Contratorpedeiros Classe Amazonas

História e Desenvolvimento.
A origem do primeiro projeto de contratorpedeiros de médio porte construídos no Brasil, tem sua gênese remetida a fundação de uma das mais antigas empresas de construção naval britânica, a “J. Samuel White”  estaleiro este que iniciaria suas atividades de produção de navios  em fins do século XVII, no condado de Kent, no sudeste da Inglaterra.  Assim  construindo entre os anos de 1763-1764 o contratorpedeiro HMS Lapwing para a Marinha Real Britânica (Royal Navy). A este projeto se seguiriam outros não só para uso militar, mas também modelos civis destinados ao mercado de pesca, com muitos navios sendo construídos para a Companhia das Índias Orientais. Pelo menos três gerações do negócio da família “White” empreenderiam no segmento de construção naval, antes de Thomas White, (1773-1859), avô de John Samuel White, mudar´se  de Broadstairs, para East Cowes, na costa norte da Ilha de Wight, em 1802, onde adquiriria um novo local de construção naval na margem leste do rio Medina, região esta detentora de mais de um  século de tradição neste setor. Ao longo do século XVIII e XIX a empresa entraria em grande momento de expansão, tornando-se assim rapidamente líder mundial no projeto e construção de pequenos e médios navios militares e mercantes.  Já no início do século XX a J. Samuel White passaria a  conquistar grandes contratos de construção de navios para a Marinha Real Britânica (Royal Navy), entre estes um acordo de exportação para o fornecimento de seis contratorpedeiros para a Marinha do Chile. Esta demanda levaria a necessidade de ampliação de  instalações industriais, incluindo neste processo a instalação de um  guindaste de oitenta toneladas produzido pela Babcock & Wilcox de Renfrew. Estes navios seriam equipados com seu  próprio projeto de propulsão,  as caldeiras White-Forster, que foram empregadas pela primeira em cruzadores leves e contratorpedeiros construídos para a Marinha Real (Royal Navy) a partir de 1906. Este conjunto propulsor ganharia  notoriedade internacional, com a empresa passando a desenvolver, projetar e construir diversos navios de guerra para o mercado de exportação, principalmente durante as décadas de 1910 e 1920. Com estes navios tendo participado a serviço de diversas marinhas, ativamente nos embates navais durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918).

Na Polônia em 1932, os eventos decorridos da crise de “Danzig” contra a Alemanha, levariam o comando da Direção Naval (KMW) a pleitear junto ao seu governo, estudos visando o direcionamento de investimentos mais robustos para a sua marinha, com o objetivo assim  de  fortalecer sua força de projeção naval para fazer frente a possíveis ameaças futuras. Desta maneira em novembro do mesmo ano, o Contra Almirante da Direção Naval (KMW) Jerzy Świrski obteve, após uma audiência com o Marechal Piłsudski, o firme compromisso de investimentos que seriam destinados a expansão da frota em atividade naquele período. Como resultado, em maio de 1933, uma licitação para o fornecimento de dois contratorpedeiros modernos seria  direcionada a estaleiros franceses. As propostas apresentadas pelos construtores franceses, no entanto, não atendiam as demandas polonesas, com este processo sendo reiniciado em meados do ano seguinte. Durante este período, a tecnologia e as técnicas de combate sofreriam grandes avanços, entre estes a consolidação do uso do calibre de 120 mm como arma principal, levando assim a alterações nas especificações constantes da licitação original. Desta vez empresas britânicas seriam convidadas a participar deste processo, com propostas sendo apresentadas pelos construtores navais Swan Hunter e J. Samuel White. A primeira empresa fazia em sua proposta, uso do projeto do estaleiro francês Ateliers et Chantiers de la Loire (que já havia sido rejeitado na primeira concorrência), sendo este vencido pela proposta da J. Samuel White. Assim em 29 de março de 1935 seria celebrado entre o governo polonês a o construtor naval britânico um contrato para o desenvolvimento e construção de dois contratorpedeiros de grande porte, com esta nova classe de navios sendo batizadas como “Grom”. Durante o período de construção,  estes contratorpedeiros figuravam entre os mais rápidos e fortemente armados navios deste tipo. O primeiro contratorpedeiro batizado como Błyskawica, apresentava 114 metros de comprimento e 109 metros entre perpendiculares, com um feixe de 11,3 metros e um calado de 3,1 metros. O deslocamento foi de 2.011 toneladas (2.043 t) padrão e 2.520 toneladas de carga completa. Estava equipado com três caldeiras de três tambores que alimentavam de  vapor  dois conjuntos de turbinas engrenadas,  que juntas proporcionavam cerca 54.500 cavalos de potência (40.600 kW), dirigindo dois eixos de hélice para dar uma velocidade de projeto de 39 nós (72 km/h; 45 mph).
Estes dois navios seriam completados e lançados ao mar entre os aos de 1935 e 1936,  passando imediatamente a serem submetidos ao programa de testes estáticos e marítimos. Após o encerramento deste processo seriam comissionados para serviço ativo a partir do inicio do  1937. Melhorias seriam implementadas a estes dois navios ao longo dos dois próximos anos, e seu bom desempenho serviria de base para o aprimoramento dos projetos em curso dos contratorpedeiros britânicos da Classe G e Classe H,  ordenados anteriormente no Programa de Construção Naval,  entre os anos de 1933 e 1934. Estes navios seriam  originalmente  baseados na classe F, apresentando uma série de melhorias, como a eliminação das turbinas de cruzeiro e a inclusão de um sistema propulsor mais compacto. Estas mudanças permitiriam que suas dimensões e deslocamentos fossem ligeiramente reduzidos. Estes contratorpedeiros  apresentavam um deslocamento de 1.340 á 1.370 toneladas em carga padrão e 1.854 á 1.890 toneladas em carga total, possuíam um comprimento total de 98,5 metros um feixe de 10,1 metros e um calado de 3,8 metros. Sua tripulação em tempos de paz seria composta de 137 militares, devendo chegar a 146 militares em tempos de guerra. O armamento padrão destas duas classes podia ser composto por quatro canhões de 120 mm em torres individuais, dois lançadores quádruplos de torpedos de 533 mm, dois lançadores de cargas de profundidade e por fim para defesa antiaérea estariam equipados  com duas montagens quadruplas de metralhadoras Vickers de 7,7 mm (com este sistema sendo substituídos a partir de 1940 por conjuntos de quatro a oito canhoes QF 20 mm Oerlikon). Estes navios estariam equipados com  um sistema de sonar ASDIC e equipamento de varredura de minas TSDS (Two-Speed Destroyer Sweep, varredura de duas velocidades). As armas principais seriam controladas e direcionadas pelo sistema de “Mesa de Controle de Fogo do Almirantado” MK1 (A.F.C.T.), com este sendo um sistema de computador análogo eletromecânico para calculo da elevação e deflexão corretas do armamento. Durante a década de 1930 dezoito destes navios seriam encomendados e construídos para a Marinha Real Britânica (Royal Navy), sendo designados em serviço para a Frota Britânica do Mediterrâneo.

O excelente desempenho desta classe de navios quando em serviço na Marinha Real (Royal Navy), geraria novos contratos de construção,  agora de exportação, com o primeiro contrato sendo celebrado com a  Marinha Helenica Real (Πολεμικό Ναυτικό)  para tres navios, e na sequência para as  marinhas da Argentina, Polonia, Canadá e Brasil, totalizando assim vinte e quatro navios construídos e completados ao todo. No início da década de 1930 o governo brasileiro almejava modernizar sua força naval e para isto buscaria alternativas para a construção de modernos vasos de guerra, com uma parte deste programa abrangendo a aquisição de modernos contratorpedeiros.  Assim em 1936 seria celebrado junto ao estaleiro britânico J. Samuel White & Company, um contrato para a construção de seis navios da classe H, que seriam designados para exportação como classe J ou Javary. Estes navios deveriam ser batizados como Juruá, Javary, Jutahy, Juruena, Jaguaribe, Japarua. O primeiro desta classe o Javary, teve sua quilha batida em 31 de março de 1938, sendo lançado ao mar em 17 de julho de 1939, sendo seguido pelo Jutahy em 31 de maio de 1938, Juruá em 3 de junho de 1938 e pelo Japurá em 3 de julho e Juruena em 6 de julho do mesmo ano. No entanto o intensificar das tensões na Europa que prenunciavam um iminente conflito com a Alemanha nazista, levariam o Almirantado Britânico a fortalecer cada vez mais sua frota naval, levando assim a requisitar no dia 4 de setembro de 1939, a propriedade dos seis contratorpedeiros brasileiros em processo de construção. Salientando que neste mesmo processo, navios ainda e construção e pertencentes a outras nações como a Turquia, também seriam requisitados a compor os efetivos da Marinha Real Britânica (Royal Navy). Estes contratorpedeiros após  serem concluídos receberiam a designação de classe Havant, e sob a bandeira britânica teriam destacada atuação no conflito, com o HMS Havant - H 32 (Ex Javary), sendo perdido em combate em 1 de junho de 1940, o HMS Harvester H-19 (Ex Juruá), HMS Hurricane H-06 (Ex Japura) atacado pelo submarino alemão  U-415 em 24 de dezembro de 1943 e afundado no dia seguinte.
Como contrapartida a esta decisão emergencial  em se assumir a propriedade dos contratorpedeiros da classe Javary destinados ao Brasil, o governo britânico ofereceria a Marinha do Brasil a possibilidade de se construir localmente,  com um elevado grau de transferência de tecnologia,  um número igual de navios baseados na classe “H” , incluindo o mesmo um pacote de armamento destinado a guerra antissubmarino (ASW). Esta proposta seria inicialmente bem aceita pelo governo brasileiro, pois tal processo permitiria ao país absorver certo nível de tecnologia de construção naval moderna, com esta classe representando no momento projeto  de construção naval mais complexo já executado localmente. Seria decidido entao que estes novos navios deveriam construídos em parceria com uma delegação do estaleiro  J. Samuel White & Company e o Arsenal de Marinha das Cobras (AMIC) e do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), ambos estes, localizados na Ilha das Cobras, na cidade do Rio de Janeiro. Este projeto deveria contar um elevado grau de nacionalização de componentes, que a exceção das caldeiras, turbinas e armamentos deveria ser inteiramente produzido e montado no país. Caberia a empresa britânica apoiar tecnicamente a construção destas embarcações, implementando processos e ferramental adequado a esta tarefa. Após serem refinados os termos negociais e estabelecido um cronograma de implementação, as duas partes envolvidas celebrariam o contrato em  novembro de 1939.

Emprego na Marinha do Brasil. 
Esta nova classe de contratorpedeiros receberia a  denominação de “Classe Amazonas”, sendo ordenados seis navios : Amazonas A-1, Araguari A-2, Ajuricaba A-3, Acre A-4, Araguaia A-5 e Apa A-6.  Assim atendendo ao cronograma contratual, imediatamente os trabalhos de construção destes navios seriam iniciados junto ao Arsenal de Marinha das Cobras (AMIC) e o Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), dividindo entre sim varias etapas do processo. Assim o primeiro navio desta classe o Amazonas A 12 teve sua quilha batida em 20 de julho de 1940. Apesar deste rápido processo, neste mesmo momento a  Grã-Bretanha  já em guerra contra a Alemanha e Itália, passava a demandar cada vez mais recursos técnicos, materiais e pessoais em sua industria de construção naval, levando assim o gradativo abandono da consultoria britânica no processo de construção dos contratorpedeiros brasileiros. Esta movimentação resultaria no atraso de todo o cronograma de construção dos contratorpedeiros da classe Amazonas, com o demais navios avançando  apenas no estágio estrutural básico. Isto se daria principalmente  devido à fraca base técnica de pessoal especializado e à falta de experiência do estaleiro militar brasileiro neste tipo de embarcação complexa. Este problema frustraria os planos brasileiros para o fortalecimento de sua esquadra, a fim de poder fazer frente as possíveis ameaças que se avizinhavam no cenário do Atlântico Sul, com a força naval antissubmarino sendo composta somente por seis navios mineiros da Classe Carioca complementados por três contratorpedeiros da Classe Marcílio Dias. Este processo de estagnação começaria a ser solucionado  a partir de meados do ano de 1941, quando ocorreria uma maior aproximação com os Estados Unidos, que resultaria no estabelecimento de programas de cooperação militar. Desta maneira a partir de 1943 com o apoio de técnicos norte-americanos o programa de construção dos contratorpedeiros da Classe Amazonas seria recomeçado. Caberia ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (Ilha das Cobras)  adaptar os desenhos do casco inglês aos meios de propulsão de desenho norte-americano e seus complementos, instalações elétricas, armamento, etc. Este processo resultaria em navios híbridos em sua disposição final, com redução de espaços disponíveis, do raio de ação e prejuízo da estabilidade. Seriam construídos  em aço galvanizado nas partes mais sujeitas a corrosão, aço médio preto nas partes comuns e aço de alta-tensão nas zonas sujeitas a maiores esforços. O sistema geral de construção era transversal com reforços longitudinais distribuídos entre os diversos conveses em quase toda a extensão do navio com 175 cavernas e dividido em compartimentos estanques. Apresentavam: 2.102 toneladas de deslocamento a plena carga; 1.805 tonelada de deslocamento normal; 1.516 toneladas de deslocamento leve; 98,5 metros de comprimento total; 95,04 metros de comprimento entre perpendiculares; 10,06 metros de boca extrema;10,5 metros de boca moldada; 6,096 metros  de pontal a meio-navio; 5,864 metros de pontal a meio-navio nos bordos; 2,80 metros de calado médio com deslocamento máximo; 2,54 metros de calado médio com deslocamento normal; 2.28 metros de calado médio com deslocamento leve.

Estes contratorpedeiros preservariam algumas características comuns do projeto original, mas passariam a se assemelhar visualmente aos navios norte-americanos da Classe Craven. Estariam equipados com dois grupos propulsores Westinghouse Elet & MFG Co., 17.300 HP cada um, 34.600 HP de potência total, um a bombordo e outro a boreste, dispondo cada grupo, de duas turbinas, uma de alta pressão tipo ação, dez estágios, e uma de baixa pressão. Parte das turbinas de baixa pressão era destinada ao funcionamento da marcha atrás e acionavam dois hélices de 3,126 metros de diâmetro e passo constante 3,927 metros, através de engrenagens redutoras de dupla ação General Eletric Co. Deveriam possuir três caldeiras B&W Co de três tubulões, tipo expresso, dupla caixa de fumaça com fornalha simples, queimando óleo combustível. Cada caldeira era situada em praça separada, com o grupo destilatório de duplo efeito e baixa pressão, 45.500 l/dia. Existiam dois compressores de alta pressão, acionados por turbinas a vapor de 560 dm3 /hora e 210 kg/cm2 de pressão. Possuía um compressor de baixa pressão acionado por motor elétrico, que desempenhava 13,5 nós de velocidade econômica, 20 nós de velocidade padrão e 33,5 nós de velocidade máxima abrangendo um raio de ação de 3.800 milhas em velocidade padrão e 900 milhas em velocidade máxima. O seu leme era hidroelétrico e podia ser manobrado do passadiço, da estação de governo à ré e do compartimento da máquina do leme. Seu armamento seria padronizado ao mesmo empregado na Classe Marcílio Dias, incluindo como arma principal quatro canhões Mk12 de 127 mm, com montagem fechada para a arma frontal, quatro canhões Bofors L/60 de 40 mm em dois reparos duplos Mk-1 mod.6; seis metralhadoras Oerlikon de 20 mm; dois reparos triplos de tubos lança torpedos Mk-14 mod.12 de 21 pol. (533 mm); duas calhas de cargas de profundidade Mk 3 e dois  projetores laterais do tipo K Mk 6 mod.1 para cargas de profundidade Mk 6 ou Mk 9.  Para defesa, o navio dispunha de Centro de Informações de Combate (CIC) composto dos seguintes equipamentos principais: radar de busca de superfície AN-SPS-4; radar de busca aérea AN-SPS-6C; repetidora mestra do radar de busca aérea AN-SPA-4B; repetidora do radar de superfície VJ-1; equipamento de derrota estimada; indicador de distância e coordenador de IFF que era associado ao radar de busca aérea; controle a distância dos transceptores de UHF. Possuía ainda dois conjuntos de radiofones e amplificadores para controle dos transmissores de MF, HF, UHF e escuta de qualquer receptor Radio I; mesa de plotagem de superfície; quadro de plotagem sumária; repetidora de anemômetro; decompositor de vetores do rumo com agulha giroscópica; repetidora do odômetro de fundo. Para navegação, o navio era equipado com sonar QCR-1; indicador de desvio de marcação BDI-CQA 55098; registrador de distância CAN 55134-A; ecobatímetro ET-SQN1; radiogoniômetro RCA DP12; repetidora do odômetro de superfície e controle do Degauss; repetidora de giro; agulha magnética de governo; repetidora do odômetro de fundo e repetidora do radar AN-SPA-4A (podendo repetir os dois radares). Para comunicações, dispunha de estação de comunicações visuais, situada fora do passadiço com recursos de bandeiras, escote e holofotes; duas estações de rádio com equipamento de transmissão e recepção nas faixas de média, alta, muito alta e ultra-alta frequência.

Assim o primeiro navio desta classe a ser incorporado  o Amazonas A-1, seria lançado ao mar em 29 de novembro de 1943, em cerimonia oficial, tendo madrinha a Sra. Rosa Mendonça de Lima. E somente seria  submetido a Mostra de Armamento e incorporado à Armada pelo Aviso Ministerial nº 1176, em 11 de junho de 1949. Naquela ocasião assumiu o comando o Capitão-de-Fragata Waldemar de Figueiredo Costa. Seu primeiro emprego em treinamento ocorreu entre os dias 6 e 9 de junho realizando exercícios de guerra e tática antissubmarino. Em 31 de janeiro de 1953 seria incorporado ao Comando do 1º Esquadrão de Contratorpedeiros (Comesqd-CT-1). Entre os anos de 1957 e 1958 o Amazonas A-1 seria submetido a um amplo processo de modernização de seus sistemas eletrônicos e direcionamento de tiro. Em 1960 participaria pela primeira vez do exercício multinacional UNITAS, registrando sua última participação durante a Operação UNITAS XII em 1971. Em 19 de junho de 1973 daria baixa do Serviço Ativo da Armada e foi submetido à Mostra de Desarmamento, completando vinte e quatro anos de atividade, atingindo as marcas de 721,5 dias de mar e 187.646,97 milhas marítimas navegadas. O segundo navio dessa classe o Araguaia, foi lançado ao mar em 29 de novembro de 1943 e incorporado à Armada em 3 de setembro de 1949 (Aviso no1.711) com indicativo visual A5, posteriormente alterado para D14. Seria o segundo navio a ostentar este nome na Marinha do Brasil. Em 1953 passaria também a compor 1º Esquadrão de Contratorpedeiros (Comesqd-CT-1). Este navio seria submetido ao mesmo processo de modernização aplicado ao Amazonas A-1 entre os anos de 1957 e 1958. Em 31 de janeiro passou a pertencer ao Comando do 2º Esquadrão de Contratorpedeiros (ComEsqd-CT-2). No dia 22 de maio de 1974, em cumprimento ao Aviso Ministerial no 0218, da mesma data, foi realizada a Mostra de Desarmamento, sendo o navio entregue ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro para venda como sucata, tendo em seus 25 anos de existência totalizado 183.000 milhas navegadas e 815 dias de mar. O Contratorpedeiro Apa - A 6, foi o terceiro navio a ostentar esse nome na Marinha do Brasil, em homenagem a esse Rio no Mato Grosso, na divisa do Brasil com o Paraguai. O Apa foi construído pelo Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Teve sua quilha batida em 28 de dezembro de 1940, foi lançado ao mar e batizado em 30 de maio de 1945, em cerimônia conjunta com o CT Acre - A 4., tendo como madrinha a Sra. Marcondes Filho, esposa do então Ministro do Trabalho Alexandre Marcondes Machado Filho. Em 10 de dezembro foi incorporado a Armada pelo Memorando nº 1619 do Chefe do Estado-Maior da Armada ao 1º Distrito Naval, em cumprimento ao Aviso nº 2431 do Ministro da Marinha. Seu primeiro comandante foi o Capitão-de-Fragata Nilo de Figueiredo Costa. Em 30 de maio de 1958, passou à condição de “Navio em Reserva”, sendo reincorporado ao serviço ativo em junho de 1961. Em 22 de julho de 1964 foi submetido a Mostra de Desarmamento, dando baixa do serviço ativo da Armada, sendo o casco entregue ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Até essa data atingiu as marcas de 195,5 dias de mar e 50.879,4 milhas marítimas. 

O Contratorpedeiro Acre - A 4, foi o segundo navio a ostentar esse nome(1) na Marinha do Brasil em homenagem ao antigo território do Acre e ao rio do mesmo nome localizados no extremo noroeste do país. O Acre foi o quarto de uma serie de seis da classe Amazonas, construídos pelo Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Teve sua quilha batida em 28 de dezembro de 1940, foi lançado ao mar e batizado em 30 de maio de 1945 em cerimônia conjunta com o CT Apa - A 6. Foi incorporado e submetido a Mostra de Armamento em 10 de dezembro de 1949, em cumprimento ao Aviso Ministerial n.º 2.431. Naquela ocasião, assumiu o comando o Capitão-de-Fragata Edgard Serra do Vale Pereira. Em 1960 seria submetido ao Período de Manutenção e Atualização. Dentre as modificações que sofreu estava a substituição do radar de busca aérea SF-1 pelo AN/SPS-6C; do radar de busca de superfície VJ-1 pelo AN/SPS-4 e AN/SPS-6 com IFF; instalação do radar de DT Mk-28 mod.3 acoplado ao sistema de DT Mk-33 mod.38; remoção das seis metralhadoras Oerlikon de 20 mm; remoção do reparo 02 de 5 pol./38 (127 mm); instalação de quatro canhões Bofors L/60 de 40 mm em dois reparos duplos Mk 1 mod.6, um a vante do passadiço no lugar da torreta 02 de 5 pol. e outro a ré atrás dos reparos 03 e 04 de 5 pol.; instalação de duas diretoras Mk-51 mod.2 e duas alças giroscópicas Mk-14 mod.8 para os canhões de 40mm; instalação de dois reparos triplos de tubos de torpedo Mk-14 mod.12 de 21 pol. (533 mm), um a BE e outro a BB a meio navio; instalação de duas alças Mk-5 para os tubos lança torpedos; remodelação do mastro de combate para receber novas antenas; modernização do CIC; modificação nos camarotes dos oficiais para receber adequadamente 15 oficiais; substituição do transmissor de 500w do tipo Cacique S/A AB 500 FI, pelo transmissor TBI-6; instalação de 2 transceptores AN/ACL. Em 26 de julho de 1974 foi realizada a cerimônia de baixa e Mostra de Armamento. Em vinte e quatro anos e meio de serviço atingiu as marcas de 1056 dias de mar e 295.431 milhas navegadas. O Contratorpedeiro Ajuricaba - A 3, foi o segundo navio a ostentar esse nome na Marinha do Brasil em homenagem a um tuxaua guerreiro da tribo Manaós que resistiu aos colonizadores portugueses. O Ajuricaba foi o terceiro de uma serie de seis da classe Amazonas, construídos pelo Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Teve sua quilha batida em 28 de dezembro de 1940, foi lançado e batizado em 14 de julho de 1946, tendo como madrinha a Sra. Maria Vicentina Novelli, neta do então Presidente da República General Eurico Gaspar Dutra. Foi incorporado a Armada pelo Aviso Ministerial n.º 3.234 de 17 de dezembro de 1957 e foi submetido a Mostra de Armamento em 21 de dezembro de 1957. Foi seu primeiro comandante o Capitão-de-Fragata Didio Santos de Bustamante, que assumiu em 6 de julho de 1955. O Ajuricaba entrou em serviço já com as modificações a que foram submetidos os outros navios da classe que haviam entrado em serviço antes. Assim sendo ao invés de quatro canhões de 127 mm, tinha três e também já contava com os canhões de 40 mm e com novos radares e equipamentos eletrônicos. Em 22 de julho de 1964, foi realizada a cerimônia de baixa e Mostra de Armamento, passando a subordinação do AMRJ para venda como sucata. Nesses quase 7 anos de serviço ativo atingiu a marca de 61.977 milhas navegadas.
O Contratorpedeiro Araguari - A 2, foi o terceiro navio a ostentar esse nome em homenagem a cidade localizada em Minas Gerais e ao Rio do mesmo nome, na Marinha do Brasil. O Araguari foi construído pelo Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Teve sua quilha batida em 20 de julho de 1940, em cerimônia conjunta com o Contratorpedeiro  Amazonas - A 1. Foi incorporado em 21 de julho de 1960Em 31 de janeiro de 1963 seria criado pelo Aviso n.º 0191/63 o Comando do 2º Esquadrão de Contratorpedeiros (ComEsqd-CT-2), com a 21ª Divisão com os Contratorpedeiros Amazonas, Araguaia e Acre e 22º Divisão com os CT Apa, Ajuricaba e Araguari. Sua última participação em operações de destaque ocorreu em 1969, quando da realização da Operação SPRINGBOARD 69 e VERITAS II, realizadas com a U.S.Navy no Caribe. Depois de escalar em Recife-PE e Belém-PA, o GT-12.1, composto também pelos contratorpedeiros Piauí - D 31 (capitânia), Santa Catarina - D 32, Pará - D 27, Paraná - D 29, Mariz e Barros - D 26 e Acre - D 10, Navio Oficina Belmonte - G 24, Navio Tanque Marajó - G 27, e, o Navio de Transporte  Ary Parreiras - G 21, chegou a San Juan (Puerto Rico) no dia 21. Retornou ao Rio de Janeiro em 29 de março. Em 12 de agosto de 1974 foi realizada sua cerimônia de baixa e Mostra de Armamento.  Durante mais de vinte e quatro anos, os controversos contratorpedeiros da Classe Amazonas (A) cumpririam a contento sua missão quando a serviço da Marinha do Brasil. Seu  demorado e complexo processo de construção, que foi influenciado pela alternância de diretrizes (Britânica e norte-americana), resultaria em um  razoável nível de aprendizado e  capacitação técnica por parte do Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, criando assim as bases que trariam no futuro uma considerável capacidade construção naval em nosso pais. 

Em Escala.
Para representarmos o contratorpedeiro da classe Amazonas D-15 Araguari, pertencente a Comando do 2º Esquadrão de Contratorpedeiros (ComEsqd-CT-2), fizemos uso de uma conversão em scratch, partindo como base do kit Mirage Hobby na escala 1/400 do destroier polonês ORP Błyskawica. As principais mudanças se basearam na remoção das vigias no casco, alteração dos sistemas de armas e seu posicionamento, fazendo uso de peças oriundas de outros modelos em escalas próximas. Completando este processo fizemos a construção de um novo mastro principal com suas antenas de radar, similar ao empregado nos contratorpedeiros da classe Fletcher. Infelizmente não é possível obter um resultado 100% fiel aos navios desta classe, tendo em vista diversas diferenças existentes entre as unidades e a baixa qualidade de fotos disponíveis. Empregamos decais produzidos sobre encomenda pela Duarte Models nesta mesma escala.

O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão aplicado em todos os navios da Marinha do Brasil entre as décadas de 1940 a 1970. As alterações se limitarem a mudança da identificação dos navios, sendo o Amazonas sendo redesignado como D-12, o Araguari como D- 15, Ajuricaba D-11, Acre D-10, Araguaia D-15 e o Apa como D-13, mantendo esta sistemática até a Mostra de Desarmamento do último navio em fins do ano de 1974.


Bibliografia : 

- J. Samuel White -  Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/J._Samuel_White

- Destroiers Classe G e H – https://en.wikipedia.org/wiki/G_and_H-class_destroyer 

- Navios de Guerra Brasileiros – Poder Naval https://www.naval.com.br 

- Marinha do Brasil - https://www.marinha.mil.br/ 

AT-27 Embraer Tucano


História e Desenvolvimento.
No início da década de 1960, a Força Aérea Brasileira estava comprometida com um ambicioso programa de integração nacional. Nesse contexto, quase toda a sua frota de aeronaves Douglas C-47 e Beechcraft C-45 foi empregada, com o objetivo de expandir não apenas as linhas do Correio Aéreo Nacional (CAN), mas também de realizar missões de assistência logística e médica nas regiões mais remotas do país. Entretanto, com o passar dos anos e o uso intensivo, essas aeronaves começaram a apresentar desgastes estruturais significativos, o que impactou diretamente nos índices de indisponibilidade da frota. Esse problema foi agravado pelas dificuldades na obtenção de peças de reposição, sinalizando a necessidade urgente de substituir integralmente essa frota. Nesse cenário, o Coronel Ozires Silva apresentou ao comando da Aeronáutica a proposta de desenvolver uma aeronave bimotora nacional de médio porte. Seus esforços começaram a tomar forma em junho de 1965, em colaboração com o Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento do Centro Técnico Aeroespacial em São José dos Campos, SP, quando foi lançado o projeto IPD-6504. Este projeto envolvia uma aeronave bimotora de asa baixa, com estrutura metálica, medindo 12,74 m de comprimento, janelas em formato de bolha e capacidade para oito passageiros. A construção do primeiro protótipo foi iniciado em 1967, utilizando motores turboélice Pratt & Whitney PT6A-20, cada um com potência de 550 shp. A aeronave recebeu a designação oficial de YC-95 e foi batizada de "Bandeirante". O protótipo realizou seu primeiro voo em 22 de outubro de 1968 e, após leves ajustes no projeto da aeronave, foi oficialmente apresentado na semana seguinte em uma cerimonia no aeroporto de São José dos Campos (SP), sob a observação de autoridades, imprensa e de um público de 15 mil pessoas. Nesse mesmo ano, o Coronel Ozires Silva e sua equipe iniciaram esforços para buscar parcerias no setor privado nacional para a produção em série da nova aeronave. Apesar das muitas negativas enfrentadas, o Coronel não se deixou desanimar; uma grande oportunidade surgiu durante um encontro inesperado com o presidente Artur da Costa Silva, no qual ele conseguiu convencê-lo a investir no projeto de produção em série. Esse esforço resultou na criação de uma empresa estatal de capital misto, estabelecida na cidade de São José dos Campos, São Paulo, com sua fundação ocorrendo em 19 de agosto de 1969. A nova empresa recebeu o nome de Empresa Brasileira de Aeronáutica S/A (Embraer), tendo o Coronel Ozires Silva como seu primeiro presidente, cargo que ocupou até 1986. Em 29 de junho de 1970, seu terceiro protótipo  alçou voo, e após modificações surgiria sua versão inicial de produção, o EMB-110, que, em sua versão civil, para até 12 passageiros, e uma maior capacidade de carga presente  no modelo militar C-95.

O Embraer EMB-110 Bandeirante, graças ao seu design conceitual cuidadosamente alinhado às necessidades do mercado-alvo, alcançou rapidamente sucesso comercial, conquistando os primeiros contratos de exportação. A companhia francesa de transporte regional Air Littoral foi seu cliente inaugural. Em 1975, a Embraer celebrou seu primeiro contrato militar com o governo do Uruguai e, no mesmo ano, o EMB-110 consolidou-se no mercado civil norte-americano, tornando-se uma referência no segmento de aviação regional. O êxito comercial do Bandeirante gerou recursos financeiros e avanços tecnológicos que permitiram à estatal brasileira a investir no desenvolvimento de novas aeronaves com maior capacidade e desempenho. Nesse contexto, foi concebido o Embraer EMB-121 Xingu, a primeira aeronave executiva pressurizada da empresa. Embora o Xingu não tenha replicado o sucesso comercial do Bandeirante, sua produção elevou significativamente o conhecimento técnico e a expertise da Embraer. Paralelamente, o Ministério da Aeronáutica (MAer) buscava soluções para otimizar o processo de formação de pilotos militares, que, à época, era estruturado em três fases: treinamento básico com aeronaves Aerotec T-23 Uirapuru, treinamento intermediário com Neiva T-25 Universal e treinamento avançado com jatos Cessna T-37C. Contudo, a operação do Cessna T-37C enfrentava desafios significativos, incluindo altos custos operacionais e problemas crônicos de disponibilidade devido à escassez de peças de reposição, o que comprometia sua eficiência. Diante dessas dificuldades, a Academia da Força Aérea (AFA) iniciou a substituição gradual dos jatos Cessna T-37C pelo Neiva T-25 Universal no treinamento avançado. Embora economicamente viável, essa solução revelou-se inadequada, pois o Neiva T-25 Universal (e suas propostas de atualização) apresentava desempenho significativamente inferior ao necessário para atender aos padrões de formação avançada. Esse cenário foi agravado na mesma década com a introdução no Brasil de aeronaves de alta performance, como os caças franceses Marcel Dassault Mirage IIIEBR F-103E e os norte-americanos Northrop F-5E Tiger II, que demandavam  desde as fases iniciais um treinamento mais sofisticado e qualificado para seus pilotos. A conjugação desses fatores levou o Ministério da Aeronáutica (MAer) a buscar alternativas para atender a essa demanda crescente. Tal necessidade não passou despercebida pela Embraer, que identificou uma oportunidade estratégica para desenvolver soluções que atendessem aos requisitos da Força Aérea Brasileira.
Diante da identificação de uma oportunidade de mercado, a Embraer S/A iniciou estudos para desenvolver uma aeronave voltada ao treinamento militar, atendendo às demandas do Ministério da Aeronáutica (MAer). Na época, as opções disponíveis incluíam aeronaves a jato ou aviões de propulsão convencional equipados com motores turboélice. A análise técnica e econômica apontou que a motorização turboélice oferecia uma melhor relação custo-benefício, especialmente em um contexto de crise internacional do petróleo, que elevava significativamente os custos de combustível e, consequentemente, o custo por hora de voo de treinamento. Em 1977, a Embraer apresentou ao Ministério da Aeronáutica a proposta inicial do EMB-312, uma aeronave projetada especificamente para treinamento militar. A proposta gerou grande interesse, culminando na formalização de um acordo de desenvolvimento em dezembro de 1978. O programa foi oficialmente iniciado em janeiro de 1979, com uma grande equipe de técnicos sendo coordenados pelo talentoso engenheiro húngaro radicado no Brasil, Joseph Kovacks,  marcando assim o início de uma nova fase no portfólio da empresa. Durante 1979, o projeto ganhou forma com a realização de testes aerodinâmicos utilizando modelos em escala radiocontrolados. Ainda no mesmo ano, foi construído um modelo em escala real, equipado com um cockpit funcional para avaliação dos instrumentos de voo. Esses ensaios permitiram a definição dos parâmetros fundamentais do projeto, estabelecendo as bases para a construção do primeiro protótipo. Em março de 1980, a Embraer concluiu a construção do primeiro protótipo, designado YT-27 e registrado com a matrícula FAB 1300. A aeronave foi oficialmente apresentada em uma cerimônia de rollout no dia 19 de agosto de 1980, coincidindo com as comemorações dos 11 anos da Embraer. Na mesma data, o YT-27 realizou seu primeiro voo oficial, marcando um marco significativo no programa. O segundo protótipo, que incorporava melhorias em relação ao primeiro, incluindo a capacidade de portar armamentos, realizou seu primeiro voo em 10 de dezembro de 1980. Infelizmente, essa aeronave foi perdida em agosto de 1982 durante um voo de teste, embora os pilotos tenham conseguido ejetar-se em segurança. Um terceiro protótipo, registrado com a matrícula civil PP-ZDK, voou pela primeira vez em 16 de agosto de 1982. Este protótipo destacou-se por sua estreia internacional no Farnborough Airshow, na Inglaterra, em setembro de 1982, poucos dias após seu primeiro voo. Para realizar a travessia do Atlântico, a aeronave utilizou tanques suplementares de combustível e realizou escalas técnicas.

O Embraer EMB-312 Tucano, designado T-27, destacou-se como uma aeronave de treinamento avançada, incorporando inovações que estabeleceram novos padrões globais para o segmento. Desenvolvido desde sua concepção como um treinador turboélice, o Tucano combinava características operacionais típicas de jatos, oferecendo desempenho superior e eficiência econômica. O EMB-312 introduziu uma configuração de assentos em tandem escalonados, com o instrutor posicionado em um assento mais elevado que o do aluno. Essa disposição eliminava obstruções no eixo longitudinal da aeronave, proporcionando ao instrutor visão frontal desimpedida. Além de reduzir a área frontal da aeronave, essa configuração facilitava a adaptação do cadete ao ambiente operacional de aeronaves de caça. O Tucano foi pioneiro ao incorporar assentos ejetáveis em uma aeronave de treinamento turboélice, um avanço significativo em segurança para a época. Os tripulantes eram protegidos por uma capota transparente de plexiglass, moldada em peça única para evitar distorções óticas, garantindo visibilidade excepcional. Projetado para ser estável em baixas velocidades e altamente manobrável, o EMB-312 atendia às exigências de uma aeronave de treinamento avançado. Sua capacidade de operar com eficiência em diversas condições de voo reforçava sua adequação à formação de pilotos. Além de sua função primária como treinador, o Tucano possuía quatro pontos duros nas asas para cargas externas, permitindo seu uso em missões de treinamento armado, apoio aéreo e ataque ao solo. Essa versatilidade ampliava seu valor operacional. O primeiro protótipo, registrado como YT-27 com a matrícula FAB 1300, foi oficialmente apresentado em 19 de agosto de 1980, durante a cerimônia de rollout em São José dos Campos - SP, que marcou os 11 anos da Embraer. Na mesma data, a aeronave realizou seu primeiro voo, demonstrando desempenho promissor e atraindo atenção internacional. A combinação de desempenho excepcional e baixo custo operacional do EMB-312 logo despertou interesse global, Honduras e Egito foram os primeiros países a encomendar a aeronave. No Egito, o EMB-312 Tucano foi produzido sob licença  pela Arab Organization for Industrialization (AOI), especificamente por meio de sua divisão de aviação, a Helwan Aircraft Factory, uma entidade estatal egípcia responsável por projetos industriais e de defesa, e a produção do Tucano foi parte de um acordo para atender às necessidades da Força Aérea Egípcia e para exportação ao Iraque.
A produção sob licença do EMB-312 Tucano no Egito, realizada pela Arab Organization for Industrialization (AOI) por meio da Helwan Aircraft Factory, representou a primeira iniciativa da Embraer na montagem de aeronaves fora do Brasil. Esse projeto, voltado para atender às demandas da Força Aérea Egípcia e do Iraque, fortaleceu a presença da empresa no mercado internacional de aviação militar, demonstrando sua capacidade de transferência tecnológica e adaptação às exigências de clientes estrangeiros. Em resposta a uma concorrência internacional lançada pela Real Força Aérea Britânica (Royal Air Force) para a aquisição de uma nova aeronave de treinamento básico, a Embraer firmou uma parceria estratégica com a empresa irlandesa Short Brothers PLC. A partir do projeto original do EMB-312, foram implementadas modificações e melhorias, resultando no protótipo do Shorts Tucano TMk1. Este modelo venceu a concorrência, consolidando a reputação internacional da Embraer e levando à abertura de uma terceira linha de produção na Irlanda do Norte. Essa conquista marcou um momento pivotal na projeção global da empresa. Em 1991, a Embraer celebrou outro marco significativo com a assinatura de um contrato para o fornecimento de 80 aeronaves da versão EMB-312F à Força Aérea Francesa (Armée de l’Air). As entregas tiveram início em 1994, reforçando a presença da empresa em mercados europeus exigentes e destacando a versatilidade e confiabilidade do Tucano. A produção em série do EMB-312 Tucano foi encerrada em 1996, com um total de 624 aeronaves entregues para 17 países: Angola, Argentina, Brasil, Colômbia, Egito, França, Honduras, Irã, Iraque, Quênia, Kuwait, Mauritânia, Moçambique, Paraguai, Peru, Reino Unido e Venezuela. Muitas dessas aeronaves permanecem em operação, beneficiando-se de processos contínuos de modernização que garantem sua relevância e funcionalidade por décadas. O Embraer EMB-312 Tucano destacou-se por combinar inovação técnica, versatilidade operacional e competitividade econômica. Suas características pioneiras, como a configuração em tandem escalonada, assentos ejetáveis e capacidade multifuncional, estabeleceram novos padrões para aeronaves de treinamento avançado. A rápida aceitação do Tucano no mercado global e sua longevidade operacional reforçaram a reputação da Embraer como uma referência na indústria aeroespacial, consolidando sua posição como líder em soluções de aviação militar e de treinamento.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
O Embraer EMB-312 T-27 Tucano foi desenvolvido com o objetivo de substituir o Cessna T-37C na missão de treinamento avançado da Academia da Força Aérea (AFA), além de promover a incorporação de novas tecnologias de materiais e processos produtivos na indústria aeroespacial brasileira. Este documento detalha o contrato de aquisição, a entrega inicial das aeronaves e o processo de integração do Tucano na AFA. Em outubro de 1980, o Ministério da Aeronáutica (MAer) formalizou um contrato com a Embraer S/A para a aquisição de 118 aeronaves EMB-312 T-27 Tucano, com a opção de compra de adicional 50 aeronaves no futuro. Este acordo, de significativa envergadura, proporcionou à Embraer o financiamento estatal necessário para estabelecer uma linha de produção dedicada ao modelo em São José dos Campos, no interior do estado de São Paulo. A iniciativa fortaleceu a infraestrutura industrial da empresa e consolidou sua capacidade de atender às demandas da Força Aérea Brasileira (FAB). As primeiras oito aeronaves EMB-312 T-27 Tucano destinadas ao Ministério da Aeronáutica (MAer) foram oficialmente entregues em 29 de setembro de 1983, em cerimônia realizada nas instalações da Embraer em São José dos Campos. As aeronaves, matriculadas de FAB 1303 a FAB 1310, receberam uma pintura branca com faixas laranja e matrículas visíveis na fuselagem, inaugurando um novo esquema para aeronaves de instrução.  Após a entrega, foram transferidas em voo para a Academia da Força Aérea (AFA), localizada em Pirassununga, também no interior de São Paulo. Na AFA, as aeronaves iniciaram um processo de aceitação técnica e operacional, acompanhado do treinamento de instrutores e multiplicadores. As oito unidades foram alocadas ao 1º Esquadrão de Instrução Aérea (1º EIA), marcando o início da transição para o uso do T-27 Tucano no estágio de treinamento avançado. Com a chegada do T-27, as aeronaves Neiva T-25 Universal, até então utilizadas pelo 1º EIA, foram redistribuídas para o 2º Esquadrão de Instrução Aérea (2º EIA). Esse movimento possibilitou o início da desativação gradual dos treinadores básicos Aerotec T-23 Uirapuru, alinhando a frota da AFA às novas exigências de formação. Nos meses seguintes, a AFA recebeu unidades adicionais do EMB-312, o que permitiu a formação de uma frota suficiente para suportar o treinamento avançado dos cadetes do quarto ano. Essa expansão consolidou o Tucano como a principal plataforma de instrução avançada, aprimorando a qualidade e a eficiência do processo de formação de pilotos.

A partir de 1º de julho de 1984, a  Academia da Força Aérea (AFA) iniciou a operação com o turboélice EMB-312 T-27 Tucano, resultando em impactos imediatos na qualidade do treinamento avançado. A aeronave oferecia desempenho superior em comparação ao Neiva T-25 Universal, combinando alta performance de voo com a capacidade de permitir a correção de erros comuns cometidos por cadetes em formação. Uma das principais inovações do T-27 foi a adoção da configuração de assentos em tandem, em substituição aos assentos lado a lado do Neiva T-25 Universal Com o aluno posicionado no assento frontal e o instrutor atrás, a visibilidade do cadete simulava a experiência de voar sozinho, promovendo maior proatividade, confiança, iniciativa e capacidade de julgamento. Essa configuração expunha os alunos a situações que exigiam independência na tomada de decisões críticas, qualidades essenciais para pilotos de aviação de caça. O T-27 destacou-se por suas características técnicas avançadas, incluindo: Autonomia de voo: Até quatro horas e meia com tanque interno. Manobrabilidade: Excelente desempenho em baixas altitudes. Robustez e confiabilidade: Comandos precisos e ampla margem de manobra. Versatilidade: Capacidade de operar em diversas condições climáticas. Visibilidade: Cockpit com ampla visibilidade, favorecendo o treinamento. Esses atributos tornaram o T-27 Tucano uma plataforma ideal para o treinamento avançado, aprimorando a didática e a eficácia do processo de formação de pilotos.  O Neiva T-27l não apenas apresentava uma performance superior em relação ao seu antecessor, mas também melhora a didática do treinamento de pilotos. Anteriormente, os pilotos voavam em um arranjo de assentos lado a lado, onde os instrutores se situavam ao lado dos alunos. Com a nova configuração em tandem, em que o instrutor ocupa o assento traseiro, a percepção do aluno, sentado à frente, é a de estar voando sozinho. Essa alteração demanda uma postura de maior proatividade, autoconfiança, iniciativa e capacidade de julgamento, expondo o aluno a situações que requerem autonomia na tomada de decisões críticas, uma qualidade essencial para os pilotos da aviação de caça. Esse novo cenário contribuiu significativamente para a futura adaptação dos aviadores ao jato de treinamento avançado Embraer AT-26 Xavante, durante o curso de formação de pilotos líderes da Aviação de Caça, no 1º/4º Grupo de Aviação – Esquadrão “Pacau”. 
Além disso, os conceitos doutrinários do projeto buscavam incorporar características fundamentais para uma aeronave de treinamento básico, como estabilidade em baixas velocidades e alta manobrabilidade. A satisfação dessas demandas resulta em uma aeronave com boas perspectivas de emprego em missões de apoio aéreo aproximado e contra-insurgência (COIN). Esta oportunidade sempre foi considerada pela equipe de projetos da Embraer, que desde o inicio do projeto considerou o emprego de sistemas de armas em sua aeronave, possibilitando assim a aeronaves a portar até 1.000 kg de carga útil em quatro pontos duros nas asas. Atentos a este potencial o comando da Força Aérea Brasileira considerou deste o inicio do desenvolvimento da aeronave o emprego em missões de treinamento armado, apoio aéreo e ataque ao solo. Visando materializar esta opção, tratativas foram feitas junto a Embraer para a aquisição de uma versão customizada para o emprego junto a  2º ELO (Esquadrilha de Ligação e Observação) visando assim substituir as antigas aeronaves em uso naquela unidade. A nova versão receberia a designação de AT-27 (posteriormente A-27), e estava dotada com um visor de tiro fabricado nacionalmente pela empresa paulista DF Vasconcelos S/A, contando com provisão para o emprego de casulos de metralhadoras MAG calibre 7,62 mm, lançadores foguetes SBAT-70/7 e bombas de emprego geral, em quatro pontos fixos sob as asas. A introdução em serviço junto esta unidade proporcionou um grande aumento na capacidade operacional da  2º ELO (Esquadrilha de Ligação e Observação), com a aeronave sendo empregada ativamente missões de treinamento de grande porte, registrando ainda missões de emprego real como aquelas destinadas a repelir na década de 1990 ataques de guerrilheiros colombianos as unidades do Exército Brasileiro, na fronteira Brasil - Colômbia. O êxito da operação da aeronave junto a 2º ELO (Esquadrilha de Ligação e Observação), determinaria a introdução do Embraer AT-27 Tucano junto a unidades de combate de primeira linha como o 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA) baseado na cidade de Anápolis – GO, 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvC) Esquadrão Jambock e  1º/14º Grupo de Aviação (1º/14º GAv) Esquadrão Pampa, onde este modelo de aeronave devido a seu baixo custo operacional seria operado para manter a constante proficiência em voo dos pilotos das aeronaves de alta performance como os franceses Marcel Dassault Mirage IIIEBR - F-103E e norte-americanos Northrop F-5E Tiger II. O Embraer AT-27 Tucano também teve grande aceitação nos países sul-americanos, onde operou com destaque em missões de treinamento e de patrulha do espaço aéreo, sendo importante ferramenta de combate ao narcotráfico neste cenário regional. Já na Força Aérea Brasileira o Embraer AT-27 Tucano seria ainda empregado em missões de ataque a solo e treinamento armado pelo 1º/5º Grupo de Aviação (1º/5º GAv) Esquadrão Rumba a partir de 1994, quanto esta unidade trocou seus bimotores C-95 Bandeirante pela nova aeronave, e após um período de dois anos, foi declarado como Esquadrão de Ataque. 

Nesta unidade os Embraer AT-27 Tucano foram empregados não só em missões de ataque a solo, mas também na formação e adestramento dos demais pilotos que irão fazer uso futuro da aeronave em novas unidades aéreas de caça e ataque. Esta estratégia compunha o planejamento estratégico do programa do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), Este projeto visava atender a um antigo anseio das forças armadas, cujo desejo era a presença das forças armadas brasileiras na Amazônia, com a finalidade de fazer frente às manifestações de líderes internacionais contra os direitos do povo brasileiro sobre esta região. Este programa englobava a construção de uma ampla infraestrutura de apoio à vigilância aérea e comunicação na região amazônica. Como parte do projeto SIVAM, foi construída a infraestrutura necessária para suportar a fixação de enormes antenas de radar, sistemas de comunicação, bem como de modernas aparelhagens eletrônicas. No entanto uma parte fundamental deste programa previa a criação a de um braço armado para a execução de missões de patrulha, interceptação e ataque a solo. Desta maneira foi determinado que o “braço armado” do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) seria composto por três unidades aéreas de caça e ataque que seriam equipadas com os Embraer A-27 Tucano, sendo  1º/3º Grupo de Aviação (1º/3º GAv) Esquadrão Escorpião com base na cidade de Boa Vista (RR) e o 2º/3º Grupo de Aviação (2º/3º GAv) Esquadrão Grifo com base na cidade de Porto Velho (RO) que seriam designados como como guardiões da fronteira norte, e por fim o 3º/3º Grupo de Aviação (3º/3º GAv) Esquadrão Flecha que seria ativado em 11 de fevereiro de 2004 na Base Aérea de Campo Grande no estado do Mato Grosso do Sul. Esta nova unidade aérea tinha por objetivo cobrir uma importante área geográfica que até então estava abrangida pelo sistema de vigilância, mas não dispunha de uma unidade operacional para assim possíveis tráfegos ilícitos nesta região. O Esquadrão Flecha herdaria as aeronaves Embraer AT-27 Tucano que pertenciam a recém extinta 2º Esquadrilha de Ligação e Observação e também pilotos e equipe de apoio e manutenção, estando imediatamente apta a realizar as missões a ele destinados. A eles foi atribuída a complexa missão de prover a vigilância do espaço aéreo amazônico, cumprindo as tarefas operacionais de superioridade aérea, interdição, reconhecimento armado, ligação e observação, apoio aéreo aproximado e controle aéreo avançado. Cada unidade foi dotada inicialmente de oito células do modelo para a realização de suas importantes atividades. Durante anos estas três unidades, tiveram destacada participação nas missões de proteção do espaço aéreo nacional nestas importantes regiões sendo empregas em diversas missões reais, inclusive de interceptação de aeronaves do narcotráfico. Ao todo a Força Aérea Brasileira viria a operar 50 células desta variante voltada a missões de contra insurgência e apoio leve aproximado. 
Toda a experiência obtida neste período veio a contribuir no desenvolvimento do Embraer A-29 Super Tucano, sendo este considerado o sucessor natural do Embraer  A-27 - AT-27 Tucano. A unidade escolhida para ser a pioneira da implementação da nova aeronave  foi o 2º/5º Grupo de Aviação (2º/5º GAv) Esquadrão Joker, que passou a formar toda a doutrina operacional do modelo e a conversão dos pilotos. A partir de 2005 os Embraer AT-27 Tucano começaram a ser substituídos pelos novos Embraer A-29 Super Tucano no 1º/3º Grupo de Aviação (1º/3º GAv) Esquadrão Escorpião, 2º/3º Grupo de Aviação (2º/3º GAv) Esquadrão Grifo e o 3º/3º Grupo de Aviação (3º/3º GAv) Esquadrão Flecha, com este processo perdurando até fins do ano de 2008. Paralelamente as demais unidades operadoras do Embraer AT-27 Tucano acompanharam este processo retirando as aeronaves do serviço ativo até o ano de 2010. Todas estas células foram então Parque de Material de Aeronáutica de Lagoa Santa (PAMALS), onde as aeronaves em melhores estado foram revisadas repintadas e encaminhadas a Academia da Força Aérea (AFA), com as demais células sendo estocadas, encerrando assim a carreira da versão de ataque leve do Embraer Tucano na Força Aérea Brasileira.

Em Escala.
Para representarmos o Embraer AT-27 Tucano “FAB 1447 " empregamos o kit em resina produzido pela GIIC na escala 1/48, única opção existente no mercado na época desta montagem, atualmente dispomos de um modelo injetado de melhor qualidade. Fizemos uso de decais presentes no set do T-27 Tucano da De Lima Kits & Dumont Replicas Artesanais para apresentar uma célula operada pelo 1º/3º Grupo de Aviação Esquadrão Escorpião.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura tático aplicado as aeronaves AT-27 empregadas pelas as unidades anteriormente descritas. Nos primeiros anos de operação algumas células foram pintadas no esquema americano de camuflagem tática empregado no Vietnã, sendo posteriormente padronizadas. Vale citar que identificamos aeronaves com a designação A-27, AT-27 e também T-27, sendo estas últimas células pertencentes originalmente a Academia da Força Aérea (AFA), que foram transferidas para o emprego nas unidade do 3º Grupo de Aviação (3º GAv).

Bibliografia :
- Centro Histórico Embraer – T-27 Tucano - http://www.centrohistoricoembraer.com.br
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores
- Guardiões da Fronteira – Eduardo Baruffi Valente – Revista Força Aérea Nº 14
- História da Força Aérea Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html

C-41 Morane Saulnier Paris MS760

História e Desenvolvimento
A Aéroplanes Morane-Saulnier, fundada em 10 de outubro de 1911, é uma das mais icônicas e longevas empresas da história da aviação, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento da aviação francesa e mundial. A história da empresa começou em Puteaux, nos arredores de Paris, quando Léon Morane (1885–1918), Robert Morane (1886–1968) e Raymond Saulnier (1881–1964) uniram forças para criar a Société Anonyme des Aéroplanes Morane-Saulnier. Léon e Robert, pilotos pioneiros, já haviam conquistado notoriedade em 1910, quando, a bordo de um Blériot XI, tornaram-se os primeiros a ultrapassar a velocidade de 100 km/h, alcançando 106,508 km/h em Issy-les-Moulineaux. Saulnier, engenheiro e ex-colaborador de Louis Blériot, trouxe expertise técnica, complementando a experiência de voo dos irmãos Morane. Juntos, fundaram a empresa com a missão de projetar e construir aeronaves inovadoras, aproveitando o fervor da aviação no início do século XX. O primeiro produto da Morane-Saulnier foi o Morane-Borel, um monoplano de asa alta desenvolvido em parceria com Gabriel Borel, inspirado no Blériot XI. Equipado com um sistema de torção de asas (wing-warping) para controle, o modelo foi pilotado por Jules Védrines para vencer a corrida Paris-Madrid em 26 de maio de 1911, um marco que colocou a empresa no mapa da aviação europeia. O sucesso inicial veio com o Morane-Saulnier Type G (1912), um monoplano de asa alta com dois lugares, que se destacou em competições e estabeleceu recordes de velocidade e altitude. Uma versão reduzida, o Type H, monoplace, foi amplamente utilizada para treinamento e corridas, enquanto o Type N, com fuselagem aerodinâmica, foi um dos primeiros caças monoplanos, apelidado de “Bullet” pelos britânicos devido à sua forma. Em 1912, Georges Legagneux quebrou o recorde mundial de altitude com um Type H (5.610 metros), superando Roland Garros, que logo se juntou à Morane-Saulnier como piloto de testes. Em 1913, Garros realizou a primeira travessia aérea do Mediterrâneo, de Fréjus (França) a Bizerte (Tunísia), em um Type H equipado com um motor Gnome de 60 cv, completando 756 km em 7 horas e 53 minutos. Esses feitos consolidaram a reputação da empresa como líder em inovação e desempenho. A Primeira Guerra Mundial (1914–1918) foi um divisor de águas para a Morane-Saulnier, que se destacou por suas contribuições à aviação militar. O Morane-Saulnier Type L, um monoplano de asa parasol, foi o primeiro caça da história a utilizar um sistema de disparo de metralhadora através da hélice, desenvolvido por Raymond Saulnier e Roland Garros. Em 1914, Saulnier patenteou um sistema de sincronização, mas, devido a limitações técnicas, optou por instalar placas defletoras de aço na hélice do Type L. Em abril de 1915, Garros, pilotando um Type L, abateu três aeronaves alemãs em duas semanas, marcando as primeiras vitórias aéreas com esse sistema. Apesar de seu sucesso, o sistema não foi amplamente adotado pelas autoridades francesas, sendo mais utilizado pelos britânicos (que apelidaram o Type N de “Bullet”) e russos.

O Type L também foi usado por ases como Georges Guynemer, que obteve sua primeira vitória em 1915, embora em uma versão biposto com um observador armado. A empresa produziu outros modelos, como o Type P e o Type BB (um biplano apelidado de “Bébé”), que serviram como caças e treinadores. Muitos desses aviões, devido à ausência de estabilizadores fixos, eram difíceis de pilotar, mas foram amplamente utilizados como treinadores, incluindo versões sem asas, conhecidas como “Penguins”, para instrução em solo. Apesar de suas inovações, os modelos da Morane-Saulnier, como o Type N, Type I e Type V, enfrentaram desafios devido a controles rígidos (usando torção de asas em vez de ailerons) e alta velocidade de pouso, o que limitou sua adoção em larga escala. Apenas 49 unidades do Type N foram produzidas, sendo rapidamente superadas pelo ritmo acelerado do desenvolvimento aeronáutico durante a guerra. Após a Primeira Guerra Mundial, a Morane-Saulnier diversificou sua produção, focando em aeronaves de treinamento e aviação geral, enquanto mantinha sua presença no setor militar. A empresa abriu uma escola de pilotagem em Villacoublay, Yvelines, em 1919, formando pilotos civis e militares. Modelos como o MS.130 (um monoplano de treinamento de asa parasol) e o MS.230 (introduzido na década de 1920) foram amplamente utilizados como treinadores, embora sua performance limitada os relegasse a papéis secundários. Na década de 1930, com a crescente ameaça de conflito na Europa, a Morane-Saulnier voltou a investir em caças. O Morane-Saulnier MS.406, projetado por Paul-René Gauthier, foi o primeiro caça moderno da empresa, com um monoplano de asa baixa, cabine fechada e trem de pouso retrátil. Introduzido em 1938, o MS.406 foi o caça mais numeroso da Força Aérea Francesa (Armée de l’Air) no início da Segunda Guerra Mundial, com 1.081 unidades produzidas. Equipado com um motor Hispano-Suiza 12Y-31 de 860 cv e armado com um canhão de 20 mm e duas metralhadoras, o MS.406 alcançava 400 km/h, um marco para a aviação francesa da época. Contudo, ao enfrentar os modernos Messerschmitt Bf 109 alemães em 1940, suas limitações, como o radiador retrátil que reduzia o desempenho em alta velocidade, tornaram-no vulnerável. Durante a Segunda Guerra Mundial, após a ocupação da França em 1940, a Morane-Saulnier operou sob controle alemão, produzindo aeronaves como o Fieseler Fi 156 Storch, redesignado como Morane-Saulnier MS.500 Criquet após a Libertação. O Criquet, com suas excelentes capacidades de decolagem e pouso curtos (STOL) e manobrabilidade, foi amplamente utilizado na Guerra da Indochina (1946–1954) e na Guerra da Argélia (1954–1962), demonstrando a versatilidade da empresa mesmo em tempos de adversidade. A produção do MS.406 continuou em pequena escala após o Armistício de 1940, com exportações limitadas para países como a Polônia (nenhuma entregue antes da invasão alemã) e a Suíça, onde foi desenvolvido como o Doflug D-3802, com motor Saurer YS-2 de 1.250 cv, alcançando 574 km/h.
Após a Libertação da França em fins de 1944, a Aéroplanes Morane-Saulnier enfrentou um período de intensos desafios financeiros e operacionais. A força de trabalho da Morane-Saulnier foi drasticamente reduzida, passando de 1.100 funcionários em 1949 para apenas 350 em 1954, refletindo a crise econômica e a necessidade de reestruturação da indústria aeronáutica francesa. No pós-guerra, a aviação militar global vivia uma transição tecnológica acelerada, com a adoção de jatos de combate, como o Dassault Ouragan na França e o North American F-86 Sabre nos Estados Unidos. Esse avanço criou uma lacuna significativa entre as aeronaves de treinamento a hélice, equipadas com motores a pistão, como o Morane-Saulnier MS.230, e os jatos modernos, cuja velocidade, altitude e complexidade operacional exigiam uma nova abordagem para a formação de pilotos. Na França, a Armée de l’Air e a Aviação Naval (Aéronavale), por meio da Escola do Ar (École de l’Air), identificaram a necessidade urgente de uma aeronave de treinamento avançado a jato, capaz de preparar cadetes para a transição aos caças e aeronaves de ataque, além de oferecer capacidade secundária para missões de ataque ao solo. Para atender a essa demanda estratégica, o Ministério da Defesa francês abriu, em 1952, uma concorrência nacional para o desenvolvimento de uma aeronave de treinamento avançado e conversão operacional movida a jato. A especificação exigia um vetor que reduzisse o salto tecnológico entre os treinadores a hélice e os jatos de combate, minimizando custos e dificuldades de adaptação para os cadetes. Duas empresas apresentaram propostas: a Aéroplanes Morane-Saulnier, com o projeto MS-755 Fleuret, e a Avions Potez, com o CM-170 Fouga Magister. O Morane-Saulnier MS-755 Fleuret, projetado sob a liderança de Paul-René Gauthier, engenheiro-chefe da empresa, incorporava um design moderno para a época. O monoplano de asa cantilever médio-baixa apresentava uma configuração de assentos lado a lado, ideal para treinamento, e uma cauda em “T”, que minimizava interferências aerodinâmicas e reduzia vibrações. Equipado com dois turbojatos Turbomeca Marboré II, cada um gerando 400 kg de empuxo, o MS-755 alcançava uma velocidade máxima de cerca de 700 km/h e oferecia manobrabilidade adequada para missões de treinamento e ataque leve. O primeiro protótipo, registrado como F-ZWRS, realizou seu voo inaugural em 29 de julho de 1953, pilotado por um piloto de testes da Morane-Saulnier, em Villacoublay, Yvelines. O MS-755 Fleuret foi submetido a um extenso programa de ensaios de voo comparativos contra o CM-170 Fouga Magister, que apresentava uma configuração de cauda em “V” (borboleta) e também era equipado com motores Marboré II. Apesar do desempenho promissor do Fleuret, o Fouga Magister foi selecionado como vencedor da concorrência em 1954, devido a sua maior agilidade, menor custo operacional e design inovador, que se tornou icônico nas equipes de demonstração aérea, como a Patrouille de France.  O Fouga Magister foi adotado em larga escala pelas forças armadas francesas, além de alcançar significativo sucesso internacional, com exportações para países como Alemanha, Israel e Finlândia. 

Embora não tenha sido selecionado pelas forças francesas, o MS-755 Fleuret demonstrou potencial em mercados internacionais. Em março de 1954, o único protótipo foi desmontado e enviado à Estação da Força Aérea de Begumpet, em Hyderabad, Índia, para testes em condições de clima tropical, uma exigência da Força Aérea Indiana (Indian Air Force – IAF), que buscava modernizar sua frota de treinamento. Montado e colocado em condições de voo, o Fleuret impressionou os oficiais indianos por sua robustez, facilidade de manutenção e desempenho em missões de treinamento e conversão de pilotos. Os testes avaliaram a capacidade da aeronave de operar em altas temperaturas e umidade, condições desafiadoras para os motores a jato da época. Apesar das impressões positivas, a IAF optou por outras aeronaves, como o Hawker Hunter para caça e o HAL Kiran (desenvolvido localmente) para treinamento, e o Fleuret não foi adquirido. A não seleção do MS-755 Fleuret representou um revés significativo para a Morane-Saulnier, que já enfrentava dificuldades financeiras agravadas pela redução de contratos militares no pós-guerra. A empresa, que havia produzido cerca de 1.081 unidades do MS.406 na década de 1930 e milhares de MS.500 Criquet durante e após a Segunda Guerra Mundial, viu sua capacidade de competir em um mercado dominado por fabricantes como a Dassault e a Sud-Aviation diminuir. Este cenário incentivaria a diretoria da Aéroplanes Morane-Saulnier a dar sequência no desenvolvimento do modelo., visando capacitá-lo para possível atuação no mercado de aeronaves executivas de transporte.  Sob a gestão do renomado engenheiro René Gauthier, o projeto original do MS-755 Fleuret seria alterado e melhorado, visando assim conceder a nova aeronave a capacidade de operar a contento em missões de ligação e transporte leve. As principais alterações estavam baseadas na adoção de uma nova secção dianteira na fuselagem e de uma nacele totalmente redesenhada com a substituição do cockpit com dois assentos lado a lado por outro que abrigava quatro assentos em duas fileiras. Curiosamente o novo projeto agora designado como MS-760 Paris manteria além das excelentes características de voo de seu antecessor, a opção de instalação de armamentos possibilitando também seu possível emprego como treinador militar. O protótipo do MS-760 Paris, registrado como F-WGVO (posteriormente F-BGVO após certificação), realizou seu voo inaugural em 26 de junho de 1954, em Villacoublay, Yvelines, pilotado por um piloto de testes da Morane-Saulnier. O voo marcou o início de um extenso programa de ensaios, que avaliou a aeronave em condições de treinamento, manobrabilidade e operação em ambientes variados. Os excelentes resultados obtidos no programa de ensaios em voo chamariam a atenção tanto da Força Aérea Francesa (Armée de L´Air) como da Aviação Naval da Marinha (Aeronavale), que buscavam uma aeronave de transporte leve e ligação para a substituição das antigas aeronaves a hélice Nord Noralpha e Nord Norécrin.  
Um contrato então seria celebrado junto a estas duas forças armadas, englobando a aquisição de cinquenta células configuradas tanto para missões de ligação quanto para instrução de voo por instrumentos. Os primeiros exemplares de produção ficaram prontos em fevereiro de 1958 e logo foi efetuada a entrega dos primeiros jatos Paris a Aviação Naval da Marinha (Aeronavale), passando a ser empregado como treinador avançado e aeronave de ligação. Sua capacidade de operar em pistas curtas e sua robustez o tornaram ideal para missões em bases regionais e em teatros de operações, como a Guerra da Argélia (1954–1962). Neste mesmo período a Aéroplanes Morane Saunier identificou o potencial de exportação do Morane-Saulnier MS-760, quer como aeronave destinada ao emergente mercado de aviões executivos, quer como aeronave de instrução para os mercados civis ou militares. Apesar das altas expectativas, diversos fatores contribuíram para o desempenho aquém do esperado do MS-760 Paris no mercado civil. A partir da década de 1960, o surgimento de aeronaves executivas mais modernas, como a família Cessna Citation e o Lockheed JetStar, ofuscou o jato francês. Essas aeronaves ofereciam maior velocidade, autonomia e conforto, características valorizadas pelo crescente mercado de aviação executiva. Além disso, a complexidade dos sistemas de navegação do MS-760, que exigiam um copiloto, reduzia sua capacidade de transporte de passageiros (limitada a dois, além dos dois pilotos), tornando-o menos competitivo em comparação com jatos executivos de maior capacidade. O consumo de combustível, embora inferior ao de aviões a pistão de grande porte, não era tão vantajoso em relação aos novos concorrentes, especialmente após o abrandamento da crise do petróleo na segunda metade dos anos 1950.  As dificuldades financeiras da Morane-Saulnier, agravadas pela concorrência e pela incapacidade de capturar o mercado civil, culminaram em sua falência em 1962. A empresa foi adquirida pela Potez, formando a Société d’Exploitation des Établissements Morane-Saulnier (SEEMS). Em 1966, as operações de aviação geral, incluindo a produção do MS-760 Paris e da série Rallye, foram transferidas para a Société de Construction d’Avions de Tourisme et d’Affaires (SOCATA), sediada em Tarbes. A SOCATA, posteriormente incorporada pela Sud-Aviation e, em 2009, pela Daher, continuou a manutenção e modernização das aeronaves MS-760 para operadores civis e militares, prolongando sua vida útil em alguns países até a década de 1980. As exportações militares do MS-760 Paris limitaram-se ao Brasil e à Argentina, com cerca de 165 unidades produzidas entre 1955 e 1964, incluindo a variante MS-760B com motores Marboré VI de 480 kg de empuxo. Destas 36 células seriam produzidas sob licença em Córdoba pela FMA (Fabrica Militar de Aviones), que inclusive foram empregados em missões reais de combate durante a Revolta Naval Argentina em 1963, sendo utilizados em missões de bombardeio a bases rebeldes, resultando na destruição de várias aeronaves no chão. As últimas células deixaram o serviço ativo na Fuerza Aérea Argentina somente em 2009 após quarenta e oito anos de utilização.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
O transporte de autoridades (VIP – Very Important Person) no Brasil teve início em 1937, com a aquisição de quatro aeronaves Lockheed 12A UC-40 Electra Junior pela Aviação Militar do Exército Brasileiro. Essas aeronaves, bimotores leves com capacidade para seis passageiros, foram pioneiras em estabelecer uma doutrina de transporte VIP, atendendo a missões de ligação e transporte de altos oficiais em um contexto de modernização militar pré-Segunda Guerra Mundial. Com a criação da Força Aérea Brasileira (FAB) em 20 de janeiro de 1941, sob o Decreto-Lei nº 2.961, a responsabilidade por essas operações foi transferida para a recém-formada instituição. A Força Aérea Brasileira (FAB) instituiu a Seção de Aviões de Comando, sediada no Rio de Janeiro, que passou a operar os Lockheed VC-66 e VC-60 Lodestar, bimotores mais robustos capazes de transportar até 18 passageiros. Esses vetores, adquiridos por meio do Lend-Lease Act durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), consolidaram as bases da doutrina de transporte de autoridades, garantindo mobilidade para comandantes militares e autoridades governamentais em um país de dimensões continentais. Na década de 1950, os Douglas VC-47 Skytrain, derivados do C-47 militar, tornaram-se os principais meios para missões de transporte VIP, incluindo operações do Correio Aéreo Nacional (CAN) e apoio logístico em regiões remotas, como a Amazônia. Contudo, neste período, a obsolescência dessas aeronaves, que acumulavam mais de duas décadas de uso intensivo, tornou-se evidente. A frota apresentava limitações em autonomia, confiabilidade e conforto, inadequadas para as crescentes demandas de transporte de autoridades em um Brasil em transformação. No processo de modernização dos meios da Força Aérea Brasileira (FAB) em curso na segunda metade da década de 1950, existia a necessidade de se dispor de uma aeronave que atendesse melhor a execução dos serviços de ligação entre as sedes das distintas zonas aéreas e seus comandos, bem como entre essas e a futura capital do país, Brasília localizada no centro oeste do país. Além disso, o Grupo de Transporte Especial (GTE), sentia falta e uma aeronave veloz de pequeno porte para cumprir um dos segmentos de sua atribuição, que era o de transporte de autoridades do governo, com tarefa até então executada pelos já obsoletos aviões a hélice Beechcraft C-45. Com base nestas demandas o Ministério da Aeronáutica (MAer), deu início à busca de uma aeronave que proporcionasse maior conforto eficiência e velocidade. No início de 1958, o primeiro protótipo do Morane Saulnier MS-760, já elevado para a versão Paris I, estava envolvido um esforço comercial, realizando uma grande turnê comercial pelos países da América do Sul, e durante a apresentação realizada no Brasil, os oficiais da Força Aérea Brasileira (FAB) envolvidos neste processo, ficaram impressionados com as características de desempenho do jato biorreator francês. Em 1958, o Ministério da Aeronáutica (MAer) iniciou negociações com a Morane-Saulnier para a aquisição de 30 células novas do MS-760 Paris, configuradas na versão de transporte executivo. 

O contrato, formalizado no mesmo ano, estipulava a entrega das primeiras duas aeronaves desmontadas até o final de 1958, com as demais seguindo um cronograma de duas unidades por mês. Designadas como C-41 Paris na Força Aérea Brasileira (FAB) , as aeronaves passariam a ser montadas sob supervisão da Morane-Saulnier no Parque de Material Aeronáutico do Galeão (PqAerGl), no Rio de Janeiro, em um processo concluído no primeiro trimestre de 1961.  A montagem, realizada uma a uma, garantiu a conformidade com os padrões do fabricante e incluiu treinamento para equipes técnicas e pilotos da Aeronáutica, assegurando a integração operacional das aeronaves. Após a conclusão do processo montagem  e  aceitação as aeronaves apelidadas de “Parizinhos” pelos militares brasileiros, devido ao seu tamanho compacto e agilidade, as 30 células foram distribuídas estrategicamente para atender às necessidades da Força Aérea Brasileira (FAB)  em um país de dimensões continentais. As primeiras oito aeronaves foram entregues ao Grupo de Transporte Especial (GTE), sediado em Brasília, para missões de transporte de autoridades (VIP). As unidades subsequentes foram alocadas à Escola de Aeronáutica (EAer), ao Quartel-General da 3ª Zona Aérea (QG 3º ZA), no Rio de Janeiro, e às bases aéreas de Belém (BABE), Canoas (BACO), Recife (BARF), e ao Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP), no Campo de Marte. Algumas células foram destinadas a grandes comandos e diretorias, como a Diretoria de Material Aeronáutico (DIRMA), o Comando Aero tático Naval e o Comando Aerotático Terrestre, todos sediados no Rio de Janeiro na época. A distribuição inicial dos C-41 Paris foi ajustada no final de 1961, após um estudo do Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer). A análise concluiu que a dispersão das aeronaves em múltiplas unidades dificultava a manutenção, devido às exigências logísticas do MS-760, que incluíam revisões frequentes dos motores Marboré II e sistemas de navegação complexos. Para otimizar a operação e a linha logística, decidiu-se concentrar os C-41 Paris em três unidades principais: a Escola de Aeronáutica (EAer), a Base Aérea de Natal, e o Quartel-General da 3ª Zona Aérea. O Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF), no Rio de Janeiro, assumiu a responsabilidade pela manutenção centralizada, garantindo a disponibilidade das aeronaves. Na Base Aérea de Natal, os C-41 Paris foram alocados ao 5º Grupo de Aviação (5º GAv) para suprir a falta transitória de Douglas B-26B e B-26C Invader, utilizados na instrução de aspirantes a aviador. No entanto, a ausência de armamentos no MS-760 limitava sua adequação para a formação completa dos cadetes, que incluía treinamento com armamento. Para contornar essa deficiência, a equipe de manutenção da Base Aérea de Natal instalou cabides subalares para o uso de bombas de instrução, aproveitando a capacidade original do MS-760 para missões de ataque leve. Essa modificação também permitiu que pilotos mais experientes do 5º GAv fossem habilitados em voos a jato, preparando-os para a transição a aeronaves de combate mais avançadas. 
Na Escola de Aeronáutica (EAer), inicialmente sediada em Natal e posteriormente transferida para Pirassununga, essas aeronaves constituíram uma importante plataforma de adestramento. Sua utilização permitiu não apenas a manutenção da proficiência de oficiais instrutores já qualificados em aeronaves a reação, como também viabilizou a introdução gradual de novos oficiais nesse tipo de propulsão. A configuração da cabine, com assentos lado a lado, favorecia a comunicação direta entre instrutor e aluno, contribuindo para um processo de ensino mais eficiente e seguro. Tal característica mostrava-se particularmente relevante em um período de transição tecnológica, no qual  incorporava aeronaves de combate mais avançadas, como o F-8 Meteor. Nesse sentido, o emprego do C-41 representou um avanço significativo em relação aos treinadores a pistão, como o  T-6 Texan, ao reduzir o impacto do salto tecnológico enfrentado pelos cadetes em sua progressão operacional. Paralelamente às atividades de instrução, os C-41 Paris também desempenharam funções relevantes no âmbito administrativo e logístico. No Quartel-General da 3ª Zona Aérea, sediado no Rio de Janeiro, essas aeronaves foram empregadas em missões de ligação e transporte de autoridades, conectando a então capital e centros administrativos a cidades estratégicas como Belo Horizonte e Vitória. Tais operações davam suporte direto a órgãos como a Diretoria de Material Aeronáutico (DIRMA), o Comando Aerotático Naval e o Comando Aerotático Terrestre, reforçando a integração entre diferentes setores da estrutura aeronáutica e militar. Um dos atributos operacionais mais relevantes do  MS.760 Paris residia em sua capacidade de operar em aeródromos com infraestrutura limitada  característica particularmente valiosa em um país de dimensões continentais e com significativa heterogeneidade de pistas. Essa versatilidade ampliava o alcance das atividades administrativas e de comando, permitindo maior capilaridade nas operações aéreas. No entanto, quando empregados no Grupo de Transporte Especial (GTE), sediado em Brasília, os C-41  evidenciaram limitações que comprometeram sua eficácia no transporte de autoridades. Inicialmente destinados a conectar a nova capital federal a centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo  separados por distâncias da ordem de 1.000 km , esses jatos revelaram autonomia insuficiente para a realização de voos diretos em diversas situações operacionais. Com alcance aproximado de 1.500 km, o MS-760 frequentemente necessitava de escalas para reabastecimento, sobretudo em condições adversas ou em rotas mais extensas. Ademais, a complexidade de seus sistemas de navegação impunha a presença de um copiloto, reduzindo a capacidade efetiva de transporte para apenas dois passageiros. Tal limitação comprometia sua eficiência quando comparado a aeronaves de maior porte e alcance, como o  VC-92  One-Eleven. Essas restrições tornaram-se ainda mais evidentes com a  transferência da capital para Brasília, nesse cenário, o C-41, embora relevante em funções específicas, revelou-se limitado para o cumprimento pleno das exigências do transporte VIP de longo alcance.

Em 30 de outubro de 1962, um C-41 Paris, registrado como FAB 2930, sofreu um acidente fatal nas proximidades de Nova Lima, Minas Gerais, durante um voo de transporte VIP entre o Rio de Janeiro e Brasília. A aeronave transportava o deputado federal Gilberto de Menezes Cortes, acompanhado por dois tripulantes. Durante o voo, o C-41 enfrentou condições climáticas adversas, com formação de gelo em altitudes elevadas. A ausência de um sistema antigelo nas bordas de ataque das asas e nas entradas de ar dos motores Turbomeca Marboré IIC resultou na acumulação de camadas espessas de gelo, que foram ingeridas pelos motores, causando o flameout (apagamento) de ambos os turbojatos. A situação foi agravada pela limitação do sistema elétrico da aeronave, que contava com um gerador apenas no motor direito para reacendimento, dificultando a recuperação em voo. A perda de potência levou à queda da aeronave, resultando na morte do deputado e dos dois tripulantes. O acidente expôs uma vulnerabilidade crítica do MS-760 Paris em operações em condições climáticas adversas, especialmente em rotas que atravessavam regiões propensas à formação de gelo, como o Centro-Sudeste brasileiro durante períodos chuvosos. A tragédia abalou a confiança no C-41 para missões de transporte de autoridades, destacando suas limitações em autonomia, capacidade de transporte e segurança em cenários operacionais exigentes. O acidente de Nova Lima foi um divisor de águas para a operação do C-41 Paris na Força Aérea Brasileira (FAB). A partir de 1963, o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAer) determinou a concentração das aeronaves remanescentes em duas unidades principais: o Quartel-General da 3ª Zona Aérea, baseado no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e a Escola de Aeronáutica (EAer), sediada no Campo dos Afonsos, também no Rio. Essa decisão foi motivada por considerações operacionais e logísticas, visando otimizar a manutenção e minimizar os riscos associados às deficiências do C-41. O Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF) assumiu a responsabilidade centralizada pela manutenção, garantindo a operacionalidade das aeronaves em um ambiente controlado. No QG 3º ZA, os C-41 Paris continuaram a desempenhar missões de ligação e transporte VIP em rotas regionais, atendendo comandos e diretorias sediados no Rio de Janeiro, como a Diretoria de Material Aeronáutico (DIRMA) e os Comandos Aerotáticos Naval e Terrestre. Na Escola de Aeronáutica (EAer), as aeronaves foram utilizadas como plataforma de treinamento para oficiais instrutores, capacitando-os em voos a jato, e para formação inicial de pilotos sem experiência em aeronaves de propulsão a reação. A concentração dessas operações no Rio de Janeiro facilitou o suporte logístico e reduziu a exposição das aeronaves a condições climáticas adversas em rotas mais longas, como as que conectavam Brasília a outras capitais.
Muitos dos Morane Saulnier C-41 Paris, pertencentes a estas duas unidades seriam colocadas à disposição de diversos comandos e diretorias, e alguns destes exemplares pertencentes a Escola de Aeronáutica (EAer) continuariam a servir como plataforma de adestramento para instrutores daquele estabelecimento de ensino aeronáutico. A partir de 1964 o Destacamento Precursor da Escola de Aeronáutica - (DPEAer) (embrião da futura Academia da Força Aérea), passaria também a contar com um reduzido número de aeronaves deste modelo para emprego em missões de ligação e transporte. A partir do ano de 1968 as células remanescentes começariam a ser armazenadas junto ao Parque de Aeronáutica dos Afonsos (PqAerAF) no Rio de Janeiro, com a possível finalidade de revenda a operadores internacionais. Destas, vinte e cinco aeronaves Morane Saulnier C-41 Paris em melhor estado de conservação que portavam as matrículas FAB 2910, 2912, 2913, 2915 a 2921, 2924, 2927 a 2929, 2931 e 2933 a 2939,  seriam revisadas e preparadas para venda. Este processo se concretizaria em uma oportunidade de negociação junto a empresa francesa Sud Aviation, envolvendo a aquisição de sete aeronaves novas de fábrica do modelo Fouga CM-170 Magister, que seriam empregadas futuramente como aeronaves de demonstração junto a Esquadrilha da Fumaça (EDA) em substituição aos antigos North American T-6 Texan. As aeronaves Morane Saulnier MS-760 Paris antes pertencentes a Força Área Brasileira (FAB), seriam então nesta negociação revendidas pela empresa a Força Aérea Francesa (Armée de L´Air) onde permaneceram em operação e missões de treinamento e ligação até o início do ano de 1997. No entanto este não seria o último capítulo da história dos MS-760 Paris no Brasil, pois em julho de 1969 a Diretoria de Material Aeronáutico (DIRMA) determinaria a transferência de duas aeronaves C-41 Paris para o Esquadrão de Demonstração Aérea (EDA) - Esquadrilha da Fumaça, para a tarefa de apoio aos deslocamentos daquela unidade. De fato, aquela unidade aérea seria a última operadora da Força Aérea Brasileira (FAB) a empregar este pequeno jato francês. Destas células, a segunda receberia um esquema de pintura chamativo, a semelhança dos utilizados nos aviões de demonstração T-24 Fouga Magister. Nesta tarefa o jato de transporte executivo francês permaneceria em serviço até meados do ano de 1974 como aeronave de apoio da Esquadrilha da Fumaça. Após sua desativação, uma destas célula seria incorporada ao acervo do Museu Aeroespacial (Musal) no Rio de Janeiro. Curiosamente muitas das aeronaves Morane Saulnier MS-760 que anteriormente pertenceram a Força Aérea Brasileira (FAB), continuam voando mundo fora em mãos de operadores e colecionadores particulares, especialmente nos Estados Unidos.

Em Escala.
A reprodução do Morane-Saulnier C-41 Paris com a matrícula FAB 2916, operado pelo Grupo de Transporte Especial (GTE), foi realizada utilizando o kit na escala 1/72 produzido pela  antiga Aero File, uma marca reconhecida em seu tempo entre modelistas por sua fidelidade a aeronaves históricas. Os decais fornecidos com o kit, impressos pelo próprio fabricante, foram utilizados para aplicar as marcações da aeronave de matricula FAB 2916. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o primeiro padrão de pintura que foi empregado pelas aeronaves C-41 Paris quando do seu recebimento para emprego no Grupo de Transporte Especial (GTE), variações foram aplicadas em sua carreira operacional, incluindo a adição de marcações de alta visibilidade.  Áreas como as pontas das asas e a cauda receberam faixas em Day-Glo Orange (FS 28913) ou International Orange (FS 12197), cores fluorescentes que melhoravam a identificação visual em condições de baixa visibilidade, como nevoeiro ou chuvas, comuns no Centro-Sudeste e Norte do Brasil.  Na década de 1970, duas células do C-41 Paris,  adotaram um esquema de pintura inspirado no Fouga Magister T-24 da Esquadrilha da Fumaça.
Bibliografia : 
Aeronaves Militares Brasileiras 1916/ 2016 – Jackson Flores Jr
História da Força Aérea Brasileira por:  Prof. Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
Morane Saulnier MS-760 Paris-  Wikipédia - http://en.wikipedia.org/wiki/Morane-Saulnier_MS.760_Paris