H-13J ell 47J

História e Desenvolvimento. 
A Segunda Guerra Mundial (1939–1945), não apenas acelerou inovações em armamentos convencionais, mas também catalisou o nascimento da aviação de asas rotativas para fins militares. Embora seu emprego tenha sido limitado devido à imaturidade da tecnologia e às prioridades de produção em massa, esses primeiros modelos pavimentaram o caminho para a revolução rotativa pós-guerra. A Alemanha Nazista, sob o regime de Adolf Hitler e com a Luftwaffe (Força Aérea Alemã) buscando vantagens táticas inovadoras, liderou os primeiros passos práticos no uso militar de helicópteros. Em meados de 1940, a Flettner Flugzeugbau GmbH, fundada pelo engenheiro Anton Flettner – um inventor austríaco-alemão conhecido por seus rotores entrelaçados inspirados em princípios aerodinâmicos avançados –, introduziu o Flettner Fl 282 “Kolibri” (beija-flor, em alemão). Esse helicóptero monoplace, com cockpit aberto exposto aos elementos, rotores interlaced (que se entrelaçavam sem colisão, reduzindo vibrações) e um motor Bramo Sh 14A de 150 cavalos, era uma maravilha de engenharia compacta para a época, pesando apenas 1.000 kg e capaz de velocidades de até 150 km/h. Inicialmente concebido para missões logísticas navais, o “Kolibri” foi planejado para transportar cargas leves e passageiros entre navios da Kriegsmarine (Marinha Alemã), facilitando comunicações em alto mar durante a Batalha do Atlântico (1939–1945). Pilotos da Luftwaffe, como a teste Hanna Reitsch – uma aviadora lendária que voou protótipos em condições arriscadas, tornando-se um símbolo de determinação feminina na aviação nazista –, relataram a manobrabilidade impressionante da aeronave, que podia pairar como um pássaro sobre conveses instáveis. Uma versão aprimorada, o Fl 282 B-2, adicionou um segundo assento para um observador, transformando-o em plataforma de reconhecimento avançado. Os testes de voo do Flettner Fl 282 demonstraram um potencial crescente, o que levou o governo alemão a encomendar a produção de mil unidades à Bayerische Motoren Werke AG (BMW). Contudo, a intensificação dos bombardeios aliados contra a infraestrutura industrial alemã, especialmente a partir de 1943, devastou grande parte do parque fabril aeronáutico do país. Como resultado, os recursos foram redirecionados para a produção de aeronaves de combate convencionais, limitando a fabricação do Fl 282 a apenas 24 unidades entregues. Apesar do número reduzido, o “Kolibri” representou um marco no uso militar de helicópteros, evidenciando sua versatilidade em missões de observação e transporte. Do lado dos Aliados, o desenvolvimento de aeronaves de asas rotativas ganhou impulso significativo nos estágios finais da guerra. O Sikorsky R-4, projetado pela Sikorsky Aircraft Corporation sob a liderança do engenheiro Igor Sikorsky, tornou-se o primeiro helicóptero verdadeiramente funcional empregado em operações militares. Em junho de 1945, o R-4 foi destacado para o teatro de operações do Pacífico, demonstrando, mesmo em um curto período, o potencial transformador dos helicópteros em cenários de combate. Sua capacidade de realizar missões de resgate, transporte e reconhecimento abriu novas perspectivas para o futuro da aviação militar. 

Paralelamente, outros fabricantes norte-americanos começaram a explorar esse emergente nicho tecnológico. Entre eles, destacou-se a Bell Aircraft Company, que, sob a liderança do engenheiro aeronáutico Arthur Young, iniciou o desenvolvimento de um projeto ambicioso de aeronave de asas rotativas de pequeno porte. Apresentado oficialmente ao comando da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF) em 3 de setembro de 1941, o projeto culminou na criação do Bell Model 30. Com um robusto financiamento governamental, dois protótipos foram construídos, e o primeiro voo ocorreu em 26 de junho de 1943. Após um extenso programa de ensaios e testes de voo, o projeto evoluiu para uma versão aprimorada, o Bell Model 47, que se tornaria um dos helicópteros mais icônicos da história da aviação. O sucesso inicial do Bell Model 30 e as crescentes expectativas em torno do potencial das aeronaves de asas rotativas impulsionaram a Bell Aircraft Company a dar um passo estratégico na consolidação de sua expertise nesse campo emergente. Em resposta, a empresa fundou a Bell Helicopter Company, uma divisão industrial especializada dedicada exclusivamente ao desenvolvimento e produção de helicópteros. Com suas instalações estabelecidas em Fort Worth, no estado do Texas.  Foi nesse contexto que o Bell Model 47, um marco na história da aviação, realizou seu voo inaugural em 8 de junho de 1945, consolidando os avanços tecnológicos e as ambições da empresa. O Bell Model 47 era uma aeronave de design inovador, caracterizada por um sistema de rotor principal simples, composto por duas pás de madeira, e alimentada por um motor convencional Franklin. Sua estrutura consistia em uma seção tubular de aço soldado, desprovida de carenagem, o que conferia um visual minimalista, porém funcional. Um dos elementos mais distintivos do projeto era o cockpit, coberto por uma bolha de plexiglass que proporcionava uma visibilidade excepcional, essencial para a segurança e precisão na condução da aeronave. Inicialmente, essa bolha era composta por painéis removíveis, permitindo que o helicóptero fosse convertido em uma configuração de cockpit aberto. Com o tempo, a bolha passou a ser moldada em uma única peça, tornando-se a marca registrada visual do Model 47 e um símbolo de sua identidade inovadora. A primeira versão de produção, o Bell Helicopter Model 47A, alcançou um feito histórico ao receber a homologação para o mercado civil (classificação H1) em 8 de março de 1946, tornando-se oficialmente o primeiro helicóptero comercial de asas rotativas do mundo. Com capacidade para transportar um piloto e até dois passageiros, aliado a uma confiabilidade mecânica notável, o Model 47 rapidamente conquistou sucesso no mercado civil e governamental. Sua versatilidade, facilidade de operação e robustez o tornaram uma escolha ideal para uma ampla gama de aplicações, incluindo transporte, serviços de emergência e operações comerciais, consolidando a reputação da Bell como líder no setor.
Baseada no modelo civil, a versão militar do Bell 47 apresentava diferenças visuais e técnicas significativas. Entre as modificações, destacavam-se a adoção de um cone de cauda coberto com tecido, que aprimorava a aerodinâmica, e um trem de pouso equipado com quatro rodas, aumentando a estabilidade em terrenos variados. Em termos mecânicos, a aeronave foi equipada com um motor mais potente, o Franklin 6V4-178-B3 de 178hp conferindo maior desempenho em operações exigentes. O primeiro protótipo foi entregue para avaliação em abril de 1946, iniciando um rigoroso programa de ensaios em voo que testou a aeronave em diversas condições operacionais. Desse processo emergiu a versão militar inicial de produção, designada Bell H-13 Sioux. Em dezembro de 1946, um contrato inicial foi firmado para a entrega de 28 unidades do H-13 Sioux, marcando o início de sua integração nas operações militares norte-americanas. Após definida sua doutrina operacional, os primeiros Bell H-13 seriam colocados em serviço ativo atuando em tarefas de ligação e observação, e seus excelentes resultados em ação despertariam a atenção do comando da aviação naval da  Marinha dos Estados Unidos (US Navy) e da Guarda Costeira dos Estados Unidos (US Coast Guard). Após tratativas seriam firmados os primeiros contratos de produção para estes ramos das forças armadas, inicialmente se limitando a um pequeno número de aeronaves, com estas sendo idênticas a versão empregada pelo Exército dos Estados Unidos (US Army). As primeiras aeronaves destinadas a aviação naval seriam entregues no início do ano de 1948, e após o início das operações verificaria-se a necessidade de customização do modelo para atendimento aos parâmetros de operação naval. Suas missões geralmente compreendiam voos de longa duração sobre o mar aberto sem possibilidade de pousos de emergência, e neste contexto deveria-se priorizar o desempenho e consequente segurança. Com base nestas exigências,  a equipe de projeto da  Bell Helicopter Company desenvolveria a versão Bell 47D1, que passava a ser equipada com o novo motor Franklin O-335-3 que apresentava agora 200 hp de potência nominal. Apesar de manter sua capacidade de transporte de duas pessoas, teria sua carga útil aumentada para 225 kg e voltava a equipado com trem de pouso do tipo esqui, dispensando ainda a cobertura de lona na fuselagem.  As hastes horizontais de suporte dos esquis eram retas formando ângulos retos entre as hastes e os esquis, o que permitiria a colocação de uma maca em cada lado externo da aeronave para o transporte de feridos, agregando as tarefas originais de treinamento e emprego geral, a missão de evacuação aero médica o que potencializaria o valor militar da nova aeronave. Este novo modelo logo conquistaria novos contratos militares de produção, elevando rapidamente o número de células em serviço militar ativo nos anos seguintes, não só nos Estados Unidos. 

Seu batismo de fogo ocorreria na Guerra da Coreia (1950 a 1953), nos meses iniciais do conflito, particularmente durante a defesa do Perímetro de Pusan, entre agosto e setembro de 1950. Nessa fase crítica, quando as tropas da ONU foram encurraladas em uma bolsa costeira no sudeste da península, os primeiros H-13 foram destacados para missões de ligação e observação. Pilotos como o major Robert Miller, do 6º Batalhão de Transporte Médico Aerotransportado, realizaram os primeiros voos de combate em meados de agosto, transportando oficiais e mensagens entre unidades dispersas sob fogo inimigo. Esses helicópteros, com sua bolha de plexiglass icônica que oferecia visibilidade panorâmica de 360 graus, permitiram que comandantes coordenassem contra-ataques em tempo real, evitando o colapso total das linhas de defesa. Um episódio notável foi em 16 de setembro de 1950, durante a ofensiva de Incheon, quando H-13 Sioux foram usados para reconhecimento pré-invasão, mapeando posições norte-coreanas sob risco constante de artilharia. Contudo, foi no papel de evacuação médica (MEDEVAC, na sigla em inglês) que o Bell 47 brilhou com maior impacto humanitário, consolidando seu legado. A partir de outubro de 1950, com o avanço das forças das Nações Unidas -  ONU rumo ao rio Yalu, os helicópteros começaram a ser equipados com pods laterais para macas — dois de cada lado da fuselagem —, capazes de transportar até quatro feridos além do piloto e um paramédico. O primeiro uso operacional em MEDEVAC sob fogo ocorreu em 20 de novembro de 1950, na Batalha do Rio Ch'ongch'on, durante a contraofensiva chinesa. O tenente coronel Harold Towne, voando um H-13D, pousou sob tiroteio para resgatar um pelotão cercado, carregando feridos para unidades MASH (Mobile Army Surgical Hospital) próximas. A a taxa de mortalidade em combate caiu pela metade em comparação à Segunda Guerra Mundial, graças à rapidez do MEDEVAC: o que levava horas por terra agora era feito em minutos. Ao longo do conflito, mais de 700 H-13 Sioux foram produzidos e enviados ao front, realizando cerca de 70.000 missões de evacuação, com uma taxa de sobrevivência de 98% para os feridos transportados. Episódios como o resgate de 28 soldados em uma única missão pelo capitão Robert Miller em dezembro de 1951 destacam o heroísmo individual, enquanto perdas — como as 113 aeronaves abatidas ou destruídas — sublinham os riscos inerentes. Nos anos que se seguiram à sua introdução, o H-13D tornou-se o primeiro treinador padrão de aeronaves de asas rotativas, desempenhando um papel essencial na formação de pilotos para a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), o Exército dos Estados Unidos (US Army), a Marinha dos Estados Unidos (US Navy) e o Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (US Marine Corps). 
A produção do Bell 47D, abrangendo tanto as versões militares quanto civis, alcançou a marca de mil unidades entregues até 1953. Esse período marcou também o início do desenvolvimento de novas variantes, impulsionadas pela crescente demanda nos mercados civil e militar, tanto doméstico quanto internacional. Entre as versões mais notáveis estavam o Bell 47E, Bell 47F, Bell 47G, Bell 47G-2 e Bell 47H. Esta última, projetada para atender às necessidades de transporte executivo, destacava-se por sua capacidade de transportar até três pessoas, incluindo o piloto, e por incorporar um canopy totalmente fechado, que oferecia maior conforto e proteção contra as intempéries, além de reforçar a estética elegante que caracterizava o design do Bell 47. O sucesso do Bell 47 no cenário internacional durante as décadas de 1950 e 1960 foi impulsionado por parcerias estratégicas que expandiram sua presença global. A Bell Helicopter Company licenciou a produção de suas aeronaves a fabricantes estrangeiros, ampliando significativamente a escala de fabricação. Na Itália, a Agusta S.p.A., produziu um total de 1.200 unidades das versões Bell 47G e Bell 47J, atendendo a uma ampla gama de clientes militares e civis na Europa e além. No Reino Unido, a Westland Aircraft Company, fabricou 422 helicópteros da família Bell 47, consolidando a presença do modelo em mercados estratégicos do Commonwealth e em outros continentes. Em 1952 um acordo de produção sob licença seria celebrado entre a Bell Helicopter Company e a empresa japonesa Kawasaki Aircraft Enginnering, envolvendo principalmente as versões Model 47D e do Model 47G, com sua produção sendo efetivamente iniciada somente no início do ano de 1954. Este acordo contemplava as  versões militares e civis, tanto para o mercado doméstico quanto para exportação. Este programa seria descontinuado no Japão somente em meados do ano de 1976 com quatrocentos e quarenta e sete helicópteros produzidos. Esta família de aeronaves de asas rotativas se manteria em produção ininterrupta por vinte e sete anos, com a última linha sendo descontinuada somente no ano 1977.  Sua imagem seria eternizada no imaginário popular na série de TV Mash que retratava o dia a dia do serviço médico militar norte-americano durante a Guerra da Coréia. Ao todo até fins da década de 1970 seriam entregues entre versões civis e militares mais de cinco mil células, com muitas destas se mantendo operacionais até o ano de 1998. Seriam empregadas no serviço militar na  Alemanha Ocidental, Argentina, Austrália, Brasil, Canada, Colômbia, Dinamarca, Espanha, Cuba, El Salvador, Egito, Sudão, Senegal, Bolívia, Estados Unidos, Franca, Grécia, Israel, Itália, México, Noruega, Nova Zelândia, Paquistão, Paraguai, Peru, Reino Unido, Brasil, Suécia, Tailândia, Turquia e Vietnã do Sul. 

Emprego nas Força Aérea Brasileira.
Ao término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a Força Aérea Brasileira (FAB) consolidou-se como uma das mais expressivas forças aéreas do continente americano, posicionando-se como a segunda maior das Américas e a principal potência aérea do Hemisfério Sul. Esse status foi alcançado em grande parte devido ao recebimento de mais de 1.500 aeronaves militares modernas, adquiridas majoritariamente a partir de 1942, por meio do programa Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos), estabelecido pelos Estados Unidos para apoiar seus aliados durante o conflito global. Essa frota incluía aeronaves de primeira linha, como os caças-bombardeiros Republic P-47D Thunderbolt e Curtiss P-40 Warhawk, além de aviões de ataque como o Douglas A-20 Havoc e o North American B-25 Mitchell. Complementando essas capacidades ofensivas, a FAB contava com aeronaves destinadas a missões de transporte, patrulha marítima e guerra antissubmarino (ASW), o que conferia à força uma versatilidade operacional notável para a época. Apesar do cenário favorável no imediato pós-guerra, as perspectivas de médio prazo foram profundamente impactadas pela rápida evolução tecnológica na aviação militar observada no final da década de 1940. A introdução de aeronaves propelidas por motores a jato marcou uma revolução no campo da aviação, enquanto a emergência das aeronaves de asas rotativas, especialmente os helicópteros, começou a transformar as táticas e estratégias militares. Nos Estados Unidos, os primeiros modelos de helicópteros, como o Sikorsky R-4 e o Bell 47D Sioux, demonstraram sua versatilidade em operações militares, sendo empregados com sucesso em missões de transporte de pessoal, ligação, observação de campo de batalha e evacuação aeromédica durante a Guerra da Coreia (1950-1953). Esses conflitos reais serviram como prova de conceito para a eficácia dessas novas plataformas, destacando seu potencial em cenários operacionais diversos. Atento a essas transformações tecnológicas e estratégicas, o comando do Ministério da Aeronáutica (MAer) da Força Aérea Brasileira (FAB)  iniciou, no início da década de 1950, um amplo processo de planejamento e modernização. Esse esforço culminou na formulação do primeiro grande plano de reestruturação da Força Aérea, que tinha como objetivos centrais a aquisição de novos vetores aéreos e a criação de um núcleo operacional dedicado ao uso de aeronaves de asas rotativas. O estudo definiu que a missão inicial desse grupo seria focada principalmente no transporte aéreo especial, com ênfase no atendimento às necessidades de deslocamento de altas autoridades do governo federal, em operações classificadas como VIP (Very Important Person). Essa decisão refletia não apenas a necessidade de modernização tecnológica, mas também a intenção de alinhar a Força Aérea Brasileira (FAB)  às tendências globais de emprego de helicópteros em missões de alto valor estratégico, consolidando sua posição como uma força aérea de vanguarda no cenário internacional.

No contexto da modernização da Força Aérea Brasileira (FAB) no início da década de 1950, o Ministério da Aeronáutica (MAer) deu início, em fins de 1951, a um programa estratégico voltado para a aquisição de aeronaves de asas rotativas, marcando um passo significativo na incorporação de tecnologias inovadoras às operações da força. Após um rigoroso processo de avaliação técnica, a escolha recaiu sobre o modelo Bell 47D1, fabricado pela Bell Helicopter Company, uma empresa norte-americana reconhecida por sua liderança no desenvolvimento de helicópteros. Este modelo, equipado com o motor Franklin O-335 de 178 cavalos de potência, representava, à época, o ápice da tecnologia de helicópteros militares, sendo amplamente utilizado pelas forças armadas dos Estados Unidos em suas diversas ramificações. As negociações comerciais culminaram, em 25 de março de 1952, na assinatura de um contrato com o representante da Bell Helicopter Company no Brasil. O acordo contemplava a aquisição de quatro aeronaves novas, diretamente da linha de produção, sem customizações específicas, o que permitiu agilizar o processo de fabricação e entrega. Além das aeronaves, o contrato incluía serviços essenciais, como o treinamento de tripulações e técnicos brasileiros, bem como o fornecimento de peças de reposição, garantindo a sustentabilidade operacional das unidades adquiridas. A escolha por um modelo de série, sem modificações, refletiu a urgência do MAer em integrar rapidamente essa nova capacidade à FAB, alinhando-se às tendências globais de modernização militar. A produção das quatro aeronaves foi concluída em novembro de 1952 nas instalações da Bell Helicopter Company, localizadas em Fort Worth, no estado do Texas. Nesse mesmo período, oficiais brasileiros foram enviados à fábrica para realizar a inspeção técnica das aeronaves, garantindo que atendessem aos padrões exigidos. Após a aprovação, os helicópteros foram desmontados e preparados para o transporte marítimo ao Brasil. Nos primeiros dias de 1953, as aeronaves chegaram ao porto do Rio de Janeiro, de onde foram trasladadas por via terrestre até o Aeroporto do Galeão. A montagem das unidades foi realizada nas instalações da Fábrica do Galeão (FGL), sob a supervisão de técnicos da Bell Helicopter Company, que trabalharam em conjunto com o pessoal da empresa estatal brasileira responsável pela manutenção e operação das aeronaves. Durante o processo de montagem, constatou-se que uma das quatro células sofrera danos significativos durante o transporte marítimo. Após análises detalhadas, os danos foram considerados de tal gravidade que a recuperação da aeronave foi classificada como economicamente inviável. Como resultado, essa unidade não foi montada, e seus componentes foram cuidadosamente separados e armazenados para servir como peças de reposição, garantindo o suporte logístico às três aeronaves restantes. Esse episódio, embora representasse uma perda inicial, não comprometeu os objetivos estratégicos do programa, que visava estabelecer as bases para a operação de helicópteros, com foco inicial no transporte aéreo especial (VIP) para autoridades do governo federal.
A incorporação dos helicópteros Bell 47D1 na Força Aérea Brasileira (FAB), designados localmente como H-13D e registrados com as matrículas FAB 8500 a FAB 8502, marcou um marco significativo na modernização da força no início da década de 1950. Essas aeronaves, recebidas em 1953, foram inicialmente alocadas ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, onde passaram a integrar a Seção de Aeronaves de Comando (SAC). Subordinada ao Quartel General da III Zona Aérea, a SAC tinha como missão exclusiva o transporte aéreo de autoridades do governo brasileiro, atendendo às demandas de deslocamento de alto escalão em operações classificadas como VIP (Very Important Person). Essa unidade, ao longo do tempo, evoluiria para o Esquadrão de Transporte Especial (ETE), que posteriormente se tornaria o embrião do Grupo de Transporte Especial (GTE), consolidando a operação de aeronaves de asas rotativas no âmbito do 2º Esquadrão. Os helicópteros H-13D foram entregues com características técnicas avançadas para a época, incluindo a inovadora provisão para o uso de kits de flutuadores intercambiáveis, um equipamento até então inédito no Brasil, que podia ser alternado com os tradicionais esquis de pouso. Essa capacidade ampliava a versatilidade das aeronaves, permitindo operações em ambientes diversos, como áreas alagadas ou próximas a corpos d’água. Além disso, os H-13D estavam equipados com suportes laterais para a instalação de um par de macas externas, possibilitando seu emprego em missões de evacuação aeromédica (MEDEVAC). Essa configuração foi fundamental para o desenvolvimento inicial da doutrina operacional de missões de busca e salvamento (SALVAEREO) na Força Aérea Brasileira (FAB), que começava a estruturar capacidades voltadas para operações humanitárias e de resgate em cenários complexos. Com o objetivo de aprimorar o transporte VIP e atender às crescentes demandas por conforto e eficiência, o Ministério da Aeronáutica (MAer) autorizou, em 1955, a aquisição de helicópteros do modelo Bell 47J, uma variante projetada especificamente para missões de transporte de altas autoridades. A entrega dessas novas aeronaves, iniciada em 1956, permitiu uma reestruturação operacional na Força Aérea Brasileira (FAB). Com a chegada do Bell 47J, os helicópteros H-13D foram gradativamente redirecionados para missões de busca e salvamento (SAR – Search and Rescue), aproveitando sua versatilidade e os equipamentos especializados de que dispunham. Nesse contexto, as três unidades operacionais do H-13D foram transferidas para o Quartel General da 3ª Zona Aérea (QG3ºZAé), também sediado no Rio de Janeiro, onde permaneceram em operação até março de 1958.

A introdução dos Bell H-13J, especializados no transporte de autoridades, permitiu uma reorganização estratégica das operações do Esquadrão Transporte Especial (ETE). Com a chegada desses helicópteros, os veteranos Bell H-13D, até então utilizados em missões variadas, foram redirecionados exclusivamente para operações de busca e salvamento (SAR). Essa redistribuição de funções otimizou o uso dos recursos disponíveis, garantindo maior especialização nas missões realizadas. Em 1958, os Bell H-13D foram transferidos do Esquadrão Transporte Especial (ETE) para o Quartel General da 3ª Zona Aérea (QG3ºZAé), sediado no Rio de Janeiro. Esses helicópteros permaneceram em operação no QG3ºZAé até março de 1958, quando foram realocados para a 2ª Esquadrilha de Ligação e Observação (2ª ELO), baseada na Base Aérea do Galeão. Essa transferência refletiu a necessidade de adequar as capacidades operacionais às demandas específicas de cada unidade. Com a transferência da capital federal para Brasília, em 1960, o Esquadrão Transporte Especial (ETE) foi realocado para a nova capital. A partir de 1961, os helicópteros Bell H-13J passaram a operar exclusivamente a partir da Base Aérea de Brasília, concentrando-se no transporte de autoridades de primeiro e segundo escalão do governo brasileiro. Entre os usuários frequentes desses helicópteros destacaram-se o presidente Juscelino Kubitschek, responsável pela construção de Brasília, e seu sucessor, o presidente Artur da Costa e Silva. Os Bell H-13J desempenharam um papel crucial no transporte VIP, garantindo agilidade e acesso a áreas de difícil alcance. Contudo, ao longo da década de 1960, tornou-se evidente que essas aeronaves de asas rotativas, embora confiáveis, estavam se tornando obsoletas para a criticidade das missões de transporte de altos mandatários, especialmente no que diz respeito à segurança e ao desempenho. Reconhecendo as limitações dos Bell H-13J, o Ministério da Aeronáutica (MAer) iniciou, na década de 1960, estudos para a substituição da frota de helicópteros destinados ao transporte especial de autoridades. Esse processo culminou, em 1967, na aquisição de três helicópteros Bell 206 Jet Ranger, designados pela Força Aérea Brasileira (FAB) como VH-4 e matriculados com os números FAB 8570, FAB 8571 e FAB 8572. Essas aeronaves, recebidas a partir de 15 de julho de 1968, representaram um avanço significativo em termos de tecnologia, segurança e capacidade operacional. O uso dos helicópteros Bell H-13J pela Força Aérea Brasileira representou um marco na história do transporte especial de autoridades no Brasil, especialmente durante a transição da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília. Apesar de sua obsolescência ao final da década de 1960, esses helicópteros desempenharam um papel fundamental em missões de alta relevância.
Com a conclusão da transição das missões de transporte especial de autoridades (VIP - Very Important Person) para os recém-adquiridos helicópteros Bell 206 Jet Ranger em 1968, as células remanescentes dos helicópteros Bell H-13J foram realocadas para novas funções dentro da Força Aérea Brasileira (FAB). Em outubro de 1968, essas aeronaves foram transferidas para a Academia da Força Aérea (AFA), localizada em Pirassununga, no interior do estado de São Paulo. Essa transferência marcou uma nova fase na utilização dos Bell H-13J, que passaram a desempenhar papéis distintos, focados em missões de busca e salvamento (SAR - Search and Rescue), apoio à instrução aérea dos cadetes da Academia da Força Aérea (AFA e tarefas de ligação em benefício do comando da instituição.  Na AFA, os Bell H-13J foram integrados às operações com o objetivo de atender às demandas de treinamento e suporte operacional. As missões de busca e salvamento foram priorizadas, aproveitando a versatilidade e a confiabilidade dessas aeronaves de asas rotativas. Além disso, os helicópteros desempenharam um papel crucial no apoio à formação dos cadetes, sendo utilizados em exercícios práticos de instrução aérea. As tarefas de ligação, que envolviam o transporte de pessoal e materiais entre diferentes unidades ou instalações da Força Aérea Brasileira (FAB), também foram desempenhadas com eficiência, reforçando a relevância operacional dos Bell H-13J no contexto da Academia da Força Aérea (AFA). Os Bell H-13J permaneceram em serviço ativo até meados de 1974, quando a última aeronave operacional foi retirada do serviço. Uma das células, a Bell 47J H-13J registrada com a matrícula FAB 8509, foi selecionada para preservação histórica. Em 1975, essa aeronave foi transladada em voo para o Museu Aeroespacial (MUSAL), localizado no Rio de Janeiro. A preservação da FAB 8509 no acervo do MUSAL marcou o encerramento de uma carreira de 16 anos de serviço na Força Aérea Brasileira, período durante o qual os Bell H-13J desempenharam papéis essenciais em missões de transporte VIP, busca e salvamento, instrução aérea e ligação.

Em Escala.
Para representarmos o  Bell 47J H-13J " FAB 8512 " empregamos o  novo kit da LF Models na escala 1/72, modelo que apesar de apresentar pequenos problemas na qualidade de injeção do plástico,  apresentas um bom detalhamento para a escala contando com peças em resina e photoetched. Salientando que recentemente este mesmo fabricante lançou um modelo na escala 1/48. Empregamos decais originais presentes no kit. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão com qual as aeronaves foram recebidas em 1958, seguindo o esquema aplicado a aeronaves de transporte de especial de autoridades VIP (Very Important Person), mantendo este padrão até sua retirada de serviço em 1974. Empregamos tintas e vernizes produzidos pela Tom Colors.

Bibliografia :
- Bell H-13 Sioux- https://en.wikipedia.org/wiki/Bell_H-13_Sioux
- Bell H-13J - https://airandspace.si.edu/collection-objects/bell-h-13j/nasm_A19690013000
- História da Força Aérea Brasileira , Prof Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.html
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 Jackson Flores Jr

Série D 400-900 Dodge (VTNE-VTE)

História e Desenvolvimento. 
Em 1900, os irmãos John Francis Dodge e Horace Elgin Dodge iniciaram um projeto ambicioso para desenvolver um automóvel inovador, distinto dos modelos disponíveis no mercado norte-americano. Nos primeiros anos, a produção era predominantemente artesanal, com dezenas de veículos fabricados manualmente. Em 1914, a empresa foi formalmente constituída como Dodge Motors Company, adotando processos de produção em série que ampliaram significativamente sua capacidade operacional. Com o início da produção em larga escala, a Dodge Motors Company alcançou rápida notoriedade no mercado norte-americano de carros de passeio. A qualidade e a confiabilidade de seus veículos asseguraram uma participação expressiva no setor, gerando recursos financeiros que viabilizaram investimentos em novos segmentos e consolidaram a marca como referência no mercado automotivo. O falecimento dos irmãos Dodge em 1920 representou um divisor de águas na história da empresa, levando a mudanças significativas em sua orientação estratégica e estrutura organizacional. Apesar desse impacto, a Dodge continuou a operar com foco em inovação e crescimento, preparando o terreno para sua expansão em novos mercados. Em 1928, a Dodge Motors Company foi adquirida pela Chrysler Corporation, passando a integrar um conglomerado que incluía marcas como De Soto, Plymouth e Fargo. Sob a liderança do empreendedor Walter P. Chrysler, a marca Dodge manteve sua identidade distinta e continuou a expandir sua presença no mercado, beneficiando-se da estrutura e dos recursos do grupo. No final da década de 1920, a Dodge direcionou esforços para o desenvolvimento de veículos utilitários leves voltados para o mercado civil. Esses modelos foram projetados com base nas plataformas de veículos comerciais de passageiros, uma estratégia que minimizou os custos de projeto e produção ao aproveitar o ferramental existente. Destinados ao transporte de cargas e atividades pesadas, incluindo operações fora de estrada, os utilitários alcançaram êxito comercial, reforçando a reputação da Dodge como símbolo de robustez e versatilidade. O crescimento contínuo das vendas foi interrompido pela crise econômica de 1929, que impôs desafios financeiros significativos à Dodge. A aquisição pela Chrysler Corporation, consolidada no ano seguinte, proporcionou a reestruturação necessária para a continuidade das operações, integrando a Dodge ao portfólio de marcas do conglomerado. Na primeira metade da década de 1930, o cenário geopolítico global, marcado pela ascensão do partido nazista na Europa e o início de uma corrida armamentista, criou oportunidades no mercado militar. A diretoria da Dodge Motors Company identificou o potencial de atender às demandas das forças armadas e, em 1934, iniciou o desenvolvimento de protótipos de caminhões militares de médio e grande porte. Esses projetos foram fundamentados na experiência prévia da empresa, que forneceu veículos leves ao governo dos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial. O primeiro resultado desses esforços foi o caminhão experimental K-39-X-4, um modelo com tração nas quatro rodas e capacidade de 1,5 toneladas, apresentado ao comando do Exército dos Estados Unidos (US Army). Esse veículo marcou o início de uma linha de sucesso no segmento de caminhões militares, evidenciando a capacidade da Dodge de atender às exigências do setor de defesa. 

O êxito dos caminhões militares motivou a Dodge a diversificar sua linha de modelos para atender às crescentes demandas do mercado. Em 1938, a empresa inaugurou a planta industrial Warren Truck Assembly, em Michigan, dedicada à produção de caminhões leves e médios. Essa instalação fortaleceu a capacidade produtiva da Dodge, consolidando sua posição como um fornecedor estratégico de veículos militares e civis. Em 1939, a Dodge Motors Company apresentou uma linha redesenhada de picapes e caminhões, caracterizada por um design moderno e designada como "Job-Rated". Essa linha foi desenvolvida para atender a uma ampla gama de tarefas e trabalhos, combinando funcionalidade e estética contemporânea. O lançamento marcou um avanço significativo na oferta de veículos utilitários, reforçando a reputação da Dodge no mercado civil e preparando a empresa para demandas futuras no setor militar. Na mesma época, o agravamento das tensões geopolíticas na Europa e no Pacífico evidenciou a necessidade de modernização e reequipamento das forças armadas dos Estados Unidos. O Exército dos Estados Unidos (US Army) estabeleceu um padrão para veículos de transporte, dividindo-os em cinco classes com base na capacidade de carga útil: ½ tonelada, 1½ tonelada, 2½ toneladas, 4 toneladas e 7½ toneladas. Esse padrão visava atender às exigências operacionais em um cenário de possíveis conflitos globais. Em junho de 1940, o Quartel-General do Comando do Exército dos Estados Unidos (US Army Quartermaster Corps) testou e aprovou três caminhões comerciais padrão com tração nas quatro rodas: o Dodge de 1½ toneladas 4x4, o GMC de 2½ toneladas 6x6 e o Mack de ½ tonelada 6x6. Esses veículos foram selecionados para atender às necessidades logísticas e operacionais do Exército, estabelecendo as bases para a produção em larga escala. No verão de 1940, a Dodge-Fargo Division da Chrysler Corporation recebeu um contrato para fornecer 14.000 unidades de caminhões de ½ tonelada com tração integral 4x4, designados pela empresa como série VC. A produção em série teve início em novembro de 1940, e, com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, a designação foi alterada para série WC (Weapons Carriers). Esses veículos substituíram os modelos Dodge VC-1 e VC-6 de ½ tonelada, pertencentes à série original G505, no Exército norte-americano. Os caminhões Dodge WC de ½ tonelada, produzidos em 1940, incluíam os modelos VF-401 a VF-407, equipados com o motor tipo T-203 da Dodge G-621. Esses veículos eram variações dos protótipos pré-guerra RF-40 (-X) e TF-40 (-X) (ou T-200/T-201), montados em um chassi com distância entre eixos de 143 polegadas (3,63 metros). Durante 1940, a Dodge fabricou mais de 6.000 unidades sob dois contratos com o governo norte-americano, demonstrando sua capacidade de atender às demandas militares em larga escala. Entre o final de 1940 e o início de 1942, foram produzidas aproximadamente 82.000 unidades de caminhões de ½ tonelada com tração 4x4, sob diversos contratos com o Departamento de Guerra dos Estados Unidos. A produção foi realizada tanto pela Dodge Motors Company quanto pela Fargo Motor Car Company. A família Dodge WC alcançou um total de 38 variantes. Um aspecto fundamental da série WC era a intercambialidade de 80% das peças de reposição entre as diferentes versões e modelos produzidos pela Dodge. Essa padronização facilitou significativamente a logística de suprimentos e os processos de manutenção nos diversos fronts de batalha durante a Segunda Guerra Mundial, garantindo maior eficiência operacional.
O fim da Segunda Guerra Mundial resultou na desmobilização imediata das indústrias de defesa norte-americanas, com o cancelamento de contratos de produção militar. Para a Dodge Motors Company, esse cenário exigiu a reorientação estratégica para novos nichos no mercado civil e comercial, além de um ambicioso plano de internacionalização voltado para mercados emergentes, com destaque para a América Latina. A Dodge já estava presente no Brasil desde a década de 1930, por meio da empresa carioca Chrysbraz Comercial Ltda., controlada pelos acionistas da Mesbla S/A. Essa operação comercializava modelos Chrysler, Dodge, Plymouth e Fargo, importados no formato CKD (Completely Knocked Down) e montados localmente. No final da década de 1940, a Dodge retomou esse modelo de parceria, firmando contratos em 1947 com três empresas regionais: Companhia Distribuidora Geral, em São Bernardo do Campo, São Paulo; Cipan Comercial, no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro; Cirei Exportações e Importações S.A., em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A Brasmotor, a mais estruturada dessas empresas, comercializou, em um período de oito anos, mais de 3.500 automóveis e aproximadamente 12.000 veículos comerciais, consolidando a presença da marca no mercado brasileiro. Em 1956, o Governo Federal brasileiro criou o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA), um programa que oferecia incentivos significativos para o estabelecimento de uma indústria automotiva nacional. Apesar do atrativo pacote de benefícios, a diretoria da Chrysler Corporation, controladora da Dodge, não demonstrou interesse imediato. Propostas para a instalação de uma fábrica conjunta, apresentadas pela Brasmotor em 1956, e negociações com a Willys em 1957 para a produção local de 6.000 unidades anuais do Plymouth Savoy, com 65% de nacionalização, foram rejeitadas. O projeto Chrysler-Willys do Brasil S.A., embora autorizado pelo GEIA em dezembro de 1957, não foi concretizado. A chegada da Chrysler Corporation ao Brasil ocorreu indiretamente por meio da Simca do Brasil, uma subsidiária da Société Industrielle Mécanique et Carrosserie Automobile (Simca Francesa). Em 1958, a Simca estabeleceu uma planta fabril em São Bernardo do Campo, São Paulo, alinhada aos incentivos do GEIA. Em 1963, a Chrysler adquiriu a matriz francesa da Simca, e, em 1966, assumiu o controle da Simca do Brasil. A partir de agosto de 1967, a empresa passou a operar como Chrysler do Brasil S.A. Sob a gestão da Chrysler do Brasil, o portfólio inicial incluía os modelos Simca Chambord, Simca Alvorada e Simca Jangada. Esses veículos passaram por uma revisão técnica abrangente, com melhorias no controle de qualidade e a introdução de uma garantia inédita de 36.000 km ou dois anos de uso. Essa reestruturação resultou em um aumento expressivo nas vendas, com o primeiro trimestre de 1968 registrando um crescimento de 220% em relação ao mesmo período do ano anterior. O sucesso comercial criou condições para o planejamento de novos lançamentos. Em junho de 1968, a Chrysler confirmou o Dodge Dart como o próximo modelo a ser introduzido no mercado brasileiro, visando competir no segmento de automóveis de origem Chrysler. Para o segmento de veículos compactos, a empresa considerou o Simca 1000 e o Hillman Imp, ambos com motor traseiro. Contudo, a fábrica de São Bernardo do Campo não dispunha de espaço suficiente para a produção desses modelos. A Chrysler do Brasil optou por priorizar o segmento de carga e utilitários, considerando o forte mercado nacional para esses veículos. A produção foi iniciada em 1967 em uma planta industrial recém-adquirida em Santo André, São Paulo, anteriormente operada pela International Harvester Corporation, que encerrou suas atividades no Brasil em 1964. 

Os primeiros modelos lançados sob a marca Dodge foram voltados para aplicações comerciais e industriais, alinhando-se às demandas do mercado brasileiro. A entrada da Chrysler do Brasil S.A. no mercado brasileiro marcou um momento significativo para a indústria automotiva nacional, com a introdução de uma linha de veículos de carga projetados para atender às demandas do mercado. Este relatório detalha a estreia da empresa no Salão Internacional do Automóvel de 1968, a apresentação dos modelos Dodge D-100, D-400 e D-700, suas especificações técnicas e o impacto de sua chegada no cenário competitivo brasileiro. Em novembro de 1968, a Chrysler do Brasil S.A. fez sua estreia oficial no mercado brasileiro durante o Salão Internacional do Automóvel, realizado em São Paulo. A empresa apresentou três modelos de veículos de carga, abrangendo diferentes categorias de capacidade: Dodge D-100: Picape com capacidade de 700 kg; Dodge D-400: Caminhão leve com capacidade de 3,5 toneladas; Dodge D-700: Caminhão médio com capacidade de 8 toneladas. A exposição destacou o compromisso da Chrysler com o mercado brasileiro, posicionando a marca Dodge como uma concorrente robusta no segmento de veículos comerciais. O primeiro modelo a chegar às concessionárias, em maio de 1969, foi o Dodge D-700. Com um design de inspiração norte-americana, caracterizado por uma cabine recuada, o veículo era equipado com o motor a gasolina Dodge V8 318, reconhecido como o maior e mais potente motor a gasolina produzido no Brasil até então. Suas principais especificações incluíam: Motor: V8 318, 5.212 cm³, bloco e cabeçote de ferro, comando de válvulas no bloco acionado por corrente metálica, carburador de corpo duplo, diâmetro de 99,3 mm e curso de 84,1 mm; Potência e Torque: 198 cv a 4.200 rpm e 42 kgfm a 2.400 rpm; Transmissão: Caixa manual de quatro marchas (opcionalmente cinco, com a primeira não sincronizada), reduzida com acoplamento elétrico; Suspensão: Dependente, tipo eixo rígido com feixe de molas nos dois eixos; Freios: Hidráulicos com assistência a vácuo, a tambor nas quatro rodas; Direção: Tipo rosca sem fim, não assistida; Tanque de Combustível: Capacidade de 104 litros; Chassi: Disponível em três comprimentos de entre-eixos, variando de 3,68 m a 5,00 m. O Dodge D-700 foi projetado para atender às demandas de transporte de cargas pesadas, destacando-se pela robustez e confiabilidade. Em agosto de 1969, a Chrysler lançou o Dodge D-400, posicionado como um concorrente direto do Ford F-350, que dominava o segmento de caminhões leves por uma década. Lançado como parte da linha 1970, o D-400 compartilhava o motor V8 318 de 5,2 litros, ajustado para entregar 203 cv, tornando-o o caminhão a gasolina mais potente do mercado brasileiro. Suas especificações incluíam: Motor: V8 318, 5.212 cm³, com 203 cv; Transmissão: Caixa manual de quatro marchas, com a primeira não sincronizada; Tanque de Combustível: Capacidade de 68 litros; Suspensão, Freios e Direção: Similares ao D-700, com suspensão de eixo rígido, feixe de molas, freios a tambor e direção tipo rosca sem fim. O D-400 foi bem recebido, consolidando a presença da Dodge no segmento de caminhões leves. Em novembro de 1969, a picape Dodge D-100 foi introduzida no mercado. Equipada com o mesmo motor V8 318 de 5,2 litros, ajustado para 198 cv, a D-100 apresentava: Transmissão: Caixa manual de três marchas sincronizadas; Suspensão: Convencional, com eixos rígidos e molas semi-elípticas; Capacidade de Carga: 700 kg. A picape foi projetada para atender às necessidades de transporte leve, combinando desempenho e praticidade. 
Em janeiro de 1970, a linha 1970 trouxe uma novidade significativa para o Dodge D-700: a introdução do motor Perkins a diesel de seis cilindros e 5,8 litros, oferecendo maior eficiência para operações de carga pesada. Em outubro do mesmo ano, a Chrysler lançou o Dodge D-900, que apresentava melhorias como: Rodas: Raiadas, com para-choques mais largos; Transmissão: Câmbio manual de cinco marchas; Direção: Hidráulica, disponível como opcional; Freios: Acionados a ar; Motores: Opções V8 318 de 5,2 litros a gasolina e Perkins de 5,8 litros a diesel. O D-900 foi projetado para atender a demandas mais exigentes, reforçando a competitividade da linha Dodge. A introdução dos modelos D-100, D-400, D-700 e, posteriormente, D-900 posicionou a Chrysler do Brasil como uma forte concorrente no mercado de veículos de carga. A combinação de motores potentes, designs robustos e opções de configuração versáteis permitiu à Dodge atender a uma ampla gama de necessidades comerciais, desafiando marcas estabelecidas como a Ford. A rápida aceitação dos modelos no mercado brasileiro evidenciou a eficácia da estratégia da Chrysler em priorizar o segmento de carga e utilitários. A década de 1970 foi marcada por mudanças significativas na indústria automotiva brasileira, impulsionadas por fatores como a crise do petróleo e transformações no mercado corporativo. Em resposta à crise do petróleo, que incentivou o desenvolvimento de motores mais eficientes, a Chrysler do Brasil introduziu, na linha 1976, o Dodge D-400 equipado com um motor a diesel Perkins 4236 de 3,9 litros. As especificações técnicas do motor incluíam: Cilindrada: 3.860 cm³, com diâmetro de 98,4 mm e curso de 127 mm; Taxa de Compressão: 16:1; Sistema de Injeção: Bomba injetora de atuação direta; Potência e Torque: 90 cv a 3.000 rpm e 30 kgfm a 1.500 rpm (valores brutos). Esse motor, posteriormente utilizado no Volkswagen 6-80 e no Chevrolet D-10, destacou-se pela eficiência e confiabilidade, atendendo às demandas do mercado por veículos de carga mais econômicos. No mesmo período, o Dodge D-900 foi substituído pelo Dodge D-950, que manteve as opções de motores disponíveis, incluindo o V8 318 de 5,2 litros a gasolina e o Perkins de 5,8 litros a diesel. O D-950 trouxe melhorias incrementais, mantendo a robustez característica da linha Dodge. Em julho de 1979, a Volkswagenwerk, proprietária da Volkswagen do Brasil, anunciou a aquisição de 67% das ações da Chrysler do Brasil, incluindo suas fábricas e os direitos de produção de seus veículos no país. A transação, formalizada em janeiro de 1979, surpreendeu o setor automotivo brasileiro. Em novembro do mesmo ano, a Volkswagenwerk adquiriu os 33% restantes, assumindo o controle total da empresa. O principal objetivo da Volkswagen era utilizar a infraestrutura industrial da Chrysler do Brasil para ingressar no mercado de veículos de carga, um segmento no qual a empresa ainda não tinha presença global significativa. Apesar das declarações iniciais da Volkswagen sobre a continuidade da linha Dodge, a estratégia de longo prazo priorizava a substituição desses modelos por novos caminhões desenvolvidos sob a marca Volkswagen. Em fevereiro de 1981, a razão social da Chrysler do Brasil foi alterada para Volkswagen Caminhões, marcando o fim da identidade Chrysler no mercado brasileiro. Nos anos seguintes, a linha Dodge Série D, que incluía modelos como o D-400, D-700 e D-950, foi gradualmente descontinuada. A infraestrutura industrial adquirida foi redirecionada para a produção da primeira geração de caminhões Volkswagen, alinhada com a estratégia global da empresa de expandir sua presença no segmento de veículos comerciais. 
Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
Durante o inicio da Segunda Guerra Mundial, preocupado com a possibilidade de uma invasão do continente americano pelas forças do Eixo, o governo norte-americano sob a gestão do presidente Franklin D Roosevelt  incentivou a participação do Brasil no esforço de guerra aliado. Como contrapartida, o Brasil obteve acesso a vantagens estratégicas como : Acordos bilaterais de comércio: Fortalecimento das relações econômicas com os Estados Unidos. Acesso ao programa  Leand & Lease Bill Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos): Uma linha de crédito de US$ 100 milhões para aquisição de equipamentos militares modernos, incluindo armamentos, aeronaves, veículos blindados e carros de combate. Entre 1942 e 1945, o Exército Brasileiro recebeu mais de 5.000 caminhões militares de diversos modelos, como GMC CCKW, Diamond T, US White Corbitt Cargo, Ward La France, Chevrolet Série G, e Studebaker US6G. Esses veículos proporcionaram uma capacidade significativa de mobilização de tropas e cargas, modernizando as operações logísticas da  Força Terrestre. Na década de 1950, a frota de caminhões adquirida durante a guerra enfrentou sérios problemas operacionais, decorrentes de: Desgaste natural: O uso intensivo durante e após o conflito comprometeu a condição das viaturas. Dificuldade de manutenção: A produção dos modelos recebidos foi descontinuada nos Estados Unidos, dificultando a importação de peças de reposição essenciais. Essa situação gerou preocupações críticas no comando do Exército Brasileiro, pois a redução da capacidade de transporte ameaçava diretamente a prontidão operacional. A necessidade de soluções emergenciais tornou-se prioritária para manter a funcionalidade das forças terrestres. A aquisição de uma nova frota de caminhões militares, como os modelos REO M-34 e M-35 com tração 4x4 e 6x6, foi considerada a solução ideal para substituir os veículos obsoletos. No entanto, o alto custo de tal investimento estava fora do alcance orçamentário do Exército Brasileiro na época. Estudos mais realistas resultaram em três estratégias complementares: Aquisição limitada de caminhões modernos: Aquisição:  de um pequeno número de caminhões militares modernos como os norte-americanos REO M-34, visando atender às necessidades mais urgentes com equipamentos atualizados -Repotencialização de frotas existentes: Estudos para modernizar e remotorizar os caminhões GMC CCKW e Studebaker US6G, prolongando sua vida útil por meio de reformas e atualizações -Adoção de caminhões comerciais militarizados: Utilização de veículos comerciais adaptados para cumprir missões secundárias, oferecendo uma solução econômica e imediata. Mesmo com esta pauta na mesa,  o Exército Brasileiro enfrentou desafios significativos para manter sua capacidade operacional devido à obsolescência de sua frota de caminhões militares. Assim para  recuperar a capacidade logística do Exército Brasileiro, três alternativas foram consideradas: aquisição de novos caminhões militares, repotencialização de veículos existentes, e adoção de caminhões comerciais militarizados. 

Contudo, os estudos para modernizar os caminhões GMC CCKW e Studebaker US6G foram descartados devido a: Alto custo de implementação: Os investimentos necessários excediam as capacidades orçamentárias. Falta de expertise técnica: O Brasil não dispunha de experiência prévia em programas de modernização de tal escala. O cancelamento dessa iniciativa intensificou a necessidade de ampliar a aquisição de caminhões comerciais militarizados, que poderiam complementar a frota militar, composta majoritariamente por veículos 6x6 projetados para operações fora de estrada. A adoção de caminhões comerciais militarizados visava liberar a frota 6x6 para missões fora de estrada, destinando os novos veículos a funções secundárias, como transporte em ambientes urbanos e rodoviários. Esse conceito já havia sido implementado pelo Exército Brasileiro desde a década de 1930, com o uso de modelos como Chevrolet 112 Tigre, Chevrolet 137 Comercial, Chevrolet Gigante 937, e Opel Blitz II, todos adaptados para operações militares. A introdução em larga escala de caminhões comercialmente militarizados permitiu uma redistribuição eficiente dos recursos logísticos, otimizando a utilização da frota existente e garantindo a continuidade das operações. Para apoiar a indústria automotiva nacional, o Ministério do Exército optou por veículos produzidos pela Fábrica Nacional de Motores (FNM), que fabricava dois modelos de caminhões médios: o FNM D-9500 e o FNM D-11000. Após avaliação, o FNM D-11000 foi selecionado devido às suas características estruturais, que atendiam aos requisitos para militarização. As principais especificações do modelo incluíam: Robustez estrutural: Projetado para transportar cargas pesadas em estradas precariamente pavimentadas e terrenos irregulares -  Chassi reforçado: Equipado com sete travessas de reforço forjadas em aço de alta resistência, garantindo durabilidade e capacidade de suportar condições adversas -  Adequação ao uso militar: A construção robusta do D-11000 oferecia as condições necessárias para adaptações destinadas a operações militares. A estratégia de redistribuir a reduzida frota de caminhões militares 6x6 para missões fora de estrada e utilizar veículos comerciais em funções secundárias demonstrou pragmatismo e eficiência.   A partir de 1964, o Exército Brasileiro passou a adquirir a nova linha de caminhões Chevrolet C-60 e Ford F-600 , disponíveis nas configurações de tração 4x2 e 6x6.  Reconhecendo a importância de aumentar a capacidade operacional dos caminhões, especialmente em ambientes fora de estrada, o comando do Exército Brasileiro buscou implementar um novo esforço estratégico. Novamente em função do baixo orçamento existente, a solução deveria ser doméstica, passando pela aquisição de novos caminhões militarizados de fabricação nacional, porém estes novos veículos deveriam realmente incorporar capacidades militares aos modelos civis existentes no mercado, permitindo assim operar nos ambientes fora de estrada característicos dos veículos de emprego militar. 
Na década de 1960, a Engesa – Engenheiros Especializados S.A. emergiu como uma empresa de destaque no cenário industrial brasileiro, consolidando-se posteriormente como um dos principais fabricantes de equipamentos militares terrestres do país.  A Engesa destacou-se pela qualidade de seu quadro técnico, composto por profissionais altamente qualificados, muitos dos quais formados pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Essa equipe foi fundamental para o desenvolvimento de tecnologias avançadas, posicionando a empresa como um polo de inovação no setor industrial brasileiro. Em 1966, a Engesa alcançou um marco significativo com o projeto e a fabricação do sistema de tração 4x4, conhecido comercialmente como “Tração Total”. Esse kit, projetado para equipar veículos de série nacionais, era composto por: Caixa de transferência com duas tomadas de força; Eixo dianteiro direcional; Guincho (opcional). Posteriormente, o sistema foi expandido para configurações 6x4 e 6x6, aproveitando os eixos e feixes de molas traseiros originais dos veículos. Destinado inicialmente a picapes e caminhões produzidos por fabricantes como Chevrolet, Ford e, mais tarde, Dodge, o sistema “Tração Total” conferiu aos veículos comerciais um desempenho off-road excepcional, até então inédito no Brasil. O sistema “Tração Total Engesa” revolucionou a capacidade operacional dos veículos equipados, ampliando significativamente sua versatilidade. Por exemplo, uma picape Ford F-100 equipada com o sistema apresentava capacidade de carga duplicada e era capaz de superar rampas com inclinação de até 85%. Essa inovação destacou a Engesa como líder em soluções de mobilidade para ambientes desafiadores. A linha de produtos “Tração Total” foi patenteada no Brasil e no exterior, consolidando a propriedade intelectual da Engesa e atraindo a atenção de mercados internacionais. No âmbito nacional, o sistema despertou o interesse das Forças Armadas Brasileiras, que reconheceram seu potencial estratégico. Em 1967, o projeto “Tração Total” foi oficialmente classificado como “De Interesse para a Segurança Nacional”, um marco que reforçou a relevância da Engesa no setor de defesa.O sistema de “Tração Total” da Engesa, patenteado na década de 1960, criou uma oportunidade estratégica para montadoras nacionais expandirem sua presença no mercado militar brasileiro. A necessidade de modernização da frota das Forças Armadas, composta por veículos obsoletos como os GMC Série CCKW e Studebaker US6G, incentivou a colaboração entre fabricantes automotivos, a Engesa e o Ministério do Exército para o desenvolvimento de caminhões militarizados com capacidades avançadas de tração.  A partir de 1963, veículos produzidos pela General Motors do Brasil, como as camionetes Chevrolet C-1416 e os caminhões Chevrolet C-60, foram submetidos a testes de campo com a integração da tração dianteira e do sistema 4x4 da Engesa. Esses ensaios foram cruciais para estabelecer os parâmetros técnicos finais de uma nova linha de caminhões comerciais militarizados, disponíveis nas configurações de tração 4x4 e 6x6. As principais plataformas selecionadas para conversão incluíam: Chevrolet D-60; Mercedes-Benz LA-1111 e Ford F600. Em meados de 1965, foram assinados os primeiros contratos de produção entre as montadoras, a Engesa e o Ministério do Exército. As entregas dos caminhões militarizados tiveram início no começo de 1966, marcando um avanço significativo na modernização da frota militar brasileira. Esses contratos fortaleceram a indústria automotiva nacional, alinhando-se aos objetivos do Governo Federal de consolidar o parque industrial do país.

Os caminhões entregues apresentavam diferenças visuais e funcionais em relação às versões comerciais, incluindo: Carrocerias de padrão militar; Para-choques reforçados; Ganchos traseiros para tração de reboques de carga geral ou peças de artilharia de campanha de pequeno e médio porte. Além das versões equipadas com o sistema “Tração Total”, as Forças Armadas Brasileiras (Exército, Marinha e Força Aérea) também adquiriram caminhões militarizados em configurações mais simples, adaptados para diversas funções operacionais. A partir de 1970, a diretoria comercial da Chrysler do Brasil identificou o potencial do mercado militar e iniciou negociações com a Engesa para homologar seus modelos Dodge D-400 e D-700 para integração com o sistema “Tração Total”. Essa iniciativa visava posicionar a Chrysler como fornecedora no processo contínuo de renovação da frota militar, substituindo veículos antigos ainda em uso pelo Exército Brasileiro. A homologação dos modelos Dodge representava uma oportunidade estratégica para a empresa conquistar uma fatia significativa desse mercado em expansão. No entanto os primeiros contratos governamentais conquistados pela Chrysler do Brasil envolveram uma versão do caminhão Dodge D-700 configurada como veículo de combate a incêndios. Este modelo de médio porte foi projetado para atender às necessidades de unidades do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar em pequenas cidades do interior, bem como de grandes empresas estatais. Suas principais características incluíam: Carroceria Especializada: Produzida pela empresa carioca Argos Carros de Bombeiro e Veículos Especializados Ltda., sediada em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, com design inspirado em modelos norte-americanos de combate a incêndios; Índice de Nacionalização: Atingiu 95%, com a maioria dos componentes fabricados localmente, exceto as bombas, que eram importadas. Apesar do sucesso em obter contratos com governos estaduais, o volume de vendas permaneceu limitado, refletindo a natureza incipiente do mercado para esse tipo de veículo especializado. Paralelamente, a Chrysler do Brasil, em parceria com a Engesa, desenvolveu três protótipos de veículos militarizados para submissão ao programa de avaliação padrão do Exército Brasileiro. Esses protótipos visavam atender à demanda por caminhões modernos com capacidades off-road, integrando o sistema de “Tração Total” da Engesa. Os modelos testados incluíam: Dodge D-700 Militarizado (6x6): Testado a partir do início de 1971, este protótipo apresentava: Carroceria militar com grades de proteção para faróis e para-choques reforçados; Motor a gasolina V8 de 196 cv; Câmbio Clark e caixa de transmissão ZF do Brasil; Sistema de “Tração Total” 6x6; Conjunto de suspensão “Boomerang” da Engesa, uma inovação revolucionária para operações em terrenos irregulares. Dodge D-400 (4x4): Configurado com tração 4x4, projetado para maior mobilidade em operações táticas. Dodge D-700 (4x4, Cabine Aberta): Equipado com cabine aberta, cobertura de lona e para-brisa basculante, possibilitando transporte aéreo em aeronaves da Força Aérea Brasileira, como o Lockheed C-130 Hercules e o De Havilland C-115 Buffalo.
Os protótipos foram submetidos a extensos testes pelo Exército Brasileiro e pelo Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil em 1971. Apesar do desempenho promissor, especialmente do Dodge D-700 6x6 com suspensão “Boomerang”, não houve encomendas desses modelos. A preferência das Forças Armadas Brasileiras por caminhões com motores a diesel, mais econômicos e adequados às operações prolongadas, favoreceu modelos concorrentes, como o Chevrolet D-60 e o Ford F-600D, que foram adquiridos em grande quantidade durante o período. Estes dois modelos com tração integral receberiam pequenos contratos de produção, com as entregas se iniciando a partir de meados do ano de 1972, mas grande parte da frota de caminhões da Chrysler do Brasil a serviço do Exército Brasileiro, seria composta por veículos puramente comerciais sem nenhuma militarização. Estes seriam divididos entre os modelos Dodge D-700, D-750, D-900 e D-950, entregues com diversas configurações de carroceria, como carga seca, baú, oficina, cisterna de água, tanque de combustível, oficina, posto de comando, frigorifico, socorro, basculante e bombeiro.  Os caminhões basculantes Dodge D-950 destacaram-se por sua capacidade superior em comparação com modelos similares, tornando-se peças fundamentais nas operações dos Batalhões de Engenharia de Construção (BEC) do Exército Brasileiro. Essas unidades tinham como missão atuar em obras de cooperação com organismos públicos federais, estaduais e municipais, envolvendo a construção de: Ferrovias; Rodovias; Viadutos; Pontes; Açudes; Portos; Barragens; Poços artesianos. Os Dodge D-950 equiparam diversos batalhões, incluindo: 1º BEC, Caicó, Rio Grande do Norte; 2º BEC, Teresina, Piauí; 3º BEC, Picos, Piauí; 4º BEC, Barreiras, Bahia; 5º BEC, Porto Velho, Rondônia; 6º BEC, Boa Vista, Roraima e 7º BEC, Rio Branco, Acre. A robustez e a versatilidade do Dodge D-950 garantiram sua utilização prolongada nessas unidades, contribuindo significativamente para projetos de infraestrutura em regiões estratégicas do país. Os caminhões Dodge fornecidos pela Chrysler do Brasil permaneceram em operação no Exército Brasileiro até o final da década de 1980. A partir desse período, foram gradualmente substituídos por modelos equivalentes produzidos por outras montadoras, incluindo: Ford F-600 e F-12000; Mercedes-Benz L-1111, L-1113 e L-1114. Os últimos veículos a serem retirados de serviço, no início da década de 1990, foram os caminhões configurados como bombeiros. Muitas dessas unidades foram repassadas a corpos de bombeiros de pequenas cidades do interior do Brasil, estendendo sua vida útil em aplicações civis. O fornecimento dos caminhões Dodge pelo Exército Brasileiro reforçou a posição da Chrysler do Brasil no mercado de veículos comerciais e especializados. A utilização dos D-950 pelos Batalhões de Engenharia de Construção destacou a capacidade da empresa de atender às demandas de operações complexas, contribuindo para o desenvolvimento de infraestrutura nacional. A substituição por modelos de outras fabricantes refletiu a evolução do mercado e a necessidade de renovação tecnológica, mas não diminuiu o legado dos veículos Dodge no contexto militar brasileiro.

Em Escala.
Para a representação do Dodge D-950, foi utilizado um modelo em die-cast na escala 1/43, pertencente à coleção “Caminhões de Outros Tempos” da Editora Altaya, produzido pela Axio. Este modelo foi selecionado por sua fidelidade ao design original do veículo, servindo como base ideal para a customização necessária à versão militar. O modelo base foi submetido a um processo de customização para refletir as características da viatura basculante EB51-1430 do Exército Brasileiro. As modificações incluíram ajustes visuais e funcionais para alinhar a miniatura às especificações militares. O detalhamento da réplica foi aprimorado com a aplicação de decais produzidos pela Eletric Products, pertencentes ao conjunto “Exército Brasileiro 1942-1982”. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo corresponde ao padrão tático militar estabelecido pelo Exército Brasileiro a partir da Segunda Guerra Mundial. Esse padrão foi projetado para garantir camuflagem eficaz em diversos ambientes operacionais, mantendo a uniformidade visual e funcional dos veículos militares. Todos os caminhões Dodge fornecidos pela Chrysler do Brasil para uso militar, incluindo os modelos D-400, D-700, D-750, D-900 e D-950, adotaram esse esquema de pintura durante todo o período de operação, com exceção dos veículos configurados como bombeiros.  Para a aplicação do esquema de pintura tático, foram empregadas tintas e vernizes de alta qualidade produzidos pela Tom Colors.

Bibliografia : 
- Veículos Militares Brasileiros – Roberto Pereira de Andrade e José S Fernandes
- Batalhões de Engenharia de Construção – Exército Brasileiro
- Chrysler do Brasil - http://www.lexicarbrasil.com.br/chrysler
- Manual Técnico – Exército Brasileiro 1976

Vickers-Armstrong M1917 (152,4mm)

História e Desenvolvimento
Fundada em 1828 na cidade inglesa de Sheffield, a Naylor Vickers & Company surgiu da associação entre Edward Vickers e seu sogro, George Naylor. Em seus primeiros anos, a empresa operava em um modesto complexo industrial voltado à fundição de aço, atividade na qual rapidamente conquistou reconhecimento pela qualidade e confiabilidade de seus produtos. Entre suas primeiras realizações de destaque figurava a fabricação de grandes sinos de igreja, cuja sonoridade passou a ecoar por diversas localidades da Inglaterra, contribuindo para consolidar a reputação técnica da companhia. Esse êxito inicial estabeleceu as bases para uma expansão progressiva que, nas décadas seguintes, transformaria a Vickers em uma das mais importantes potências industriais britânicas. Em 1867, um passo decisivo foi dado com a abertura de capital da empresa e sua reorganização sob o nome de Vickers, Sons & Company. Esse marco financeiro possibilitou a aquisição de novos empreendimentos e incentivou a diversificação de suas atividades industriais. Já em 1868, a empresa passou a produzir eixos marítimos, ampliando sua presença no setor naval. Em 1872, essa atuação foi reforçada com o início da fabricação de hélices marítimas, consolidando-a como fornecedora de componentes essenciais para a crescente indústria de construção naval britânica. A expansão tecnológica continuou ao longo da década seguinte. Em 1882, a companhia instalou sua primeira grande prensa de forjamento, o que ampliou significativamente sua capacidade de produzir componentes metálicos de grandes dimensões para a indústria pesada. Foi também nesse período que a empresa iniciou sua aproximação com o setor militar. Em 1888, passou a produzir placas de blindagem destinadas à proteção de navios de guerra, acompanhando o rápido avanço tecnológico das marinhas europeias no final do século XIX. Dois anos mais tarde, em 1890, a empresa desenvolveu sua primeira peça de artilharia, fato que marcou sua entrada definitiva no competitivo mercado de armamentos. Um ponto de inflexão na trajetória da companhia ocorreu em 1897, quando a Vickers adquiriu a Barrow Shipbuilding Company, sediada em Barrow-in-Furness. A operação incluiu também a incorporação da Maxim Nordenfelt Guns and Ammunitions Company, renomada fabricante de armamentos. Após essa fusão, a empresa passou a operar sob a denominação Vickers, Sons & Maxim. A partir de então, seu portfólio tornou-se extremamente amplo, abrangendo desde a construção de navios e equipamentos marítimos até sistemas de artilharia, munições e placas de blindagem. Nesse contexto de expansão industrial e militar, a experiência da empresa no campo da artilharia evoluiu rapidamente. A partir da década de 1890, a Vickers passou a desenvolver canhões navais de grande calibre, superiores a 100 mm, destinados principalmente ao armamento de navios de guerra. Esses sistemas empregavam cargas propulsoras acondicionadas em sacos de seda, solução prática e eficiente que se tornaria uma característica recorrente dos projetos da empresa. Na virada do século XX, o Admiralty enfrentava crescentes pressões para reduzir os custos operacionais da frota da Marinha Real (Royal Navy). Experiências anteriores com canhões de tiro rápido haviam demonstrado que o uso de cartuchos metálicos de latão  embora eficientes  implicava custos elevados e aumento significativo de peso logístico. Diante desse cenário, a Marinha Real optou por retornar a sistemas de artilharia convencionais, que utilizavam cargas propulsoras separadas.

Foi nesse contexto que a empresa apresentou uma proposta inovadora: um canhão naval de 152,4 mm equipado com um mecanismo de culatra de ação simples, que ficou conhecido como modelo VII. O sistema proporcionava maior rapidez nas operações de carregamento e disparo, além de reduzir o peso e o espaço necessários para o armazenamento de munições, graças ao uso de cargas de cordite acondicionadas em sacos de seda. Um dos marcos dessa evolução foi o aperfeiçoamento da artilharia naval de 152,4 mm, culminando no desenvolvimento do modelo  Mk VIII que representou um avanço significativo em desempenho, confiabilidade e eficiência operacional dentro da artilharia naval do período. O novo modelo introduziu um mecanismo de culatra com abertura lateral à esquerda, solução técnica que representava uma inovação importante para a época. Esse sistema permitia a instalação da peça em torres duplas, favorecendo melhor aproveitamento do espaço interno e maior eficiência operacional a bordo de navios de guerra. Adotado, o canhão foi instalado nos couraçados da classe  Formidable, cujas primeiras unidades foram lançadas ao mar em 1898 e incorporadas à frota a partir de 1901. A versatilidade do projeto contribuiu para sua ampla difusão. O armamento passou a equipar diferentes tipos de embarcações, desde cruzadores de grande velocidade até pequenas canhoneiras destinadas a operações fluviais em regiões coloniais. Nessas missões, particularmente em rios estratégicos da África e da Ásia, tais embarcações desempenhavam funções de patrulhamento, apoio a operações terrestres e projeção de poder.  Durante a década de 1910, a empresa passou a considerar a possibilidade de adaptar o canhão Mk VII  para emprego em operações terrestres. Inicialmente, a proposta permaneceu no campo dos estudos técnicos. Atendendo às crescentes demandas do Exército Britânico por artilharia pesada de longo alcance, as primeiras unidades do canhão de campanha de 155 mm foram enviadas para a frente ocidental, na França, em 1916. Essas peças foram inicialmente montadas em transportadores retangulares originalmente projetados para os modelos I e IV. Embora eficazes em combate, tais transportadores apresentavam uma limitação significativa: o reduzido ângulo de elevação da peça restringia o alcance máximo dos disparos, limitando sua eficácia em determinadas situações táticas. Consciente dessa deficiência, promoveu-se rapidamente melhorias no projeto. Ainda em 1916, a empresa desenvolveu um novo transportador capaz de proporcionar uma elevação máxima de 22 graus, ampliando consideravelmente o alcance e a flexibilidade de emprego da arma. Com essa modificação, o canhão passou a desempenhar um papel relevante em importantes operações da guerra, destacando-se particularmente durante a Batalha  de  Somme, um dos confrontos mais intensos e sangrentos do conflito. No campo de batalha, o canhão de 155 mm Modelo VII demonstrou grande eficiência em missões de fogo de contra-bateria, destinadas a neutralizar posições de artilharia inimigas. Além disso, foi amplamente empregado na destruição de extensas barreiras de arame farpado que protegiam as trincheiras adversárias, bem como em ataques de longo alcance contra alvos estratégicos situados em profundidade no dispositivo inimigo. A combinação de precisão, potência  e confiabilidade contribuiu para consolidar sua reputação como uma arma eficaz no contexto da guerra de posições que caracterizou o conflito. Apesar de seu desempenho satisfatório, o Mk VII foi gradualmente substituído por versões mais modernas, entre as quais se destacava o Mk XIX, que incorporava avanços técnicos mais recentes. Ainda assim, devido à sua robustez e versatilidade, o Mk VII permaneceu em uso até o término da guerra, em 1918.
Com o término do conflito, em 1918, a Marinha Real (Royal Navy) foi confrontada com a necessidade de revisar profundamente a composição de sua frota. Ao final do conflito, a marinha britânica possuía um grande número de navios que, embora ainda operacionais, já se encontravam tecnologicamente ultrapassados diante do ritmo acelerado das inovações navais ocorridas durante a guerra. Como consequência, muitos desses vasos de guerra mais antigos foram gradualmente retirados do serviço ativo e destinados à desmobilização. Antes de serem encaminhados ao sucateamento, entretanto, essas embarcações passavam por um cuidadoso processo de desarmamento. Nesse procedimento, diversos equipamentos ainda considerados úteis eram removidos e armazenados para eventual reaproveitamento. Entre esses materiais figurava um número expressivo de canhões navais de 152,4 mm produzidos pela Vickers-Armstrongs, pertencentes aos modelos Mk VII e Mk VIII. Tais peças de artilharia, que haviam desempenhado papel relevante em operações navais durante o conflito, acabariam encontrando novas aplicações no período pós-guerra. Graças à sua robustez e versatilidade, os canhões Vickers Mk VII e Mk VIII foram amplamente reaproveitados como peças de artilharia de defesa costeira. Instalados em baterias fixas, passaram a reforçar a proteção de portos, bases navais e pontos estratégicos distribuídos ao longo do vasto litoral do Império Britânico. De posições defensivas em portos coloniais na África e na Ásia a instalações militares no Mediterrâneo, essas armas contribuíram para fortalecer o sistema de defesa marítima britânico durante o período entre guerras. Além do emprego em territórios sob controle britânico, um número considerável dessas peças foi também fornecido a países aliados, entre eles Portugal e Spain, onde passaram a desempenhar funções semelhantes em sistemas de defesa costeira. No caso português, algumas dessas peças permaneceram em operação por um período excepcionalmente longo: os canhões Vickers Mk VII integrados às baterias costeiras de Portugal continuaram em serviço até 1998, quando a artilharia costeira do país foi finalmente desativada, encerrando quase um século de utilização dessas armas. Paralelamente ao reaproveitamento de sistemas existentes, a Vickers-Armstrongs prosseguiu com seus esforços de inovação tecnológica no campo da artilharia pesada. Esse processo culminou no desenvolvimento de um novo sistema de artilharia de 6 polegadas (152,4 mm), conhecido como modelo BL 6-inch Mk XIX, cuja concepção teve início em 1915. Diferentemente de seus predecessores, Mk VII e Mk VIII  que haviam sido originalmente concebidos para uso naval e posteriormente adaptados para emprego terrestre, o Mk XIX foi projetado desde o princípio como uma peça de artilharia de campanha. O novo modelo incorporava uma série de avanços técnicos destinados a superar as limitações observadas nas versões anteriores. Entre seus principais objetivos estavam o aumento do alcance e a redução do peso estrutural, fatores essenciais para melhorar sua mobilidade e eficiência no campo de batalha. Para isso, o canhão foi instalado em um moderno transportador dotado de um sistema de recuo hidropneumático, responsável por absorver parte significativa da energia gerada pelo disparo, aumentando a estabilidade da peça e facilitando sua rápida reaquisição do alvo. Inicialmente, esse transportador era equipado com rodas metálicas raiadas, padrão ainda comum na artilharia pesada do período. Posteriormente, contudo, foram introduzidos pneus mais robustos, semelhantes aos utilizados pelo obuseiro de 8 polegadas britânico, o que proporcionava melhor desempenho em terrenos irregulares. A plataforma de transporte também apresentava um desenho com abertura traseira, característica que permitia maiores ângulos de elevação e favorecia disparos de longo alcance.

O Mk XIX manteve o tradicional sistema de carregamento por culatra de rosca interrompida, empregando projéteis de diferentes tipos acompanhados por cargas propulsoras de cordite acondicionadas em sacos de tecido, uma solução técnica herdada dos canhões navais que lhe deram origem. O mecanismo de culatra, operado por uma alavanca situada no lado direito da peça, constituía um exemplo notável de simplicidade e eficiência mecânica. Ao puxar a alavanca para trás, o parafuso da culatra era destravado e deslocado para a posição de carregamento. Após a introdução do projétil e da carga propulsora, o movimento inverso da alavanca fazia com que o conjunto retornasse à posição original, travando novamente o mecanismo e deixando a arma pronta para o disparo. Essa solução permitia um ciclo de carregamento relativamente rápido para um canhão de grande calibre, contribuindo para a eficácia do sistema em cenários de combate dinâmicos. Durante a Primeira Guerra Mundail foram produzidos aproximadamente 310 exemplares do canhão BL 6-inch Mk XIX pela Vickers-Armstrongs. Essas peças foram empregadas em diversos teatros de operações do conflito, gradualmente substituindo, na função de artilharia pesada de campanha, o modelo anterior Mk VII. Sua combinação de alcance, potência e confiabilidade tornou-o um elemento importante na artilharia pesada britânica durante os últimos anos da guerra. Nesse mesmo período, a arma também despertou o interesse do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army). Quando pais tardiamente ingressou  no conflito, em 1917, suas forças de artilharia ainda careciam de peças pesadas de longo alcance capazes de apoiar as operações na frente europeia. Para suprir essa necessidade emergencial, foi firmado um acordo com a indústria britânica para a produção de cem canhões adaptados às especificações norte-americanas. Essas peças receberam a designação de Vickers M1917, mantendo o calibre de 152,4 mm. Entretanto, a elevada demanda da indústria britânica para atender prioritariamente às necessidades do exército britânico provocou atrasos consideráveis no cronograma de produção dessas armas. Como resultado, os canhões destinados aos Estados Unidos somente começaram a ser entregues em março de 1920, já após o término da guerra. Dessa forma, as 100 peças Vickers M1917, uma vez recebidas, foram destinadas a unidades de artilharia estacionadas na costa oeste norte-americana. Ali permaneceram como parte da estrutura de defesa e treinamento do exército. Com o passar do tempo, entretanto, a escassez de munição britânica de 152,4 mm nos depósitos do exército levou, em 1933, à decisão de retirar a maioria dessas peças do serviço ativo. Destes 99 canhões remanescentes, juntamente com 50 e um tubos sobressalentes, foram então armazenados como reserva estratégica. Paralelamente a esses acontecimentos, a indústria britânica de armamentos passava por um período de profunda reorganização. Em 1927, após enfrentar dificuldades financeiras decorrentes de problemas administrativos e das transformações econômicas do pós-guerra, a empresa Vickers foi levada a buscar uma solução estrutural para garantir sua sobrevivência no mercado. Como resultado, ocorreu a fusão com a empresa de engenharia Sir W. G. Armstrong Whitworth & Company, uma de suas principais concorrentes no setor de construção naval e armamentos. Dessa união surgiu a poderosa Vickers-Armstrongs. O novo conglomerado passou a dispor de um portfólio extremamente amplo, abrangendo desde armamentos leves e peças de artilharia de campanha até navios de guerra, submarinos, veículos blindados e aeronaves. Como consequência dessa expansão industrial, a empresa alcançou, entre as décadas de 1930 e 1940, a posição de terceiro maior empregador do setor industrial britânico, consolidando-se também como um dos mais importantes fornecedores de equipamentos militares da Europa.
Com o início da Segunda Guerra Mundial, os canhões Vickers-Armstrong  Mk XIX voltaram a desempenhar um papel ativo em operações militares. Nesse contexto, três baterias de artilharia de campanha equipadas com o modelo Mk XIX foram mobilizadas como parte da  Fora Expedicionária Britânica (BEF), enviada à França em 1940 com o objetivo de conter o avanço das forças alemãs no início do conflito. Embora robustos e confiáveis, esses canhões tiveram de enfrentar os desafios impostos por uma guerra caracterizada por novas doutrinas operacionais, especialmente a chamada Blitzkrieg (Guerra Relampago) , baseada em rápidas ofensivas combinando blindados, aviação e artilharia móvel. Nesse cenário de guerra altamente mecanizada, sistemas de artilharia mais antigos enfrentavam limitações operacionais diante de equipamentos mais modernos e de maior mobilidade. Além do emprego em operações de campanha, aproximadamente 110 canhões Mk XIX foram destinados à defesa costeira do Reino Unido. Instalados em baterias fixas ao longo do litoral, permaneceram em estado de alerta durante os primeiros anos do conflito, quando o país enfrentava a ameaça concreta de uma possível invasão alemã. Nessas posições, as peças contribuíram para fortalecer o sistema defensivo britânico em um momento crítico da guerra. Entretanto, a partir do final de 1941, esses canhões começaram a ser gradualmente substituídos por sistemas mais modernos, entre eles o norte-americano  M1 de 155 mm. Esse novo modelo oferecia maior alcance e melhor desempenho balístico, refletindo a rápida evolução tecnológica da artilharia durante o conflito. Nos Estados Unidos, os canhões Vickers M1917, armazenados desde o fim da Primeira Guerra Mundial, também foram reavaliados no contexto da mobilização militar. Contudo, assim como ocorreu no Reino Unido, essas peças acabaram sendo rapidamente substituídas pelos mais modernos sistemas de artilharia norte-americanos, evidenciando a transição para armamentos mais avançados e padronizados. Apesar desse processo de substituição, um pequeno número de canhões Vickers ainda encontrou utilidade no esforço de guerra. Algumas dessas peças foram cedidas à Marinha Real  (Royal Navy) para equipar navios mercantes armados e embarcações de escolta improvisadas. Nessas plataformas, os canhões desempenharam um papel importante na defesa contra navios corsários alemães, que representavam uma ameaça constante às linhas de suprimento aliadas no Atlântico. Diversos episódios notáveis demonstraram o emprego dessas armas em combate naval. Um exemplo marcante ocorreu com o HMS Rawalpindi que, em 23 de novembro de 1939, enfrentou os cruzadores de batalha alemães Scharnhorst e Gneisenau.  Embora claramente inferior em poder de fogo, o navio britânico resistiu bravamente antes de ser afundado, tornando-se um símbolo da determinação britânica nos primeiros meses da guerra. Outro episódio emblemático envolveu o HMS Jervis Bay que, em novembro de 1940, enfrentou o cruzador pesado alemão Admiral Scheer, armado com canhões de 280 mm. A ação desesperada do Jervis Bay permitiu que o comboio que escoltava se dispersasse e escapasse, preservando navios mercantes carregados com suprimentos essenciais para o esforço de guerra aliado. Com o término do conflito, os canhões g Mk XIX foram gradualmente retirados do serviço nas funções de artilharia de campanha e em plataformas navais improvisadas. Entretanto, as peças instaladas em posições de artilharia costeira permaneceram ativas por mais algum tempo em diversas regiões sob influência britânica. Essas armas continuaram desempenhando funções defensivas em territórios do Império Britânico até o final da década de 1950. 

Emprego no Exército Brasileiro
A tradição da artilharia brasileira remonta ao período colonial e constitui um dos elementos mais marcantes da história militar do país. Suas origens estão profundamente associadas às lutas travadas no território americano durante os séculos XVII e XVIII, quando forças luso-brasileiras enfrentaram invasões estrangeiras e conflitos regionais. Entre esses episódios, destacam-se as Batalhas dos Guararapes, ocorridas na capitania de Pernambuco, nas quais combatentes locais se opuseram às tropas da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. Embora empregassem recursos militares relativamente limitados, essas forças demonstraram grande capacidade de adaptação e determinação, contribuindo para a formação de uma tradição de resistência que posteriormente influenciaria a identidade militar brasileira. Com a consolidação política decorrente da Independência do Brasil, a artilharia passou a ser estruturada de maneira mais sistemática no âmbito do Império do Brasil. Diferentemente de outras armas, como a infantaria e a cavalaria, o emprego da artilharia exigia elevado grau de especialização técnica. Por essa razão, a formação de oficiais artilheiros estava intimamente ligada ao ensino militar superior oferecido pela Academia Militar das Agulhas Negras  instituição que tem suas origens na antiga academia militar do período imperial. Nesse ambiente, jovens oficiais dedicavam-se ao estudo de matemática aplicada, balística e engenharia militar, consolidando uma tradição de rigor técnico que conferiu prestígio à arma de artilharia no Exército brasileiro. Essa tradição alcançou um de seus momentos mais emblemáticos durante a Guerra da Tríplice Aliança, o maior conflito armado da história da América do Sul. Entre os diversos combates travados durante essa guerra, a Batalha de Tuiuti destacou-se como o maior confronto campal do continente. Nesse episódio, a artilharia brasileira desempenhou papel decisivo sob o comando do então coronel Emílio Luís Mallet, militar de origem francesa que se naturalizou brasileiro e construiu notável carreira no exército imperial. Durante a batalha, a artilharia posicionada por Mallet mostrou-se fundamental para conter sucessivas ofensivas paraguaias. A precisão e a cadência de tiro das baterias brasileiras levaram os combatentes a apelidá-las de “Artilharia Revólver”. Protegidas por um sistema defensivo que incluía um fosso escavado à frente das posições  solução tática relativamente inovadora para a época , as baterias resistiram com firmeza aos ataques inimigos. Nesse contexto teria sido proferida a célebre frase atribuída a Mallet: “Eles que venham! Por aqui não passam!”, expressão que se tornou símbolo da determinação da artilharia brasileira. Em reconhecimento a sua atuação militar, Mallet foi posteriormente agraciado com o título nobiliárquico de Barão de Itapevi e elevado ao posto de marechal. Após o término da guerra, o Brasil iniciou um processo gradual de modernização de suas forças armadas. Nesse período, a Marinha do Brasil passou a dedicar especial atenção à modernização de seus sistemas de artilharia, particularmente aqueles destinados à defesa costeira. Para isso, recorreu à aquisição de armamentos produzidos pela indústria europeia, destacando-se os canhões Armstrong Whitworth. Esses foram instalados em diversos fortes distribuídos ao longo do litoral brasileiro, reforçando a proteção dos principais portos do país. Em um esforço de cooperação entre as forças armadas, ao menos dez dessas peças  incluindo canhões de grande calibre, como os modelos de 280 mm  foram posteriormente transferidas para o Exército Brasileiro. Projetadas para proteger portos estratégicos e garantir a segurança das principais rotas marítimas do país, essas peças de artilharia permaneceram em serviço até o final da década de 1920. 

A partir de meados da década de 1930, o agravamento das tensões internacionais  impulsionado sobretudo pelo crescente expansionismo da Alemanha Nazista  levou diversas nações a reverem seus dispositivos de defesa. No Brasil, as autoridades militares acompanharam atentamente esse cenário, conscientes de que a posição geográfica e o potencial econômico do país poderiam transformá-lo em um importante fornecedor de matérias-primas estratégicas em caso de um conflito de grandes proporções. Nesse contexto, a proteção do extenso litoral brasileiro e de seus principais portos passou a ser considerada uma prioridade. Naquele momento, grande parte da artilharia costeira brasileira ainda era composta por peças de origem europeia  sobretudo inglesas, francesas e alemãs  nos calibres de 150 mm, 280 mm e 305 mm. Embora muitas dessas armas tivessem representado avanços importantes quando adquiridas, diversos exemplares já eram considerados tecnicamente superados diante das rápidas transformações observadas na artilharia moderna. Diante dessa realidade, o governo brasileiro iniciou um programa de modernização destinado a renovar os sistemas de defesa costeira e reforçar a proteção de pontos estratégicos ao longo do litoral. Paralelamente a esse esforço, o Brasil iniciou um processo gradual de aproximação diplomática com os Estados Unidos durante a administração do presidente Franklin D. Roosevelt. Essa política fazia parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da influência norte-americana na América Latina, ao mesmo tempo em que buscava consolidar relações de cooperação política, econômica e militar com o governo brasileiro. Entre os principais objetivos dessas negociações estava a possibilidade de utilização de áreas estratégicas no Nordeste brasileiro para a instalação de bases aéreas e navais. A região apresentava enorme importância geográfica, pois representava o ponto mais curto de ligação aérea entre os continentes americano e africano. Dessa forma, a costa nordestina poderia desempenhar papel decisivo no transporte de tropas, aeronaves, veículos e suprimentos rumo a eventuais teatros de operações no exterior, especialmente em um cenário de guerra envolvendo o continente europeu. O avanço dessas tratativas gerou expectativas positivas em ambos os países e contribuiu para o fortalecimento das relações bilaterais. Entre os desdobramentos mais importantes desse processo esteve o apoio norte-americano ao desenvolvimento da indústria siderúrgica brasileira, que resultaria posteriormente na criação da Companhia Siderúrgica Nacional. Ao mesmo tempo, abriram-se caminhos para iniciativas voltadas à modernização das forças armadas do país. No campo da artilharia de costa do Exército Brasileiro, uma das primeiras medidas concretas ocorreu com a decisão de transferir ao Brasil 99  canhões do modelo Vickers M1917 6-inch gun (correspondentes ao modelo britânico BL 6-inch Mk XIX), oriundos dos estoques estratégicos do Exército dos Estados Unidos (U.S. Army), com estes sendo recebidos a  a partir do segundo semestre de 1939. Apesar de terem sido fabricados em 1920, esses canhões encontravam-se em excelente estado de conservação. Isso se devia ao fato de terem sido pouco utilizados operacionalmente e posteriormente armazenados como reserva estratégica desde 1933, quando a escassez de munição britânica de calibre 152,4 mm resultou em sua retirada do  serviço ativo. Não há registros oficiais que confirmem se os 51tubos sobressalentes  que originalmente haviam sido armazenados juntamente com essas peças de artilharia  foram efetivamente incluídos no material transferido. Ainda assim, a incorporação desses canhões representou um avanço significativo no processo de modernização da artilharia costeira brasileira.
A chegada dos primeiros exemplares ao país teve início em outubro de 1940, sendo imediatamente acompanhada pela implementação de programas de treinamento destinados às guarnições responsáveis por sua operação. O acordo firmado entre os dois países também previa assistência técnica norte-americana para a produção local da munição de 152,4 mm, cujo projeto apresentava grande similaridade com os projéteis de calibre 155 mm então utilizados pela artilharia dos Estados Unidos. Essa cooperação técnica contribuiria para reduzir a dependência de importações e fortalecer a capacidade logística da artilharia brasileira. Com a intensificação do  conflito na Europa o Exército Brasileiro intensificou seus esforços para fortalecer a defesa de seus principais portos comerciais, vitais para o comércio e a segurança nacional. Nesse contexto, o comando militar direcionou os recém-adquiridos canhões Vickers-Armstrong M1917  para equipar os fortes localizados próximos aos portos estratégicos do país. Essas baterias de artilharia costeira foram mantidas em estado de alerta constante, garantindo a proteção do tráfego marítimo e a segurança das entradas portuárias, essenciais para o abastecimento e a economia brasileira durante o período de incertezas globais. Os canhões  M-1917 representaram um avanço significativo em relação aos equipamentos até então em uso, como os alemães Krupp 150 mm L/50, adquiridos entre 1901 e 1902, e os franceses Schneider-Canet 150 mm, recebidos na década de 1920. Com um alcance operacional de 18.400 metros e uma cadência de três disparos por minuto, os Vickers superavam amplamente seus predecessores, que alcançavam no máximo 9.000 metros. Essa capacidade permitiu ao Brasil reforçar sua defesa costeira com maior eficiência, respondendo às exigências de um cenário de guerra moderna. A partir de 1942, a necessidade de proteger as regiões portuárias levou à criação de novas unidades operacionais especializadas, como o 6º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (6º GACosM) e o 8º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (8º GACosM). Essas unidades complementaram os já existentes Grupos de Artilharia de Costa, que operavam nos fortes do litoral sul de São Paulo, ampliando a capacidade defensiva do país. Diferentemente dos canhões de grande calibre fixos, os Vickers-Armstrong M1917 destacavam-se pela mobilidade, podendo ser deslocados para diferentes pontos da costa, o que conferiu maior flexibilidade estratégica às operações de defesa.  Apesar de suas vantagens, os canhões enfrentavam limitações em termos de mobilidade devido aos transportadores equipados com rodas de aço, que dificultavam o deslocamento em estradas de terra ou pavimentadas com paralelepípedos, comuns na época. Para superar esse desafio, uma comissão técnica do Exército dos Estados Unidos, em 1941, firmou parceria com a empresa carioca Sociedade Industrial Santa Mathilde Ltda. Essa colaboração resultou em um programa de modernização que substituiu as rodas de aço por pneus de borracha, permitindo maior velocidade e eficiência no tracionamento. Além disso, os transportadores foram adaptados com uma plataforma circular de apoio, dotada de um eixo central que possibilitava a rotação de 360 graus da peça. Essa inovação equiparou os canhões móveis à funcionalidade dos modelos fixos, permitindo posicionamento rápido e disparos em todas as direções. Com essas melhorias implementadas, os canhões Vickers-Armstrong M-1917 passaram a ser tracionados com eficácia pelos tratores Minneapolis Moonline GTX-147 6x6, fornecidos em 1941. Dois desses canhões foram transferidos para a Escola de Artilharia de Costa (EAC), sediada no Rio de Janeiro, onde foram utilizados até o final de 1944 no Curso de Emergência de Oficiais de Artilharia de 1ª Linha. 

Esse programa visava formar oficiais capacitados para operar as unidades de defesa costeira, reforçando a preparação do Exército Brasileiro em um momento crítico da Segunda Guerra Mundial. Durante todo o período de participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, os Grupos Móveis de Artilharia de Costa (GACosM) permaneceram em permanente estado de prontidão, desempenhando importantes missões de vigilância e defesa estratégica do litoral brasileiro. Subordinadas ao Exército Brasileiro, essas unidades tinham como principal responsabilidade garantir a proteção dos principais portos e instalações costeiras do país em um contexto internacional marcado por forte instabilidade e pela ameaça de ações navais hostis. Grande parte dessas formações estava sediada no estado de São Paulo, embora suas atividades operacionais se estendessem também aos litorais de Rio de Janeiro e Espírito Santo. Nessas regiões, as unidades realizaram exercícios intensivos, deslocamentos estratégicos e treinamentos voltados ao emprego da artilharia pesada de costa, garantindo elevado grau de prontidão em caso de necessidade de emprego real. Na região Sul, destacou-se a atuação do 7º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (7º GACosM), sediado no estado do Rio Grande do Sul. Essa unidade tornou-se particularmente conhecida pelos frequentes deslocamentos operacionais realizados para outros estados da região, evidenciando a crescente capacidade de mobilidade da artilharia costeira brasileira. Durante essas operações de longa distância, os canhões Vickers M1917 6-inch gun  correspondentes ao modelo britânico BL 6-inch Mk XIX  eram rebocados por caminhões militares de grande porte, como os Diamond T 968 e T 969, além de veículos de transporte pesado da empresa Corbitt Company. Esses caminhões demonstravam desempenho superior aos tratores Minneapolis-Moline GTX-147 anteriormente utilizados, oferecendo maior velocidade e eficiência no deslocamento das peças, fator essencial para uma defesa costeira baseada em mobilidade e rápida capacidade de reposicionamento. Paralelamente, um destacamento de canhões Vickers-Armstrong  ainda montados em transportadores que não haviam passado pelo processo de modernização  foi deslocado para reforçar a defesa do arquipélago de Fernando de Noronha. Essas peças passaram a operar sob a responsabilidade do 1º Grupo Independente de Artilharia (1º GIA), unidade que também dispunha de canhões antiaéreos 8.8 cm Flak 18 de origem alemã. Para o deslocamento desses equipamentos em terreno insular, eram utilizados tratores meia-lagarta Sd.Kfz. 7, cuja configuração proporcionava melhor desempenho em terrenos irregulares. Posteriormente, o 1º Grupo Independente de Artilharia (1º GIA)  foi transferido para a cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Ainda assim, quatro canhões Vickers-Armstrong permaneceram instalados em Fernando de Noronha, assegurando a defesa do arquipélago até o término do conflito. O fim da guerra, em maio de 1945, não resultou na imediata desativação dessas peças de artilharia. Pelo contrário, os canhões Vickers-Armstrong continuaram a integrar o dispositivo de defesa costeira brasileiro durante os anos seguintes, participando regularmente de exercícios, treinamentos e deslocamentos operacionais de grande escala. Um exemplo representativo desse período foi o aquartelamento do 8º Grupo Móvel de Artilharia de Costa (8º GACosM), realizado em 1946 nas praias do Leblon e na histórica Fortaleza de Santa Cruz da Barra, ambos localizados na região metropolitana do Rio de Janeiro. Essas atividades contribuíram para manter o elevado nível de preparo das unidades em um contexto internacional ainda marcado pelas transformações geopolíticas do pós-guerra.
A partir de agosto de 1949, iniciou-se um processo de modernização dos meios de tração utilizados pela artilharia costeira brasileira. Os antigos tratores Minneapolis-Moline GTX-147 passaram gradualmente a ser substituídos pelos mais modernos M4 High-Speed Tractor, projetados especificamente para o reboque de peças de artilharia pesada. Esses novos veículos ofereciam maior potência, velocidade e confiabilidade mecânica, facilitando o deslocamento dos canhões Vickers M1917 6-inch gun em operações de treinamento e em eventuais desdobramentos estratégicos. Por décadas após a Segunda Guerra Mundial, os canhões Vickers-Armstrong M-1937 (Mark XIX) permaneceram como pilares da defesa costeira brasileira, desempenhando suas funções com notável eficiência e prontidão. Essas peças, que haviam provado sua confiabilidade durante o conflito global, mantiveram altos índices de operacionalidade, mesmo diante da chegada de sistemas mais modernos, como os obuses norte-americanos M1 de 155 mm. O Exército Brasileiro, ciente do valor histórico e funcional dos canhões Vickers, optou por preservá-los como a principal arma de artilharia costeira, investindo em manutenção meticulosa e atualizações tecnológicas, incluindo melhorias nos sistemas de orientação de tiro. A dedicação à preservação dessas peças refletia não apenas sua robustez técnica, mas também o respeito pela tradição militar brasileira, que via nos canhões Vickers um símbolo de resiliência e capacidade defensiva. Durante as décadas de 1950 a 1980, os canhões continuaram a guarnecer fortes e bases ao longo do extenso litoral do país, protegendo portos estratégicos em um contexto de Guerra Fria, marcado por tensões globais e pela necessidade de assegurar a soberania nacional. No entanto, o avanço acelerado da tecnologia militar, especialmente a partir dos anos 1970, começou a transformar o cenário da artilharia. O desenvolvimento de foguetes e mísseis voltados para saturação de área, capazes de oferecer maior alcance, mobilidade e poder de fogo, tornou os canhões tradicionais, como os Vickers-Armstrong, gradualmente obsoletos para as demandas modernas de defesa costeira. Essas inovações, aliadas a mudanças nas doutrinas militares, sinalizaram o fim de uma era para as peças de artilharia convencionais. No início da década de 1990, os canhões Vickers-Armstrong M-1937 ainda estavam em serviço ativo, operados pelo 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (6º GACosM), pelo 8º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (8º GACosM) e pelo 10º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (10º GACosM). Reconhecendo a necessidade de modernização, o Exército Brasileiro decidiu integrar o Sistema de Foguetes de Artilharia para Saturação de Área – Astros II, desenvolvido pela empresa brasileira Avibras Indústria Aeroespacial S/A. Esse sistema, que representava o auge da tecnologia militar nacional, oferecia capacidades superiores em termos de alcance, precisão e mobilidade, alinhando-se às exigências contemporâneas de defesa. O processo de transição foi implementado de forma gradual. A partir de 1992, cada um desses grupos recebeu uma bateria inicial do sistema Astros II, permitindo a coexistência temporária com os canhões Vickers enquanto as unidades se adaptavam à nova tecnologia. Até o final de 1994, o último canhão Vickers-Armstrong M-1937 foi oficialmente retirado do serviço ativo, encerrando quase um século de utilização no Exército Brasileiro. A desativação dessas peças marcou o fim de uma era, mas não o esquecimento de seu legado. Muitos canhões foram preservados, seja em unidades militares como testemunhos de sua história operacional, seja em museus militares, onde continuam a inspirar novas gerações com sua imponência e significado histórico.

Em Escala.
Para recriar com precisão o icônico obuseiro Vickers-Armstrong M-1917 (Mark XIX), foi utilizado um inovador kit em resina produzido por meio de impressão 3D, confeccionado artesanalmente com um excepcional nível de detalhamento. Esse modelo, desenvolvido especificamente para representar os canhões desta família que integraram o arsenal do Exército Brasileiro, destaca-se pela fidelidade histórica e pela qualidade de sua execução. 
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura empregado em todos os canhões Vickers-Armstrong M-1971 (Mark XIX) desde o seu recebimento no ano de 1940. Este padrão se manteria inalterado até sua desativação no ano de 1994. Na recriação histórica desses canhões, foram utilizadas tintas e vernizes de alta qualidade produzidos pela Tom Colors, uma marca reconhecida por sua precisão na reprodução de cores militares.


 Bibliografia:  
-  Vickers-Armstrong  Limited - https://en.wikipedia.org/wiki/Vickers-Armstrongs
- Canhão Vickers Armstrong 152,4 mm  VII/VIII - https://pt.wikipedia.org/wiki/Canh%C3%A3o_152,4_mm_modelo_VII/VIII
- A Evolução da Artilharia – Victor H. Mori & Adler Homero Fonseca de Castro
- Veteranos da Artilharia de Costa – Facebook.
- Artilharia de Campanha no Exército Brasileiro – Cezar Carriel Benetti - http://www.ecsbdefesa.com.br/fts/ACEB.pdf