L-2, CAP-4, L-6 Paulistinha-Taylorcraft



História e Desenvolvimento.
A história de uma das mais icônicas famílias de aeronaves leves teve início em 1927, com a fundação da Taylor Brothers Aircraft Manufacturing Company, nos Estados Unidos, pelos irmãos Clarence Gilbert Taylor e Gordon A. Taylor. A empresa rapidamente se destacou no mercado aeronáutico com o lançamento do Taylor Cub, um avião biplace de asa alta projetado para ser simples, robusto e acessível. A produção do modelo começou em 1931, alcançando a impressionante marca de mais de 4.000 unidades fabricadas, o que consolidou a reputação da empresa no segmento de aviação leve. Em dezembro de 1937, a empresa foi reorganizada e renomeada como Piper Aircraft Company, sob a liderança de William T. Piper, um empresário que reconheceu o potencial do mercado de aeronaves leves para treinamento, transporte e uso recreativo. O modelo mais emblemático da empresa, o Piper J-3 Cub, introduzido na década de 1930, destacou-se pela sua simplicidade, baixo custo operacional e capacidade de operar em pistas rudimentares, características que o tornaram um sucesso comercial tanto no mercado interno quanto internacional. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Piper Aircraft Company desempenhou um papel crucial no esforço de guerra aliado. A empresa produziu mais de 5.000 unidades da versão militar do J-3 Cub, designada como L-4 Grasshopper, utilizada para missões de observação, reconhecimento e ligação. Além disso, a Piper fabricou componentes para outros equipamentos de defesa, consolidando sua relevância estratégica. A robustez e a versatilidade do J-3 Cub permitiam operações em condições adversas, com mínima infraestrutura de apoio, o que o tornou ideal para uso em bases improvisadas durante o conflito. Após a guerra, a Piper Aircraft capitalizou sua reputação para expandir sua presença no mercado global, especialmente em países em desenvolvimento, onde a demanda por aeronaves leves, acessíveis e confiáveis era crescente. Inicialmente, as aeronaves eram exportadas prontas, sendo montadas nos países de destino. Posteriormente, a Piper adotou uma estratégia inovadora ao negociar licenças de produção, permitindo que os compradores internacionais fabricassem as aeronaves localmente com um percentual de componentes produzidos no país de destino. A combinação de baixo custo de aquisição e operação, aliada à simplicidade e durabilidade do projeto, tornou o Piper J-3 Cub e seus derivados uma escolha popular em regiões remotas e com infraestrutura limitada. Em 1935, Clarence Gilbert Taylor, um dos fundadores da Taylor Brothers, foi destituído da diretoria executiva da Piper Aircraft Company. Decidindo se retirar do corpo acionário, ele fundou a Taylorcraft Aircraft Company no mesmo ano, com o objetivo de continuar sua visão de desenvolver aeronaves leves e acessíveis. Inspirado em projetos anteriores, Taylor lançou o Taylorcraft BC-12, um modelo que compartilhava semelhanças com o J-3 Cub, mas incorporava inovações próprias.

No final da década de 1930, o Brasil atravessava um período de profundas transformações econômicas e sociais, marcado por um processo de modernização e industrialização impulsionado pelo governo de Getúlio Vargas. Nesse contexto de renovação, a aviação civil começou a ganhar destaque, inspirada pelo sucesso de aeronaves leves produzidas nos Estados Unidos por empresas como a Taylorcraft Aircraft Company e a Piper Aircraft Company. Modelos como o Piper J-3 Cub e o Taylorcraft BC-12, conhecidos por sua simplicidade, robustez e capacidade de operar em pistas rudimentares, serviram como referência para iniciativas pioneiras no Brasil, onde a aviação leve encontrou terreno fértil para se desenvolver. Um dos protagonistas dessa história foi o empresário paulista Francisco Pignatari, cuja paixão pela aviação o levou a investir na criação de uma indústria aeronáutica nacional. No final dos anos 1930, Pignatari uniu-se ao engenheiro italiano Luigi Bresciani, cuja expertise técnica complementava a visão empreendedora do industrial. Juntos, eles iniciaram o desenvolvimento de uma aeronave leve nacional, inspirada nos modelos norte-americanos de biplace (dois lugares), com estrutura metálica recoberta por lona, uma construção típica da época que equilibrava leveza e resistência. O projeto resultou na construção de dois protótipos, equipados com motores a pistão Continental A65 de 50 cavalos de potência, amplamente utilizados em aeronaves leves da época, como o Piper Cub. Esses protótipos passaram por uma série de voos de teste, que demonstraram sua funcionalidade e viabilidade técnica. Apesar do sucesso inicial, o projeto não avançou para a produção em série, enfrentando limitações financeiras e tecnológicas. Contudo, as experiências adquiridas nesse processo foram fundamentais para pavimentar o caminho para iniciativas mais ambiciosas. As lições aprendidas com os protótipos inspiraram Pignatari a dar um passo adiante. Em início de 1942, ele criou uma divisão aeronáutica dentro de uma de suas empresas, a Laminação Nacional de Metais, com o objetivo inicial de produzir planadores para treinamento e formação de pilotos civis. Esses planadores, projetados para atender à crescente demanda por instrução aeronáutica em aeroclubes, alcançaram um sucesso notável no mercado brasileiro. As vendas expressivas incentivaram Pignatari a expandir suas ambições, levando à fundação, em agosto de 1942, da Companhia Aeronáutica Paulista (CAP), uma empresa independente dedicada exclusivamente à construção de aeronaves. Embora a CAP contasse com o capital necessário para investimentos, a falta de expertise tecnológica local representava um desafio. Para superá-lo, Pignatari estabeleceu uma parceria estratégica com o Instituto de Pesquisas e Tecnologia (IPT) de São Paulo, uma instituição renomada por sua capacidade de desenvolvimento técnico e inovação. 
Essa colaboração foi decisiva para o avanço da empresa, culminando no desenvolvimento do primeiro protótipo de uma nova aeronave, designado IPT-4. Após sua homologação, o modelo recebeu o nome comercial CAP-1 Planalto, marcando o início de uma nova era na aviação leve brasileira. O CAP-1 Planalto, lançado no início dos anos 1940, foi projetado como uma aeronave leve de treinamento e transporte, com características que refletiam as influências dos modelos norte-americanos, mas adaptadas às necessidades do mercado brasileiro. Sua construção robusta e simplicidade operacional o tornaram ideal para aeroclubes e operações em regiões com infraestrutura limitada, como as áreas rurais do Brasil. O sucesso do CAP-1 incentivou a CAP a desenvolver versões subsequentes, denominadas CAP-2, CAP-3 e CAP-3A, que incorporavam melhorias em desempenho, conforto e capacidade. Mas neste mesmo período não apenas Francisco Pignatari, com sua Companhia Aeronáutica Paulista (CAP), mas também outros entusiastas investiram na criação de uma indústria aeronáutica nacional. Um marco significativo foi a fundação, em meados de 1931, da Empresa Aeronáutica Ypiranga Ltda. (EAY), estabelecida pelos empresários Fritz Roesler, Orthon W. Hoover e Henrique Santos Dumont, sobrinho do pioneiro da aviação Alberto Santos Dumont. A EAY representou um passo ousado na construção de uma aviação brasileira autônoma, contribuindo para o fortalecimento da identidade tecnológica do país. A EAY iniciou suas atividades com foco na produção de planadores, um segmento estratégico para o treinamento de pilotos em uma época em que a formação aeronáutica era essencial para o crescimento da aviação civil e militar. O primeiro destaque da empresa foi o EAY-101, um planador projetado e construído inteiramente no Brasil, marcando a primeira vez que uma aeronave desse tipo foi desenvolvida localmente. O sucesso do EAY-101 demonstrou a capacidade técnica dos fundadores e pavimentou o caminho para projetos mais ambiciosos, consolidando a reputação da empresa no cenário aeronáutico nacional. Em 1934, a EAY decidiu expandir suas ambições, iniciando o desenvolvimento de uma aeronave motorizada, designada EAY-201 Ypiranga. Inspirado diretamente no Taylor Cub, um modelo norte-americano conhecido por sua simplicidade e versatilidade, o EAY-201 foi projetado como uma aeronave leve biplace (dois lugares), ideal para treinamento, transporte e uso recreativo. O projeto refletia as tendências da época, com uma estrutura metálica recoberta por lona, garantindo leveza e resistência. O primeiro voo do EAY-201 Ypiranga ocorreu em maio de 1935, equipado inicialmente com um motor radial francês Salmson 9 AD de 40 cavalos de potência, que acionava uma hélice de madeira. Os testes iniciais foram promissores, com a aeronave demonstrando boa estabilidade e facilidade de operação.  As aeronaves EAY-201 Ypiranga continuaram a operar no Brasil por décadas, desempenhando papéis em aeroclubes e operações regionais. O último voo conhecido de um EAY-201, registrado com a matrícula PP-TJR, ocorreu em 10 de dezembro de 1970, em um translado realizado pelo Comandante Lucy Lúpia Pinel Balthazar entre o Campo de Marte, em São Paulo, e o Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Nessa ocasião, a aeronave foi incorporada ao acervo permanente do Museu Aeroespacial (Musal), no Rio de Janeiro, onde permanece como um testemunho do pioneirismo da aviação brasileira.

No entanto, o desempenho do motor Salmson revelou-se insuficiente para as exigências do mercado. Em resposta, a EAY substituiu o motor original por um Franklin O-200 de 65 cavalos, que proporcionou melhor desempenho e confiabilidade, permitindo que o EAY-201 se alinhasse às expectativas de pilotos e operadores. Entre 1935 e 1943, a EAY produziu e comercializou diversas unidades do EAY-201 Ypiranga, que encontraram mercado em aeroclubes e operações privadas no Brasil. A aeronave tornou-se popular devido à sua simplicidade, baixo custo operacional e capacidade de operar em pistas rudimentares, características que a tornavam ideal para as condições do interior brasileiro. O EAY-201 foi utilizado principalmente para treinamento de pilotos e voos de ligação, contribuindo para a expansão da aviação civil em um país ainda marcado por desafios logísticos e geográficos. Em 1943, a Empresa Aeronáutica Ypiranga foi adquirida pela Companhia Aeronáutica Paulista (CAP), fundada por Francisco Pignatari em 1942. A negociação incluiu a transferência de todo o ferramental, maquinário, equipes técnicas e direitos de projeto e produção do EAY-201 Ypiranga. Essa absorção refletiu a consolidação da indústria aeronáutica brasileira, que, embora promissora, enfrentava dificuldades para sustentar múltiplas empresas em um mercado ainda incipiente. A integração à CAP permitiu que o legado técnico da EAY fosse preservado, influenciando o desenvolvimento de novos modelos, como o CAP-1 Planalto e suas variantes. Após a aquisição da EAY, a CAP firmou um novo acordo com o Instituto de Pesquisas e Tecnologia (IPT) de São Paulo, uma instituição reconhecida por sua expertise em pesquisa e inovação. O objetivo era revisar e aprimorar o projeto do EAY-201 Ypiranga, incorporando avanços técnicos das equipes de engenharia da CAP e do IPT. Esse processo colaborativo resultou no desenvolvimento de uma nova aeronave, designada CAP-4 Paulistinha, que combinava as melhores práticas dos projetos anteriores com inovações que atendiam às necessidades específicas do mercado brasileiro. O primeiro exemplar do CAP-4 Paulistinha saiu das linhas de montagem em 2 de abril de 1943, iniciando uma série de testes e ensaios de voo que receberam elogios unânimes por suas características de voo. A aeronave destacou-se por sua robustez, facilidade de manutenção, baixo custo de aquisição e operação e um perfil de pilotagem acessível, tornando-a ideal para treinamento de pilotos e operações em aeroclubes. Sua construção simples, com estrutura metálica recoberta por lona, seguia os padrões da época, mas incorporava soluções práticas que garantiam eficiência e durabilidade. Exceto pelo motor Continental A65 (posteriormente substituído por modelos como o Continental C-85 em algumas versões) e os principais instrumentos do painel, importados dos Estados Unidos, praticamente todos os componentes do CAP-4 eram fabricados nacionalmente, um feito significativo para a indústria brasileira da época. O CAP-4 Paulistinha alcançou um sucesso notável, com a CAP atingindo a impressionante marca de produzir uma aeronave por dia em 1943, um feito inédito para uma empresa nacional à época. Ao longo de sua produção, que se estendeu até meados da década de 1940, foram fabricadas aproximadamente 800 unidades do modelo, distribuídas em cinco variantes: três versões destinadas ao treinamento de pilotos, duas voltadas para remoção aeromédica e uma versão experimental, conhecida como “Paulistinha Rádio”, projetada para regulagem de tiro de artilharia. Essa versatilidade consolidou o CAP-4 como uma aeronave multifuncional, capaz de atender às demandas de aeroclubes, serviços médicos de emergência e até mesmo aplicações militares.
O sucesso comercial do CAP-4 Paulistinha foi amplificado pela Campanha Nacional de Aviação (CNA), também conhecida como “Campanha para Dar Asas à Juventude Brasileira” ou pelo slogan “Deem Asas ao Brasil”. Idealizada em 1941 pelo jornalista e magnata da comunicação Assis Chateaubriand, a campanha tinha como objetivo popularizar a aviação no Brasil, promovendo a formação de pilotos e a expansão da infraestrutura aeronáutica. Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, mobilizou recursos financeiros e apoio político para doar aeronaves, como o CAP-4, a aeroclubes em todo o país, incentivando jovens a ingressar na aviação. Essa iniciativa não apenas democratizou o acesso ao treinamento de voo, mas também impulsionou a demanda por aeronaves leves, como o Paulistinha, que se tornou um símbolo do movimento. Com o final da Segunda Guerra Mundial, a demanda por aeronaves de treinamento diminuiu. O mercado militar estava abastecido com o excedente de aviões norte-americanos, enquanto o mercado civil ainda não estava suficientemente desenvolvido para gerar demanda, o que levou a Companhia Aeronáutica Paulista – CAP,  a encerrar suas atividades, em 1949, neste momento os direitos de produção seriam transferidos para a propriedade do Ministério da Aeronáutica (MAer). Em 1955 a Sociedade Construtora Aeronáutica Neiva, negociaria a aquisição destes direitos, com o projeto original da aeronave passando a receber uma série de modificações, entre elas o reposicionamento do tanque e a seletora de combustível, que recebeu uma proteção para evitar o fechamento acidental, a alteração das portas da cabine, as janelas, o capô do motor e os instrumentos, além de utilizar um propulsor mais potente, um Continental C90 8F, de 90 hp. Esta aeronave receberia a designação comercial de P-56 (P de Paulistinha e 56 do ano do projeto - 1956), curiosamente não seria possível para a produção em série fazer uso do motor escolhido, com a empresa passando a adorar o Continental C90 14F, também de 90 hp, que apresentava sistema de partida elétrica, que seria alterado para o processo manual em 1957 para permitir sua certificação. Em setembro do mesmo ano, o Ministério da Aeronáutica (MAer) faria uma encomenda de dezenove P-56, que apresentavam como principal exigência a adoção de motores Lycoming O235B, de 100 hp (que se encontravam nos estoques da Força Aérea Brasileira), esta versão receberia a designação de P-56B. Em 1960, seriam resolvidos os problemas que impediam a importação dos motores um Continental C90 8F, com as novas aeronaves passando a ser designadas como P-56C. Em 1961 seria desenvolvido o  P-56C1 equipado com um motor Lycoming de 115 hp, com esta versão sendo destinada a tarefas de pulverização de lavouras. Por fim o P-56C1 destinado como rebocador de planadores seria lançado em 1963, passando a contar com um motor Lycoming O320, de 150 hp. Ao todo seriam produzidas cerca de 260 aeronaves, com a maioria destas sendo adquiridas pelo Ministério da Aeronáutica (MAer), para serem doadas pelos Departamento de Aviação Civil (DAC) a muitos aeroclubes.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
No início da Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano passaria a considerar com extrema preocupação uma possível ameaça de invasão no continente americano por parte das forças do Eixo (Alemanha – Itália – Japão). Quando a França capitulou em junho de 1940, o perigo nazista a América se tornaria claro se este país estabelecer bases operacionais nas ilhas Canárias, Dacar e outras colônias francesas. Neste contexto o Brasil seria o local mais provável de invasão ao continente pelas potencias do Eixo, principalmente devido a sua proximidade com o continente africano que neste momento também passava a figurar nos planos de expansão territorial do governo alemão. Além disso, as conquistas japonesas no sudeste asiático e no Pacífico Sul tornavam o Brasil o principal fornecedor de látex para os aliados, matéria prima para a produção de borracha, um item de extrema importância na indústria de guerra. Além destas possíveis ameaças, geograficamente o litoral do mais se mostrava estratégico para o estabelecimento de bases aéreas e operação de portos na região nordeste, isto se dava, pois, esta região representava para translado aéreo, o ponto mais próximo entre os continentes americano e africano. Assim a costa brasileira seria fundamental no envio de tropas, veículos, suprimentos e aeronaves para emprego nos teatros de operações europeu e norte africano. Este cenário demandaria logo sem seguida a um movimento de maior aproximação política e econômica entre o Brasil e os Estados Unidos, resultando em uma série de investimentos e acordo de colaboração. Entre estes estava a adesão do país ao programa de ajuda militar denominado como Leand & Lease Bill Act (Lei de Arrendamentos e Empréstimos), que tinha como principal objetivo promover a modernização das Forças Armadas Brasileiras, que neste período estavam à beira da obsolescência tanto em termos de equipamentos, armamentos e principalmente doutrina operacional militar. Os termos garantidos por este acordo, viriam a criar uma linha inicial de crédito ao país da ordem de US$ 100 milhões de dólares, para a aquisição de material bélico, proporcionando ao país acesso a modernos armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Neste contexto a aviação passaria a ser muito difundida no pais, principalmente após a criação do Ministério da Aeronáutica (MAer) em janeiro de 1941, neste momento ser faria necessário priorizar a formação de pilotos militares preparando assim a recém criada Força Aérea Brasileira (FAB) para os desafios que sem mostrariam presentes em um futuro próximo.  A fim de atender a esta demanda centenas de aeronaves de treinamento militar como os Fairchild PT-19 e Vultee BT-15 Valiant começariam a ser recebidas no país a partir do ano seguinte. 

Neste momento o  Brasil vivenciava um período de fervor patriótico, intensificado pela participação do país na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) ao lado dos Aliados. Esse sentimento nacionalista, aliado à mobilização da sociedade civil em apoio às Forças Armadas, gerou uma série de iniciativas voltadas para o fortalecimento da Força Aérea Brasileira (FAB), criada em 1941. Entre essas iniciativas, destacaram-se as campanhas de arrecadação de fundos organizadas por entidades civis, que buscavam adquirir e doar aeronaves para a Aeronáutica, reforçando sua capacidade operacional e promovendo a integração nacional por meio da aviação. Uma dessas iniciativas foi liderada pelo Rotary Club do Rio de Janeiro, uma organização reconhecida por seu engajamento em causas sociais e cívicas. Movido pelo espírito patriótico da época, o clube mobilizou a comunidade local para arrecadar fundos destinados à aquisição de uma aeronave CAP-4B Paulistinha, fabricada pela Companhia Aeronáutica Paulista (CAP). Essa versão específica do Paulistinha foi configurada como uma ambulância aérea, projetada para realizar missões de remoção aeromédica, uma função crítica em um país de dimensões continentais como o Brasil, onde o acesso a cuidados médicos em regiões remotas era frequentemente limitado. O CAP-4B Paulistinha, uma variante do bem-sucedido CAP-4, era equipado com adaptações que permitiam o transporte de pacientes em macas, além de contar com espaço para equipamentos médicos básicos. Sua robustez, baixo custo operacional e capacidade de operar em pistas rudimentares o tornavam ideal para operações humanitárias, especialmente em áreas com pouca infraestrutura. Após a arrecadação bem-sucedida, a aeronave foi adquirida e doada à Força Aérea Brasileira (FAB), sendo oficialmente integrada à frota da Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, um dos principais centros operacionais da FAB na época. Em um gesto simbólico que reforçava o caráter patriótico da iniciativa, a aeronave foi batizada como “Anna Nery”, em homenagem à pioneira da enfermagem brasileira, que se destacou por seu trabalho humanitário durante a Guerra do Paraguai (1864-1870). O nome escolhido não apenas celebrava o legado de uma figura histórica, mas também sublinhava a missão humanitária da aeronave, destinada a salvar vidas por meio de evacuações aeromédicas. Em maio de 1945, a Subdiretoria Técnica da Aeronáutica (SDTAer) incorporou um CAP-4A Paulistinha novo de fábrica, fabricado pela Companhia Aeronáutica Paulista (CAP). A aeronave, registrada com a matrícula L-CAP4 3055, foi designada como aeronave orgânica, sendo empregada em tarefas de ligação e transporte dentro das operações. O CAP-4, conhecido por sua robustez, baixo custo operacional e capacidade de operar em pistas rudimentares, era ideal para missões de curta distância, especialmente em um país com vastas áreas de infraestrutura limitada. 
No entanto, com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea Brasileira (FAB), contava com uma frota de mais de 1.500 aeronaves, abrangendo diversos modelos e aplicações. Para maximizar recursos e reduzir custos operacionais, o comando da Aeronáutica iniciou um processo de racionalização, buscando padronizar os modelos em uso e priorizar aeronaves com maior versatilidade e capacidade. Nesse contexto, apenas dois CAP-4 Paulistinha permaneciam em operação: o CAP-4A L-CAP4 3055 e o CAP-4B “Anna Nery”, este último doado pelo Rotary Club do Rio de Janeiro em 1943 e configurado como ambulância aérea. A análise realizada  concluiu que o CAP-4 Paulistinha não se enquadrava na nova sistemática de padronização, devido à sua capacidade limitada em comparação com outros modelos disponíveis. Assim, as duas aeronaves foram classificadas como excedentes às necessidades operacionais da força. Em 1947, o CAP-4B “Anna Nery” foi transferido para a Fundação Brasil Central, uma organização voltada para o desenvolvimento do interior do país, onde continuou a desempenhar missões humanitárias, incluindo transporte aeromédico. No ano seguinte, em novembro de 1948, o CAP-4A L-CAP4 3055, pertencente à Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA), foi repassado ao Departamento de Aviação Civil (DAC), que o destinou ao Aeroclube de Garça, no interior de São Paulo. Essa transferência reflete o compromisso do Ministério da Aeronáutica (MAer) em apoiar a aviação civil, especialmente por meio da doação de aeronaves a aeroclubes, alinhada aos ideais da Campanha Nacional de Aviação de Assis Chateaubriand. Paralelamente, também foram operados brevemente o Taylorcraft BC-12, sendo  recebidas desmontadas pelo Parque Aeronáutico dos Afonsos (PqAerAF), no Rio de Janeiro, com sua origem envolta em incertezas. Especula-se que as aeronaves, registradas com as matrículas FAB 3060 e FAB 3061 e designadas militarmente como L-2, podem ter sido doadas ou apreendidas por contrabando, embora registros definitivos não esclareçam a questão. Os técnicos do PqAerAF realizaram a montagem e colocaram as aeronaves em condições de voo, destinando-as às Bases Aéreas do Galeão (Rio de Janeiro) e Porto Alegre, onde foram alocadas ao Quartel General da V Zona Aérea. Devido à sua limitada capacidade de transporte, os Taylorcraft BC-12 foram utilizados exclusivamente em missões de ligação, servindo às necessidades administrativas e logísticas do comando. Em 1956, estes dois Taylorcraft L-2 seriam retirados do serviço, e após revisão no Parque Aeronáutico dos Afonsos (PqAerAF) foram transferidos ao Departamento de Aviação Civil (DAC), onde foram cedidos a aeroclubes localizados no estado do Rio de Janeiro, se mantendo em uso por muitos anos. 

Em 1962, a Marinha do Brasil adquiriu uma unidade usada do modelo militar Taylorcraft BC12D, com o objetivo de utilizá-la no Curso de Observador Aéreo Naval (COAN), um programa voltado para a formação de oficiais especializados em operações de observação aérea. O Taylorcraft BC12D, uma aeronave leve de origem norte-americana, era conhecida por sua simplicidade, robustez e capacidade de operar em pistas rudimentares, características que a tornavam adequada para treinamento. No entanto, o programa COAN foi cancelado antes mesmo da chegada da aeronave, alterando os planos iniciais para seu uso. Diante do cancelamento, o Taylorcraft BC12D foi realocado para o Destacamento Especial de Aeronaves do Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval (CIAAN), sediado na Base Aeronaval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA), no Rio de Janeiro. Nesse novo papel, a aeronave passou a realizar missões de ligação e transporte, atendendo às necessidades logísticas do pessoal da base. Sua operação, embora limitada, demonstrou a versatilidade de aeronaves leves em atividades administrativas e operacionais em contextos regionais. Em 1964, a Marinha determinou a transferência do Taylorcraft BC12D para o 1º Esquadrão Misto de Aeronaves, subordinado ao Núcleo do Comando de Aviação da Força de Fuzileiros da Esquadra. Nesse esquadrão, a aeronave operou ao lado de um CAP-4 Paulistinha, também adquirido em 1962, em missões semelhantes de ligação e transporte. Ambas as aeronaves, projetadas para operações simples e econômicas, eram adequadas para apoiar as atividades da Marinha em áreas com infraestrutura limitada, como a região de São Pedro da Aldeia. A trajetória dessas aeronaves na Marinha foi interrompida por uma decisão governamental significativa. Em 26 de janeiro de 1966, o Decreto Presidencial nº 55.627 determinou a transferência de todas as aeronaves de asa fixa da Aviação Naval para a Força Aérea Brasileira (FAB). Essa medida fazia parte de um processo de centralização das operações aéreas militares no Brasil, iniciado com a criação do Ministério da Aeronáutica em 1941, que buscava consolidar o controle das aeronaves de asa fixa sob a FAB, enquanto a Marinha se concentrava na aviação de asas rotativas (helicópteros). Na semana seguinte à promulgação do decreto, o Taylorcraft BC12D e as duas unidades do CAP-4 Paulistinha foram transferidos para a FAB. No entanto, a Diretoria de Material da Aeronáutica (DIRMA) avaliou que essas aeronaves não atendiam às necessidades operacionais da força, que já dispunha de uma frota diversificada e padronizada, incluindo modelos mais avançados adquiridos durante e após a Segunda Guerra Mundial. Como resultado, o Taylorcraft BC12D foi considerado excedente e vendido como sucata, as duas unidades do CAP-4 Paulistinha também foram rejeitadas pela FAB, mas, em vez de serem descartadas, foram transferidas ao Departamento de Aviação Civil (DAC).
Na primeira metade da década de 1950, a Força Aérea Brasileira (FAB), buscava opções para a substituição de sua frota de aeronaves de ligação leve. Visando fomentar a indústria de defesa nacional, o Ministério da Aeronáutica (MAer) assinaria em 1957, com a Sociedade Aeronáutica Neiva, um contrato para a aquisição de vinte exemplares do modelo P-56B Paulistinha. Esta nova versão apresentava muitas melhorias técnicas quando comparado ao CAP-4 , estando equipado com o motor Continental A-65-8 de 4 cilindros em linha com 90 hp de potência. Deste lote, a primeira aeronave seria destinada ao Centro de Tecnologia da Aeronáutica (CTA), se tratando do primeiro protótipo do modelo, já as doze células seguintes seriam recebidas entre junho de 1959 e janeiro de 1960, sendo destinadas a 3ª Esquadrilha de Ligação e Observação (3º ELO). As aeronaves restantes deveriam distribuídas a 1º Esquadrilha de Ligação e Observação (1ºELO), no entanto os últimos cinco aviões apesar de receberem as matriculas militares, seriam entregues diretamente ao Departamento de Aviação Civil (DAC) onde foram posteriormente destinados a aeroclubes. Em serviço estas aeronaves receberiam a designação militar de L-6 portando as matriculas de FAB 3080 á  FAB 3099. Incialmente tais aviões careciam de equipamentos especializados para as missões de controle aéreo e observação como rádio e lançadores de foguetes de fosforo branco, restringindo assim em muitas suas tarefas a apenas missões de ligação. A partir de meados de 1960 algumas células começaram a ser transferidas para outras unidades entre elas a Escola de Aeronáutica (EAer) e para algumas bases aéreas para emprego como aeronaves orgânicas. Em  maio de 1963, mais duas células seriam recebidas, ambas entregues ao Grupo de Transporte Especial (GTE), porém tiveram uma vida efêmera, com uma sendo transferida a Base Aérea de Brasília e outra para o Departamento de Aviação Civil (DAC). Neste mesmo ano as últimas aeronaves de modelo seriam retiradas do acervo da 3º Esquadrilha de Ligação e Observação (3ºELO),   e alocadas junto as frotas da Base Aérea de Canoas , Base Aérea de Fortaleza e Base Aérea de Santa Cruz , onde passariam a ser operados por pessoal do 1º/14º Grupo de Aviação - Esquadrão Pampa, 1º/4º Grupo de Aviação - Esquadrão Joker , e 1º Grupo de Aviação de Caça - Esquadrão Jambock. Em agosto de 1965 um P-56D Paulistinha, com motor mais potente seria recebido sendo designado como YL-6A, esta célula seria utilizada como aeronave orgânica pelo pelo Centro de Tecnologia da Aeronáutica (CTA). No ano seguinte quatro aeronaves foram revisadas pelo Parque Aeronáutico dos Afonsos (PqAerAF) e doadas a Força Aérea Paraguaia (FAP). Em meados de 1973 seria iniciado o processo de desativação dos L-6 Paulistinha, passando a ser substituídos pelos novos Neiva L-42 Regente, com as aeronaves remanescentes passando a ser gradativamente transferidas ao Departamento de Aviação Civil (DAC) que procedeu sua doação a diversos aeroclubes brasileiros.

Em Escala.
Para representarmos o CAP-4 Paulistinha N-710 da Aviação Naval da Marinha do Brasil (que posteriormente teve sua matricula alterada para N-505), fizemos uso do antigo kit da Academy na escala 1/48. A similaridade do projeto da Piper com a aeronave nacional nos permite representarmos o modelo em questão, procedendo mínimas alterações. Empregamos decais confeccionados pela FCM Decais presentes no Set 48/07A.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura de alta visibilidade, empregado nas aeronaves de instrução da Aviação Naval da Marinha Brasileira, durante a sua segunda fase da arma arma aérea. Já as aeronaves pertencentes a Força Aérea Brasileira (FAB) empregaram outros esquemas de pintura, durante sua carreira.

Bibliografia :
- Averonaves Militares Brasileirsa 1916 – 2015 – Jackson Flores Jr
- História da Força Aérea Brasileira, Professor Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aviação Naval Brasileira, Professor Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/Asas%20sobre%20os%20mares/index.html

P-95A/B/BM Embraer Bandeirulha

História e Desenvolvimento. 
No início da década de 1960, o Ministério da Aeronáutica (MAer) engajou-se em um ambicioso programa de integração nacional, no qual praticamente toda a frota de aeronaves Douglas C-47 Skytrain e Beechcraft C-45 Expeditor foi mobilizada. O objetivo era expandir as rotas do Correio Aéreo Nacional (CAN), ao mesmo tempo em que se ampliavam as missões de apoio logístico, evacuação aeromédica e assistência às regiões mais isoladas do Brasil. Entretanto, o uso intensivo dessas aeronaves ao longo dos anos resultou em significativo desgaste estrutural, impactando diretamente os índices de disponibilidade operacional. Esse quadro foi agravado pela crescente dificuldade na obtenção de peças de reposição, evidenciando a necessidade urgente de substituição integral da frota de transporte leve e médio da Aeronáutica. Foi nesse contexto que o então que o Coronel Ozires Silva apresentou ao comando da Aeronáutica uma proposta estratégica: o desenvolvimento de uma aeronave bimotora nacional, capaz de atender às demandas operacionais do país. Os primeiros passos concretos dessa iniciativa ocorreram em junho de 1965, com o lançamento do programa IPD-6504, conduzido pelo Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento do Centro Técnico Aeroespacial (IPD/CTA), sediado em São José dos Campos, no estado de São Paulo. Sob a supervisão do engenheiro francês Max Holste, projetista de aeronaves como o MH-1521 Broussard, (utilizado pela Força Aérea Francesa), foi formada uma equipe altamente dedicada para atender a essa demanda. O projeto previa o desenvolvimento de uma aeronave bimotora de asa baixa, construção totalmente metálica, com 12,74 metros de comprimento, janelas em formato de bolha e capacidade para transportar até oito passageiros  características que refletiam um equilíbrio entre robustez, versatilidade e eficiência operacional. A partir de 1967, com os cálculos estruturais e desenhos técnicos concluídos, iniciou-se a construção de um mock-up em escala real (1:1). Os painéis estruturais foram cortados e moldados manualmente sobre o modelo, evidenciando o caráter quase artesanal  porém altamente técnico  do programa em seus estágios iniciais. Paralelamente, definiu-se a motorização da aeronave com dois turboélices Pratt & Whitney PT6A-20, de 550 shp cada, garantindo o desempenho necessário para operar em pistas curtas e em condições adversas, típicas do território brasileiro. O programa de desenvolvimento estendeu-se por três anos e quatro meses, totalizando aproximadamente 110 mil horas de trabalho e envolvendo diretamente cerca de 300 profissionais. O primeiro protótipo, designado Embraer EMB 110 Bandeirante (inicialmente YC-95), foi concluído no início de outubro de 1968, sendo preparado para seu voo inaugural. O nome “Bandeirante” foi escolhido em homenagem aos desbravadores do interior do Brasil no século XVI, simbolizando a missão de integração nacional da aeronave. Os motores foram acionados pela primeira vez em 17 de outubro de 1968, apenas seis dias antes do voo inaugural  um intervalo notavelmente curto. Seguiram-se intensivos testes de solo, conduzidos por engenheiros e pilotos do CTA, com o objetivo de validar a confiabilidade dos sistemas. Durante esses ensaios, ocorreu um incidente com o trem de pouso durante um taxiamento, prontamente corrigido antes da data prevista para o voo.

O momento decisivo ocorreu em de 22 de outubro de 1968, quando o protótipo YC-95 realizou seu primeiro voo, marcando um marco histórico para a indústria aeronáutica brasileira. Durante essa missão inicial, foi identificada uma leve instabilidade direcional, prontamente analisada e corrigida pela equipe técnica, demonstrando a maturidade do programa e a capacidade de resposta dos engenheiros envolvidos. Em 27 de outubro de 1968, o YC-95 FAB 2130, foi oficialmente apresentado em uma cerimônia no aeroporto de São José dos Campos, São Paulo. A cerimônia contou com a presença de autoridades, representantes da imprensa e um público estimado em 15 mil pessoas. Sob os atentos olhares dos presentes, a aeronave decolou de uma pista não pavimentada, pilotada pelo Major Mariotto Ferreira e pelo Engenheiro Michel Cury, celebrando assim os anos de dedicação investidos no programa da aeronave brasileira. Em 1969, devido a divergências de opinião sobre a condução do desenvolvimento do projeto, o engenheiro francês Max Holste deixou a equipe. Nesse mesmo ano, o Coronel Ozires Silva e sua equipe iniciaram esforços para buscar parcerias no setor privado nacional para a produção em série da nova aeronave. Apesar das muitas negativas enfrentadas, o Coronel não se deixou desanimar; uma grande oportunidade surgiu durante um encontro inesperado com o presidente Artur da Costa Silva, no qual ele conseguiu convencê-lo a investir no projeto de produção em série. Esse esforço resultou na criação de uma empresa estatal de capital misto, estabelecida na cidade de São José dos Campos, São Paulo, com sua fundação ocorrendo em 19 de agosto de 1969. A nova empresa recebeu o nome de Empresa Brasileira de Aeronáutica S/A (Embraer), tendo o Coronel Ozires Silva como seu primeiro presidente, cargo que ocupou até 1986. Assim, o projeto IPD-6504 e seus dois protótipos foram transferidos para a nova empresa, recebendo a designação oficial de EMB-100 Bandeirante. Subsequentemente, iniciaram-se trabalhos focados na melhoria do projeto e no desenvolvimento da engenharia de processo para a futura produção em série da aeronave. Como resultado desse trabalho, foi criado um terceiro protótipo, que recebeu a matrícula PP-ZCN e realizou seu voo inaugural em 29 de junho de 1970. Apesar de seu bom desempenho durante os testes de voo, constatou-se que as condições e os parâmetros operacionais para os quais o projeto havia sido originalmente concebido haviam se modificado. Em particular, a capacidade de transporte de até oito passageiros se tornara insuficiente, pois o mercado passou a preferir modelos com capacidade para até doze passageiros. Essa mudança trazia desafios significativos para o sucesso do EMB-100 nos segmentos comercial nacional e internacional, levando a empresa a um processo de reformulação do projeto. Assim, nasceu o Embraer EMB-110, uma nova versão com maior porte, que atendia à nova demanda por transporte civil e cuja variante militar (C-95) poderia também carregar uma carga útil maior, incorporando avanços técnicos significativos. A partir das novas definições  de projeto estabelecidas, em novembro teve início a produção do primeiro exemplar pré-série da versão militar, designado como C-95, recebendo a matrícula FAB 2133.
Este modelo apresentava uma fuselagem alongada em relação aos primeiros protótipos, com 14,23 metros de comprimento, e passava a incorporar janelas retangulares em vez das ovais originais. Possuía também  um novo estabilizador vertical, naceles de motores redesenhadas e motores turboélices mais potentes do modelo Pratt & Whitney PT6A-27, cada um com 680 hp. O primeiro voo do C-95 FAB 2133 ocorreu em 9 de agosto de 1972, sendo imediatamente destinado a um extenso e detalhado programa de testes e ensaios em voo conduzido pela Força Aérea Brasileira. Posteriormente, a aeronave recebeu homologação operacional oficial do Centro de Tecnologia da Aeronáutica (CTA) e de demais órgãos governamentais responsáveis pelo transporte aéreo. Nesse contexto, foi formalizado um contrato entre a Embraer S/A e o Ministério da Aeronáutica (MAer) para a aquisição de oitenta células, com as primeiras aeronaves previstas para entrega à Força Aérea Brasileira (FAB) a partir de fevereiro de 1973. Contudo, até o final de 1976, foram produzidas e incorporadas apenas cinquenta e cinco células. Embora tenha sido concebido inicialmente para fins militares, o Embraer C-95 Bandeirante demonstrou também um notável potencial civil. Assim, que foi lançado o modelo EMB-110C, que apresentava capacidade para até dezesseis passageiros o que despertaria o interesse de operadores regionais. O primeiro contrato comercial foi celebrado com a empresa Transbrasil S/A, que recebeu seu primeiro exemplar em abril de 1973, ostentado a matrícula PT-TBA. Em seguida, Vasp S/A, uma empresa estadual paulista de capital misto, tornou-se o segundo operador comercial do modelo, com esta variante atingindo a  produção total de trinta e quatro células. Devido ao seu projeto bem dimensionado para o o atendimento de trechos regionais com considerável desempenho, o EMB-110 Bandeirante rapidamente iniciaria seus primeiros passos no mercado internacional, conquistando vários contratos nos Estados Unidos. Em 1975, foi concretizada a primeira exportação de uma versão militar para a Força Aérea do Uruguai (FAU). Apenas dois anos depois, a companhia aérea francesa Air Littoral se tornou o primeiro cliente internacional da versão civil. Definidos todos os ajustes no projeto, finalmente em novembro 1971 seria iniciada a produção em série, com o primeiro voo da aeronave Embraer EMB-110 Bandeirante “pré-serie” com a matrícula militar C-95 “FAB 2133”, ocorrendo em 9 de agosto de 1972. Esta nova aeronave teve sua fuselagem alongada para 14,23 metros, ampliando assim como planejado a capacidade de transporte de oito para doze passageiros, e passava ao contrário das células dos  YC-95 iniciais a apresentar novas janelas retangulares, estabilizador vertical, naceles dos motores redesenhadas e novos motores turboélices Pratt & Whitney PT6A-27 com 680 hp. Finalizado o processo de ensaios e voo a empresa passaria a se dedicar a produção referente a encomenda de oitenta unidades destinadas a Força Aérea Brasileira (FAB), atendendo ao contrato celebrado em maio do ano anterior com o Ministério da Aeronáutica (MAer). 

As primeiras células de produção em série do EMB 110 Bandeirante começaram a ser entregues à Força Aérea Brasileira (FAB) a partir de fevereiro de 1973, marcando o início de sua efetiva incorporação operacional nos esquadrões de transporte aéreo. Apesar de sua origem militar, o projeto demonstrava clara vocação para o mercado civil, evidenciada pelo lançamento da versão regional de transporte de passageiros EMB-110C Bandeirante, configurada para até doze ocupantes. Essa versão rapidamente conquistou seus primeiros clientes, entre os quais se destacou a empresa Transbrasil S/A, que recebeu sua primeira aeronave em 11 de abril de 1973, registrada sob a matrícula PT-TBA. O emprego operacional do modelo revelou tanto suas qualidades quanto oportunidades de aprimoramento, levando o fabricante a conduzir estudos visando elevar o desempenho e ampliar a capacidade de carga da aeronave. Como resultado desses estudos, em 1975 foi desenvolvida a versão EMB-110K1 Bandeirante, voltada prioritariamente ao mercado militar. Essa variante apresentava uma fuselagem alongada  em aproximadamente 0,87 metro  permitindo a incorporação de uma porta traseira de carga, além de uma porta adicional para tripulação e passageiros, aumentando significativamente sua versatilidade logística. Nos anos subsequentes, o EMB 110 Bandeirante consolidou-se como uma referência no mercado regional, inclusive nos Estados Unidos, onde conquistou uma ampla base de operadores no segmento de aviação regional. Paralelamente, buscando diversificar seu portfólio, o fabricante desenvolveu a versão executiva EMB-110E , derivada do EMB-110C  com cabine configurável para seis ou oito passageiros. Apesar de seu apelo no mercado corporativo, apenas quatro exemplares foram produzidos. Uma evolução direta dessa proposta foi a versão EMB-110J , da qual apenas doze unidades foram construídas. O contínuo emprego operacional e a experiência acumulada levaram novamente a revisões no projeto, culminando no aperfeiçoamento da versão militar. O resultado foi a consolidação do EMB-110K1 Bandeirante, agora equipado com motores mais potentes Pratt & Whitney PT6A-34, capazes de desenvolver cerca de 750 shp, além de melhorias na aviônica, nos trens de pouso e nos sistemas elétricos e de combustível. Na Força Aérea Brasileira (FAB), essa variante recebeu a designação C-95A Bandeirante, tornando-se um dos principais vetores de transporte leve da instituição. A partir dessa versão militar, foram desenvolvidas duas variantes civis principais: o EMB-110P1 , configurado para transporte misto de passageiros (até dezenove) ou carga, e o EMB-110P2 , destinado ao transporte exclusivo de passageiros até vinte e um e caracterizado pela substituição da porta de carga por uma porta de serviço convencional. Dessa forma, o Embraer EMB 110 Bandeirante consolidou-se não apenas como um marco da indústria aeronáutica brasileira, mas também como uma plataforma versátil, capaz de atender com eficiência tanto às demandas militares quanto às necessidades do crescente mercado de aviação regional e executiva daquele periodo.
Em fins da década de 1970, surgiu a versão militar EMB-110P1(K) Bandeirante, que na Força Aérea Brasileira (FAB) passou a ser designada como C-95B . Esse modelo incorporava uma série de melhorias em relação ao seu antecessor, destacando-se a adoção de uma porta de serviço com dimensões de 1,42 x 0,63 m, integrada à porta de carga, permitindo sua abertura em voo para o lançamento de cargas ou paraquedistas. Com capacidade de transporte de até 1.700 kg, o C-95B  consolidou-se como o principal vetor das unidades de transporte da Aeronáutica brasileira. Paralelamente, no campo da patrulha marítima, os veteranos Lockheed P-2 Neptune  designados no Brasil como P-15 , operados pelo 1º/7º Grupo de Aviação (Esquadrão “Orungan”), aproximavam-se do limite de sua vida útil, impondo a necessidade de substituição. Como sucessor natural, destacava-se o Lockheed P-3 Orion, porém seus elevados custos de aquisição e operação tornavam essa alternativa inviável para a Força Aérea Brasileira (FAB). Diante desse cenário, o Ministério da Aeronáutica (MAer) optou por uma solução mais econômica e aderente à realidade nacional, solicitando à Embraer  S/A  o desenvolvimento de uma aeronave de patrulha baseada na já consagrada plataforma do  EMB 110 Bandeirante, que à época já acumulava cerca de 160 unidades entregues, tanto para uso militar quanto civil. A proposta foi apresentada em 1975 sob a designação EMB-111A Bandeirante Patrulha, incorporando modificações substanciais para adequação à missão de vigilância marítima. Entre os principais avanços destacava-se a instalação do radar de busca AN/APS-128 Super Searcher, alojado em um nariz alongado construído em fibra de vidro. A aeronave também passou a contar com uma nova suíte de comunicações, sistema de navegação inercial Litton LN-33, piloto automático Bendix M-4 e um sistema de contramedidas eletrônicas Thomson-CSF ECM. As asas foram estruturalmente reforçadas para permitir a instalação de tanques suplementares de 318 litros nas pontas  similares aos empregados no Embraer AT-26 Xavante  ampliando significativamente o alcance e a autonomia da aeronave. Esse reforço também possibilitava a utilização de até quatro pontos duros subalares, aptos a empregar armamentos como foguetes não guiados HVAR de 127 mm, foguetes nacionais Avibras SBAT-17 e casulos de foguetes SBAT-70, de fabricação nacional. Além disso, a aeronave foi equipada com dispositivos para lançamento de marcadores navais, granadas fumígenas e botes salva-vidas infláveis, ampliando sua capacidade em missões de busca e salvamento. Como nos demais aviões de patrulha marítima, o modelo também incorporava um potente farol de busca do tipo HIVA Searchlight, com intensidade de 50 milhões de candelas, instalado no bordo de ataque da asa direita. Dessa forma, o EMB-111A Bandeirante Patrulha representou uma solução eficiente e economicamente viável, permitindo à Força Aérea Brasileira (FAB)  manter sua capacidade de patrulha marítima e vigilância costeira com um vetor nacional, robusto e adaptado às necessidades operacionais do país.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
No início da década de 1970, a Aviação de Patrulha estava calcada em dois vetores: o Lockheed P-15 Netuno e o Grumman P-16 Tracker. Os primeiros estavam ingressando no final de sua vida operacional e, em poucos anos, deveriam ser desativados. Ciente disso, buscou-se  um substituto que atendesse a capacidade orçamentária do Ministério da Aeronáutica (MAer). Em 1975 a  a Embraer S/A  apresentou seus planos para uma versão de patrulha naval do Bandeirante. Com base no projeto, seriam aprofundados os estudos sobre a viabilidade de  customização para o atendimento a missões de esclarecimento marítimo e patrulha. Contudo inicialmente os relatórios  apresentavam uma série de ressalvas técnicas fundamentadas no conceito que a nova aeronave , seria um vetor bem menos capaz de realizar as  mesmas missões  que seu antecessor,  o Lockheed P-15 Netuno. Entre estes se destacavam parâmetros de desempenho como alcance, autonomia, perfil de missão e capacidade de transporte de armamentos. Porém de acordo com a dotação orçamentária naquele momento do Ministério da Aeronáutica (MAer), seria decidido conceder sinal verde para a produção do protótipo. O roll out da primeira aeronave produzida, ocorreu em 30 de junho de 1977, com seu primeiro voo ocorrendo em 01 de agosto do mesmo ano. Imediatamente o modelo seria submetido a um amplo programa de ensaios e voo e aceitação, realizados em conjunto por oficiais da Aeronáutica e técnicos do fabricante.  Após a implementação de pequenas modificações o projeto do  Bandeirante Patrulha foi aprovado para a produção em série, culminado esta decisão com a assinatura de contrato  para a aquisição de 12 células iniciais com este modelo recebendo a designação comercial de EMB-111A(A) e militar de P-95. Estas aeronaves seriam destinadas a executar missões de patrulha naval, esclarecimento marítimo e ataque leve.  O primeiro P-95, ainda matriculado como 2260, foi recebido em setembro de 1977 para testes de aceitação. A entrada em serviço ocorreu em 10 de abril de 1978, em Salvador, quando o Esquadrão Orungan recebeu seus três primeiros aviões matriculados como  FAB 7050, 7054 e 7055. Entre a desativação do  Lockheed P-15 Netuno e a chegada do P-95 Bandeirante Patrulha, o 1º/7º GAV empregou dois C-95 Bandeirante FAB 2187e 2189 como aeronaves de conversão operacional. Ainda no ano de 1978, o 1º/7º GAV foi equipado com mais cinco células. Até dezembro de 1979 todos os P-95 já haviam sido entregues pelo fabricante . Com a linha de voo cheia, foi possível emprestar três P-95 (7050, 7051, 7054, 7045 e 7059)  ao 2º/10º GAV entre o final de agosto de 1980 e novembro de 1981. Essas aeronaves cumpriram missões  de busca e salvamento (SAR) no período que compreende a desativação dos Grummam  S-16 Albatross, ocorrida em agosto de 1980, e a implantação dos SC-95B, a partir de abril de 1981. Além deles, o  fabricante  também “pegou emprestado” dois P-95. A primeira célula  o FAB 7060, que, antes da entrega, em junho de 1979, foi rematriculado PP-ZDM, passando a ser o demonstrado na Feira Internacional de Le Bourget de 1979. No ano seguinte, o FAB 7053, foi exposto  na Feira Internacional de Farnboroug, realizada em setembro de 1980.

Embora, como mencionado anteriormente, o P-95 batizado posteriormente como Bandeirulha não alcançasse o mesmo perfil operacional dos consagrados Lockheed P-2 Neptune, sua incorporação representou um marco relevante na modernização da aviação de patrulha marítima no Brasil. Esse avanço esteve diretamente associado às capacidades do radar de busca marítima AN/APS-128 Super Searcher, desenvolvido pela Eaton (anteriormente Cutler-Hammer). Operando na banda X, com alcance de até 160 quilômetros e taxa de varredura ajustável entre 15 e 60 rotações por minuto, esse radar destacou-se por sua versatilidade em missões de vigilância costeira, busca e salvamento, navegação e apoio meteorológico. Sua capacidade de detecção  como alvos de 150 m² a distâncias de até 100 quilômetros, mesmo em condições de mar agitado  representava um avanço significativo para a época. Diferentemente de muitos sistemas contemporâneos, o AN/APS-128 Super Searcher utilizava um display tipo televisão de 8x8 polegadas, integrando-se de forma eficiente com sistemas de navegação inercial e outros instrumentos de bordo. A aeronave também dispunha de um sofisticado conjunto de aviônicos, refletindo um salto tecnológico considerável em relação ao seu antecessor. Entre os principais sistemas embarcados destacavam-se o transceptor HF Collins 618T-3B, dois transceptores VHF Collins 618M-3, bússolas giromagnéticas Sperry C-14, receptores ADF Bendix DFA-74A, sistemas VOR/ILS Collins VIR-31A, transponder IFF AN/APX-92, rádio-altímetro Bendix ALA-51, sistema de navegação inercial Litton LN-33 e piloto automático Bendix M4-C. A arquitetura das antenas foi cuidadosamente planejada para maximizar a eficiência dos sistemas. As antenas ADF estavam distribuídas entre a fuselagem e a empenagem vertical, enquanto o cabo que conectava a cabine ao topo da cauda funcionava como antena de HF. A grande antena dorsal em formato de barbatana era dedicada às comunicações VHF, enquanto as antenas VOR, orientadas para trás, estavam posicionadas no topo da cauda, otimizando a precisão da navegação. No campo do armamento, além da possibilidade de empregar foguetes não guiados como os HVAR 127 mm , os cabides subalares foram adaptados para o emprego de cargas de profundidade disponíveis nos paióis da Força Aérea Brasileira (FAB), ampliando sua capacidade em missões de guerra antissubmarino (ASW). Durante esse período, a totalidade da frota de P-95 Bandeirulha encontrava-se concentrada na Base Aérea de Salvador, com exceção de quatro aeronaves destacadas temporariamente para o 2º/10º Grupo de Aviação, o Esquadrão “Pelicano”, entre 1980 e 1981. Essas aeronaves foram empregadas em missões de busca e salvamento, enquanto se aguardava a introdução da versão especializada SC-95 Bandeirante, desenvolvida especificamente para operações SAR (Search and Rescue). Dessa forma, ainda que não possuísse o mesmo alcance ou capacidade de carga dos grandes aviões de patrulha marítima, o modelo demonstrou-se uma solução eficiente, tecnologicamente avançada e plenamente adequada às necessidades operacionais
Em 11 de setembro de 1981, por meio da Portaria Reservada nº 298/GM3, foi criada a segunda unidade equipada com o Embraer P-95 Bandeirulha na Força Aérea Brasileira (FAB). O 2º/7º Grupo de Aviação foi oficialmente ativado em 15 de fevereiro de 1982, na Base Aérea de Florianópolis, recebendo quatro aeronaves provenientes da Base Aérea de Salvador, transferidas em 31 de janeiro daquele ano. Ainda em 1982, dois exemplares do  P-95 Bandeirulha foram cedidos temporariamente ao Comando de Aviação Naval Argentino (CANA) durante a Guerra das Falklans/Malvinas. As aeronaves FAB 7058 e 7060 foram encaminhadas ao fabricante, na cidade de São José dos Campos, para serem adaptadas e repintadas com as cores da Armada Argentina. Trasladadas em 22 de maio de 1982, passaram a ostentar inicialmente as matrículas 4-VM-1 e 4-VM-2, sendo posteriormente redesignadas como 2-P-201 e 2-P-202, operando junto à Escuadrilla Aeronaval de Exploración. Após o término do conflito, as aeronaves retornaram ao Brasil em 14 de julho de 1982, sendo novamente recebidas pelo fabricante para reconfiguração e posterior devolução às suas unidades de origem na Força Aérea Brasileira (FAB). Dois acidentes marcaram a operação do modelo nesse período. O primeiro ocorreu em 11 de julho de 1984, em Recife, envolvendo o FAB 7054, sem vítimas fatais. O segundo, mais grave, deu-se em 27 de junho de 1985, em Mucuripe, Ceará, com o FAB 7053, resultando na perda de quatro tripulantes. Em ambos os casos, as aeronaves pertencentes ao 1º/7º Grupo de Aviação  foram perdidas no mar. Com o objetivo de recompor perdas operacionais e modernizar a frota, o Ministério da Aeronáutica (MAer)  firmou, em dezembro de 1987, um contrato para a aquisição de 10 novas aeronaves. Para atender a essa demanda, o fabricante desenvolveu uma versão aprimorada baseada no C-95C Bandeirante, que apresentava modificações estruturais, como estabilizadores horizontais com diedro de 10 graus. Essa nova variante recebeu a designação de comercial EMB-111A(C) e militar como P-95B Bandeirulha. Em termos de sistemas, esta nova vers~;ao representava um salto tecnológico significativo. O radar AN/APS-128 Super Searcher foi substituído pelo mais moderno Thorn EMI Super Searcher, lançado internacionalmente em 1986 e dotado da capacidade Track While Scan (TWS), permitindo o acompanhamento simultâneo de alvos sem interrupção da varredura. A nova suíte aviônica incluía sistemas avançados como o Thomson-CSF DR 2000A Mk II e Dalia 1000A Mk II (MAGE), além de instrumentos como Collins EFIS-74, ADI-84, piloto automático APS-65 e sistema de navegação Canadian Marconi CMA 771 Mk III, baseado na rede Omega. Matriculadas como  FAB 7100 a 7109, essas aeronaves foram distribuídas entre as unidades de Salvador e Florianópolis. A primeira entrega ocorreu em 6 de novembro de 1989, na sede da Embraer, em São José dos Campos, quando o FAB 7101 foi incorporado ao 1º/7º Grupo de Aviação. O 2º/7º Grupo de Aviação recebeu sua primeira aeronave em janeiro de 1990.

Até setembro de 1991, todas as dez unidades do P-95B Bandeirulha já haviam sido entregues, com cada grupo operacional passando a dispor de cinco aeronaves, consolidando assim uma nova fase na capacidade de patrulha marítima Em paralelo ao recebimento das novas células do Bandeirulha, foi conduzido um amplo programa de modernização das aeronaves originais. Esse processo de retrofit ficou a cargo da área técnica da TAM Linhas Aéreas, então um dos principais operadores civis do EMB-110 Bandeirante. Durante a modernização, tanto a fiação elétrica quanto elementos estruturais  como as cambagens  foram completamente revisados, permitindo a instalação de novos módulos aviônicos nas estantes já existentes na estrutura original. A incorporação do sistema de guerra eletrônica ESM Thomson-CSF DR2000/Dalia (atualmente Thales Group) transformou significativamente o emprego da aeronave, elevando-a à condição de plataforma ELINT/SIGINT, dedicada ao monitoramento de emissões eletromagnéticas. Esse programa resultou na combinação entre as células originais e a eletrônica embarcada mais avançada da versão P-95B, dando origem a versão P-95A, uma solução intermediária, porém altamente eficaz, que ampliou a relevância operacional do modelo. O aumento do número de aeronaves disponíveis permitiu à Força Aérea Brasileira (FAB) expandir sua estrutura. Em 27 de setembro de 1990, foi ativado o 3º/7º Grupo de Aviação — Esquadrão Netuno  sediado em Belém. Com a introdução dos mais modernos P-95B  nas bases de Salvador e Florianópolis, as aeronaves P-95A  foram transferidas para a região Norte, fortalecendo de maneira decisiva a capacidade de patrulha marítima naquela área estratégica do Brasil. Em 1992, quatro exemplares do P-95A Bandeirulha foram incorporados ao 2º/1º Grupo de Aviação Embarcada, com a missão inicial de complementar os veteranos Grumman S-2 Tracker - P-16 visando sua futura substituição. Com a desativação desses aviões em dezembro de 1996, o 1º Grupo de Aviação Embarcada passou a operar exclusivamente com o Bandeirulha. Contudo esta fase seria relativamente breve, pois em  31 de julho de 1998, a Portaria R-452/GM3 determinou a desativação do 1º Grupo de Aviação Embarcada e a criação do 4º/7º Grupo de Aviação -  Esquadrão Cardeal. A unidade permaneceu ativa até novembro de 2011, quando foi oficialmente desativada. Sua última missão operacional ocorreu em 30 de novembro de 2011, sendo realizada por um P-95B. As quatro aeronaves P-95A então remanescentes foram redistribuídas entre outras unidades da Força Aérea Brasileira (FAB), assegurando a continuidade operacional. O ano de 2011 também marcou o encerramento das operações do Bandeirulha na Base Aérea de Salvador. No 1º/7º Grupo de Aviação — Esquadrão Orungan estas aeronaves foram substituídos pelos mais modernos Lockheed P-3AM Orion, restabelecendo capacidades de longo alcance, autonomia e poder ofensivo que haviam sido reduzidas desde a retirada dos  P-2 Neptune em 1976.
Em 30 de maio de 2011, teve início o processo de desativação dos exemplares do Embraer P-95A Bandeirulha na Força Aérea Brasileira (FAB). Como parte das ações de preservação histórica, a aeronave FAB 7050 foi incorporada ao acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL) em 2 de agosto de 2013, ostentando as cores do 4º/7º Grupo de Aviação. O último exemplar em operação, o FAB 7057, foi desativado em dezembro de 2014, quando ainda servia junto ao 2º/7º Grupo de Aviação. Como curiosidade histórica, os P-95 Bandeirulha  em suas versões A e B herdaram a tradição dos Lockheed P-2 Neptune de receber nomes de aves marinhas brasileiras ainda na fábrica. Essa prática foi mantida até meados de 2005, quando optou-se por retirar tais denominações das aeronaves. Entre os nomes registrados, destacam-se: Gavião-de-uruá (posteriormente Gaivota), Ariramba (depois Pelicano), Taiaçu, Petrel, Martin-pescador, Talha-mar, Albatroz, Falcão-pescador, Alca, Maguari, Biguá, Arapapá, Alcatraz, Andorinha-do-mar, Atobá, Batuíra, Cormorão, Flamingo, Fragata, Guará, Jaçanã, Socó e Tacha  alguns reutilizados ou alterados ao longo do tempo. Entre 2007 e 2008, o Comando da Aeronáutica  (COMAER) iniciou estudos aprofundados visando a modernização de parte da frota dos  C-95 Bandeirante e P-95 Bandeirulha, com o objetivo de estender sua vida útil por até duas décadas. O programa previa não apenas a revitalização estrutural, mas também uma profunda atualização da aviônica, com a adoção de um moderno conceito de glass cockpit, alinhando as aeronaves aos padrões tecnológicos contemporâneos. A execução do projeto ficou a cargo do Parque de Material Aeronáutico dos Afonsos (PAMAAF), com início em janeiro de 2012. Para a modernização dos sistemas eletrônicos, foi firmado um contrato de aproximadamente R$ 89,9 milhões com a AEL Sistemas S/A, subsidiária brasileira de um grupo israelense, contemplando inicialmente a atualização de 50 células. No que se refere especificamente ao Bandeirulha, o plano original previa a modernização de doze aeronaves P-95, número posteriormente reduzido para nove unidades da versão P-95B  em 2013. Um acidente envolvendo a aeronave FAB 7107, no ano seguinte, levou à redução final para oito exemplares. O primeiro voo de uma aeronave modernizada ocorreu em 18 de dezembro de 2013, seguido pela certificação em outubro de 2014. A primeira entrega operacional foi realizada em 2015 ao 2º/7º Grupo de Aviação. O principal destaque dessa modernização foi a incorporação do radar de abertura sintética Selex Seaspray 5000E, do tipo AESA (Active Electronically Scanned Array), significativamente mais avançado que os sistemas anteriores. Associado a novos sistemas de navegação e comunicação, esse radar elevou de forma substancial a capacidade de detecção, acompanhamento e identificação de alvos, aumentando a eficiência das missões de patrulha marítima, vigilância e busca e salvamento. Assim, mesmo em sua fase final de operação, o P-95 Bandeirulha continuou a evoluir tecnologicamente, demonstrando a versatilidade e a longevidade da plataforma Bandeirante, além de evidenciar o compromisso da Força Aérea Brasileira (FAB) com a modernização contínua de seus meios aéreos.

Em Escala.
Para a representação do Embraer P-95B Bandeirulha, identificado como "FAB 7106" pertencente ao 2º/7º Grupo de Aviação - Esquadrão Phoenix em uso durante a década de 1990, utilizamos o excepcional kit em resina na escala 1/72 produzido pela Liberty Quality Kits, fabricante artesanal reconhecido pela alta qualidade e precisão no acabamento de suas peças. Complementamos o modelo com decais originais, cuidadosamente confeccionados pela FCM Decais, garantindo autenticidade e fidelidade aos detalhes da aeronave real.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura empregado nas aeronaves Embraer  P-95  Bandeirante Patrulha, sendo adotado a partir da década de 1980 pelos P-95A e P-95B. As células modernizadas designadas como Embraer P-95BM passaram a ostentar um novo padrão de cinza, empregando marcações de baixa visibilidade.

Bibliografia :
- Aviação Militar Brasileira 1916 – 2016 por Jackson Flores Jr
- História da Força Aérea Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Bandeirulha o Patrulheiro da Embraer – Alide http://www.alide.com.br/artigos/emb111/index.htm
- Os Cardeais 1º Grupo de Avião Embarcada e 4º/7º Grupo de Aviação - Mauro Lins de Barros - Editora Adler

Krupp Modelos 1872 a 1938 (75 mm)

História e Desenvolvimento.
A história da Krupp remonta ao início do século XIX, período marcado pela intensificação da Revolução Industrial na Europa. Em 20 de novembro de 1811, Friedrich Krupp, em parceria com os irmãos Georg Karl Gottfried e Wilhelm Georg Ludwig von Kechel, fundou na cidade de Essen a empresa Friedrich Krupp, inicialmente dedicada à produção de aço fundido segundo padrões britânicos  então considerados os mais avançados do mundo. Nas forjas de Essen, operários trabalhavam sob o calor extremo das fundições para produzir materiais de elevada qualidade, estabelecendo as bases de uma corporação que, mais tarde, se tornaria sinônimo de poderio industrial e bélico. Com a morte de Friedrich Krupp em 1826, a direção da empresa passou, poucos anos depois, a seu filho Alfred Krupp, que assumiu efetivamente o controle por volta de 1830, aos 18 anos de idade. Sob sua liderança, a Krupp transformou-se em um conglomerado industrial de alcance global. Alfred promoveu inovações pioneiras, como o aro de roda ferroviária inteiriço, que revolucionou o transporte sobre trilhos ao oferecer maior robustez e segurança, contribuindo para a expansão das ferrovias europeias e para a mobilidade logística de tropas e suprimentos militares. Entretanto, a verdadeira projeção internacional da empresa ocorreu com o desenvolvimento de canhões de aço fundido, que superavam amplamente os modelos de bronze então predominantes. Esses canhões apresentavam maior resistência, precisão e durabilidade, características demonstradas nas vitórias prussianas durante a Guerra Austro-Prussiana (1866) e, posteriormente, na Guerra Franco-Prussiana (1870–1871). Enquanto engenheiros da Krupp se dedicavam a cálculos, experimentos metalúrgicos e testes exaustivos, os artilheiros prussianos reconheciam nessas peças um instrumento decisivo no campo de batalha. A expansão da empresa foi consolidada ao longo do século XIX, quando a família Krupp assumiu definitivamente o comando e transformou a fábrica de Essen no principal fornecedor de armamentos do recém-unificado Império Alemão. A reputação da Krupp ultrapassou fronteiras, levando à exportação de seus canhões para diversos países, como Rússia, Áustria-Hungria e, de modo especial, o Império Otomano, com o qual estabeleceu contratos estratégicos ao longo da década de 1860. Nesse contexto de crescente sofisticação tecnológica, em 1897 foi lançado o canhão de campanha Krupp de 75 mm, um projeto inovador que daria origem a uma importante família de armas de artilharia no início do século XX. Dotado de elevado alcance  até 8.500 metros  e cadência de tiro superior, o modelo combinava mobilidade, precisão e potência, características alinhadas às táticas de guerra modernas que começavam a se delinear. Seu sucesso técnico conduziu ao desenvolvimento do Modelo Krupp 1903, que incorporava melhorias estruturais, especialmente em estabilidade e precisão. O Exército Alemão (Reichswehr), já restrito pelas limitações impostas pelo pós-guerra, adotou o canhão em larga escala para exercícios de treinamento. Nessas atividades, artilheiros submetiam o equipamento a condições extenuantes, calibrando peças sob clima adverso e terrenos irregulares, validando sua confiabilidade. 

O desempenho superior do Krupp 1903 garantiu à empresa um contrato governamental de grande relevância, reforçando sua posição como um dos principais fornecedores do mercado internacional de armamentos. Produzido como um “stock gun”, o canhão de campanha Krupp de 75 mm Modelo 1903 foi concebido para exportação em larga escala, permitindo apenas modificações mínimas a fim de atender às necessidades específicas de cada cliente. Essa padronização, aliada à flexibilidade de adaptação, consolidou a estratégia comercial da Krupp e ampliou sua influência no cenário bélico na virada do século XIX para o XX. O primeiro grande cliente desse modelo foi o Império Otomano, que adquiriu 558 unidades do Krupp 1903, projetadas segundo requisitos próprios, incluindo escudo de proteção e culatra de bloco deslizante horizontal. Essas peças tiveram papel significativo em diversos conflitos regionais, destacando-se durante a Primeira Guerra dos Balcãs (1912–1913). Nesse período, 126 canhões otomanos, anteriormente comprados, foram capturados pelo Exército Real Sérvio, que posteriormente os empregou na Primeira Guerra Mundial um testemunho da robustez e longevidade do projeto. Outros países europeus também incorporaram o Krupp 1903. Dinamarca e Holanda adquiriram o modelo, sendo que os holandeses compraram 120 unidades, além dos direitos de produção. Em ambos os casos, os canhões passaram por processos de modernização, incorporando rodas de aço e pneus pneumáticos, o que permitia tração por veículos automotores  uma atualização essencial numa era de mecanização militar crescente. As unidades fornecidas à Dinamarca receberam a designação “03 L/30” e foram inclusive utilizadas nas fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, integrando os esforços de resistência dinamarquesa à invasão alemã em 1940. O caso mais expressivo, contudo, foi o da Romênia, que adquiriu 636 unidades, representando a maior compra de um único tipo de canhão na história militar romena. Denominado localmente como “Tunul de câmp Krupp, cal. 75 mm, md. 1904”, o modelo se destacava pela adoção da mira Ghenea-Korodi, projetada e fabricada na Romênia, considerada mais precisa que a versão alemã. Durante a Primeira Guerra Mundial, esses canhões formaram a espinha dorsal da artilharia romena, equipando todos os regimentos de artilharia das divisões de infantaria. Nos campos de batalha dos Cárpatos, artilheiros romenos enfrentavam condições severas  lama, frio intenso e fogo inimigo  carregando projéteis de 6,5 kg e ajustando continuamente as miras para atingir alvos a grandes distâncias. Apesar do desgaste decorrente do uso prolongado e das perdas em combate, restavam 321 peças em 1926, e mesmo consideradas tecnologicamente ultrapassadas, permaneceram em serviço ativo até 1942, evidenciando sua durabilidade e confiança operacional. A Bélgica também participou do conjunto de usuários do Krupp 1903, adquirindo uma licença para produzi-lo na Fonderie Royale des Canons, sob a designação Canon de 7c5 M 1905 TR et TRA. Utilizados tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra Mundial, os exemplares capturados pelas forças alemãs receberam a denominação 7.5 cm Feldkanone 235(b). Embora o número exato de unidades produzidas na Bélgica não seja detalhado, a existência da licença indica uma produção significativa.
No Japão, o governo imperial adquiriu os direitos de produção do Krupp 1903, resultando no desenvolvimento local do canhão Tipo 38 de 75 mm, que se tornou um dos principais armamentos do Exército Imperial Japonês. Esse modelo foi amplamente empregado nas campanhas contra a China Nacionalista durante a década de 1930, especialmente nas fases iniciais da Segunda Guerra Sino-Japonesa. A adoção do Tipo 38 ilustra a influência tecnológica alemã sobre o processo de modernização militar japonês no período pré-Segunda Guerra Mundial. No contexto europeu, a primeira década do século XX foi marcada por uma crescente corrida armamentista, impulsionada pelo acirramento das tensões geopolíticas que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Nesse ambiente, o governo belga firmou um contrato de grande vulto para a produção sob licença de uma versão aprimorada do Krupp 7,5 cm Field Gun Modelo 1903, diretamente com o fabricante alemão Friedrich Krupp AG. Essa variante modernizada recebeu a designação Canon de 7c5 M 1905 TR et TRA e foi fabricada localmente pela Fonderie Royale des Canons (FRC). As duas versões do canhão atendiam a diferentes requisitos operacionais: TR (Traction Roulante): versão originalmente tracionada por cavalos e TRA (Traction Automobile): versão modernizada, adaptada na década de 1920 para tração motorizada, acompanhando a mecanização crescente dos exércitos europeus. O canhão utilizava uma culatra de cunha horizontal deslizante e possuía um escudo de proteção, aumentando a segurança das guarnições. Os primeiros lotes produzidos na Bélgica apresentavam baixo índice de nacionalização, mas, conforme a FRC consolidava sua capacidade industrial, esse índice alcançou cerca de 90%, permanecendo importado apenas o tubo do canhão, ainda fabricado pela Krupp. Em termos técnicos, tratava-se de um projeto convencional para sua época, empregando sistema de recuo hidropneumático e uma culatra do tipo bloco deslizante horizontal. Pesando cerca de 1.070 kg, possuía elevação entre –8° e +16° e podia disparar projéteis de estilhaços de 6,5 kg, atingindo um alcance máximo aproximado de 8.000 metros, desempenho considerado expressivo para o período. Em 1914, às vésperas da invasão alemã, o Exército Belga (Armée belge) contava com dezoito brigadas de artilharia de campanha, cada uma composta por três baterias armadas com canhões de 75 mm do Modelo Krupp 1905. Embora o número exato de unidades produzidas na Bélgica não seja precisamente documentado, estimativas baseadas na capacidade industrial da FRC sugerem que entre 100 e 200 peças tenham sido fabricadas dentro do escopo de produção licenciada. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), o Canon de 7c5 M 1905 desempenhou papel central nas operações de defesa belgas, apoiando unidades de infantaria em batalhas como a defesa de Antuérpia e nas ações da Frente Ocidental. Com cadência de disparo entre 15 e 20 tiros por minuto, a arma era eficaz contra posições entrincheiradas e concentrações de tropas inimigas. A maior parte dessas peças foi perdida ou capturada durante o rápido avanço das forças alemãs em 1914. Após essas perdas, a artilharia belga passou a depender majoritariamente dos canhões de 75 mm fornecidos pela França, que se tornaram o principal armamento de campanha do país ao longo da guerra.

Neste momento a  equipe de projetos da Friedrich Krupp AG, sempre se dispunha livremente a customizar o desing de seus produtos destinados ao mercado de exportação, visando assim atender a necessidades especificadas de cada novo cliente. A exemplo podemos citar o Modelo 1908, que teve seu projeto fundamentalmente alterado para atender aos requisitos apresentados pelo Exército Imperial do Japão.  O Krupp 75 mm Modelo 1908 foi projetado como uma evolução do bem-sucedido Field Gun de 75 mm Modelo 1903, que alcançou exportações significativas para países como Romênia, Império Otomano e Holanda. A pedido do Exército Imperial do Japão, a equipe de projetos da Krupp realizou alterações substanciais para atender às especificações japonesas, demonstrando a flexibilidade que caracterizava a empresa. O Modelo 1908, designado como Type 38 no Japão após aquisição dos direitos de produção, apresentava um cano mais longo, com comprimento de 30 calibres (L/30, cerca de 2,25 metros), em comparação com os modelos anteriores, como o Krupp 1903. Essa modificação aumentava o alcance máximo para aproximadamente 9.000 metros, superando os 8.500 metros do Modelo 1903, embora tornasse o canhão ligeiramente mais pesado, com cerca de 1.100 kg. A carruagem de transporte foi completamente redesenhada, rompendo com o padrão da Krupp. Em vez da típica caixa aberta usada no Krupp 7.5 cm Gebirgskanone M.1904 (canhão de montanha), o Modelo 1908 adotou elementos tubulares, assemelhando-se a um grande diapasão no plano horizontal. A seção traseira da trilha, que suportava a pá de ancoragem, podia ser dobrada sobre os tubos dianteiros, facilitando o transporte em terrenos acidentados. Esse design inovador, inspirado em projetos da concorrente Ehrhardt Rheinmetall AG, conferia maior mobilidade e robustez, ideais para as operações do Exército Imperial Japonês em terrenos variados da Manchúria e da China. Na fábrica da Krupp em Essen, engenheiros e operários trabalhavam com precisão artesanal, moldando o aço em forjas escaldantes e testando cada componente para garantir durabilidade e desempenho.  Adquiridos as centenas pelo governo do Império do Japão, logo se tornaria  a espinha dorsal de sua artilharia de campanha. Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), o canhão foi amplamente utilizado, oferecendo suporte às divisões de infantaria com sua cadência de 15 a 20 disparos por minuto e projéteis de 6,5 kg. Sua mobilidade, garantida pela carruagem tubular, permitia deslocamentos rápidos em terrenos difíceis, enquanto o alcance ampliado era crucial para atingir posições fortificadas. Este modelo seria considerado para exportação há outros países mantendo o calibre 75mm L/30, se tornando um grande sucesso comercial na primeira década do século vinte. 
O Tratado de Versalhes impôs duras sanções à Alemanha, incluindo indenizações financeiras e limites rigorosos à produção industrial. Para a Friedrich Krupp AG, que havia se tornado sinônimo de armamentos desde as guerras prussianas de 1866 e 1870, as restrições foram particularmente severas: a empresa foi proibida de fabricar armas e munições, e a produção de aço foi limitada por cotas máximas. Essas medidas afetaram profundamente os trabalhadores de Essen, que, após anos moldando canhões em forjas escaldantes, enfrentaram a incerteza de um futuro sem a principal atividade da empresa. Para muitos, a transição foi um teste de adaptação, com famílias inteiras dependentes da Krupp para sua subsistência. Sob a liderança de Gustav Krupp, a empresa se reinventou, voltando-se para a produção de ferramentas, máquinas agrícolas e materiais para a indústria de base, como locomotivas e componentes ferroviários. Nas oficinas de Essen, operários que outrora forjavam canhões agora fabricavam arados e peças industriais, mantendo viva a tradição de precisão da Krupp. Esse período de paz forçada foi marcado por um espírito de resiliência, com engenheiros e técnicos buscando soluções inovadoras para sustentar a empresa em um cenário de restrições. A ascensão de Adolf Hitler ao poder em 1933, consolidada em 1934, marcou o início de um ambicioso programa de rearmamento alemão, desafiando as restrições do Tratado de Versalhes. A Friedrich Krupp AG foi convocada a retomar sua produção bélica, reacendendo as forjas de Essen com um novo propósito. Para os trabalhadores, o retorno à fabricação de armas era tanto uma oportunidade de recuperação econômica quanto um lembrete do papel central da Krupp na história militar alemã. Engenheiros, muitos dos quais haviam preservado seus conhecimentos durante o período de restrições, voltaram a projetar canhões e munições, adaptando-se às demandas do regime nazista. Entre os projetos de destaque estava o Schwerer Gustav, um colossal canhão ferroviário de 800 mm, projetado para destruir fortificações massivas. No entanto, o volume de negócios da Krupp concentrou-se em peças de artilharia de médio e leve calibre, mais práticas para produção em massa e uso em campo. Os canhões de campanha de 75 mm, como os modelos Krupp 75 C-26 M e C-28 M, foram desenvolvidos para atender a essas necessidades, com designs simplificados que priorizavam eficiência e baixo custo. Equipados com rodas de madeira para tração animal, esses canhões combinavam mobilidade e robustez, pesando cerca de 1.000 kg e alcançando até 9.000 metros com projéteis de 6,5 kg.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A Arma de Artilharia do Exército Brasileiro possui origem profundamente enraizada nos conflitos do período colonial e consolidou-se como um dos pilares da história militar nacional ao longo do século XIX. Seu desenvolvimento foi marcado por episódios de bravura, inovação técnica e resiliência institucional, que moldaram a identidade do artilheiro brasileiro. As primeiras manifestações da artilharia em território brasileiro datam do período colonial, especialmente durante as Batalhas dos Guararapes (1648–1649), quando forças luso-brasileiras enfrentaram tropas holandesas em Pernambuco. Embora empregassem meios rudimentares, aqueles combatentes demonstraram notável engenhosidade e coragem, lançando as bases para a tradição artilheira que se formaria nos séculos seguintes. Com a Independência do Brasil, em 1822, a artilharia de campanha passou a se estruturar como uma arma organizada e tecnicamente orientada. Diferentemente da infantaria e da cavalaria, cujas formações exigiam períodos relativamente mais curtos, a artilharia demandava sólida formação matemática e científica. Por essa razão, seus oficiais eram obrigatoriamente formados pela Academia Militar do Império, instituição responsável por consolidar a doutrina técnico científica que caracterizaria o prestígio da arma. O ápice dessa fase inicial ocorreria durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), o maior conflito armado da história da América do Sul. Nesse teatro de operações, a artilharia brasileira teve papel decisivo, especialmente na Batalha de Tuiuti (24 de maio de 1866). Sob o comando do então coronel Emílio Luís Mallet, a artilharia brasileira ficou conhecida como “Artilharia Revólver”, devido à sua notável rapidez, precisão e capacidade de manobra. Operando atrás de um fosso tático engenhosamente preparado, os artilheiros repeliram ataques maciços das forças paraguaias, episódio eternizado na célebre frase de Mallet: “Eles que venham! Por aqui não passam!” Nascido na França em 1801 e naturalizado brasileiro, Mallet ascendeu por mérito, sendo promovido a brigadeiro, agraciado com o título de Barão de Itapevi em 1878 e posteriormente elevado ao posto de marechal em 1885. Sua liderança e competência técnica marcaram profundamente a doutrina artilheira e consolidaram seu nome como símbolo de coragem e profissionalismo. Paralelamente, o final do século XIX foi marcado por um importante salto tecnológico. A influência da empresa alemã Friedrich Krupp AG no processo de modernização do Exército Brasileiro começou em 1872, com a aquisição dos primeiros canhões de campanha de 75 mm, destinados aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Produzidas em Essen, essas peças representavam o que havia de mais avançado na engenharia bélica de sua época, superando amplamente os canhões franceses La Hitte, então prevalentes no arsenal nacional. Na década de 1880, o Exército Imperial adquiriu mais três dezenas de canhões Krupp 75 mm Modelo 1895, recomendados pelo Conde d’Eu, genro do Imperador Dom Pedro II e então Comandante-Geral da Artilharia. À frente da Comissão de Melhoramento de Material do Exército, o Conde d’Eu desempenhou papel fundamental na modernização das forças terrestres, defendendo energicamente a superioridade dos armamentos alemães, cujos alcances superiores que podiam ultrapassar 12.000 metros  representavam uma drástica ampliação das capacidades da  artilharia.

A introdução dos canhões Krupp marcou uma virada na modernização do Exército Brasileiro, após anos de estagnação tecnológica. Para os artilheiros da época, operar essas peças representava um desafio técnico significativo. Nos campos de instrução do Rio de Janeiro, guarnições compostas por cinco a sete homens realizavam rotinas extenuantes: carregavam projéteis de 6,5 kg, ajustavam miras, regulavam mecanismos e disparavam sob intenso calor, fortalecendo a camaradagem e a disciplina coletiva. Em uma ironia histórica, os mesmos canhões defendidos pelo Conde d’Eu durante o Império foram empregados contra uma rebelião de inspiração monarquista já no período republicano: a Guerra de Canudos (1896–1897). Nessa campanha, os Krupp demonstraram sua letalidade em operações reais, apesar das condições adversas do sertão baiano, reforçando sua reputação como peças robustas e confiáveis. Ao longo desse processo, a Arma de Artilharia consolidou-se como um dos ramos mais técnicos e prestigiados do Exército Brasileiro, mantendo até hoje os valores de precisão, disciplina e rigor científico que caracterizaram sua formação histórica. No início do século XX, o Exército Brasileiro enfrentava uma conjuntura marcada pela obsolescência de seus armamentos, estruturas administrativas e doutrinas operacionais. Esse cenário era resultado de limitações já evidenciadas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870) e posteriormente confirmadas na Campanha de Canudos (1896–1897), quando ficou evidente que grande parte do material bélico disponível não acompanhava a evolução tecnológica observada nas principais potências militares. Os canhões Krupp de 75 mm, adquiridos em 1872 e novamente em 1895, haviam representado, em seu tempo, um salto qualitativo. Contudo, a virada do século trouxe novidades determinantes  como o sistema de recuo hidropneumático, a maior mobilidade tática da artilharia e o emprego de munições mais avançadas  que tornaram aqueles armamentos insuficientes para a guerra moderna. Diante dessa realidade, lideranças militares brasileiras passaram a defender uma profunda reestruturação das forças terrestres. Entre os principais articuladores desse movimento destacaram-se os Marechais João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Francisco de Paula Argolo e, especialmente, Hermes da Fonseca, cuja atuação contou com o apoio político do então Ministro das Relações Exteriores, o Barão do Rio Branco. Essa convergência de esforços resultou no processo reformista conhecido como Reforma Hermes (1900–1908), um dos mais abrangentes projetos de modernização militar da Primeira República. A Reforma Hermes promoveu transformações estruturais profundas. No campo administrativo, redefiniu-se a organização territorial do Exército, com a criação de 21 regiões de alistamento militar e 13 regiões de inspeção, possibilitando melhor distribuição e controle do efetivo. Paralelamente, criou-se e regulamentou-se o Estado-Maior do Exército, elemento essencial para o planejamento estratégico e logístico, inspirado diretamente no modelo prussiano desenvolvido por Helmuth von Moltke, então referência mundial em eficiência militar.
No âmbito educacional, a reforma promoveu a atualização do ensino militar, direcionando a formação de oficiais para parâmetros técnico-científicos mais avançados. Essa medida era considerada indispensável, já que o Brasil ainda não possuía uma indústria bélica capaz de atender às demandas modernas, o que reforçava a necessidade de importar armamentos sofisticados e formar quadros aptos a operá-los. Em agosto de 1908, Hermes da Fonseca realizou uma viagem oficial à Alemanha, motivado por sua admiração declarada pelo Exército Prussiano e pela intenção de aprimorar as capacidades técnico-profissionais das forças terrestres brasileiras. A visita resultou em importantes contratos com empresas alemãs, entre elas a Friedrich Krupp AG, consolidando a opção estratégica pela modernização com base na tecnologia germânica. Esses acordos incluíram a aquisição de 400.000 fuzis Mauser de 7 mm para a infantaria, 10.000 lanças Ehrhardt, 20.000 espadas e 10.000 mosquetões para a cavalaria, refletindo a escala da renovação armamentista. Para a artilharia, a Krupp forneceu 27 baterias de canhões de campanha de 75 mm Modelo 1908, seis baterias de canhões de montanha de 75 mm e cinco baterias de obuses de 105 mm. Essas peças, dotadas de sistema de recuo hidropneumático, ofereciam alcance entre 6.500 e 9.000 metros, dependendo do calibre, representando o ápice da tecnologia da época. O Modelo 1908  uma adaptação do Type 38 japonês  destacava-se pela carruagem tubular que conferia maior mobilidade, além de possuir uma estrutura simplificada que favorecia a produção em série. Complementando a modernização, o Brasil também encomendou canhões Krupp de 305 mm, destinados às torres do Forte de Copacabana, então em construção no Rio de Janeiro, a fim de reforçar a defesa costeira da Capital Federal. Ao final de 1909, chegaram ao porto do Rio de Janeiro 170 canhões Krupp de 75 mm, versões C-26 e C-28, correspondentes aos modelos 1908 e 1909, assim que desembarcados, esses sistemas de artilharia foram imediatamente incorporados às unidades de campanha. Essas peças, classificadas como canhões 75 mm/L28, possuíam alcance de aproximadamente 6.000 metros e empregavam munições de 5,5 kg. Entre essas, destacava-se o projétil de estilhaços, contendo 245 balas de 11 gramas, lançado a uma velocidade inicial de 490 m/s. Seu emprego atendia aos padrões mais avançados da época, sendo particularmente eficaz em missões de apoio direto e contra concentrações de infantaria inimiga. A operação completa da peça demandava uma guarnição de nove militares, cujo treinamento envolvia cálculos de tiro, operação do mecanismo de recuo e ajustes de mira. Para garantir mobilidade adequada no terreno, cada canhão era habitualmente tracionado por nove cavalos ou mulas, prática comum nas artilharias europeias do período pré-motorizado. A munição  composta por 36 granadas por peça  era transportada em um carro de munição especialmente fabricado pela Friedrich Krupp AG, concebido para acompanhar o canhão em manobra

A introdução operacional desses novos sistemas de artilharia exigiu grande esforço de capacitação. Em campos de instrução como os de Valença (RJ) e Rio Pardo (RS), guarnições brasileiras — compostas por cinco a sete artilheiros enfrentavam jornadas intensas de treinamento. Sob condições climáticas adversas, ajustavam sistemas de mira, operavam mecanismos de recuo e manipulavam projéteis de 6,5 kg (75 mm) e 15 kg (105 mm), consolidando o processo de transição tecnológica. A robustez estrutural, associada à simplicidade mecânica e à facilidade de operação e manutenção, fez com que os canhões Krupp rapidamente conquistassem a confiança e a aprovação dos comandantes das unidades de artilharia de campanha. O primeiro emprego operacional dos recém-adquiridos canhões Krupp de 75 mm ocorreu durante a Guerra do Contestado (1912–1916), conflito regional deflagrado na fronteira entre os estados do Paraná e Santa Catarina. A área em disputa, caracterizada por extensas florestas de madeira de lei e vastas plantações de erva-mate  recursos de grande valor econômico  tornou-se palco de tensões fundiárias que envolveram posseiros, pequenos proprietários rurais e o poder público estadual e federal. O conflito ganhou contornos de guerra civil quando comunidades sertanejas, influenciadas por líderes messiânicos e descontentes com políticas de desapropriação e concessões de terras a empresas estrangeiras, organizaram resistência armada. Preocupados com a escalada do movimento e temendo a formação de um foco insurrecional duradouro, os governos estaduais e o Governo Federal decidiram empregar força militar a partir de 1912. Nesse contexto, unidades de artilharia de campanha desempenharam papel decisivo nas operações contra os redutos do Contestado. Os canhões Krupp 75 mm, recém-incorporados ao Exército Brasileiro, foram amplamente utilizados em ataques a posições entrincheiradas, destacando-se pela precisão e pela robustez mecânica. Sua atuação foi determinante para o desmantelamento de diversos núcleos de resistência, contribuindo para o encerramento gradual das hostilidades, que se estenderam até agosto de 1916. Satisfeito com o desempenho dessa família de canhões em operações reais, o Comando do Exército Brasileiro decidiu ampliar seu parque de artilharia. Dessa forma, iniciaram-se negociações bilaterais entre os governos do Brasil e da Alemanha, culminando, em agosto de 1913, na assinatura de um contrato com a Friedrich Krupp AG. O acordo previa a aquisição de duzentos canhões de campanha de 75 mm, com entrega estipulada para ocorrer em até dez meses após sua formalização. A primeira remessa foi enviada dentro do prazo previsto, composta pelo modelo Krupp C-28 1911. Em comparação ao modelo 1909, essas peças possuíam culatra de maior espessura e mecanismo inspirado no sistema alemão FK 96, assegurando maior resistência e confiabilidade. A remessa incluía, ainda, canhões de montanha Krupp Modelo 24 C14 de 75 mm, concebidos para operar em terrenos acidentados e de difícil acesso  característica particularmente relevante para o teatro geográfico brasileiro.
No entanto em julho de 1914 ao eclodir da Primeira Guerra Mundial, pelo menos 108 peças destinadas ao contrato brasileiro se encontravam prontas nas instalações do fabricante na cidade de Essen. Porém estas seriam confiscadas arbitrariamente pelo governo alemão, e possivelmente seriam destinadas a equipar as divisões de artilharia no front oriental. Os registros do fabricante classificavam estas peças como pertencentes a versão  Feldkanonen C-30 de 75 mm. Os canhões Krupp de 75 mm estiveram em ação em quase todos os grandes conflitos regionais ocorridos no país no início do século vinte incluindo as revoluções de 1930, a Constitucionalista de 1932, curiosamente os canhões de 75 mm Krupp (e também Schneider) foram empregados como arma orgânica dos seis trens blindados (TB) denominados TB-1 a TB-6, construídos na Oficinas Ferroviárias.  Durante a segunda metade desta década, o Exército Brasileiro se encontrava em uma situação complicada, com muitos países vizinhos  dispondo de equipamentos bélicos superiores, chegando a preocupante definição que nosso país estava completamente despreparado para enfrentar possíveis ameaças externas.  Para resolver esta deficiência em 1936 o general Eurico Gaspar Dutra, então Ministro da Guerra, determinou que uma comissão de compras, visitasse na Europa principalmente, vários fabricantes de armamentos, visando assim iniciar um processo de reaparelhamento das Forças Armadas Brasileiras.  Em atendimento a estas demandas, em 25 de março de 1938, seriam assinados diversos contratos com a empresas alemães como a Daimler Benz, Kraus Maffei, Fried Krupp AG. AG Matra Werke, Bussing-NAG, Henschel & Sohn, e outras, resultando na compra de uma quantidade substancial de material militar. O fornecedor principal nesta fase, novamente, seria a Fried Krupp AG, se destacando pelo volume de negócios celebrados com esta, assim por este motivo este acordo passaria a ser conhecido como “O Grande Contrato Krupp. Em setembro de 1939 o início da Segunda Guerra Mundial implicaria em bloqueios nas rotas comerciais entre a Alemanha e os demais países, atrasando a entrega dos materiais pertencentes ao contrato. O intensificar do conflito na Europa iria interromper de vez o fornecimento de materiais militares previstos neste contrato, com o restante do material estocado sendo absorvido pelas forças armadas alemães. Somente 64 canhões Krupp dos modelos C-26 e C-28 seriam recebidos, incluindo equipamentos de apoio e reboque de munição.  Com a ampliação da motorização do exército, a partir de 1954 uma parte destes canhões mais novos, seriam modernizados nos arsenais de guerra no Rio de Janeiro (RJ) e General Câmara (RS) recebendo novas rodas com pneus no lugar das rodas de madeira passando a dotar vários Grupos de Artilharia de Campanha (GAC) permanecendo em operação até a primeira metade da década de 1980.   

Em Escala:
Diversos modelos e versões dos canhões Krupp 75 mm seriam empregados no Exército Brasileiro  e na Força Publica de São Paulo ao longo dos anos, desta maneira optamos por representar o modelo Krupp 1895 calibre 75 mm do tipo retrocarga. O kit produzido pela empresa Artesania Latina é composto por peças produzidas em madeira, latão e metal, e apresenta nível de detalhamento e acabamento aceitável.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura que pode ter sido empregado nos canhões Krupp 75 mm e demais peças de artilharia de origem alemã, se baseando no esquema adotado no Exército Alemão (Reichswehr) durante a década de 1910. Presume-se desta maneira  que as peças de artilharia pertencentes ao Exército Brasileiro neste período foram repintados neste esquema. Esta tonalidade de pintura representa também as peças preservadas atualmente em museus militares.
Bibliografia: 
- História Militar - http://darozhistoriamilitar.blogspot.com/
- Canhões antiaéreos Krupp 88 mm no EB – Helio Higuchi e Paulo R. Bastos Jr – Tecnologia & Defesa
- Arquivos do Museu Militar de Conde de Linhares – Rio de Janeiro
- Krupp Gun – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Krupp_gun
- Arquivos do Museu Militar do Comando Sul – Porto Alegre