Krupp 75 mm (1872 - 1938)

História e Desenvolvimento.
A história da Krupp remonta ao início do século XIX, período marcado pela intensificação da Revolução Industrial na Europa. Em 20 de novembro de 1811, Friedrich Krupp, em parceria com os irmãos Georg Karl Gottfried e Wilhelm Georg Ludwig von Kechel, fundou na cidade de Essen a empresa Friedrich Krupp, inicialmente dedicada à produção de aço fundido segundo padrões britânicos  então considerados os mais avançados do mundo. Nas forjas de Essen, operários trabalhavam sob o calor extremo das fundições para produzir materiais de elevada qualidade, estabelecendo as bases de uma corporação que, mais tarde, se tornaria sinônimo de poderio industrial e bélico. Com a morte de Friedrich Krupp em 1826, a direção da empresa passou, poucos anos depois, a seu filho Alfred Krupp, que assumiu efetivamente o controle por volta de 1830, aos 18 anos de idade. Sob sua liderança, a Krupp transformou-se em um conglomerado industrial de alcance global. Alfred promoveu inovações pioneiras, como o aro de roda ferroviária inteiriço, que revolucionou o transporte sobre trilhos ao oferecer maior robustez e segurança, contribuindo para a expansão das ferrovias europeias e para a mobilidade logística de tropas e suprimentos militares. Entretanto, a verdadeira projeção internacional da empresa ocorreu com o desenvolvimento de canhões de aço fundido, que superavam amplamente os modelos de bronze então predominantes. Esses canhões apresentavam maior resistência, precisão e durabilidade, características demonstradas nas vitórias prussianas durante a Guerra Austro-Prussiana (1866) e, posteriormente, na Guerra Franco-Prussiana (1870–1871). Enquanto engenheiros da Krupp se dedicavam a cálculos, experimentos metalúrgicos e testes exaustivos, os artilheiros prussianos reconheciam nessas peças um instrumento decisivo no campo de batalha. A expansão da empresa foi consolidada ao longo do século XIX, quando a família Krupp assumiu definitivamente o comando e transformou a fábrica de Essen no principal fornecedor de armamentos do recém-unificado Império Alemão. A reputação da Krupp ultrapassou fronteiras, levando à exportação de seus canhões para diversos países, como Rússia, Áustria-Hungria e, de modo especial, o Império Otomano, com o qual estabeleceu contratos estratégicos ao longo da década de 1860. Nesse contexto de crescente sofisticação tecnológica, em 1897 foi lançado o canhão de campanha Krupp de 75 mm, um projeto inovador que daria origem a uma importante família de armas de artilharia no início do século XX. Dotado de elevado alcance  até 8.500 metros  e cadência de tiro superior, o modelo combinava mobilidade, precisão e potência, características alinhadas às táticas de guerra modernas que começavam a se delinear. Seu sucesso técnico conduziu ao desenvolvimento do Modelo Krupp 1903, que incorporava melhorias estruturais, especialmente em estabilidade e precisão. O Exército Alemão (Reichswehr), já restrito pelas limitações impostas pelo pós-guerra, adotou o canhão em larga escala para exercícios de treinamento. Nessas atividades, artilheiros submetiam o equipamento a condições extenuantes, calibrando peças sob clima adverso e terrenos irregulares, validando sua confiabilidade. 

O desempenho superior do Krupp 1903 garantiu à empresa um contrato governamental de grande relevância, reforçando sua posição como um dos principais fornecedores do mercado internacional de armamentos. Produzido como um “stock gun”, o canhão de campanha Krupp de 75 mm Modelo 1903 foi concebido para exportação em larga escala, permitindo apenas modificações mínimas a fim de atender às necessidades específicas de cada cliente. Essa padronização, aliada à flexibilidade de adaptação, consolidou a estratégia comercial da Krupp e ampliou sua influência no cenário bélico na virada do século XIX para o XX. O primeiro grande cliente desse modelo foi o Império Otomano, que adquiriu 558 unidades do Krupp 1903, projetadas segundo requisitos próprios, incluindo escudo de proteção e culatra de bloco deslizante horizontal. Essas peças tiveram papel significativo em diversos conflitos regionais, destacando-se durante a Primeira Guerra dos Balcãs (1912–1913). Nesse período, 126 canhões otomanos, anteriormente comprados, foram capturados pelo Exército Real Sérvio, que posteriormente os empregou na Primeira Guerra Mundial um testemunho da robustez e longevidade do projeto. Outros países europeus também incorporaram o Krupp 1903. Dinamarca e Holanda adquiriram o modelo, sendo que os holandeses compraram 120 unidades, além dos direitos de produção. Em ambos os casos, os canhões passaram por processos de modernização, incorporando rodas de aço e pneus pneumáticos, o que permitia tração por veículos automotores  uma atualização essencial numa era de mecanização militar crescente. As unidades fornecidas à Dinamarca receberam a designação “03 L/30” e foram inclusive utilizadas nas fases iniciais da Segunda Guerra Mundial, integrando os esforços de resistência dinamarquesa à invasão alemã em 1940. O caso mais expressivo, contudo, foi o da Romênia, que adquiriu 636 unidades, representando a maior compra de um único tipo de canhão na história militar romena. Denominado localmente como “Tunul de câmp Krupp, cal. 75 mm, md. 1904”, o modelo se destacava pela adoção da mira Ghenea-Korodi, projetada e fabricada na Romênia, considerada mais precisa que a versão alemã. Durante a Primeira Guerra Mundial, esses canhões formaram a espinha dorsal da artilharia romena, equipando todos os regimentos de artilharia das divisões de infantaria. Nos campos de batalha dos Cárpatos, artilheiros romenos enfrentavam condições severas  lama, frio intenso e fogo inimigo  carregando projéteis de 6,5 kg e ajustando continuamente as miras para atingir alvos a grandes distâncias. Apesar do desgaste decorrente do uso prolongado e das perdas em combate, restavam 321 peças em 1926, e mesmo consideradas tecnologicamente ultrapassadas, permaneceram em serviço ativo até 1942, evidenciando sua durabilidade e confiança operacional. A Bélgica também participou do conjunto de usuários do Krupp 1903, adquirindo uma licença para produzi-lo na Fonderie Royale des Canons, sob a designação Canon de 7c5 M 1905 TR et TRA. Utilizados tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra Mundial, os exemplares capturados pelas forças alemãs receberam a denominação 7.5 cm Feldkanone 235(b). Embora o número exato de unidades produzidas na Bélgica não seja detalhado, a existência da licença indica uma produção significativa.
No Japão, o governo imperial adquiriu os direitos de produção do Krupp 1903, resultando no desenvolvimento local do canhão Tipo 38 de 75 mm, que se tornou um dos principais armamentos do Exército Imperial Japonês. Esse modelo foi amplamente empregado nas campanhas contra a China Nacionalista durante a década de 1930, especialmente nas fases iniciais da Segunda Guerra Sino-Japonesa. A adoção do Tipo 38 ilustra a influência tecnológica alemã sobre o processo de modernização militar japonês no período pré-Segunda Guerra Mundial. No contexto europeu, a primeira década do século XX foi marcada por uma crescente corrida armamentista, impulsionada pelo acirramento das tensões geopolíticas que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Nesse ambiente, o governo belga firmou um contrato de grande vulto para a produção sob licença de uma versão aprimorada do Krupp 7,5 cm Field Gun Modelo 1903, diretamente com o fabricante alemão Friedrich Krupp AG. Essa variante modernizada recebeu a designação Canon de 7c5 M 1905 TR et TRA e foi fabricada localmente pela Fonderie Royale des Canons (FRC). As duas versões do canhão atendiam a diferentes requisitos operacionais: TR (Traction Roulante): versão originalmente tracionada por cavalos e TRA (Traction Automobile): versão modernizada, adaptada na década de 1920 para tração motorizada, acompanhando a mecanização crescente dos exércitos europeus. O canhão utilizava uma culatra de cunha horizontal deslizante e possuía um escudo de proteção, aumentando a segurança das guarnições. Os primeiros lotes produzidos na Bélgica apresentavam baixo índice de nacionalização, mas, conforme a FRC consolidava sua capacidade industrial, esse índice alcançou cerca de 90%, permanecendo importado apenas o tubo do canhão, ainda fabricado pela Krupp. Em termos técnicos, tratava-se de um projeto convencional para sua época, empregando sistema de recuo hidropneumático e uma culatra do tipo bloco deslizante horizontal. Pesando cerca de 1.070 kg, possuía elevação entre –8° e +16° e podia disparar projéteis de estilhaços de 6,5 kg, atingindo um alcance máximo aproximado de 8.000 metros, desempenho considerado expressivo para o período. Em 1914, às vésperas da invasão alemã, o Exército Belga (Armée belge) contava com dezoito brigadas de artilharia de campanha, cada uma composta por três baterias armadas com canhões de 75 mm do Modelo Krupp 1905. Embora o número exato de unidades produzidas na Bélgica não seja precisamente documentado, estimativas baseadas na capacidade industrial da FRC sugerem que entre 100 e 200 peças tenham sido fabricadas dentro do escopo de produção licenciada. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), o Canon de 7c5 M 1905 desempenhou papel central nas operações de defesa belgas, apoiando unidades de infantaria em batalhas como a defesa de Antuérpia e nas ações da Frente Ocidental. Com cadência de disparo entre 15 e 20 tiros por minuto, a arma era eficaz contra posições entrincheiradas e concentrações de tropas inimigas. A maior parte dessas peças foi perdida ou capturada durante o rápido avanço das forças alemãs em 1914. Após essas perdas, a artilharia belga passou a depender majoritariamente dos canhões de 75 mm fornecidos pela França, que se tornaram o principal armamento de campanha do país ao longo da guerra.

Neste momento a  equipe de projetos da Friedrich Krupp AG, sempre se dispunha livremente a customizar o desing de seus produtos destinados ao mercado de exportação, visando assim atender a necessidades especificadas de cada novo cliente. A exemplo podemos citar o Modelo 1908, que teve seu projeto fundamentalmente alterado para atender aos requisitos apresentados pelo Exército Imperial do Japão.  O Krupp 75 mm Modelo 1908 foi projetado como uma evolução do bem-sucedido Field Gun de 75 mm Modelo 1903, que alcançou exportações significativas para países como Romênia, Império Otomano e Holanda. A pedido do Exército Imperial do Japão, a equipe de projetos da Krupp realizou alterações substanciais para atender às especificações japonesas, demonstrando a flexibilidade que caracterizava a empresa. O Modelo 1908, designado como Type 38 no Japão após aquisição dos direitos de produção, apresentava um cano mais longo, com comprimento de 30 calibres (L/30, cerca de 2,25 metros), em comparação com os modelos anteriores, como o Krupp 1903. Essa modificação aumentava o alcance máximo para aproximadamente 9.000 metros, superando os 8.500 metros do Modelo 1903, embora tornasse o canhão ligeiramente mais pesado, com cerca de 1.100 kg. A carruagem de transporte foi completamente redesenhada, rompendo com o padrão da Krupp. Em vez da típica caixa aberta usada no Krupp 7.5 cm Gebirgskanone M.1904 (canhão de montanha), o Modelo 1908 adotou elementos tubulares, assemelhando-se a um grande diapasão no plano horizontal. A seção traseira da trilha, que suportava a pá de ancoragem, podia ser dobrada sobre os tubos dianteiros, facilitando o transporte em terrenos acidentados. Esse design inovador, inspirado em projetos da concorrente Ehrhardt Rheinmetall AG, conferia maior mobilidade e robustez, ideais para as operações do Exército Imperial Japonês em terrenos variados da Manchúria e da China. Na fábrica da Krupp em Essen, engenheiros e operários trabalhavam com precisão artesanal, moldando o aço em forjas escaldantes e testando cada componente para garantir durabilidade e desempenho.  Adquiridos as centenas pelo governo do Império do Japão, logo se tornaria  a espinha dorsal de sua artilharia de campanha. Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), o canhão foi amplamente utilizado, oferecendo suporte às divisões de infantaria com sua cadência de 15 a 20 disparos por minuto e projéteis de 6,5 kg. Sua mobilidade, garantida pela carruagem tubular, permitia deslocamentos rápidos em terrenos difíceis, enquanto o alcance ampliado era crucial para atingir posições fortificadas. Este modelo seria considerado para exportação há outros países mantendo o calibre 75mm L/30, se tornando um grande sucesso comercial na primeira década do século vinte. 
O Tratado de Versalhes impôs duras sanções à Alemanha, incluindo indenizações financeiras e limites rigorosos à produção industrial. Para a Friedrich Krupp AG, que havia se tornado sinônimo de armamentos desde as guerras prussianas de 1866 e 1870, as restrições foram particularmente severas: a empresa foi proibida de fabricar armas e munições, e a produção de aço foi limitada por cotas máximas. Essas medidas afetaram profundamente os trabalhadores de Essen, que, após anos moldando canhões em forjas escaldantes, enfrentaram a incerteza de um futuro sem a principal atividade da empresa. Para muitos, a transição foi um teste de adaptação, com famílias inteiras dependentes da Krupp para sua subsistência. Sob a liderança de Gustav Krupp, a empresa se reinventou, voltando-se para a produção de ferramentas, máquinas agrícolas e materiais para a indústria de base, como locomotivas e componentes ferroviários. Nas oficinas de Essen, operários que outrora forjavam canhões agora fabricavam arados e peças industriais, mantendo viva a tradição de precisão da Krupp. Esse período de paz forçada foi marcado por um espírito de resiliência, com engenheiros e técnicos buscando soluções inovadoras para sustentar a empresa em um cenário de restrições. A ascensão de Adolf Hitler ao poder em 1933, consolidada em 1934, marcou o início de um ambicioso programa de rearmamento alemão, desafiando as restrições do Tratado de Versalhes. A Friedrich Krupp AG foi convocada a retomar sua produção bélica, reacendendo as forjas de Essen com um novo propósito. Para os trabalhadores, o retorno à fabricação de armas era tanto uma oportunidade de recuperação econômica quanto um lembrete do papel central da Krupp na história militar alemã. Engenheiros, muitos dos quais haviam preservado seus conhecimentos durante o período de restrições, voltaram a projetar canhões e munições, adaptando-se às demandas do regime nazista. Entre os projetos de destaque estava o Schwerer Gustav, um colossal canhão ferroviário de 800 mm, projetado para destruir fortificações massivas. No entanto, o volume de negócios da Krupp concentrou-se em peças de artilharia de médio e leve calibre, mais práticas para produção em massa e uso em campo. Os canhões de campanha de 75 mm, como os modelos Krupp 75 C-26 M e C-28 M, foram desenvolvidos para atender a essas necessidades, com designs simplificados que priorizavam eficiência e baixo custo. Equipados com rodas de madeira para tração animal, esses canhões combinavam mobilidade e robustez, pesando cerca de 1.000 kg e alcançando até 9.000 metros com projéteis de 6,5 kg.

Emprego nas Forças Armadas Brasileiras.
A Arma de Artilharia do Exército Brasileiro possui origem profundamente enraizada nos conflitos do período colonial e consolidou-se como um dos pilares da história militar nacional ao longo do século XIX. Seu desenvolvimento foi marcado por episódios de bravura, inovação técnica e resiliência institucional, que moldaram a identidade do artilheiro brasileiro. As primeiras manifestações da artilharia em território brasileiro datam do período colonial, especialmente durante as Batalhas dos Guararapes (1648–1649), quando forças luso-brasileiras enfrentaram tropas holandesas em Pernambuco. Embora empregassem meios rudimentares, aqueles combatentes demonstraram notável engenhosidade e coragem, lançando as bases para a tradição artilheira que se formaria nos séculos seguintes. Com a Independência do Brasil, em 1822, a artilharia de campanha passou a se estruturar como uma arma organizada e tecnicamente orientada. Diferentemente da infantaria e da cavalaria, cujas formações exigiam períodos relativamente mais curtos, a artilharia demandava sólida formação matemática e científica. Por essa razão, seus oficiais eram obrigatoriamente formados pela Academia Militar do Império, instituição responsável por consolidar a doutrina técnico científica que caracterizaria o prestígio da arma. O ápice dessa fase inicial ocorreria durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), o maior conflito armado da história da América do Sul. Nesse teatro de operações, a artilharia brasileira teve papel decisivo, especialmente na Batalha de Tuiuti (24 de maio de 1866). Sob o comando do então coronel Emílio Luís Mallet, a artilharia brasileira ficou conhecida como “Artilharia Revólver”, devido à sua notável rapidez, precisão e capacidade de manobra. Operando atrás de um fosso tático engenhosamente preparado, os artilheiros repeliram ataques maciços das forças paraguaias, episódio eternizado na célebre frase de Mallet: “Eles que venham! Por aqui não passam!” Nascido na França em 1801 e naturalizado brasileiro, Mallet ascendeu por mérito, sendo promovido a brigadeiro, agraciado com o título de Barão de Itapevi em 1878 e posteriormente elevado ao posto de marechal em 1885. Sua liderança e competência técnica marcaram profundamente a doutrina artilheira e consolidaram seu nome como símbolo de coragem e profissionalismo. Paralelamente, o final do século XIX foi marcado por um importante salto tecnológico. A influência da empresa alemã Friedrich Krupp AG no processo de modernização do Exército Brasileiro começou em 1872, com a aquisição dos primeiros canhões de campanha de 75 mm, destinados aos Regimentos de Artilharia a Cavalo. Produzidas em Essen, essas peças representavam o que havia de mais avançado na engenharia bélica de sua época, superando amplamente os canhões franceses La Hitte, então prevalentes no arsenal nacional. Na década de 1880, o Exército Imperial adquiriu mais três dezenas de canhões Krupp 75 mm Modelo 1895, recomendados pelo Conde d’Eu, genro do Imperador Dom Pedro II e então Comandante-Geral da Artilharia. À frente da Comissão de Melhoramento de Material do Exército, o Conde d’Eu desempenhou papel fundamental na modernização das forças terrestres, defendendo energicamente a superioridade dos armamentos alemães, cujos alcances superiores que podiam ultrapassar 12.000 metros  representavam uma drástica ampliação das capacidades da  artilharia.

A introdução dos canhões Krupp marcou uma virada na modernização do Exército Brasileiro, após anos de estagnação tecnológica. Para os artilheiros da época, operar essas peças representava um desafio técnico significativo. Nos campos de instrução do Rio de Janeiro, guarnições compostas por cinco a sete homens realizavam rotinas extenuantes: carregavam projéteis de 6,5 kg, ajustavam miras, regulavam mecanismos e disparavam sob intenso calor, fortalecendo a camaradagem e a disciplina coletiva. Em uma ironia histórica, os mesmos canhões defendidos pelo Conde d’Eu durante o Império foram empregados contra uma rebelião de inspiração monarquista já no período republicano: a Guerra de Canudos (1896–1897). Nessa campanha, os Krupp demonstraram sua letalidade em operações reais, apesar das condições adversas do sertão baiano, reforçando sua reputação como peças robustas e confiáveis. Ao longo desse processo, a Arma de Artilharia consolidou-se como um dos ramos mais técnicos e prestigiados do Exército Brasileiro, mantendo até hoje os valores de precisão, disciplina e rigor científico que caracterizaram sua formação histórica. No início do século XX, o Exército Brasileiro enfrentava uma conjuntura marcada pela obsolescência de seus armamentos, estruturas administrativas e doutrinas operacionais. Esse cenário era resultado de limitações já evidenciadas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870) e posteriormente confirmadas na Campanha de Canudos (1896–1897), quando ficou evidente que grande parte do material bélico disponível não acompanhava a evolução tecnológica observada nas principais potências militares. Os canhões Krupp de 75 mm, adquiridos em 1872 e novamente em 1895, haviam representado, em seu tempo, um salto qualitativo. Contudo, a virada do século trouxe novidades determinantes  como o sistema de recuo hidropneumático, a maior mobilidade tática da artilharia e o emprego de munições mais avançadas  que tornaram aqueles armamentos insuficientes para a guerra moderna. Diante dessa realidade, lideranças militares brasileiras passaram a defender uma profunda reestruturação das forças terrestres. Entre os principais articuladores desse movimento destacaram-se os Marechais João Nepomuceno de Medeiros Mallet, Francisco de Paula Argolo e, especialmente, Hermes da Fonseca, cuja atuação contou com o apoio político do então Ministro das Relações Exteriores, o Barão do Rio Branco. Essa convergência de esforços resultou no processo reformista conhecido como Reforma Hermes (1900–1908), um dos mais abrangentes projetos de modernização militar da Primeira República. A Reforma Hermes promoveu transformações estruturais profundas. No campo administrativo, redefiniu-se a organização territorial do Exército, com a criação de 21 regiões de alistamento militar e 13 regiões de inspeção, possibilitando melhor distribuição e controle do efetivo. Paralelamente, criou-se e regulamentou-se o Estado-Maior do Exército, elemento essencial para o planejamento estratégico e logístico, inspirado diretamente no modelo prussiano desenvolvido por Helmuth von Moltke, então referência mundial em eficiência militar.
No âmbito educacional, a reforma promoveu a atualização do ensino militar, direcionando a formação de oficiais para parâmetros técnico-científicos mais avançados. Essa medida era considerada indispensável, já que o Brasil ainda não possuía uma indústria bélica capaz de atender às demandas modernas, o que reforçava a necessidade de importar armamentos sofisticados e formar quadros aptos a operá-los. Em agosto de 1908, Hermes da Fonseca realizou uma viagem oficial à Alemanha, motivado por sua admiração declarada pelo Exército Prussiano e pela intenção de aprimorar as capacidades técnico-profissionais das forças terrestres brasileiras. A visita resultou em importantes contratos com empresas alemãs, entre elas a Friedrich Krupp AG, consolidando a opção estratégica pela modernização com base na tecnologia germânica. Esses acordos incluíram a aquisição de 400.000 fuzis Mauser de 7 mm para a infantaria, 10.000 lanças Ehrhardt, 20.000 espadas e 10.000 mosquetões para a cavalaria, refletindo a escala da renovação armamentista. Para a artilharia, a Krupp forneceu 27 baterias de canhões de campanha de 75 mm Modelo 1908, seis baterias de canhões de montanha de 75 mm e cinco baterias de obuses de 105 mm. Essas peças, dotadas de sistema de recuo hidropneumático, ofereciam alcance entre 6.500 e 9.000 metros, dependendo do calibre, representando o ápice da tecnologia da época. O Modelo 1908  uma adaptação do Type 38 japonês  destacava-se pela carruagem tubular que conferia maior mobilidade, além de possuir uma estrutura simplificada que favorecia a produção em série. Complementando a modernização, o Brasil também encomendou canhões Krupp de 305 mm, destinados às torres do Forte de Copacabana, então em construção no Rio de Janeiro, a fim de reforçar a defesa costeira da Capital Federal. Ao final de 1909, chegaram ao porto do Rio de Janeiro 170 canhões Krupp de 75 mm, versões C-26 e C-28, correspondentes aos modelos 1908 e 1909, assim que desembarcados, esses sistemas de artilharia foram imediatamente incorporados às unidades de campanha. Essas peças, classificadas como canhões 75 mm/L28, possuíam alcance de aproximadamente 6.000 metros e empregavam munições de 5,5 kg. Entre essas, destacava-se o projétil de estilhaços, contendo 245 balas de 11 gramas, lançado a uma velocidade inicial de 490 m/s. Seu emprego atendia aos padrões mais avançados da época, sendo particularmente eficaz em missões de apoio direto e contra concentrações de infantaria inimiga. A operação completa da peça demandava uma guarnição de nove militares, cujo treinamento envolvia cálculos de tiro, operação do mecanismo de recuo e ajustes de mira. Para garantir mobilidade adequada no terreno, cada canhão era habitualmente tracionado por nove cavalos ou mulas, prática comum nas artilharias europeias do período pré-motorizado. A munição  composta por 36 granadas por peça  era transportada em um carro de munição especialmente fabricado pela Friedrich Krupp AG, concebido para acompanhar o canhão em manobra

A introdução operacional desses novos sistemas de artilharia exigiu grande esforço de capacitação. Em campos de instrução como os de Valença (RJ) e Rio Pardo (RS), guarnições brasileiras — compostas por cinco a sete artilheiros enfrentavam jornadas intensas de treinamento. Sob condições climáticas adversas, ajustavam sistemas de mira, operavam mecanismos de recuo e manipulavam projéteis de 6,5 kg (75 mm) e 15 kg (105 mm), consolidando o processo de transição tecnológica. A robustez estrutural, associada à simplicidade mecânica e à facilidade de operação e manutenção, fez com que os canhões Krupp rapidamente conquistassem a confiança e a aprovação dos comandantes das unidades de artilharia de campanha. O primeiro emprego operacional dos recém-adquiridos canhões Krupp de 75 mm ocorreu durante a Guerra do Contestado (1912–1916), conflito regional deflagrado na fronteira entre os estados do Paraná e Santa Catarina. A área em disputa, caracterizada por extensas florestas de madeira de lei e vastas plantações de erva-mate  recursos de grande valor econômico  tornou-se palco de tensões fundiárias que envolveram posseiros, pequenos proprietários rurais e o poder público estadual e federal. O conflito ganhou contornos de guerra civil quando comunidades sertanejas, influenciadas por líderes messiânicos e descontentes com políticas de desapropriação e concessões de terras a empresas estrangeiras, organizaram resistência armada. Preocupados com a escalada do movimento e temendo a formação de um foco insurrecional duradouro, os governos estaduais e o Governo Federal decidiram empregar força militar a partir de 1912. Nesse contexto, unidades de artilharia de campanha desempenharam papel decisivo nas operações contra os redutos do Contestado. Os canhões Krupp 75 mm, recém-incorporados ao Exército Brasileiro, foram amplamente utilizados em ataques a posições entrincheiradas, destacando-se pela precisão e pela robustez mecânica. Sua atuação foi determinante para o desmantelamento de diversos núcleos de resistência, contribuindo para o encerramento gradual das hostilidades, que se estenderam até agosto de 1916. Satisfeito com o desempenho dessa família de canhões em operações reais, o Comando do Exército Brasileiro decidiu ampliar seu parque de artilharia. Dessa forma, iniciaram-se negociações bilaterais entre os governos do Brasil e da Alemanha, culminando, em agosto de 1913, na assinatura de um contrato com a Friedrich Krupp AG. O acordo previa a aquisição de duzentos canhões de campanha de 75 mm, com entrega estipulada para ocorrer em até dez meses após sua formalização. A primeira remessa foi enviada dentro do prazo previsto, composta pelo modelo Krupp C-28 1911. Em comparação ao modelo 1909, essas peças possuíam culatra de maior espessura e mecanismo inspirado no sistema alemão FK 96, assegurando maior resistência e confiabilidade. A remessa incluía, ainda, canhões de montanha Krupp Modelo 24 C14 de 75 mm, concebidos para operar em terrenos acidentados e de difícil acesso  característica particularmente relevante para o teatro geográfico brasileiro.
No entanto em julho de 1914 ao eclodir da Primeira Guerra Mundial, pelo menos 108 peças destinadas ao contrato brasileiro se encontravam prontas nas instalações do fabricante na cidade de Essen. Porém estas seriam confiscadas arbitrariamente pelo governo alemão, e possivelmente seriam destinadas a equipar as divisões de artilharia no front oriental. Os registros do fabricante classificavam estas peças como pertencentes a versão  Feldkanonen C-30 de 75 mm. Os canhões Krupp de 75 mm estiveram em ação em quase todos os grandes conflitos regionais ocorridos no país no início do século vinte incluindo as revoluções de 1930, a Constitucionalista de 1932, curiosamente os canhões de 75 mm Krupp (e também Schneider) foram empregados como arma orgânica dos seis trens blindados (TB) denominados TB-1 a TB-6, construídos na Oficinas Ferroviárias.  Durante a segunda metade desta década, o Exército Brasileiro se encontrava em uma situação complicada, com muitos países vizinhos  dispondo de equipamentos bélicos superiores, chegando a preocupante definição que nosso país estava completamente despreparado para enfrentar possíveis ameaças externas.  Para resolver esta deficiência em 1936 o general Eurico Gaspar Dutra, então Ministro da Guerra, determinou que uma comissão de compras, visitasse na Europa principalmente, vários fabricantes de armamentos, visando assim iniciar um processo de reaparelhamento das Forças Armadas Brasileiras.  Em atendimento a estas demandas, em 25 de março de 1938, seriam assinados diversos contratos com a empresas alemães como a Daimler Benz, Kraus Maffei, Fried Krupp AG. AG Matra Werke, Bussing-NAG, Henschel & Sohn, e outras, resultando na compra de uma quantidade substancial de material militar. O fornecedor principal nesta fase, novamente, seria a Fried Krupp AG, se destacando pelo volume de negócios celebrados com esta, assim por este motivo este acordo passaria a ser conhecido como “O Grande Contrato Krupp. Em setembro de 1939 o início da Segunda Guerra Mundial implicaria em bloqueios nas rotas comerciais entre a Alemanha e os demais países, atrasando a entrega dos materiais pertencentes ao contrato. O intensificar do conflito na Europa iria interromper de vez o fornecimento de materiais militares previstos neste contrato, com o restante do material estocado sendo absorvido pelas forças armadas alemães. Somente 64 canhões Krupp dos modelos C-26 e C-28 seriam recebidos, incluindo equipamentos de apoio e reboque de munição.  Com a ampliação da motorização do exército, a partir de 1954 uma parte destes canhões mais novos, seriam modernizados nos arsenais de guerra no Rio de Janeiro (RJ) e General Câmara (RS) recebendo novas rodas com pneus no lugar das rodas de madeira passando a dotar vários Grupos de Artilharia de Campanha (GAC) permanecendo em operação até a primeira metade da década de 1980.   

Em Escala:
Diversos modelos e versões dos canhões Krupp 75 mm seriam empregados no Exército Brasileiro  e na Força Publica de São Paulo ao longo dos anos, desta maneira optamos por representar o modelo Krupp 1895 calibre 75 mm do tipo retrocarga. O kit produzido pela empresa Artesania Latina é composto por peças produzidas em madeira, latão e metal, e apresenta nível de detalhamento e acabamento aceitável.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura que pode ter sido empregado nos canhões Krupp 75 mm e demais peças de artilharia de origem alemã, se baseando no esquema adotado no Exército Alemão (Reichswehr) durante a década de 1910. Presume-se desta maneira  que as peças de artilharia pertencentes ao Exército Brasileiro neste período foram repintados neste esquema. Esta tonalidade de pintura representa também as peças preservadas atualmente em museus militares.

Bibliografia: 
- História Militar - http://darozhistoriamilitar.blogspot.com/
- Canhões antiaéreos Krupp 88 mm no EB – Helio Higuchi e Paulo R. Bastos Jr – Tecnologia & Defesa
- Arquivos do Museu Militar de Conde de Linhares – Rio de Janeiro
- Krupp Gun – Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Krupp_gun
- Arquivos do Museu Militar do Comando Sul – Porto Alegre