Schneider - Cannet M897 (75 mm)

História e Desenvolvimento.
Em 1836, os irmãos Adolphe Schneider e Joseph‑Eugène Schneider , oriundos da região da Lorena, fundaram a empresa Schneider, Frères & Cie. na cidade de Le Creusot, localizada na região da Borgonha, na França. A nova sociedade industrial foi estruturada como uma comandita por ações e nasceu a partir da aquisição das forjas e fundições locais, que se encontravam em situação de falência. Essa operação contou com o apoio financeiro do banqueiro François‑Alexandre Seillière e de Louis Boigues, proprietário das Forges de Fourchambault. A escolha de Le Creusot para sediar o empreendimento revelou-se estratégica. A região dispunha de abundantes reservas de carvão mineral e minério de ferro em suas proximidades, recursos fundamentais para a atividade metalúrgica. Além disso, a presença do Canal du Centre proporcionava uma importante via de transporte para matérias-primas e produtos manufaturados, facilitando a integração da empresa com os principais centros econômicos franceses. Esse cenário favorável coincidiu com o avanço da Revolução Industrial na França e com a expansão das ferrovias, fatores que ampliaram significativamente as oportunidades para o desenvolvimento industrial. Embora não possuíssem formação técnica formal, os irmãos Schneider demonstraram notável visão empresarial e sólida capacidade de gestão financeira. Parte desse conhecimento foi adquirida por meio de estudos realizados no Conservatoire des Arts et Métiers, em Paris. Na condução da empresa, estabeleceu-se uma divisão clara de responsabilidades: Adolphe assumiu a direção administrativa e comercial, enquanto Eugène concentrou-se nos aspectos técnicos e operacionais da produção. Essa complementaridade de funções foi decisiva para o rápido crescimento da companhia em seus primeiros anos. A Schneider, Frères & Cie. surgiu com a ambição de modernizar a indústria metalúrgica francesa, incorporando avanços tecnológicos inspirados nas experiências britânicas, então líderes no setor. A partir de 1837, a empresa iniciou um  processo de modernização de suas instalações industriais, introduzindo altos-fornos alimentados a coque, fornos de pudlagem mecanizados e equipamentos de grande porte para forjamento pesado, como o marteau-pilon (martelo-pilão), desenvolvido pelo engenheiro François Bourdon. Um marco significativo dessa fase ocorreu em 1838, quando a empresa produziu a primeira locomotiva a vapor fabricada na França, denominada La Gironde. A máquina foi construída para a Compagnie du Chemin de Fer Paris–Versailles e representou um avanço importante para a indústria ferroviária francesa, até então fortemente dependente da tecnologia britânica. Esse feito consolidou a reputação da empresa e a colocou em competição direta com fabricantes do Reino Unido. Paralelamente à produção de locomotivas, a companhia expandiu suas atividades para a fabricação de trilhos ferroviários, pontes metálicas e estruturas destinadas a estações ferroviárias, atendendo à crescente demanda por infraestrutura ferroviária na França e em diversos países europeus. Entre seus clientes figuravam empresas e governos da Itália, Espanha e do Império Russo. Outro elemento fundamental para o sucesso da empresa foi a adoção de uma estratégia de integração vertical. A companhia passou a controlar diversas etapas do processo produtivo, desde a extração de matérias-primas até a fabricação de produtos finais. Para garantir o fornecimento contínuo de carvão e minério de ferro, foram adquiridas minas no bassin de Blanzy e jazidas na região da Nièvre e no vale da Dheune.

Ao mesmo tempo, a criação de oficinas mecânicas e de montagem em Le Creusot, apoiadas por escritórios internos de engenharia e projetos, permitiu à empresa desenvolver suas próprias máquinas-ferramentas e tecnologias industriais. Essa capacidade de inovação consolidou a Schneider como uma das empresas pioneiras da indústria pesada francesa, desempenhando papel central no processo de industrialização do país ao longo do século XIX. Em 1845, a trajetória da empresa sofreu um revés significativo com a morte acidental de Adolphe Schneider, vítima de um acidente a cavalo. A partir desse momento, seu irmão Joseph-Eugène Schneider assumiu integralmente a direção do empreendimento, promovendo também uma alteração na razão social da companhia, que passou a se chamar Schneider & Cie.. Apesar da perda de um de seus fundadores, Eugène demonstrou notável capacidade de liderança ao preservar a continuidade do crescimento industrial da empresa, ampliando suas atividades e consolidando sua crescente influência tanto no campo econômico quanto no político. Sob sua administração, a Schneider & Cie. transformou-se em um dos mais importantes conglomerados industriais da França ao longo do século XIX. A companhia diversificou progressivamente suas atividades, expandindo-se para setores estratégicos como a produção de armamentos, a construção naval e a engenharia pesada. Esse processo de diversificação ganhou impulso especialmente após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana (1870–1871). O conflito evidenciou a superioridade técnica da artilharia prussiana, cujos canhões de aço demonstraram desempenho superior no campo de batalha. Diante dessa constatação, o governo francês incentivou o fortalecimento da indústria nacional de armamentos, tarefa na qual a Schneider & Cie. desempenhou papel central. Atendendo a essa demanda estratégica, a empresa passou a investir intensamente na produção de canhões, placas de blindagem e novos tipos de ligas metálicas, entre elas o aço ao níquel, material que se revelou particularmente adequado para aplicações militares e navais. Paralelamente, a companhia expandiu sua atuação na construção naval, fabricando navios de guerra e componentes estruturais destinados a grandes estaleiros. Entre esses empreendimentos destacava-se o controle do estaleiro Forges et Chantiers de la Gironde, que permaneceu sob a esfera do grupo entre 1882 e 1927. No setor ferroviário, a Schneider & Cie. consolidou sua reputação como fabricante de locomotivas e equipamentos ferroviários, exportando seus produtos para diversos mercados internacionais. Entre esses destacava-se o Império Russo, onde a empresa participou do fornecimento de equipamentos e estruturas relacionados à construção da Ferrovia Transiberiana, uma das maiores obras de infraestrutura ferroviária do século XIX. O fortalecimento da capacidade industrial da companhia também se refletiu na modernização de seu parque fabril. Em 1876, a aquisição de um gigantesco marteau-pilon de 100 toneladas ampliou significativamente a capacidade da empresa para produzir peças metálicas de grande porte, como eixos de navios, componentes estruturais e tubos de canhões de artilharia pesada. No plano social, Eugène Schneider adotou em Le Creusot uma política de caráter paternalista voltada à organização da comunidade operária vinculada à empresa. Foram construídas moradias, escolas, hospitais e igrejas destinadas aos trabalhadores e suas famílias. No auge da expansão industrial do século XIX, a força de trabalho local chegou a cerca de dez mil operários. 
A influência da família Schneider não se limitou ao campo industrial. Joseph-Eugène Schneider exerceu destacada atuação política, tendo ocupado cargos como ministro da Agricultura e Comércio em 1851, deputado, prefeito de Le Creusot e presidente do Corps Législatif durante o Segundo Império Francês. Essa combinação de poder econômico e influência política transformou Le Creusot em um verdadeiro centro industrial dominado. Após a morte de Eugène Schneider, em 1875, a liderança da empresa passou para seu filho, Henri Schneider (1840–1898). Sob sua direção, a Schneider & Cie. deu continuidade ao processo de modernização tecnológica, adotando métodos avançados de produção siderúrgica, como os convertidores do Processo Bessemer e os fornos do Processo Siemens-Martin, que permitiam produzir aço em maior escala e com qualidade superior. Durante sua gestão, a empresa também intensificou a exportação de armamentos, beneficiando-se da legislação francesa de 1884, que autorizava a venda de material militar para o exterior. Entre os produtos de maior destaque estavam os canhões conhecidos como “Long Tom”, derivados do projeto brevet Canet Schneider, que foram adquiridos por diversos países e utilizados em conflitos internacionais. Um dos casos mais conhecidos foi o fornecimento dessas peças ao Transvaal, onde demonstraram elevada eficácia em combates contra forças britânicas, consolidando a reputação internacional da indústria armamentista francesa. Após a derrota francesa na Guerra Franco‑Prussiana, que evidenciou a superioridade tecnológica dos canhões de aço prussianos, a França iniciou um amplo esforço de modernização de seu aparato militar. Nesse contexto, a Schneider, Frères & Cie., sob a liderança de Henri Schneider  filho de Eugène identificou uma oportunidade estratégica ao direcionar parte significativa de seus investimentos para o setor de armamentos. A partir da década de 1870, a empresa, estabelecida em Le Creusot, passou a reorientar parte de suas atividades para o desenvolvimento e a fabricação de uma ampla variedade de canhões e morteiros. Esse processo marcou o início de sua consolidação como uma das principais fabricantes de artilharia da Europa. A iniciativa foi impulsionada tanto pela necessidade de fortalecer a defesa nacional quanto pelos avanços técnicos proporcionados pela metalurgia moderna e pela engenharia industrial em plena expansão durante a Revolução Industrial. A empresa, já amplamente reconhecida por sua experiência nos setores de siderurgia, ferrovias e construção naval, soube aproveitar sua robusta infraestrutura industrial para atender às demandas do Armée de Terre. A estratégia adotada por Henri refletia uma visão empresarial que buscava posicionar a companhia como um dos pilares da indústria de defesa francesa, em um período marcado pela intensificação das rivalidades internacionais e pela crescente industrialização da produção militar. Um passo decisivo nessa trajetória ocorreu em 1897, quando a Schneider & Cie. adquiriu as Forges et Chantiers de la Méditerranée, localizadas em Le Havre. Essa aquisição proporcionou à empresa acesso a uma equipe altamente qualificada de engenheiros e projetistas, bem como a tecnologias avançadas, especialmente no campo do desenvolvimento de sistemas de artilharia modernos. A integração do conhecimento técnico proveniente dessas instalações permitiu à Schneider & Cie. absorver rapidamente um valioso know-how especializado, reforçando sua posição entre os principais fabricantes de armamentos  no final do século XIX.

Entre os protagonistas desse período destacou-se o engenheiro Gustave Canet, anteriormente vinculado às Forges et Chantiers de la Méditerranée. Reconhecido internacionalmente por sua capacidade técnica e inventividade, Canet assumiu um papel central dentro da Schneider & Cie., atuando inicialmente como diretor de artilharia em Le Creusot e, posteriormente, como diretor honorário da divisão de artilharia. Sob sua orientação, a empresa desenvolveu a notável família de canhões Canet-Schneider, produzida em diversos calibres e destinada tanto a aplicações terrestres quanto navais. Esses sistemas de artilharia combinavam avanços metalúrgicos como o emprego de aços de alta resistência com soluções técnicas inovadoras no projeto dos tubos e mecanismos de disparo, resultando em peças caracterizadas por elevada precisão, robustez estrutural e confiabilidade operacional. Dessa forma, a Schneider & Cie. consolidou-se como um dos centros mais importantes de desenvolvimento de artilharia pesada na Europa.  A maior contribuição da Schneider & Cie. para a evolução da artilharia moderna ocorreu na transição do século XIX para o século XX, com o desenvolvimento do canhão Schneider-Canet de 75 mm. Apresentado oficialmente em 1906, esse sistema representou um marco tecnológico na artilharia de campanha ao incorporar soluções inovadoras que ampliaram significativamente a cadência de tiro, a precisão e a eficiência operacional das peças de artilharia de tiro rápido. Projetado pelo engenheiro francês Gustave Canet, o canhão foi inteiramente construído em aço de alta resistência e dotado de tubo estriado com carregamento pela culatra, características que asseguravam maior robustez estrutural e rapidez nas operações de tiro. Contudo, o elemento mais revolucionário do projeto residia em seu sofisticado sistema de absorção de recuo, composto por um freio hidráulico associado a um recuperador hidropneumático. Esse mecanismo permitia que a peça retornasse automaticamente à posição de disparo após cada tiro, eliminando a necessidade de reposicionamento manual do armamento. Graças a essa inovação, tornou-se possível operar a peça em regime de tiro rápido, alcançando uma cadência média de 10 a 20 disparos por minuto, podendo atingir até 30 disparos quando servida por uma guarnição altamente treinada. Em comparação, sistemas anteriores de reparo fixo  como o Canet M-890 de 100 mm  exigiam reposicionamento completo após cada disparo, limitando severamente sua cadência de tiro e reduzindo sua eficiência em combate. O sistema de recuo do Schneider-Canet de 75 mm utilizava mecanismos hidropneumáticos capazes de absorver a energia liberada pelo disparo. Durante o recuo, o tubo e o seu trenó deslizavam sobre um berço construído em aço cromo-níquel, enquanto o sistema hidráulico dissipava parte da energia gerada. Em seguida, o recuperador hidropneumático restaurava automaticamente o conjunto à posição original de tiro. Essa solução técnica mantinha a peça alinhada com o alvo, permitindo disparos sucessivos sem necessidade de reajustes na direção do tiro. Outro aspecto relevante era a disposição dos dispositivos de pontaria, montados diretamente no berço da peça. Dessa forma, os sistemas de mira permaneciam alinhados mesmo durante o movimento de recuo, facilitando correções rápidas de direção e elevação e contribuindo para maior precisão e eficiência no campo de batalha. Do ponto de vista construtivo, o canhão possuía um tubo de aço-níquel forjado e temperado, composto por um tubo interno reforçado por duas mangas e uma abraçadeira externa. A alma do cano apresentava 30 estrias progressivas, projetadas para estabilizar o projétil durante o disparo e aumentar sua velocidade inicial. 
O sistema de fechamento da culatra empregava um mecanismo de parafuso interrompido, formado por dois setores lisos e dois roscados, que permitia abertura e fechamento rápidos, além da ejeção automática da cápsula após o disparo. No que se refere ao armamento, o Schneider-Canet de 75 mm podia empregar três tipos principais de munição, todos com aproximadamente 6,5 kg: granadas comuns de fragmentação, granadas de estilhaços destinadas ao combate contra tropas em campo aberto e granadas de alto explosivo, particularmente eficazes contra fortificações e posições defensivas. Essas características tornaram o sistema significativamente mais leve, preciso e eficiente em comparação com peças contemporâneas produzidas por outros fabricantes europeus, incluindo modelos desenvolvidos pela Saint-Chamond e pela Krupp. Reconhecendo suas vantagens operacionais, o Exército Francês adotou rapidamente o novo sistema e firmou, em 1906, um contrato de aquisição em grande escala destinado a substituir e complementar peças consideradas obsoletas, como o Canet M-890 de 100 mm. As primeiras unidades começaram a ser entregues no mesmo ano, marcando o início de um processo de modernização da artilharia francesa. O sucesso do canhão não se limitou à França: sua reputação atraiu contratos de exportação para diversos países, com destaque para a Espanha, que se tornou um dos maiores usuários do modelo na primeira década do século XX. A partir de 1909, a Espanha passou a produzir o canhão e suas munições sob licença, consolidando a influência da Schneider & Cie. no mercado internacional. O Schneider-Canet de 75 mm foi amplamente reconhecido como o ápice da tecnologia de artilharia de campanha de tiro rápido em sua época. Sua superioridade técnica, aliada à capacidade de produção em escala da Schneider & Cie., garantiu sua adoção em diversos exércitos e sua utilização em conflitos do início do século XX, incluindo a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), onde demonstrou eficácia em operações de campo. Seu baixo peso total, acabaria o tornando ideal para o emprego como canhão de montanha, até então a movimentação e operação de peças de artilharia em regiões montanhosas representava desde sempre grandes dificuldades aos homens da arma de artilharia. As peças de grande calibre, habitualmente mais eficazes, eram pesadas demais para poderem tracionadas por animais, limitando assim o poder ofensivo neste tipo de campo de batalha. Assim os primeiros exercícios com os canhões Schneider Canner 75 mm, teriam início em regiões de relevo irregular a partir de meados do ano de 1909, e seus promissores resultados levariam a imediata aprovação e consequente celebração de grandes contratos e produção. Sua incorporação pelo Exército Frances (Armée de Terre), levaria a gradual substituição dos canhões Schneider 65 mm modelo 1906.  O modelo logo conquistaria diversos contratos de exportação, com seu batismo de fogo ocorrendo em 1909, sendo empregados pelo Exército Espanhol (Ejército de Tierra) durante a Guerra Melilla deflagrada entre os meses de julho e dezembro. Este seria o primeiro registro de uma longa carreira de empregos em conflitos militares no século XX, com destaque na Primeira Guerra Mundial, Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial e outros conflitos regionais de importância relevante. Os canhões Schneider Cannet 75 mm além da Espanha, seriam exportados para o Brasil, Polônia, Grécia, Brasil, Paraguai, Iugoslávia e Estados Unidos, com muitos destes se mantendo em emprego até meados da década de 1960. 

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A artilharia brasileira, profundamente enraizada nas experiências militares do período colonial e consolidada após a independência do país, proclamada em Independência do Brasil, constitui um dos pilares mais tradicionais da história militar nacional. Ao longo de sua trajetória, essa arma destacou-se não apenas pelo papel desempenhado em diversos conflitos, mas também pela constante busca por aperfeiçoamento técnico, disciplina e inovação, características que contribuíram para moldar a identidade profissional dos artilheiros brasileiros. As origens da artilharia no território brasileiro remontam ao período colonial, quando forças luso-brasileiras se mobilizaram em enfrentamentos decisivos contra invasores estrangeiros. Entre esses episódios, destacam-se as Batalhas dos Guararapes, travadas em Pernambuco contra as tropas da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais. Embora o emprego da artilharia naquele momento ainda fosse limitado e baseado em meios relativamente rudimentares, os combates revelaram a capacidade de organização e resistência das forças locais, consolidando uma tradição militar que se desenvolveria ao longo dos séculos seguintes. Após a independência, a artilharia de campanha passou gradualmente por um processo de institucionalização no âmbito do Exército Brasileiro. Durante o período do Império do Brasil, essa arma adquiriu prestígio particular devido à sua complexidade técnica. Diferentemente da infantaria e da cavalaria, cujos oficiais podiam ingressar na carreira com formação mais curta, a artilharia exigia preparação completa na Academia Militar do Império. Essa formação abrangia estudos aprofundados de matemática, balística, engenharia e tática, refletindo o elevado grau de especialização necessário para o manejo eficiente das peças de artilharia. Nesse ambiente acadêmico e militar, formou-se uma geração de oficiais altamente qualificados, capazes de conduzir operações complexas e de adaptar-se às rápidas transformações tecnológicas que caracterizaram o século XIX. O domínio de cálculos balísticos, a precisão na pontaria e a coordenação das manobras de fogo tornaram-se elementos centrais da cultura profissional dos artilheiros, contribuindo para o desenvolvimento de uma tradição de excelência que se perpetuaria nas décadas seguinte. O momento de maior projeção da artilharia brasileira nesse período ocorreu durante a Guerra da Tríplice Aliança, conflito de grandes proporções travado contra o Paraguai. Nesse contexto, a artilharia  destacou-se particularmente na Batalha de Tuiuti, considerada a maior batalha campal da história da América do Sul. Sob o comando do oficial de origem francesa Emílio Luís Mallet, naturalizado brasileiro, as baterias de artilharia desempenharam papel decisivo na contenção dos ataques paraguaios. A organização das posições defensivas, aliada ao emprego eficiente das peças de artilharia, permitiu às forças brasileiras estabelecer um sistema defensivo eficaz, reforçado por um fosso tático que dificultava o avanço das tropas inimigas. A rapidez e a precisão dos disparos renderam à artilharia brasileira o apelido de “Artilharia Revólver”, uma metáfora que evocava a elevada cadência de tiro e a eficácia de seu emprego em combate. Nesse episódio, tornou-se célebre a frase atribuída a Mallet  “Eles que venham! Por aqui não passam!”  expressão que simbolizou a determinação das forças brasileiras naquele momento crítico da campanha. A liderança de Mallet consolidou sua reputação como um dos mais notáveis comandantes da história militar brasileira. Nascido na França em 1801, ele construiu uma carreira de destaque no Brasil Sua atuação contribuiu decisivamente para consolidar o prestígio da artilharia dentro das Forças Armadas brasileiras. 

No período posterior ao conflito, a modernização do material de artilharia tornou-se uma prioridade estratégica para o Exército. Nesse processo, destacou-se a influência da indústria alemã, especialmente da empresa Friedrich Krupp AG, sediada em Essen. A partir de 1872, o Brasil iniciou a aquisição de modernos canhões de campanha de 75 mm fabricados pela companhia, destinados principalmente aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Essas peças representavam um significativo avanço tecnológico em relação aos sistemas anteriormente utilizados, como os canhões franceses do sistema La Hitte. A superioridade dos equipamentos alemães era evidente em diversos aspectos, incluindo alcance, robustez estrutural e confiabilidade mecânica. Na década de 1880, o processo de modernização prosseguiu com a aquisição de novas peças de artilharia, entre elas o modelo Krupp 75 mm Modelo 1895. A introdução desses sistemas foi fortemente apoiada por Gastão de Orléans, Conde d’Eu, comandante-geral da artilharia do Exército Imperial e presidente da Comissão de Melhoramento do Material do Exército. Genro do imperador Dom Pedro II, o Conde d’Eu desempenhou papel relevante como conselheiro militar, defendendo a adoção de equipamentos mais modernos para fortalecer a capacidade operacional. Os canhões Krupp destacavam-se por seu alcance superior, podendo atingir alvos a distâncias de até aproximadamente 12.000 metros, uma melhoria significativa em relação aos modelos anteriores. Sua introdução marcou um importante passo no processo de modernização das forças terrestres brasileiras, contribuindo para recuperar parte do potencial militar após o desgaste provocado pela longa campanha no Paraguai. De forma irônica, parte do material de artilharia cuja aquisição havia sido recomendada pelo Conde d’Eu viria a ser empregada, alguns anos depois, contra forças monarquistas durante a Guerra de Canudos. Nesse conflito travado no sertão da Bahia, os canhões Krupp demonstraram sua eficácia em condições operacionais difíceis, marcadas pelo terreno adverso e pelas limitações logísticas da campanha. No período posterior ao conflito, a modernização do material de artilharia tornou-se uma prioridade estratégica para o Exército. Nesse processo, destacou-se a influência da indústria alemã, especialmente da empresa Friedrich Krupp AG, sediada em Essen. A partir de 1872, o Brasil iniciou a aquisição de modernos canhões de campanha de 75 mm fabricados pela companhia, destinados principalmente aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Essas peças representavam um significativo avanço tecnológico em relação aos sistemas anteriormente utilizados, como os canhões franceses do sistema La Hitte. A superioridade dos equipamentos alemães era evidente em diversos aspectos, incluindo alcance, robustez estrutural e confiabilidade mecânica. Na década de 1880, o processo de modernização prosseguiu com a aquisição de novas peças de artilharia da Krupp, entre elas o modelo Krupp 75 mm Modelo 1895.  A introdução desses sistemas foi fortemente apoiada por Gastão de Orléans, Conde d’Eu, comandante-geral da artilharia do Exército Imperial e presidente da Comissão de Melhoramento do Material do Exército.  Ele desempenhou papel relevante como conselheiro militar, defendendo a adoção de equipamentos mais modernos para fortalecer a capacidade operacional do Exército.  
De forma irônica, parte do material de artilharia cuja aquisição havia sido recomendada pelo Conde d’Eu viria a ser empregada, alguns anos depois, contra forças monarquistas durante a Guerra de Canudos. Nesse conflito travado no sertão da Bahia, os canhões Krupp demonstraram sua eficácia em condições operacionais difíceis, marcadas pelo terreno adverso e pelas limitações logísticas da campanha.No início do século XX, o Exército Brasileiro enfrentava desafios significativos decorrentes da obsolescência de seus armamentos e doutrinas militares. As limitações técnicas haviam sido expostas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), e confirmadas na Campanha de Canudos (1896-1897), que revelou a inadequação do arsenal brasileiro frente às demandas de combates modernos.  Este cenário refletia não apenas a ausência de uma indústria bélica nacional, mas também a dependência de importações e a necessidade urgente de modernização para alinhar o Brasil às potências militares da época. A transformação do Exército Brasileiro ganhou impulso com a liderança de figuras visionárias, como os Marechais João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Francisco de Paula Argolo e, sobretudo, Hermes da Fonseca, que, com o apoio do Barão do Rio Branco, então Ministro das Relações Exteriores, impulsionaram a chamada Reforma Hermes (1900-1908). Este processo de reestruturação, conduzido durante o governo de Rodrigues Alves e intensificado sob a presidência de Afonso Pena, buscava reposicionar o Exército como uma força moderna, capaz de responder aos desafios estratégicos do novo século.  Inspirado pelo modelo do Exército Prussiano, particularmente pelo sistema de Estado-Maior,  Hermes da Fonseca defendia a necessidade de equipar o Brasil com armamentos de ponta e adotar uma organização militar baseada na disciplina, na eficiência e na inovação tecnológica.  Reconhecendo a inexistência de uma indústria bélica nacional capaz de suprir as necessidades do Exército, Hermes da Fonseca organizou, em agosto de 1908, uma missão militar à Europa, com destino à Alemanha e à França, dois dos principais centros de tecnologia militar da época. A missão, composta por oficiais de alto escalão, tinha como objetivo identificar fornecedores de armamentos modernos e estabelecer parcerias para a transferência de conhecimentos técnicos e profissionais, essenciais para a capacitação do Exército Brasileiro. Os resultados dessa missão foram expressivos, culminando na aquisição de um vasto arsenal de equipamentos destinados a renovar as capacidades da infantaria, cavalaria e artilharia. Para a infantaria, foram adquiridos 400.000 fuzis Mauser de calibre 7 mm, fabricados na Alemanha, reconhecidos por sua precisão e confiabilidade. A cavalaria foi equipada com 10.000 lanças Ehrhardt, 20.000 espadas e 10.000 mosquetões, adaptados às táticas de combate montado. A Marinha do Brasil também foi beneficiada com a aquisição de peças de artilharia de costa Schneider-Canet C-50 1902 de 150 mm, conhecidas pelo sistema de tiro rápido, que combinava carregamento pela culatra e mecanismos de recuo hidropneumático. Essas peças foram instaladas em fortificações estratégicas, como a Fortaleza de Copacabana, no Rio de Janeiro, e em seis conjuntos destinados às defesas costeiras de Santos, no litoral de São Paulo.  Em Santos, os canhões Schneider-Canet operavam em conjunto com quatro obuses Krupp 280 mm C-16 Modelo 1912. 

Embora as aquisições de 1908 representassem um marco na modernização militar, os canhões Schneider-Canet já integravam o arsenal brasileiro desde o final do século XIX. Durante a década de 1890, o Exército Brasileiro havia incorporado baterias equipadas com os canhões Canet M-890 de 100 mm e Canet M-897 de 75 mm, fabricados pela Schneider & Cie. em Le Creusot, França. Esses modelos, embora menos avançados que o Schneider-Canet de 75 mm introduzido em 1906, já demonstravam a qualidade técnica da empresa francesa, conhecida por sua liderança em artilharia de tiro rápido. A presença desses canhões no Brasil evidenciava a confiança do Exército nas tecnologias da Schneider & Cie., reforçada pelas novas aquisições no início do século XX. Durante os anos vindouros a adoção destas novas peças de artilharia de origem alemã e francesa em muito iram modificar o patamar operacional brasileiro, sendo postos a prova em uma série de eventos de revoltas ou insurreições regionais, como a “Guerra do Contestado” ocorrida nos estados do Paraná e Santa Catarina durante o ano de 1912.  Apesar destes significativos avanços, o eclodir da Primeira Guerra Mundial em 1914, traria grandes avanços não só em tecnologia de armas, mas também na doutrina militar, elevando os patamares da guerra moderna. Esta nova realidade rapidamente relegaria o Exército Brasileiro a patamar operacional inferior ao vigente a partir do ano de 1918, suscitando assim a necessidade de um novo ciclo de atualização.  As preocupações em torno da obsolescência doutrinariam e de material das Forças Armadas Brasileiras, eram fundamentadas principalmente pelo rápido desenvolvimento econômico e militar da Argentina, que passava a representar a principal hipotética ameaça ao pais. Assim com o objetivo de reverter este cenário crítico a partir do segundo semestre de 1918, o governo brasileiro passaria a buscar alternativas para a implementação deste novo ciclo de desenvolvimento militar. Neste intuito seriam conduzidos diálogos junto ao governo francês a fim de estudar a contratação de uma assessoria militar que pudesse conduzir este processo. Estas negociações já em um estágio avançado ocorreriam em Paris, entre o adido militar brasileiro na França, coronel Malan d’Angrogne, e o ministro da Guerra francês, Georges Clemenceau. Paralelamente seria enviado ao Brasil o general Maurice Gamelin, em uma missão de levantamento de perspectivas sobre o real cenário das Forças Armadas Brasileiras, visando assim melhor embasar a proposta francesa.  O contrato seria assinado poucos meses depois na capital francesa, sendo ratificado logo em seguida no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, criando assim oficialmente a “Missão Militar Francesa”. Os termos do contrato estipulavam que oficiais franceses comandariam durante quatro anos as escolas de Estado-Maior (EEM), de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), de Intendência e Veterinária. Em contrapartida o Brasil se comprometeria a privilegiar a indústria francesa em seus processos de aquisição de armas e equipamentos militares, desde que as condições comerciais e prazos de entrega fossem no mínimo equivalentes as propostas apresentadas por empresa de outros países. Para o Brasil, este contrato representaria um grande passo na direção da profissionalização e modernização de suas forças armadas, novamente equalizando a balança militar na América do Sul. Este processo começaria a ser consolidado a partir de meados de 1921, com a adoção de novos regulamentos destinados à Direção e Emprego das Grandes Unidades, ao Exercício e Emprego da Artilharia e ao Serviço de Estado-Maior em Campanha. 
As primeiras percepções levantadas pela “Missão Militar Francesa” apontavam a necessidade modernização de uma série equipamento e armas. Uma concorrência internacional seria aberta e atendendo ao preceito estabelecido anteriormente, as propostas apresentadas pela indústria militar francesa seriam preferenciadas. Em termos da arma de artilharia de campanha seriam adquiridos um grande número de canhões, incluindo vários modelos fabricados pela empresa Schneider - Creusot Fréres & Cie, entre estes os modelos C-50 1902 de 150 mm (emprego terrestre e ferroviário), Schneider 75/28 modelo 1906 de 75 mm e C-18 - 6 Modelo 1919 de 75 mm (canhão de montanha), com dois estes últimos modelos, encomendados e recebidos durante o ano de 1923. Para o atendimento as necessidades do Exército Brasileiro que na época era em sua maioria hipomóvel, os canhões de campanha Schneider-Canet seriam recebidos com rodas de madeira, sendo destinados então a equipar as a equipar as unidades de cavalaria de fronteira. Seguindo os padrões franceses as unidades de cavalaria seriam compostas por baterias com quatro canhões de 75 mm, quatro carros de munição (cada arma podia carregar 38 munições na carroça de tração, sendo complementadas com mais 60 unidades no carro de munição), um carro de apoio e por fim um carro forja, com a função de assegurar a manutenção das peças em campanha e os reparos nos carros de tração e de serviço. Estas baterias seriam operadas por um efetivo de 3 oficiais, 10 sargentos e 121 praças, demandando trinta e nove cavalos e noventa e seis muares para a tração das peças e do pessoal. Os canhões Schneider-Canet de 75 mm foram amplamente utilizados em quase todos os grandes conflitos internos do Brasil no início do século XX, desempenhando papéis cruciais em momentos de instabilidade política e social.  Durante a Revolução de 1930, essas peças de artilharia foram empregadas por forças governistas e oposicionistas, demonstrando sua confiabilidade em operações de campanha. Na Revolução Constitucionalista de 1932, estes canhoes foram utilizados por ambos os lados  A presença dessas armas em combates urbanos e rurais, especialmente nas frentes de batalha no interior de São Paulo, evidenciou sua importância estratégica, com sua mobilidade e precisão. Um dos usos mais peculiares dos canhões Schneider-Canet de 75 mm (e também dos Krupp) ocorreu neste periodo, quando foram integrados como armamento orgânico em seis trens blindados, denominados TB-1 a TB-6. Estes foram construídos nas Oficinas Ferroviárias de São Paulo, sob a supervisão técnica Escola Politécnica Paulista.  Cada trem blindado era composto por uma locomotiva posicionada entre dois vagões, com uma prancha à frente para inspecionar a integridade dos trilhos, uma precaução contra sabotagens. No vagão frontal, uma abertura central abrigava um canhão de 75 mm, operado internamente e ocupando toda a parte dianteira do carro. Essa configuração permitia  disparar diretamente contra alvos à frente, oferecendo proteção às tropas e apoio de fogo em operações ao longo das ferrovias, que eram cruciais para a logística e mobilidade. Com o início da Segunda Guerra Mundial , os canhões Schneider-Canet de 75 mm continuaram a desempenhar um papel relevante.  A partir de 1954, com a crescente motorização, estes canhões  passaram por um processo de modernização nos Arsenais de Guerra do Rio de Janeiro (AGRJ) e de General Câmara (AGRS).  As rodas de madeira, inadequadas para o transporte em veículos motorizados, foram substituídas por rodas com pneus. Essa atualização permitiu que os canhões permanecessem em serviço operacional até meados da década de 1960, quando foram gradualmente substituídos por armamentos mais modernos, como os obuses M-101 de 105 mm.

Em Escala.
Para recriar o canhão Schneider-Canet 75 mm M-897 em escala, a única opção disponível no mercado na escala 1/35 é o kit produzido pela empresa alemã Tom Modellbau. Apesar de ser um kit mais antigo, ele oferece um nível de detalhamento e acabamento aceitável para os padrões da escala 1/35. Na montagem do modelo, optou-se por não utilizar decais, uma escolha que reflete a intenção de manter a representação focada na autenticidade estrutural e estética do canhão, sem a necessidade de marcações adicionais. 
O esquema de pintura aplicado aos canhões Schneider-Canet de 75 mm foi inspirado no padrão francês da década de 1920,  durante a Revolução Constitucionalista de 1932, as forças paulistas adaptaram o padrão de pintura dos canhões Schneider-Canet e Krupp de 75 mm para atender às demandas táticas do conflito. As peças  preservadas no Museu Histórico do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, refletem o esquema de cores adotado pelo Exército Brasileiro na década de 1920.

Bibliografia: 
- Schneider Frères et Compagnie - https://www.lesechos.fr
- Schneider-Canet - https://pt.wikipedia.org/wiki/Schneider-Canet
- Missão Militar Francesa por Rodrigo N. Araujo -  https://cpdoc.fgv.br/
- Arquivos do Museu Militar de Conde de Linhares – Rio de Janeiro
- Canhão de Montanha Schneider 75mm - http://www.cporpa.eb.mil.br/

Spad S. Modelo XIII

História e Desenvolvimento.
A Société Pour L'Aviation et ses Dérivés (SPAD) figura entre as mais emblemáticas fabricantes da história da aviação, tendo desempenhado papel decisivo no desenvolvimento da aviação militar durante a Primeira Guerra Mundial. Suas origens remontam a 1911, quando o empresário francês Armand Deperdussin fundou a empresa Aéroplanes Deperdussin, posteriormente reorganizada, em 1912, como Société de Production des Aéroplanes Deperdussin, estabelecida em Bétheny, nas proximidades de Reims. A trajetória de Deperdussin foi singular: nascido em 1867, iniciou sua vida profissional como vendedor ambulante e cantor de cabaré em Liège e Bruxelas, acumulando posteriormente fortuna no comércio de seda. Esse capital permitiu-lhe investir em sua crescente paixão pela aviação, despertada em 1908. Em 1909, estabeleceu uma unidade fabril em Laon, inicialmente em parceria com o designer Georges de Feure, produzindo protótipos pioneiros como os modelos De Feure-Deperdussin 1 e 2. A consolidação técnica da empresa ocorreu com a contratação, em 1910, do engenheiro Louis Béchereau como diretor técnico. Sob sua liderança, a Deperdussin destacou-se pela introdução de soluções inovadoras, especialmente no desenvolvimento de monoplanos com fuselagem monocoque em madeira laminada, que combinavam leveza estrutural e elevada resistência. Modelos como o Deperdussin Type A e o Deperdussin TT obtiveram expressivo sucesso comercial, inclusive no mercado internacional, com produção licenciada na Rússia e no Reino Unido. A expansão industrial prosseguiu em 1911 com a inauguração de uma nova fábrica em Grenelle, nos arredores de Paris, dedicada à produção de aeronaves e hidroaviões, além da operação de escolas de pilotagem. Paralelamente, a empresa conquistou notoriedade internacional por meio de suas aeronaves de competição, obtendo vitórias em eventos de prestígio como a Coupe Gordon Bennett (1912 e 1913) e a Schneider Trophy (1913), consolidando sua reputação como referência em inovação aeronáutica. Entretanto, esse ciclo de sucesso foi abruptamente interrompido em 1913, quando Armand Deperdussin foi preso sob acusações de fraude fiscal e financeira. O empresário teria utilizado mecanismos fraudulentos, incluindo a emissão de recibos falsos de seu negócio de seda, para obter empréstimos destinados a financiar tanto suas atividades industriais quanto um estilo de vida dispendioso e o patrocínio de competições aéreas. Após um prolongado processo judicial, foi condenado em 1917 a cinco anos de prisão, sendo, contudo, libertado no mesmo ano em decorrência de uma anistia concedida a réus primários. O escândalo teve consequências devastadoras, não apenas para seu fundador, mas também para a própria empresa, que entrou em colapso financeiro e teve suas operações paralisadas. A reputação de Deperdussin foi irremediavelmente comprometida, levando-o a um progressivo isolamento social e à ruína pessoal. Em 1924, em condições de extrema pobreza, sua trajetória teve um desfecho trágico. Apesar desse colapso, a base técnica e industrial estabelecida pela Deperdussin seria posteriormente reorganizada, dando origem à SPAD, que viria a se tornar um dos principais pilares da aviação militar francesa durante a Primeira Guerra Mundial, perpetuando o legado tecnológico iniciado por seus fundadores.

Nesse contexto de crise, o potencial tecnológico da antiga Aéroplanes Deperdussin despertou o interesse de diversos grupos industriais franceses. Em 1913, um consórcio liderado por Louis Blériot  notabilizado por realizar a histórica travessia do Canal da Mancha em 1909  adquiriu os ativos da empresa falida. A reorganização resultou na criação da Société Pour L'Aviation et ses Dérivés (SPAD), mantendo-se o acrônimo original, reinterpretado como “espace” na língua artificial volapük, por sugestão de Alfred LeBlanc. Com a transferência da sede para Suresnes, nas proximidades de Paris, e a permanência de Louis Béchereau na chefia de projetos, a empresa encontrava-se estruturada para enfrentar as crescentes demandas impostas pela Primeira Guerra Mundial. Os primeiros projetos desenvolvidos sob a nova administração refletiram o caráter experimental da aviação naquele período. A série SPAD S.A.  abrangendo os modelos S.A.1, S.A.2, S.A.3 e S.A.4  consistia em biplanos de dois lugares com configuração pouco convencional: o piloto era posicionado atrás das asas, enquanto o observador-artilheiro ocupava uma nacele frontal, à frente da hélice, montada sobre o trem de pouso. Embora essa solução buscasse maximizar o campo de tiro, comprometia significativamente a visibilidade e a estabilidade da aeronave. Apesar de pequenas encomendas  com o S.A.2 empregado pela aviação francesa e o S.A.4 pelas forças da Rússia  a série rapidamente se tornou obsoleta diante da introdução de aeronaves mais avançadas, como o Nieuport 11, e do aperfeiçoamento dos mecanismos de sincronização de metralhadoras. O desempenho das aeronaves da época estava intimamente ligado à evolução dos motores aeronáuticos. Nesse cenário, destacou-se o engenheiro suíço Marc Birkigt, da Hispano-Suiza, responsável pelo desenvolvimento do motor V8 Hispano-Suiza 8A. Este propulsor, relativamente leve, entregava inicialmente 140 cv a 1.400 rpm em 1915, sendo posteriormente aprimorado para 150 cv. Reconhecendo seu potencial, o governo francês determinou sua produção em larga escala e incentivou o desenvolvimento de caças capazes de explorar plenamente suas capacidades. Em resposta, Louis Béchereau projetou o SPAD V, um caça monoplace mais compacto e ágil que os modelos anteriores, concebido especificamente para tirar proveito do novo motor. Este protótipo marcou uma inflexão no desenvolvimento da empresa, estabelecendo as bases para uma nova geração de aeronaves de combate. A evolução desse projeto culminou no SPAD VII, cujo primeiro voo ocorreu em abril de 1916. Designado SPAD VII C.1  indicando sua configuração como caça monoplace , tratava-se de um biplano de baía única, com reforços estruturais intermediários destinados a reduzir vibrações e arrasto aerodinâmico. Sua fuselagem, construída em madeira revestida com tecido e chapas metálicas na seção frontal, combinava robustez e funcionalidade. Equipado com uma metralhadora sincronizada Vickers calibre .303 (7,7 mm), o modelo proporcionava uma plataforma de tiro estável e eficaz. O protótipo inicial apresentava um grande spinner na hélice, posteriormente eliminado nas versões de produção, enquanto o controle dos ailerons utilizava um sistema de hastes (pushrod) com bellcranks expostos  solução típica da engenharia aeronáutica da época.
Os testes de voo do SPAD VII evidenciaram um desempenho notável para a época, com velocidade máxima de aproximadamente 192 km/h e razão de subida de 2.000 metros em cerca de 4,5 minutos, além de excelente capacidade de mergulho. Essas características conferiam aos pilotos aliados significativa vantagem tática, permitindo-lhes escolher o momento de engajar ou romper o combate. Em contrapartida, sua manobrabilidade era inferior à de caças mais leves, como o Nieuport 17. Em 10 de maio de 1916, foi firmado um contrato inicial para 268 unidades, refletindo a urgência em introduzir o novo caça em serviço. Contudo, problemas iniciais  especialmente relacionados ao motor e ao sistema de sincronização do armamento provocaram atrasos nas entregas. Nesse período, a guerra aérea na Frente Ocidental evoluía rapidamente. Caças alemães como o Fokker E.III e o Albatros D.I haviam estabelecido uma superioridade temporária, impondo desafios significativos às forças aliadas. Embora aeronaves francesas como o Nieuport 11 apresentassem elevada agilidade, careciam da robustez estrutural exigida pelas novas táticas de combate aéreo, que privilegiavam velocidade, resistência e capacidade de mergulho. Foi nesse contexto que o SPAD VII, derivado do protótipo SPAD V e equipado com o motor Hispano-Suiza 8A de 150 cv, foi concebido para oferecer uma plataforma de tiro estável e estruturalmente resistente, adequada ao emprego de metralhadoras sincronizadas. Apesar dessas qualidades, os problemas iniciais de produção  incluindo falhas no sistema de arrefecimento do motor e inconsistências na sincronização da metralhadora Vickers calibre .303 (7,7 mm)  retardaram sua introdução operacional, limitando a chegada das primeiras unidades ao front apenas no final de 1916. O batismo de fogo do SPAD VII ocorreu no outono de 1916, quando passou a equipar esquadrilhas francesas na Frente Ocidental, particularmente nas regiões do Somme e de Verdun, cenários de intensos combates aéreos. A prestigiada Escadrille SPA 3 (Escadrille des Cigognes) foi uma das primeiras unidades a operá-lo, contando entre seus pilotos com o célebre ás Georges Guynemer. As primeiras missões envolveram patrulhas ofensivas e escolta de aeronaves de reconhecimento e bombardeio, com o objetivo de contestar a supremacia aérea alemã. Durante a Batalha do Somme, em setembro de 1916, o SPAD VII enfrentou caças alemães mais avançados, como o Albatros D.II, que começavam a entrar em serviço. Entretanto, essa estreia operacional não ocorreu sem dificuldades. As primeiras unidades sofreram com falhas mecânicas recorrentes, especialmente no sistema de arrefecimento do motor e na sincronização do armamento, que ocasionalmente resultava em disparos que atingiam a própria hélice. Tais problemas foram progressivamente corrigidos por meio de ajustes em campo e revisões técnicas. Além disso, pilotos habituados à elevada manobrabilidade do Nieuport 17 demonstraram resistência inicial ao novo caça, cuja doutrina de emprego exigia uma mudança tática significativa privilegiando ataques rápidos, aproveitamento da velocidade e retirada estratégica  em detrimento de combates giratórios mais tradicionais. Essa adaptação, contudo, revelou-se fundamental para explorar plenamente as vantagens do SPAD VII e estabelecer uma nova abordagem ao combate aéreo aliado.

Com o objetivo de superar as limitações identificadas nos modelos anteriores, Louis Béchereau concebeu o SPAD XII, uma variante experimental que buscava ampliar significativamente o poder de fogo do caça. Equipado com um canhão Hotchkiss de 37 mm e impulsionado pelo motor Hispano-Suiza 8B com redução de marcha, o modelo representava uma abordagem ousada para o combate aéreo. Testado em 1917, chegou a ser operado por ases como Georges Guynemer; contudo, revelou-se de operação complexa, sobretudo em razão do peso do armamento e da dificuldade de manuseio do sistema de disparo. Como resultado, o SPAD XII não foi bem recebido pelas esquadrilhas francesas, levando à busca por uma solução mais equilibrada entre desempenho e operacionalidade. As lições extraídas dessa experiência foram fundamentais para o desenvolvimento do SPAD XIII, cuja concepção concentrou-se na adoção de um novo e mais potente motor: o Hispano-Suiza 8Be. Desenvolvido pelo engenheiro Marc Birkigt, esse propulsor V8 entregava inicialmente 200 cv  posteriormente elevados para 220 cv representando um avanço substancial em relação ao motor de 150 cv do SPAD VII. Esse incremento de potência permitiu ao SPAD XIII atingir cerca de 211 km/h e alcançar 2.000 metros de altitude em aproximadamente 4 minutos, melhorando sensivelmente seu desempenho geral. O aumento de potência, entretanto, exigiu reforços estruturais. O SPAD XIII manteve a construção típica da época  fuselagem de madeira revestida com tecido e chapas metálicas na seção frontal , porém com dimensões ligeiramente ampliadas e estrutura reforçada para suportar o maior peso e o torque do novo motor. O arranjo biplano de baía única foi refinado, incorporando suportes intermediários adicionais para reduzir vibrações e arrasto aerodinâmico, característica já presente no SPAD VII. O sistema de controle dos ailerons, baseado em hastes (pushrod) com bellcranks expostos, foi mantido, assegurando respostas precisas aos comandos do piloto. Uma das inovações mais significativas do SPAD XIII foi a adoção de duas metralhadoras Vickers calibre .303 (7,7 mm), sincronizadas para disparo através do arco da hélice. Esse armamento duplo representou um salto expressivo em capacidade ofensiva em relação ao armamento único do modelo anterior, tornando o caça substancialmente mais eficaz em combate. O primeiro protótipo realizou seu voo inaugural em 4 de abril de 1917, demonstrando desempenho superior ao do SPAD VII. Os testes evidenciaram uma combinação eficiente de velocidade, robustez estrutural e excelente capacidade de mergulho, características que favoreciam táticas de ataque rápido. Ainda assim, a manobrabilidade continuava inferior à de caças mais ágeis, como o Nieuport 17 e o Sopwith Camel. Apesar das qualidades promissoras, a produção do SPAD XIII enfrentou entraves relevantes. A complexidade do motor Hispano-Suiza 8Be, aliada à necessidade de materiais de alta qualidade, provocou atrasos significativos. As primeiras entregas tiveram início em maio de 1917, porém, até março de 1918, apenas 764 aeronaves haviam sido fornecidas, frente a uma meta de 2.230 unidades. Esses atrasos foram agravados por desafios logísticos e industriais, incluindo a coordenação da produção entre a SPAD e fabricantes licenciados, como a Blériot Aéronautique.
Os primeiros SPAD XIII entregues ao front apresentaram falhas, como problemas de superaquecimento do motor e desgaste prematuro de componentes. Essas questões foram gradualmente resolvidas, com melhorias implementadas em campo e nas linhas de produção. O batismo de fogo do SPAD XIII ocorreu no verão de 1917, quando as primeiras unidades foram entregues às esquadrilhas francesas da Armée de l'Air, particularmente na Frente Ocidental. A esquadrilha SPA 3 (Escadrille des Cigognes), liderada por ases como Georges Guynemer, foi uma das primeiras a receber o novo caça, seguida por outras unidades, como a SPA 48 e a SPA 65. As primeiras missões do SPAD XIII envolveram patrulhas ofensivas, escolta de aviões de reconhecimento e bombardeio, e combates diretos contra caças alemães. Durante a Terceira Batalha de Ypres, o SPAD XIII foi empregado em operações intensas. Um dos primeiros combates notáveis ocorreu em julho de 1917, quando Georges Guynemer, pilotando um SPAD XIII, abateu um caça alemão Albatros D.V perto de Ypres. Guynemer, conhecido por sua audácia e habilidade, explorou a velocidade e a estabilidade do SPAD XIII para executar ataques rápidos, consolidando a reputação do caça como uma plataforma confiável. No entanto, a transição para o SPAD XIII não foi imediata para todas as esquadrilhas, com muitas ainda operando o SPAD VII e o Nieuport 17 até que a produção do XIII se estabilizasse.  Para os pilotos, a transição para o SPAD XIII exigiu adaptação. Acostumados à agilidade do Nieuport 17, muitos  oconsideravam menos manobrável, especialmente em combates de curva apertada (dogfights). No entanto, sua velocidade e capacidade de mergulho permitiam táticas de ataque do tipo “bater e correr”, nas quais os pilotos mergulhavam sobre os inimigos, disparavam rajadas precisas e escapavam rapidamente. Ases como René Fonck, que mais tarde se tornaria o maior às aliado com 75 vitórias, aprenderam a explorar essas qualidades, utilizando a estabilidade do SPAD XIII como uma plataforma de tiro eficaz. Durante a Ofensiva de Primavera alemã em 1918, o SPAD XIII desempenhou um papel crucial em patrulhas e combates aéreos, enfrentando o novo Fokker D.VIIl. O SPAD XIII tornou-se o principal caça francês, equipando 74 esquadrilhas durante a guerra e representando cerca de 20% da força de caças franceses no Armistício de 1918.  O SPAD XIII também foi amplamente adotado por aliados. O Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) equipou 15 de seus 16 esquadrões operacionais com o caça, com ases como Eddie Rickenbacker alcançando vitórias notáveis. O Royal Flying Corps (RFC) britânico e o Corpo Aeronáutico Militar Italiano também utilizaram o SPAD XIII, ampliando seu impacto. A aeronave foi pilotada por ases lendários, como Francesco Baracca, cujo emblema de cavalo empinado inspirou o logotipo da Ferrari. Após a guerra, a partir de 1919, foi exportado para países como Argentina, Bélgica, Brasil, Grécia, Japão, Rússia, Sérvia, Sião, Espanha, Turquia, Uruguai e Tchecoslováquia, com um total de 8.772 unidades produzidas até 1920.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A Aviação do Exército Brasileiro tem suas origens nos campos de batalha da Guerra da Tríplice Aliança, particularmente nas operações conduzidas nas posições fortificadas de Humaitá e Curupaiti, no ano de 1867. Durante esse conflito, o patrono do Exército Brasileiro, o então comandante Luiz Alves de Lima e Silva, demonstrou notável pioneirismo ao empregar balões cativos em operações militares, introduzindo, de forma embrionária, o conceito de utilização do espaço aéreo como dimensão estratégica no campo de batalha. Esses balões foram utilizados principalmente em missões de observação e reconhecimento, permitindo a identificação de posições inimigas e o levantamento de informações sobre as fortificações paraguaias. Tal iniciativa conferiu ao Exército Brasileiro a distinção de figurar entre as primeiras forças militares do continente americano a empregar meios aéreos para fins de inteligência e apoio às operações terrestres. A utilização desses recursos contribuiu de maneira significativa para o planejamento de ofensivas em larga escala, especialmente nas campanhas contra as fortificações de Curupaiti e Humaitá. Após o término do conflito, o Exército Brasileiro buscou institucionalizar essa experiência pioneira por meio da criação do Serviço de Aerostação Militar, responsável pela operação e desenvolvimento de atividades relacionadas ao emprego de balões. Esse serviço permaneceu ativo por aproximadamente 47 anos, consolidando o uso da aerostação como ferramenta de apoio ao reconhecimento e ao planejamento tático no âmbito militar. Um novo marco evolutivo foi alcançado em 1913, com a criação da Escola Brasileira de Aviação, instalada no Campo dos Afonsos, na cidade do Rio de Janeiro. Nesse contexto, o Exército Brasileiro adquiriu suas primeiras aeronaves motorizadas, de fabricação italiana, marcando a transição definitiva do emprego de balões para o uso de aviões. Essa mudança refletia a necessidade de adaptação às rápidas transformações tecnológicas que caracterizavam o início do século XX, ampliando significativamente as capacidades operacionais da força terrestre. A eclosão da Primeira Guerra Mundial evidenciou, de forma inequívoca, o impacto da aviação no campo de batalha moderno, além de impulsionar avanços substanciais em doutrina, armamentos e tecnologia militar. Para o Brasil, esse cenário também revelou a defasagem de suas forças armadas em relação aos padrões das grandes potências. Quando o conflito teve início, em 1914, o Brasil adotou uma postura de neutralidade, inicialmente sob a presidência de Hermes da Fonseca e, posteriormente, de Wenceslau Braz, alinhando-se às disposições da Convenções de Haia. Essa posição refletia, em grande medida, a dependência econômica brasileira das exportações de café, bem como a necessidade de manter relações comerciais com países beligerantes, incluindo Alemanha, Reino Unido e França. Entretanto, a neutralidade brasileira foi progressivamente comprometida ao longo de 1917, quando submarinos alemães intensificaram ataques contra navios mercantes nacionais. Episódios como o afundamento do vapor Paraná, em abril de 1917, e do navio Macau, em outubro do mesmo ano, pelo submarino U-93, provocaram forte comoção pública e crescente pressão política pela entrada do país no conflito.

Diante desse cenário, em 26 de outubro de 1917, o pais declarou guerra à Alemanha, alinhando-se  às potências da Tríplice Entente, composta por França, Reino Unido e Rússia. Essa decisão marcou o ingresso formal na guerra e representou um passo importante no processo de modernização, incluindo o futuro desenvolvimento de sua aviação militar. A participação do Exército Brasileiro na conflito foi, no entanto, limitada por uma série de fatores estruturais. O reduzido efetivo disponível  cerca de 18 mil homens em 1917 , aliado à recente implementação do serviço militar obrigatório, instituído apenas em 1916, dificultava sobremaneira a mobilização de tropas para um eventual emprego em operações no exterior. Além disso, o país carecia de infraestrutura logística adequada e de recursos financeiros suficientes para sustentar o envio de uma força expedicionária de grande porte. Embora o então ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras, tenha considerado a possibilidade de mobilizar até 150 mil homens, tal estimativa revelou-se irrealista diante das limitações econômicas e organizacionais do Brasil naquele momento histórico. Outros fatores também contribuíram para restringir a capacidade de engajamento militar do país, como a forte dependência econômica da exportação de café e a persistência de conflitos internos, a exemplo da Guerra do Contestado. Nesse contexto, tanto o Exército quanto a Marinha do Brasil limitaram sua atuação a formas de apoio indireto ao esforço de guerra aliado, incluindo a participação em operações marítimas, ações de vigilância e o auxílio a feridos em teatros de operações. Foi nesse cenário que se destacou a criação da chamada Missão Aché, oficialmente denominada Comissão Brasileira de Estudos, Operações de Guerra e Aquisição de Material. Essa iniciativa constituiu o principal esforço do Exército Brasileiro no âmbito da guerra. Enviada à França em janeiro de 1918, sob a liderança do general Napoleão Felipe Aché, a missão tinha como objetivos centrais contribuir com os Aliados, adquirir conhecimentos sobre as modernas técnicas de combate empregadas e viabilizar a compra de armamentos destinados à modernização. Uma vez em território francês, a missão foi integrada ao Exército Francês. Os oficiais brasileiros foram distribuídos entre diferentes unidades operacionais, participando ativamente de operações relevantes, incluindo a Ofensiva dos Cem Dias, conduzida entre agosto e novembro de 1918, que culminou na derrota das forças alemãs. No teatro de operações, os militares brasileiros enfrentaram desafios significativos, como a adaptação às duras condições da guerra de trincheiras, o domínio de novas tecnologias  incluindo o emprego de carros de combate e artilharia moderna , além da necessidade de integração com tropas estrangeiras. A limitada experiência prévia em conflitos de grande escala, somada às barreiras linguísticas e culturais, contribuiu para aumentar a complexidade da missão. Apesar dessas dificuldades, a experiência adquirida revelou-se extremamente valiosa. O contato direto com as mais avançadas doutrinas e tecnologias militares da época proporcionou aprendizados fundamentais, que seriam posteriormente incorporados aos esforços de modernização do Exército Brasileiro no período pós-guerra.
Neste contexto o Brasil consolidou sua posição como aliado da potências da Tríplice Entente, participando da Conferência de Paz de Versalhes em 1919 e da criação da Liga das Nações. Como indenização, o Brasil confiscou 45 navios mercantes alemães, que foram incorporados à frota nacional. Um terço dos oficiais da Missão Aché foi condecorado ou promovido por atos de bravura, destacando-se o major Tertuliano Potyguara, ferido durante a Ofensiva Meuse-Argonne, uma das maiores operações aliadas do conflito. Não obstante, a participação na Primeira Guerra Mundial evidenciou de forma inequívoca o atraso militar e econômico do país em relação às grandes potências, ressaltando a urgência de um amplo processo de modernização das forças armadas. Diante desse diagnóstico, os altos comandos militares passaram a reconhecer a necessidade de adaptação estrutural e doutrinária, a fim de acompanhar as transformações do cenário internacional. Com esse objetivo, o governo brasileiro iniciou, ainda no segundo semestre de 1918, negociações com o governo da França visando ao estabelecimento de uma parceria de assessoria e consultoria militar. Essas tratativas culminaram na assinatura de um acordo em Paris, que instituiu oficialmente a chamada Missão Militar Francesa. O contrato firmado estabelecia que oficiais franceses assumiriam, por um período inicial de quatro anos, funções de comando e instrução em importantes estabelecimentos de ensino militar brasileiros. Entre as instituições contempladas estavam a Escola de Estado-Maior do Exército (EEM), a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), além das escolas de Intendência e de Veterinária. Paralelamente, o acordo previa que o Brasil daria preferência à aquisição de armamentos e equipamentos, desde que as condições de preço, qualidade e prazo de entrega se mostrassem equivalentes ou competitivas em relação a outros fornecedores internacionais. No âmbito desse programa de modernização, a área de aviação militar recebeu atenção especial. Foi estabelecida, entre os governos do Brasil e da França, a contratação de oficiais aviadores e mecânicos franceses, responsáveis por auxiliar na organização e consolidação de uma estrutura de ensino aeronáutico no país. Esse esforço resultaria diretamente na estruturação da Escola de Aviação Militar, sediada no Campo dos Afonsos. Além da contratação de pessoal especializado, as negociações incluíram a aquisição de aeronaves e de material de apoio destinados à formação da aviação militar. Entre os diversos modelos encomendados, destacava-se um lote de caças SPAD S. Modelo XIII, que se tornariam os primeiros aviões de caça operados pelo Exército Brasileiro. Embora seja difícil determinar com precisão a data de chegada dessas aeronaves, há evidências consistentes de que um primeiro grupo de 10 células foi montado e submetido a ensaios durante o mês de agosto de 1920. As 10 células remanescentes permaneceram acondicionadas em seus caixotes de transporte até agosto de 1921, quando então foram igualmente montadas e colocadas em condições de voo. Cabe destacar que, ao longo de toda sua vida operacional, essas aeronaves não receberam um sistema de matrícula militar sendo identificadas pelos números de série atribuídos pelo fabricante,  compreendendo  os intervalos de 2952 a 2961 e de 2971 a 2980.
 
Considerando que, naquele momento, a recém-criada Escola de Aviação Militar (EAvM) mal havia completado seu primeiro ano de existência, a decisão de montar inicialmente apenas um grupo de aeronaves provavelmente esteve associada à carência de pessoal brasileiro devidamente qualificado. Essa limitação também contribuiu para retardar a criação de uma unidade aérea específica destinada à operação desses aviões. Inicialmente distribuídos à Escola de Aviação Militar (EAvM) , os primeiros caças SPAD S Modelo XIII montados somente foram reunidos, ao final daquele mesmo ano, em uma subunidade designada Esquadrilha de Aperfeiçoamento (Esqda. Aperf.). Essa organização tinha como principal finalidade complementar a formação dos pilotos recém-egressos do Curso de Pilotos Aviadores, promovendo sua transição para a condição de aviadores militares plenamente qualificados. O treinamento era conduzido por instrutores franceses e enfatizava o emprego do avião como instrumento de guerra, abrangendo técnicas de combate, reconhecimento e apoio às operações terrestres. O nível de capacitação alcançado pelos novos aviadores brasileiros rapidamente se traduziu em realizações operacionais relevantes. Nesse contexto, dois segundos-tenentes protagonizaram o primeiro voo militar entre as cidades de Rio de Janeiro e São Paulo. Utilizando dois aviões SPAD S Modelo XIII, os oficiais decolaram do Campo dos Afonsos em 11 de junho de 1921, retornando no dia 13 do mesmo mês, em uma demonstração significativa da autonomia e confiabilidade dos meios aéreos então disponíveis. Em decorrência da decisão de expandir a presença da Aviação Militar para a região sul do país, foram montadas, em agosto de 1921, as dez aeronaves SPAD XIII que ainda permaneciam armazenadas em seus caixotes de transporte. Paralelamente, o ministro da Guerra determinou a aquisição de áreas destinadas à implantação de infraestrutura aeronáutica no Rio Grande do Sul, abrangendo as localidades de Alegrete, Santa Maria e Pelotas. Essas áreas deveriam ser preparadas para receber campos de pouso, hangares, oficinas e demais instalações de apoio, incluindo adaptações logísticas como a extensão de ramais ferroviários até os futuros aeródromos. A complexidade e a amplitude dessas obras implicaram um período relativamente prolongado de execução. Somente em dezembro de 1921 partiram do Rio de Janeiro as composições ferroviárias transportando a dotação inicial de material destinada às unidades aéreas que seriam estabelecidas no sul do país. Com a conclusão das instalações mínimas necessárias, foi criado, em caráter provisório, um Grupo de Esquadrilhas de Aviação, subordinado à 3ª Região Militar. Essa nova organização era composta por três esquadrilhas, além de um parque de aviação responsável pelo suporte logístico e técnico às operações. As unidades foram distribuídas entre as cidades de Alegrete e Santa Maria no interior do estado, consolidando a presença da Aviação Militar na região. No total, 09 aeronaves SPAD S Modelo  XIII foram deslocadas para o sul do Brasil, passando a equipar a 1ª Esquadrilha de Caça, cuja sede foi estabelecida em Santa Maria, compartilhando instalações com a 3ª Companhia Provisória de Parque de Aviação, responsável pela manutenção e apoio operacional das aeronaves.
A trajetória da 1ª Esquadrilha de Caça, sediada em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e integrante do Grupo de Esquadrilhas de Aviação, permanece parcialmente obscurecida em razão da escassez de registros detalhados acerca de suas atividades operacionais. Ainda assim, é possível afirmar que essa unidade desempenhou papel relevante na consolidação da presença da aviação militar na região sul do Brasil, em um período marcado pela estruturação inicial do poder aéreo no país. Equipada com aeronaves SPAD S Modelo XIII, a esquadrilha operava em estreita cooperação com a 3ª Companhia Provisória de Parque de Aviação, compartilhando a infraestrutura instalada em Santa Maria. Essa organização conjunta permitia assegurar tanto a operação quanto o suporte técnico das aeronaves, refletindo um modelo embrionário de integração entre unidades operacionais e de manutenção. A dissolução do Grupo de Esquadrilhas de Aviação, em 1928, marcou o encerramento das atividades dessas unidades no sul do país. Parte do material aeronáutico permaneceu na região até janeiro de 1930; contudo, há indícios consistentes de que as aeronaves SPAD S Modelo XIII já vinham sendo transferidas de volta ao Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, ao longo de 1929, concluindo assim sua operação no teatro sulino. De volta à sua base original, os SPAD S Modelo XIII continuaram a exercer papel relevante na formação de aviadores militares junto à Escola de Aviação Militar (EAvM). No entanto, o processo de desgaste material dessas aeronaves foi progressivamente agravado, sobretudo após a introdução de novos equipamentos aeronáuticos a partir de 1927, o que acelerou sua obsolescência. Projetados para atender às exigências da Primeira Guerra Mundial, estes aviões já não correspondiam às necessidades de uma aviação militar em rápida transformação tecnológica e doutrinária. Em consequência, seu emprego foi sendo gradativamente reduzido, até que, em janeiro de 1930, os dois últimos exemplares remanescentes foram oficialmente excluídos da carga da Escola de Aviação Militar (EAvM). Registros indicam que, na prática, essas aeronaves já se encontravam fora de operação desde 1929, marcando o encerramento definitivo de sua trajetória no Exército Brasileiro. Nesse contexto, destaca-se o papel fundamental desempenhado pela Missão Militar Francesa no processo de modernização do Exército Brasileiro. Por meio da introdução de novas doutrinas, práticas operacionais e tecnologias, essa missão contribuiu decisivamente para alinhar a força terrestre brasileira aos padrões militares internacionais da época. A criação da Escola de Aviação Militar (EAvM), em particular, representou um marco estruturante para o desenvolvimento da aviação no Brasil, estabelecendo as bases institucionais, técnicas e doutrinárias que permitiriam, nas décadas seguintes, a evolução e consolidação do poder aéreo nacional.

Em Escala.
Para representarmos o SPAD XIII da Aviação Militar do Exército, empregamos o excelente kit na 1/48 da Eduard, modelo este que apresenta um excelente nível de detalhamento, se apresentando muito superior aos demais kits deste modelo no mercado.  Não é necessário proceder alterações no kit para se representar com fidelidade a versão operada no Exército Brasileiro.  Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM Decais retirados de diversos sets, tendo em vista que não existe um set especifico para esta aeronave. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado pelos SPAD XIII quando em uso pela Aviação Militar do Exército Brasileiro. Infelizmente existem poucas fotos de época com qualidade aceitável para podermos afirmar que as cores e marcações no modelo apresentado são iguais aos empregados nas  aeronaves reais quando em uso no Brasil.


Bibliografia : 

Brasil na Primeira Guerra Mundial - www.historiadomundo.com.br 

SPAD S.XIII - https://en.wikipedia.org/wiki/SPAD_S.XIII 

Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores  

Série C Picape GM-Engesa (TE-TP-TNE)

História e Desenvolvimento. 
Fundada em 16 de setembro de 1908, em Flint, Michigan, por William C. Durant, a General Motors Corporation (GM) consolidou-se como uma das maiores e mais influentes fabricantes de veículos do mundo, deixando um legado de inovação, diversificação e impacto global. Visionário e ex-fabricante de carruagens, Durant idealizou uma holding que unificasse diversas marcas automotivas sob uma única estrutura, promovendo sinergias e fortalecendo a competitividade no mercado. Essa visão estratégica, aliada ao empenho de milhares de trabalhadores, engenheiros e líderes, transformou a GM em um símbolo de progresso industrial e resiliência, moldando a história da indústria automotiva. Desde sua fundação, a GM adotou uma estratégia ousada de aquisições para diversificar seu portfólio e consolidar sua presença no mercado. Em 1908, a Buick Motor Company, fundada por David Dunbar Buick e já reconhecida por sua qualidade, foi a primeira a integrar a GM, trazendo consigo a expertise de Durant, que havia presidido a empresa. No mesmo ano, em 12 de novembro, a Oldsmobile Motor Vehicle Company, estabelecida em 1897, tornou-se a segunda marca do grupo, reforçando a posição da GM no cenário automotivo americano. Nos anos seguintes, a Oakland Motor Car Company, que mais tarde evoluiu para a Pontiac, e a Cadillac Automobile Company, adquirida em 1909 por US$ 5,5 milhões, enriqueceram o portfólio com veículos de luxo e inovação. Essas aquisições não apenas ampliaram a oferta de produtos, mas também refletiram o compromisso da GM em atender às necessidades de diferentes públicos, desde consumidores comuns até os mais exigentes. Em 1911, após divergências com acionistas que o levaram a deixar a GM, Durant fundou a Chevrolet Motor Company of Michigan, em parceria com o piloto e mecânico suíço Louis Chevrolet. A Chevrolet rapidamente conquistou o mercado com veículos acessíveis e confiáveis, e, em 1956, foi incorporada à GM, tornando-se uma das marcas mais emblemáticas da empresa. No mesmo ano, a GM criou a GMC, derivada da aquisição da Rapid Motor Vehicle Company, focada na produção de caminhonetes e caminhões leves. Esse segmento tornou-se um pilar estratégico, atendendo à crescente demanda por veículos comerciais robustos e versáteis. A visão da GM não se restringiu ao mercado automotivo. Em 1917, a empresa deu início à sua expansão global com operações comerciais no Canadá, marcando o começo de uma trajetória que alcançaria todos os continentes. Essa internacionalização foi impulsionada pela dedicação de equipes que adaptaram produtos e estratégias às realidades locais, conquistando a confiança de consumidores ao redor do mundo. Em 1919, a GM diversificou ainda mais suas atividades ao adquirir a Frigidaire Company, fabricante de refrigeradores, em uma incursão pioneira no setor não automotivo. Essa decisão, guiada por uma diretoria visionária, demonstrou a ambição de explorar novos horizontes e consolidar a GM como uma empresa de alcance multifacetado. A diretoria comercial da General Motors Corporation (GM) , guiada por uma visão estratégica, identificou o potencial para uma presença global significativa. A visão estratégica da General Motors Corporation (GM), aliada ao compromisso de seus líderes e colaboradores, impulsionou uma série de iniciativas que consolidaram sua presença global e reforçaram seu papel como uma das maiores fabricantes de veículos do mundo. Essas expansões, realizadas ao longo das décadas de 1920 e 1930, refletem não apenas a ambição da empresa, mas também o esforço coletivo de milhares de pessoas que transformaram desafios em oportunidades, conectando comunidades e promovendo o progresso em diferentes continentes.

Em 1923, a GM marcou sua entrada no mercado europeu com a inauguração de sua primeira fábrica em Copenhague, Dinamarca, um passo significativo que ampliou seu alcance além da América do Norte. Em 1925, a empresa intensificou sua expansão com o início de operações orgânicas na Argentina, França e Alemanha, além da aquisição da renomada montadora britânica Vauxhall Motors. No mesmo ano, estabeleceu operações na Austrália, Japão e África do Sul, demonstrando uma visão ousada de alcançar mercados diversos. Em 1928, a GM deu um passo pioneiro ao entrar no mercado indiano, um território ainda pouco explorado pela indústria automotiva. Em 1929, a aquisição da alemã Opel fortaleceu sua posição na Europa, enquanto a incorporação da Yellow Coach Company, fabricante de ônibus escolares nos Estados Unidos, diversificou seu portfólio, atendendo às necessidades de transporte coletivo. Paralelamente, a GM reconheceu o potencial do mercado latino-americano, estabelecendo a General Motors do Brasil em 26 de janeiro de 1925. Inicialmente, a empresa operou em instalações alugadas no bairro do Ipiranga, em São Paulo, onde lançou seu primeiro produto no mercado brasileiro: um furgão utilitário leve. Produzido pelo sistema Completely Knocked Down (CKD), o veículo era montado localmente a partir de kits importados, compostos por chassis, motores, transmissões e outros componentes. Esse processo apresentava características distintas: Baixa agregação de componentes nacionais: Apenas algumas partes não metálicas da carroceria eram fabricadas no Brasil, refletindo as limitações industriais da época. Flexibilidade de entrega: Os veículos podiam ser fornecidos completos ou como chassis nus com capô, permitindo personalização por encarroçadores terceirizados. Essa abordagem permitiu à GM estabelecer uma presença inicial no Brasil, adaptando-se às condições do mercado e pavimentando o caminho para um crescimento sustentável. Desde o início, a empresa identificou oportunidades no setor militar, fornecendo caminhões leves ao Exército Brasileiro. Esses veículos, baseados em chassis de modelos comerciais, eram configurados com carrocerias padronizadas para uso militar, demonstrando a versatilidade da GM em atender às demandas das Forças Armadas. O sucesso crescente no mercado brasileiro incentivou investimentos significativos, culminando na construção de uma moderna planta fabril em São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo, concluída em outubro de 1929. Projetada para ampliar a capacidade produtiva, a fábrica reforçou o compromisso da GM com o desenvolvimento industrial do país. A partir de 1933, a General Motors do Brasil iniciou um novo ciclo de crescimento, expandindo sua influência não apenas no Brasil, mas também em outros mercados sul-americanos. Novos aportes na infraestrutura produtiva elevaram o índice de nacionalização, e, em 1940, cerca de 75% dos furgões e caminhões comercializados pela empresa possuíam carrocerias fabricadas localmente, com quase 90% de componentes básicos produzidos no Brasil. No portfólio da GM Brasil, a família de caminhões médios e leves GMC Flatbed Truck ganhou destaque, atendendo às necessidades de transporte comercial e militar. Com o início da Segunda Guerra Mundial, a subsidiária brasileira reorientou suas linhas de produção para apoiar o esforço bélico. A partir de 1941, a empresa fabricou reboques militares de duas rodas e componentes críticos para a matriz nos Estados Unidos. Em 1943 a GM Brasil passou a montar milhares de veículos militares fornecidos em estado semidesmontado, destinados às Forças Armadas Brasileiras. Com o término da Segunda Guerra Mundial em 1945, a General Motors do Brasil (GM Brasil) retomou suas atividades com renovado empenho, impulsionada pelo compromisso de seus colaboradores e pela crescente demanda do mercado brasileiro por veículos confiáveis.

Esse período marcou o início de uma nova era para a empresa, que buscava consolidar sua presença em um país em plena transformação. A produção foi ampliada para incluir automóveis, utilitários e caminhões, atendendo às necessidades de uma nação que almejava modernização e progresso. A década de 1950 foi particularmente significativa, impulsionada por políticas governamentais que incentivaram a nacionalização da indústria automotiva. Essas medidas, voltadas para o fortalecimento da economia e da indústria nacional, incluíram restrições às importações de componentes automotivos, permitindo apenas peças sem equivalentes produzidos localmente, e a proibição da importação de veículos finalizados. Em 1956, a criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA) consolidou esses esforços, oferecendo incentivos fiscais e financeiros que estimularam a GM Brasil a investir em inovação e na integração com a economia local. Essas iniciativas pavimentaram o caminho para a maturidade empresarial da companhia na década seguinte, marcada por avanços significativos na produção nacional. Nesse contexto, a General Motors  Brasil lançou, em 1957, o caminhão leve Opel Blitz II Comercial, um modelo que atendia à demanda por soluções de transporte robustas e confiáveis. Apesar do sucesso, a dependência de componentes importados ainda representava um desafio, exigindo da empresa esforços contínuos para alcançar maior autonomia produtiva. Um marco histórico ocorreu em 1964, durante o Salão do Automóvel de São Paulo, com a apresentação da segunda geração de picapes e caminhões da marca Chevrolet. Essa linha renovada incluía as picapes C-14 (chassis curto, com 2,92 metros de entre-eixos), C-15 (chassis longo, com 3,23 metros) e o caminhão C-65. O grande destaque, porém, foi o modelo C-1416, que se tornaria conhecido como Chevrolet Veraneio, o primeiro utilitário esportivo (SUV) produzido pela GM Brasil. Com um design inovador e diferenciado, a Veraneio marcou uma nova fase na história da empresa, combinando funcionalidade, conforto e versatilidade. A linha de utilitários também trouxe a substituição da família Brasil 3100, considerada o primeiro veículo utilitário leve fabricado pela General Motors do Brasil, graças aos incentivos do GEIA. A picape C-14, em sua versão básica, oferecia uma capacidade de carga de 1.000 kg, atendendo às necessidades do mercado comercial. Uma inovação significativa foi a introdução da versão com cabine dupla, capaz de transportar confortavelmente até três passageiros adicionais. Contudo, essa configuração sacrificava parte da capacidade de carga, limitada a 750 kg, o que impactou sua aceitação no mercado. Apesar do caráter inovador da cabine dupla, a Chevrolet Veraneio, na sua versão utilitária, conquistou maior preferência do público. Com capacidade de carga de 500 kg e um nível superior de conforto, a Veraneio destacou-se como uma opção mais versátil e prática, resultando em maior sucesso comercial em comparação com a variante de cabine dupla. No início da década de 1980, o mercado automotivo brasileiro testemunhou o crescente sucesso das picapes de cabine dupla, que se tornaram sinônimo de luxo e versatilidade.

Desde seu lançamento em 1964, a família de picapes Chevrolet, incluindo a icônica Veraneio, destacou-se por sua robustez e inovação. Esses veículos eram equipados com o motor a gasolina General Motors Mod. 261 Pol3, de 4,3 litros e cinco mancais, que entregava uma potência de 142 HP. Esse propulsor, o primeiro fabricado pela General Motors do Brasil, marcou a história da empresa no país, tendo equipado inicialmente a Série Brasil 3100, conhecida pelas picapes “Marta Rocha” e pela perua “Amazonas”. Com seis cilindros em linha, comando de válvulas no bloco e acionamento por varetas, o motor representava a tecnologia da época, combinando confiabilidade e desempenho. A partir de 1974, a montadora brasileira iniciou a substituição em larga escala desse motor pelo General Motors Mod. 250, de 4,1 litros, disponível nas versões a gasolina e diesel. Embora mais moderno, o novo motor apresentava um torque ligeiramente inferior (27 kgfm contra 32 kgfm do antecessor), o que levou a montadora a manter o Mod. 261 em alguns modelos das picapes C-14 e C-15, atendendo a consumidores que valorizavam sua robustez. Em termos de transmissão, a GM oferecia duas opções fabricadas pela Clark Equipamentos: a caixa de três marchas CLK M1-4, amplamente produzida, e a opcional CLK M-20, de quatro marchas, que proporcionava maior versatilidade. O ano de 1974 marcou um momento de transformação para a General Motors do Brasil , impulsionado pela concorrência com a nova linha de picapes Ford F-100, que apresentava um design mais moderno e arrojado. Em resposta, a montadora lançou um ambicioso programa de renovação de sua linha de picapes, focado em três pilares: reestilização do design, adoção de novos motores (como o General Motors Mod. 302 a gasolina, de 4,3 litros, e o Perkins a diesel, de 3,9 litros) e a introdução de uma suspensão mais eficiente. Contudo, a família renovada enfrentou críticas por manter o sistema de freios a tambor nas quatro rodas, uma escolha considerada ultrapassada em comparação com os sistemas de freio a disco já adotados pela concorrência, o que comprometia a segurança, uma demanda crescente do mercado. Paralelamente, inspirada pelo sucesso da Chevrolet Veraneio C-1416 na configuração ambulância, a equipe de engenharia da GM Brasil dedicou-se ao desenvolvimento de uma nova viatura voltada para tarefas de socorro médico e UTI móvel, baseada na plataforma da picape C-10. Designada como C-1503, essa ambulância aproveitava a versatilidade da plataforma comum, que permitia uma melhor utilização do espaço interno. Esse diferencial possibilitou a incorporação de um conjunto mais amplo de equipamentos médicos, tornando a C-1503 uma opção mais avançada e eficaz em comparação com a C-1416, que, até então, liderava as vendas no segmento de ambulâncias. A linha de picapes Chevrolet, composta pelos modelos C-10, C-14 e C-15, alcançou uma posição de destaque no mercado brasileiro de veículos utilitários ao longo do século XX. Reconhecida por sua robustez, versatilidade e capacidade de atender às demandas de um país em desenvolvimento, essa família de veículos tornou-se a mais produzida no Brasil durante esse período. A liderança da linha C-10, C-14 e C-15 consolidou a Chevrolet como um ícone da indústria automotiva nacional, deixando um legado de inovação e impacto duradouro na história do transporte no Brasil. 

Na década de 1970, a General Motors do Brasil S/A enfrentou um desafio significativo com a crise do petróleo, um evento global que abalou profundamente o mercado automotivo. A escassez de combustível e o aumento dos preços impactaram especialmente a comercialização de picapes e outros veículos com alto consumo, em particular aqueles movidos a gasolina. Em um curto período, as vendas desses modelos, incluindo a renomada linha de picapes Chevrolet, registraram uma queda acentuada, ficando muito abaixo do ponto de equilíbrio almejado pela montadora.  Em uma tentativa de ser criar um movimento de retomada de vendas e  reconquistar a confiança dos consumidores e atender às expectativas de um público cada vez mais exigente, a montadora introduziu melhorias significativas em seus modelos, demonstrando seu compromisso com a inovação e a qualidade. Entre as principais inovações, destaca-se a adoção, como item de série, da nova caixa de câmbio manual de quatro marchas produzida localmente pela Clark Equipamentos. Essa transmissão, mais moderna e eficiente, proporcionava maior suavidade e versatilidade na condução, atendendo às necessidades de motoristas em diferentes cenários, das estradas rurais aos centros urbanos. Além disso, a GM Brasil passou a oferecer, como opcional, o tão aguardado sistema de freios a disco nas quatro rodas, uma evolução significativa em relação ao ultrapassado sistema de freios a tambor. Essa melhoria reforçava a segurança dos veículos, respondendo a uma demanda essencial do mercado e alinhando as picapes Chevrolet aos padrões tecnológicos de seus concorrentes.  A partir de 1981, com o fortalecimento do Pró-Álcool, a GM Brasil introduziu a Chevrolet A-10, uma variante da C-10 otimizada para rodar com etanol (álcool hidratado, ou E100). A A-10 a álcool foi projetada para atender às necessidades de um mercado que valorizava a economia de combustível em um contexto de preços elevados da gasolina. Equipada com o motor de 4,1 litros (derivado do Opala), a versão a álcool oferecia 99 cavalos e 26,5 kgfm de torque, com adaptações específicas, como um carburador recalibrado e um sistema de partida a frio com um pequeno tanque de gasolina para facilitar a ignição em temperaturas abaixo de 15°C. Apesar de seu consumo elevado — cerca de 3,5 km/l na cidade e 4,5 a 6 km/l na estrada — a A-10 conquistou agricultores, comerciantes e frotistas devido ao menor custo do etanol e à robustez do veículo, capaz de transportar até 750 kg de carga. Em climas frios, especialmente nas manhãs do interior do Brasil, o motor a álcool exigia paciência para aquecer, devido à menor volatilidade do etanol. Além disso, a partir de meados da década de 1980, a estabilização dos preços do etanol, que se aproximaram dos da gasolina, reduziu a vantagem financeira do combustível alternativo. Esses fatores, somados à concorrência de modelos mais modernos, como a Ford F-100, impactaram as vendas da A-10, que foi produzida até 1986. No entanto apesar destas mudanças, as vendas não só não reagiriam, como também continuaram a definhar, motivando assim a decisão da montadora, em se descontinuar a produção de toda esta linha de picapes no início da década de 1980, encerrando assim mais um importante capítulo da história da indústria automobilística brasileira.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras. 
Durante a década de 1950, o Exército Brasileiro empreendeu um ambicioso programa de atualização de sua frota de transporte, um marco fundamental para o fortalecimento de sua capacidade logística e operacional. Nesse contexto, a General Motors do Brasil (GM Brasil) desempenhou um papel crucial ao fornecer uma expressiva quantidade de caminhões Chevrolet Brasil 6400 e 6500. A agilidade na entrega desses veículos, viabilizada logo após a formalização do contrato, foi facilitada pela mínima necessidade de adaptações para uso militar, já que os modelos eram versões comerciais retiradas diretamente da linha de produção. A robustez, confiabilidade e excelência mecânica desses caminhões atenderam plenamente às exigências operacionais do Exército, estabelecendo uma base sólida para uma parceria duradoura com a GM Brasil e consolidando a confiança dos militares na qualidade dos produtos da montadora. O sucesso dos caminhões 6400 e 6500 abriu caminho para a incorporação do utilitário Chevrolet Amazonas, lançado em 1959. Projetada para atender às demandas tanto do campo quanto da cidade, estes  utilitário compartilhava o mesmo conjunto mecânico dos modelos anteriores, equipada com um motor de seis cilindros em linha de 4,3 litros (261 polegadas cúbicas, 142 cv) e uma transmissão manual de três marchas. Sua versatilidade permitiu seu emprego em diversas funções, como transporte de pessoal e até mesmo como ambulância, conquistando a admiração dos militares pela sua capacidade de operar em condições desafiadoras. A Amazonas tornou-se um símbolo de confiabilidade, contribuindo para o êxito das operações logísticas do Exército e reforçando o compromisso da General Motors do Brasil  com as necessidades das Forças Armadas. A partir da década de 1960, a General Motors do Brasil  intensificou sua parceria com as Forças Armadas Brasileiras, passando a fornecer veículos produzidos localmente, com foco inicial nos caminhões C-60 e D-60 e nas picapes C-10, que substituíram gradualmente os modelos derivados da Amazonas. Essa transição marcou um avanço na modernização da frota militar, alinhando-a às demandas de um país em rápido desenvolvimento. Em 1966, a introdução do Chevrolet Veraneio C-1416 representou um marco significativo. Inicialmente adquirido pelo Exército Brasileiro, esse utilitário esportivo destacou-se por sua robustez e versatilidade, sendo seguido pela versão ambulância C-1410, que se tornou essencial para operações de socorro médico. A excelente receptividade da família Veraneio incentivou o Ministério da Aeronáutica (MAer) a adquirir, em 1974, um grande lote de ambulâncias C-1410 e C-1503. Essas viaturas foram destinadas à Infraero, empresa estatal responsável pela administração de aeroportos, com o objetivo de equipar as unidades de emergência médica dos principais terminais aéreos do Brasil. Na sequência do fortalecimento de sua parceria com as Forças Armadas Brasileiras, a General Motors do Brasil S/A consolidou sua posição como uma das principais fornecedoras de veículos militares ao conquistar novos contratos para o fornecimento de picapes Chevrolet C-10. 

Esses acordos, formalizados com o Exército Brasileiro, a Força Aérea Brasileira e a Marinha do Brasil (especificamente o Corpo de Fuzileiros Navais), representaram um marco significativo na história da empresa. A escolha da C-10 refletiu sua robustez, versatilidade e capacidade de atender às exigências operacionais de diferentes cenários, desde o transporte logístico até missões de segurança e apoio. A General Motors do Brasil S/A forneceu às Forças Armadas Brasileiras picapes Chevrolet C-10 idênticas às versões comerciais disponíveis no mercado, sem adaptações específicas para uso militar. Esses veículos, valorizados por sua robustez e versatilidade, foram amplamente empregados em missões de transporte de carga e pessoal, atendendo com eficiência às demandas logísticas do Exército Brasileiro, da Força Aérea Brasileira e do Corpo de Fuzileiros Navais. A confiabilidade da C-10 em diversas condições operacionais destacou seu potencial, inspirando o Ministério do Exército a investir em uma versão customizada, projetada para enfrentar os desafios de ambientes fora de estrada. Para concretizar essa iniciativa, o Exército Brasileiro recorreu à expertise da Engesa (Engenheiros Especializados S/A), uma empresa paulista reconhecida por sua excelência em engenharia automotiva. A Engesa contava com um quadro técnico de profissionais altamente qualificados, muitos formados pelo prestigiado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), e acumulava vasta experiência na customização de veículos comerciais. Desde o final da década de 1960, a empresa alcançava sucesso comercial com o desenvolvimento de um sistema de tração integral 4x4, projetado para veículos produzidos no Brasil por montadoras multinacionais. Esse sistema, patenteado tanto no Brasil quanto no exterior, conquistou a atenção das Forças Armadas Brasileiras devido à sua capacidade de conferir maior mobilidade e resistência em terrenos adversos. A pedido do Exército Brasileiro, a Engesa S/A iniciou estudos para desenvolver um sistema de suspensão específico para operações off-road, adaptado à picape C-10. Esse projeto visava aprimorar a capacidade do veículo em enfrentar condições extremas, garantindo maior segurança e eficiência em missões militares realizadas em terrenos acidentados. A colaboração entre a Engesa e o Exército Brasileiro reflete o espírito de inovação e dedicação de profissionais que, com engenhosidade e compromisso, contribuíram para fortalecer a capacidade operacional das Forças Armadas. Em 1967, a solução inovadora de Tração Total desenvolvida pela Engesa (Engenheiros Especializados S/A) foi oficialmente reconhecida pelo governo brasileiro como um projeto de "Interesse para a Segurança Nacional". Esse marco destacou a relevância estratégica do sistema de tração integral 4x4, projetado para conferir excepcional desempenho a veículos em terrenos adversos, atendendo às exigências das Forças Armadas Brasileiras. A classificação reforçou o papel da Engesa como uma protagonista no desenvolvimento de tecnologias automotivas voltadas para a defesa do país, resultado do talento e dedicação de seus engenheiros, muitos dos quais formados pelo prestigiado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
Nos anos seguintes, o sistema Tração Total foi amplamente adotado por grandes montadoras no Brasil, incluindo a Ford do Brasil, a General Motors do Brasil e a Dodge Chrysler do Brasil. Essa tecnologia foi integrada a diversos modelos de caminhões militares, ampliando a capacidade operacional do Exército, da Força Aérea e da Marinha em missões que exigiam mobilidade e resistência em condições desafiadoras. Tendo por base a picape Chevrolet C-10  na versão comercial civil, a equipe de projetos da Engesa S/A,  focaria esforços inicialmente redesenho da suspensão, visando assim fortalecer este sistema a fim de evitar quebras por impacto em situações extremas ou ainda fadiga por uso repetitivo, prevendo assim situações normais de uso de veículos militares fora de estrada (off road). Superada esta etapa passou-se a adaptar o projeto da "Tração Total" versão militarizada no modelo, os resultados iniciais se mostraram extremamente promissores, levando a General Motors a homologar o kit de tração 4X4 da Engesa S/A para uso em sua linha comercial de picapes utilitárias. Após a validação interna do projeto da picape Chevrolet C-10 equipada com o sistema de tração integral 4x4 desenvolvido pela Engesa (Engenheiros Especializados S/A), a General Motors do Brasil decidiu apresentar o protótipo ao comando do Exército Brasileiro. Em março de 1975, o veículo foi entregue para testes preliminares, marcando um passo significativo na parceria entre a indústria automotiva nacional e as Forças Armadas. Inspirado em grandes jipes utilitários americanos, como o Kaiser Jeep M-715, o protótipo da C-10 foi cuidadosamente projetado para atender aos rigorosos padrões militares, combinando robustez, funcionalidade e versatilidade. Para cumprir as exigências do Exército, o veículo incorporava uma série de adaptações específicas, incluindo: Para-choques frontais e traseiros reforçados, projetados para resistir a impactos em terrenos acidentados; Grade de proteção para os faróis, garantindo durabilidade em operações de campo; Caçamba com piso reforçado, adequada ao transporte de cargas pesadas em condições adversas; Sistema elétrico de 24 volts, compatível com os padrões militares; Cabine aberta com cobertura de lona e para-brisa basculante, facilitando o transporte aéreo em aeronaves da Força Aérea Brasileira, como o Lockheed C-130 Hercules e o De Havilland C-115 Buffalo; Suporte para galão de combustível removível, posicionado na lateral da caçamba, entre os eixos, seguindo o padrão de veículos militares. Nos meses seguintes, o protótipo foi submetido a um extenso programa de testes, que avaliou seu desempenho em cenários operacionais extremos. Esse processo resultou em um conjunto significativo de correções e melhorias, aprimorando a confiabilidade e a eficiência do veículo para atender às necessidades do Exército Brasileiro.

Paralelamente, o Exército enfrentava a necessidade urgente de renovar sua frota de Viaturas de Transporte Não Especializado (VTNE), composta majoritariamente por modelos obsoletos, como os Dodge WC-51, WC-53, WC-56, WC-57 e M-37, adquiridos na segunda metade da década de 1940. Esses veículos, embora valiosos em sua época, já não atendiam às demandas modernas de mobilidade e resistência exigidas pelas operações militares. A introdução do protótipo da C-10 4x4 representou uma oportunidade de modernização, trazendo uma solução nacional que combinava tecnologia avançada com a expertise da Engesa e da General Motors do Brasil. Estes eram complementados por veículos da família Rural Willys Overland F-85. Embora os Willys possuíssem tração integral 4x4, seu projeto não era adequado para operações em terrenos adversos, apresentando limitações em cenários militares exigentes. A situação era agravada pela alta indisponibilidade dos modelos Dodge, devido à escassez de peças de reposição, e pela quantidade insuficiente de Willys para atender às necessidades operacionais da Força Terrestre. Esse cenário impactava diretamente a capacidade do Exército em realizar missões essenciais, como transporte de carga, movimentação de tropas, remoção médica e telecomunicações em campo. Diante desse contexto crítico, tornou-se imperativa a incorporação de uma nova família de veículos utilitários militarizados, capazes de oferecer robustez, confiabilidade e versatilidade. Com esse objetivo, o Ministério do Exército conduziu negociações estratégicas com a General Motors do Brasil S/A e a Engesa (Engenheiros Especializados S/A), culminando, em junho de 1974, na celebração de um contrato histórico para a aquisição de noventa e cinco viaturas Chevrolet C-14 e C-15. Essas viaturas foram projetadas para desempenhar múltiplas funções, incluindo transporte de carga e pessoal, além de servir como veículo porta-morteiro, equipado para o transporte e operação de peças de artilharia de 81 mm e 60 mm. As primeiras unidades dessa nova família de veículos começaram a ser entregues em outubro de 1975, marcando o início de uma renovação significativa da frota militar. As viaturas foram distribuídas aos Batalhões de Infantaria Blindada (BIB) e aos Batalhões de Infantaria Leve (BIL), substituindo gradualmente os últimos veículos norte-americanos ainda em serviço. A integração das C-14 e C-15, equipadas com o sistema de tração integral 4x4 desenvolvido pela Engesa, representou um avanço notável na capacidade operacional do Exército, oferecendo maior mobilidade e resistência em terrenos desafiadores. Vale salientar também que a aquisição destes novos modelos, vieram a complementar também a frota de veículos utilitários com tração 4X4 Rural Willys e Toyota Bandeirante, resultando pela primeira vez no Exército Brasileiro na predominância de modelos utilitários produzidos nacionalmente, reduzindo assim a perigosa dependência externa. Além de que este novo cenário provia uma significativa redução de custos em termos de manutenção, bem como simplificação da linha de suprimentos logística, em face da operação de outros veículos produzidos nacionalmente pela General Motors do Brasil S/A e demais montadoras aqui estabelecidas. 
Em 1976 a montadora assinaria um contrato com o Ministério da Marinha para produção de um pequeno lote de carros da versão Chevrolet C-14 Porta Morteiro para uso junto as tropas de infantaria do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN). Logo em seguida a Força Aérea Brasileira passaria a fazer uso do veículo nas versões ambulância C-1503 e utilitário C-14, com esta última sendo destinada aos Batalhões de Infantaria da Aeronáutica (BINFAE). Em 1975 a Policia Militar do Estado de São Paulo procederia a aquisição de pelo menos uma dezena de picapes do  modelo C-15 Chevrolet Engesa 4X4 C1-4 para o emprego inicial junto ao 1º Batalhão de Polícia (1º B.P) – Batalhão Tobias de Aguiar. Em 1977 seria realizada a aquisição de mais dois lotes destinados a unidade especial de Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA) e as Companhias de Operações Especiais (COE). Tradicional usuário do modelo de viatura policial C-1416 Veraneio, o Governo do Estado de São Paulo encomendaria  a General Motors do Brasil S/A uma variante do veículo para o transporte de tropas dos Batalhões de Choque da Policia Militar. Tratava-se de uma picape Chevrolet C-10 simplificada com cabine aberta com cobertura de lona e para-brisa basculante, estando desprovida de portas dianteiras e dotada com dois bancos traseiros na caçamba para até oito policiais completamente equipados para as missões urbanas de pronta resposta e garantia de lei e ordem (GLO). O êxito da operação dos modelos Chevrolet Engesa 4X4 C-14 e C-15 junto as Forças Armadas Brasileiras, motivaria a diretoria da Engesa S/A a estudar o desenvolvimento de um novo veículo especializado para atuação no segmento militar. Assim em 1981 nasceria como fruto de uma parceria entre Engesa S/A e a empresa paulista Envemo - Engenharia de Veículos e Motores Ltda,  o utilitário EE-34. Baseado nas plataformas dos modelos Chevrolet C-10 e C-15 este novo utilitário trazia uma série de melhorias em relação a versões militarizadas anteriores, seu conceito seria desenvolvido para aplicação militar pura. Após avaliação o Ministério do Exército, formalizou a contratação para a produção de 858 unidades que foram entregues entre os anos de 1981 e 1985, vindo a complementar as picapes  Chevrolet C-14 e C-15 em uso.  A partir do início da segunda metade da década de 1990, estes três modelos ainda uso nas Forças Armadas Brasileiras, já apresentavam  evidentes sinais de desgaste,  após quase vinte anos de operação continua, levando ao estabelecimento de um planejamento para a renovação da frota.  Um processo de concorrência seria criado com a solução sendo pautada pela aquisição de diversos modelos de utilitários com tração integral como JPX Montez, Toyota Bandeirante e Land Rover Defender, com as primeiras viaturas destas sendo incorporadas ao Exército Brasileiro a partir de 1996. O mesmo destino ocorreria junto as forças policiais miliares estaduais , com as últimas viaturas sendo retiradas do serviço ativo ao final desta mesma década. 

Em Escala.
Para recriar com precisão o Chevrolet Engesa C-15 na versão porta-morteiro “EB21-1840”, utilizada pelo Exército Brasileiro, optamos por um modelo em die-cast na escala 1/43, produzido pela Axio em parceria com a Salvat Editora. A escolha desse modelo foi motivada pela ausência de kits ou réplicas específicas dessa viatura no mercado. O processo de construção envolveu uma série de modificações artesanais realizadas com grande atenção aos detalhes. Inicialmente, removemos a cabine original em metal, substituindo-a por uma estrutura adaptada ao padrão militar. Os para-choques frontais foram redesenhados para corresponder à robustez exigida em operações de campo, enquanto luzes e faróis de comboio, típicos do padrão militar.  Para garantir autenticidade, incorporamos um para-brisa basculante com cobertura de lona e por fim confeccionamos em scratch um morteiro de 81 mm. Para finalizar, aplicamos decais personalizados do conjunto “Exército Brasileiro 1942-1982”, produzidos pela Decais Eletric Products. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura do Exército Brasileiro em todos seus veículos militares desde a Segunda Guerra Mundial até a o final do ano de 1982. As picapes da família Chevrolet Engesa 4X4, passaram a empregar no novo esquema tático de camuflagem em dois tons e novas marcações militares a partir do ano seguinte, permanecendo nesta nova sistemática até a desativação dos últimos veículos em meados da década de 1990.


Bibliografia : 
- Chevrolet Colection – C-10 Salvat Editora
- Grandes Brasileiros: Engesa EE-34 – Chevrolet C-15 Revista Quatro Rodas 201
- Manual Técnico – Exército Brasileiro 1976