Guarani MR 6X6 Iveco (VBTP)

História e Desenvolvimento.
A operação de veículos blindados sobre rodas no Exército Brasileiro, teve seu início durante a Segunda Guerra Mundial, quando foram recebidos os primeiros carros T-17 Deerhound e M-8  Greyhound, cabendo a este último a experiência de operação em combate real pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a campanha da Itália na Segunda Guerra Mundial. Logo no pós-guerra o emprego deste tipo de blindado sobre rodas seria ampliado nas unidades mecanizadas brasileiras, devido ao recebimento de mais viaturas blindadas sobre rodas dos modelos Ford M-8 e M-20. A necessidade de manutenção da operacionalidade e extensão da vida útil desta frota resultaria durante a década de 1960, nos primeiros esforços de modernização a atualização destas viaturas que gerariam o primeiro embrião da indústria de defesa nacional.  Neste contexto o desenvolvimento dos projetos das viaturas blindadas CRR (Carro de Reconhecimento sobre Rodas) e CTRA (Carro de Transporte sobre Rodas Anfíbio) durante a década de 1970 seriam potencializadas pelo movimento de reorganização promovido pelo Exército Brasileiro, que ensejaria na criação da "nova cavalaria mecanizada". De acordo com esta sistemática todas as brigadas deveriam ter ao menos um esquadrão de cavalaria mecanizada para emprego em tarefas reconhecimento e segurança, também seriam formados regimentos inteiros de cavalaria mecanizada formando, juntamente com a cavalaria blindada, suas próprias brigadas de cavalaria mecanizada. Por característica de missão a cavalaria mecanizada "leve" deveria operar de forma descentralizada em grandes distâncias, operando principalmente em estradas pavimentadas ou não, trafegando primordialmente em alta velocidade. Para isto seriam necessários veículos leves e ágeis que renunciariam ao grande poder de fogo e blindagem em detrimento a mobilidade.  Neste contexto seriam incorporados nos novos veículos blindados Engesa EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu, com estes dois modelos operando em conjunto nos pelotões de cavalaria mecanizada, complementando um ao outro. Suas semelhanças de projeto e alta compatibilidade de componentes (muitos deles oriundos da indústria automotiva) facilitariam a cadeia logística e processos de manutenção. A introdução destes dois modelos de produção nacional traria a Força Terrestre uma capacidade de mobilidade do campo de batalha jamais atingida, representando regionalmente no contexto da América do Sul, uma ferramenta de projeção de poder e dissuasão. No entanto o passar dos anos logo traria o eminente desgaste operacional, levando ao registro de baixos indícios de disponibilidade, com este cenário sendo agravado pela decretação de falência da Engesa S/A em 1994. Neste momento se fazia necessário tomar ações que pudessem restabelecer a capacidade operativa dos Regimentos de Cavalaria Mecanizada (RCC) e Esquadrões de Cavalaria Blindada (EsqdCMec), sendo descartado inicialmente a substituição destes blindados por modelos mais modernos importados. 

A solução lógica derivaria para a implementação de um grande processo de repotenciamento e modernização, com esta missão sendo capitaneada pelo Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP), localizado na cidade de Osasco - SP, que buscaria parceria com empresas privadas. Em 1996, este programa receberia a denominação oficial de "Manutenção de 5º Escalão de Viaturas Blindadas sobre Rodas" ou Projeto Fênix, e abrangeria a implementação em 204 EE-9 Cascavel e um número similar de veículos do modelo de transporte de tropas Engesa EE-12 Urutu. Apesar do êxito, fica claro que este processo apresentava uma solução temporária, pois a concepção destes carros remontava a década de 1970, sendo formatados em um cenário completamente diferente da atualidade, demonstrando um preocupante grau de obsolescência face os novos hipotéticos cenários de combate assimétricos. Estas impressões seriam confirmadas durante o emprego real em zonas de conflagração, quando sem serviços de forças multinacionais de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), em Moçambique e Congo nos anos de 1990 e no Haiti na década seguinte. Nestes cenários de emprego urbano, seriam expostas falhas e deficiências operacionais dos blindados da Engesa, se destacando principalmente um baixo nível de proteção a seus ocupantes. A solução para esta problemática passaria a ser inclusa nas diretrizes da Política Nacional de Defesa (PND) e da Estratégia Nacional de Defesa (END), o Exército Brasileiro implementou projetos de modernização e transformação, que envolveriam diversos aspectos da Defesa, tanto em material, quanto em pessoal e de mentalidade. O Programa Estratégico do Exército (Prog EE) seria organizado em um Portfólio Estratégico do Exército (Port EE) com projetos de execução de médio e longo prazo, que possibilitam a modernização da Força Terrestre a fim de cumprir suas missões constitucionais. Dentro deste programa estava incluindo o desenvolvimento de uma nova família de veículos blindados sobre rodas. Este programa herdaria em sua concepção os ensinamentos colhidos nas operações multinacionais de paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Assim em fins do mesmo ano o Exército Brasileiro emitiu um pedido (ROB # 09/99) para uma nova família de veículos blindados de combate com capacidade anfíbia, capaz de substituir os Engesa EE-9 Cascavel e EE-11. A principal característica desta nova família, seria o de apresentar um design modular, permitindo a incorporação de diferentes torres, armas, sensores e sistemas de comunicações para o mesmo carro. Prevendo versões para transporte de tropa, comando e controle, ambulância, socorro e apoio de fogo, com possibilidade de emprego de morteiros de grosso calibre, canhões de 30 mm e obuses, todos empregando o mesmo chassi, componentes eletrônicos e capacidades, como defesa química, carroceria antiminas, proteção balística, entre outros.   
O desenho conceitual do veículo seria apresentado na feira Inovatec 2007, na cidade de São Paulo – SP , no dia 12 de abril do mesmo ano, seria realizada uma reunião no Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), no Rio de Janeiro, para a solicitação formal às empresas Agrale S/A, Avibras S/A, EDAG Ltda, Fiat - Iveco do Brasil S/A e IESA que elaborassem propostas financeiras. As empresas tiveram um prazo máximo de oitenta dias para a entrega de informações e documentações necessárias à elaboração da proposta financeira, de onde sairia um vencedor com o objetivo de elaborar um protótipo de veículo blindado de transporte de tropas médio sobre rodas (VBTP-MSR). Em meados do ano 2007, seria lançada uma licitação para o atendimento desta demanda, com este programa recebendo a designação de NFMBR (Nova Família de Blindados Médios de Rodas). Em 21 de dezembro deste mesmo ano, seria assinado em Brasília um acordo entre o Exército Brasileiro e a divisão da Fiat - Iveco S/A no Brasil, para o início da construção de um protótipo, tendo em vista que a proposta apresentada por esta multinacional representava a melhor solução do ponto vista técnico e econômico, pesando também a experiencia da empresa na produção em série do blindado sobre rodas italiano Iveco Super AV 8x8. No dia 18 de dezembro de 2009, no Quartel-General do Exército, o General de Exército Fernando Sérgio Galvão, Chefe do Estado-Maior do Exército, e o Presidente da Iveco do Brasil S/A , Marco Mazzu, assinaram o contrato de produção do Projeto Viatura Blindada de Transporte de Pessoal - Médio sobre Rodas (VBTP-MSR), prevendo a fabricação no Brasil de 2.044 unidades, em um período de vinte anos. Em 2011 o protótipo do Veículo Blindado de Transporte Médio sobre Rodas Guarani 6X6, seria apresentado na edição anual da feira internacional LAAD Latin American Aero & Defence, no Rio de Janeiro (RJ). Em meados do ano de 2013, a recém-criada Iveco Defense Brasil S/A inauguraria na cidade mineira de Sete Lagoas, uma planta industrial dedicada a produção anual de 60 viaturas deste modelo. Esta nova viatura apresentaria um monobloco formado por duas longarinas na base do veículo, que abriga toda a suspensão, os elementos de transmissão com sua respectiva caixa e dois diferenciais, um dianteiro e outro traseiro. Sobre este conjunto foi montado a estrutura blindada do veículo, em forma de V capaz de resistir a minas terrestres de até 6 kg de carga explosiva. Com pouco mais de 7,0 metros de comprimento por 2,4 metros de altura, esse blindado com capacidade anfíbia possuiu tração 6X6, com possibilidade de trafegar tanto em terreno arenoso como em asfalto. Sua blindagem apesar de leve, seria capaz de proteger ele contra disparos de todos os tipos de projéteis em calibre 7,62X51 mm, inclusive AP (perfurantes de blindagem) e fragmentos de granadas.  

Seu assoalho seria projetado com forma em “V” para dissipar detonações de minas terrestres e IEDs (explosivos improvisados) que já causaram centenas de mortes e muita destruição em blindados convencionais no Iraque e Afeganistão. A capacidade de proteção NBC (nuclear, bacteriológico e químico) seria um opcional, podendo ser facilmente incorporado ao projeto. Como o projeto do Guarani seguiria a tendência de praticamente todos os novos projetos em blindados, apresentaria uma modularidade que lhe seria muito útil para adaptação de placas de blindagem extra, reforçando sua capacidade a níveis bem mais resistentes, caso seja necessário, além de se poder integrar diversos armamentos de vários tipos. Em sua configuração básica a viatura seria equipada com uma metralhadora M-2 em calibre.50 (12,7 mm), porém diversas torres controladas remotamente e armadas com metralhadoras 7,62 X 51 mm, lança granadas de 40 mm, e metralhadora pesada em calibre 12,7 mm, também poderiam instaladas facilmente no Guarani. O modelo seria habilitado para operar com uma torre UT-30BR, desenvolvida pela empresa israelense Elbit System Ltd,  que possuía um canhão de ATK de 30 mm, uma metralhadora coaxial de 7,62X51 mm e um sensor óptico para uso do comandante do veículo e outro para o artilheiro. Além disso, há sistemas de defesas como um alerta de laser LWS que avisa o comandante quando o veículo estiver sendo iluminado por um designador de alvos a laser.  Com a finalidade de atender às exigências do Exército Brasileiro, e também em função dos custos, optou-se por incorporar ao projeto o maior número possível de componentes que já existissem no mercado automotivo de caminhões (com modelo atingindo um índice de nacionalização de 90%), como forma de baratear a manutenção e ao mesmo tempo manter um veículo moderno. Devido a isto, foram utilizados os elementos mecânicos dos caminhões comerciais da série Trakker 410T44 / 410T48 – 6x4, produzidos e comercializados pela Iveco do Brasil S/A. O monobloco também faria uso de componentes comuns a este caminhão, empregando ainda o mesmo motor FPT Industrial Cursor 9F2C de 383 cv fabricado na Argentina, operando acoplado a uma transmissão automática ZF Friedrichshafen 6HP602S. Para propulsão aquática seria escolhido o conjunto Bosch Rexroth A2FM80 com duas hélices navais. Faria uso também de conjuntos pneumáticos centrais Téléflow, sistema de proteção QBN (química, biológica e nuclear) Aero Sekur, sensor de fogo automático e supressão Martec, painel digital do motorista, sistema elétrico CANBUS tipo 24V, assentos com absorção de choque, câmeras de motorista da Orlaco Products, sistema de ar-condicionado da Euroar, sistema de pneus runflat Hutchinson, eixos motrizes Dana, e caixa de transferência e suspensão da Iveco. O sistema de comando e controle seria composto por dois rádios Harris Falcon III com GPS integrado, um intercomunicador Thales SOTAS, um computador Geocontrol CTM1-EB e software GCB (Gerenciador do Campo de Batalha), desenvolvido pelo Centro de Desenvolvimento de Sistemas do Exército Brasileiro. 
A guarnição militar, em sua versão básica de transporte seria composta por um Grupo de Combate (GC) com nove homens, incluindo o sargento, comandante de carro, além do motorista e o atirador da metralhadora ou canhão, totalizando onze homens. Uma das versões que chegou a ser considerada para o Guarani foi a de um veículo de reconhecimento, que substituiria os atuais veículos EE-9 Cascavel, e seria armado com um canhão de 105 mm, porém, depois de várias mudanças e atrasos, esta alternativa seria abandonada pelo projeto de obtenção da Viatura Blindada de combate de Cavalaria (VBC-Cav), que resultaria em 2023 na aquisição dos carros Iveco – OTO Melara (CIO) Centauro II 8X8. Em 2016 o contrato original seria alterado prevendo agora a aquisição pelo Exército Brasileiro até o ano de 2035, de apenas 1.580 unidades a um custo total de R$ 5.939.679,29. Apesar deste pequeno revés o Iveco Guarani passaria a despertar o interesse de outras nações, com o primeiro contrato de exportação sendo celebrado em 2015 entre a Iveco Defence Vehicles e o governo do Líbano. Dez viaturas seriam encomendadas, sendo entregues em dois lotes no ano de 2017, com estes veículos sendo incorporados as Forças de Segurança do Líbano (ISF), passando a ser empregados em missões de Garantia da Lei e da Ordem em Beirute, capital do Líbano.  Em dezembro de 2020 o Iveco Guarani por intermédio da empresa israelense Elbit Systems Ltd, venceria uma concorrência na Filipinas, para a venda de 28 VBTP-MSR Guarani, com este modelo customizado para as necessidades locais, estando equipado com sistemas de controle de fogo, sistemas de controle de combate TORCH-X, rádios E-LynX específicos de software e avistamentos para o artilheiro e comandante. Em julho de 2021 a República de Gana. ser tornaria o terceiro cliente de exportação do blindado brasileiro, sendo negociado pelo Elbit Systems Ltd, a venda de lote de dezenove unidades ao Exército de Gana para serem utilizadas no transporte de tropas, missões de reconhecimento e combate ao terrorismo, bem como outras ameaças que incidem na fronteira com o Burkina Faso. Estes carros blindados seriam fornecidos com a estação de controle remoto de armas REMAX, projetada e fabricada pela empresa brasileira Ares Aeroespacial e Defesa Ltda. Neste cenário a Argentina e a Malásia se enquadrariam como prováveis novos clientes de exportação, confirmando assim o grande potencial comercial do modelo ao longo dos próximos anos. Infelizmente em 2023 o governo brasileiro negaria por fatores ideológicos a exportação no valor de R$ 3,5 bilhões, de carros blindados 450 Iveco Guarani 6X6 configurados em uma versão ambulância, para emprego no teatro de conflagração contra a Rússia. 

Emprego no Exército Brasileiro.
Todo o processo de desenvolvimento e produção dos primeiros protótipos seria coordenada por militares do Exército Brasileiro em parceria com a equipe técnica da Iveco Defense Brasil S/A. Assim em 2010 o Estado-Maior do Exército (EME) escolheu a então 15 ª Brigada de Infantaria Motorizada para ser a grande unidade (GU) precursora do processo de experimentação doutrinaria, transformando-a na 15ª Brigada de Infantaria Mecanizada (15º Bda Inf Mec). O contrato para a produção do primeiro Lote de Experimentação Doutrinária (LED) seria assinado em dezembro de 2012, envolvendo 86 Guarani VBTP-MRs 6×6. Neste processo o primeiro carro seria entregue no dia 26 de junho de 2013, ao Centro de Instrução de Blindados “General Walter Pires” (CIBld), devendo ser utilizado para especializar oficiais e sargentos na operação e manutenção do moderno material de emprego militar. Em agosto do mesmo ano o 2º Batalhão de Engenharia de Combate apoiaria a realização de testes na Viatura Blindada de Transporte de Pessoal – Guarani, executado pelo Centro de Avaliação do Exército (CAEx) e por representantes da montadora. Além do teste de transposição de curso d´água, realizado na alça do Rio Paraíba do Sul, seria efetuado um teste de Navegação em Lago, com duração de 1h30min, durante o qual puderam ser observados o desempenho na transposição, a navegação, o sistema de arrefecimento e a aceleração, entre outros. Neste meio tempo começariam a ser formados as primeiras turmas de motoristas e equipe de manutenção, prenunciando assim o breve início da operação do blindado na Força Terrestre.  Desta maneira as primeiras treze viaturas seriam entregues em uma cerimônia oficial realizada no dia 24 de março de 2014, com presença do Ministro da Defesa e do comandante do Exército Brasileiro. Estes veículos seriam incorporados a 15ª Brigada de Infantaria Mecanizada, sediada em Cascavel/PR, para mobiliar uma das Companhias de Fuzileiros do 33º Batalhão de Infantaria Motorizado (BI Mec), Unidade orgânica da Brigada, que se encontrava em processo de transformação para o 33º Batalhão de Infantaria Mecanizado. Deste lote onze viaturas estariam equipadas com a torre manual Platt MR550 Bi-Metal, produzida pela empresa australiana W&E Platt Pty LTD, armada com uma metralhadora Browning calibre.50, com os dois demais carros apresentando uma tampa provisória, sendo logo apelidados de “mulas-sem-cabeça “. Estes receberiam em seguida os protótipos das torres nacionais Reman que se encontravam em desenvolvimento pela Ares Aeroespacial e Defesa Ltda em parceria com a empresa israelense Elbit Systens Ltd. Em atendimento ao cronograma original, mais oitenta e seis viaturas seriam entregues até o final do ano de 2014, sendo distribuídos aos batalhões de infantaria de Foz do Iguaçu (PR), Apucarana (PR), Francisco Beltrão (PR) e ao Centro de Instrução de Blindados em Santa Maria (RS). Durante o período de introdução e avaliação operacional do VBTP-MR Guarani, as viaturas pertencentes ao 33º Batalhão de Infantaria Mecanizado (BI Mec) foram amplamente empregadas em diversas missões realizadas no oeste do estado do Paraná. Essas operações tiveram como propósito principal aferir o desempenho e a confiabilidade dos veículos em condições reais de campanha, incluindo longos deslocamentos  frequentemente superiores a 200 quilômetros  realizados pelos próprios meios. Tal prática visava testar não apenas a eficiência mecânica e o conforto da tropa embarcada, mas também as demandas logísticas e os cuidados necessários à manutenção de campo. 

Como parte desse processo de experimentação, os blindados foram propositalmente mantidos ao relento, expostos às intempéries, de modo a avaliar sua resistência estrutural e operacional. O resultado foi considerado amplamente satisfatório: o elevado índice de disponibilidade técnica demonstrado pelas viaturas confirmava as expectativas iniciais do projeto Guarani, desenvolvido no âmbito do Programa Estratégico do Exército Brasileiro para a modernização da Força Terrestre. Entre os principais sistemas de destaque figuravam o sistema automatizado de pressurização dos pneus, que permite ajustes conforme o tipo de terreno; a suspensão independente nas seis rodas, garantindo maior estabilidade e conforto; e o sistema de ar-condicionado com filtros de proteção NBQ (nuclear, biológica e química), fundamental para operações em ambientes hostis. Além disso, o Guarani incorpora um avançado Sistema de Gerenciamento do Campo de Batalha (Battlefield Management System) e um Sistema de Consciência Situacional, ambos projetados para integrar informações táticas em tempo real, elevando significativamente o nível de comando, controle e interoperabilidade das unidades mecanizadas. No aspecto ergonômico, a viatura surpreendeu pelo conforto e atenção ao bem-estar da tropa: assentos estofados, cintos de segurança de cinco pontos e um interior pintado em tom verde-claro  adotado após estudos de cromologia aplicada — substituíram o tradicional branco dos blindados anteriores. Essa escolha revelou-se acertada, reduzindo o cansaço visual e permitindo viagens prolongadas, superiores a três horas, sem causar fadiga significativa ao pessoal embarcado. O Programa VBTP-MSR (Veículo Blindado de Transporte de Pessoal - Médio Sobre Rodas) previa, em sua concepção original, o desenvolvimento de até dezessete variantes do Iveco Guarani, adaptadas a diferentes funções táticas e de apoio, entre elas: Viatura Blindada de Combate de Fuzileiro (VBC Fuz), Viatura Blindada de Reconhecimento (VBR), Viatura Blindada de Combate Morteiro Médio (VBC Mrt Me), Viatura Blindada de Combate Morteiro Pesado (VBC Mrt P), Viatura Blindada Especial de Central de Direção de Tiro (VBECDT), Viatura Blindada Especial Posto de Comando (VBEPC), Viatura Blindada Especial de Comunicações (VBE Com), Viatura Blindada Especial Socorro (VBE Soc), Viatura Blindada Especial Oficina (VBE Ofn), Viatura Blindada de Transporte Especializado Ambulância (VBTE Amb), Viatura Blindada de Reconhecimento Leve (VBR L), Viatura Blindada de Combate Anticarro - Leve de Rodas (VBC AC LR), Viatura Blindada Especial Observador Avançado - Leve de Rodas (VBE OA LR), Viatura Blindada de Combate Morteiro - Leve de Rodas (VBC Mrt LR), Viatura Blindada Especial Radar - Leve de Rodas (VBE Rdr LR) e Viatura Blindada Especial Posto de Comando - Leve de Rodas (VBEPC LR). Posteriormente seria definido o desenvolvimento final de apenas sete versões especializadas. Em seguida seria apresentada a segunda versão, agora equipada com um canhão de 30 mm, que compunha o Sistema de Armas Remotamente Controlado (SARC) UT30BR (Unmanned Turret 30mm Brazil), produzido pela empresa israelense Elbit Systems Ltd. 
Nesta torre não tripulada o atirador permanece protegido dentro do blindado, observa o campo de batalha por um monitor LCD e opera-o através de um punho semelhante a um joystick, não havendo a necessidade de se expor ao meio externo. O conceito deste sistema de “Torreta não Tripulada” faz uso da arma automática 30×173 mm ATK BushMaster MK-44, operando em conjunto uma metralhadora coaxial 7,62×51 mm e lançador de granadas fumígenas de 76 mm.  O canhão dispõe de funcionamento elétrico, tipo Chain Gun, no qual o conjunto ferrolho movimenta-se ciclicamente, sem a necessidade da utilização dos gases oriundos dos disparos, o que proporciona um índice muito baixo de incidentes de tiro, além de fácil manutenção.  Este modo de funcionamento proporciona um índice muito baixo de incidentes de tiro e fácil manutenção. A torre possui dois cofres de munição 30mm, um com capacidade para 50 cartuchos e outro para 150, então, é possível alimentar o canhão com até dois tipos de munição simultaneamente. Sua cadência inicial de tiro é de 200 tiros por minuto e é controlada por uma central eletrônica dedicada ao canhão. Quanto ao seu alcance efetivo, se utilizada munição perfurante, é de 3000 metros e quando empregada a munição explosiva, o alcance efetivo é de 2000 metros. A torre SARC UT30BR apresenta ainda um dispositivo de segurança para a detecção de ameaça a laser chamado Elbit’s Laser Warning System (ELAWS), que alerta quanto a ameaças laser inimiga, informando a direção de origem. Em uma situação de combate, quando detectada a ameaça, o operador pode configurar a torre para apontar automaticamente para a direção ou manualmente, bastando pressionar um botão. Este programa seria lastreado em um acordo firmado para a aquisição de duzentos e dezesseis conjuntos a serem integrados as viaturas operacionais. Uma parte importante deste programa passa pela nacionalização da munição, 30×173 mm de Exercício Traçante (EX-T) e Alto-Explosivo Incendiário (AEI), fabricada pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), e por ser um calibre largamente utilizado pelos principais exércitos ao longo do mundo (com o canhão Bushmaster II MK-44), sua possível exportação poderá favorecer a balança comercial brasileira. Esse equipamento foi adquirido para mobiliar as Brigadas de Infantaria Mecanizada (Bda Inf Mec) do EB. Inicialmente, as VBTP-MR 6×6 Guarani, dotadas deste SARC (Sistemas de Armas Remotamente Controlado) serão distribuídas para os Batalhões de Infantaria Mecanizados (BI Mec) e para o Centro de Instrução de Blindados (CI Bld). Nestas unidades operativas os VBTP-MR 6×6 Guarani farão parte dos Pelotões de Apoio de Fogo, das Companhia de Comando e Apoio de cada Batalhão. A partir de meados de 2016, uma parcela da frota dos VBTP-MR 6×6 Guarani receberia a instalação do Sistema de Armas Reparo de Metralhadora Automatizado X (Remax), desenvolvido pelo Centro de Tecnologia do Exército e a empresa ARES Aeroespacial e Defesa S.A, a partir dos requisitos do Exército Brasileiro, implementando sua capacidade de autodefesa. 

Esta estação de armas remotamente controlada giro-estabilizada, pode operar com metralhadoras Browning calibre  12,7 mm e 7,62 mm. Este ambicioso programa teve seu previa a produção e integração aos VBTP-MR 6×6 Guarani de trezentos conjuntos do sistema SARC Remax 3 (depois Remax 4), com as demais viaturas podendo ser equipadas com com as torres manuais dos modelos Platt MR 550, Plasan GPK e as nacionais Reman. Ainda partir de 2015, a capacidade de sobrevivência no campo de batalha seria aprimorada com a possibilidade do emprego um sistema de blindagem adicional externa UFF (Ultra Flex Fence), especialmente projetada para oferecer proteção passiva otimizada contra lança-granadas propelidas por foguete do tipo RPG-7 e SPG-9 (ou similares). Este sistema do conceito "add on" seria produzido pela empresa Alltec Materiais Compostos Ltda de São Jose dos Campos (SP), com tecnologia desenvolvida pela companhia israelense Plasan Sasa Ltd. Em 2019 a viatura receberia homologação para o emprego de um conjunto de blindagem adicional em cerâmica ou modular ADD-ON ARMOUR KIT, estas placas podem ser instaladas em várias áreas específicas do blindado, como portas, torre, nas laterais etc. Este opcional oferecia ótima durabilidade em seu ciclo de vida útil, sua instalação não interferindo na dirigibilidade ou velocidade que o blindado pode alcançar, tendo ainda como vantagem sua fácil e rápida integração, remoção e manutenção. Seguindo no desenvolvimento da plataforma, em setembro de 2021, seriam iniciados os primeiros testes de campo com os dois protótipos conceito da viatura blindada especial de engenharia (VBE Eng) 6X6 Guarani, nas instalações do Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP). O projeto do Departamento de Engenharia e Construção (DEC), coordenado pela Diretoria de Material de Engenharia (DME), firmaria parceria com a empresa britânica Pearson Engineering Ltd, que forneceria um conjunto de  Implemento de braço de escavadeira (“excavator manipulator arm” – EMA); um implemento de concha carregadeira (“earth anchor blade” – EAB) e por fim um Implemento de lâmina para remoção obstáculo (“straight obstacle blade” – SOB), para assim constituírem dois protótipos da Viatura Blindada de Combate Engenharia (VBC Eng) Guarani. Estas viaturas pertencem a 15ª Companhia de Engenharia de Combate Mecanizada (15ª Cia E Cmb Mec), localizada em Palmas (PR), orgânica da 15ª Brigada de Infantaria Mecanizada (15ª Bda Inf Mec), a “Brigada Guarani”, ficando responsável pela criação e doutrina para sua utilização. Após a validação deste programa tenciona-se mobiliar todas as unidades de engenharia das Brigadas Mecanizadas com este tipo de viatura.   Em 2021 seriam iniciados estudos visando o desenvolvimento do VBTP-MR 6×6 Guarani na sua versão porta-morteiros, prevendo sua homologação para o possível emprego do morteiro  suíço RUAG Cobra de 120 mm e do modelo nacional, o Morteiro Médio Antecarga (MrtMeACg) 81 mm AGR desenvolvido pelo Centro de Tecnologia do Exército (CTEx), dentro do Sistema de Ciência e Tecnologia do Exército Brasileiro. Ao ser integrada a viatura, prevendo quatro carros porta-morteiros por batalhão, o emprego deste tipo de sistema de armas  representa uma arma extremamente letal devido a sua alta mobilidade, profundidade e densidade de tiro (múltiplos impactos de direções diferentes) e capacidade de apoiar por fogos tropas blindadas e mecanizadas durante seu deslocamento, cobrindo os flancos e a linha de frente. 
Neste contexto seria definido pelo emprego da arma nacional, e em março de 2023 seria apresentado o protótipo da viatura blindado de transporte pessoal (VBTP) 6X6 Guarani com o kit para de transporte de morteiro 81 mm. Estes carros estavam equipado com o Acessório para Transporte do Morteiro e Munições - ATMM, desenvolvido pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), a partir de experiências realizadas pelo 1º Regimento de Cavalaria Mecanizado (1º RC Mec), de Itaqui (RS). Foi totalmente fabricado pelo AGR, com componentes da indústria nacional, e tem como finalidade dotar as frações de tropa responsáveis por prover o apoio de fogo indireto com o morteiro de 81 mm nas brigadas mecanizadas, as “Brigadas Guarani”, em nível de pelotões ou companhias/esquadrões, com a mesma mobilidade e proteção da tropa apoiada. Estas viaturas transportaram um morteiro AGR de 81 mm (Mrt Me Acg 81 mm) e 63 granadas (todas acondicionadas de forma segura), bem como toda a sua guarnição, composta pelo comandante, motorista, atirador, auxiliar do atirador e municiador. Um dos requisitos do projeto foi que a viatura não deveria ter que passar por modificações em sua estrutura (cortes, furos, soldas, etc.), sendo aproveitados os pontos de fixação e ancoragem já existentes (pontos de fixação dos assentos da guarnição embarcada), o que permitirá que sua conversão (e “desconversão”) seja feita nos Parques Regionais de Manutenção ou Batalhões Logísticos, após a capacitação para montagem  desmontagem de seus militares pelo AGR, que será o responsável por sua fabricação. Por conta da distribuição de peso, o kit foi desenvolvido para ser utilizado nas VBTP 6X6 Guarani dotadas de torre blindada manual Platt MR550, não influindo em sua flutuabilidade. A demanda do Exército Brasileiro para este tipo de viatura é de 180 unidades, com uma previsão anual de 50 kits. É importante ressaltar que esta versão não é um substituto para o projeto da viatura blindada de combate – morteiro (VBC Mrt) 6X6 Guarani, cuja Consulta Pública para aquisição (“request for quote” – RFQ) está prevista para este ano, que objetiva atender a demanda das brigadas Guarani para uma viatura de combate dotada de um morteiro de 120 mm, a serem empregadas em nível de batalhão/regimento. Em dezembro de 2024 a Iveco Defense Brasil S/A e Exército Brasileiro, por meio do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), assinaram um contrato de encomenda tecnológica para o desenvolvimento das viaturas blindadas VBE PC-MSR 6X6 (Viatura Blindada Especial Posto de Comando Média Sobre Rodas) e VBTE AMB-MSR 6X6 (Viatura Blindada de Transporte Especializado Ambulância Média Sobre Rodas). Atualmente mais de 700 viaturas desta família já foram entregues ao Exército Brasileiro, provocando não só uma imensa revolução tecnológica, bem como operacional pois os carros entregues já representam quase o dobro dos blindados EE-11 Urutu em serviço, possibilitando assim ampliar o número de unidades existentes na Força Terrestres, melhorando em muita sua capacidade operacional. 

Em Escala.
Para representarmos o Iveco VBTP-MR 6×6 Guarani do Exército Brasileiro, fizemos uso kit em resina na escala 1/35 fabricado pela Oficina do Aquino. Este modelo representa a primeira geração de modelos em escala desta viatura sendo adquirido em 2022, atualmente existem outras opções em injeção 3D que apresentam um nível melhor de acabamento e detalhamento. Para complementar o modelo optamos em adicionar a torre REMAX impressa em 3D, comercializado  a parte como um set de detalhamento. Empregamos decais  originais do modelo que permitem representar diversas unidades operacionais.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de camuflagem tático  em dois tons adotado por todos os veículos blindados em uso no Exército Brasileiro, com este esquema passando a ser empregado a partir do ano de 1983.  Empregamos tintas e vernizes produzidos pela Tom Colors.

Bibliografia : 

- Projeto Guarani, a Retomada do Desenvolvimento de Blindados Militares no Brasil - www.redectidc.com.br 

- Tecnologia e Defesa por Paulo Roberto Bastos Jr - https://tecnodefesa.com.br/ 

- LAAD 2015: Guarani com blindagem passiva UFF por  Roberto Caifa - https://tecnodefesa.com.br/ 

- Guarani Engenharia em testes por Paulo Roberto Bastos Jr - https://tecnodefesa.com.br/ 

- Transporte de morteiro de 81 mm - https://tecnodefesa.com.br/nova-versao-do-guarani-transporte-de-morteiro-de-81-mm/ 

- VBTP-MR Guarani Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/VBTP-MR_Guarani 


M-60A3 TTS (VCB CC)


História e Desenvolvimento.
Do ponto de vista da engenharia automotiva aplicada ao campo militar, a Segunda Guerra Mundial representou um marco de transformação sem precedentes. Em apenas seis anos, o mundo testemunhou uma verdadeira revolução tecnológica: exércitos que, ainda no final da década de 1930, empregavam cavalos como meio de tração e combate, passariam a dispor de divisões blindadas dotadas de veículos de combate que ultrapassavam as setenta toneladas. Na vanguarda dessa corrida tecnológica estava a Alemanha, cuja indústria automotiva  já consolidada por sua competência técnica  tornara-se o pilar da expansão militar do Terceiro Reich. Foi sob esse ambiente que nasceram os lendários carros de combate Panzer (Panzerkampfwagen), termo que, em alemão, significa literalmente “veículo couraçado”. Produzidos em larga escala, os diversos modelos da família Panzer tornaram-se ícones da doutrina militar alemã conhecida como Blitzkrieg  a “Guerra Relâmpago” , cuja essência residia na combinação de velocidade, poder de fogo e coordenação tática. Através do uso integrado de blindados, artilharia autopropulsada e veículos especializados de apoio e transporte, os alemães desenvolveram uma máquina de guerra altamente móvel e eficaz. Essa estratégia permitiu que, nas fases iniciais do conflito, as forças do Eixo obtivessem vitórias rápidas e decisivas, rompendo as linhas inimigas e explorando suas brechas com notável eficiência. Entretanto, apesar da superioridade técnica e conceitual dos Panzers, a Alemanha enfrentaria um desafio insuperável: a escala industrial de seus inimigos. No front ocidental, os Estados Unidos inundaram o campo de batalha com milhares de tanques M-4 Sherman, enquanto no leste, a União Soviética surpreendia o mundo com o notável T-34, um carro de combate que aliava mobilidade, blindagem inclinada e poder de fogo em um equilíbrio sem precedentes. O desempenho do T-34 — capaz de rivalizar e, em muitos aspectos, superar os blindados alemães — revelou ao mundo o potencial técnico e produtivo da indústria soviética. O sucesso desse projeto seria perpetuado em seus sucessores, os T-44 e T-54, desenvolvidos entre o final da década de 1940 e o início da década de 1950, consolidando o domínio soviético na produção de tanques robustos e de manutenção simplificada, aptos a equipar não apenas o Exército Vermelho, mas também as forças armadas de nações do bloco socialista. Do lado ocidental, os Estados Unidos responderiam ao desafio soviético com uma série de evoluções em seus veículos de combate. O primeiro passo foi o M-46 Patton, introduzido em 1949 para substituir os veteranos M-26 Pershing e M-4 Sherman. Pouco tempo depois, em 1951, surgiu o M-47 Patton, que rapidamente se tornaria o novo padrão tanto do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) quanto do Corpo de Fuzileiros Navais (U.S. Marine Corps). Embora representassem avanços significativos, esses modelos ainda não atendiam plenamente ao conceito emergente de um tanque de batalha principal — o Main Battle Tank (MBT) —, que buscava unificar em uma única plataforma as funções de tanques médios e pesados, combinando mobilidade, blindagem e poder de fogo em níveis equilibrados. 

Essa lacuna seria preenchida a partir de 1952, com o surgimento do M-48 Patton, o primeiro MBT verdadeiramente moderno desenvolvido pelos Estados Unidos. O veículo incorporava um canhão de 90 mm com sistema de carregamento semiautomático, blindagem reforçada com apliques compostos de vidro de sílica fundido e um sofisticado sistema de controle de fogo, composto por telêmetro, computador balístico mecânico, acionamentos elétricos e mira estabilizada. O M-48 não apenas substituiu gradualmente os modelos anteriores (M-46 e M-47), como também se tornaria o pilar da força blindada norte-americana durante a Guerra Fria, servindo em diversas frentes e sendo exportado para dezenas de países aliados. Sua produção, encerrada em 1956, ultrapassou a marca das doze mil unidades, consolidando-o como um dos tanques mais influentes de sua geração e um símbolo do equilíbrio entre inovação técnica, robustez e adaptabilidade — características que definiriam a evolução dos carros de combate nas décadas seguintes. Na segunda metade da década de 1950, a União Soviética iniciou a introdução de versões substancialmente atualizadas do T-54, incorporando mais de 1.400 modificações que elevaram sensivelmente o patamar operacional do veículo e despertaram preocupações agudas entre os planejadores militares ocidentais. A apreensão aumentou ainda mais quando serviços de inteligência detectaram o desenvolvimento de um novo blindado soviético, o T-55, cuja chegada aos arsenais do Pacto de Varsóvia prometia alterar o equilíbrio de forças na Europa. Diante desse quadro, tornou-se evidente que as variantes posteriores do M-48 Patton — mesmo aquelas já dotadas do canhão de 105 mm — careciam de capacidade para enfrentar adequadamente, em um confronto convencional na Europa, os novos blindados soviéticos. Além das qualidades técnicas desses veículos, a discrepância numérica entre as forças ocidentais e as unidades do Pacto de Varsóvia acentuava o problema, impondo um exigente desafio estratégico. Como resposta inicial, foram conduzidos estudos para promover uma modernização emergencial da frota M-48. As análises técnicas, contudo, revelaram que medidas incrementais tenderiam a produzir ganhos marginais apenas, insuficientes para reverter a vantagem soviética. Diante disso, optou-se por alçar um salto qualitativo: em abril de 1957 foi lançado um programa para o desenvolvimento de uma segunda geração de Main Battle Tanks (MBT) — uma nova família de blindados concebida desde sua gênese para integrar mobilidade, proteção e poder de fogo em níveis superiores. O projeto, conhecido inicialmente sob a égide “MBT T-95”, incorporou propostas de solução altamente experimentais para a época: um canhão de alma lisa T-208 de 90 mm rigidamente instalado na torre, um bloco motriz de configuração em “X”, blindagem composta inovadora e sistemas de telêmetro infravermelho. Contudo, a complexidade tecnológica dessas inovações acarretou atrasos significativos, forçando uma reavaliação e um retorno a alternativas mais convencionais. Um episódio determinante para a guinada tecnológica ocidental ocorreu em 1956, no contexto da Revolução Húngara. Um exemplar de T-54A, capturado e levado à embaixada britânica em Budapeste, foi inspecionado por técnicos do Reino Unido. As avaliações indicaram que as munições anticarro correntes na OTAN — do tipo HEAT (High Explosive Anti-Tank) e APC (Armor-Piercing Capped) — revelavam sérias limitações para penetrar a blindagem frontal do T-54A. Esse diagnóstico causou impacto imediato nas doutrinas e na indústria aliada.
Como contrapartida tecnológica, a Grã-Bretanha impulsionou o desenvolvimento de um novo canhão de 105 mm, o Royal Ordnance L7, projeto que se integraria ao blindado FV4007 Centurion, conferindo-lhe capacidade de vencer a proteção adversária e restituindo, em termos de poder de fogo, a paridade entre ocidente e bloco soviético. Assim, o confronto nas décadas seguintes travou-se não apenas em termos de quantidade, mas sobretudo como uma corrida constante por soluções tecnológicas capazes de restaurar o equilíbrio sobre o campo de batalha. Estes dados seriam compartilhados com os militares norte-americanos, passando a influenciar diretamente o programa do carro principal de combate "MBT T-95", e as ponderações resultantes deste estudo levariam a criação do programa XM-60, que passaria a gerido pelo Comitê do Exército para Veículos de Combate (Army Combat Vehicle-ARCOVE). Visando reduzir custos de desenvolvimento, produção e manutenção  além de aproveitar as infraestruturas industriais já disponíveis  decidiu-se que o novo carro de combate seria desenvolvido a partir da bem-sucedida plataforma do M-48 Patton, mantendo ainda algumas soluções técnicas herdadas do M-26 Pershing, seu antecessor. Para a escolha da arma principal, foram realizados em 1958 extensos testes comparativos no Campo de Provas de Aberdeen (Aberdeen Proving Grounds), envolvendo seis diferentes modelos de canhões. Os ensaios avaliavam parâmetros como precisão, poder de penetração, taxa de disparo e efeito terminal. Ao término das provas, a escolha recairia sobre o canhão T-123E6 de 105 mm, uma versão norte-americana produzida sob licença do eficiente Royal Ordnance L7 britânico, que já havia se destacado por sua capacidade de enfrentar com sucesso os carros de combate soviéticos da família T-54/T-55. Além de seu excelente desempenho balístico, o novo canhão apresentava a vantagem logística de poder empregar diversos tipos de munições já disponíveis nos arsenais norte-americanos, incluindo os modelos APDS-T (M392 e M728), APFSDS-T (M735 e M774), APFSDS-DU (M833), HEAT-FS (M456), HEP/HESH, e M393, entre outras. Essa compatibilidade representava um significativo ganho operacional e econômico. Após a conclusão do processo de padronização, o armamento receberia a designação definitiva de M-68, passando a ser fabricado pelo Watervliet Arsenal, em Nova York. O novo veículo também apresentava inovações significativas em sua proteção balística. O conjunto de blindagem foi redesenhado para empregar apliques compostos de vidro de sílica fundido, montados na parte frontal do casco. Essa configuração implicou na substituição do tradicional formato elíptico da parte dianteira do M-48 por uma estrutura em forma de cunha plana, mais inclinada e eficiente contra impactos diretos. Embora a espessura nominal do blindado frontal tenha sido reduzida de 114 mm para 93 mm, o novo ângulo de inclinação proporcionava uma proteção equivalente ou superior, ao mesmo tempo em que diminuía o peso do conjunto. Apesar dos bons resultados obtidos, o uso de materiais compostos foi posteriormente abandonado nas versões de produção subsequentes, sendo substituído por blindagem de aço homogêneo, que oferecia melhor equilíbrio entre custo, facilidade de manutenção e eficiência prática. O XM-60 também seria equipado com um moderno motor Continental AVDS-1790-2, um V-12 a diesel, biturbo e refrigerado a ar, capaz de gerar 750 hp, representando um avanço notável em relação ao motor a gasolina empregado no M-48. 

Essa mudança reduzia o consumo de combustível e o risco de incêndios em combate, além de simplificar o suprimento logístico das unidades blindadas. Em abril de 1959, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos aprovou o contrato para a construção de 45 unidades de pré-produção, com as primeiras saindo das linhas de montagem da Chrysler Defense Corporation, em Delaware, a partir de junho do mesmo ano. Assim nascia o que viria a ser o M-60 Patton, um dos carros de combate mais emblemáticos da Guerra Fria, destinado a tornar-se o pilar da força blindada norte-americana por mais de três décadas. As primeiras unidades do novo blindado começaram a ser entregues entre novembro e dezembro de 1959, sendo imediatamente submetidas a um exigente programa de avaliação no Aberdeen Proving Grounds. Lotes subsequentes foram encomendados para ensaios específicos no Arsenal de Detroit e em Fort Knox, cenário onde se validaram requisitos operacionais e de produção. Um quarto lote-piloto, concluído em 26 de outubro de 1959, serviu como casco-mestre para aferir os processos industriais na fábrica de tanques de Detroit, resultando numa produção inicial de baixa cadência de 180 veículos naquele ano. A produção em série efetiva teve início em outubro de 1960, já nas instalações do Detroit Arsenal Tank Plant, em Warren (Michigan), com os primeiros exemplares sendo encaminhados às unidades do Exército estacionadas na Europa a partir de dezembro de 1960. Apesar do avanço tecnológico representado pelo novo modelo em relação ao M-48 Patton, as avaliações operacionais iniciais indicaram a necessidade de introduzir aperfeiçoamentos de projeto e de integração de sistemas. Em resposta a essas demandas nasceu, no início de 1960, o programa de desenvolvimento da variante M-60A1. Os primeiros protótipos foram testados nos meses de março e abril, e a versão final suplantou várias limitações do projeto original: abandonou o uso de blindagem composta nas primeiras séries, adotou uma torre de proteção melhorada, incorporou periscópios de visão infravermelha (IR) e passou a utilizar o motor Continental AVDS-1790-2A, de perfil mais econômico e com menor emissão de fumaça. Após extensos ensaios em Fort Knox, o M-60A1 recebeu sua aceitação operacional em 22 de outubro de 1961. Na esteira dessa homologação foi firmado, no final daquele ano, um contrato de US$ 61 milhões para a aquisição inicial de 720 veículos, cuja produção, iniciada em 13 de outubro de 1962 na linha da Chrysler/Detroit Arsenal, se estenderia por cerca de duas décadas. A evolução prosseguiu com a busca por maior capacidade antiblindagem. O programa que resultou no M-60A2 focou no emprego de míssil antitanque lançado a partir do próprio veículo; vários protótipos foram submetidos a testes em Aberdeen, culminando na aceitação do modelo M-60A1E2 pelo Exército em 1970 e na assinatura de um contrato para 540 unidades, com entregas iniciadas a partir de 1975. Persistia, porém, uma limitação importante: tanto o M-60A1 quanto o M-60A2 apresentavam dificuldades para disparar com precisão em movimento. Para superar essa deficiência, a partir de 1978 foi empreendido o desenvolvimento da variante M-60A3, que integraria um sistema de estabilização de tiro eficaz e o novo computador balístico M-21. A combinação desses sistemas permitiu, pela primeira vez na família M-60, a execução de disparos precisos a longa distância durante deslocamento, inclusive com munições de ponta como projéteis APFSDS (munição tipo “flecha”), aumentando muito a probabilidade de acerto no primeiro tiro contra alvos móveis e sob condições ambientais adversas. Os primeiros  M-60A3 começaram a ser entregues às unidades a partir de meados de 1979, marcando uma nova etapa na vida operacional do veículo e consolidando-o como um MBT contemporâneo das exigências táticas da Guerra Fria.
Em serviço junto ao Exército dos Estados Unidos (U.S. Army) e ao Corpo de Fuzileiros Navais (U.S. Marine Corps), o M-60A3 consolidou-se, ao longo das décadas de 1970 e início dos anos 1980, como o carro de combate principal das forças norte-americanas. Seu desempenho sólido e confiável o tornou o eixo da doutrina blindada estadunidense durante o período mais tenso da Guerra Fria, quando a ameaça das forças do Pacto de Varsóvia impunha a necessidade de uma constante prontidão militar na Europa Ocidental. Todavia, com o advento do M-1 Abrams, um projeto de segunda geração que incorporava avanços significativos em mobilidade, poder de fogo e proteção, iniciou-se em 1984 um processo gradual de substituição do M-60A3 nas unidades de linha de frente. Cerca de 3.000 exemplares foram então transferidos para a Guarda Nacional do Exército (Army National Guard), passando a integrar as reservas estratégicas destinadas a reforçar as forças norte-americanas estacionadas no continente europeu em caso de conflito direto com a União Soviética. Uma fração dessa frota foi posteriormente submetida a programas de modernização, originando as variantes M-60AX e M-60A4, que incorporavam sistemas eletrônicos atualizados e melhorias no controle de fogo. Mesmo assim, um número expressivo de veículos manteve-se em serviço ativo durante as décadas seguintes, chegando a participar de forma efetiva na Primeira e na Segunda Guerra do Golfo (1991 e 2003), desempenhando funções tanto de apoio direto quanto de defesa territorial. O M-60A3 também alcançaria grande difusão internacional, tornando-se um dos carros de combate ocidentais mais exportados do século XX. Por meio do programa norte-americano de Vendas Militares Estrangeiras (Foreign Military Sales – FMS), centenas de unidades foram transferidas a países aliados dos Estados Unidos, recebendo a designação genérica E-60. Cada remessa era frequentemente customizada conforme as necessidades operacionais de cada nação, resultando em uma ampla gama de variantes que podiam incluir modificações na cúpula M-19, substituição de metralhadoras, atualização de eletrônicos, instalação de novos sistemas de controle de fogo e comunicações, placas de blindagem suplementar, lançadores de granadas de fumaça e motores de maior eficiência. Entre os operadores estrangeiros, Israel destacou-se como o principal usuário e modernizador da plataforma, adquirindo aproximadamente 1.350 unidades. O país implementou profundas atualizações locais que resultaram na criação da família Magach 6, adaptada às exigências do campo de batalha do Oriente Médio. A Jordânia, por sua vez, conduziu um programa de modernização próprio que originou o M-60A3 Phoenix, dotado de um canhão de alma lisa RUAG Land Systems L50 de 120 mm, capaz de disparar de 6 a 10 projéteis por minuto. Essa versão incorporava ainda o Sistema Integrado de Controle de Fogo (IFCS) desenvolvido pela Raytheon, composto por telêmetro a laser seguro para os olhos, visão noturna de segunda geração, computador balístico digital, sensores de referência de escala e barramento de dados MIL-STD-1553, elevando o desempenho do veículo a um novo patamar tecnológico.Além desses dois casos emblemáticos, a família M-60 foi amplamente difundida, servindo em forças armadas de países como Bósnia e Herzegovina, Bahrein, Alemanha, Espanha, Egito, Grécia, Irã, Líbano, Marrocos, Omã, Portugal, Arábia Saudita, Taiwan, Sudão, Tailândia, Tunísia, Singapura, Brasil, Turquia, Áustria, Etiópia, Itália, Iêmen e Ucrânia. 

Emprego no Exército Brasileiro.
A consolidação da Arma de Cavalaria Blindada no Brasil teve seu impulso decisivo a partir da Segunda Guerra Mundial, período em que o país recebeu, por meio de acordos de cooperação militar com os Estados Unidos, centenas de carros de combate dos modelos M-3 Stuart, M-3 Lee e M-4 Sherman. Para os padrões regionais da época, essa expressiva frota representava um salto notável em capacidade de combate e projeção de poder terrestre, elevando significativamente o patamar operacional da Força Terrestre brasileira. Contudo, o rápido avanço da tecnologia bélica no pós-guerra faria com que esses veículos se tornassem obsoletos em poucos anos, impondo ao Exército Brasileiro a necessidade de planejar um novo ciclo de modernização dos meios blindados. Nesse contexto, durante a década de 1960, o país passou a receber, dentro dos termos do Programa de Assistência Militar dos Estados Unidos (Military Assistance Program – MAP), os primeiros carros de combate médios M-41 Walker Bulldog. O M-41 representava um marco de modernidade para as tropas brasileiras, introduzindo sistemas até então inéditos na frota nacional  como torres com acionamento hidráulico, sistemas de visão infravermelha (nas versões M-41A3), canhões de maior poder destrutivo, miras mais precisas e elevada mobilidade. Essas inovações tecnológicas proporcionaram às tripulações brasileiras um novo nível de experiência operacional e um contato direto com o que havia de mais avançado em doutrina blindada no Ocidente. Todavia, a mesma velocidade com que a tecnologia militar evoluía na Guerra Fria logo tornaria o próprio M-41 tecnicamente ultrapassado. No início da década de 1970, já se discutia a necessidade de desenvolver soluções de modernização ou mesmo de produção nacional de carros de combate, em busca de autonomia estratégica e redução da dependência externa. Surgiriam, então, uma série de iniciativas em cooperação entre o Exército Brasileiro e a indústria nacional, entre as quais se destacaram os projetos Bernardini X1 e X1A, bem como os programas de modernização M-41B e M-41C Caxias. Apesar dos avanços obtidos, tais iniciativas tiveram caráter paliativo e eficácia operacional limitada, funcionando mais como soluções de transição do que como respostas definitivas à necessidade de um carro de combate moderno. Na sequência, projetos mais ambiciosos surgiriam, como o Bernardini MB-3 Tamoyo e o Engesa EET-1 P1 Osório, ambos concebidos com o objetivo de dotar o país de um tanque de batalha principal (MBT) de fabricação nacional. Entretanto, por razões técnicas, econômicas e conjunturais, nenhum deles ultrapassou a fase de protótipos, frustrando a expectativa de renovação plena da frota. Esses acontecimentos tiveram reflexos diretos na capacidade operacional da Força Terrestre. Na expectativa de uma solução doméstica, o Exército optou por adiar a aquisição de novos blindados estrangeiros, o que acabou por gerar um sensível atraso tecnológico frente aos exércitos vizinhos do Cone Sul, especialmente na virada das décadas de 1980 e 1990. No início dos anos 1990, a frota de carros de combate de primeira linha era composta majoritariamente pelos modelos M-41B e M-41C Caxias, ambos modernizados, porém já inadequados às exigências de um campo de batalha moderno. Paralelamente, ainda permaneciam em serviço dois Regimentos de Carros de Combate (RCC) equipados com os Bernardini X-1 Pioneiro e X-1A2 Carcará, igualmente defasados em termos de mobilidade, blindagem e poder de fogo.

Diante da premente necessidade de renovar a frota de blindados, a substituição em prazo curto das viaturas em linha tornou-se política prioritária do Estado-Maior do Exército, sendo formalmente incluída no ambicioso programa Força Terrestre 90 (FT-90). O FT-90 tinha por objetivo projetar e edificar um “exército do futuro” com horizonte até 2015, integrando-se a planos mais amplos  como o Força Terrestre 2000 (FT-2000) e o Força Terrestre do Século XXI (FT-21)  que visavam dotar a Força Terrestre de capacidades modernas e interoperáveis para a virada de século. No curto e médio prazos, o programa previa a aquisição de um lote substancial de carros de combate de nova geração, capaz de substituir progressivamente a frota então em serviço. Uma concorrência internacional foi aberta para avaliar propostas de fornecedores estrangeiros e comparar plataformas contemporâneas — entre as quais figuravam o AMX-30 francês, o Leopard 1 da Krauss-Maffei alemã, o M-60A3 norte-americano e, de forma menos convencional, o russo T-80, que chegou a ser avaliado por comitiva brasileira em visita à União Soviética/Rússia. Inicialmente, a preferência técnica do Exército Brasileiro tenderia para o Leopard 1 alemão. Todavia, a conjuntura econômica interna — marcada por estagnação e cortes orçamentários que afetaram os gastos militares ao longo daquela década — inviabilizou a aquisição massiva de mais de cem blindados novos de fábrica. Em face dessas limitações, o programa foi reorientado para compras por oportunidade, buscando soluções que conciliassem desempenho aceitável com custos reduzidos. Nesse contexto alternativo, chamou atenção a oferta da Bélgica, que disponibilizou para venda um lote de Leopard 1A1 usados — unidades do primeiro lote de produção (1968–1971) que haviam recebido atualizações de sistemas de mira e comunicações na década de 1980. A movimentação de mercado foi acompanhada com interesse por atores internacionais: o Departamento de Estado e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos perceberam a chance de retomar influência na cadeia de abastecimento militar brasileira, especialmente após o hiato iniciado em 1977 — quando, em consequência do rompimento de acordos bilaterais, o Brasil havia voltado-se predominantemente para fornecedores europeus. Com esse pano de fundo geopolítico, em 1996 os Estados Unidos apresentaram ao governo brasileiro uma proposta financeiramente atraente em regime de leasing: a cessão de 91 carros de combate M-60A3 TTS  veículos retirados do serviço ativo norte-americano após a introdução do M-1 Abrams  acompanhados de munição, peças de reposição e treinamento. O pacote financeiro proposto somava US$ 12.000.000 (doze milhões de dólares), configurando uma alternativa de baixo custo imediato para o reequilíbrio da Arma Blindada. Essa oferta representou, ao mesmo tempo, uma solução pragmática às restrições orçamentárias brasileiras e uma oportunidade estratégica para retomar laços de cooperação material e logística com os Estados Unidos. A opção pelo M-60A3 TTS, portanto, foi fruto de um cálculo que conjugava necessidade operacional, disponibilidade imediata de meios e considerações geopolíticas — numa fase em que o país buscava, com urgência, recompor sua capacidade de dissuasão regional sem comprometer de forma insustentável os cofres públicos.
Embora o contrato de cessão fosse altamente vantajoso sob os pontos de vista técnico e financeiro, o acordo firmado com os Estados Unidos incluía cláusulas restritivas de emprego. Estas determinavam que os carros de combate não poderiam ser utilizados em situações de conflito real sem prévia autorização do governo norte-americano — uma limitação que refletia a política de controle de exportações de material bélico adotada por Washington desde o fim da Guerra Fria. Ainda assim, os termos gerais da proposta mostraram-se suficientemente favoráveis para que o governo brasileiro aprovasse o acordo. Em meados de 1996, uma comitiva de oficiais do Exército Brasileiro foi enviada à Base da Guarda Nacional (National Guard) em Fort Drum, no estado de Nova York, onde os M-60A3 TTS estavam armazenados em reserva técnica. A missão da delegação brasileira consistia em avaliar as condições gerais e selecionar as 91 viaturas que seriam transferidas ao Brasil. Paralelamente, uma segunda equipe, composta por oficiais e sargentos de Material Bélico, foi deslocada para o Fort Dix, em Nova Jersey, a fim de realizar o curso de manutenção e familiarização técnica com o novo modelo de carro de combate. Uma terceira equipe, formada por oficiais e sargentos de Cavalaria, participou do curso de guarnição e emprego operacional do M-60A3 TTS, tornando-se posteriormente instrutores e multiplicadores nos centros de formação nacionais. É relevante observar que, embora o contrato de aquisição dos carros de combate Leopard 1A1 junto à Krauss-Maffei tenha sido assinado antes da formalização do acordo de leasing com os Estados Unidos, os M-60A3 TTS foram os primeiros a chegar ao país, em fevereiro de 1997 — alguns meses antes do desembarque dos blindados alemães. Esse movimento foi interpretado como um gesto político do Departamento de Estado norte-americano, que buscava reafirmar sua influência sobre o governo brasileiro no campo da cooperação militar. Após a inspeção técnica de recebimento, as viaturas foram distribuídas entre unidades de Cavalaria e instrução: o 4º Regimento de Carros de Combate (RCC), sediado em Rosário do Sul (RS); o 5º RCC, em Rio Negro (PR); o Centro de Instrução de Blindados (CIBld) e a Escola de Material Bélico (EsMB), ambos no Rio de Janeiro. A incorporação dos M-60A3 TTS representou um salto tecnológico sem precedentes para a Arma Blindada brasileira. O modelo introduziu sistemas inéditos até então inexistentes na frota nacional, como o Tank Thermal Sight (TTS) — equipamento de visão noturna passiva e residual —, o tiro estabilizado e indireto, o telêmetro laser e o computador balístico de tiro M-21, que permitiam engajamentos de alta precisão em qualquer condição de luminosidade. Com sua blindagem mais robusta e o canhão M68 de 105 mm, o M-60A3 TTS foi classificado como carro de combate principal (Main Battle Tank – MBT), passando a integrar o núcleo das forças mecanizadas brasileiras. Contudo, a introdução do novo blindado também revelou limitações logísticas significativas: seu elevado peso bruto, superior ao dos modelos anteriormente em serviço, restringia sua mobilidade estratégica, especialmente em regiões onde a infraestrutura rodoviária e ferroviária nacional não havia sido dimensionada para suportar veículos dessa categoria.

Apesar dos desafios logísticos e operacionais que naturalmente acompanharam sua introdução, o M-60A3 TTS consolidou-se, ao longo dos anos, como um símbolo de modernização e de transição tecnológica no Exército Brasileiro. Sua chegada marcou a retomada da cooperação militar com os Estados Unidos, após quase duas décadas de afastamento, e estabeleceu um novo patamar de capacidade operacional para as unidades de carros de combate nacionais, ao incorporar sistemas de controle de fogo, sensores e miras térmicas até então inéditos em solo brasileiro. Embora se tratasse de um veículo de concepção complexa  e cuja frota apresentava problemas de padronização, com pequenas diferenças mecânicas e elétricas decorrentes dos programas de modernização realizados anteriormente nos Estados Unidos , o nível de operacionalidade do M-60A3 TTS no Brasil manteve-se consistentemente elevado. Esse desempenho deveu-se, em grande parte, ao empenho técnico e dedicação do Parque Regional de Manutenção da 5ª Região Militar (PqRMnt/5), sediado em Curitiba, que assumiu a difícil missão de garantir a sustentabilidade logística do sistema de armas. O PqRMnt/5, apoiado por equipes especializadas de manutenção e engenharia, obteve êxitos expressivos na nacionalização de componentes críticos, reduzindo a dependência de importações e assegurando a continuidade operacional dos blindados. Entre os itens nacionalizados destacaram-se filtros de bomba injetora, filtros primários de óleo e combustível, lubrificantes específicos, baterias de 150 Ah, bandagens da cinta de fricção e outros componentes vitais do sistema de propulsão e transmissão. Entretanto, com o avanço da tecnologia e o envelhecimento natural da frota, o Comando do Exército iniciou, a partir de 2006, um processo de reavaliação de seus meios blindados, buscando identificar alternativas capazes de substituir, a médio prazo, tanto os Leopard 1A1 quanto os M-60A3 TTS. Como resultado dessa análise, optou-se pela aquisição de mais de duzentas unidades usadas do modelo Leopard 1A5, também produzidas pela Krauss-Maffei, cuja incorporação começou em 2009. Essa nova etapa promoveu uma reorganização estrutural das forças blindadas, consolidando o Leopard 1A5 como o carro de combate principal (MBT) do Exército Brasileiro. Nesse contexto, decidiu-se pela desativação definitiva dos remanescentes Bernardini M-41C Caxias, ainda em operação junto ao 20º Regimento de Cavalaria Blindada (RCB), sediado em Campo Grande (MS) e subordinado ao Comando Militar do Oeste (CMO). Para substituir esses antigos veículos nacionais, o Exército determinou que o M-60A3 TTS passasse a equipar o 20º RCB, com trinta e duas viaturas transferidas para aquela unidade. O restante da frota foi encaminhado ao Parque Regional de Manutenção da 9ª Região Militar (PqRMnt/9), em Campo Grande, onde diversos carros foram desmontados para o aproveitamento de componentes, formando um importante estoque de suprimentos de 2ª classe. Três exemplares do M-60A3 TTS permaneceram em serviço junto ao Centro de Instrução de Blindados (CIBld), em Santa Maria (RS), empregados em atividades de formação e aperfeiçoamento de guarnições blindadas. Em operação junto ao 20º Regimento de Cavalaria Blindada, os M-60A3 TTS rapidamente demonstraram excelente desempenho e confiabilidade, representando um salto qualitativo notável quando comparados aos antigos M-41C Caxias. Seu emprego conferiu à unidade um expressivo ganho em poder de fogo, alcance e precisão de engajamento, além de proporcionar às guarnições um contato mais direto com tecnologias de ponta em controle de tiro e sensores.
Entre os marcos mais significativos dessa trajetória, destaca-se a Operação de Tiro em Roraima, realizada em 29 de setembro de 2015. Nessa ocasião, um M-60A3 TTS deslocou-se por mais de 9.000 km, desde Campo Grande (MS) até Boa Vista (RR), culminando em um exercício de tiro real na Serra do Tucano, município de Bonfim, próximo à fronteira com a Guiana. No Lavrado — terreno de vegetação similar ao cerrado , o blindado realizou sete disparos com o canhão de 105 mm, marcando um momento histórico: pela primeira vez, um carro de combate do Exército Brasileiro operou e efetuou disparos no Teatro de Operações da Amazônia. Ao final da década de 2010, apesar da reconhecida robustez e desempenho satisfatório em serviço, o M-60A3 TTS já evidenciava sinais inequívocos de obsolescência tecnológica. A defasagem em relação aos carros de combate contemporâneos suscitou diversos estudos e análises voltados à modernização ou à extensão da vida útil das unidades remanescentes. Entre as possibilidades inicialmente aventadas, destacavam-se propostas de atualização do sistema de controle de tiro (SCT), a substituição do sistema hidráulico de giro da torre por um elétrico, a modernização dos sistemas de intercomunicação e, ainda, a incorporação de um Gerenciador de Campo de Batalha (Battlefield Management System). Esses estudos foram acompanhados de análises comparativas internacionais, examinando programas de modernização realizados em países como Israel, Turquia e Taiwan, onde o M-60 ainda permanecia em serviço em versões modificadas. A intenção era avaliar a viabilidade técnica e econômica de soluções semelhantes no contexto nacional, privilegiando a participação da indústria brasileira de defesa.  As conclusões preliminares desses levantamentos seriam compiladas em um relatório oficial elaborado pelo Grupo de Tarefa (GT) encarregado da “Formulação Conceitual dos Meios Blindados do Exército Brasileiro”, documento posteriormente publicado no Boletim do Exército nº 26, de 28 de junho de 2019. Esse estudo reconhecia, de forma abrangente, que os principais carros de combate em operação no país  Leopard 1A5 e M-60A3 TTS apresentavam expressiva defasagem tecnológica, sobretudo no tocante à proteção balística, aos sistemas de armamento, à aquisição de alvos, aos sensores de observação, à direção de tiro e aos meios de comando e controle (C2). Diante dessas limitações e da restrição orçamentária persistente, somadas à necessidade de padronização dos meios blindados da Cavalaria, o Alto-Comando, decidiu não aplicar programas de modernização aos M-60A3 TTS. Em vez disso, estabeleceu-se que as viaturas ainda operacionais deveriam permanecer em serviço mediante manutenção de rotina, utilizando-se os recursos e componentes disponíveis, até que sua substituição definitiva fosse viabilizada no âmbito do Programa “Nova Couraça”, destinado ao desenvolvimento e à aquisição de um novo carro de combate principal (MBT) para o Exército Brasileiro. Atualmente, as últimas vinte e cinco viaturas M-60A3 TTS permanecem em operação junto ao 20º Regimento de Cavalaria Blindada (RCB), sediado em Campo Grande (MS), sob a estrutura do Comando Militar do Oeste (CMO). 

Em Escala.
Para representarmos o M-60A3 TTS do Exército Brasileiro empregado atualmente pelo 20º Regimento de Cavalaria Blindada (RCB), fizemos uso do excelente kit da Tamiya na escala 1/35, modelo este que apresenta um excelente nível de detalhamento fornecendo ainda um set extras de equipamentos, tripulação e munição para emprego. Utilizamos decais confeccionados pela  Eletric Products presentes no  set  "Forças Armadas do Brasil".
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o segundo padrão de pintura adotado pelo Exército Brasileiro, com este esquema tático de dois tons sendo adotado após o término do contrato de leasing dos M-60A3 TTS. Estes carros de combate foram recebidos em 1997 ostentando uma camuflagem tática em três tons empregada nas unidades do Exército dos Estados Unidos (US Army) baseados na Europa, salientando que por disposições previstas no contrato, estes carros não poderiam sofrer nenhuma alteração em seu padrão de pintura, incluindo a adoção de marcações nacionais de qualquer espécie.
Bibliografia :
- Blindados sob lagartas - Expedito Carlos S. Bastos www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/BSLMPI.pdf
- Blindados no Brasil – Um Longo e Árduo Aprendizado Vol II, por Expedito Carlos S. Bastos
- M60A3 TTS no Brasil – www.defesanet.com
- Viaturas do Exército Brasileiro - http://viaturasdoeb.blogspot.com.br/
- M-60 Patton - http://en.wikipedia.org/wiki/M60_Patton