDAC). Esse sistema revolucionou a integração entre os elementos da artilharia, automatizando as comunicações entre os subsistemas, incluindo busca de alvos, controladores de apoio de fogo, centrais de tiro e linhas de fogo. O SISDAC permite a execução simultânea de múltiplas missões de tiro por uma mesma linha de fogo, elevando significativamente a capacidade operacional da artilharia de campanha. Essa integração tecnológica reforça a precisão, a rapidez e a coordenação das operações, posicionando o Exército Brasileiro em um novo patamar de eficiência tática.  Em 23 de abril de 2024, o Exército Brasileiro publicou a Portaria nº 1.300-EME/C Ex,, que aprova a diretriz de implantação do projeto de revitalização das viaturas blindadas de combate obuseiro autopropulsado (VBCOAP) M-109A3 ), dentro do Subprograma Sistema de Artilharia de Campanha (SPrg SAC), agora parte integrante do Programa Estratégico do Exército ASTROS (Prg EE ASTROS). O objetivo do projeto é restaurar as capacidades operacionais e prolongar a vida útil de 27 VBCOAP M-109A3 (fabricadas em 1978 e 37 adquiridas usadas do Exército Belga no final do século passado), integrando-as ao subsistema Linha de Fogo e os demais subsistemas da Artilharia de Campanha, ser integrada ao Sistema Digitalizado de Artilharia de Campanha (SISDAC), e permitir que atuem em conjunto com os sistemas mais modernos da Força Terrestre, incluindo as futuras VBCOAP SR ATMOS, com a utilização de munições modernas.

Em Escala.
Para representar  o obuseiro autopropulsado VBC OAP M-109A3, identificado com o número de registro "EB-6057" do Exército Brasileiro, foi utilizado o kit na escala 1/35 produzido pela Italeri. Esse modelo, embora detalhado, foi projetado para retratar as variantes anteriores M-109A1 e M-109A2, exigindo diversas modificações para corresponder às especificidades da versão A3 empregada pelo Exército Brasileiro. As modificações realizadas no kit incluíram ajustes para incorporar características distintivas do M-109A3, como o canhão M-185 de 155 mm com cano longo e a armação M-178, além de melhorias na proteção balística do sistema de telescópio panorâmico, que são marcas dessa versão modernizada. Para garantir a autenticidade das marcações e insígnias do Exército Brasileiro, foram utilizados decais do conjunto "Forças Armadas do Brasil 1983 – 2002", produzido pela Decal & Books. 
A partir de 1983, o Exército Brasileiro adotou um esquema de pintura tático camuflado em dois tons, conforme as especificações do padrão de cores Federal Standard (FS), para todos os seus blindados de combate. Esse padrão, projetado para otimizar a dissimulação em diferentes ambientes operacionais, foi aplicado de maneira consistente às viaturas blindadas, incluindo os obuseiros autopropulsados VBC OAP M-109A3 e, posteriormente, às viaturas modernizadas para a versão M-109A5+ BR, bem como aos lotes adicionais do modelo M-109A5 recebidos por meio do programa Foreign Military Sales (FMS).  A aplicação desse padrão às viaturas M-109A5 e M-109A5+ BR reforça a padronização estética e operacional da artilharia autopropulsada brasileira.

Bibliografia 
- Blindados no Brasil - Um Longo e Árduo Aprendizado - Volume I , por Expedito Carlos Stephani Bastos
Obuseiro Autopropulsado M109-A3 - Expedito Carlos S. Bastos - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/M109.pdf
- M109 A5+BR Uma nova Forma de Atuar da Artilharia do Exército Brasileiro – www.defesanet.com.br
- M109 Howtizer -  Wikipédia - http://en.wikipedia.org/wiki/M109_howitz
Exército irá revitalizar seus obuseiros autopropulsados M109A3 - https://tecnodefesa.com.br/exercito-ira-revitalizar-seus-obuseiros-autopropulsados-m109a3

M-108 105 mm (VBC OAP)

História e Desenvolvimento.
A Segunda Guerra Mundial representou um divisor de águas na história do combate terrestre, ao introduzir um novo paradigma operacional pautado pela alta mobilidade das forças de infantaria e pela integração efetiva entre diferentes armas do Exército. Essa transformação impôs uma profunda revisão doutrinária às forças armadas de todo o mundo, exigindo delas a adaptação a uma filosofia de guerra dinâmica e mecanizada. O principal agente dessa revolução tática foi o Exército Alemão (Wehrmacht), que, por meio da estratégia Blitzkrieg (“guerra-relâmpago”), demonstrou o poder devastador da combinação entre velocidade, surpresa e concentração de força. Essa doutrina inovadora uniu, de forma coordenada, tanques, infantaria motorizada, artilharia móvel e apoio aéreo tático, redefinindo os conceitos de ofensiva mecanizada e de guerra de movimento. Para sustentar essa mobilidade sem sacrificar o poder de fogo, os alemães investiram fortemente no desenvolvimento de veículos de artilharia autopropulsada, que permitiam acompanhar as colunas blindadas em avanço. Modelos notáveis dessa categoria incluíam o Hanomag Sd.Kfz. 165 Hummel, armado com um obuseiro de 150 mm; o imponente Sturmtiger 606/4, equipado com um canhão de 380 mm; e os versáteis Sturmgeschütz III (StuG III), amplamente utilizados tanto em funções de apoio direto quanto como caça tanques. Observando o impacto dessas inovações nos campos de batalha europeus, o Exército dos Estados Unidos (US Army) reconheceu a necessidade estratégica de incorporar à sua própria doutrina veículos de artilharia autopropulsada capazes de prover apoio contínuo às forças blindadas. Os primeiros experimentos bem-sucedidos foram conduzidos com plataformas adaptadas de veículos meia-lagarta M-3 Half Track, culminando no desenvolvimento do T-19 Howitzer Motor Carriage, armado com um canhão de 105 mm. O sucesso obtido com esses protótipos levou, em fevereiro de 1942, à introdução do M-7 Priest, o primeiro obuseiro autopropulsado totalmente blindado do arsenal norte-americano. Montado inicialmente sobre o chassi do tanque médio M-3 Lee — e, posteriormente, sobre o do M-4 Sherman —, o M-7 destacou-se por sua robustez, confiabilidade mecânica e facilidade de manutenção em campanha. Seu batismo de fogo ocorreu durante a Segunda Batalha de El Alamein (23 de outubro a 11 de novembro de 1942), onde comprovou sua eficácia no apoio às forças aliadas. Entre 1942 e 1945, foram produzidas 4.315 unidades do M-7 Priest, que serviram amplamente em todas as frentes do conflito, consolidando-se como um dos principais vetores de fogo indireto da Segunda Guerra Mundial. Após o término do conflito, o modelo continuou em serviço ativo, desempenhando papel relevante durante a Guerra da Coreia (1950–1953), ao lado do M-37 Howitzer Motor Carriage. Apesar de sua comprovada eficiência, as operações na península coreana revelaram uma limitação tática importante: a elevação máxima de 35° do canhão, que restringia o engajamento de alvos em posições elevadas, especialmente em terrenos montanhosos. Essa deficiência operacional evidenciou a necessidade de desenvolver uma nova geração de obuseiros autopropulsados, dotados de maior ângulo de tiro, proteção aprimorada e alcance estendido.

Diante do novo cenário estratégico do pós-guerra, o Exército dos Estados Unidos (US Army) iniciou, no início da década de 1950, um ambicioso programa de modernização de sua artilharia autopropulsada, com o objetivo de desenvolver veículos capazes de combinar mobilidade estratégica, elevado poder de fogo e proteção NBC (nuclear, biológica e química). Essa iniciativa marcou o início de uma nova era na concepção de sistemas de artilharia móvel, ajustados às exigências tecnológicas e operacionais impostas pela Guerra Fria. A experiência adquirida durante a Guerra da Coreia (1950–1953) expôs limitações significativas nos obuseiros autopropulsados então em serviço, como o M-7 Priest e o M-52, sobretudo em terrenos montanhosos. A elevação restrita dos canhões dificultava o engajamento de alvos em posições elevadas, reduzindo a eficácia tática e a flexibilidade operacional dessas plataformas. Com base nessas lições de combate, o Exército dos Estados Unidos buscou desenvolver uma nova geração de veículos de artilharia autopropulsada que atendesse plenamente às necessidades do campo de batalha moderno. Em 1953, foi introduzido o M-52, construído sobre o chassi do tanque leve M-41 Walker Bulldog. Apesar dos avanços obtidos — como a ampliação do arco de elevação do canhão, de +65° a -10°, o modelo apresentou diversos problemas técnicos e limitações estruturais, levando ao encerramento de sua produção em curto prazo. Em resposta, o Exército dos Estados Unidos (US Arny) lançou, em 1959, um novo programa competitivo para o desenvolvimento de um sistema de artilharia padronizado, delegando a responsabilidade de projeto à Cadillac Motor Car Division, da General Motors, em cooperação com o Detroit Arsenal Tank Plant. O programa previa a criação de duas versões de obuseiros autopropulsados, ambas baseadas em um mesmo chassi modular: um de 105 mm, designado M-108 (durante o desenvolvimento, T-195); e outro de 155 mm, que resultaria no consagrado M-109. Essa abordagem buscava reduzir custos logísticos e de manutenção, além de facilitar o treinamento das tripulações por meio da padronização de componentes mecânicos e estruturais. Em 1960, o primeiro mock-up do T-195 foi apresentado, seguido pela construção de cinco protótipos submetidos a extensos testes no segundo semestre do mesmo ano. As avaliações, conduzidas pelo Aberdeen Proving Ground, resultaram em uma série de aprimoramentos técnicos que culminaram na versão final adotada oficialmente em 1963 sob a designação M-108 Self-Propelled Howitzer (SPH). O M-108 incorporava um conjunto equilibrado de mobilidade, proteção e poder de fogo, apresentando as seguintes características principais: Armamento: equipado com um obuseiro M-103 de 105 mm, capaz de empregar uma ampla gama de munições, incluindo alto explosivo (HE), fumígena e anticarro, compatíveis com o padrão da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). O alcance máximo era de aproximadamente 11,5 km, podendo ser ampliado com o uso de munições assistidas por foguete. Blindagem: a torre totalmente fechada era construída em liga de alumínio, reduzindo o peso sem comprometer a proteção contra estilhaços e fogo de armas leves. Embora não projetada para resistir a impactos diretos de artilharia pesada, a blindagem assegurava adequada sobrevivência da tripulação em combate.
Chassi: compartilhava integralmente a base mecânica do M-109, incluindo o sistema de suspensão por barras de torção e esteiras largas, otimizadas para operação em terrenos diversos e condições climáticas adversas. Tripulação: composta por cinco militares — comandante, artilheiro, carregador, motorista e operador de rádio —, garantindo eficiência e coordenação durante o disparo e a movimentação. Propulsão: movido por um motor Detroit Diesel 8V-71T de oito cilindros, dois tempos, turboalimentado e refrigerado a líquido, com 405 hp, o M-108 podia atingir velocidade máxima de 56 km/h e autonomia aproximada de 350 km, assegurando mobilidade compatível com as unidades mecanizadas de manobra. Após a implementação das modificações técnicas recomendadas durante a fase de testes, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) firmou, em 1962, o primeiro contrato de aquisição do obuseiro autopropulsado M-108 Howitzer, designando a Pacific Car and Foundry Company como principal responsável pela produção em série. A fabricação teve início ainda naquele ano, e, a partir de abril de 1963, as primeiras unidades começaram a ser entregues às unidades de artilharia de campanha do Exército norte-americano, marcando o início de sua incorporação operacional. O M-108 foi concebido para integrar uma nova geração de sistemas de artilharia autopropulsada de curto alcance, destinada a substituir progressivamente os modelos rebocados e as plataformas obsoletas em serviço desde a Segunda Guerra Mundial. Seu objetivo primordial era reforçar a capacidade de apoio tático das forças terrestres, oferecendo rapidez de resposta, flexibilidade operacional e proteção superior às tripulações. O veículo apresentava como característica principal um canhão de 105 mm M-103, montado em uma torre com rotação de 360°, proporcionando ampla liberdade de engajamento em qualquer direção — uma vantagem decisiva sobre os sistemas rebocados convencionais, que dependiam de reposicionamento físico para mudança de setor de tiro. O canhão possuía ângulos de elevação variando entre +75° e -6°, o que permitia ao obuseiro atingir alvos localizados tanto em terrenos elevados quanto em depressões topográficas, ampliando sua versatilidade em campo. A tripulação padrão do M-108 era composta por cinco militares: comandante, artilheiro, carregador, motorista e operador de rádio. A interação entre esses membros era fundamental para o desempenho eficiente da peça, que exigia coordenação precisa em tarefas como cálculo balístico, apontamento, carregamento e comunicação com os postos de comando e observadores avançados. O treinamento das equipes que operavam o M-108 era extenso e tecnicamente exigente. Os artilheiros deveriam dominar conhecimentos de balística, trigonometria aplicada, operação de sistemas hidráulicos e manutenção mecânica, além de compreender os protocolos de comunicação e comando tático das formações de artilharia. Durante o adestramento, as tripulações realizavam exercícios simulados de combate, reproduzindo situações de pressão e contingência — como ataques surpresa, falhas de comunicação e operações em terrenos irregulares — a fim de aprimorar a prontidão operacional e a resiliência sob fogo inimigo.

O resultado desse rigoroso processo de formação e da padronização dos sistemas mecânicos e de tiro foi um veículo altamente confiável, dotado de notável mobilidade e poder de fogo, capaz de acompanhar as forças blindadas e mecanizadas em deslocamentos rápidos. O M-108 representou, assim, um marco evolutivo na doutrina de artilharia autopropulsada norte-americana, estabelecendo as bases técnicas e operacionais que seriam consolidadas posteriormente pelo seu sucessor, o M-109 de 155 mm, amplamente utilizado durante as décadas subsequentes da Guerra Fria. O obuseiro autopropulsado M-108 teve sua estreia operacional durante a Guerra do Vietnã, sendo implantado oficialmente em 1965. A introdução do sistema no teatro de operações do Sudeste Asiático exigiu um processo gradual de adaptação das tripulações, que passaram por intenso treinamento voltado à adequação das táticas de emprego, manutenção e logística às condições ambientais e operacionais adversas do Vietnã.As particularidades do terreno  caracterizado por florestas densas, relevo acidentado e clima tropical úmido  impuseram desafios significativos à mobilidade e à conservação dos equipamentos. Assim, o Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) promoveu ajustes doutrinários e logísticos, otimizando a atuação dos M-108 em apoio direto às forças de manobra em operações de contrainsurgência e combate convencional. Em 17 de junho de 1966, unidades equipadas com o M-108, pertencentes ao 6º Regimento de Artilharia de Campo (6th Field Artillery Regiment), foram posicionadas em Pleiku, na região central do Vietnã, com a missão de prover apoio de fogo indireto às tropas norte-americanas engajadas em operações contra forças do Exército do Vietnã do Norte (NVA) e do Vietcong (VC). O desempenho satisfatório do sistema nesse cenário levou à sua rápida expansão operacional.  Posteriormente, o M-108 foi incorporado às unidades do 1º e 40º Regimentos de Artilharia de Campo, subordinados ao U.S. Marine Corps, que operavam a partir da base de Đông Hà, próxima à Zona Desmilitarizada (DMZ). Nessas operações, o M-108 foi amplamente empregado em missões de apoio de fogo indireto, defesa de perímetros e contra-bateria, enfrentando bombardeios intensos e condições logísticas severas. Nessa localidade, o obuseiro participou de combates reais, prestando apoio de fogo contínuo às forças terrestres sob intensa pressão inimiga, consolidando-se como um elemento essencial de sustentação tática nas operações do setor. A mobilidade elevada do M-108, aliada à capacidade de rotação integral de 360° de sua torre, conferia-lhe notável agilidade de resposta e flexibilidade de engajamento, vantagens que se mostraram particularmente relevantes em situações de combate assimétrico e em posições de defesa sujeitas a ataques provenientes de múltiplas direções. Essa versatilidade, somada à facilidade de deslocamento e ao rápido reposicionamento em campo, representou um avanço substancial em relação à artilharia rebocada convencional, cuja limitação estrutural frequentemente comprometia a rapidez de reação sob fogo inimigo. O obuseiro autopropulsado M-108, equipado com um canhão de 105 mm, destacava-se pela sua capacidade de operar com elevações que variavam de +75º a -6º, permitindo atingir alvos em diferentes níveis de terreno com notável precisão. 
Este veículo demonstrou ser particularmente eficaz em missões de apoio próximo, desempenhando um papel crucial na supressão de posições inimigas e na proteção de avanços das tropas aliadas. Frequentemente empregado em bases de fogo fortificadas, o obuseiro oferecia suporte de artilharia indispensável às unidades em operações de campo, reforçando sua relevância tática.  Contudo, à medida que o conflito avançava, tornou-se evidente que o calibre de 105 mm limitava a eficácia do M-108 em operações de apoio de fogo de longo alcance e destruição de fortificações, exigindo o emprego complementar do M-109. Assim, em 1969, iniciou-se um processo gradual de substituição do M-108 nas unidades de artilharia de campanha pelo M-109 de 155 mm, dotado de maior alcance e capacidade de carga explosiva. Adicionalmente, a blindagem leve do veículo o tornava vulnerável a ataques diretos, especialmente em combates de curta distância, o que restringia seu uso às linhas de retaguarda. Assim, a partir de meados de 1976, os batalhões de artilharia equipados com o M-108 foram gradualmente retirados do Vietnã. Na segunda metade da década de 1960, teve início um processo gradual de reorganização das unidades de artilharia autopropulsada, no qual os obuseiros M-108 foram progressivamente transferidos dos Regimentos de Artilharia de Campo (Field Artillery Regiments) ativos para as unidades da Guarda Nacional (National Guard). Essa redistribuição refletia a adoção, pelo Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), de uma política de padronização dos meios de artilharia, priorizando o emprego do M-109 de 155 mm, que oferecia maior alcance e poder destrutivo. Em instalações de treinamento como Camp Atterbury, no estado de Indiana, e Fort Sill, em Oklahoma  este último considerado o principal centro de doutrina e instrução de artilharia do Exército norte-americano , os M-108 foram amplamente empregados em exercícios de formação e capacitação técnica. Nessas atividades, os artilheiros da Guarda Nacional puderam aperfeiçoar-se no manuseio de sistemas autopropulsados, abrangendo desde a operação do canhão e a execução de cálculos balísticos até a manutenção preventiva e corretiva dos veículos, além da coordenação tática de fogo em conjunto com unidades mecanizadas. Apesar de o M-108 compartilhar uma série de componentes estruturais e mecânicos com o M-109, o modelo apresentou desafios de manutenção específicos, sobretudo para as unidades da Guarda Nacional, que frequentemente dispunham de recursos logísticos e técnicos mais restritos do que as formações regulares. Esse fator, aliado à padronização doutrinária e operacional em torno do M-109, reduziu progressivamente o interesse na utilização prolongada do M-108 dentro das forças norte-americanas. Com o avanço do processo de modernização, diversos M-108 considerados excedentes e não submetidos a programas de atualização foram revisados, recondicionados e posteriormente armazenados. No contexto da política externa norte-americana da Guerra Fria  marcada pela concessão de equipamentos militares a países aliados —, parte desses obuseiros foi cedida ou vendida a nações parceiras no âmbito de acordos bilaterais de defesa e programas de assistência militar. Entre os principais beneficiários figuraram Bélgica, Brasil, Espanha, República da China (Taiwan), Turquia e Tunísia, todos integrantes do bloco ocidental ou de alianças estratégicas sob influência dos Estados Unidos. A produção do M-108 Howitzer foi oficialmente encerrada em setembro de 1963, totalizando aproximadamente 950 unidades fabricadas, além de 230 veículos da variante M-992, destinada ao transporte e reabastecimento de munição.

Emprego no Exército Brasileiro.
As origens da Artilharia Brasileira remontam ao período colonial, quando as primeiras mobilizações de combatentes locais ocorreram em conflitos decisivos, como as Batalhas dos Guararapes (1648–1649), amplamente reconhecidas como o marco fundador do Exército Brasileiro. Embora a artilharia ainda não se apresentasse como um ramo estruturado, seu emprego rudimentar já evidenciava a importância do fogo indireto no campo de batalha, especialmente na defesa de posições estratégicas e fortificações. Com a Independência do Brasil, em 1822, a Artilharia de Campanha passou a constituir-se de forma institucionalizada, integrando o recém-organizado Exército Imperial. Durante o Período do Império (1822–1889), a Arma de Artilharia consolidou-se como uma das mais prestigiadas da Força Terrestre. Seu corpo de oficiais era formado por profissionais altamente qualificados, oriundos da Academia Militar do Império, onde o curso de artilharia exigia longa e rigorosa formação técnica e científica  superior à demandada pelas armas de Infantaria e Cavalaria. Um dos marcos mais expressivos da artilharia imperial ocorreu durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), quando o Brasil, aliado à Argentina e ao Uruguai, enfrentou o Paraguai. Nesse conflito, destacou-se o Marechal Emílio Luís Mallet, Patrono da Arma de Artilharia, cuja liderança e competência tática foram decisivas. À frente de suas baterias na Batalha de Tuiuti (1866) — a maior batalha campal da história da América do Sul , Mallet comandou a célebre “Artilharia Revólver”, assim apelidada pela cadência e precisão de seus tiros. O engenhoso emprego de um fosso protetor para as peças de artilharia conferiu às tropas brasileiras uma vantagem defensiva sem precedentes, eternizando o brado “Eles que venham! Por aqui não passam!”. Mallet, nascido em França em 1801 e naturalizado brasileiro, construiu uma trajetória exemplar. Foi promovido a brigadeiro por mérito durante a guerra, agraciado com o título de Barão de Itapevi em 1878 e ascendeu ao posto de marechal em 1885, tornando-se um símbolo do profissionalismo e da bravura dos artilheiros brasileiros. Durante o século XIX, a artilharia de campanha era essencialmente composta por canhões e obuseiros de calibres médios, transportados por tração animal  a chamada “artilharia montada”. Sua missão principal consistia em acompanhar a infantaria e fornecer apoio de fogo direto ou indireto, neutralizando posições inimigas e desorganizando formações adversárias. Com a Proclamação da República (1889), o Exército Brasileiro passou por uma profunda reorganização administrativa e doutrinária, influenciada pelos modelos europeus, especialmente o francês e o alemão. Nesse contexto, a Artilharia manteve sua relevância, ainda que enfrentando limitações tecnológicas, já que, até as primeiras décadas do século XX, o país operava predominantemente canhões Krupp de 75 mm, de tração animal, que permaneceram em serviço até o limiar da Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito global (1942–1945), a Artilharia Divisionária da Força Expedicionária Brasileira (FEB)  sob o comando do General Cordeiro de Farias teve papel de destaque na Campanha da Itália. Empregando técnicas modernas de tiro indireto e coordenação com observadores avançados, os artilheiros brasileiros demonstraram elevada precisão e disciplina de fogo. Suas ações foram decisivas nas vitórias de Monte Castelo (1945) e Montese, recebendo elogios do Marechal Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB, que reconheceu que os artilheiros “elevaram bem alto as nobres tradições da Artilharia de Mallet”.

O desempenho da Artilharia Brasileira foi amplamente reconhecido pelos Aliados. O General Mark Clark, comandante do V Exército dos Estados Unidos, destacou a eficiência, a coragem e a precisão dos fogos de artilharia brasileiros, que contribuíram para o sucesso das operações conjuntas. Paralelamente, unidades de artilharia de costa e antiaérea desempenharam papel fundamental na defesa do Arquipélago de Fernando de Noronha (1942–1945), estabelecendo um dispositivo defensivo eficaz para proteger o Atlântico Sul de possíveis incursões navais ou aéreas inimigas. No contexto geopolítico da Guerra Fria, caracterizado pela polarização ideológica e pelo avanço tecnológico das potências militares, o Brasil buscou modernizar suas Forças Armadas por meio de acordos de cooperação com os Estados Unidos. Um marco fundamental nesse processo foi o Acordo de Assistência Militar Brasil–Estados Unidos, firmado em 1952, complementado posteriormente pelo Military Assistance Program (MAP), instrumento que visava fortalecer as capacidades defensivas de nações aliadas no hemisfério ocidental. A partir de agosto de 1960, o Exército Brasileiro passou a ser contemplado com um expressivo volume de equipamentos militares de origem norte-americana, abrangendo carros de combate, viaturas blindadas de transporte de tropas, obuseiros autopropulsados e caminhões logísticos de diversos modelos. Essa iniciativa, implementada de forma progressiva ao longo da década de 1960, representou um salto qualitativo na modernização da Força Terrestre, reforçando sua capacidade operacional e assegurando um patamar de prontidão compatível com os desafios estratégicos da época. No âmbito desse programa de cooperação, o Brasil foi beneficiado, em 1970, com a cessão de 72 obuseiros autopropulsados M-108 Howitzer, provenientes dos estoques do Exército dos Estados Unidos (US Army). A operação foi conduzida com rigor técnico e administrativo, refletindo a importância estratégica atribuída ao projeto. Para garantir a qualidade e a confiabilidade do material a ser incorporado, foi designada uma comissão de oficiais brasileiros encarregada de deslocar-se aos Estados Unidos, com a missão de selecionar, junto à reserva técnica da Guarda Nacional (National Guard), as viaturas que se encontravam em melhores condições de conservação. As inspeções realizadas pela comissão constataram que os M-108 disponíveis fabricados entre 1963 e 1964  apresentavam baixo índice de desgaste operacional, uma vez que haviam permanecido em serviço ativo por um período relativamente curto, de quatro a cinco anos, antes de serem substituídos pelos mais modernos M-109, de calibre 155 mm, nas unidades de artilharia de campo do Exército norte-americano. Após sua substituição, os M-108 foram cuidadosamente armazenados, o que preservou suas condições técnicas e estruturais, tornando-os plenamente aptos para a reutilização por forças aliadas. O pacote de cessão incluía, além das viaturas, um substancial volume de munições do tipo HE (High Explosive), modelo M1 e equivalentes, adequadas às missões de apoio de fogo indireto típicas da artilharia de campanha. Também foram fornecidos kits de flutuação, que ampliavam a capacidade anfíbia das viaturas, permitindo-lhes transpor cursos d’água e operar em ambientes de terreno alagadiço — característica particularmente útil no teatro operacional brasileiro. O acordo contemplava ainda um estoque de peças de reposição, assegurando a manutenção autônoma dos sistemas e a continuidade de suas operações em médio prazo.
Antes de serem embarcadas para o Brasil, as viaturas selecionadas passaram por um processo completo de revisão e recondicionamento mecânico, conduzido por empresas contratadas pelo governo norte-americano. Esse procedimento tinha como objetivo restabelecer integralmente os padrões de desempenho originais do equipamento, garantindo que as unidades chegassem ao Brasil em perfeito estado de funcionamento. As primeiras entregas foram realizadas no início de 1972, ocasião em que o Exército Brasileiro oficializou sua designação como Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBCOAP) M-108. Por se tratar de um sistema de armas inédito até então no país, sua introdução exigiu uma reorganização estrutural e doutrinária no seio da Artilharia Divisionária, incluindo a criação de novas tabelas de organização, fluxos logísticos e programas de formação específicos. A incorporação do M-108 representou, portanto, um marco na evolução da artilharia brasileira, inserindo o Exército no seleto grupo de forças armadas dotadas de artilharia autopropulsada moderna. O sistema simbolizava não apenas o avanço tecnológico do Exército, mas também a consolidação de uma nova doutrina de emprego de fogo móvel e de alta prontidão, alinhada às exigências táticas e estratégicas do ambiente militar contemporâneo. Em dezembro de 1971, o Exército Brasileiro iniciou um dos mais significativos processos de modernização de sua Artilharia de Campanha no período pós-Segunda Guerra Mundial, com a criação de quatro Grupamentos de Artilharia de Campanha Autopropulsados (GAC Ap). Essa reestruturação representou a transição definitiva de um sistema de artilharia predominantemente rebocado para um modelo de operação baseado em viaturas autopropulsadas blindadas, compatíveis com as exigências de mobilidade e prontidão impostas pela doutrina militar contemporânea. O novo material, prestes a ser incorporado, recebeu oficialmente a designação de Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBCOAP) M-108, em consonância com a nomenclatura padronizada para os sistemas de armas do Exército. Coube à Diretoria de Material do Exército (DMat) a elaboração e a difusão do documento doutrinário “Manual de Campanha Artilharia – Obus 105 mm M-108, Autopropulsado”, que regulamentava os procedimentos operacionais, técnicos e logísticos relacionados ao novo equipamento. A introdução operacional do M-108 no Brasil ocorreu de forma gradual. Em abril de 1972, o 5º Grupamento de Artilharia de Campanha Autopropulsado (5º GAC Ap), sediado em Curitiba (PR), tornou-se a primeira unidade a receber as viaturas. No mês seguinte, em maio de 1972, o 3º GAC Ap, localizado em Cachoeira do Sul (RS), passou igualmente a operar o novo sistema. Já no início de 1973, o 6º GAC Ap, com sede no Rio de Janeiro (RJ), e o 16º GAC Ap, sediado em São Leopoldo (RS), completaram o quadro das unidades equipadas com o M-108. Cada grupamento foi estruturado em baterias de tiro compostas, em média, por seis viaturas M-108, organizadas para assegurar mobilidade, flexibilidade e alta capacidade de apoio de fogo em operações de campanha. A concentração de três dos quatro grupamentos na Região Sul do país refletia as considerações estratégicas, dada a rivalidade histórica com a Argentina, então considerada um potencial adversário regional.

Além das unidades operacionais, duas viaturas M-108 foram designadas à Escola de Material Bélico (EsMB), no Rio de Janeiro, com a finalidade de servir ao treinamento técnico e à formação de artilheiros, mecânicos e especialistas em manutenção, assegurando a capacitação do pessoal em todos os níveis operacionais do novo sistema. A adoção das Viaturas Blindadas de Combate Obuseiro Autopropulsado (VBCOAP) M-108 representou um salto qualitativo na doutrina da Artilharia de Campanha brasileira, introduzindo uma inédita combinação de mobilidade tática, proteção blindada e rapidez de resposta. O canhão M-103 de 105 mm, com tubo de 30 calibres, proporcionava cadência de tiro de até 10 disparos por minuto em rajadas curtas e cerca de 3 disparos por minuto em fogo sustentado. Seu alcance máximo de 11,5 km, utilizando munição HE (High Explosive), era plenamente adequado para missões de apoio de fogo próximo e interdição de áreas. A munição HE, com massa aproximada de 15 kg por projétil, era armazenada em quantidade limitada no interior do M-108 — cerca de 86 disparos, conforme a configuração interna da viatura. Essa limitação impunha dependência logística significativa para reabastecimento durante operações prolongadas. A ausência, naquele período, de um veículo transportador blindado de munições — como o M-992 Field Artillery Ammunition Support Vehicle, empregado nos Estados Unidos — constituía uma vulnerabilidade logística importante. Em consequência, as baterias autopropulsadas brasileiras dependiam de caminhões de apoio para o transporte de projéteis e cargas propelentes, o que expunha as linhas de suprimento a riscos em ambientes operacionais hostis, exigindo planejamento logístico rigoroso e a adoção de escoltas de segurança. Embora o Brasil tenha recebido munições de 105 mm como parte do Military Assistance Program (MAP) na década de 1970, a produção local de munições foi gradualmente desenvolvida pela indústria de defesa brasileira, especialmente pela Imbel (Indústria de Material Bélico do Brasil). A Imbel fabrica munições de 105 mm, incluindo HE e de treinamento, garantindo autossuficiência parcial e reduzindo a dependência de importações. O fornecimento inicial de munições HE com o M-108 foi complementado por aquisições posteriores de outros tipos, como iluminantes e de fumaça, para atender às necessidades operacionais. Os M-108 VBC OAP ao longo dos anos prestariam excelentes serviços, no entanto a partir de meados da década de 1970, o Exército Brasileiro começaria a enfrentar dificuldades na gestão do fluxo de peças de reposição, mais notadamente os componentes críticos do Detroit Diesel 8V71T, resultando nos primeiros problemas de disponibilidade da frota.  Este cenário seria agravado a partir de março de 1977 após o rompimento do Acordo Militar Brasil - Estados Unidos, com este evento determinaria a interrupção de toda financeira e linhas de abastecimentos de peças de reposição para os veículos militares em uso nas Forças Armadas Brasileiras, com o Exército Brasileiro sendo profundamente afetado, e por consequência a frota dos obuseiros autopropulsados M-108 VBC OAP. Buscando restaurar a capacidade operacional destes veículos, seriam desenvolvidos estudos para nacionalização do maior índice possível de componentes críticos, este processo se materializaria em um programa de modernização proposto pela empresa paulista Motopeças S/A. Neste escopo, a principal alteração consistia na remoção do motor de origem norte-americana, e sua substituição por um motor nacional fabricado pela Scania do modelo DS-14 com 385 cv.  Esta mudança implicaria em alterações, que foram aplicadas no sistema de acionamento dos ventiladores de arrefecimento, que passou a ser feito por correias, no lugar do caro e complicado sistema de transmissão angular. Outros itens críticos foram também nacionalizados neste processo.
Este programa trouxe aos M-108 VBC OAP um conjunto motriz de robustez superior ao original, resultando em uma maior vida útil, reduzindo muito os custos de manutenção e as frequentes paradas para reparo, prolongado a vida do veículo. Esse processo demandou não apenas expertise técnica, mas também a colaboração entre militares e engenheiros civis, que trabalharam incansavelmente para adaptar o M-108 VBC OAP às realidades brasileiras. No final da década de 1980, o Exército Brasileiro lançou o programa Força Terrestre 90 (FT-90), uma iniciativa visionária do Estado-Maior do Exército (EME) para modernizar suas estruturas, equipamentos e doutrinas, com especial atenção à arma blindada. Inspirado pela necessidade de superar a obsolescência de seus sistemas e preparar a Força Terrestre para os desafios de um novo século, o FT-90 marcou o início de uma transformação que redefiniu a artilharia autopropulsada brasileira.  O FT-90 priorizou a modernização da cavalaria blindada e da artilharia, reconhecendo a importância estratégica dessas armas em um contexto geopolítico marcado pela rivalidade com a Argentina e pela crescente relevância da Amazônia. Um marco significativo ocorreu em 1999, quando o Exército incorporou 37 obuseiros autopropulsados M109A3, adquiridos como parte do programa. Pela primeira vez, a Artilharia de Campanha Autopropulsada do Brasil tornou-se completa, combinando peças de 105 mm (M-108) e 155 mm (M-109A3), oferecendo maior poder de fogo e flexibilidade tática. A introdução do M-109A3VBC OAP  representou um salto qualitativo. Com um canhão de 155 mm capaz de atingir até 18 km com munição convencional e maior capacidade de armazenamento de projéteis, o M-109 complementava o M-108, que, embora confiável, começava a mostrar sinais de obsolescência. A partir de 2013, o Exército intensificou esforços para substituir o M-108 VBC OAP , culminando na celebração de um contrato sob o programa Foreign Military Sales (FMS) para a aquisição e modernização de um lote de obuseiros M-109A5VBC OAP . As primeiras viaturas novas começaram a ser recebidas em 2016, iniciando um processo gradual de substituição. A frota remanescente de M-108 VBC OAP foi concentrada nos 3º e 22º Grupamentos de Artilharia de Campanha Autopropulsados, sediados na região Sul.  Em 29 de março de 2017, o Exército Brasileiro formalizou a desativação do M-108 VBC OAP por meio da Portaria nº 193-EME. Os últimos disparos operacionais ocorreram em 11 de setembro de 2019, realizados pelo 3º GAC Ap em Uruguaiana (RS). Logo a seguir o Parque Regional de Manutenção da 5ª Região Militar (PqRMM/5) liderou um programa inovador para transformar alguns M-108 em viaturas especializadas de transporte e reabastecimento de munição, uma solução que prometia conferir mobilidade tática e proteção blindada às unidades de artilharia. Um protótipo foi desenvolvido e testado, apresentando resultados promissores. No entanto, em 2018, o projeto foi interrompido com a aquisição de 40 Viaturas Blindadas de Transporte Especial Remuniciadora (VBTE Rem) M992A2 FAASV, projetado especificamente para reabastecer obuseiros de 155 mm. O destino dos M-108 brasileiros ganhou um capítulo inesperado em 2019, quando o Ministério da Defesa do Uruguai expressou interesse em adquirir as viaturas remanescentes. Após negociações, o Congresso Nacional brasileiro aprovou, em 4 de agosto de 2022, a doação de dez M-108, acompanhados de peças de reposição.

Em Escala.
Para representar o M-108 VBC OAP "EB12-912" pertencente ao 3º Grupamento de Artilharia de Campanha Autopropulsado (3º GAC AP) com fidelidade, foi utilizado o único kit disponível na escala 1:35, fabricado pela  Italeri. Esse modelo, projetado com detalhes precisos, captura a essência do M-108 tal como operado pelo Exército Brasileiro, dispensando a necessidade de modificações significativas, podendo a montagem ser feita no modo "out of the box". A personalização do modelo foi alcançada com a aplicação de decais do conjunto "Veículos Militares Brasileiros 1944-1982", produzido pela Eletric Products. 
O esquema de cores adotado pelo Exército Brasileiro desde a Segunda Guerra Mundial, e mantido até dezembro de 1982, baseava-se em um padrão monocromático de verde-oliva, frequentemente associado ao Federal Standard (FS) 34087, um tom escuro e fosco projetado para camuflagem em ambientes variados, como florestas, campos e áreas urbanas.  Em 1982, o Exército Brasileiro introduziu um novo padrão de pintura tático em dois tons, com todos os M-108 VBC OAP passando a partir do ano seguinte a ostentar este esquema.


Bibliografia 
- Blindados no Brasil - Um Longo e Árduo Aprendizado - Volume I , por Expedito Carlos Stephani Bastos
- Blindados no Brasil - Um Longo e Árduo Aprendizado - Volume II , por Expedito Carlos Stephani Bastos
- M108 105 mm Self-Propelled Howitzer http://www.military-today.com/artillery/m108.htm
- M108 Howitzer – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/M108_howitzer