F-5E Tiger II Northrop (Bloco 28NO)

História e Desenvolvimento.
Na década de 1950, a aviação militar atravessava um período de transformações profundas, impulsionado pelo ambiente estratégico da Guerra Fria e pela crescente competição tecnológica entre as superpotências. O advento da propulsão a jato, dos radares embarcados e de novas doutrinas de emprego aéreo permitiu o desenvolvimento de aeronaves capazes de atingir velocidades supersônicas, maior autonomia e significativa capacidade de carga bélica. Contudo, tais avanços implicavam custos de aquisição, operação e manutenção cada vez mais elevados, suscitando preocupações tanto no âmbito do Departamento de Defesa norte-americano quanto entre os principais fabricantes da indústria aeronáutica. Nesse contexto, a Northrop Corporation percebeu a necessidade de propor uma alternativa que conciliasse desempenho e racionalidade econômica. Em 1956, a empresa constituiu uma equipe de desenvolvimento liderada por Edgar Schmued, então vice-presidente de engenharia e reconhecido projetista que anteriormente participara da concepção do North American P-51 Mustang e do North American F-86 Sabre. A proposta era clara: desenvolver um caça leve, de elevada manobrabilidade e confiabilidade, capaz de oferecer desempenho competitivo a custos significativamente inferiores aos dos interceptadores pesados e complexos então em produção. O projeto incorporou conceitos inovadores para a época. Entre eles, destacava-se a noção de “potencial de crescimento projetado”, segundo a qual a aeronave deveria possuir margem estrutural e volumétrica para futuras modernizações, assegurando vida útil superior a duas décadas. Associado a esse princípio estava o enfoque no “custo do ciclo de vida”, que buscava reduzir despesas não apenas na aquisição, mas também na operação e manutenção ao longo de todo o período de serviço. Sob a liderança técnica de Welko Gasich, engenheiro-chefe do programa, optou-se por uma configuração bimotora compacta, com os propulsores integrados de forma eficiente à fuselagem, solução que favorecia desempenho, simplicidade estrutural e facilidade de manutenção. O projeto recebeu a designação interna N-156. Inicialmente, o N-156 foi concebido para atender a uma concorrência lançada pela Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy), que buscava um caça leve apto a operar a partir de porta-aviões de escolta. Esses navios, de menor porte, apresentavam limitações de convés, armazenamento e capacidade de lançamento, o que inviabilizava o emprego dos caças mais pesados então em serviço nos grandes porta-aviões de frota. A flexibilidade do projeto, contudo, permitia sua adaptação a outras necessidades, inclusive às da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), vislumbrando-se eventual aplicação em missões de defesa aérea tática ou de exportação. Entretanto, a reavaliação estratégica conduzida pela marinha norte-americana, que culminou na desativação progressiva dos porta-aviões de escolta, representou revés significativo para o programa em sua concepção original. Diante desse novo cenário, a Northrop viu-se compelida a redirecionar o N-156 para outras oportunidades, adaptando-o a diferentes requisitos operacionais decisão que, paradoxalmente, abriria caminho para o surgimento de uma das mais difundidas famílias de caças leves do período da Guerra Fria.

O cancelamento, pela Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy), da demanda por um caça leve destinado à operação em porta-aviões de escolta representou um duro revés para a Northrop Corporation. A decisão interrompeu a perspectiva de produção em larga escala do projeto N-156 e colocou sob risco os investimentos técnicos e financeiros já realizados. Ainda assim, a direção da empresa reagiu com notável capacidade estratégica, optando por reestruturar o programa em duas vertentes complementares e tecnologicamente correlatas. A primeira delas resultou no N-156F, concebido como um caça tático leve conhecido internamente como “Tally-Ho” , enquanto a segunda deu origem ao N-156T, configurado como aeronave de treinamento avançado. Este último rapidamente despertou o interesse da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), que buscava substituir seus treinadores subsônicos Lockheed T-33 Shooting Star, já então tecnologicamente superados frente à nova geração de caças supersônicos. Após criterioso processo de avaliação, o N-156T foi selecionado como o novo treinador padrão, recebendo a designação oficial de Northrop T-38 Talon. O protótipo YT-38 realizou seu voo inaugural em 12 de junho de 1959, a partir da Base Aérea de Edwards, na Califórnia centro nevrálgico dos ensaios em voo norte-americanos. Superada uma extensa campanha de testes, a aeronave foi aprovada para produção em série, totalizando 1.158 exemplares fabricados. As entregas tiveram início em 1960 e se estenderam até janeiro de 1972. A solidez conceitual do projeto evidenciou-se ao longo das décadas seguintes. Programas sucessivos de modernização estrutural, atualização aviônica e reforço de célula permitiram que o T-38 permanecesse em serviço ativo por mais de meio século, formando gerações de pilotos militares. Apenas na segunda metade da década de 2020 iniciou-se seu processo gradual de substituição, encerrando um dos mais longevos ciclos operacionais da aviação de treinamento supersônica. Paralelamente, e apesar do reduzido entusiasmo inicial pela versão monoplace N-156F, a Northrop decidiu prosseguir com seu desenvolvimento por conta própria uma decisão empresarial arrojada. Esse esforço seria recompensado em um contexto geopolítico em transformação. Ao final da década de 1950, o Departamento de Estado dos Estados Unidos, identificou a necessidade estratégica de disponibilizar a países aliados uma aeronave de combate supersônica multifuncional, de baixo custo de aquisição e operação. Tal iniciativa estava diretamente vinculada ao fortalecimento do Military Assistance Program (MAP), instrumento central da política externa norte-americana durante a Guerra Fria. Dessa demanda emergiu o chamado “Programa FX”, que previa a aquisição inicial de aproximadamente 200 aeronaves, além do financiamento para a construção de três protótipos destinados à avaliação comparativa. Diversas empresas do setor apresentaram propostas; contudo, foi o N-156F da Northrop que demonstrou o melhor equilíbrio entre desempenho, simplicidade construtiva e viabilidade econômica. O primeiro protótipo do N-156F realizou seu voo inaugural em 30 de julho de 1959, igualmente a partir da Base Aérea de Edwards. Após rigoroso programa de ensaios e comparações técnicas com projetos concorrentes, a aeronave foi declarada vencedora da concorrência. Esse resultado marcou um ponto de inflexão na trajetória da Northrop, consolidando o N-156F posteriormente conhecido mundialmente como F-5.
No contexto da Guerra Fria, a Northrop Corporation alcançou um marco de grande impacto estratégico ao desenvolver o caça tático leve oficialmente designado F-5A, popularmente conhecido como Freedom Fighter  ou Combatente da Liberdade. O nome escolhido refletia a finalidade geopolítica do projeto: fornecer às nações aliadas, sobretudo às de menores recursos e em desenvolvimento, um avião de combate eficiente, de custos de aquisição e operação reduzidos, capaz de garantir sua defesa aérea num período de tensões decorrentes do expansionismo soviético. O F-5A foi concebido como solução robusta e econômica, alinhada aos objetivos do Programa de Assistência Militar (Military Assistance Program - MAP) dos Estados Unidos, programa que visava reforçar a influência política e militar americana por meio da transferência de equipamentos a países parceiros. A Northrop assinou o primeiro grande contrato de produção em 26 de outubro de 1962, para a fabricação de cerca de 200 unidades, marcando o início de sua ampla adoção internacional. Ao longo das décadas seguintes, o Freedom Fighter tornou-se um dos principais caças exportados sob os termos deste programa, entrando em serviço nas forças aéreas de numerosos países, como Filipinas, Irã, Etiópia, Noruega, Taiwan, Marrocos, Venezuela, Grécia, Turquia, Países Baixos, Coreia do Sul e Espanha um testemunho de sua versatilidade, simplicidade de manutenção e eficácia operacional. Com o avanço das exigências táticas e tecnológicas no final da década de 1960, os Estados Unidos promoveram uma revisão dos requisitos de aeronaves de combate para seus aliados, levando à criação do programa Improved International Fighter Aircraft (IFA) em 1969. O objetivo era desenvolver um sucessor para o F-5A/B com desempenho superior, especialmente em termos de potência, autonomia e capacidades em combate ar-ar. Após um processo de avaliação competitivo, a Northrop foi escolhida como vencedora com uma versão significativamente aprimorada do design original, inicialmente referida como F-5A-21 e posteriormente redesignada F-5E Tiger II. O primeiro protótipo do F-5E Tiger II realizou seu voo inaugural em 23 de agosto de 1972, na Base Aérea de Edwards - AFB.  Projetado para superar limitações dos modelos anteriores como autonomia restrita e a ausência de radar  o Tiger II incorporou uma fuselagem alongada e aumentada para maior capacidade de combustível, asas com extensões de borda de ataque que melhoraram a manobrabilidade e aviônicos mais avançados, incluindo o radar Emerson Electric AN/APQ-153. Além disso, a aeronave podia ser equipada com sistemas de navegação inercial, TACAN (Tactical Air Navigation) e contramedidas eletrônicas (ECM), oferecendo versatilidade para atender às necessidades específicas de diferentes operadores. Esses desenvolvimentos consolidaram a aeronave, tanto nas versões F5-A Freedom Fighter quanto F-5E Tiger II  como um dos caças leves mais bem-sucedidos e amplamente utilizados durante a após o  período da Guerra Fria, combinando desempenho, simplicidade e baixo custo operacional para uma vasta gama de forças aéreas ao redor do mundo.

Em 6 de abril de 1973, o 425º TFS Esquadrao de Treinamento Tático (Tactical Fighter Training) sediado na Base Aérea de Williams, no Arizona, receberia o primeiro Northrop F-5E Tiger II de produção. Neste momento seria iniciado o programa de formação de equipes de voo e solo, e também a construção da doutrina operacional e de combate da nova aeronave. Posteriormente os caças bombardeiros Northrop F-5E Tiger II, começaram a ser despachados para o Sudeste Asiático, onde receberiam seu batismo de fogo no conflito do Vietnã, atuando como substitutos dos Northrop F-5A Freedon Fighter nas operações “Skoshi Tiger”, onde se mostrariam muito superiores em termos de performance. Dotando não só a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), mas também diversos esquadrões da Força Aérea do Vietnã do Sul (VNAF). Além desta nação, seguindo as diretrizes iniciais de seu desenvolvimento, o Northrop F-5E Tiger II, passou a ser oferecido em termos vantajosos através dos programas de ajuda militar, uma série de países alinhados a política externa do governo norte-americano, recebendo contratos de exportação para Coreia do Sul, Irã, Chile, Brasil, México, Suíça, Malásia, Cingapura, Taiwan, Marrocos, Jordânia, Grécia, Tunísia, Arábia Saudita, Etiópia. Honduras, Indonésia, Quênia, Noruega, Sudão e Iêmen. Neste contexto o 425º TFS (Tactical Fighter Training) foi designado como o esquadrão responsável em ministrar o treinamento e transição para o Northrop F-5E Tiger II de todos os pilotos estrangeiros cujos países tivessem adquirido a aeronave. Desta unidade sairiam centenas de pilotos, que empregariam o pequeno caça bombardeiro em combates reais como na Guerra do Ogaden (entre Etiópia e Somália), e na Guerra Irã X Iraque (1980 - 1988). Durante este processo de formação, observou-se a excelente manobrabilidade da aeronave em combate aéreo, iniciando assim seu emprego em como aeronave especializada para o combate dissimilar (Dissimilar Air Combat Training - DACT), substituindo os treinadores avançados Northrop T-38 Talon até então em uso, que não eram totalmente adequados a esta missão. Aproximadamente setenta células novas de fábrica, que estavam destinadas a Força Aérea do Vietnã do Sul (VNAF) foram absorvidas pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), que as destinou aos esquadrões de treinamentos “Agressores”  como os esquadrões 57th, 64th e  65th Esquadrões de Armas de Caça (Fighter Weapons Squadrons) que operavam junto à Base Aérea de Nellis no estado de Nevada.  Vale salientar que a aeronave também seria operada aviação naval da Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy) sendo empregadas também no papel de “agressores” em unidades baseadas nas instalações do   Naval Air Station Key West na Florida. A produção do Northrop F-5E e F-5F Tiger II alcançou, até 1987, um total de 1.399 unidades, divididas entre a versão monoplace (F-5E) e a biplace (F-5F). A substituição progressiva do F-5E/F Tiger II pela nova geração de caças norte-americanos teve início no final da década de 1980, quando a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) passou a introduzir em larga escala o  F-16 Fighting Falcon, aeronave de quarta geração dotada de sistemas eletrônicos mais avançados, maior capacidade multimissão e desempenho superior em cenários de combate de alta intensidade
Tal transição refletia não apenas a evolução tecnológica do período, mas também as novas exigências estratégicas impostas pelo contexto pós-Guerra Fria.  Apesar desse processo de substituição, o  F-5E/F Tiger II não perdeu imediatamente sua relevância. Ao contrário, manteve-se como uma plataforma notavelmente eficiente, graças a uma combinação singular de baixo custo operacional, elevada manobrabilidade e reduzida assinatura radar. Essas características, aliadas à simplicidade de manutenção e à robustez estrutural, permitiram que a aeronave continuasse competitiva mesmo em um ambiente progressivamente dominado por vetores de quarta geração. Diante desse cenário, diversas nações optaram por investir em programas de modernização com o propósito de estender a vida útil de suas frotas e atualizar suas capacidades de combate. A Força Aérea da República de Singapura (RSAF) destacou-se como pioneira ao implementar um abrangente programa de modernização em seus F-5E/F. A iniciativa contemplou a incorporação de novos sistemas aviônicos, radares atualizados e integração de armamentos mais modernos, revitalizando significativamente a frota. Os resultados obtidos foram expressivos, demonstrando o potencial do F-5E Tiger II como plataforma versátil e adaptável, capaz de absorver sucessivas atualizações tecnológicas. O êxito do programa singapuriano serviu de referência para outros operadores. Países como Brasil, Chile, Tailândia e Taiwan adotaram projetos de modernização que incluíram novos sistemas de navegação, guerra eletrônica e armamentos ar-ar mais avançados. Essas iniciativas garantiram que o F-5E/F permanecesse operacional até o final da década de 2020, superando em muito sua expectativa inicial de serviço. Nos próprios Estados Unidos, o Tiger II encontrou uma nova e importante função. Na Marinha dos Estados Unidos (U.S Navy), a aeronave passou a desempenhar o papel de “Agressor”, simulando vetores adversários em exercícios de combate aéreo. Nessa função, o F-5E/F contribuiu decisivamente para o aprimoramento tático de pilotos embarcados e da aviação naval, proporcionando um ambiente de treinamento realista e desafiador. Em 2015, a marinha norte-americana reforçou sua frota ao adquirir células usadas provenientes da Força Aérea Suíça (Schweizer Luftwaffe) , assegurando a continuidade dessa missão. Assim, o Northrop F-5E/F Tiger II consolidou-se como um exemplo emblemático da engenhosidade da indústria aeronáutica norte-americana. Concebido originalmente como um caça leve de exportação, revelou extraordinária capacidade de adaptação ao longo de mais de cinco décadas de serviço. Mesmo diante da ascensão dos caças de quinta geração, o Tiger II manteve-se relevante seja como vetor de defesa aérea em forças com orçamentos mais restritos, seja como instrumento essencial na formação e no aperfeiçoamento de pilotos de combate, reafirmando seu lugar na história da aviação militar contemporânea.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
Ao término da Segunda Guerra Mundial, a Força Aérea Brasileira (FAB) encontrava-se em posição de notável destaque no cenário hemisférico. Seu inventário ultrapassava 1.500 aeronaves militares consideradas modernas para a época, recebidas majoritariamente a partir de 1942 no âmbito do programa norte-americano Lend-Lease Act. Tal aporte material não apenas ampliou significativamente a capacidade operacional da aviação militar brasileira, como também consolidou sua inserção no esforço aliado durante o conflito. Em termos de poder de combate, dispunha-se de um expressivo conjunto de aeronaves de primeira linha, entre as quais se destacavam os caças-bombardeiros Republic P-47D Thunderbolt e Curtiss P-40 Warhawk, além dos aviões de ataque Douglas A-20 Havoc e North American B-25 Mitchell. A esses somavam-se vetores dedicados ao transporte, à patrulha marítima e à guerra antissubmarino, compondo um aparato aéreo que posicionava o Brasil como a segunda maior força aérea das Américas e a principal do hemisfério sul naquele momento histórico. Todavia, o advento e a rápida consolidação dos motores turbojato, já no final da década de 1940, alteraram profundamente os paradigmas da aviação militar. A nova geração de aeronaves a jato tornou obsoletos, em poucos anos, os caças e bombardeiros equipados com motores a pistão. Paralelamente, a substituição acelerada desses modelos nas linhas de produção internacionais provocou crescente escassez de peças de reposição, dificultando a manutenção da frota existente. O Ministério da Aeronáutica (MAer) aspirava incorporar aeronaves de desempenho superior, como o Republic F-84E Thunderjet ou o North American F-86F Sabre, que já representavam o padrão tecnológico da Guerra Fria. Entretanto, restrições orçamentárias e condicionantes de ordem geopolítica impediram a concretização desse objetivo naquele momento. A solução encontrada, a partir de 1953, foi a aquisição de aeronaves menos avançadas, porém disponíveis no contexto internacional, como o Gloster Meteor F.8 e o Lockheed F-80C Shooting Star. Esses jatos passaram a constituir o núcleo das unidades de aviação  caça brasileiras ao longo da década de 1950. Contudo, no início dos anos 1960, problemas de fadiga estrutural determinaram a desativação precoce dos caças britânicos, produzindo severo impacto na capacidade defensiva nacional. A outrora pujante aviação de caça brasileira viu-se reduzida a um nível de prontidão aquém das exigências estratégicas do período. A situação tornou-se ainda mais preocupante quando os F-80C, responsáveis pela defesa aérea das regiões Norte e Nordeste, começaram a apresentar sérias dificuldades de manutenção, sinalizando a iminência de sua retirada de serviço. Diante desse quadro, ao final de 1965, o comando do Ministério da Aeronáutica (MAer) iniciou uma série de estudos técnicos destinados à avaliação e futura incorporação de um novo caça capaz de restaurar a credibilidade operacional da força. A aquisição de uma aeronave multifuncional moderna passou a ser entendida como prioridade estratégica, não apenas para recompor o poder aéreo nacional, mas também para integrar e fortalecer o recém implantado Sistema de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo (SISDACTA), elemento central da reorganização da defesa aérea brasileira no contexto da Guerra Fria.

Em um primeiro momento, o governo brasileiro avaliou a possibilidade de adquirir o McDonnell Douglas F-4 Phantom II, então um dos mais avançados caças multifuncionais em operação, amplamente empregado na Guerra do Vietnã. Contudo, o Contudo, o Departamento de Estado dos Estados Unidos (DoS) vetou a transferência do modelo, sob o argumento de que a introdução de um vetor de tal desempenho poderia alterar o equilíbrio estratégico do poder aéreo na América do Sul. Diante dessa restrição, o Brasil voltou-se para alternativas mais compatíveis com o cenário político e financeiro do período, entre elas os caças  Northrop F-5A e F-5B  Freedom Fighter. Esses modelos apresentavam custos de aquisição e operação relativamente reduzidos, sendo considerados uma solução viável para substituir os já obsoletos F-8 Meteor então em serviço na Força Aérea Brasileira (FAB). A intenção inicial previa a aquisição de ao menos 12 exemplares da versão F-5A/B Freedom Fighter, com o objetivo de reforçar as capacidades do recém-implantado Sistema de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo (SISDACTA). Entretanto, limitações orçamentárias, aliadas à necessidade premente de modernizar a aviação de transporte, levaram ao cancelamento do programa, adiando mais uma vez a renovação da aviação de caça. Como medida paliativa, ainda em 1964, o Brasil firmou entendimento para a cessão de células usadas do treinador a jato Lockheed T-33A . Essas aeronaves foram posteriormente convertidas e modernizadas para o padrão AT-33A-20-LO, aptas a cumprir missões de ataque leve e defesa aérea limitada. Embora não fossem caças supersônicos nem possuíssem desempenho comparável aos interceptadores contemporâneos, os AT-33A permitiram a recomposição emergencial da capacidade operacional nas regiões Sudeste e Sul do país, assegurando um mínimo de prontidão enquanto soluções definitivas permaneciam em estudo. A lacuna na defesa aérea de alta performance somente seria plenamente suprida em 1972, com a incorporação dos primeiros Mirage IIIEBR F-103E, que passaram a desempenhar a missão de interceptação supersônica. Ainda assim, no início da década de 1970, tornou-se evidente a necessidade de substituir definitivamente os AT-33A que continuavam a equipar unidades tradicionais, como o 1º Grupo de Aviação de Caça e o 1º/14º Grupo de Aviação. Com maior disponibilidade orçamentária em meados da década, o governo brasileiro lançou uma concorrência internacional para a aquisição de ao menos 30 aeronaves de combate multifuncionais, capazes de atender às demandas de defesa aérea e ataque ao solo em um único vetor. A competição atraiu propostas de diversos fabricantes de destaque no cenário aeroespacial. Entre os modelos avaliados figuravam o SEPECAT Jaguar, caça-bombardeiro anglo-francês reconhecido por sua eficiência em missões de ataque e reconhecimento; o BAE Harrier, notável por sua capacidade de decolagem e pouso vertical (V/STOL), que ampliava a flexibilidade operacional; o Aermacchi MB-326K, versão de ataque leve derivada de um treinador avançado e caracterizada pelo baixo custo operacional; o McDonnell Douglas A-4F Skyhawk; e, finalmente, o Northrop F-5E Tiger II, evolução direta do F-5A Freedom Fighter, dotada de motores mais potentes, aviônicos aprimorados e maior manobrabilidade, concebida para enfrentar com eficácia caças de origem soviética como o MiG-21.
No contexto da reestruturação da aviação de caça brasileira, o Ministério da Aeronáutica (MAer) conduziu um criterioso estudo comparativo entre as propostas apresentadas por diferentes fabricantes internacionais. Após avaliações técnicas, operacionais e orçamentárias, a escolha recaiu sobre o Northrop F-5E Tiger II, considerado a alternativa mais equilibrada entre desempenho, custo e viabilidade logística. Foi então celebrado contrato para a aquisição de 36 aeronaves monoplaces F-5E e seis células biplaces destinadas à conversão operacional. Com os detalhes finais ajustados em maio de 1974, instituiu-se a Comissão de Fiscalização e Recebimento (COMFIREM), incumbida de acompanhar a produção, a inspeção e a incorporação dos novos caças. Durante aproximadamente seis meses, uma equipe composta por pilotos e especialistas brasileiros participou de intenso programa de capacitação junto ao 425º Esquadrão de Treinamento de Caça Tático, na Base Aérea de Williams, no Arizona. Essa etapa revelou-se fundamental para assegurar a assimilação doutrinária, técnica e logística do novo vetor antes de sua introdução definitiva no Brasil. O traslado das aeronaves foi conduzido por meio de uma complexa operação logística, denominada Operação Tigre. As primeiras unidades monoplaces começaram a ser recebidas em junho de 1975, e o processo de entrega foi concluído em fevereiro de 1976. A chegada do F-5E marcou um momento decisivo na história da Força Aérea Brasileira (FAB), representando a consolidação de um novo patamar tecnológico na aviação de combate nacional. As aeronaves, matriculadas de FAB 4820 a FAB 4835, foram distribuídas entre o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvC), sediado na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e o 1º/14º Grupo de Aviação (Esquadrão Pampa), baseado na Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul. Essa distribuição estratégica fortaleceu a defesa aérea tanto na Região Sudeste quanto no extremo sul do país. A introdução do F-5E Tiger II representou um salto qualitativo expressivo. O novo caça substituiu aeronaves que já não atendiam plenamente às exigências operacionais contemporâneas, como o Embraer AT-26 Xavante e os remanescentes Lockheed AT-33A Shooting Star. Dotado de capacidade supersônica, radar AN/APQ-153 e apto a empregar o míssil ar-ar AIM-9B Sidewinder, o F-5E conferiu à Força Aérea Brasileira (FAB) maior efetividade nas missões de interceptação e defesa aérea, ampliando significativamente seu poder dissuasório. Entretanto, em meados da década de 1980, após quase quinze anos de operação, a frota já acumulava um número preocupante de perdas decorrentes de acidentes e desgaste estrutural, o que reduzia sensivelmente a disponibilidade de aeronaves nas unidades de primeira linha. Esse quadro evidenciava a necessidade urgente de recomplementação, de modo a restabelecer níveis satisfatórios de prontidão operacional. Paralelamente, amadureceu a percepção de que o processo de conversão de pilotos deveria ser aprimorado. Até então, essa função era desempenhada pelos Northrop F-5B Freedom Fighter, cuja concepção derivava da geração anterior do F-5 e que apresentava desempenho inferior ao da versão E. Assim, passou-se a considerar a aquisição do Northrop F-5F Tiger II, versão biplace plenamente compatível com o padrão operacional do F-5E, permitindo uma formação mais adequada e alinhada às características de voo e aos sistemas embarcados da versão monoplace.

A hipótese de aquisição de aeronaves novas de fábrica encontrava-se, naquele momento, completamente descartada. A linha de produção do  F-5E Tiger II havia sido encerrada ao final de 1987, eliminando a possibilidade de encomendas diretas ao fabricante. Restava, portanto, recorrer a oportunidades no mercado internacional, especialmente por meio de estoques excedentes, com especial atenção à reserva estratégica da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF). Entretanto, para surpresa do Ministério da Aeronáutica (MAer), o governo norte-americano demonstrou inicialmente pouco interesse em atender à demanda brasileira. Questões de natureza política e estratégica influenciavam tal postura, impondo obstáculos às negociações pretendidas. Diante desse cenário, tornou-se imperativo buscar alternativas no mercado internacional. Nesse contexto, foram iniciadas tratativas com o governo da República Popular da China, contemplando a possível aquisição de até trinta caças Chengdu F-7M, versão chinesa derivada do MiG-21. A proposta avançou a ponto de pilotos brasileiros realizarem avaliações operacionais da aeronave, demonstrando que a alternativa era considerada de maneira concreta.A perspectiva de consolidação desse acordo, contudo, despertou preocupações norte-americanas , que vislumbrava na negociação sino-brasileira o risco de abertura de uma nova esfera de influência estratégica na América do Sul. Nesse contexto geopolítico, a proposta brasileira de adquirir um segundo lote de F-5E voltou à pauta das discussões bilaterais. Essa iniciativa resultaria na formalização do programa Peace Amazon II, viabilizado por meio do Foreign Military Sales (FMS), no valor de US$ 13,1 milhões. O contrato previa o fornecimento de vinte e duas células monoplace do F-5E e quatro exemplares biplace da versão F-5F. Os seis primeiros F-5E partiram da Base Aérea de Nellis, no estado de Nevada, ao final de setembro de 1988, enquanto as aeronaves subsequentes decolaram de Homestead, na Flórida. Os traslados foram realizados sob escolta de um Boeing KC-137 do 2º/2º Grupo de Transporte, em razão de as aeronaves não estarem equipadas com o sistema padrão de rádio VHF exigido para navegação autônoma em rotas internacionais.As entregas ocorreram entre outubro de 1988 e setembro de 1989. Após a incorporação, inspeções técnicas mais aprofundadas revelaram problemas estruturais significativos, alguns classificados como graves  situação particularmente observada nas células oriundas dos Esquadrões Agressores, que operavam sob um perfil de voo altamente exigente e com elevado estresse estrutural. Diante desse diagnóstico, decidiu-se encaminhar todas as aeronaves ao Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMASP), onde foram submetidas a um criterioso processo de recuperação estrutural. Durante esse ciclo de revitalização, seis aeronaves foram adaptadas para operar o casulo francês CT-51F Caiman, destinado a missões de guerra eletrônica. Cabe destacar que as aeronaves deste segundo lote  pertenciam as versões bloco 28-NO, 31-NO e 34-NO, e apresentavam diversas diferenças em relação às células novas de fabrica pertencentes ao Bloco 5, recebidas em 1975 . Entre as principais ausências estavam a sonda de reabastecimento em voo, a antena de VHF e a quilha dorsal destinada a abrigar a antena do ADF. Além disso, os assentos ejetores instalados eram do modelo Northrop Improved, em substituição aos Martin-Baker MK.BR-Q7A originalmente especificados pelo fabricante.
Estas diferenças trariam problemas para a padronização na cadeia de suprimentos de reposição, assim por pertencerem a lotes distintos, resolveu-se concentrar as aeronaves do primeiro lote junto as unidades de caça baseadas em Santa Cruz no Rio de Janeiro e as do segundo lote na Base Aérea de Canoas no Rio Grande do Sul. Atendendo a diretiva de alocação de aeronaves por lotes de produção, os biplaces Northrop F-5F Tiger II permaneceriam concentradas em Canoas junto ao  1º/14º Grupo de Aviação - Esquadrão Pampa  (1º/14º GAv), tornando esta unidade gaúcha, como a responsável pela formação e conversão de todos os pilotos de Northrop F-5E Tiger II brasileiros.  Estas células "novas" receberam  as matriculas de  "FAB 4956 a 4877", e curiosamente deste lote 16 células estavam entre as primeiras trinta produzidas,  dos quais os FAB 4856, 4857 e 4858, eram respectivamente a primeira, segunda e quarta células que deixaram as linhas de produção. Estes aviões foram selecionados diretamente das unidades operacionais da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), sendo onze originarias do 425th Tactical Fighter Training, sediado em na base aérea de  Willians AFB e as demais pertencentes aos famosos Esquadrões 64th e 65th Agressor Squadron.   Curiosamente o F-5E FAB  4858 (ex USAF 71-1420), também teve um papel especial como protótipo do RF-5E Tigereye, versão de reconhecimento tático do F-5 que trocou o radar e um dos canhões por uma plástica duvidosa no nariz. O Tigereye tinha um conjunto de câmeras capazes de registrar alvos a quase 80 km, inclusive em voo supersônico. Esta células foi alugada junto a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) e convertida para teste e programa de certificação, sendo posteriormente devolvida e reconfigurada a sua versão original.  Durante os anos 1980 e 1990, o cenário regional ainda era influenciado por desconfianças remanescentes do período de rivalidade estratégica no Cone Sul. Assim, manter um vetor supersônico moderno permanentemente baseado em Canoas representava elemento dissuasório relevante. O desempenho do F-5E  com boa relação peso-potência, elevada taxa de subida e excelente manobrabilidade  mostrou-se particularmente adequado às exigências de defesa aérea regional. Em 1997 os dois lotes dos caças Northrop F-5E Tiger II brasileiros, começaram a receber a integração para a operação com os modernos mísseis israelenses Rafael Python III em substituição aos já obsoletos AIM-9B Sidewinder,  devolvendo a aeronave uma capacidade adequada para emprego em missões de combate ar ar. . Posteriormente, a frota também foi homologada para o emprego do míssil nacional MAA-1 Piranha, reforçando a autonomia tecnológica brasileira no setor de defesa. Ao final da década de 1990, iniciaram-se estudos para uma modernização estrutural e sistêmica mais abrangente da frota, projeto que ficou conhecido como F-5BR.  Este programa seria iniciado em 2003 pela Embraer S/A em parceria com a empresa israelense Elbit Systens, com a Força Aérea Brasileira (FAB), recebendo sua primeira célula modernizada  no dia 21 de setembro de 2005 na Base Aérea de Canoas no Rio Grande do Sul. As últimas aeronaves seriam entregues no   início de 2013, possibilitando assim estender a vida útil das aeronaves até o final da década de 2020 quando passarão a ser  substituídos pelos novos SAAB Gripen NG F-39.

Em Escala.
Para representarmos o Northrop F-5E Tiger II "FAB "4856", empregamos o antigo kit da Monogram, na escala 1/48,  que infelizmente apresenta linhas em alto-relevo, sendo na época a única opção disponível (hoje sem dúvida o novo modelo do fabricante AFV representa a melhor opção em termos de detalhamento e linhas em baixo relevo). Para se configurar a versão brasileira não é necessário proceder nenhuma modificação no modelo original. A pintura e as marcações foram aplicadas utilizando decais do conjunto Set 48/03 da FCM Decals, uma marca reconhecida pela qualidade na reprodução de insígnias brasileiras.
Estas 22 "novas" células do F-5E foram recebidas  ostentando esquemas de pintura camuflada em diversos tons, inspirados nos padrões utilizados pelos esquadrões “Agressor” da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF). Esses esquadrões, responsáveis por simular táticas de adversários em exercícios de treinamento, empregavam esquemas distintos como Ghost, Snake, Lizard, Grape e Partchese, caracterizados por combinações vibrantes de cinza, azul, verde e marrom. Posteriormente estas células ao serem submetidas as revisões em âmbito de parque, receberiam a aplicação de um esquema de pintura de baixa visibilidade com suas cores sendo descritas abaixo. 




Bibliografia : 
- O Catorze - Esquadrão Pampa, Carlos Lorch - Revista Força Aérea Nº 5
- História da Força Aérea Brasileira, Professor Rudnei Dias Cunha - http://www.rudnei.cunha.nom.br/FAB/index.htmEnviar por e-mail
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores

UC-SR10 Stinson SR-10E Reliant

História e Desenvolvimento.
A Stinson Aircraft Company foi fundada em 1920 na cidade de Dayton, Ohio, o berço histórico da aviação norte-americana, local do primeiro voo dos Irmãos Wright em 1903. Seu criador, Edward "Eddie" Stinson, era um empreendedor visionário e aviador apaixonado, irmão da célebre Katherine Stinson, a quarta mulher dos Estados Unidos da América a obter uma licença de piloto e a primeira aviadora a realizar voos para o Serviço Postal do país. Nos seus primórdios, a empresa dedicou-se à fabricação quase artesanal de aeronaves de pequeno porte, voltadas para o turismo e o treinamento de pilotos. Contudo, a produção inicial enfrentava desafios: o ritmo lento de fabricação limitava as vendas, frustrando clientes que buscavam entregas mais ágeis, o que resultava em oportunidades perdidas para a companhia. Determinado a superar essas dificuldades e expandir seus horizontes, Eddie Stinson vislumbrou, no final de 1924, a cidade de Detroit como o palco ideal para o crescimento da empresa. A vibrante atmosfera industrial da região, aliada à disponibilidade de mão de obra qualificada e acesso a linhas de financiamento, tornava-a estratégica para seus planos de empreender no segmento aeronáutico. Ao se estabelecer em Detroit, Stinson rapidamente se conectou à comunidade empresarial local, conquistando apoio para sua visão. Seu empenho rendeu frutos em agosto de 1925, quando um grupo de investidores, membros do Comitê de Aviação do Conselho de Comércio de Detroit, decidiu respaldar sua iniciativa. Assim nasceu a Stinson Aircraft Syndicate, uma empresa de porte médio instalada na zona industrial sudoeste de Detroit, nas proximidades do Aeroporto Metropolitano Wayne County. Com um investimento inicial de aproximadamente US$ 25.000, a nova empreitada focou no desenvolvimento de uma aeronave monomotora de pequeno porte, destinada ao mercado civil de transporte e turismo. O projeto ganhou vida rapidamente, culminando na criação do modelo Stinson SBM-1 Detroiter. Em 25 de janeiro de 1926, sob o rigoroso inverno de Detroit, a aeronave realizou seu voo inaugural, enfrentando condições adversas com notável desempenho surpreendendo a todos os presentes naquele dia. Para garantir a segurança em um terreno escorregadio, o avião foi equipado com correntes nas rodas, uma solução prática que assegurou decolagens e pousos sem incidentes. O SBM-1 Detroiter um monoplano de asa alta, com suportes de sustentação (strut-braced), construída com tubos de aço ao cromo-molibdênio, revestida com tecido (entoilada), destacou-se não apenas por sua capacidade de transportar até quatro passageiros, mas também por incorporar inovações pioneiras para a época. Entre suas características estavam o aquecimento interno da cabine, freios de roda individuais fabricados pela Harley-Davidson Inc. e um sistema de partida elétrica para o motor Curtiss-Wright J-5 Whirlwind, de 220 cv -164 kW (Algumas unidades posteriores foram equipadas com o Wright J-6 de 300 hp). 

Essas inovações representaram um avanço significativo no design de aeronaves de pequeno porte, consolidando a Stinson Aircraft Syndicate como uma referência em engenhosidade e visão no cenário da aviação civil. O SBM-1 Detroiter, após passar por um exigente programa de ensaios em voo, recebeu a certificação dos órgãos reguladores norte-americanos, obtendo a autorização para sua produção em série. Suas características inovadoras, aliadas a um design avançado e funcionalidades técnicas pioneiras, como o aquecimento de cabine, freios Harley-Davidson e partida elétrica, rapidamente conquistaram o mercado. Em 1926, a venda de dez unidades marcou um feito notável para a época, consolidando o modelo como um sucesso comercial e atraindo a atenção de operadores privados e entusiastas da aviação. Inspirada por esse êxito inicial, a Stinson Aircraft Syndicate, liderada pela visão de Edward "Eddie" Stinson, decidiu aprimorar o projeto. O resultado foi o SM-1D Detroiter, um monoplano de asa alta com capacidade para até seis passageiros, que trouxe ainda mais sofisticação e conforto. Esse novo modelo reforçou o sucesso da empresa, alcançando vendas expressivas e elevando a reputação da marca no mercado aeronáutico. O êxito comercial do SM-1D permitiu a captação de US$ 150.000 em capital público, um marco que culminou na fundação da Stinson Aircraft Corporation em 4 de maio de 1926. Esse momento representou não apenas o crescimento da empresa, mas também a realização do sonho de Eddie Stinson, cuja paixão pela aviação o impulsionava a buscar inovações constantes. Além de sua dedicação como empreendedor, Eddie Stinson era um aviador talentoso, atuando nas horas vagas como piloto dublê. Essa atividade, que lhe rendia cerca de US$ 100.000 anuais, fornecia recursos adicionais para reinvestir na empresa, fortalecendo sua capacidade de inovação. A partir de 1928, o SBM-1 Detroiter passou a integrar as frotas de companhias aéreas emergentes, como a Braniff Air Lines, de Paul Braniff, e a Northwest Airways, marcando a entrada da Stinson no competitivo mercado de transporte aéreo. Em 1929, a empresa entregou 121 aeronaves, um testemunho do crescimento contínuo e da confiança depositada em seus produtos. Nesse mesmo ano, em setembro, a Stinson Aircraft Corporation recebeu um impulso significativo com a aquisição de 60% de suas ações por Errett Lobban (E.L.) Cord, um magnata da indústria automotiva e proprietário da Cord Corporation. Essa parceria injetou capital e expertise, permitindo à empresa oferecer preços mais competitivos e investir em novos projetos. Nos três anos subsequentes, a Stinson lançou quatro novos modelos, incluindo o SM-2 Junior, voltado ao mercado de proprietários privados. Cada lançamento foi recebido com entusiasmo, alcançando resultados de vendas expressivos e consolidando a posição da empresa no setor aeronáutico. 
Esses recursos financeiros possibilitaram melhorias estruturais, pavimentando o caminho para o desenvolvimento de um dos maiores sucessos comerciais da Stinson, que marcaria sua trajetória como uma referência em inovação e qualidade. No auge da Grande Depressão, em 1930, a Stinson Aircraft Corporation consolidava sua posição no mercado aeronáutico norte-americano, oferecendo uma linha diversificada de seis modelos de aeronaves, que variavam do compacto SM-2 Junior, com capacidade para quatro ocupantes, ao imponente trimotor Stinson 6000 Airliner, conhecido como Stinson Trimotor ou Model T. Contudo, um evento trágico marcou a trajetória da empresa: em 26 de janeiro de 1932, Edward "Eddie" Stinson, fundador e coração da companhia, faleceu em um acidente aéreo em Chicago, Illinois, durante uma viagem de vendas. Sua perda, além de abalar profundamente a comunidade aeronáutica, acelerou a integração da Stinson Aircraft Corporation em estruturas corporativas maiores. Inicialmente adquirida pela Cord Corporation, a empresa passou, posteriormente, para o controle da Aviation Corporation (AVCO) e, por fim, foi incorporada pela Consolidated Vultee Company. Sob a gestão da Consolidated Vultee, a Stinson Aircraft Corporation passou a operar como uma divisão aeronáutica independente.  A estratégia da empresa, nesse período, concentrou-se na ampliação de seu portfólio de aeronaves leves, com capacidade para dois ou três ocupantes, destinadas ao mercado civil para funções de ligação e treinamento básico.  Em maio de 1933, os engenheiros Robert W. Ayer e C.R. "Jack" Irvine projetaram o  Reliant (SR-1), um monoplano de asa alta com trem de pouso fixo, equipado inicialmente com um motor radial Lycoming R-680 de 215 hp (160 kW). O preço acessível de cerca de US$ 3.995 o tornou competitivo em relação a rivais, e sua capacidade para três passageiros além do piloto atendeu à demanda por aviões de negócios e utilitários. Este modelo recebeu a designação de Stinson SR Reliant, com seu primeiro protótipo alçando voo em julho de 1933, e logo seria envolvido em um programa de ensaios de voo pelo fabricante. Próximo ao termino deste mesmo ano,  a aeronave receberia da Administração Federal de Aviação (FAA), sua certificação para operação civil. Em dezembro de 1933 seria lançado oficialmente no mercado mercado, e rapidamente conquistou notoriedade entre potenciais compradores, resultando em expressivas vendas. As versões subsequentes, como o Reliant SR-1, SR-2 e SR-3, consolidaram uma carteira de vendas superior à de qualquer outra aeronave de sua categoria nos Estados Unidos naquele período.​ Essas versões iniciais tinham asas de corda constante e espessura uniforme, suportadas por dois estrutos por lado com reforços adicionais. Eram mais simples e robustos, ideais para operações em terrenos irregulares. O modelo Reliant SR-4 foi equipado com o motor de pistão radial Wright R-760-E de 250 hp (186 kW), mais potente que os das versões anteriores, ampliando sua participação no mercado. O SR-5, por exemplo, foi usado por celebridades como a atriz Ruth Chatterton, a primeira a possuir e pilotar seu próprio avião.

A partir de 1936, introduziu-se a asa cônica dupla (gull-wing), com maior corda e espessura no meio da envergadura, borda de fuga inclinada para frente nas pontas e um corte arredondado na raiz da borda de ataque, suportada por um único estruto por lado. Essa mudança melhorou a aerodinâmica, a visibilidade e o desempenho, tornando os modelos mais elegantes e eficientes. Em meados de 1938, a empresa lançou o SR-8E, com capacidade para cinco ocupantes melhorando suas vendas neste segmento. Já o Stinson SR-10, introduzido em 1938, representaria o ápice comercial, com interiores luxuosos (couro, painéis de nogueira e janelas retráteis como em automóveis), motores mais potentes (até 300 hp) e velocidade de cruzeiro de cerca de 150 mph (241 km/h), com alcance de 800 milhas (1.287 km). Deste modelo seriam comercializadas e entregues 120 aeronaves no mercado civil norte-americano. Em suma,  a produção desta família de aeronaves totalizaria 1.327 unidades entre 1933 e 1941, podendo ser dividida em dois tipos distintos: os Reliant de asa reta (todos os modelos até o SR-6) e os Reliant de asa de gaivota (todos os modelos do SR-7 em diante). O modelo Stinson SR-10 serviu como base para o desenvolvimento da versão militar AT-19, uma aeronave projetada para missões de treinamento intermediário. Tal versão foi concebida inicialmente para atender a um contrato envolvendo a produção de 500 unidades destinadas à Força Aérea Real (Royal Air Force) e à Marinha Real Britânica (Royal Navy), sendo fornecidas no âmbito do programa de ajuda militar conhecido como Lend-Lease Act (Lei de Empréstimos e Arrendamentos). Os SR-10 Reliants foram fornecidos aos britânicos a partir de 1942, recebendo a designação local de  Reliant I para as versões de transporte de cinco lugares, e T-19A (treinador de instrumentos com três lugares), AT-19B (observação e fotografia aérea) e AT-19C (carga). Na Marinha Real (Royal Navy) seriam empregados principalmente em tarefas de treinamento junto aos esquadrões No. 730, 748 e 886 Naval Air Squadrons (NAS), para formar navegadores e operadores de rádio. A variante AT-19A, com configuração de três lugares, era ideal para treinamento de instrumentos, permitindo voos em condições adversas e prática de navegação por rádio. Já na Força Aérea Real (RAF) foram utilizados em unidades especializadas em comunicações e transporte VIP, como o No. 510 Squadron RAF, No. 24 Squadron RAF e 1 Communications Unit, aproveitando sua confiabilidade em operações de curto alcance e terrenos variados.  Neste contexto seriam utilizados em tarefas de ligação e transporte leve, focando em  em comunicações e suporte logístico, usando o avião em missões na Europa ocupada e no Reino Unido. Após o fim da guerra, cerca de 350 dos 500 Reliants britânicos foram devolvidos ao governo dos Estados Unidos, onde foram vendidos no mercado civil como V-77, muitos adaptados para operações "bush" no Canadá e Alasca (equipados com flutuadores ou skis). Na Força Aérea Real (RAF), os remanescentes foram desativados rapidamente, com sobreviventes vendidos ou sucateados. Hoje, poucos exemplares originais britânicos sobrevivem, como o FK887 (agora N69996, exibido no War Eagles Air Museum, nos Estados Unidos).
Durante o ano de 1941, à medida que as tensões na Europa se intensificavam e o Pacífico fervilhava com o expansionismo japonês, os Estados Unidos anteviam sua inevitável entrada em um conflito mundial. Nesse panorama de incertezas e preparativos, o governo americano, priorizou a expansão das forças armadas, incluindo a criação de uma robusta infraestrutura de aviação para treinamento de pilotos e missões de ligação. Como parte desse esforço, foi lançado um programa nacional de requisição e adaptação de aeronaves civis para uso militar, refletindo a urgência de mobilizar recursos em tempo de crise e preparar milhares de jovens aviadores para os desafios da guerra. Nesse contexto inicial, dois exemplares do Stinson Reliant SR-8B foram convertidos para a designação UC-81, entrando em serviço no Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) em setembro de 1941.  No ano seguinte, em 1942, aproximadamente 91 aeronaves Stinson Reliant de origem civil foram incorporadas ao arsenal militar americano, sendo reclassificadas de acordo com suas variantes específicas nas designações UC-81B, UC-81C, UC-81E, UC-81F, UC-81G, UC-81H, UC-81J, UC-81K, UC-81L, UC-81M e UC-81N. Essas conversões incluíam reforços estruturais e modificações para maior durabilidade em condições adversas, permitindo que esses aviões realizassem missões essenciais de transporte de pessoal, comunicações e treinamento em diversos teatros de operação. Dentre as inovações notáveis, destaca-se o modelo experimental Stinson XC-81D, desenvolvido especificamente para a remoção de planadores do campo de batalha após a aterrissagem. Equipado com um motor mais potente Pratt & Whitney R-985 de 450 hp, mecanismo de liberação aerodinâmico e trem de pouso reforçado, esse variante único foi testado em 1943 e provou sua utilidade no teatro europeu, auxiliando na recuperação de planadores como o Waco CG-4A durante operações aliadas, incluindo preparativos para o Dia D em 1944. Com o fim do conflito em 1945, a produção civil do Reliant foi retomada  com o lançamento do modelo V-77. Essa versão, mais espartana, incorporando o motor radial Lycoming R-680-E3B de 300 hp, uma única porta lateral à esquerda para facilitar o acesso em operações rápidas, e uma carenagem lisa e simplificada no lugar do tradicional capô saliente ("bump"). A estrutura interna foi substancialmente reforçada em comparação aos modelos comerciais pré-guerra, com adições como um contrapeso triangular no leme para melhorar a estabilidade em voo. Nesse período pós conflito, um grande contingente dessas aeronaves militarizadas foi declarado "excedente militar" pelo governo dos Estados Unidos, sendo disponibilizado ao mercado civil por meio de leilões e vendas diretas, o que permitiu a reconversão para usos pacíficos como transporte executivo e operações em regiões remotas. Uma porção significativa dessa frota foi destinada a forças armadas de nações aliadas ou alinhadas aos interesses estratégicos americanos durante a nascente Guerra Fria, incluindo Argentina, Uruguai, Austrália, El Salvador, México e Noruega.

Emprego na Força Aérea Brasileira.
A história do uso do Stinson SR-10E Reliant  em contexto militar no Brasil está intrinsecamente ligada ao conturbado cenário político da segunda metade da década de 1930, um período marcado por transformações profundas e tensões que moldaram o futuro do país. Durante esse tempo, a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, em 1930, com o apoio das forças militares, marcou o fim da política do "café com leite", caracterizada pela alternância de poder entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais. Governando inicialmente como presidente provisório até 1934, Vargas consolidou sua liderança sob a nova Constituição, assumindo a presidência constitucional. Contudo, a insurreição comunista de 1935 intensificou especulações sobre um possível autogolpe, enquanto o país se preparava para as eleições presidenciais de 1938. Com a impossibilidade de concorrer a um novo mandato em 1938, Vargas e seus aliados articularam um movimento para manter sua influência no poder. Em 18 de setembro de 1937, os preparativos para o golpe ganharam força com a divulgação do Plano Cohen, um documento fraudulento utilizado por oficiais superiores militares para justificar a declaração de estado de guerra pelo Congresso Nacional. Na manhã de 10 de novembro de 1937, forças militares cercaram o Congresso, e Vargas, em um discurso transmitido pelo rádio, proclamou o Estado Novo, um regime autoritário que suspendeu liberdades individuais, dissolveu o Congresso e estabeleceu uma nova constituição corporativa. O mandato presidencial foi estendido por seis anos, posteriormente ampliado para oito, enquanto o poder dos estados foi drasticamente reduzido, centralizando a autoridade no governo federal. Apesar do forte apoio ao regime, a oposição, embora fragmentada, persistia em diversos redutos pelo país, representando uma ameaça potencial à consolidação do Estado Novo. Para assegurar a continuidade de seu governo, Vargas priorizou a neutralização dessas resistências, tanto no âmbito civil quanto militar, buscando formar um núcleo coeso em torno de sua liderança. Uma das estratégias adotadas foi a nomeação de interventores federais nos estados, que assumiram as funções antes exercidas por governadores eleitos. A partir de 1937, todos os estados da federação passaram a ser governados por esses interventores, leais ao governo central, com frequentes trocas ao longo dos anos para manter o controle político. Com a instauração do Estado Novo em 10 de novembro de 1937, São Paulo viu a substituição de seus governadores eleitos por interventores federais. O primeiro a assumir o cargo foi Joaquim Cardoso de Melo Neto, que governou de 11 de novembro de 1937 a 25 de abril de 1938. Sua gestão foi sucedida pela breve passagem do general Francisco Silva Júnior, comandante da 2ª Região Militar, que permaneceu no cargo por apenas três dias, de 25 a 27 de abril de 1938, deixando a posição por motivos pessoais.

A brevidade de sua gestão evidenciou a urgência do governo federal em estabilizar a administração do estado, que era um pilar econômico e político do Brasil. Em 27 de abril de 1938, Adhemar Pereira de Barros, médico, político e veterano da Revolução Constitucionalista de 1932, foi nomeado interventor federal por indicação de Benedito Valadares e Filinto Müller, com a chancela do presidente Getúlio Vargas. Nascido em uma influente família de cafeicultores de São Manuel, no interior paulista, Adhemar trouxe à interventoria uma combinação de visão progressista e entusiasmo pessoal pela aviação. Tendo obtido seu brevê de piloto na Europa na década de 1920, ele via na aviação civil e esportiva uma ferramenta de modernização e integração, capaz de impulsionar a administração pública e conectar as diversas regiões do estado. Entre as prioridades de Adhemar Pereira de Barros como interventor estava a modernização da infraestrutura aeronáutica do estado de  São Paulo, com foco na renovação da frota de aeronaves utilizada pelos gabinetes administrativos do governo estadual. Essa iniciativa culminou na aquisição de diversos modelos de aeronaves novas de fábrica, entre estas estava uma célula do modelo Stinson SR-10E Reliant, que foi importado diretamente do fabricante no final do ano de 1939, sendo logo em seguida transladada em voo para o Brasil, acompanhada de outros aviões adquiridos, chegando à capital paulista em  29 de janeiro de 1940.  Após sua chegada, foi oficialmente registrada no Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) em 19 de janeiro de 1940, recebendo a matrícula civil PP-EAC.  Com uma velocidade máxima de 262 km/h,  alcance de 1200 km  e teto de serviço de 3.962 metros (13.000 pés), o SR-10E Reliant  era ideal para as necessidades do governo estadual.  Incorporado à frota esta aeronave foi intensivamente utilizado em missões de transporte de autoridades e funcionários públicos, desempenhando funções de ligação e transporte leve em todo o estado. Ocasionalmente, a aeronave também realizava voos para a Capital Federal, no Rio de Janeiro, conectando a administração paulista ao governo central. Sua versatilidade e confiabilidade tornaram-no uma ferramenta essencial para a gestão de Adhemar, que via na aviação um meio de agilizar a comunicação e fortalecer a administração pública em um período de centralização política. A gestão de Adhemar Pereira de Barros reflete não apenas seu compromisso com a modernização, mas também sua paixão pessoal pela aviação, que encontrou eco nas iniciativas de fortalecimento da infraestrutura aeronáutica do estado.
Desta maneira , o Stinson SR-10E Reliant, registrado como PP-EAC, desempenhava com eficiência suas funções a serviço do governo do Estado de São Paulo, conectando autoridades e facilitando a administração estadual. Contudo, sua trajetória nesse papel foi breve, pois a aeronave logo seria destinada a uma nova missão, integrando o meio militar. Em outubro de 1941, em meio ao turbulento contexto da Segunda Guerra Mundial – quando o Brasil, sob o regime do Estado Novo de Getúlio Vargas, ainda mantinha uma neutralidade precária perante o conflito global iniciado com a invasão alemã à Polônia em 1939 –, o interventor federal Adhemar Pereira de Barros, um médico, aviador e empresário visionário nomeado por Vargas para governar São Paulo desde 1938, tomou a iniciativa de doar uma aeronave Stinson SR-10E Reliant ao recém-criado Ministério da Aeronáutica (MAer). Essa doação, que refletia o espírito patriótico e o interesse pessoal de Adhemar pela aviação – ele próprio um piloto civil que utilizava aeronaves para supervisionar obras e projetos em seu estado –, visava integrar o avião à nascente Força Aérea Brasileira (FAB), fortalecendo sua frota incipiente. A ação ecoava uma contribuição similar ocorrida no início de 1940, quando um Stinson 105 Voyager fora doado à Aviação Naval da Marinha do Brasil, destacando o esforço coletivo para modernizar as forças armadas nacionais em um período de crescentes tensões internacionais, incluindo os ataques de submarinos alemães às costas brasileiras que culminariam na declaração de guerra aos Países do Eixo em agosto de 1942. Supõe-se que um dos termos dessa generosa doação estipulava que a aeronave permanecesse baseada em uma instalação aérea no estado de São Paulo, garantindo assim que o equipamento continuasse a servir aos interesses locais enquanto contribuía para a defesa nacional. O Stinson SR-10E Reliant, um modelo de asa alta e monomotor que representava o auge da engenharia aeronáutica americana da década de 1930, destacava-se por sua robustez e versatilidade, características que o tornavam ideal para missões de ligação e transporte em um país de vastas distâncias como o Brasil. Equipado com o motor radial a pistão Wright R-760E-1 Whirlwind de sete cilindros – um propulsor confiável que gerava 320 hp (239 kW) a 2.200 RPM ao nível do mar –, o avião oferecia um desempenho notável para a época, incluindo uma velocidade de cruzeiro de cerca de 241 km/h e um alcance de até 1.287 km, permitindo voos eficientes entre capitais regionais e simbolizando o progresso tecnológico que inspirava jovens aviadores brasileiros em uma era de transformação.

O processo de transferência foi concluído em dezembro de 1941, nesse momento, a matrícula civil PP-EAC foi cancelada, e o avião passou a ostentar inicialmente o registro militar "2", posteriormente alterado para "FAB 2653". Em março de 1942, redesignado como UC-SR10 Stinson – uma adaptação militar inspirada nas variantes usadas pelos Aliados –, foi alocado à Base Aérea de São Paulo (BASP), ficando à disposição do Quartel-General da 4ª Zona Aérea. Durante a Segunda Guerra Mundial, período em que a FAB se envolveu ativamente na patrulha antissubmarino no Atlântico Sul e enviou esquadrões para o teatro europeu, incluindo a participação heroica do 1º Grupo de Aviação de Caça na Itália em 1944-1945, essa aeronave operou em conjunto com outros modelos de transporte, executando missões orgânicas essenciais, como o deslocamento de oficiais e suprimentos, em benefício daquela unidade, contribuindo para o esforço de guerra que uniu a nação em torno de ideais de soberania e aliança internacional. Houve especulações sobre a incorporação de uma segunda aeronave do mesmo modelo à frota da FAB, que teria recebido inicialmente a matrícula militar "1" e, em seguida, "FAB 2652". No entanto, investigações posteriores revelaram que se tratava, na verdade, de uma célula do modelo Stinson 105 Voyager, erroneamente classificada como UC-SR10, o que gerou controvérsias nos registros históricos e ilustra as desafios de documentação em tempos de guerra, quando a urgência frequentemente superava a precisão burocrática. Com o término da Segunda Guerra Mundial em 1945, marcado pela rendição incondicional da Alemanha em maio e do Japão em setembro, a Força Aérea Brasileira iniciou um amplo processo de reorganização de suas unidades e meios materiais, alinhando-se ao bloco ocidental durante os primórdios da Guerra Fria e adotando tecnologias mais avançadas, como os primeiros jatos Gloster Meteor na década de 1950. Apesar dessas mudanças, o Stinson SR-10E Reliant permaneceu alocado ao Quartel-General da 4ª Zona Aérea, continuando a desempenhar missões de ligação e transporte leve em benefício de oficiais e autoridades daquela unidade. ​Durante sua operação na Força Aérea Brasileira (FAB), a aeronave Stinson SR-10E Reliant, designada como "FAB 2653", demonstrou notável disponibilidade, realizando frequentemente missões para o Rio de Janeiro e Belo Horizonte sem registros de falhas mecânicas, hidráulicas ou elétricas.  ​A manutenção do Stinson SR-10E era conduzida com rigor pelo Parque de Aeronáutica de São Paulo (PqAerSP, posteriormente redesignado como Parque de Material Aeronáutico de São Paulo – PAMA-SP), responsável pela revisão de seu motor radial Wright R-760E-2 Whirlwind de 320 hp (239 kW). 
Este motor, amplamente utilizado em outras aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB),, como o Beechcraft Staggerwing e os modelos Waco CSO e CSJ, era conhecido por sua durabilidade e eficiência, características essenciais para operações em um país de dimensões continentais como o Brasil. Com o advento da segunda metade da década de 1950, a FAB enfrentava um período de renovação de sua frota, impulsionado pela aquisição de aeronaves mais modernas, como os caças a jato Gloster Meteor e os treinadores North American T-6 Texan, que refletiam a transição para uma era de maior sofisticação tecnológica e alinhamento com os padrões da Guerra Fria. Nesse cenário, constatou-se que as funções desempenhadas pelo Stinson SR-10E – missões de ligação, transporte de oficiais e tarefas administrativas – podiam ser realizadas por modelos mais novos, disponíveis em maior quantidade e com custos operacionais mais acessíveis. A operação de uma única célula do Reliant, embora confiável, tornou-se economicamente inviável devido aos elevados custos de manutenção de um modelo singular, que exigia peças específicas e cuidados técnicos especializados. Após sua última revisão geral, realizada com meticulosidade nas oficinas do PAMA-SP em março de 1957, a aeronave acumulou aproximadamente 400 horas de voo em apoio ao Quartel-General da 4ª Zona Aérea, desempenhando tarefas que incluíam o transporte de autoridades e a entrega de documentos críticos entre bases regionais. Em novembro de 1960, com a frota da FAB em plena modernização, a decisão foi tomada de desativar o Stinson SR-10E. A aeronave foi enviada de volta ao PAMA-SP, onde foi formalmente retirada do inventário do Ministério da Aeronáutica. Posteriormente, foi vendida a um operador particular e registrada no Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) com a matrícula PT-BRT. Sob essa nova designação, o Reliant continuou a voar ativamente até o final da década de 1960, sendo utilizado em operações civis, possivelmente em serviços de táxi aéreo ou transporte executAnos mais tarde, reconhecendo o valor histórico do Stinson SR-10E como um dos primeiros aviões a integrar a frota da FAB e sua relevância para a memória aeronáutica nacional, a Força Aérea Brasileira readquiriu a aeronave com o propósito de preservá-la no acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL), localizado no Campo dos Afonsos, Rio de Janeiro, até ser desativado e armazenado no Aeroporto de Campo de Marte, em São Paulo. Um meticuloso processo de restauração foi empreendido para devolver o Stinson UC-SR10, novamente designado como "FAB 2653", à sua configuração militar original, passando a  integrar o acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL) no Rio de Janeiro. 

Em Escala.
Para representar com fidelidade o Stinson SR-10E Reliant UC-SR10 “FAB 2653”, optou-se pela utilização do único kit disponível no mercado referente a este modelo, produzido pela fabricante AMT na escala 1/48. Contudo, por tratar-se originalmente da versão SR-9, foi necessário realizar adaptações em scratch build para adequar a miniatura à configuração utilizada pela Força Aérea Brasileira. Dentre essas modificações, destaca-se a remoção do radiador de óleo, procedimento essencial para compor corretamente a variante aqui empregada. Adicionalmente, considerando a inexistência de um conjunto específico de decalques para este modelo, recorreu-se à aplicação de decalques provenientes de diferentes sets fornecidos pela FCM Decais, garantindo uma representação visual precisa da aeronave.
O esquema de cores (FS) descrito a seguir corresponde ao padrão de pintura civil originalmente aplicado à aeronave no momento em que foi doada pelo Governo do Estado de São Paulo ao Ministério da Aeronáutica (MAer), em 1941. Este padrão foi mantido ao longo de toda a sua vida útil operacional, até sua desativação em novembro de 1960. Atualmente, a aeronave encontra-se preservada no acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL), no Rio de Janeiro, ostentando este mesmo esquema de pintura, fielmente reproduzido durante o processo de restauração.

Bibliografia :
Stinson Reliant Wikipedia https://en.wikipedia.org/wiki/Stinson_Reliant
Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores
Aviação Militar Brasileira 1916 – 1984 Francisco C.  Pereira Neto 

A-1M Embraer AMX Falcão

História e Desenvolvimento.
A Empresa Brasileira de Aeronáutica S/A (Embraer), estruturada como uma estatal de capital misto em 19 de agosto de 1969, nasceu em um contexto de renovação e fortalecimento da indústria nacional, sendo incumbida de uma missão estratégica: produzir em série as primeiras aeronaves de transporte concebidas no Brasil. Esse desafio materializou-se no Embraer EMB-110 Bandeirante, em sua versão civil comercial, e no modelo militar C-95, ambos fundamentais para a consolidação da aviação regional e da capacidade de transporte da Força Aérea Brasileira (FAB). A primeira aeronave produzida em série, matriculada FAB 2133, foi oficialmente entregue  em 9 de fevereiro de 1973, marco que simbolizou o início de uma nova fase da aviação brasileira. Paralelamente ao atendimento de demandas militares, as versões civis do EMB-110 obtiveram ampla repercussão internacional. Destinadas ao transporte regional, essas aeronaves alcançaram expressiva aceitação no mercado externo, firmando contratos de exportação com operadores de diversas partes do mundo e tornando-se um dos pilares da reputação emergente da Embraer. O sucesso comercial do Bandeirante, aliado à confiança adquirida no setor aeronáutico, estimulou a diretoria da Embraer a buscar novos horizontes. A empresa passou a avaliar possibilidades de cooperação internacional que envolvessem pesquisa conjunta e, futuramente, transferência de tecnologia  elementos essenciais para a expansão de sua competência industrial. Nesse cenário, o primeiro acordo concreto foi firmado no início da década de 1970 com a empresa italiana Aeronautica Macchi SpA. O contrato previa a fabricação, sob licença, de mais de uma centena de unidades do avançado treinador a jato Aermacchi MB-326GB.Ainda que o acordo não contemplasse transferência tecnológica formal, a produção local do modelo — designado no Brasil como Embraer AT-26 Xavante  proporcionou à Embraer uma oportunidade crucial para dominar processos industriais relacionados à fabricação de aeronaves a jato de alto desempenho. Esse aprendizado se tornou um marco na evolução da companhia, estabelecendo fundamentos técnicos que suportariam projetos futuros de maior complexidade. À medida que o AT-26 Xavante demonstrava resultados positivos no âmbito da FAB, a Embraer direcionou esforços para explorar novos nichos operacionais. Entre as propostas avaliadas, destacou-se o desenvolvimento de uma versão monoplace do treinador, otimizada para missões de ataque ao solo. O conceito, conhecido internamente como Programa “AX”, foi submetido ao projetista-chefe Ermanno Bazzocchi, da Aeronautica Macchi, que reconheceu sua viabilidade operacional. Dessa colaboração emergiu o projeto da primeira aeronave concebida de forma conjunta entre Brasil e Itália, inicialmente denominada Embraer EMB-330. Embora promissor em termos técnicos e estratégicos, o projeto não obteve o apoio necessário do Ministério da Aeronáutica (MAer), que apresentou críticas às capacidades previstas para a aeronave. Diante dessa resistência institucional, a equipe de engenharia da Embraer iniciou estudos para aprimorar o EMB-330, concebendo diferentes variantes que buscavam superar as limitações identificadas. Contudo, tais iniciativas não ultrapassaram a fase preliminar de desenvolvimento, culminando na suspensão definitiva do programa.

O espírito de cooperação tecnológica e industrial entre Brasil e Itália, cultivado desde as primeiras iniciativas conjuntas na década de 1970, ganhou novo impulso em 1978. Naquele ano, uma comitiva de oficiais e comandantes da Força Aérea Brasileira (FAB) realizou uma visita oficial à Itália, ocasião que se revelaria decisiva para o futuro da aviação militar dos dois países. Durante as tratativas, a diretoria da Aeronáutica Macchi SpA apresentou ao grupo brasileiro um estudo preliminar da Aeronautica Militare Italiana (AMI), que buscava desenvolver uma aeronave subsônica de ataque a jato destinada a substituir tanto o Fiat G.91Y/R quanto o Lockheed F-104G/S Starfighter, empregado em missões de ataque ao solo, apoio aéreo aproximado e ataque naval. Ao analisar os requisitos operacionais delineados pelos italianos, os representantes brasileiros notaram uma semelhança marcante com os critérios previamente estabelecidos pelo Ministério da Aeronáutica (MAer) para o antigo projeto “AX”. Essa convergência de necessidades abriu espaço para uma oportunidade inédita: o desenvolvimento conjunto de uma nova aeronave de ataque, que pudesse atender simultaneamente às demandas estratégicas de ambos os países. A proposta italiana recebeu o aval do Ministério da Defesa e resultou na formação de uma parceria entre as empresas Aeritalia Aeronautica e Aeronautica Macchi SpA. Dessa colaboração emergiu o conceito de uma aeronave de ataque subsônica, designada “AMX” — sigla em que “A” representa Aeritalia, “M” remete a Macchi, e “X” simboliza seu caráter experimental e inovador. A distribuição equilibrada de competências industriais permitiria que cada empresa contribuísse com sua experiência técnica, consolidando um projeto de significativa complexidade. As negociações entre os governos do Brasil e da Itália evoluíram rapidamente, culminando na formalização da participação da Embraer S/A no consórcio. Coube à empresa brasileira a responsabilidade por um quarto do programa, incluindo parte dos investimentos e tarefas essenciais: o projeto e a fabricação das asas e da empenagem, além da condução dos testes de fadiga desses componentes estruturais. As empresas italianas assumiram os dois terços restantes, compreendendo o desenvolvimento da fuselagem, dos sistemas de bordo e a execução dos testes estáticos e de armamento. Apesar do entusiasmo inicial, o avanço do programa exigiu uma pausa temporária. Ajustes contratuais, questões processuais e alinhamentos técnicos demandaram cerca de seis meses adicionais, postergando o cronograma originalmente planejado. Esse período, embora desafiador, contribuiu para consolidar um entendimento mais preciso das responsabilidades e da integração industrial entre os três participantes. Em maio de 1980, durante a tradicional Feira Aeronáutica Internacional de Farnborough, na Inglaterra, o Ministério da Aeronáutica (MAer) reiterou publicamente seu compromisso com o desenvolvimento do AMX, reforçando a importância estratégica do programa para o Brasil. Finalmente, em 27 de março de 1981, o contrato oficial foi assinado entre os dois países, marcando o início formal da participação da Embraer S/A no projeto e estabelecendo as bases para uma das mais significativas iniciativas de cooperação aeronáutica internacional da história brasileira.
Após a conclusão dos ajustes contratuais entre Brasil e Itália, a participação da Embraer S/A no Programa AMX foi ampliada de 25% para 30%, enquanto as empresas italianas passaram a responder pelos 70% restantes. Esse novo arranjo redefiniu a distribuição de responsabilidades industriais, consolidando o papel estratégico da empresa brasileira no desenvolvimento da aeronave. À Embraer coube o projeto e a fabricação das asas, das tomadas de ar do motor, dos estabilizadores horizontais, dos pilones subalares  destinados ao transporte de armamentos  e dos tanques de combustível. Além dos componentes estruturais, o Brasil passou a integrar-se de forma mais profunda ao desenvolvimento dos sistemas do AMX, contribuindo para o projeto do trem de pouso, dos sistemas de navegação e ataque, dos comandos de voo e do controle de armamentos. A Embraer também assumiu a construção de dois protótipos destinados aos ensaios em voo e de um protótipo adicional voltado para testes de fadiga estrutural, todos avaliados em um extenso programa de provas conduzido em território nacional. Esse envolvimento direto representou um avanço significativo no amadurecimento tecnológico do país e reafirmou o valor da parceria internacional. O AMX  concebido como um caça-bombardeiro tático monomotor e monoposto — foi projetado para executar missões de ataque com alta precisão, operando sob condições exigentes em cenários hostis. Para isso, a aeronave recebeu especial atenção em termos de robustez, confiabilidade e manutenção simplificada. O projeto incorporava soluções tecnológicas avançadas para sua época, como sistemas modernos de navegação e ataque, contramedidas eletrônicas, comandos de voo com “Augmentation System” e a configuração HOTAS (Hands On Throttle And Stick), que conferia ao piloto maior eficiência operacional ao concentrar controles essenciais na manete e no manche. Sua autonomia ampliada, com possibilidade de reabastecimento em voo, atendia plenamente às necessidades estratégicas de um país de dimensões continentais como o Brasil. A primeira maquete do projeto foi concluída em 1982, marcando a transição para a fase de detalhamento e fabricação. Quatro anos depois, teve início a construção dos quatro protótipos — dois na Itália e dois no Brasil. O primeiro protótipo italiano voou em 15 de maio de 1984, sob o comando do experiente piloto de testes Mario Quarantelli, da Aeritalia. A carreira inaugural do avião, contudo, foi marcada por um episódio trágico: durante o quinto voo, um acidente levou à perda da aeronave e à morte de Quarantelli, que, embora tenha conseguido ejetar-se, não resistiu aos ferimentos. Após uma breve interrupção, o programa foi retomado em novembro do mesmo ano com o segundo protótipo italiano. No Brasil, o primeiro protótipo  designado YA-1 e matriculado FAB 4200  realizou seu voo inaugural em 16 de outubro de 1985, nas instalações da Embraer em São José dos Campos, pilotado pelo engenheiro e piloto de ensaios Luiz Fernando Cabral. Um segundo protótipo brasileiro voaria pouco mais de um ano depois, em 16 de dezembro de 1986, ampliando o conjunto de aeronaves de testes necessárias à certificação e ao aperfeiçoamento do projeto. Em seguida, desenvolveu-se também uma variante biposto, destinada à conversão operacional de pilotos, garantindo a formação adequada das tripulações que futuramente operariam o novo caça-bombardeiro.

Em 1986, a primeira aeronave de produção em série do AMX foi oficialmente entregue à Aeronautica Militare Italiana (AMI), marcando o início da incorporação operacional do caça-bombardeiro. Ao longo dos anos seguintes, o novo modelo passou gradualmente a equipar seis grupos de ataque (Gruppo/Stormo), consolidando-se como um vetor relevante na aviação tática italiana durante a última fase da Guerra Fria e nos cenários que se seguiram. As versões italiana e brasileira do AMX foram concebidas a partir de um projeto básico comum, de configuração convencional, destacando-se pela asa alta com enflechamento de 27,5° no bordo de ataque  solução que oferecia boa estabilidade, robustez estrutural e desempenho adequado para missões de ataque em baixa altitude. O sistema de comando de voo adotava uma arquitetura híbrida: leme, spoilers, flaps e estabilizadores eram controlados por um sistema digital Fly-By-Wire (FBW) de dois canais, enquanto os ailerons e profundores permaneciam ligados a um conjunto hidráulico-mecânico tradicional. Essa combinação resultava de um equilíbrio cuidadoso entre modernidade e confiabilidade, garantindo à aeronave maior capacidade de sobrevivência em combate, uma vez que o piloto poderia manter o controle da aeronave mesmo em caso de falha ou dano no sistema FBW. A estrutura das células era predominantemente construída em ligas de alumínio, com peças críticas reforçadas em aço. Materiais compostos reforçados com fibra plástica foram empregados em áreas específicas  como painéis de acesso, seções da cauda, ailerons e no duto de ar da turbina — refletindo o avanço gradual do uso de compósitos na indústria aeronáutica durante a década de 1980. O cockpit era equipado com um moderno Head-Up Display (HUD), integrado ao sistema HOTAS (Hands On Throttle And Stick), que aprimorava a interface homem-máquina e aumentava a consciência situacional do piloto durante missões de ataque. No total, foram produzidas 150 unidades da versão monoposto, sendo 110 entregues à Força Aérea Italiana (AMI) e 45 à Força Aérea Brasileira (FAB), com entregas realizadas entre 1989 e 1999. Embora compartilhassem a mesma base estrutural, as versões de cada país incorporaram características distintas, moldadas por suas respectivas necessidades operacionais e pelos diferentes cenários estratégicos em que seriam empregadas. A variante italiana foi projetada para operar no exigente perfil “Lo-Lo-Lo”, caracterizado por voos contínuos a baixa altitude sobre áreas hostis  estratégia indispensável diante das sofisticadas defesas antiaéreas soviéticas. Esse conceito limitava o raio de ação da aeronave a cerca de 335 km, mas privilegiava sua capacidade de penetração e sobrevivência. No Brasil, o contexto estratégico era distinto. Em um ambiente de defesa aérea menos complexo, a Força Aérea Brasileira (FAB) optou pelo perfil “Hi-Lo-Hi”, no qual o voo em baixa altitude ocorre apenas na fase terminal do ataque, preservando eficiência e autonomia. Para atender à exigência de alcance mínimo de 965 km, a versão brasileira foi configurada com dois tanques subalares adicionais de 1.100 litros — solução que ampliava sua autonomia, mas reduzia a carga bélica útil disponível.
As diferenças entre as versões italiana e brasileira do AMX tornaram-se particularmente evidentes no campo da eletrônica embarcada. Os aviões destinados à Aeronautica Militare Italiana foram equipados com sistemas mais sofisticados, desenvolvidos para atender aos rígidos requisitos técnicos e operacionais da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Essas exigências refletiam o ambiente estratégico europeu da Guerra Fria, no qual a interoperabilidade e a padronização eram fundamentais para garantir a eficácia em operações conjuntas. As distinções também se estendiam ao armamento orgânico. A variante italiana recebeu o canhão rotativo norte-americano M61A1 Vulcan, de 20 mm um sistema reconhecido por sua alta cadência de tiro e amplamente utilizado em aeronaves de combate da OTAN. Em 1999, durante a Operação Forças Aliadas, no conflito do Kosovo, esquadrões italianos equipados com o AMX participaram ativamente das ações de combate, realizando 252 surtidas sem registrar qualquer perda  um desempenho que destacou a maturidade do projeto e sua confiabilidade em cenários reais de hostilidade. Em 2011, três aeronaves baseadas em Trapani, na Sicília, somaram mais de 500 horas de voo em missões durante a intervenção na Líbia, entre abril e outubro, novamente sob comando da OTAN. A experiencia operacional obtida nestes conflitos. levaria o comando da Força Aérea Italiana (Aeronáutica Militare Italiana - AMI) a estudar a implementação de um programa de modernização para suas aeronaves, visando atualizar o AMX as demandas de uma moderna arena de combate.  Este processo envolveria a modernização do sistema de navegação, instalação de nova tela multifuncional colorida compatível com sistema de visão noturna (NVG – Night Vision Goggles) e sistemas de comunicação com enlace de dados (data link). A partir de fins da década de 1990, a participação do governo italiano, no projeto norte americano JSF (Joint Strike Fighter), definia o caça multifuncional Lockheed Martin F-35 Lightning II, como futuro substituto do AMX entre os anos de 2015 e 2018. Assim, visando atender a este cronograma, a Força Aérea Italiana (Aeronáutica Militare Italiana - AMI), definiu implementar um segundo programa de atualização, permitindo assim estender a operação da aeronave até o final da década de 2020. Este programa lograria o status de plena efetividade de sua aviação de ataque, evitando ainda aos pilotos italianos, uma exposição a lacunas tecnológicas abissais entre o modelo a ser retirado de serviço e seu novo vetor. Este programa seria conhecido pela sigla ACOL (Aggiornamento delle Capacità Operative e Logistiche – Melhoria da Capacidade Operativa e Logística), com o contrato sendo celebrado no ano de 2004 com a empresa nacional Leonardo S.p.A, no valor de US$ 390 milhões, envolvendo a modernização de cinquenta e duas aeronaves (quarenta e dois monopostos e dez bipostos). O primeiro protótipo alçaria voo em setembro de 2005, com as primeiras aeronaves operacionais sendo disponibilizadas em meados do ano seguinte, com este programa sendo concluído em 2012.

Emprego na Força Aérea Brasileira
A doutrina operacional da aviação de caça da brasieira começou a tomar forma de maneira concreta durante a campanha da Itália, na Segunda Guerra Mundial. Foi naquele teatro de operações que os pilotos brasileiros, voando os robustos caças-bombardeiros Republic P-47D Thunderbolt, realizaram mais de 2.546 surtidas de combate. Além de contribuírem diretamente para o esforço aliado, esses homens estabeleceram os fundamentos de uma tradição de ataque ao solo que moldaria a identidade da Aviação de Caça nas décadas seguintes. No período pós-guerra, a FAB procurou preservar e aperfeiçoar essa experiência operacional. Diversas aeronaves foram adaptadas para cumprir missões de ataque, mas, embora competentes, não haviam sido originalmente concebidas para esse fim. Essa limitação estrutural repercutia na eficácia dos meios de combate e evidenciava a necessidade de um vetor dedicado, capaz de sustentar uma doutrina de ataque moderna e plenamente alinhada às demandas estratégicas do país. Foi nesse contexto que amadureceu, no âmbito do Ministério da Aeronáutica (MAer), o programa AMX  um projeto binacional que deu origem a uma aeronave tática especializada em missões de ataque, interdição e apoio aproximado. A introdução do Embraer A-1A AMX, no final da década de 1980, foi recebida com grande expectativa pelos comandantes da Força Aérea Brasileira (FAB). Representava, afinal, um salto qualitativo em relação aos modelos que até então sustentavam as operações de ataque. ara maximizar o potencial desse novo vetor, o Comando da Aeronáutica (COMAER) determinou a criação de uma unidade especificamente dedicada à operação do AMX: o 1º/16º Grupo de Aviação (1º/16º GAv) — Esquadrão Adelphi. Seu estabelecimento ocorreu em 22 de abril de 1988, na Base Aérea de Santa Cruz (BASC), no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, em 13 de outubro de 1989, a primeira célula operacional, o A-1A FAB 5500, foi oficialmente incorporada em cerimônia na capital fluminense. Na semana seguinte iniciaram-se os rigorosos ensaios de certificação operacional, concluídos em julho de 1990, culminando com o início das missões aéreas da nova unidade. Ao Esquadrão Adelphi foram atribuídas missões primárias essenciais: ataque a alvos de superfície, interdição do campo de batalha e apoio aéreo aproximado às forças terrestres, além de uma missão secundária de ataque aéreo estratégico. Para cumprir tais tarefas, o A-1A AMX introduziu inovações significativas no contexto da Força Aérea Brasileira (FAB). Entre elas, destacava-se o emprego de computadores de missão dedicados ao lançamento de armamentos ar-solo nos modos CCIP (Continuously Computed Impact Point) e CCRP (Continuously Computed Release Point). Essa tecnologia, otimizada para bombas não guiadas, conferia precisão substancialmente superior à obtida pelos Northrop F-5E Tiger II e pelos Embraer AT-26 Xavante, até então os principais meios de ataque. A aeronave trazia ainda atributos estruturais e eletrônicos que ampliavam sua capacidade de sobrevivência em ambientes contestados — entre eles, baixa assinatura infravermelha, reduzida seção radar e um conjunto de sistemas de autodefesa ativa e passiva. Esses elementos combinados consolidaram o A-1A AMX como um marco na modernização da aviação de ataque da FAB, fortalecendo a doutrina estabelecida desde os tempos da Segunda Guerra e projetando a Força Aérea Brasileira (FAB) para um novo patamar de capacidade tática.

Embora tenha representado um marco na evolução da capacidade de ataque da Força Aérea Brasileira (FAB), os avanços tecnológicos introduzidos pelo Embraer A-1A AMX começaram a perder protagonismo com o passar dos anos. A partir da segunda metade da década de 1990, a incorporação de novos sistemas de defesa antiaérea e o surgimento de aeronaves de combate mais sofisticadas de quarta geração reduziram progressivamente sua vantagem estratégica no cenário regional sul-americano. Tornou-se evidente que, sem um processo de atualização profunda, o A-1 AMX não conseguiria manter sua relevância operacional diante das mudanças tecnológicas em curso. Ciente desse desafio, o Comando da Aeronáutica (COMAER) iniciou, ainda no final da década de 1990, estudos voltados à definição de um programa de modernização de sua frota de A-1A AMX. Ao contrário da Aeronautica Militare Italiana (AMI), que optou por uma atualização mais restrita e conservadora de curto prazo, a Força Aérea Brasileira (FAB) buscava uma modernização ampla, capaz de estender a vida operacional da aeronave até, pelo menos, meados da década de 2030. Parte central dessa estratégia era adotar, no A-1A e A-1B AMX, a mesma suíte aviônica selecionada para os projetos Embraer A-29 ALX e Northrop F-5EM Tiger II, criando um ambiente de padronização logística e tecnológica. Essa uniformização, que incluía hardware, software e sistemas de enlace de dados, ofereceria ganhos expressivos em eficiência e redução de custos, tanto na aquisição quanto na manutenção e gestão de suprimentos. Este programa foi oficialmente instituído em 2003, com a Embraer S/A designada como contratada principal para conduzir e coordenar o processo de modernização em parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB) No entanto, entraves burocráticos no âmbito do governo federal retardaram o cronograma, exigindo uma renegociação com as empresas envolvidas no final de 2006. Somente em 30 de maio de 2007 a primeira aeronave destinada ao programa  um A-1A AMX pertencente ao segundo lote de produção  chegou às instalações da Embraer em Gavião Peixoto, no interior paulista, para iniciar os trabalhos de referência do projeto. Em novembro de 2008, a empresa israelense Elbit Systems, por meio de sua subsidiária brasileira Aeroeletrônica (AEL) Ltda., foi oficialmente contratada para fornecer a nova arquitetura aviônica. No ano seguinte, em fevereiro de 2009, foi firmado um contrato de US$ 157,6 milhões para a modernização de 43 aeronaves, contemplando também um profundo processo de revitalização estrutural. Esse esforço incluiu a substituição de componentes críticos e a incorporação de melhorias destinadas a ampliar a vida útil das células por mais duas décadas, garantindo principalmente a  resistência à fadiga acumulada durante anos de operação. O primeiro protótipo modernizado, redesignado como A-1M AMX e matriculado FAB 5526, realizou seu voo inaugural em 19 de junho de 2012. Esse marco deu início a uma extensa e decisiva campanha de ensaios em voo junto ao fabricante, consolidando o início de uma nova fase na trajetória do A-1 AMX dentro da Força Aérea Brasileira (FAB)
O eixo central do Programa de Modernização do Embraer A-1M AMX concentrou-se na profunda atualização de sua suíte eletrônica, um passo fundamental para manter a aeronave alinhada às exigências tecnológicas do combate aéreo do século XXI. Entre as melhorias mais significativas figurou a adoção do conceito HOTAS (Hands On Throttle and Stick – mãos nos aceleradores e no manche), que permitiu ao piloto operar sistemas essenciais sem desviar a atenção do voo. Complementando esse avanço, foi instalado um novo HUD (Head-Up Display) com campo de visão ampliado para 24 graus, proporcionando maior consciência situacional durante missões de ataque e navegação tática. A cabine passou a incorporar dois mostradores multifuncionais coloridos (MFCD) de 152 × 208 mm e um terceiro de 104 × 127 mm, além de receber iluminação e sistemas compatíveis com óculos de visão noturna (NVG) de terceira geração, alinhando o A-1M aos padrões internacionais de operação noturna. O pacote aviônico incluía ainda um gravador VHS-C — responsável pelo registro de vídeo e áudio das missões —, um gravador digital de dados de voo, dois computadores de missão redundantes conectados por barramento MIL-STD-1553B e um Sistema de Gerenciamento de Armamento (SMS) compatível com o padrão MIL-STD-1760C. Somava-se a isso um moderno indicador eletrônico de parâmetros de voo e motor (EICAS). Todo esse conjunto foi projetado desde sua origem para operar de maneira integrada ao visor montado no capacete DASH 4 HMD, de origem israelense, similar ao empregado na frota modernizada dos Northrop F-5M Tiger II. Além das melhorias de cabine, a modernização introduziu um novo conjunto de sensores e sistemas defensivos. O tradicional receptor de alerta radar ELT-56X foi substituído por um modelo mais avançado, oferecendo maior precisão na identificação e localização de ameaças. A aeronave também recebeu lançadores internos de chaff e flare, automatizados pelo sistema de alerta de aproximação de mísseis PAWS-2, da Elisra. No campo da navegação e aquisição de alvos, o A-1M passou a contar com um sensor NAV-FLIR instalado na parte superior do nariz, essencial para operações noturnas e em baixa altitude. Seu radar multimodo SCP-01 Scipio também foi aprimorado para oferecer maior capacidade de detecção de alvos terrestres e melhor precisão no emprego de armamentos ar-solo. Em modo ar-ar, o radar fornecia ao piloto meios eficazes para monitorar o espaço aéreo ao redor, ampliar a consciência situacional e empregar mísseis de autodefesa com maior precisão, mesmo que a defesa aérea não constituísse a missão primária da aeronave. Dessa forma, o A-1M passou a oferecer aos comandos operacionais uma alternativa viável para missões secundárias de interceptação em situações específicas. Outro aprimoramento de grande impacto operacional foi a introdução do OBOGS (On-Board Oxygen Generating System), sistema autônomo de geração de oxigênio. Ele substituiu as tradicionais esferas pressurizadas de oxigênio líquido — anteriormente instaladas na fuselagem dianteira e limitadas a poucas horas de operação — por um mecanismo capaz de produzir oxigênio gasoso continuamente em altitude. Essa mudança elevou a margem de segurança do piloto e ampliou de forma significativa a autonomia das missões, permitindo o cumprimento de perfis estratégicos de longa duração até então inviáveis.

No campo dos sistemas de armas, o Embraer A-1M AMX recebeu uma modernização substancial que ampliou significativamente sua capacidade ofensiva e defensiva. A aeronave passou a ser compatível com uma ampla gama de mísseis ar-superfície (ASM – Air-to-Surface Missile), plenamente integrados ao radar multimodo SCP-01, o que lhe conferiu maior precisão e flexibilidade em operações contra alvos terrestres. Nesse novo contexto, o A-1M tornou-se apto a empregar bombas guiadas a laser Lizard II, operando em conjunto com o casulo designador de alvos israelense Thales Litening, tecnologia que elevou seu nível de precisão a padrões internacionais. Paralelamente, passou a utilizar bombas de uso geral equipadas com o kit nacional de guiagem por satélite SMKB-82, um avanço importante para a autonomia tecnológica e a doutrina de ataque de precisão da Força Aérea Brasileira (FAB). No que se refere à autodefesa, o A-1M foi homologado para operar o míssil ar-ar de curto alcance MAA-1 Piranha, de fabricação nacional, além de outros vetores equivalentes disponíveis no arsenal da Força Aérea Brasileira (FAB). A plataforma também pôde incorporar casulos de contramedidas eletrônicas (ECM), como o Skyshield, desenvolvido pela empresa israelense Rafael Advanced Defense Systems, capaz de transformar o A-1M em uma plataforma de interferência eletromagnética em apoio a operações de guerra eletrônica. A modernização integrou uma nova suíte eletrônica que congregava rádios, sistemas de navegação e capacidade de enlace de dados (datalink), ampliando substancialmente o nível de consciência situacional dos pilotos e a interoperabilidade com outras aeronaves de combate. Adicionalmente, foi instalado um sistema de instrumentos de voo reserva (BFI – Back-Up Flight Instrumentation), concebido para garantir que a aeronave pudesse retornar com segurança mesmo em caso de pane severa ou dano provocado por fogo inimigo. Outro avanço determinante foi a adoção da gravação digital completa de todos os voos, recurso que elevou o padrão de instrução, permitindo análises detalhadas após as missões. Assim, pilotos em formação passaram a receber avaliações minuciosas de seus instrutores, enriquecendo o processo de aprendizado e reduzindo erros operacionais. O primeiro exemplar de produção modernizado, matrícula FAB 5520, foi entregue à Força Aérea Brasileira (FAB) em 3 de setembro de 2013, a tempo de integrar o exercício multinacional Cruzex Flight 2013, realizado em novembro daquele ano, oportunidade onde a aeronave apresentaria excelentes resultados operacionais, comprovando a assertividade deste programa de modernização.  À época, o programa previa a modernização de 43 células, com custo estimado em R$ 1,3 bilhão. Entretanto, em 2014, a Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC) anunciou a redução desse número de aeronaves a serem modernizadas, em razão da necessidade de priorizar, a partir de 2015, projetos estratégicos de maior impacto, como o cargueiro multimissão Embraer KC-390 Millennium e o caça Saab F-39E Gripen NG, iniciativas que juntas requeriam uma dotação orçamentária inicial de aproximadamente R$ 1,7 bilhão.
Até meados de 2015, apenas três aeronaves modernizadas haviam sido efetivamente entregues pelo fabricante, em um momento no qual o programa de atualização do A-1 AMX começava a enfrentar desafios cada vez mais severos. Pouco depois, um novo contingenciamento imposto ao orçamento do Ministério da Defesa resultaria na suspensão temporária do projeto por um período de doze meses. Essa interrupção forçou a revisão de todo o planejamento inicial, limitando o pacote de modernização a apenas 14 células  número bastante inferior ao previsto no escopo original. Diante desse cenário restritivo, o Alto Comando da Força Aérea Brasileira (FAB) adotou uma solução pragmática: manter em operação um pequeno núcleo de aeronaves não modernizadas, cerca de seis A-1A, ao passo que as demais 32 células remanescentes foram cuidadosamente preservadas em regime de armazenamento. A finalidade era clara — transformá-las em uma reserva estratégica de componentes, garantindo o fornecimento de peças de reposição e prolongando ao máximo a vida útil operacional da frota ativa. As consequências operacionais dessa redução tornaram-se evidentes em 12 de dezembro de 2016, quando ocorreu a desativação oficial do 1º/16º Grupo de Aviação (1º/16º GAv)  o tradicional Esquadrão Adelphi. Suas aeronaves A-1A e A-1M foram então transferidas para a Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, sendo redistribuídas entre o 3º/10º Grupo de Aviação (3º/10º GAv) – Esquadrão Centauro, e o 1º/10º Grupo de Aviação (1º/10º GAv) – Esquadrão Poker. Foi um momento simbólico, marcado tanto por pragmatismo administrativo quanto por um sentimento de transição inevitável dentro da FAB. Com a entrada em serviço das células modernizadas, consolidou-se a percepção de que, apesar da redução drástica do programa, os parâmetros adotados haviam sido tecnicamente sólidos. As aeronaves A-1M passaram a apresentar desempenho notavelmente superior, validando o esforço de atualizar sistemas aviônicos, capacidades de navegação, precisão de armamento e confiabilidade geral. Em síntese, mostraram-se plenamente à altura das demandas contemporâneas de ataque e reconhecimento. Entretanto, mesmo operando no estado da arte em termos de aviônica e sistemas de missão, as células modernizadas continuavam sujeitas à realidade incontornável da idade do projeto e ao desgaste estrutural acumulado ao longo de décadas. Um dos principais fatores limitantes para sua permanência no serviço ativo estava associado ao apoio logístico dos motores Rolls-Royce Spey Mk.807 — cuja manutenção passou a depender de contratos específicos com a empresa italiana Leonardo S.p.A., responsável pelo suporte técnico. Esse acordo, renovado até o início de 2026, tornou-se um elemento crítico para definir a sobrevida do vetor. No planejamento estratégico de longo prazo, imaginava-se que a aquisição de um segundo lote de caças Saab F-39E Gripen elevaria a frota para 66 aeronaves, o suficiente para restabelecer integralmente duas unidades de caça. Nesse contexto, cogitava-se inclusive a reativação do 1º/16º GAv — Esquadrão Adelphi desta vez sediado na Base Aérea de Anápolis. Contudo, restrições orçamentárias persistentes voltaram a pressionar o programa Gripen, tornando mais distante a viabilidade de um segundo lote. Diante dessa conjuntura, ao longo de 2024 ganhou força uma alternativa com a possível aquisição de aeronaves Lockheed Martin F-16 usados, provenientes dos estoques da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), dentro dos termos favoráveis do programa FMS (Foreign Military Sales). Embora tecnicamente pertencentes à chamada quarta geração, essas aeronaves poderiam preencher rapidamente a lacuna deixada pela inevitável aposentadoria dos veneráveis A-1M AMX programada para o final do ano de 2026.

Em Escala.
Para representarmos o Embraer AMX A-1M “FAB 5520” empregamos o kit em resina da escala 1/48 produzido GIIC Models , modelo este que apresenta um excelente nível de detalhamento permitindo expor os painéis internos abertos e superfícies moveis. Para se representar a versão modernizada recorremos ao uso de peças extras presentes no kit injetado da Kinetic na mesma escala. Confeccionamos em scratch os misseis Mectron MAR-1 e MAA-1B Piranha, adicionamos ainda na linha central um pod Litening NA/AA-28 em resina da Eduard. Fizemos uso de decais confeccionados pela FCM decais presente no Set 48/08.
O esquema de camuflagem tático aplicado aos Embraer A-1M AMX modernizados pela Força Aérea Brasileira (FAB), foi inicialmente implementado em 1997, e reflete uma abordagem funcional e estratégica, projetada para otimizar a sobrevivência da aeronave em cenários de combate e adaptá-la às condições operacionais do Brasil. Este esquema faz uso detintas foscas para reduzir reflexos e melhorar a camuflagem. Após a modernização, as aeronaves receberam um revestimento anticorrosivo, essencial para operações em ambientes úmidos como a Amazônia. Existiram pequenas variações referentes a aplicação das marcações exclusivas das cinco unidades que empregam o modelo.

Bibliografia :
- Revista ASAS nº20  AMX na FAB – Claudio Luchesi e Carlos Felipe Operti
- Programa AMX: da concepção à modernização- revista Forças de Defesa Nº 9
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores